{"id":59897,"date":"2021-01-31T00:23:54","date_gmt":"2021-01-31T03:23:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=59897"},"modified":"2021-02-28T00:22:16","modified_gmt":"2021-02-28T03:22:16","slug":"entrevista-luciana-souza-fala-sobre-inabitavel-curta-selecionado-para-sundance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/31\/entrevista-luciana-souza-fala-sobre-inabitavel-curta-selecionado-para-sundance\/","title":{"rendered":"Entrevista: Luciana Souza fala sobre o curta selecionado para Sundance, \u201cInabit\u00e1vel\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente est\u00e1 atrasada&#8221;. A \u00faltima frase proferida em \u201cInabit\u00e1vel\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/31\/entrevista-enock-carvalho-e-matheus-farias-falam-sobre-inabitavel-curta-selecionado-para-sundance\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">curta metragem escrito e dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias<\/a>, denota n\u00e3o somente um desfecho de sa\u00edda, de fuga para sua protagonista em um escape que flerta com a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas uma constata\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos atrasados. Atrasados como Estado, como na\u00e7\u00e3o, como pa\u00eds. Atrasados como um lugar que n\u00e3o \u00e9 ciente do poder das escolhas democr\u00e1ticas. Um lugar que n\u00e3o \u00e9 ciente das consequ\u00eancias dessas escolhas. \u00danico curta metragem brasileiro <a href=\"https:\/\/fpg.festival.sundance.org\/film-info\/5fd1746304818bcfd06493f2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">selecionado para a edi\u00e7\u00e3o 2021 do prestigiado Sundance Film Festival<\/a>, nos Estados Unidos, que segue em plataforma on line at\u00e9 a pr\u00f3xima quarta-feira, o trabalho assinado por Matheus e Enock \u00e9 um angustiante retrato de Brasil. Na hist\u00f3ria de Marilene, m\u00e3e em busca da filha desaparecida, Roberta, uma mulher trans que n\u00e3o volta para casa no dia seguinte ap\u00f3s uma festa com amigos, a sensa\u00e7\u00e3o e comprova\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a de um lugar no qual as vidas LGBT, vidas negras, vidas ind\u00edgenas, seguem ceifadas com um aval do Estado, comp\u00f5e o desespero f\u00edsico que \u00e9 constru\u00eddo com um calejar que transparece na express\u00e3o de sua protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experiente atriz dos palcos baianos, oriunda da Companhia de Teatro Popular e vasta trajet\u00f3ria no Bando de Teatro Olodum, Luciana Souza, d\u00e1 vida a Marilene, protagonista que tem em sua composi\u00e7\u00e3o a aspereza que a vida e a falta de surpresas diante de um cotidiano t\u00e3o brutal lhe servem como uma carapa\u00e7a de prote\u00e7\u00e3o. A composi\u00e7\u00e3o de Marilene por Luciana \u00e9 precisa. Atriz, diretora e educadora, Luciana tem uma estrada de mais de trinta anos de palcos, cinema e TV. Com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/10\/26\/entrevista-lazaro-ramos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bando de Teatro Olodum<\/a>, atuou em pe\u00e7as marcantes, como \u201cEssa \u00e9 a Nossa Praia\u201d, \u201c\u00d3 Pa\u00ed, \u00d3\u201d e \u201cBai Bai Pel\u00f4\u201d. Recentemente, fez parte do elenco do premiado \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/02\/cinema-bacurau-de-kleber-mendonca-filho-e-juliano-dornelles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bacurau<\/a>\u201d. Sobre \u201cInevit\u00e1vel\u201d, ela salienta a composi\u00e7\u00e3o de sua personagem a partir de uma dureza trazida pela vida que cerca aquelas personagens que o curta traz. &#8220;\u00c9 uma tem\u00e1tica dura. Eu penso que as pessoas que vivem essa realidade, elas se tornam tamb\u00e9m duras. Pode ter outras formas de se representar isso. Com certeza, tem. Mas o tema vem a apresentar muitas dessas pessoas calejadas com a doen\u00e7a da vida&#8221;, explica Luciana acerca de sua composi\u00e7\u00e3o para a dureza no semblante de Marilene diante daquela busca angustiante e sem respostas por sua filha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu ensaio de um sorriso nos \u00faltimos momentos de \u201cInabit\u00e1vel\u201d, Marilene abre para a audi\u00eancia uma possibilidade de refletir em uma esperan\u00e7a. Sim, l\u00e1 est\u00e1 a fuga. Sim, l\u00e1 est\u00e1 a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 mais futuro aqui. Mas aquele sutil sorriso traz um fio esperan\u00e7oso. Para Luciana Souza, &#8220;o filme d\u00e1 esse contorno que \u00e9 uma grande gancho. Esse contorno de uma certa esperan\u00e7a, mas de uma esperan\u00e7a que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fora daqui. De alguma forma \u00e9 at\u00e9 uma utopia. Uma utopia para esse \u00e2mbito em que vivemos. A gente n\u00e3o sabe de muitas coisas do al\u00e9m. Acho que d\u00e1 esse caminho, d\u00e1 essa esperan\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel que haja um lugar melhor para se viver&#8221;, observa a atriz e questiona: &#8220;Que lugar \u00e9 esse em que a gente vive e que \u00e9 um lugar que n\u00e3o nos pertence? \u00c9 um lugar que n\u00e3o temos o direito de exist\u00eancia? \u00c9 um lugar que n\u00e3o temos direito a coisas b\u00e1sicas? Eu acho que o filme faz essa grande den\u00fancia, sabe? Esse nome Inabit\u00e1vel \u00e9 esse lugar que n\u00e3o \u00e9 habit\u00e1vel. \u00c9 interessante voc\u00ea falar isso do &#8220;Estamos atrasadas&#8221;. Estamos atrasados, mesmo. Estamos atrasados de evolu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Estamos atrasados de sanar, de passar para outras quest\u00f5es existenciais, de sanar um tanto dessas diferen\u00e7as&#8221;, finaliza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Luciana fala acerca do trabalho com Enock Carvalho e Matheus Farias, aprofunda os aspectos da constru\u00e7\u00e3o de sua personagem, e aborda o tema principal de \u201cInabit\u00e1vel\u201d e sua defini\u00e7\u00e3o de Brasil. Confira!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/31\/entrevista-enock-carvalho-e-matheus-farias-falam-sobre-inabitavel-curta-selecionado-para-sundance\/\"><strong>Entrevista: os diretores Enock Carvalho e Matheus Farias falam de &#8220;Inabit\u00e1vel&#8221;<\/strong><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inabit\u00e1vel (Inabit\u00e1vel)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4jQr-4k9Hx0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o de sua personagem, a Marilene, tem no olhar duro, na fala direta, na postura incisiva, muito do que ela carrega em sua trajet\u00f3ria de vida calejada. Buscando por sua filha, Roberta, que est\u00e1 desaparecida, Marilene tem na sua express\u00e3o um sentimento de desesperan\u00e7a, de descren\u00e7a, uma vez que ela imagina o que pode ter acontecido. Como foi essa composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu acho que \u00e9 uma tem\u00e1tica dura. Eu penso que as pessoas que vivem essa realidade, elas se tornam tamb\u00e9m duras. Eu acho que n\u00e3o tinha&#8230; (pausa) N\u00e3o sei, pode ter outras formas de se representar isso. Com certeza, tem. Mas o tema vem a apresentar muitas dessas pessoas calejadas com a doen\u00e7a da vida. E eu penso, tamb\u00e9m, que tanto o roteiro como a dire\u00e7\u00e3o, souberam conduzir, contribuir para essa constru\u00e7\u00e3o dessa personagem muito bem. Houve ali algumas cenas at\u00e9 que n\u00e3o ficaram depois na montagem final do filme e que tinham mais di\u00e1logos. E que eu at\u00e9 gostava, sabe? Eu sou do teatro, ent\u00e3o, eu sei que a express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 via palavra, a palavra falada, mas desse trato com o texto. Ent\u00e3o, eu acho que fiquei um pouco apegada. Mas depois que eu vi o resultado do filme, eu pensei: &#8220;puxa, \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio. E esse tema \u00e9 t\u00e3o presente, t\u00e3o atual, \u00e9 uma realidade que a gente constata o tempo todo ao nosso redor.&#8221; E o filme, ele \u00e9 muito mais da imagem, ele \u00e9 muito mais do que a gente pode dizer ali no olhar, na express\u00e3o, do que aquilo que podemos emitir atrav\u00e9s da palavra. Eu trago tamb\u00e9m no meu hist\u00f3rico uma constru\u00e7\u00e3o de personagens que v\u00eam com essa caracter\u00edstica. Uma caracter\u00edstica, eu acho, de dor, de sofrimento, de doen\u00e7a, de calejo com a vida. Eu acho que isso tamb\u00e9m contribuiu. \u00c9 uma experi\u00eancia da minha trajet\u00f3ria enquanto artista, enquanto pessoa que tamb\u00e9m est\u00e1 com esse olhar para todas essas quest\u00f5es sociais. N\u00e3o quero dizer que isso se torne uma coisa simples, n\u00e3o. Porque o sofrimento, a dor, n\u00e3o s\u00e3o coisas simples. Mas eu tenho a\u00ed diante dessas realidades um grande universo para respeitar. Para me arcar diante da realidade do sofrimento. Sofrimento que a gente fala que \u00e9 que est\u00e1 ao redor, do alheio, mas que n\u00e3o. Ele nos pertence. Faz parte da vida de todos n\u00f3s. Estamos interligados de alguma forma. \u201cInabit\u00e1vel\u201c vem justamente apresentando essa hist\u00f3ria e \u00e9 interessante, pois \u00e9 em um curta que condensa ali o sofrimento e a dor de muitas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao conversar com Enock e Matheus, diretores do filme, eles me falaram acerca dessa aproxima\u00e7\u00e3o e estudo da personagem junto a voc\u00ea. Como foi esse processo com eles?<\/strong><br \/>\nQuando recebi a proposta de fazer o filme, um pouco anterior ai isso, a gente ainda ali, se conhecendo, se descobrindo, Enock e Matheus me pediram para que eu gravasse um v\u00eddeo. Eu n\u00e3o sabia exatamente qual era a hist\u00f3ria, n\u00e3o tinha o roteiro ainda, mas eles me deram algumas orienta\u00e7\u00f5es, e eu fui ali pesquisar um pouco sobre essas hist\u00f3rias de perdas, de desaparecimentos, da quest\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o da sexualidade, de como uma m\u00e3e recebe essa not\u00edcia. E a\u00ed eu fui vendo quantas hist\u00f3rias que merecem ser contadas, que merecem vir \u00e0 tona. Quantas hist\u00f3rias que merecem ter voz para que a gente possa ampliar essa discuss\u00e3o, ampliar esse debate, e trazer transforma\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m mudan\u00e7as no nosso olhar, no nosso comportamento, no nosso trato com a diversidade da vida. Porque a gente fica muitas vezes no nosso mundo, no nosso circulo, e n\u00e3o consegue ampliar essa vis\u00e3o. E n\u00e3o consegue ampliar essa&#8230;. (pausa) eu n\u00e3o diria nem toler\u00e2ncia, pois (a palavra) toler\u00e2ncia fica uma coisa como se a gente tivesse que aguentar, que suportar. Mas \u00e9 a gente se abrir para outras formas de vidas, outras realidades, e penso tamb\u00e9m que \u201cInabit\u00e1vel\u201d traz essa invisibilidade dessas camadas sociais mais populares, dessas minorias, dessa realidade de g\u00eanero que est\u00e1 se discutindo muito, e que \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9 dif\u00edcil ainda transformar essa vis\u00e3o preconceituosa que a gente tem. Ent\u00e3o, \u00e9 isso. Eu acho que s\u00e3o muito t\u00f3picos que me fazem que me alimentam para, de alguma, forma fazer a constru\u00e7\u00e3o dessa personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A respira\u00e7\u00e3o de Marilene, algo ali conciso, preso, condizente com esse olhar duro que ela traz, denota esse sentimento de ang\u00fastia, tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nEu penso que respirar, respira\u00e7\u00e3o, \u00e9 tudo, n\u00e9? E quando a gente n\u00e3o pode muitas vezes explodir, ou mesmo implodir, s\u00f3 nos resta respirar. E respirar vem da quest\u00e3o org\u00e2nica, mas \u00e9 como se a gente n\u00e3o aguentasse mais e&#8230; (pausa) A gente se cont\u00e9m tanto, se segura tanto, internalizamos tanto, guardamos tanto, que \u00e9 como se f\u00f4ssemos ali, prendendo a respira\u00e7\u00e3o. Prendendo para n\u00e3o sentir a dor. Segurando para n\u00e3o sentir essa dor. E quando isso n\u00e3o \u00e9 mais suport\u00e1vel, naturalmente vai ter que sair de alguma forma. E eu acho que as respira\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma coisa importante para o ator, para a atriz, de uma maneira geral. Quando voc\u00ea, seja em qualquer texto, em qualquer performance que se estiver fazendo, isso \u00e9 um conhecimento at\u00e9 t\u00e9cnico. A gente ir, tamb\u00e9m, nesse barco. Nessa fluidez da respira\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ela vai dizer muito mais do que talvez falar um texto. E a respira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vai ajudar na express\u00e3o. Est\u00e1 relacionado, tamb\u00e9m, com o sentimento, com o que est\u00e1 se sentindo ali. E com o que a dire\u00e7\u00e3o orienta. E a gente discute junto, se \u00e9 aquilo, se pode ser de outra maneira. Enfim, h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o, a\u00ed, mas achei bacana voc\u00ea falar desse ponto. N\u00e3o sei se eu estou respondendo dentro daquilo que voc\u00ea pensava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59899\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/INABITAVEL06-_-Creditos_-Gustavo-Pessoa.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/INABITAVEL06-_-Creditos_-Gustavo-Pessoa.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/INABITAVEL06-_-Creditos_-Gustavo-Pessoa-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, est\u00e1. O filme \u00e9 muito de olhares, muito de sutilezas. E voc\u00ea tem uma longa trajet\u00f3ria no teatro. Por isso, creio que trazer essas sutilezas da composi\u00e7\u00e3o teatral para o cinema, \u00e9 um exemplo bem espec\u00edfico para definir a personagem.<\/strong><br \/>\nSim, verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cInabit\u00e1vel\u201d possui uma mensagem urgente quanto ao o que est\u00e1 acontecendo no Brasil no que se refere ao exterm\u00ednio das vidas negras, LGBT, ind\u00edgenas. Com a ascens\u00e3o fascista disfar\u00e7ada de discursos de direita, nos quais s\u00e3o colocados muito abertamente o fato dessa direita n\u00e3o gostar de minorias. H\u00e1 frases ditas com todas silabas pelo presidente da Rep\u00fablica quanto \u00e0 minorias terem que desaparecer. E Inabit\u00e1vel traz uma resist\u00eancia. Ele fecha com um final, vamos colocar entre aspas, de &#8220;fuga&#8221;. A personagem da Roberta fala que &#8220;a gente est\u00e1 atrasada&#8221;. Que temos que sair daqui. Sua longa experi\u00eancia como atriz e educadora lhe d\u00e1 uma vis\u00e3o ampla da import\u00e2ncia da Arte como resist\u00eancia. Resist\u00eancia de todas as pessoas que enxergam o Brasil como um lugar inabit\u00e1vel.<\/strong><br \/>\nCom certeza. Eu penso que o que poderia ser previs\u00edvel no filme, quando a gente sabe do desaparecimento de algu\u00e9m, especialmente uma pessoa negra, uma pessoa trans, uma pessoa de classe popular, o previs\u00edvel seria ali no hospital, provavelmente a gente encontrar ou saber de outra forma de uma trag\u00e9dia. O previs\u00edvel seria isso. Mas a\u00ed o filme d\u00e1 esse contorno que eu acho que \u00e9 um grande gancho. Esse contorno de uma certa esperan\u00e7a. Mas de uma esperan\u00e7a que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fora daqui. De alguma forma, \u00e9 at\u00e9 uma utopia. Uma utopia para esse \u00e2mbito em que a gente vive. A gente n\u00e3o sabe de muitas coisas do al\u00e9m. Acho que d\u00e1 esse caminho. D\u00e1 essa esperan\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel que haja um lugar melhor para se viver. O que eu acho que isso representa para mim, tamb\u00e9m, que lugar \u00e9 esse em que a gente vive e que \u00e9 um lugar que n\u00e3o nos pertence? \u00c9 um lugar que n\u00e3o temos o direito de exist\u00eancia? \u00c9 um lugar que n\u00e3o nos d\u00e1 direito a coisas b\u00e1sicas? Eu acho que o filme faz essa grande den\u00fancia, sabe? Esse nome \u201cInabit\u00e1vel\u201d \u00e9 esse lugar que n\u00e3o \u00e9 habit\u00e1vel. \u00c9 interessante voc\u00ea falar isso do &#8220;A geste est\u00e1 atrasada&#8221;, Estamos atrasados, mesmo. Estamos atrasados de evolu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Estamos atrasados de sanar, de passar para outras quest\u00f5es existenciais, de sanar um tanto dessas diferen\u00e7as. Mas ainda com tanta evolu\u00e7\u00e3o, com tanta tecnologia, com tantos avan\u00e7os, mas ainda estamos ali, presos em quest\u00f5es. Isso abre para outros entendimentos. Isso me faz me pensar em globaliza\u00e7\u00e3o, em capitalismo, que ao mesmo tempo em que a gente v\u00ea&#8230; (pausa) a gente entende. Existe uma abertura de acesso para muitas coisas. Temos determinadas facilidades, mas temos tamb\u00e9m uma resist\u00eancia e uma briga contra esses acessos serem negados e sejam limitados. Ent\u00e3o, cada vez mais isso de emparedar, negar, destruir direitos, esse tratamento que se d\u00e1 \u00e0 cultura, que se d\u00e1 \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Se tem um avan\u00e7o de um lado, do outro corta-se isso. Tem uma guerra. Isso que a gente vive, essa revela\u00e7\u00e3o que a pandemia traz. Claro que, aos meus olhos e de muitos, essas diferen\u00e7as sempre estiveram, sempre foram muito claras. Principalmente lidando com a educa\u00e7\u00e3o. Estando ali nas comunidades, estando ali nas escolas p\u00fablicas. Mas a gente vive um momento em que tem uma corda que est\u00e1 tesando para que ganhos, para que valores n\u00e3o sejam mantidos. Inabit\u00e1vel em como uma esperan\u00e7a de sa\u00edda que eu acho que n\u00e3o deveria ser assim. Essa sa\u00edda para outro espa\u00e7o. Mas que talvez esse espa\u00e7o nosso&#8230; Talvez, n\u00e3o! Esse espa\u00e7o nosso merece ser de transforma\u00e7\u00e3o. Merece ser de um outro olhar. Merece baixar a guarda. Merece equipara\u00e7\u00e3o. Merece repara\u00e7\u00e3o. A gente tem uma hist\u00f3ria muito triste de coloniza\u00e7\u00e3o, de escravid\u00e3o, de ditadura, de tantas coisas que nos oprimiram, que nos oprimem.. Do imperialismo, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para o \u00fanico curta brasileiro selecionado em Sundance ser um trabalho do Nordeste, com realizadores da nossa regi\u00e3o, com uma protagonista baiana, \u00e9 um s\u00edmbolo imenso.<\/strong><br \/>\nEstar em um festival como o de Sundance, um festival independente, significa muito. O maior festival de cinema independente, eu acho que \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o muito importante. \u00c9 muito honroso para a gente poder levar esse filme para esse festival. Um evento que tem, tamb\u00e9m, esse olhar da diversidade. Que tem esse olhar das emerg\u00eancias sociais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59891\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/inabitavel.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1113\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/inabitavel.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/inabitavel-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A experiente atriz dos palcos baianos, oriunda da Companhia de Teatro Popular e vasta trajet\u00f3ria no Bando de Teatro Olodum, Luciana Souza, d\u00e1 vida a Marilene, protagonista de &#8220;Inabit\u00e1vel&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/31\/entrevista-luciana-souza-fala-sobre-inabitavel-curta-selecionado-para-sundance\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":59898,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5048],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59897"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59897"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59897\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60243,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59897\/revisions\/60243"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}