{"id":59244,"date":"2020-12-24T10:05:00","date_gmt":"2020-12-24T13:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=59244"},"modified":"2021-02-11T16:18:29","modified_gmt":"2021-02-11T19:18:29","slug":"entrevista-criaturas-ou-o-rock-encontra-a-maturidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/24\/entrevista-criaturas-ou-o-rock-encontra-a-maturidade\/","title":{"rendered":"Entrevista: Criaturas lan\u00e7a &#8220;Vest\u00edgios&#8221; ou o rock encontra a maturidade"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>&nbsp;<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez maturidade e rock pare\u00e7am elementos inconcili\u00e1veis para quem tem uma vis\u00e3o superficial do g\u00eanero. Ou talvez essa seja uma associa\u00e7\u00e3o mais pertinente ao rock brasileiro, j\u00e1 que pouqu\u00edssimos artistas mainstream do estilo tenham conseguido envelhecer sem abandonar a eterna adolesc\u00eancia, apegando-se a can\u00e7\u00f5es de amor banal, regatinhas justas ou o kit b\u00e1sico de clich\u00eas do g\u00eanero. Felizmente, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es not\u00e1veis a esse cen\u00e1rio entre artistas menos conhecidos, e o quinteto curitibano <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bandacriaturas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Criaturas<\/a> soma-se a esse grupo com louvor com \u201cVest\u00edgios\u201d, seu primeiro lan\u00e7amento em 11 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundada em 2003 por Xanda Lemos (voz e guitarra) e pelos irm\u00e3os Bruno e Caetano Zagonel (bateria e baixo, respectivamente), a banda teve algumas flutua\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o e embarcou numa onda mod punk bem cara \u00e0 cena da capital paranaense na \u00e9poca. \u201cLugares Comuns\u201d, de 2005, reflete bem esse momento. J\u00e1 \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/1q09oM3eiTKcOghoLhacaa?si=jz0tOG4ZSLuc4RptEeWJ6w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Sexto Dedo<\/a>\u201d (2009) tem uma ponte entre MPB e o rock sessentista que por vezes funciona, por vezes soa incompleto. \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/1q09oM3eiTKcOghoLhacaa?si=jz0tOG4ZSLuc4RptEeWJ6w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vest\u00edgios<\/a>\u201d (2020) \u00e9 um animal de outra esp\u00e9cie, com uma resolu\u00e7\u00e3o musical superior aos lan\u00e7amentos anteriores e a muito do que tem sido feito a partir de guitarras no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco traz cinco can\u00e7\u00f5es onde a psicodelia \u00e9 um elemento presente, por\u00e9m jamais dominante, em meio \u00e0 concis\u00e3o pop. H\u00e1 espa\u00e7o para delicadezas, sil\u00eancios e passagens uptempo; cabem, ainda, percuss\u00f5es e flautas, letras em tr\u00eas idiomas diferentes e uma po\u00e9tica direta, solar mesmo quando fala de temas mais obscuros. As mesmas cinco can\u00e7\u00f5es s\u00e3o reapresentadas no disco em vers\u00e3o instrumental, e o \u00e1lbum deve ser lan\u00e7ado em vinil em breve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o do disco ocorreu em grande parte nos Estados Unidos onde Xanda e Bruno Zagonel, seu marido, residem desde 2009. Mesmo n\u00e3o morando no estrangeiro, Caetano tamb\u00e9m participou ativamente do \u00e1lbum, que foi completado em est\u00fadio com a incorpora\u00e7\u00e3o dos sobrinhos de Xanda, os irm\u00e3os Yan e Yuri Lemos, nas guitarras. Xanda \u201crecebeu\u201d o Scream &amp; Yell em sua casa via teleconfer\u00eancia, em intervalo entre suas responsabilidades como doutoranda em Hist\u00f3ria e m\u00e3e \u2013 dois aspectos de sua vida que influenciam bastante no disco. A conversa foi al\u00e9m de \u201cVest\u00edgios\u201d e passou pelos temas de maturidade, maternidade e mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Criaturas - Sunday (Official Video) [2020]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bbNy14fYYXY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 muito tempo a Criaturas \u00e9 uma banda adequada a essa caracter\u00edstica \u201cremota\u201d da qual tanto se fala nesses tempos de Covid-19. Isso ajudou voc\u00eas a lidar com o fato de o disco n\u00e3o ter circulado em turn\u00ea, ou isso \u00e9 algo que nem incomoda voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o nos incomoda. O tanto que o disco j\u00e1 andou, j\u00e1 conseguimos mais de 20 mil streamings, tem can\u00e7\u00f5es que est\u00e3o tocando em r\u00e1dios aqui [nos EUA] e a\u00ed [no Brasil]. Mas sobre isso de trabalharmos \u00e0 dist\u00e2ncia: a gente entrou na cena numa \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o, era MySpace, Orkut, o come\u00e7o dos anos 2000. E quando eu e o Bruno viemos para c\u00e1 em 2009, lan\u00e7amos \u201cO Sexto Dedo\u201d. Esse sim ficou completamente estancado. N\u00e3o usamos as m\u00eddias para divulg\u00e1-lo como se deveria. Est\u00e1vamos nos adaptando a uma nova cultura, eu estava iniciando o meu mestrado, e tudo isso demanda uma grande energia. \u201cVest\u00edgios\u201d est\u00e1 alcan\u00e7ando agora um espa\u00e7o muito maior que eu imaginei. Foi uma surpresa em v\u00e1rios sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco nasceu de uma maneira bastante imprevista, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. Quando fomos pro Brasil pela \u00faltima vez, n\u00e3o pens\u00e1vamos em gravar. T\u00ednhamos grava\u00e7\u00f5es caseiras, as quais mostramos pro Marcelo Crivano (do selo Volts) e ele disse que seria o primeiro lan\u00e7amento do selo. Foi muito inusitado, mas veio muito a calhar. A gente j\u00e1 tinha falando com meus sobrinhos, o Yan e o Yuri Lemos, sobre fazer alguns revivals do Criaturas, ent\u00e3o j\u00e1 tinha algo meio que preparado. Conseguimos tempo s\u00f3 no Carnaval de 2019: ficamos cinco dias enfurnados dentro do est\u00fadio, enquanto todo mundo pulava (risos). O resultado ficou muito acima do que n\u00f3s esper\u00e1vamos. Foi feito com muito profissionalismo, num est\u00fadio muito bom (Nico&#8217;s Studio), com produ\u00e7\u00e3o do Bruno Sguissardi, um grande m\u00fasico que est\u00e1 se revelando um excelente produtor. E a gente ainda teve a felicidade de masterizar com o JJ [Golden], que \u00e9 um cara da Calif\u00f3rnia que faz muitas mixagens para a Daptone (nota: selo de soul, funk e r&amp;b que lan\u00e7ou Sharon Jones, Charles Bradley, The Sugarmen 3 e outros). Entramos em contato e ele topou fazer de boa. A qualidade sonora desse EP ficou muito superior a qualquer coisa que gravamos em nossa carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tem uma diferen\u00e7a na qualidade de composi\u00e7\u00e3o. O \u201cLugares Comuns\u201d tem umas coisas quase punk, \u201cO Sexto Dedo\u201d tem um lado diferente, mais pr\u00f3ximo do que se tem hoje no \u201cVest\u00edgios\u201d, mas ainda \u00e9 distante do resultado desse EP. Nesse, voc\u00eas dilapidaram muito as possibilidades de cada can\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ando no que elas poderiam oferecer sem jamais alienar o ouvinte. O que voc\u00ea acha que contribuiu para essa particularidade do disco?<\/strong><br \/>\nAs m\u00fasicas mostram mesmo uma outra faceta, mas ao mesmo tempo resgatam muito do que j\u00e1 foi o Criaturas em outros momentos da exist\u00eancia. Parte disso \u00e9 porque essas m\u00fasicas foram sendo produzidas entre 2015 e 2019, tivemos muito tempo para trabalhar os arranjos. Tanto que os arranjos do disco s\u00e3o muito fi\u00e9is ao que desenhamos aqui em casa. Os meninos (Yan e Yuri) contribu\u00edram com muita coisa, \u00e9 \u00f3bvio, deram muita ideia legal. Tem uma ponte que tem dois solos em \u201cSunday\u201d, ela veio quando Bruno Sguissardi notou que a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha uma parte C, ent\u00e3o fomos pra um f\u00e1, uma relativa do acorde. Foi toda uma coisa colaborativa com o Bruno e com o Yan e o Yuri, que tamb\u00e9m s\u00e3o produtores e m\u00fasicos muito dedicados. Agora, a diferen\u00e7a do \u201cLugares Comuns\u201d pro \u201cSexto Dedo\u201d tem a ver com esse esmero que demos \u00e0s m\u00fasicas. O \u201cLugares Comuns\u201d foi praticamente ao vivo, gravado em uma tarde de est\u00fadio. J\u00e1 \u201cO Sexto Dedo\u201d levou quase um ano. O \u201cVest\u00edgios\u201d foi gravado em cinco dias, mas levamos quase quatro anos trabalhando nas can\u00e7\u00f5es. E tem outra coisa: a gente nasceu muito influenciado por Mutantes, Kinks, eu n\u00e3o usava nem guitarra no come\u00e7o, tocava viol\u00e3o (risos). A\u00ed o Rafa [Rodrigues, guitarrista] entra e vem com uma refer\u00eancia forte do punk, que influenciou muito o primeiro EP. Mas em 2007 ele saiu da banda, e o punk rock meio que saiu junto com ele. Al\u00e9m disso, o produtor era o Fred Teixeira, muito mais da praia da MPB que do rock. O disco tem bastante guitarra, mas puxa muito para minha veia MPB e menos para a veia rock da banda em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual \u00e9 a de \u201cOmalola\u201d? Imagino que j\u00e1 tenham te perguntado sobre ela, mas a vers\u00e3o de voc\u00eas impressiona, e realmente me intriga uma releitura de uma can\u00e7\u00e3o do folclore nigeriano.<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica simplesmente entrou na nossa vida de uma forma muito impactante. Chegamos em Atlanta em 2015 e eu estava gr\u00e1vida de sete meses. O Anthony nasceu com uma cardiopatia muito grave, e como a di\u00e1ria na UTI era muito cara, o m\u00e9dico recomendou que o troux\u00e9ssemos para casa com o cilindro de oxig\u00eanio, v\u00e1rios cuidados. Para isso, tivemos que assinar um documento atestando que ir\u00edamos contratar uma enfermeira que iria diariamente ver a evolu\u00e7\u00e3o do quadro dele em nossa casa. N\u00f3s ligamos para uma empresa, que enviou essa mulher chamada Omalola. Era uma mulher negra, com tr\u00eas cicatrizes grandes na bochecha, e eu queria saber mais sobre aquilo, mas n\u00e3o queria ser invasiva. Perguntei de onde ela vinha, e ela me contou que nasceu na Nig\u00e9ria e veio para New Jersey com sete anos. Ela ficou um m\u00eas com a gente e acabou ficando mais amiga. Ela cuidava do meu filho e de mim \u2013 eu tive depress\u00e3o p\u00f3s-parto, eu n\u00e3o tinha leite e ela me ajudou a amamentar. Eu n\u00e3o tenho palavras para descrever o que essa mulher representa na minha vida. Quando o Anthony ganhou alta do cardiologista, pedi pra Omalola gravar uma m\u00fasica da inf\u00e2ncia dela. Eu queria ter algo dela para poder gravar no meu celular para ter um jeito de me lembrar dela e tamb\u00e9m para cantar pro Anthony uma m\u00fasica da Omalola. A\u00ed ela me gravou esse voice memo com uma can\u00e7\u00e3o em iorub\u00e1 sobre o que fazer para deixar uma crian\u00e7a feliz. \u201cOmalola\u201d \u00e9 tamb\u00e9m uma palavra que remete \u00e0 \u201ccrian\u00e7a\u201d. A m\u00fasica fala em dan\u00e7ar com a crian\u00e7a, \u00e9 quase uma can\u00e7\u00e3o de ninar. Ela abre o voice memo falando \u201cthis is Omalola\u201d e foi o sample disso que a gente colocou na can\u00e7\u00e3o. O Caetano, meu cunhado, estava aqui, conheceu o sobrinho rec\u00e9m-nascido, e logo prop\u00f4s fazer uma vers\u00e3o dessa m\u00fasica. Come\u00e7amos a ouvir muita m\u00fasica nigeriana, principalmente Fela Kuti, para entender a estrutura e construir as linhas de baixo e percuss\u00e3o da m\u00fasica. A m\u00fasica dele tem muitos sopros, tamb\u00e9m, mas optamos por nos concentrarmos nas camadas de percuss\u00e3o. Mas as percuss\u00f5es que gravamos aqui ficaram horr\u00edveis, porque nenhum de n\u00f3s manja disso. Quando o Caetano voltou para o Brasil, botou a m\u00fasica na m\u00e3o do Gui Mi\u00fado e da Mari Zib\u00e1h, que tocam na Central Sistema de Som. Eles fizeram a linha percussiva e a de flauta, respectivamente. \u00c9 uma m\u00fasica tricontinental: nasce na mem\u00f3ria de uma nigeriana que canta com sotaque americano, foi pr\u00e9-produzida nos EUA e gravada no Brasil. Essa m\u00fasica me deixou com a pulga atr\u00e1s da orelha, porque \u00e9 dif\u00edcil saber o que \u00e9 apropria\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 aprecia\u00e7\u00e3o; E estamos em tens\u00e3o racial muito forte em pleno s\u00e9culo XXI, o momento hoje \u00e9 muito diferente de 2015. A relev\u00e2ncia dessa m\u00fasica tomou outras propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 revolucion\u00e1ria em v\u00e1rios sentidos: lembra a revolu\u00e7\u00e3o tricontinental do Che Guevara, e marca esteticamente essa coletividade que existe em algumas partes da \u00c1frica que n\u00e3o foram totalmente ocidentalizadas. Por outro lado, a conex\u00e3o dela conosco \u00e9 muito forte: eu e o Bruno est\u00e1vamos nascendo como m\u00e3e e pai, depois vivenciando isso de vir para casa e deixar o filho no hospital, e depois ter esse momento em que a Omalola nos ajudou tanto. A m\u00fasica come\u00e7a com o batimento card\u00edaco do Anthony ainda na minha barriga, mas ela n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica nossa, nem da Omalola, ela representa algo muito maior e espero que as pessoas n\u00e3o a interpretem como uma apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas chegaram a fazer alguma apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo nesse per\u00edodo aqui no Brasil?<\/strong><br \/>\nFizemos uns revivals com as m\u00fasicas que a galera j\u00e1 sabe cantar, e tocamos \u201cVanity\u201d e duas m\u00fasicas novas minhas, mas nada de \u201cVest\u00edgios\u201d, curiosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quando voc\u00ea voltou, se deparou com alguma banda curitibana que chamou tua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nTeve o Wi-Fi Kills, que \u00e9 uma banda do Chucrobilly Man com a Babi na bateria. A outra banda nova da Babi, Cigarras, eu achei maravilhoso. Mas n\u00e3o vi muitos shows, porque nessa temporada brasileira fiz muitas viagens ligadas ao meu mestrado, fui pesquisar registros hist\u00f3ricos em S\u00e3o Paulo, Recife&#8230; Quando voltava para Curitiba, queria ficar com meu filho, ent\u00e3o n\u00e3o sa\u00eda muito. Mas fiz quest\u00e3o de ver as Cigarras, sou muito f\u00e3, mesmo. Meu sobrinho Yan toca no Escambau, que eu gosto tamb\u00e9m, mas minha praia \u00e9 mais Cigarras e Wi-Fi Kills.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao \u201cVest\u00edgios\u201d: ele \u00e9 um disco de \u201crock para adulto\u201d, algo que me parece faltar no Brasil. Sei que soa engra\u00e7ado pensar em \u201crock adulto\u201d j\u00e1 que o estilo \u00e9 juvenil desde o nascimento. Por\u00e9m, o rock anglo ou mesmo o de pa\u00edses como Argentina e Uruguai tem um universo gigante de autores que tratam de um universo mais maduro, de temas menos urgentes. Eu vejo o \u201cVest\u00edgios\u201d como um disco bem maduro nesse sentido, e, como eu disse, s\u00e3o poucos os que fazem isso no Brasil. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o do rock com esse mito de juventude eterna?<\/strong><br \/>\nO rock \u00e9 um espa\u00e7o para discutir qualquer coisa de qualquer fase da vida. Como ele foi criado com a coisa meio rebelde dos anos 1950, essa est\u00e9tica ficou muito associada ao estilo. Por outro lado, voc\u00ea v\u00ea que os Beatles come\u00e7aram bem juvenis e tiveram uma evolu\u00e7\u00e3o rapid\u00edssima. David Bowie fazia rock e n\u00e3o falava s\u00f3 de festas, juventude e rebeldia. Ele trazia quest\u00f5es existenciais muito profundas. Concordo contigo: muitas das coisas que escutei de rock brasileiro quando eu estava em Curitiba me faziam sentir como se eu estivesse nos anos 2000 (risos). A galera ainda estava falando das mesmas coisas, e isso pra mim \u00e9 um apego bobo. Se voc\u00ea perguntar pros meus sobrinhos se rock \u00e9 m\u00fasica de jovem, eles v\u00e3o dizer que n\u00e3o, que \u00e9 m\u00fasica de velho (risos). Cada um fala e canta o que quiser, mas o que falta em geral no Brasil \u00e9 conte\u00fado. As pessoas n\u00e3o leem muito. Caras como Tom Waits, Nick Cave, eles devoram livros, filosofias, e d\u00e1 para voc\u00ea ouvir isso na m\u00fasica deles. No meu caso, a maturidade veio depois da maternidade, depois de 2015. Porque eu virei uma outra pessoa. Eu n\u00e3o sou mais aquela roqueira maluca que fundou os Criaturas. Sou uma m\u00e3e, uma pessoa que est\u00e1 fazendo doutorado, que leu muito. N\u00e3o digo que tento colocar filosofia em minha m\u00fasica, mas quando canto sendo sincera comigo, a m\u00fasica reflete essa mudan\u00e7a, essa maturidade. \u201cR\u00e9quiem\u201d mesmo \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre envelhecer, e n\u00e3o \u00e9 nada profunda, \u00e9 sobre uma m\u00e3e que est\u00e1 ficando careca (risos)&#8230; Ainda assim, tenho orgulho de falar que as m\u00fasicas que toquei nos revivals n\u00e3o me deram vergonha, nem \u201cBianca\u201d, que \u00e9 toda bobinha. Mesmo tendo ingenuidade, \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que trata de quest\u00f5es de auto-imagem que toda mulher passa. Mas realmente, muitas das coisas que ouvi recentemente me fizeram pensar porque as pessoas n\u00e3o crescem ou n\u00e3o refletem sobre esse momento novo da vida. E parte disso acho que vem porque h\u00e1 pessoas que se recusam a amadurecer. Tem muito cara grande por a\u00ed que \u00e9 piaz\u00e3o de bosta. Mas tem ouvintes para tudo, e a gente tem que cantar, produzir e compor as can\u00e7\u00f5es que refletem nossa exist\u00eancia. O rock sempre foi muito antidemocr\u00e1tico em v\u00e1rios aspectos, e n\u00e3o quero praticar esse autoritarismo (risos). Ent\u00e3o, cada um cante o que quiser.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sunday\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hoH-XEuz2RA?list=PL5FS7nqpMuxCIftGFZyloUMdtcDBYEFCa\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Criaturas \u2013 Lugarres Comuns (Videoclipe 2006)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/osMQ-1zty44?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Criaturas - EP (Curitiba 2004)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AVcUZYzjEEo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Criaturas - Lugares Comuns (EP 2005)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ckeUesfICEM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00d3culos Escuros\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B0dy9CPZ-VM?list=OLAK5uy_m-6Q_RjLuXAIXp-QS8G8oEwadKgtfDDBk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Criaturas chega ao seu segundo \u00e1lbum, &#8220;Vestigios&#8221;, combinando psicodelia e concis\u00e3o pop com uma po\u00e9tica direta, solar mesmo quando fala de temas mais obscuros. Conhe\u00e7a!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/24\/entrevista-criaturas-ou-o-rock-encontra-a-maturidade\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":59245,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5027],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59244"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59244"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":59248,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59244\/revisions\/59248"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}