{"id":59286,"date":"2020-12-28T00:15:06","date_gmt":"2020-12-28T03:15:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=59286"},"modified":"2022-12-19T10:43:32","modified_gmt":"2022-12-19T13:43:32","slug":"meu-disco-favorito-de-2020-neil-young","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/28\/meu-disco-favorito-de-2020-neil-young\/","title":{"rendered":"Meu disco favorito de 2020: Neil Young"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #14<br \/>\n\u201cHomegrown\u201d, Neil Young<br \/>\nescolha de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><br \/>\n<\/strong><\/h2>\n<p>Artista \u2013 Neil Young<br \/>\n\u00c1lbum \u2013 \u201cHomegrown\u201d<br \/>\nLan\u00e7amento \u2013 19\/06\/2020<br \/>\nSelo \u2013 Reprise<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem possa dizer que escolher um disco gravado em meados dos anos 1970 como um favorito lan\u00e7ado em 2020 seja golpe. At\u00e9 \u00e9 verdade. Mas em um ano em que a din\u00e2mica do tempo (e do espa\u00e7o) se alterou de formas muito particulares, talvez n\u00e3o seja um truque t\u00e3o grande assim. At\u00e9 porque um dos ingredientes que fazem de \u201cHomegrown\u201d um disco em linha com a atualidade \u00e9 justamente o que aconteceu entre sua concep\u00e7\u00e3o e o tempo em que veio \u00e0 tona \u2013 tal como um vinho de guarda, ele se tornou melhor conforme envelhecia, ganhando novo corpo. Mas antes de abrir a rolha, algumas explica\u00e7\u00f5es do ma\u00eetre, por favor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHomegrown\u201d s\u00f3 \u00e9 um disco de 2020 porque ficou guardado por mais de 45 anos nas gavetas de Neil Young, tal como uma carta de amor cujo melhor destino parece ser o esquecimento. S\u00f3 parece. Originalmente gravado entre dezembro de 1974 e janeiro de 1975, o \u00e1lbum foi composto durante um per\u00edodo conturbado na vida do canadense. Ap\u00f3s se encontrar com o sucesso com o cl\u00e1ssico \u201cHarvest\u201d, de 1972, Neil se afundou em um coquetel de subst\u00e2ncias entorpecentes, dinheiro, solid\u00e3o e morte \u2013 uma receita que os f\u00e3s reconhecem em obras hoje ic\u00f4nicas, como \u201cOn the Beach\u201d (1974) e \u201cTonight\u2019s the Night\u201d (1975), gravados mais ou menos na mesma \u00e9poca. A essa f\u00f3rmula, \u201cHomegrown\u201d adiciona ainda mais um ingrediente: um cora\u00e7\u00e3o partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criadas na estrada, muitas vezes dentro do trailer que o levava pelos EUA em uma turn\u00ea milion\u00e1ria e indulgente do quarteto Crosby, Stills, Nash &amp; Young (produzida por ningu\u00e9m menos que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/12\/23\/o-livro-obrigatorio-numero-1-sobre-rock\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bill Graham<\/a>), as can\u00e7\u00f5es de \u201cHomegrown\u201d revelam o deterioramento do namoro de Young com a atriz Carrie Snodgress. N\u00e3o era um relacionamento simples: al\u00e9m das incertezas comuns a um casal do showbiz, ainda havia a vida na estrada de Neil, a carreira abandonada de Carrie para ser m\u00e3e e o filho dos dois, Zeke, que havia nascido em 1972 com paralisia cerebral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEra um disco muito pessoal\u2026 e isso me assustou\u201d, disse o canadense <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/14\/dvd-quase-famosos-por-marcelo-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ao ent\u00e3o rep\u00f3rter (de 18 anos) Cameron Crowe<\/a>, em entrevista \u00e0 americana Rolling Stone em 1975, ao explicar porque n\u00e3o havia lan\u00e7ado \u201cHomegrown\u201d. O \u00e1lbum chegou a estar pronto para sair, com capa e tudo, mas Neil Young decidiu tirar o p\u00e9 do acelerador. Em seu lugar, veio ao mundo \u201cTonight\u2019s the Night\u201d, gravado originalmente em 1973. Segundo a lenda, o conselho veio de Rick Danko, baixista da The Band, que ouviu os dois discos em uma festa \u00edntima (com trilha\u2026 animada, hein?) na casa de Young na \u00e9poca. E \u201cHomegrown\u201d foi engavetado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte do material acabou aparecendo aqui e ali ao longo da carreira do canadense, com algumas m\u00fasicas registradas em colet\u00e2neas e apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Carrie, por sua vez, morreu em 2004. Mas foi s\u00f3 em junho de 2020 que \u201cHomegrown\u201d pode ser ouvido como planejado, como um tira-gosto da caixa \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Neil_Young_Archives_Volume_II:_1972%E2%80%931976\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Neil Young Archives, vol.II (1972-1976)<\/a>\u201d, lan\u00e7ada em novembro \u00faltimo e cheia de rel\u00edquias para os aficionados por tio Neil \u2013 como eu. Tamb\u00e9m pudera: s\u00f3 a ideia de um disco \u201cperdido\u201d j\u00e1 parecia saborosa demais. Descrito pelo pr\u00f3prio autor como \u201co elo perdido entre \u2018Harvest\u2019, \u2018Comes a Time\u2019, \u2018Old Ways\u2019 e \u2018Harvest Moon\u2019\u201d, quatro dos discos da linhagem folk de Young, ent\u00e3o, \u201cHomegrown\u201d ganhou notas de ansiedade antes mesmo da rolha ser aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas este n\u00e3o \u00e9 um disco de brindes \u2013 est\u00e1 mais para aquela ta\u00e7a dividida com um amigo pr\u00f3ximo no balc\u00e3o, j\u00e1 no fim de noite. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a primeira frase do disco \u00e9 \u201ceu quero pedir desculpas\u201d. E enquanto pode se acusar Neil Young de muitas coisas, falta de sinceridade n\u00e3o \u00e9 uma delas: \u201cHomegrown\u201d registra em can\u00e7\u00f5es a sensa\u00e7\u00e3o bastante pessoal de quem fica perdido ap\u00f3s o fim de um relacionamento, contemplando a vida solo (\u201cSeparate Ways\u201d), o que poderia acontecer com mais esfor\u00e7o de ambas as partes (\u201cTry\u201d) ou at\u00e9 mesmo certo escapismo diante do desconforto (\u201cMexico\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas elas, chama a aten\u00e7\u00e3o o quanto Young est\u00e1 despido e solit\u00e1rio, mesmo quando acompanhado por amigos como Emmylou Harris, Levon Helm e Robbie Robertson \u2013 os dois \u00faltimos, voc\u00ea sabe, da The Band. Al\u00e9m do trio estelar, que aparece em poucas faixas, Young tamb\u00e9m \u00e9 acompanhado na maior parte do disco pelo produtor e escudeiro Ben Keith e pelo baixista Tim Drummond. Mas isso pouco importa. Ouvir \u201cHomegrown\u201d \u00e9 como andar pelos escombros de uma rela\u00e7\u00e3o com um guia extremamente envolvido \u2013 mas n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tivesse sido lan\u00e7ado originalmente nos anos 1970, como planejado, talvez \u201cHomegrown\u201d n\u00e3o mudasse muito a carreira de Neil Young \u2013 n\u00e3o h\u00e1 no disco nenhum hit evidente, nem nenhuma grande mudan\u00e7a est\u00e9tica. Seria tido como mais um de seus grandes discos da \u00e9poca, naquela que \u00e9 provavelmente sua fase mais admirada. Mas, ao sair em 2020, e, especialmente em meio ao per\u00edodo de isolamento social, ele ganhou novos contornos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passadas quatro d\u00e9cadas, a dor de um relacionamento partido se transforma em algo maior: a celebra\u00e7\u00e3o e o respeito por aquilo que se viveu. \u00c9 um exerc\u00edcio que cometi bastante nesse ano esquisito. Sozinho no quarto e ansioso pelo futuro, optei por revisitar o passado em meio a pesadelos, manchetes ruins e dias frios, buscando encontrar algum sentido no que ficou pra tr\u00e1s. Como diria uma velha can\u00e7\u00e3o, \u201cno fundo desse po\u00e7o, achei algo que vale a pena\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como o \u00e1lbum, passar por essa experi\u00eancia talvez n\u00e3o fa\u00e7a tanta diferen\u00e7a no futuro pr\u00f3ximo \u2013 afinal, novos erros est\u00e3o a\u00ed para serem cometidos. Mas estar em acordo com o que ficou para tr\u00e1s \u00e9 um bom passo adiante, para quando o mundo puder ser visto novamente para al\u00e9m de uma tela, uma janela e com sorrisos sem m\u00e1scaras. \u00c9 uma met\u00e1fora besta, mas a inspira\u00e7\u00e3o vem, mais uma vez, da pr\u00f3pria carreira de Neil Young: mais do que um elo perdido entre os discos folk, \u201cHomegrown\u201d tamb\u00e9m explica como o canadense consegue saltar de uma fase obscura para as guitarras-solares-e-can\u00e7\u00f5es-sobre-seguir-em-frente de \u201cZuma\u201d, tamb\u00e9m gravado naquela \u00e9poca e lan\u00e7ado no final de 1975. E essa explica\u00e7\u00e3o pode servir como um exemplo para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos per\u00edodos que mais revisitei neste ano, sozinho no escuro do meu quarto, foi o do come\u00e7o da faculdade \u2013 uma \u00e9poca em que, em meio a \u00e1lcool de baixa fidelidade, (falta de) experi\u00eancias sexuais e rela\u00e7\u00f5es esquisitas, muitas vezes perdi o norte do que estava acontecendo. Muitas vezes, eu voltava para casa no primeiro \u00f4nibus da Via\u00e7\u00e3o Padre Eust\u00e1quio tentando entender o que havia rolado ao longo da noite anterior. Era tudo muito confuso, mas um verso escrito no \u00f4nibus (j\u00e1 disse que era uma via\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica?) ajudava a me acalmar: \u201co choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descobri anos depois que se tratava de um salmo, o que n\u00e3o combina exatamente com a minha natureza c\u00e9tica. Mas, ouvindo \u201cHomegrown\u201d, achei um substituto ideal para ele \u2013 e pude entender que o que deu errado no passado hoje merece carinho, afinal, foi o que me trouxe at\u00e9 aqui. Pode ser que ainda leve um tempo para a manh\u00e3 do nosso tempo chegar, mas at\u00e9 l\u00e1, vale ouvir mais uma vez o \u201chomem velho\u201d. Sa\u00fade, amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 f\u00e3 de Neil Young desde crian\u00e7a e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010. Nas horas vagas, \u00e9 apresentador do <a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na R\u00e1dio Eldorado, e autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Raios-trov%C3%B5es-hist%C3%B3ria-fen%C3%B4meno-R%C3%A1-Tim-Bum\/dp\/8532311385\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Raios e Trov\u00f5es \u2013 A hist\u00f3ria do fen\u00f4meno Castelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Neil Young - Separate Ways (Official Audio)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TSScq4DI-R8?list=OLAK5uy_kE38_oOjWx6uwQZDL0zoniiXmpcink_OA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Neil Young - Homegrown (Vinyl Unboxing)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YyXX7WWc8z4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Neil Young - Homegrown (Barnyard Edition)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ogUdAHSU2y4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/favorito2020\/\" rel=\"noopener\"><strong>TODOS OS DISCOS FAVORITOS DE 2020 EST\u00c3O AQUI<\/strong><\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 quem possa dizer que escolher um disco gravado em meados dos anos 1970 como um favorito lan\u00e7ado em 2020 seja golpe. 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