{"id":59181,"date":"2020-12-21T00:02:22","date_gmt":"2020-12-21T03:02:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=59181"},"modified":"2021-02-22T12:17:42","modified_gmt":"2021-02-22T15:17:42","slug":"entrevista-os-almeida-cacoam-do-bolsonarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/21\/entrevista-os-almeida-cacoam-do-bolsonarismo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Os Almeida ca\u00e7oam do Bolsonarismo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>&nbsp;<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Almeida<\/a> s\u00e3o a trilha sonora do apagamento dos raios f\u00falgidos, da flacidez do bra\u00e7o forte, da perturba\u00e7\u00e3o das margens pl\u00e1cidas do Ipiranga. Tamb\u00e9m podem ser definidos como um <a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/os-almeida-ficam-em-casa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">projeto musical lo-fi<\/a> com muita coragem, poucos limites e total avers\u00e3o \u00e0quilo que os anos recentes consagraram como um comportamento de gente \u201cde bem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz (voz) e Andr\u00e9 Pagnossim (voz e todos os instrumentos) s\u00e3o amigos h\u00e1 muitos anos. Uma parte desses anos foi usada registrando can\u00e7\u00f5es em um gravador Tascam de fita cassete quatro pistas. Como nem sempre estavam morando na mesma cidade, esses n\u00f4mades paulistas aproveitavam algumas madrugadas de reencontro para fazer can\u00e7\u00f5es de baix\u00edssima fidelidade. O primeiro lan\u00e7amento, um EP de cinco faixas, foi parar no finado site Trama Virtual e tinha can\u00e7\u00f5es tolinhas sobre amigos e bobagens. Depois foram se arriscando por mares mais barulhentos e experimentais e, nas voltas que o mundo d\u00e1, entraram at\u00e9 nas recomenda\u00e7\u00f5es do quadrinista e escritor Warren Ellis (nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o parceiro musical de Nick Cave a n\u00e3o ser o comprimento da barba).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem sempre a vida permite a simples fluidez. \u00c0s vezes, algum miliciano vai parar no maior cargo executivo de um pa\u00eds, personificando a trucul\u00eancia, a soberba e o orgulho de ser violento de uma popula\u00e7\u00e3o. Em casos assim, alguma rea\u00e7\u00e3o acontece. Ferraz e Pagnossim tiveram l\u00e1 sua cota de rea\u00e7\u00f5es, e uma delas foi a de mudar o tom da banda para algo bem mais pol\u00edtico e contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/os-almeida-ficam-em-casa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Almeida Ficam em Casa<\/a>\u201d \u00e9 o primeiro \u00e1lbum depois de muitos EPs. Foi feito durante os primeiros meses da intermin\u00e1vel pandemia do coronav\u00edrus, com cada m\u00fasico gravando as partes de suas respectivas casas e usando um microfone de R$ 30 ligado diretamente no computador. Musicalmente, cada faixa saiu em um estilo (o teaser abaixo funciona como uma bula, digamos) e, liricamente, n\u00e3o se economizou na acidez para comentar a trucul\u00eancia que grassa nessa terra em que se devastando tudo d\u00e1.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Os Almeida Ficam em Casa\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tNMHBGMD450?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVamos botar fogo na floresta \/ Enquanto o povo trope\u00e7a \/ Nos corpos de suas fam\u00edlias \/ Juntos a tra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia \/ Para matar de outra mol\u00e9stia \/ Quem sobrar da pandemia\u201d. Em duas estrofes do power folk \u201cPassa Boi\u201d, Os Almeida j\u00e1 d\u00e3o conta de falar do Ministro do Desmat&#8230;. ops, do Meio Ambiente Ricardo Salles e do desgoverno genocida durante a pandemia do coronav\u00edrus. Mas essa \u00e9 s\u00f3 a faixa de abertura, porque logo vem \u201cA Marcha do Chocolate\u201d, em que, festivos como poucas vezes foram, cantam: \u201cA pol\u00edcia t\u00e1 ganhando bem demais \/ Abaixa o sal\u00e1rio da pol\u00edcia! \/ Se um PM tem 21 mil reais \/ Pra comprar chocolate da mil\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nesse tom segue o disco, com alvos muito claros, ainda que n\u00e3o nomeados diretamente, com direito a hard rock, samba, \u201cGabinete do Trance\u201d (com a impag\u00e1vel letra tirada dos lis\u00e9rgicos tweets do amigo mais \u00edntimo de Leo \u00cdndio), hip hop inspirado pela escola de Chicago (aquela de economistas mesmo), um \u00e9pico sertanejo sobre a hist\u00f3ria de um jovem com \u201cboca de disquete\u201d que vira paladino da justi\u00e7a num pa\u00eds que desconhece coletivamente o conceito de \u201cjusto\u201d&#8230; enfim, uma festa em cima das cinzas que sobraram do lan\u00e7a-chamas reacion\u00e1rio que incendeia o pa\u00eds. O ataque guarda semelhan\u00e7a com a <a href=\"https:\/\/turbaviolenta.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Turba Violenta<\/a>, banda punk de Campinas da qual Ferraz \u00e9 vocalista. Pagnossim tem outros projetos, como a chip music do <a href=\"https:\/\/pulselooper.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pulselooper<\/a> e o folk lo-fi do Palace Hotel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa noite de dezembro, sem bons velhinhos passeando pelo c\u00e9u, Andr\u00e9 Pagnossim e Daniel Ferraz receberam o Scream &amp; Yell em suas casas \u2013 por WhatsApp mesmo, pois ningu\u00e9m aguentava mais live e teleconfer\u00eancia, porque o papo ia render e daria um baita trabalho ao rep\u00f3rter (eu) decupar, e tamb\u00e9m porque aplicativo de mensagem n\u00e3o serve s\u00f3 para disparar fake news sobre mamadeira de piroca e vacina causando autismo. Ent\u00e3o venha, pegue sua cerveja de litr\u00e3o comprada em posto de gasolina (para harmonizar com esse Brasil varonil que est\u00e1 a\u00ed), <a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acesse o Bandcamp dos caras<\/a> e refresque-se com Os Almeida enquanto o pa\u00eds arde.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Os Almeida - Passa Boi\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qkx-3_32B44?list=PLOB_zLKUlkjhoAHa7su5eb3oKDfPhWx-z\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse foi um disco de grandes mudan\u00e7as para Os Almeida. A primeira delas foi a revela\u00e7\u00e3o de quem voc\u00eas s\u00e3o. Por que Daniel Ferraz e Andr\u00e9 Pagnossim sa\u00edram de tr\u00e1s das personas de Richard e Mois\u00e9s Almeida?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Bom, a gente sempre brincou com essa ideia de que \u00e9ramos dois irm\u00e3os idosos, que tocavam viol\u00e3o e cantavam e gravavam em fita cassete porque n\u00e3o sabiam usar um computador. Mas depois de tantos anos, a &#8220;piada&#8221; cansou, e o Daniel me disse: &#8220;\u00e9 hora de contar ao mundo a verdade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Hahahaha, jamais! Na real acho que foi meio org\u00e2nico. Eu sa\u00ed do arm\u00e1rio antes porque as letras ficaram mais pol\u00edticas e eu compartilhei nas redes da Turba [Violenta].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Fiquei incomodado no come\u00e7o, mas agora estou mais de boa, acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: O Andr\u00e9 queria manter os pseud\u00f4nimos, mas com o tempo foi relaxando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que esse \u00e9 um outro ponto que pega em duas quest\u00f5es. As letras ficaram mais pol\u00edticas, como nunca tinham sido. Mesmo o ensandecido EP \u201c<a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/os-almeida-v-o-jamaica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Almeida V\u00e3o \u00e0 Jamaica<\/a>\u201d \u00e9 um tanto mais pol\u00edtico. Um disco de transi\u00e7\u00e3o, por assim dizer. Mas nesse teve dois momentos de mudan\u00e7a. Ficar 100% pol\u00edtico, praticamente um \u00e1lbum conceitual sobre o Brasil moderno. O que levou Os Almeida a n\u00e3o querer nem passar perto de fazer can\u00e7\u00f5es como &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ye9stCgeiHs&amp;list=UUNgG7OI0MgvkxCEXVu10XRg&amp;index=65&amp;t=0s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Beber Pinga \u00c9 Legal<\/a>&#8221; e ir pra &#8220;<a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/temporada-em-atibaia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Temporada em Atibaia<\/a>&#8220;?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Era bem mais f\u00e1cil beber pinga com 25 anos, acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: A\u00ed c\u00ea pegou outro extremo, [esse tipo de m\u00fasica] era coisa de moleque. Mas c\u00ea tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Acho que foi um processo natural porque minhas conversas com o Daniel ficaram muito mais politizadas. N\u00e3o que a gente n\u00e3o conversasse sobre pol\u00edtica, mas acabou virando quase monotem\u00e1tico. N\u00e3o s\u00f3 entre a gente, mas entre nossos amigos em comum tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, com a ideia de gravar um disco pela primeira vez \u00e0 dist\u00e2ncia, em plena pandemia, as ideias pras letras foram surgindo mais facilmente de acordo com o notici\u00e1rio que a gente acabava sempre comentando um com o outro. \u00c9 importante tamb\u00e9m dizer que o Daniel \u00e9 o letrista principal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Na real, os discos anteriores eram todos conceituais tamb\u00e9m. Cada um tinha um tema: m\u00fasicas sobre filmes, sobre videogames, covers, esse da m\u00fasica da pinga o tema era o teclado que o Andr\u00e9 usou em todas as m\u00fasicas \u2013 as letras eram o de menos. Ent\u00e3o, por um lado, d\u00e1 pra dizer que a gente n\u00e3o mudou tanto, s\u00f3 escolheu outro tema. E a\u00ed entra isso que o Andr\u00e9 est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Verdade. Sempre teve essa pegada PROGGER de disco conceitual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tinha uma dose de raiva e sentimento de impot\u00eancia tamb\u00e9m, imagino eu. O desgoverno e o descaso com a vida foram t\u00e3o duros que a gente n\u00e3o quer nem lembrar, mas acho que bateu uma raiva enorme, n\u00e3o? Tipo, essa raiva \u00e9 quase uma medida de sanidade. Quem n\u00e3o a sentiu, era mal informado ou pessimamente intencionado.<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Honestamente, eu n\u00e3o conseguiria gravar um disco de can\u00e7\u00f5es sobre o atual desgoverno se n\u00e3o fosse com Os Almeida. Sem humor, ironia. O Daniel fica com a raiva concentrada pras m\u00fasicas da Turba Violenta, eu acho que n\u00e3o teria est\u00f4mago. Mesmo com esse crossover entre as letras (nota: \u201cMarcha do Chocolate\u201d e \u201cSamba do Fiador\u201d empresta versos da outra banda de Daniel Ferraz), pelo menos tinha as risadas das tentativas de explorar estilos diferentes e tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Isso \u00e9 massa de escrever com o Andr\u00e9. Na Turba, eu coloco umas piadas tamb\u00e9m, mas \u00e9 tudo mais pesado, nos Almeida sai mais leve por causa da parceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Sai mais leve porque voc\u00ea grita menos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Realmente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Mas eu acho muito foda esse lance de ter versos duma banda em outra, muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, Daniel, o quanto o seu lance com o Turba influenciou esse disco d&#8217;Os Almeida?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Pra mim, muito, nossa. Os caras podem at\u00e9 ficar putos, mas pra mim esse disco \u00e9 tipo uma extens\u00e3o. Tematicamente, pelo menos, \u00e9 a mesma coisa. Com a diferen\u00e7a que o Andr\u00e9 leva o neg\u00f3cio pra um lado mais absurdo \u00e0s vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Por que eles ficariam putos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Hahahaha \u00e9 modo de falar. Voc\u00ea poderia ficar tamb\u00e9m, sei l\u00e1. \u00c9 que \u00e9 um neg\u00f3cio pessoal. Deixa eu dar o exemplo: tipo na \u201cGrasnando Escusas\u201d. A gente j\u00e1 estava com o disco quase pronto, a\u00ed mandei um \u00e1udio pro Andr\u00e9 falando que achava que faltava uma m\u00fasica sobre o [S\u00e9rgio] Moro, porque ele saiu do governo, mas exatamente por isso a gente devia registrar a participa\u00e7\u00e3o dele. A\u00ed o Andr\u00e9 me responde topando na hora e sugerindo falar sobre os filmes do Supercine que ele assistia se achando her\u00f3i. J\u00e1 levou o neg\u00f3cio pra um lado muito mais divertido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Inevit\u00e1vel perguntar: voc\u00eas abrem os nomes reais justo num disco que debocha de um certo tipo de brasileiro conhecido por ser t\u00e3o agressivo quanto sem humor. N\u00e3o d\u00e1 um certo caga\u00e7o?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: D\u00e1. Eu fiquei meio paranoico. Tomando bastante cuidado pra n\u00e3o explicitar nada nas letras. Acho que tivemos um certo sucesso nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, pode n\u00e3o ser nada muito expl\u00edcito, mas para bom entendedor, os &#8220;alvos&#8221; das m\u00fasicas s\u00e3o inequ\u00edvocos.<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Isso me fez lembrar de uma preocupa\u00e7\u00e3o que tivemos durante a produ\u00e7\u00e3o: o qu\u00e3o datadas as m\u00fasicas v\u00e3o soar depois de lan\u00e7armos? At\u00e9 que foi um disco que saiu r\u00e1pido, contando a forma como foi feito, mas era sempre um absurdo novo a cada dia, que a letra que a gente tinha escrito no dia anterior j\u00e1 soava datada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea resolveu o lance da paranoia?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Claro que pensando racionalmente, a quest\u00e3o \u00e9: quais as chances de algu\u00e9m ouvir o disco e caguetar pro Zero Dois? Quase zero. Mas a paranoia estava ali, ainda mais vendo tanto caso de persegui\u00e7\u00e3o. Quem imaginava que o Moro ia perseguir um cartaz de festival de banda punk? (nota: Andr\u00e9 se refere ao cartaz do Facada Fest, de Bel\u00e9m, Par\u00e1, que levou o ent\u00e3o Ministro da Justi\u00e7a e \u201cboca de disquete\u201d a autorizar a abertura de um inqu\u00e9rito apurando suposta \u201cpr\u00e1tica de crimes \u00e0 honra\u201d do cidad\u00e3o que ocupa o cargo de presidente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: \u00c9, o Andr\u00e9 deu meio uma noiada, mas acho que a gente \u00e9 muito pequeno pra se preocupar. A\u00ed a gente fica nessa a\u00ed e eu respeito e boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Sim, mas no final ainda bem que venci esse inc\u00f4modo e o disco saiu. At\u00e9 porque \u00e9 mais facil falar do ET e ser processado pelo Spielberg, talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Isso a\u00ed!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Almeida ficam em casa&#8230; mas para onde vai o Brasil que ainda tem mais dois anos de Bolsonaro pela frente?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Pelo andar das coisas, vai pra casa do caralho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que voc\u00eas dois ouviram muitas bandas que pegavam pesado detonando terraplanistas, rednecks e protofascistas nos EUA. De Dead Kennedys a Bad Religion, sempre ouvimos essas coisas. E n\u00e3o sei voc\u00eas, mas eu pensava, quando adolescente: &#8220;caralho, mas ser\u00e1 que tem tanta gente assim mesmo nos EUA&#8221;? E, bom, n\u00f3s vimos que n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam, como grasnam por aqui. Ent\u00e3o, a pergunta \u00e9: nos anos 90 e 00, \u00e9ramos um pa\u00eds de rea\u00e7as enrustidos?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Putz!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Interessante, porque na minha cidade, durante a adolesc\u00eancia, as \u00fanicas coisas de punk que se conhecia eram Ramones e Bad Religion. E umas bandas da regi\u00e3o que a demo era t\u00e3o mal gravada que n\u00e3o dava pra entender as letras (risos). Mas realmente, ouvindo Bad Religion, especialmente o \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1DMLunJrzPkQws2uQU797l\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Recipe for Hate<\/a>\u201d que a molecada pirava na \u00e9poca, fazia os EUA parecerem o pior lugar do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em muitos aspectos, se voc\u00ea &#8220;l\u00ea&#8221; esse disco, parece o Brasil de hoje<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Mas isso faz tempo n\u00e9? 93, 94. (nota: o citado disco do Bad Religion \u00e9 de 1993).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: N\u00e3o sei se \u00e9ramos rea\u00e7as enrustidos, mas tem hora que parece o Brasil sempre foi isso a\u00ed mesmo e os anos 90 e 2000 \u00e9 que foram o ponto fora da curva. Pra mim, que cresci nessa \u00e9poca, \u00e9 muito dif\u00edcil pensar que o Brasil democr\u00e1tico que era o normal que eu conhecia \u00e9 que foi a exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Eu acho que ningu\u00e9m no mundo estava preparado pra essa onda de extrema direita. \u00c9 f\u00e1cil escrever e falar sobre como a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica, mas \u00e9 profundamente perturbador estar vivendo o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tenho o mesmo sentimento. Que \u00e9 piorado quando vejo gente que conhe\u00e7o se deliciando com a licen\u00e7a para o \u00f3dio.<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Isso talvez seja o mais triste de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como surgiu o lance de cada m\u00fasica ser de um estilo? Voc\u00eas, ali\u00e1s, j\u00e1 viam pelos temas: &#8220;hm, vou falar disso, melhor se for um folk, nessa aqui s\u00f3 pode ser hard rock&#8221; etc?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Em algumas m\u00fasicas, o Daniel escrevia a letra, ou adaptava alguma meio pronta, em cima de alguma melodia. Mas, na maioria delas, decid\u00edamos antes de gravar qual seria o estilo. Tendo a ver com o sujeito em quest\u00e3o na letra. Ou na ideia pra letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Tem um neg\u00f3cio que eu sempre me lembro: no impeachment da Dilma, o Gilmar Mendes dando uma entrevista em que ele dizia que entrar\u00edamos em um &#8220;intervalo democr\u00e1tico&#8221; pra tirar a presidente, fazer um &#8216;semiparlamentarismo&#8221; por um tempo e depois voltar ao que era. A\u00ed fiquei com essa ideia de intervalo democr\u00e1tico na cabe\u00e7a, mas essa ideia pessimista de que o intervalo democr\u00e1tico na verdade foram os anos FHC, Lula e Dilma e agora acabou, voltamos \u00e0 programa\u00e7\u00e3o normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, e a\u00ed, justo \u00e0 dist\u00e2ncia, voc\u00eas fazem um disco com uma grande varia\u00e7\u00e3o de arranjos, trazendo um estilo musical por faixa, at\u00e9 coros gravados \u00e0 dist\u00e2ncia. Bem diferente de juntar dois amigos e gravar na hora. Por que decidiram dar essa elaborada nos arranjos?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Nos discos anteriores, a gente batizou de &#8220;o modo Almeida de grava\u00e7\u00e3o&#8221; o processo de escrever as letras na hora e ir compondo e gravando tudo em fita cassete em seguida. O que acho que fica n\u00edtido nos discos velhos, por n\u00e3o serem apenas lo-fi, mas rudimentares em todos os sentidos. Dessa vez, como ter\u00edamos que usar um software pra poder trocar as tracks entre a gente, pensamos que seria legal ir por esse outro caminho, de pensar em arranjos, instrumentos diferentes do viol\u00e3o e do tecladinho podre de sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E mesmo com toda a trabalheira, voc\u00eas n\u00e3o se arrependeram?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Eu n\u00e3o me arrependi porque o Andr\u00e9 que faz tudo, hahaha. Ele que toca todos os instrumentos, produz, mixa, masteriza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Pera\u00ed, isso n\u00e3o \u00e9 totalmente correto. Eu gravo os instrumentos, mas a mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o tem MUITOS pitacos do Daniel. Mas eu nem acho que deu tanto trabalho assim. E foi muito divertido. N\u00e3o foi cansativo, traum\u00e1tico como outros discos dos quais participei, porque, pelo menos pra mim, o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o foram as partes mais divertidas. Depois que lan\u00e7amos, eu j\u00e1 estava com saudade das trocas de mensagem no Telegram com o Daniel, cantarolando partes novas das letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Nossa, a gente ficou num vai e vem desumano com essas m\u00fasicas, mexendo na mixagem delas tudo que n\u00e3o teve em 15 anos nas outras. E vale falar que, na pira de Richard e Mois\u00e9s Almeida, a gente inventou o Tony Almeyda, produtor desse disco, e o Tony \u00e9 o Andr\u00e9 tamb\u00e9m (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Tony vem de Tony Visconti, s\u00f3 pra constar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">E voc\u00eas s\u00f3 acreditam no Bandcamp<\/a>? Spotify e outras plataformas s\u00e3o coisas do Sat\u00e3 capitalista, ou n\u00e3o subiram porque ia dar muito trabalho mesmo?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: N\u00e3o, foi por causa dos samples mesmo, tem v\u00e1rios. Iam barrar de cara, ent\u00e3o pra que se dar ao trabalho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Al\u00e9m de ter muitos samples descarados, tem a quest\u00e3o n\u00e3o poder deixar em copyleft, que o Andr\u00e9 lan\u00e7a os outros trampos dele todos nesse esquema. Mas al\u00e9m do Bandcamp, o disco vai sair em formato f\u00edsico, logo mais. O selo Abbey Ro\u00e7a, de Socorro, interior de S\u00e3o Paulo, vai lan\u00e7ar em CD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rio?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Sim, n\u00f3s ainda gostamos de compact disc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Vai rolar. Vinil voltou, fita voltou, est\u00e1 na hora de voltar o CD. J\u00e1 era pra ter sa\u00eddo, na real, mas me enrolei aqui com arte, preciso terminar. E depois daquele teaser parodiando as colet\u00e2neas pique Lovy Metal dos anos 90, tinha que rolar um cdzinho. \u00c9 meio que obriga\u00e7\u00e3o fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Passado o fastio natural que d\u00e1 quando termina o trabalho, fica mais f\u00e1cil olhar pra tr\u00e1s e ver o que foi feito. Voc\u00eas acham que fizeram um disco mais s\u00f3lido, capaz de sobreviver ao momento pol\u00edtico em que foi lan\u00e7ado e se segurar pela pr\u00f3pria m\u00fasica?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: O que mais me agrada no disco \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 um EP, um single, uma playlist, \u00e9 um \u00e1lbum com mais de 1 hora. Isso \u00e9 uma experi\u00eancia in\u00e9dita pra mim, at\u00e9 por isso que vai ser legal sair em CD, mesmo que s\u00f3 voc\u00ea vai ter onde ouvir. Mas eu n\u00e3o acho que daqui a alguns anos muita gente vai se lembrar de quem foi Ricardo Salles, nem que o dono da Smart Fit [Edgard Coron] \u00e9 bolsonarista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E, inevit\u00e1vel perguntar: em qual das faixas voc\u00eas acham que acertaram em cheio?<\/strong><br>Andr\u00e9 Pagnossim: Minha faixa preferida \u00e9 \u201cThe Fresh Prince of Brasilia\u201d, porque tudo nela \u00e9 absurdo. E talvez ela envelhe\u00e7a bem, porque tudo na letra dela \u00e9 sanha privatista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como entrou a homenagem ao Daniel Johnston no meio disso tudo?<\/strong><br>Daniel Ferraz: O Andr\u00e9 deu a ideia de fazer um cover do Daniel Johnston e me falou pra escolher qual m\u00fasica, sugeri \u201cThe Beatles\u201d (faixa de 1983 de Johnston), que em situa\u00e7\u00f5es normais seria uma baita escolha ruim, hahaha. Mas com a letra homenageando o Danny acho que ficou legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: A ideia de trocar os Beatles da letra pelo pr\u00f3prio Daniel foi do Daniel (ficou estranha essa frase).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Ferraz: Por princ\u00edpio a vers\u00e3o em portugu\u00eas seria uma ideia ruim e a escolha dessa m\u00fasica tamb\u00e9m, mas acho que deu bem certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Eu sempre achei que a melodia vocal da m\u00fasica do Danny lembrava \u201cI Want You Back\u201d dos Jackson 5, ele tinha essa coisa de puxar umas melodias da mem\u00f3ria e chupar pras pr\u00f3prias m\u00fasicas, [Bruce] Springsteen e tal, da\u00ed a gente tentou fazer uma coisa meio Funk Brothers, mas claro que toscamente. (nota: Pagnossim foi um dos m\u00fasicos recrutados para acompanhar Johnston <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/09\/23\/assista-cinco-documentarios-na-integra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em seus shows brasileiros em 2013<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E de quem foi a decis\u00e3o de assumir o Daniel como MUSO M\u00c1SCULO <a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/temporada-em-atibaia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na capa do single \u201cTemporada em Atibaia\u201d<\/a>?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Hahahahahaha. Pior que fui eu que fiz aquela capa, de livre e espont\u00e2nea vontade. \u00c9 uma piada n\u00e9? A gente tem que saber rir de si mesmo pra poder rir dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Foi o jeito dele me convencer a sair do arm\u00e1rio. Tipo, &#8220;voc\u00ea a\u00ed noiado com nome, segura essa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00daltima pergunta: o [Fabricio] Queiroz \u00e9 o personagem mais recorrente nas letras \u2013 na pior das hip\u00f3teses, est\u00e1 no Top 3 de men\u00e7\u00f5es. Com tanta aten\u00e7\u00e3o dada a ele, me digam: onde voc\u00eas acham que o homem vai estar daqui a um ano? Alimentando minhoca?<\/strong><br>Daniel Ferraz: Acho que n\u00e3o vai precisar. Est\u00e1 tudo dominado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Pagnossim: Talvez ele volte a pescar com o capit\u00e3o. Eles devem estar sentindo falta, s\u00e3o muitos anos de bromance ali.<\/p>\n<hr>\n<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59186\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FicamEmCasa.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FicamEmCasa.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FicamEmCasa-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FicamEmCasa-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Faixa a faixa: &#8220;Os Almeida Ficam em Casa&#8221;, por Daniel Ferraz<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01. PASSA BOI<\/strong><br>Countryz\u00e3o das antigas com direito a berrante e solo pique Ennio Morricone. Al\u00e9m de abrir o disco, foi a primeira que a gente decidiu lan\u00e7ar como single, com o gado de verde e amarelo na capa. Essa acho que foi a que saiu mais r\u00e1pido, em termos de composi\u00e7\u00e3o. O Andr\u00e9 sugeriu fazermos uma sobre o Ricardo Salles, que tinha acabado de soltar aquela declara\u00e7\u00e3o escrota na reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril, que em qualquer outro governo seria um sinceric\u00eddio, mas nesse \u00e9 justamente o tipo de coisa que segura o filho da puta no cargo, sobre aproveitar a pandemia pra passar a boiada. A\u00ed a letra praticamente se escreveu sozinha: tacar fogo na floresta enquanto o povo trope\u00e7a nos corpos de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02. MARCHA DO CHOCOLATE<\/strong><br>No carnaval do ano passado, fiz uma marchinha com a Turba sobre o laranjal do PSL, e estava com a ideia de fazer uma marcha de carnaval todo ano. A de 2020 era pra ser essa. L\u00e1 pra janeiro fiz o refr\u00e3o e mandei pro Andr\u00e9, porque ele tinha curtido a Marcha do Laranjal, ele animou na hora e fez o resto da letra. A gente nem estava pensando em gravar nada d\u2019Os Almeida, era pra ser da Turba. No fim das contas, passou o carnaval e a Turba n\u00e3o gravou, ent\u00e3o resolvemos usar. Convidamos o Papa (guitarrista da Turba) pra gravar o viol\u00e3o do que seria aquela vers\u00e3o e o Andr\u00e9 pirou em cima, transformou nessa doideira meio ax\u00e9 meio tecnobrega, com guitarrada baiana e um sample que \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio quanto inesperado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03. REGINA<\/strong><br>Pra mim essa \u00e9 uma das mais engra\u00e7adas, talvez s\u00f3 perca pra \u201cGrasnando Escusas\u201d. O Daniel de 20 anos atr\u00e1s ficaria puta\u00e7o da vida de ver o Daniel de 2020 cantando um synthpop com autotune, mas acho que mesmo ele iria pirar nessa linha de baixo. E na quantidade de trocadilhos com cheirar p\u00f3, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04. TEMPORADA EM ATIBAIA<\/strong><br>O Andr\u00e9 tinha uma banda de alt country em S\u00e3o Carlos chamada <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/resenha_mcquade_cinema.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">McQuade<\/a> l\u00e1 por 2002, eu era muito f\u00e3, ia em todos os shows. Meu sonho era cantar no <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/mcquade_resenha.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">McQuade<\/a>, mas faltava habilidade. \u201cTemporada em Atibaia\u201d sou eu realizando esse sonho. Rock rural com paredes de guitarra e umas harmonias bonitas de voz, \u00e9 praticamente uma m\u00fasica do McQuade. S\u00f3 a letra que vai pra outro lado, tirando sarro do per\u00edodo de &#8220;cativeiro&#8221; do Queiroz na casa do advogado do presidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05. THE FRESH PRINCE OF BRAS\u00cdLIA (FT. CHICAGO BOYZ II MEN)<\/strong><br>Essa foi foda. O Andr\u00e9 queria fazer um hip-hop desde o come\u00e7o, insistiu um monte, e eu s\u00f3 tentando fugir e enrolando, me sentindo o Woody Harrelson de bon\u00e9 pra tr\u00e1s no \u201cHomens Brancos N\u00e3o Sabem Enterrar\u201d. De tanto ele me cobrar uma letra, sugeri usarmos a fala do Guedes na reuni\u00e3o de 22 de abril na esperan\u00e7a de escapar, mas n\u00e3o tive como. A\u00ed o Andr\u00e9 fez o vocal principal e eu fiquei de Flavor Flav meia boca do 3\u00ba mundo. E acabou que ela \u00e9 uma das minhas preferidas, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06. GRASNANDO ESCUSAS<\/strong><br>Pra quem n\u00e3o gosta de sertanejo, a boa not\u00edcia \u00e9 que essa m\u00fasica na verdade \u00e9 uma guar\u00e2nia paraguaia. A galera curte a parte que a gente chama o Moro de boca de disquete, mas &#8220;n\u00e3o me importa que ela pare\u00e7a o Glenn de peruca, o que me machuca \u00e9 que pro meu gosto as m\u00e3ozinhas dela t\u00eam dedos demais&#8221; \u00e9 a piada que eu mais gosto no disco todo. Adoro o reco-reco, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07. IGREJA DO AMOR<\/strong><br>O R&amp;B de motel foi complicado pra gravar, porque era o come\u00e7o da pandemia, \u00e9poca em que as pessoas ainda respeitavam a quarentena, estava sempre um baita sil\u00eancio, dava pro bairro inteiro me ouvir cantando. Fiquei constrangido de meter um &#8220;meu viagra \u00e9 Deus&#8221; com a intensidade que precisaria com meu enteado adolescente no quarto ao lado, ent\u00e3o o Andr\u00e9 ficou com a voz principal nessa tamb\u00e9m. E o pior \u00e9 que n\u00e3o adiantou nada, porque sempre que eu estava ouvindo a m\u00fasica na caixa de som pra pensar na mixagem, meu enteado aparecia como quem n\u00e3o quer nada e ficava rondando, geralmente na parte do \u201canal solu\u00e7\u00e3o pentecostal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08. SAMBA DO FIADOR<\/strong><br>Essa tamb\u00e9m era da Turba e ficou pros Almeida, virou um samba can\u00e7\u00e3o do fim do mundo. E tem outra m\u00fasica da Turba que divide alguns versos com essa, chama \u201cQuem Pariu Jair que o Embale\u201d. A primeira estrofe das duas m\u00fasicas \u00e9 quase igual, mas o refr\u00e3o da Turba \u00e9 um pouco mais pesado: &#8220;Esse pa\u00eds acabou \/ N\u00e3o tem como conciliar \/ \u00d3dio e nojo a todo o gado \/ Quem pariu Jair que o embale&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09. GABINETE DO TRANCE<\/strong><br>A letra dessa \u00e9 um tu\u00edte do Carluxo, daqueles que parecem n\u00e3o ter p\u00e9 nem cabe\u00e7a mas na real t\u00eam todo o jeito de serem listas de alvos pro gabinete do \u00f3dio, compostas por apelidos. \u00c9 o tipo de coisa que o cara n\u00e3o precisaria fazer \u00e0s claras, em p\u00fablico, mas faz por esc\u00e1rnio e certeza de impunidade. Ou talvez por ser meio burro. O Andr\u00e9 programou a m\u00fasica toda no celular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10. DANIEL<\/strong><br>\u201cDaniel\u201d \u00e9 uma vers\u00e3o em portugu\u00eas de \u201cThe Beatles\u201d, do Daniel Johnston, mas trocando os Beatles pelo pr\u00f3prio Daniel. Uma curiosidade legal sobre essa m\u00fasica \u00e9 que o Andr\u00e9 tocou na banda de apoio do Daniel Johnston quando ele veio pro Brasil, e o Danny pediu a guitarra dele emprestada e usou no show. Ent\u00e3o a nossa homenagem ao Daniel Johnston foi gravada na mesma guitarra que ele tocou no show de S\u00e3o Paulo. Em dois mil e bolinha, o McQuade gravou uma vers\u00e3o bem boa de \u201cSpeeding Motorcycle\u201d, tamb\u00e9m. <a href=\"https:\/\/myspace.com\/mcquadebr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sugiro a quem curte ir atr\u00e1s<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11. MEU GURU<\/strong><br>Um belo dia acordei com uma mensagem do Andr\u00e9 me pedindo pra fazer uma letra sobre o Olavo em 5 minutos, pra gravar sussurrando e mandar por \u00e1udio de celular mesmo. Virou essa can\u00e7\u00e3o new age escatol\u00f3gica com percuss\u00e3o japonesa e samples de Enya e Chico Buarque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12. CAIX\u00c3O FECHADO<\/strong><br>O \u00fanico rock pauleira do disco. Farofada com baix\u00e3o distorcido sobre um marombado que n\u00e3o se priva de ir \u00e0 academia (cujo dono tem corona at\u00e9 no nome) durante a pandemia, morre e se lamenta por n\u00e3o poder exibir o corpo sarado no vel\u00f3rio de caix\u00e3o fechado. Essa \u00e9 da \u00e9poca em que o Paulo Cintura ressurgiu do ostracismo fazendo manifesta\u00e7\u00e3o a favor do Bolsonaro na rampa do planalto. A vers\u00e3o do disco est\u00e1 bem melhor que a do lado B do single de \u201cPassa Boi\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>13. NA ESTRADA<\/strong><br>Outra vers\u00e3o em portugu\u00eas que, por princ\u00edpio, seria uma ideia ruim, mas acabou dando certo. A original \u00e9 \u201cOn The Road Again\u201d, do Willie Nelson, mas a gente pegou s\u00f3 o refr\u00e3o e atualizou pra esse momento da pandemia, pra fechar o disco martelando uma mensagem otimista, de esperan\u00e7a: vai passar. Chamamos nossas fam\u00edlias e alguns amigos pra participarem cantando o coro (quem n\u00e3o estava em isolamento com a gente mandou \u00e1udios de zap) e at\u00e9 meu cachorro canta junto, latindo o solo. Detalhe que o nome dele \u00e9 Willie Nelson, ent\u00e3o na pr\u00e1tica temos um cover do Willie Nelson em que o Willie Nelson participa. Vai passar e a gente vai cair na estrada outra vez.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 350px; height: 470px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=4191277826\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/transparent=true\/\" seamless=\"\"><a href=\"https:\/\/osalmeida.bandcamp.com\/album\/os-almeida-ficam-em-casa\">Os Almeida Ficam em Casa by Os Almeida<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os Almeida s\u00e3o a trilha sonora do apagamento dos raios f\u00falgidos, da flacidez do bra\u00e7o forte, da perturba\u00e7\u00e3o das margens pl\u00e1cidas do Ipiranga. Tamb\u00e9m podem ser definidos como um projeto musical lo-fi com muita coragem e poucos limites\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/21\/entrevista-os-almeida-cacoam-do-bolsonarismo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":59187,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5023],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59181"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59181"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59181\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":59190,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59181\/revisions\/59190"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}