{"id":58989,"date":"2020-12-12T01:41:28","date_gmt":"2020-12-12T04:41:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58989"},"modified":"2021-01-12T01:04:41","modified_gmt":"2021-01-12T04:04:41","slug":"entrevista-andre-melo-e-fernando-brito-versatil-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/12\/entrevista-andre-melo-e-fernando-brito-versatil-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/","title":{"rendered":"Entrevista: Andr\u00e9 Melo e Fernando Brito (Vers\u00e1til) \u2013 Mercado Cin\u00e9filo de M\u00eddia F\u00edsica"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Terceira de uma s\u00e9rie de 9 entrevistas sobre o\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mercado-cinefilo-2020\/\">Mercado Cin\u00e9filo de M\u00eddia F\u00edsica n Brasil<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vers\u00e1til<\/a> teve seu in\u00edcio em 1999, justamente na virada do mercado de m\u00eddia f\u00edsica para a revolu\u00e7\u00e3o representada pela chegada da tecnologia do Digital Versatile Disc, o disquinho que encantou tanta gente, cin\u00e9filos ou n\u00e3o, e iniciou a aposentadoria das fitas de VHS e suas necessidades de rebobinar. O nome Vers\u00e1til, inclusive, vem justamente do significado da sigla DVD. \u00c0 \u00e9poca, alguns anos antes da funda\u00e7\u00e3o da distribuidora, Oceano Vieira de Melo, seu fundador, participara de diversas palestras em solo estadunidense acerca dessa nova tecnologia, sendo um dos primeiros a trazer para o Brasil exemplares daqueles produtos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes da distribuidora, o sr. Oceano administrava uma das principais publica\u00e7\u00f5es sobre o mercado cinematogr\u00e1fico no Brasil dentro do vi\u00e9s das salas de cinema, videolocadoras e venda ao consumidor final. A publica\u00e7\u00e3o Jornal do V\u00eddeo, nos tempos pr\u00e9 internet, trazia informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre esse mercado. Com a ascens\u00e3o da &#8220;world wide web&#8221;, o acesso a tais informa\u00e7\u00f5es se tornaram diretos, e a necessidade de reposicionamento se fez urgente. Assim, surgiu a distribuidora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, um dos atuais diretores, Andr\u00e9 Melo, e o curador Fernando Brito, trazem uma aprofundada an\u00e1lise desse mercado desde o surgimento h\u00e1 21 anos da Vers\u00e1til, bem como abordam processos curatoriais, escolhas comerciais e os desafios de se manter ativa em um ambiente atualmente voltado para o colecionismo. Papo longo&#8230; e bom. Confira!<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>https:\/\/www.versatilhv.com.br<\/strong><\/a><\/h2>\n<figure id=\"attachment_59008\" aria-describedby=\"caption-attachment-59008\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-59008 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-59008\" class=\"wp-caption-text\"><em>Dennison Ramalho, Daniel de Oliveira, Andr\u00e9 Melo e Oceano Melo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Andr\u00e9, a Vers\u00e1til surge no mercado de homevideo em 1999, fundada pelo seu pai, Oceano Vieira de Melo. Voc\u00ea poderia abordar essa trajet\u00f3ria desde aquele per\u00edodo at\u00e9 esse momento em que a empresa completa 21 anos de exist\u00eancia?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Meu pai, cin\u00e9filo desde a inf\u00e2ncia tanto em sua terra natal, Carneiros, em Alagoas, quanto na adolesc\u00eancia em Santana do Ipanema, sert\u00e3o alagoano, mudou-se para S\u00e3o Paulo, SP, em fevereiro de 1967. Sempre ligado nos acontecimentos do Brasil e do mundo. 1968 foi um ano marcante, prato cheio de forma\u00e7\u00e3o para o jovem cin\u00e9filo. Como s\u00f3 frequentou a escola at\u00e9 os 14 anos, fazendo somente o segundo ano prim\u00e1rio, dedicou-se a acompanhar as not\u00edcias do Brasil e do mundo pelo R\u00e1dio das emissoras de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro. Sua distra\u00e7\u00e3o principal, al\u00e9m do cinema, era a leitura de jornal di\u00e1rio, com destaque para as mat\u00e9rias jornal\u00edsticas sobre a S\u00e9tima Arte e m\u00fasica. Em Alagoas, quando menino, amava assistir os filmes sobre hist\u00f3ria do mundo. Principalmente, os b\u00edblicos. Com essa idade, veio at\u00e9 S\u00e3o Paulo procurar trabalho. Encontrou no com\u00e9rcio de rua em um bairro no qual resido at\u00e9 os dias atuais: a Lapa. Meu pai teve o contato com o cinema europeu e com o Cinema Novo j\u00e1 em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o tem educa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas considera que conhecer estas culturas vindas da arte e a descoberta da Doutrina Esp\u00edrita codificada pelo educador e fil\u00f3sofo franc\u00eas Allan Kardec foi de fundamental import\u00e2ncia na sua forma\u00e7\u00e3o moral e cultural. Em 1970, ele se mudou de S\u00e3o Paulo para Campinas e conhece aquela que viria ser minha m\u00e3e. Como ele diz: \u201cO bra\u00e7o direito e esquerdo dele&#8221;. Sonia Aparecida Marsaiolli de Melo, com quem est\u00e1 casado desde 1973, tendo quatro filhos e quatro netas. Pela ordem, Juliano, com 45 anos; Daniel, 40 anos, eu, com 35 anos, e Elisa, que tem 32. Com exce\u00e7\u00e3o da Elisa, todos atuam diariamente na Vers\u00e1til nos dias de hoje. Cada um com sua vital import\u00e2ncia. No ano em que nasci, 1985, meu pai estava atuante como vendedor de produtos eletr\u00f4nicos na antiga Sears em Campinas. Ele tinha inten\u00e7\u00e3o de abrir um neg\u00f3cio pr\u00f3prio que envolvesse seus conhecimentos culturais e maiores paix\u00f5es. Fundou uma revista, que viria a ser chamada de Jornal do V\u00eddeo. Eu tenho aqui na minha sala do escrit\u00f3rio as primeiras edi\u00e7\u00f5es, inclusive. A Jornal do V\u00eddeo tinha publica\u00e7\u00e3o mensal dirigida e era refer\u00eancia no mercado de home v\u00eddeo nacional. Em 1995, como jornalista (autodidata), meu pai, Oceano Vieira de Melo, foi convidado em Los Angeles para participar do lan\u00e7amento de uma nova tecnologia que iria substituir o CD-Rom, o CD, o disket de computador e a fita de v\u00eddeo: era o DVD \u2013 Digital Versatile Disc. Recordo dele retornar dessa viagem, contando tanto para familiares e a todos amigos como seria um revolu\u00e7\u00e3o para o audiovisual, dizendo a minha pessoa (naquela ocasi\u00e3o com 10 anos de idade) como eu viveria de perto isso. Hoje achamos engra\u00e7ado como, na \u00e9poca, algumas pessoas acreditavam como funcionava a m\u00eddia, achando que as imagens dos filmes estavam espelhadas no prateado em volta do disco (similarmente com a pel\u00edcula), e que o leitor somente as reproduziria. Ainda n\u00e3o havia compreens\u00e3o do funcionamento do arquivo digital e os dados em Gb. Na viagem, ele estava com a esposa, Sonia Marsaiolli de Melo, e com o editor internacional do Jornal do V\u00eddeo, o saudoso Paulo de G\u00f3es. Ao chegar ao Brasil, fizeram cobertura especial sobre a nova tecnologia, que viria a ser lan\u00e7ado no ano seguinte, 1996. Na \u00e9poca, ele realizou palestras sobre a grande novidade para empres\u00e1rios, pol\u00edticos e para o p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fernando, voc\u00ea citou em outras entrevistas seu come\u00e7o ainda nos anos 1990, como funcion\u00e1rio da saudosa 2001 V\u00eddeo, bem como, em seguida, sua proximidade justamente com a Jornal do V\u00eddeo. Poderia abordar esse seu come\u00e7o profissional, bem como o in\u00edcio da sua cinefilia, o que o leva a assumir, no come\u00e7o dos anos 2000, a fun\u00e7\u00e3o de curador da Vers\u00e1til?<\/strong><br \/>Fernando Brito \u2013 Meu in\u00edcio na cinefilia se deu ainda na minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, quando eu acompanhava meu irm\u00e3o nas locadoras. Na \u00e9poca, n\u00f3s ganhamos um videocassete. Tamb\u00e9m \u00edamos muito ao cinema com a minha irm\u00e3. E eu acompanhei bem o processo das primeiras locadoras l\u00e1 no interior. Eu nasci em Trememb\u00e9, mas sou de Taubat\u00e9, interior de S\u00e3o Paulo. E a\u00ed n\u00f3s \u00edamos muito \u00e0s locadoras naquele per\u00edodo em que ainda havia s\u00f3 fitas seladas. Tinha, tamb\u00e9m, aquela famosa pasta para escolher os filmes alternativos. Ent\u00e3o, fui crescendo frequentando muito locadoras, conhecendo os cl\u00e1ssicos. Guardo com muito carinho, por exemplo, quando acompanhei todos aqueles cl\u00e1ssicos em VHS que eram prateados, cinzas, lan\u00e7ados pela Warner. Assisti muita coisa naquele formato. N\u00e3o s\u00f3 da Warner, mas de outras distribuidoras. E a\u00ed veio 1995, que foi um ano muito importante para mim. Porque essa paix\u00e3o pelo cinema resultou em leituras de livros sobre a Hist\u00f3ria do Cinema. E sobretudo, fui a todos os ciclos que foram promovidos em S\u00e3o Paulo por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do cinema. Na Cinemateca e em outras casas e cineclubes. Assisti a muitos cl\u00e1ssicos. Lembro at\u00e9 hoje de uma sess\u00e3o l\u00e1 no antigo Banco Real, na Paulista, onde exibiram \u201cCrep\u00fasculo dos Deuses\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/27\/cinematografia-comentada-billy-wilder\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">de Billy Wilder<\/a>). Assisti a cl\u00e1ssicos no Cine Sesc, no Centro Cultural S\u00e3o Paulo, e por a\u00ed vai. Foi muito bacana. E nessa ocasi\u00e3o, eu tive meu primeiro emprego, que foi entrar na 2001 V\u00eddeo. L\u00e1 entrei justamente como indicador, porque eu gostava de cinema, na principal loja da rede, que era a da Paulista. Loja que era frequentada pelo (diretor teatral) Antunes Filho, pelo (diretor teatral) Jos\u00e9 Celso, pelo (cineasta) Fernando Meirelles, por atores. E a\u00ed aprendi a conhecer todos os p\u00fablicos. A conhecer e a saber trabalhar com o gosto do cliente. Entender o cliente. Trabalhar com desde o cliente que gosta do Van Damme ao que gosta do Tarkovski. Ent\u00e3o, foi a minha escola. Trabalhei na 2001 V\u00eddeo de 1995 a 2001. Nesse per\u00edodo, fiz v\u00e1rios cursos de cinema e, em paralelo, fiz a faculdade de Letras Ingl\u00eas e Portugu\u00eas na USP e continuei com o mestrado e com o doutorado. Nesse per\u00edodo, eu trabalhei em v\u00e1rias lojas da 2001. Fui gerente, montei o site da locadora, um dos primeiros de e-commerce da 2001 V\u00eddeo, que foi um sucesso. Dei treinamentos, dei cursos de cinema, e, em 2001, eu sa\u00ed da locadora ap\u00f3s um pequeno desentendimento entre eu e um dos s\u00f3cios. E logo depois, dois ou tr\u00eas meses depois, comecei no Jornal do V\u00eddeo, trabalhando l\u00e1 para fazer o site da publica\u00e7\u00e3o trade do sr. Oceano Vieira, e, tamb\u00e9m, da Vers\u00e1til, quando comecei a ajudar no cadastro de fichas, vendo os filmes. Nesse processo, me aproximei mais e acabei assumindo a curadoria a partir de 2002. Em 2001 eu entrei na empresa e, em 2002, assumi e dei a guinada na empresa com o perfil dos filmes cl\u00e1ssicos, filmes europeus. O que na verdade eu percebi l\u00e1 e sempre falo nas minhas entrevistas, \u00e9 que havia uma demanda reprimida naquele momento. O mercado de DVD era um mercado ainda incipiente que estava ganhando cada vez mais tra\u00e7\u00e3o. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o o DVD frente ao VHS. E percebi, sobretudo, uma demanda muito grande por filmes europeus, filmes cl\u00e1ssicos, com boas edi\u00e7\u00f5es. Como os filmes americanos estavam ganhando naquele momento, com extras e com qualidade. Porque apenas uma empresa lan\u00e7ava, mas era uma empresa de qualidade duvidosa, e a gente falou: &#8220;N\u00e3o! Vamos fazer com qualidade&#8221;. E fomos l\u00e1 e lan\u00e7amentos Fellini, Antonioni, Pasolini. Na verdade, a Vers\u00e1til, desde ent\u00e3o, 2002 em diante, todo m\u00eas \u00e9 uma pequena cinemateca. A gente foi sempre trazendo filmes in\u00e9ditos. Eu lembrava sempre dos filmes que os clientes me pediam na locadora. Ent\u00e3o, digamos que essa minha paix\u00e3o por cinema sempre existiu, desde que me conhe\u00e7o por gente. E ela se fortaleceu na minha adolesc\u00eancia e, sobretudo, na minha atua\u00e7\u00e3o profissional. Desde 1995 eu estou nesse mercado. S\u00e3o 25 anos em paralelo \u00e0 minha carreira acad\u00eamica. Na verdade, a minha paix\u00e3o por cinema sempre se traduziu em a\u00e7\u00e3o. Em a\u00e7\u00e3o no mercado de v\u00eddeo, seja em locadora, seja criando um site, ou seja trabalhando em distribuidora e fazendo a programa\u00e7\u00e3o da Vers\u00e1til. Fazendo a curadoria. Que \u00e9 cuidar desses filmes, cuidar da cultura cinematogr\u00e1fica e conviver com os filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Andr\u00e9, a Jornal do V\u00eddeo trazia informa\u00e7\u00f5es sobre o mercado de homevideo e serviu como um guia para as v\u00eddeo locadoras. Existia concorrentes nesse mercado? Al\u00e9m disso, a Jornal do V\u00eddeo trazia textos sobre os filmes escritos por cr\u00edticos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. Poucos anos depois, surgiu uma revista chamada Ver V\u00eddeo. Era, digamos, uma editora concorrente com a de meu pai. Na Jornal do V\u00eddeo, meu pai contava com uma reda\u00e7\u00e3o e jornalistas que trabalhavam na cria\u00e7\u00e3o, trazendo mat\u00e9rias e not\u00edcias sobre o mercado do homevideo e do cinema propriamente dito. Entre estas, dados obtidos das vendas nos cinemas de lan\u00e7amentos: o que serviam como um norte para locadoras fazerem seus pedidos dali poucos meses, quando os filmes chegavam em VHS. Isso fazia a revista se tornar imprescind\u00edvel para todo dono de locadora de v\u00eddeo na \u00e9poca. Obviamente, n\u00e3o existia internet, sequer streaming e a TV a cabo ainda demorou alguns anos para chegar ao Brasil efetivamente e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Onde hoje existem seis formas de atuar com direitos autorais, naquele per\u00edodo havia somente tr\u00eas: cinema, homevideo \u2013 que era o VHS (hoje, DVD) \u2013 e a televis\u00e3o (canais abertos). Ponto. N\u00e3o haviam outros formatos. Na reda\u00e7\u00e3o, diversos jornalistas consagrados trabalharam com meu pai, entre eles alguns que eram convidados a fazer resenhas, como o cr\u00edtico Rubens Ewaldo Filho, que colaborou diversas vezes na revista. Inclusive, no blu-ray do \u201cCinema Paradiso\u201d, h\u00e1 um testemunho dele exclusivo, como meu pai o entrevistando. Como meu pai participava de muitos festivais e de lan\u00e7amentos naquela \u00e9poca, acabou conhecendo muitas pessoas atuantes do mercado, alguns presente at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59010\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jornaldovideo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jornaldovideo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jornaldovideo-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A partir da ascens\u00e3o da internet, a Jornal do V\u00eddeo ficou defasada. Foi nesse ponto, coincidindo com a chegada da tecnologia do DVD, que surgiu a ideia de abrir a distribuidora, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. A Jornal do V\u00eddeo estava com os dia contados por conta do acesso via internet a todos os dados que antes eram essenciais para as locadoras terem. Os primeiros lan\u00e7amentos em DVD nos EUA e no Brasil foram todos de filmes americanos e, como falei antes, meu pai teve como forma\u00e7\u00e3o em sua juventude a cultura cinematogr\u00e1fica nos filmes cl\u00e1ssicos, principalmente os europeus e brasileiros. Ent\u00e3o, ele conta que sentiu que era preciso disponibilizar estes g\u00eaneros no mercado de v\u00eddeo brasileiro. Com o Juliano, meu irm\u00e3o mais velho, ele criou a Vers\u00e1til Home V\u00eddeo em 1999. Na \u00e9poca da revista, receb\u00edamos como cortesia das distribuidoras todos os filmes lan\u00e7ados. Lembro que n\u00f3s t\u00ednhamos uma videoteca na nossa casa que era praticamente um c\u00f4modo. Exceto filmes porn\u00f4s, que meu pai jamais aceitou, t\u00ednhamos praticamente tudo que havia sido lan\u00e7ado nos primeiros anos de VHS e DVD no Brasil. Eu nem lembro a quantidade. Daniel, o meu outro irm\u00e3o, chegou a tabelar uma \u00e9poca. Era uma quantidade absurda! Meu pai era convidado a cobrir diversos festivais e lan\u00e7amentos de filmes. Era um showbusiness. As majors, quando iam divulgar um novo lan\u00e7amento, faziam coquet\u00e9is e festas corporativas de tempos em tempos. Era um mercado totalmente diferente do que a gente tem hoje. E tudo isso realmente foi mudando um pouco em 2005-2007, com o aumento da pirataria e o inicio da sa\u00edda das majors aqui no Brasil. Nessa \u00e9poca, o Netflix j\u00e1 estava come\u00e7ando a surgir no streaming, e todo esse mercado foi perdendo cada vez mais for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Vers\u00e1til nasce como distribuidora em 1999 e, com o conhecimento que seu pai detinha do mercado de homevideo, passou a trabalhar, tamb\u00e9m, com as locadoras, fornecendo produtos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. Como j\u00e1 t\u00ednhamos o contato de muitas locadoras, a introdu\u00e7\u00e3o-ades\u00e3o pela Vers\u00e1til foi relativamente f\u00e1cil. Na primeira d\u00e9cada, a Vers\u00e1til trabalhava essencialmente com as locadoras. J\u00e1 t\u00ednhamos vendas nas livrarias, mas a porcentagem era consideravelmente menor em vendas. As redes de loca\u00e7\u00e3o Blockbuster, a 2001 e a 100% V\u00eddeo, por exemplo, eram enormes clientes. Centralizavam todas as compras para atender a todas as unidades, para toda a rede. Uma quantidade muito grande direcionado exclusivamente para as loca\u00e7\u00f5es. E, tamb\u00e9m, \u00e0s locadoras de bairro nas grandes cidades, que ao passar dos anos ainda sobreviviam at\u00e9 depois das grandes redes surgirem, como as Blockbusters. Mas ainda t\u00ednhamos muitos clientes de locadoras pequenas que compravam tr\u00eas, quatro pe\u00e7as de cada para fazer loca\u00e7\u00e3o. Isso ainda aconteceu bastante nas d\u00e9cadas de 2000 a 2010. Logo, o &#8220;rental&#8221; era muito mais presente do que o &#8220;sell-thru&#8221;, e representava a maior parte do faturamento da Vers\u00e1til \u2013 situa\u00e7\u00e3o absolutamente diferente na segunda d\u00e9cada da distribuidora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Chegaram, nesse come\u00e7o, a trabalhar, tamb\u00e9m, com VHS?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. Dois VHS foram lan\u00e7ados. A Vers\u00e1til j\u00e1 chegou a trabalhar com banca, vendendo produtos diretamente para estas, inclusive. Foi lan\u00e7ada, tamb\u00e9m, algumas vers\u00f5es dentro da Jornal do V\u00eddeo, como uma forma de testes. Foram momentos iniciais bem interessantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em que momento a Vers\u00e1til come\u00e7a a trabalhar com varejistas al\u00e9m das locadoras?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Ainda nessa primeira d\u00e9cada da Vers\u00e1til, a gente trabalhou com diversos clientes, de todos os tamanhos. As Lojas Americanas tinham costume de fazer enormes descontos, incluindo os dvds jogados em uma \u201cbacia\u201d. Hoje voc\u00ea v\u00ea meia e roupa intima sendo vendido naquele espa\u00e7o. Antes, era uma \u201cilha\u201d na loja, cheia de DVDs. O cliente precisava \u201cgarimpar\u201d os filmes que queria comprar, jogando produto um pra cima do outro e vendo o que tinha. O &#8220;sell-thru&#8221; era de outro n\u00edvel. N\u00f3s t\u00ednhamos negocia\u00e7\u00f5es com outros grandes varejistas com contratos que, posso dizer, eram nada atrativos para o nosso lado. Porque pediam cada vez mais condi\u00e7\u00f5es comerciais obrigando o \u201cpequeno\u201d a fornecer mercadorias em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis que, no final, davam um p\u00edfio retorno de lucratividade. Por exemplo, arcar com custo de transportadoras car\u00edssimas licenciadas por eles. Ou porcentagens de todo pagamento para a \u201cc\u00fapula\u201d diretiva comercial e sempre prazos de pagamentos long\u00ednquos. Em locadoras, n\u00f3s trabalh\u00e1vamos com 30, 60 dias e tinham um cr\u00e9dito muito similar ao nosso, de pequenas empresas. Mas quando trabalh\u00e1vamos com esses gigantes, t\u00ednhamos que brigar para conseguir um prazo similar para atuar com fornecedores e s\u00f3 atu\u00e1vamos como meros intermedi\u00e1rios, nem sempre dando certo. Por exemplo, fornec\u00edamos os produtos a eles e t\u00ednhamos que receber em 180 dias, enquanto nossos fornecedores s\u00f3 aceitavam prazo de 60. Ou aceit\u00e1vamos aquela condi\u00e7\u00e3o (exigindo, por muitas vezes um capital de giro que n\u00e3o t\u00ednhamos) ou n\u00e3o fech\u00e1vamos acordo. Fora toda a documenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que nos forneciam a assinar, com diversas \u201carmadilhas comerciais\u201d que t\u00ednhamos de tomar cuidado, pois pod\u00edamos acabar literalmente pagando para terem nosso produto na g\u00f4ndola deles, principalmente quando havia promo\u00e7\u00f5es de final de ano. T\u00ednhamos algumas condi\u00e7\u00f5es comerciais at\u00e9 estapaf\u00fardias, se a gente for considerar. Representa bem como o capitalismo aqui no nosso Brasil funciona para quem tem um pequeno neg\u00f3cio e queria trabalhar com as grandes varejistas. Gra\u00e7as a Deus, os marketplace (N.E. Modalidade de venda direta para o consumidor) t\u00eam ajudado a mudar um pouco disso nos dias atuais. Ent\u00e3o, naquela primeira d\u00e9cada, a gente n\u00e3o falava em livrarias. Eram um cliente como qualquer outro. Compravam uma quantidade legal? Poxa, claro. Mais do que uma locadora no interior do Par\u00e1, por exemplo, ou de Santa Catarina. Mas eu entendo que \u201ca chave virou\u201d para a Vers\u00e1til quando lan\u00e7amos os produtos exclusivos com as livrarias.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59016\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/joelma.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"539\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/joelma.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/joelma-300x216.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/joelma-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu me lembro de que durante muito tempo, antes de eu me aprofundar mais nos produtos da Vers\u00e1til, e por conta da minha m\u00e3e ser esp\u00edrita e ter DVDs dessa linha na sua casa, a Vers\u00e1til sempre esteve, na minha mente, associada ao estudo da doutrina kardecista. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre o selo V\u00eddeo Spirite e em como ele surgiu?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Na metade dos anos 2000, o meu pai criou esse selo dentro da Vers\u00e1til, o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/departamento\/75326\/11\/video-spirite\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">V\u00eddeo Spirite<\/a>. Leitor e estudioso dos livros da linha kardecista no espiritismo e de Chico Xavier, ele come\u00e7ou a ter acesso a diversos conte\u00fados de audiovisual que poderiam ser lan\u00e7ados. Ele abriu a V\u00eddeo Spirite, que \u00e9 a primeira distribuidora esp\u00edrita no mundo, e colocou diversos conte\u00fados e document\u00e1rios na m\u00eddia f\u00edsica para serem imortalizados, como o \u201c<a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/241064\/joelma-23o-andar-da-obra-de-chico-xavier\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Joelma 23\u00ba Andar<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/241070\/pinga-fogo-com-chico-xavier-edicao-historica-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pinga Fogo com Chico Xavier<\/a>\u201d\u00a0 e outros longas que incitavam o pensamento nessa filosofia-ci\u00eancia. Meu pai, como estudioso na \u00e1rea do jornalismo, sempre convidava algu\u00e9m para falar sobre aquele conte\u00fado nos extras, at\u00e9 de filmes que citavam elemento do mundo espiritual e havia uma \u00f3ptica\/an\u00e1lise sob o espiritismo. Tamb\u00e9m resenhava textos para colocar nos menus para leitura. Ele sempre gostou de trabalhar com conte\u00fado esp\u00edrita. Em 2010, 2011, tanto eu como meus irm\u00e3os ouv\u00edamos muito meu pai dizer que estava cansado de lidar com os estresses di\u00e1rios da administra\u00e7\u00e3o da Vers\u00e1til, e queria se aprofundar no estudo da doutrina Esp\u00edrita. Ele j\u00e1 estava procurando algo similar a uma aposentadoria e trabalhar com outras atividades, sabe? Ele j\u00e1 tinha experi\u00eancia e conhecimento para produzir conte\u00fado pr\u00f3prio. Lembro que ele falava que queria tocar alguns projetos que tinha em mente e que os filhos poderiam ajud\u00e1-lo na distribuidora. Ele n\u00e3o queria abrir m\u00e3o da Vers\u00e1til (sabendo da import\u00e2ncia da distribuidora para o Brasil) e entendia que meus irm\u00e3os, cada um, havia seguido caminhos profissionais diferentes. Em 2012, <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/minas-gerais\/triangulo-mineiro\/noticia\/2012\/09\/filme-e-vida-continua-tem-pre-estreia-em-uberaba-mg.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">foi lan\u00e7ado o longa metragem \u201cE a Vida Continua&#8230;\u201d<\/a> e tinha meu pai como produtor com auxilio da Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira. Daniel, meu irm\u00e3o, tamb\u00e9m participou ativamente neste projeto. O filme foi lan\u00e7ado nos cinemas e saiu em DVD pela Paris Filmes. E a linha da V\u00eddeo Spirite a gente sempre manteve por fazer parte da ess\u00eancia da Vers\u00e1til e do que minha fam\u00edlia acredita e segue. Assim como o \u201cCinema Paradiso\u201d, Bergman e toda linha de filmes de arte\/cinebiografias que meu pai sempre acreditou e construiu como base para a Vers\u00e1til. At\u00e9 os dias atuais mantemos como uma das linhas principais de atua\u00e7\u00e3o na Vers\u00e1til.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi nesse contexto de interesse dele por atuar com mais \u00eanfase no desenvolvimento do selo V\u00eddeo Spirite que voc\u00ea veio a se aproximar da Vers\u00e1til at\u00e9 assumir como diretor da empresa?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. No final da adolesc\u00eancia, eu fazia diversos cursos livres de teatro, at\u00e9 seguir para um profissionalizante. Embora amasse aquilo, nunca me vi atuando profissionalmente no palco ou na frente das c\u00e2meras. Mas sempre amei a arte e gostava de estar pr\u00f3ximo a ela. Pr\u00f3ximo do fim desta forma\u00e7\u00e3o, busquei uma segunda como psic\u00f3logo, mas sempre gostei do clima corporativo. Ent\u00e3o, logo no segundo, terceiro ano, j\u00e1 atuava com \u00eanfase em business, fazendo diversos cursos em paralelo \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o. Inicialmente com RH generalista, depois atuei com desenvolvimento de profissionais relacionados a Gest\u00e3o, atuando diretamente com diretores e trazendo neg\u00f3cios que podiam agregar jobs \u00e0 empresa que estava e &#8220;headhunting&#8221; com alguns parceiros que me procuravam. Em 2011, estava a procura de uma recoloca\u00e7\u00e3o. Foi quando percebi que meu pai precisava de ajuda e vi ali uma oportunidade interessante de trabalho. Recordo de entrar no estoque repleto de filmes, um mais interessante do que o outro, e, independente do cen\u00e1rio financeiro em que a empresa vivenciava (muitas vezes em tom de tristeza), eu vi ali um potencial de neg\u00f3cio a ser desenvolvido. Foi quando meu pai me convidou a, aos poucos, aprender como a distribuidora funcionava para assumir a Vers\u00e1til e cuidar da empresa dali algum tempo. Profissionalmente, comecei a ter uma atua\u00e7\u00e3o diferente (administra\u00e7\u00e3o), embora trazendo j\u00e1 uma bagagem de neg\u00f3cios e arte que adorava, mas principalmente conhecer a fundo o mercado de homevideo. Meu pai sempre contou muitas hist\u00f3rias durante minha cria\u00e7\u00e3o e adolesc\u00eancia, mas estando ali era diferente. Fiquei mais de um ano somente ouvindo\/acompanhando e entendendo como funcionava a distribuidora, \u00e1rea por \u00e1rea. Ap\u00f3s alguns meses, apresentei a meus pais alguns planos para mudan\u00e7a\/melhorias \u2013 certamente alguns \u201cfurados\u201d e outros que deram super certo. Acredito que alguns sucessos me levaram a permanecer e estar a nove anos aqui. Gosto de pensar que foi algo que deu certo nos planos de meu pai, lhe trazendo muita satisfa\u00e7\u00e3o, e que, assim, ele p\u00f4de centralizar suas energias em projetos mais para si mesmo e para algo em que acreditava. Depois de aproximadamente um ano e meio, gradativamente, ele come\u00e7ou a deixar a Vers\u00e1til sob a administra\u00e7\u00e3o dos filhos, mas sempre a par \u2013 discutindo e dando sua opini\u00e3o. N\u00e3o que tenha deixado de ir \u00e0 Vers\u00e1til, mas ia com menos frequ\u00eancia. Ele ia uma a duas vezes por m\u00eas, permanecendo mais afastado, mas sempre interessado. Foi o per\u00edodo em que come\u00e7ou a produzir mais conte\u00fado para o selo da V\u00eddeo Spirite. A cada seis meses, ele produzia algo novo, mas sempre riqu\u00edssimo de informa\u00e7\u00f5es. Houve um per\u00edodo em que faz\u00edamos produ\u00e7\u00f5es com duas senhoras, uma grande conhecedora do espiritismo sob vista da ci\u00eancia, e outra pr\u00f3xima, amiga de Chico Xavier, que contava suas hist\u00f3rias. Meu pai as gravava contando diversos relatos interessant\u00edssimos. Acho que isso foi muito bom para ele. Hoje, ele faz muitas palestras on line, debate com muitos palestrantes e conhecedores do meio esp\u00edrita. \u00c9 uma paix\u00e3o que acabou seguindo e se tornou reconhecido tamb\u00e9m entre os kardecistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foram seus planos para seu in\u00edcio na empresa? Quais as mudan\u00e7as propostas para a linha de produtos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Recordo que naquele ano de 2011, os n\u00fameros demonstravam que, todo ano, uma porcentagem muito grande do faturamento da empresa despencava. Um ou outro projeto, uma vez ao ano, segurava meses de sobreviv\u00eancia \u2013 e depois sempre volt\u00e1vamos ao mesmo patamar de 95% do tempo no vermelho. Foi quando come\u00e7amos a desenvolver estrat\u00e9gias tentando mudar aquele cen\u00e1rio. Lembro que me sentava com o diretor comercial da \u00e9poca e tent\u00e1vamos diversas atua\u00e7\u00f5es diferentes (como reuni\u00f5es mensais com representantes para sentir melhor como o mercado estava atuando). Simultaneamente com o Fernando Brito (N.E. curador da Vers\u00e1til, at\u00e9 os dias atuais) planejando um modo diferente de movimentar o mercado atrav\u00e9s de cole\u00e7\u00f5es. Antes, o modelo de cole\u00e7\u00f5es era um pouco diferente. Eram reunidos tr\u00eas ou quatro produtos, colocava uma luva e era vendido como cole\u00e7\u00e3o. Eu lembro que via aquilo como um &#8220;pacot\u00e3o&#8221; com t\u00edmido desconto. Por\u00e9m, isso n\u00e3o era vantajoso e n\u00e3o dava um car\u00e1ter de singularidade ao produto, pois a ideia era fazer algo mais envolvente, tem\u00e1tico, de fato. Ent\u00e3o, logo veio a ideia de atuar com o digistack (N.E. modelo de embalagem diferenciado do convencional para acomodar os discos de DVD e Blu-ray) e utilizar ele como produto todos os meses. Um pouco antes disso, lan\u00e7amos o \u201c<a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2013\/06\/20\/versatil-lanca-serie-completa-de-lobo-solitario-em-dvd-no-brasil-para-julho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lobo Solit\u00e1rio<\/a>\u201d,\u00a0 al\u00e9m de algumas cole\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas. Foi realmente essa nova onda que come\u00e7ou em julho de 2013. Ficamos com o (padr\u00e3o) digistack at\u00e9 2017\/2018. Na crise da Livraria Cultura e reajuste de pre\u00e7os em fornecedores essenciais, foi preciso fixar os produtos como Amaray (N.E. modelo convencional e j\u00e1 conhecido de embalagem de DVDs e blu-rays), mas mantendo o conceito de cole\u00e7\u00e3o desenvolvido anteriormente. E isso se mant\u00e9m at\u00e9 os dias de hoje (inclusive sem reajuste de pre\u00e7o h\u00e1 quatro anos) com os boxes tem\u00e1ticos que estamos lan\u00e7ando. Come\u00e7amos a cole\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2019\/11\/11\/guia-bjc-108-filmes-noir-que-sairam-nas-colecoes-da-versatil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Filme Noir<\/a> pouco depois, na qual, inclusive, estamos <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/474080\/filme-noir-vol-17-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">j\u00e1 pensando no 17\u00ba volume no in\u00edcio de 2021<\/a> (N.E. Entrevista realizada em 22\/09\/2020). Isso foi nos levando mais pr\u00f3ximos \u00e0s livrarias, que viram aquilo como uma oportunidade, uma vez que as locadoras, cada vez menos, se apresentavam interessadas neste novo patamar. Acredito que foi a grande mudan\u00e7a, quando o sell-thru ficou mais evidente e presente do que o rental, ap\u00f3s mais de 10 anos de empresa. As livrarias viram aquilo como um custo benef\u00edcio muito interessante para colocar nas prateleiras. Da mesma forma que atra\u00eda mais clientes. Era um produto com uma apresenta\u00e7\u00e3o e um pre\u00e7o mais atrativos. Foi quando a Livraria Cultura, com o aumento do representatividade em faturamento, chamou a Vers\u00e1til para diversas reuni\u00f5es, fazendo uma a dois exclusivos por m\u00eas com eles, dando destaque e sempre dando visibilidade a nossos produtos e marca. Pouco tempo depois, a Saraiva come\u00e7ou a \u201cbrilhar os olhos\u201d, no qual fizemos exclusividade com um dos primeiros produtos da linha \u201cEssencial\u201d, <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2016\/07\/21\/colecao-fellini-essencial-em-blu-ray-no-brasil-para-setembro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Fellini<\/a>. Foi praticamente esse o principal formato que ficamos trabalhando at\u00e9 2017\/2018. Uma \u00e9poca em que essas duas lojas representavam uma import\u00e2ncia de quase 90% do nosso faturamento. Eram elas quem ditavam todas a regras do jogo \u2013 embora sempre esteve em nossa cabe\u00e7a o sinal amarelo: se acontecesse algo com elas, ter\u00edamos grav\u00edssimos problemas. Tentamos propor isso para outras livrarias, mas nenhuma topou. E aconteceu o pior pouco tempo depois.<\/p>\n<figure id=\"attachment_59001\" aria-describedby=\"caption-attachment-59001\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-59001 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/fernando-brito-apresenta-canal-Versatil.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/fernando-brito-apresenta-canal-Versatil.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/fernando-brito-apresenta-canal-Versatil-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-59001\" class=\"wp-caption-text\"><em>Fernando Brito<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fernando, essa mudan\u00e7a no perfil curatorial da Vers\u00e1til, como bem citou o Andr\u00e9, vem de seu olhar como curador, buscando esse foco nas cole\u00e7\u00f5es, bem como abrangendo diversos estilos e escolas cinematogr\u00e1ficas. Queria abordar contigo um pouco mais desse processo a partir dessa sua longa experi\u00eancia.<\/strong><br \/>Fernando Brito \u2013 Desde que aprendi a trabalhar com cinema l\u00e1 na 2001 V\u00eddeo, que foi a minha escola, eu tinha, como falei antes, clientes que gostavam apenas do Van Damme, do Lorenzo Lamas, s\u00f3 de filme de pancadaria. E eu tinha, tamb\u00e9m, clientes que gostavam s\u00f3 de filmes europeus, filmes ditos de arte. E eu sabia trabalhar com os dois. Eu entendia o gosto daquele cliente. Eu at\u00e9 dava o treinamento e falava: &#8220;gente, \u00e9 importante voc\u00ea conhecer o campo em que voc\u00ea vai jogar. Entender o que as pessoas gostam. Porque, \u00e0s vezes, o que voc\u00ea gosta, \u00e9 muito diferente daquilo que as pessoas gostam&#8221;. Como programador, curador da Vers\u00e1til, eu, em um primeiro momento, fui buscar os cl\u00e1ssicos. Fui buscar preencher as lacunas. Quando o mercado come\u00e7ou a ficar cada vez mais de nicho, a diminuir por causa da mudan\u00e7a geracional, os millennials, as pessoas deixaram de comprar DVD para dar de presente. Aquele comprador ocasional acabou saindo do mercado e ficaram s\u00f3 os colecionadores. E a\u00ed eu percebi que apenas lan\u00e7ar os cl\u00e1ssicos italianos, os cl\u00e1ssicos europeus, n\u00e3o seria suficiente. Que havia uma demanda reprimida para lan\u00e7amentos de excelente qualidade, com extras. Com o mesmo trabalho que n\u00f3s faz\u00edamos com os cl\u00e1ssicos europeus, t\u00ednhamos que fazer com os cl\u00e1ssicos de terror e com os filmes cult. Ent\u00e3o, na \u00e9poca, eu j\u00e1 tinha a plena curadoria da Vers\u00e1til e foi o momento de colocar Obras-Primas do Terror, colocar o cinema de g\u00eanero, colocar os cl\u00e1ssicos de <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/08\/14\/pre-vendas-da-versatil-para-dezembro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Filme Noir<\/a>. Colocar as cole\u00e7\u00f5es todas. A cole\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/504474\/obras-primas-do-terror-vol-14-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Obras-Primas do Terror<\/a>, se voc\u00ea imaginar, n\u00f3s j\u00e1 estamos no volume 14. O Giallo est\u00e1 indo <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/505117\/giallo-vol-10-edicao-limitada-com-4-cards-caixa-com-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">para o volume 10<\/a>. O pr\u00f3ximo volume da Slashers ser\u00e1 o volume nove. <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2015\/05\/06\/versatil-lancara-colecao-vampiros-no-cinema-em-dvd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vampiros no Cinema<\/a> indo para o volume cinco. Zumbis no Cinema j\u00e1 chegou ao volume cinco. Temos as v\u00e1rias cole\u00e7\u00f5es de cinema, como a Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas no Cinema. Teve agora a oportunidade maravilhosa de fazer os spin offs com raridades. O primeiro n\u00famero, muito especial para mim, \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/410681\/obras-primas-do-terror-gotico-italiano-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Obras Primas do Terror G\u00f3tico Italiano<\/a>. Teve o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/463490\/obras-primas-do-terror-horror-mexicano-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Obras Primas do Terror &#8211; Horror Mexicano<\/a>. E agora o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/504749\/obras-primas-do-terror-horror-japones-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horror Japon\u00eas<\/a>. Ent\u00e3o, \u00e9 muito bacana trabalhar com esse p\u00fablico com o mesmo carinho. Como eu digo, fiz uma caixa recentemente do <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/459986\/a-arte-de-mikio-naruse-edicao-limitada-com-4-cards-caixa-com-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mikio Naruse<\/a>, que \u00e9 um cinema de arte, um dos grandes cineastas do cinema cl\u00e1ssico japon\u00eas. Um premiado e importante diretor japon\u00eas que n\u00e3o era conhecido do grande p\u00fablico brasileiro e que foi redescoberto em v\u00e1rias mostras no exterior. Um mestre do n\u00edvel do (Kenji) Mizoguchi, do (Akira) Kurosawa e do (Yasujiro) Ozu. Estes s\u00e3o <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/05\/21\/mais-kurosawa-e-outras-pre-vendas-da-versatil-para-um-agosto-niponico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">os quatro grandes mestres do cinema japon\u00eas<\/a>. Lan\u00e7amos essa caixa do Naruse com v\u00e1rios extras, os filmes restaurados. Algo maravilhoso. Um lan\u00e7amento hist\u00f3rico aqui no Brasil. E, na mesma \u00e9poca, pouco tempo depois, fizemos uma caixa <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/463515\/cinema-exploitation-vol-1-edicao-limitada-com-4-cards-caixa-com-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cinema Exploitation<\/a>, trazendo Herschell Gordon Lewis, trazendo o Lucio Fulci, trazendo um dos primeiros filmes a receber a classifica\u00e7\u00e3o de &#8220;rated&#8221;, de &#8220;Proibido para Menores de 18 anos&#8221; nos Estados Unidos, um cl\u00e1ssico do grindhouse, que \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/versatilhv\/posts\/3331872583536576\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eu Bebo seu Sangue<\/a>\u201d. E tamb\u00e9m o \u201cCriatura das Profundezas\u201d, que \u00e9 um infame filme de monstros dos anos 1980. Isso foi a caixa do Cinema Exploitation, com v\u00e1rios extras, c\u00f3pias restauradas. Ent\u00e3o, assim, o mesmo carinho que eu conferi a edi\u00e7\u00f5es como A Arte de Mikio Naruse, <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/462245\/a-arte-de-max-ophuls-edicao-limitada-com-4-cards\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Arte de Max Oph\u00fcls<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/462349\/o-cinema-de-sidney-lumet-edicao-limitada-com-6-c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Cinema de Sidney Lumet<\/a>; l\u00e1 atr\u00e1s, com a <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/405205\/trilogia-da-vida-edicao-limitada-com-6-cards-caixa-com-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Trilogia da Vida<\/a>, do Pasolini, a <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/402076\/trilogia-da-guerra-3-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Trilogia da Guerra<\/a>. O mesmo carinho tenho com o Cinema Exploitation, fa\u00e7o para cada cole\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/departamento\/105492\/0528\/slashers\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Slashers<\/a>, para cada cole\u00e7\u00e3o do Giallo, para cada cole\u00e7\u00e3o do cinema de g\u00eanero. Ent\u00e3o, isso foi muito importante. E esse p\u00fablico soube reconhecer ter esse tratamento diferenciado. De a gente ter uma vis\u00e3o plural de cinema. E isso foi o meu aprendizado na 2001 V\u00eddeo. Meu aprendizado como professor da Hist\u00f3ria do Cinema. Bons filmes existem em todas as \u00e9pocas, em todas as cinematografias, em todos os g\u00eaneros. Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas preto e branco. Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas coloridos. E \u00e9 importante a gente ter a paix\u00e3o pelo cinema e a vontade de reconhecer sem preconceitos o m\u00e9rito nos diferentes g\u00eaneros e nas diferentes propostas. Entender a proposta de cada diretor. E ver se a forma cinematogr\u00e1fica como ele est\u00e1 adotando, se ela se ad\u00e9qua ao crit\u00e9rio proposto. Isso \u00e9 importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou essas cole\u00e7\u00f5es que re\u00fanem exemplos do Cinema de G\u00eanero e eu lembrei de uma observa\u00e7\u00e3o feita nas redes sociais acerca de uma, segundo a pessoa que escreveu, suposta &#8220;predile\u00e7\u00e3o da Vers\u00e1til por filmes de terror&#8221;. Na ocasi\u00e3o, voc\u00ea foi bem preciso ao explicar \u00e0 pessoas o processo de escolha das obras e a import\u00e2ncia de levar aos clientes esse tipo de cinema, tamb\u00e9m. Qual sua opini\u00e3o acerca desse preconceito que ainda existe em rela\u00e7\u00e3o ao Cinema de G\u00eanero?<\/strong><br \/>Fernando Brito \u2013 Lamento muito que esse preconceito exista. Realmente, o preconceito com o cinema de g\u00eanero existe e \u00e9 algo complicado. Na Vers\u00e1til, procuramos fazer meses tem\u00e1ticos. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes tem o m\u00eas tem\u00e1tico do terror, ou do cinema de g\u00eanero. H\u00e1, tamb\u00e9m, o m\u00eas mais dedicado a um cinema cl\u00e1ssico ou a um cinema de arte. E \u00e0s vezes voc\u00ea percebe que tem clientes que s\u00f3 compram um, ou que s\u00f3 compram outro. E tem muitos clientes que gostam de cinema, mas que acabam por ter um preconceito, uma opini\u00e3o formada contra um cinema de g\u00eanero. E acabam deixando de conhecer grandes filmes autorais desse cinema. Na verdade, o cinema de g\u00eanero, o cinema autoral, pensando no conceito do autorismo l\u00e1 da Nouvelle Critique fran\u00e7aise, da cr\u00edtica francesa que antecipou e que \u00e9 fundamental, \u00e9 a pedra basilar, te\u00f3rica, da nouvelle vague francesa, da Cahiers do Cin\u00e9ma. \u00c9 o conceito do autorismo, do cinema do autor, com essa \u00eanfase na figura do diretor, na sua assinatura cinematogr\u00e1fica. A c\u00e2mera caneta, como dizia o Alexandre Astruc. \u00c9 pensar, dentro de um cinema de autor e cinema de g\u00eanero, a obra, por exemplo, de um Mario Bava, de Jean Rollin. Pensar a obra, por exemplo, dos bons momentos do Lucio Fulci, do Dario Argento. De v\u00e1rios diretores important\u00edssimos de cinema de g\u00eanero. Acho que o maior exemplo disso, como sempre falo para os alunos, \u00e9 voc\u00ea pensar o refletir sobre o projeto Hitchcock\/Truffaut. Na verdade, esse projeto foi antecedido por um livro do \u00c9ric Rohmer e do Claude Chabrol. Esse livro de entrevistas, levado a cabo pelo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/06\/filmografia-comentada-francois-truffaut\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fran\u00e7ois Truffaut<\/a>, \u00e9 uma aula de cinema. \u00c9 uma b\u00edblia para quem gosta de cinema. E ele prova isso da\u00ed. Um cineasta de g\u00eanero, um cineasta conhecido como mestre do suspense, que se vendeu como mestre do suspense. Como algu\u00e9m que era dominado como esse r\u00f3tulo de mestre do cinema. Que era visto apenas como um bom artes\u00e3o de filmes de suspense, mas que, na verdade, \u00e9 um grande autor cinematogr\u00e1fico. Algu\u00e9m com um conhecimento da linguagem, um conhecimento pleno. E o Truffaut fez esse projeto para demonstrar isso. Ou seja, digamos que o Hitchcock \u00e9 uma perfeita demonstra\u00e7\u00e3o da intersec\u00e7\u00e3o do cinema de g\u00eanero e cinema de autor. Ent\u00e3o, isso \u00e9 muito importante. As pessoas, \u00e0s vezes, ainda t\u00eam esse preconceito e deixam de conhecer cinemas de g\u00eanero. E isso \u00e9 uma pena. E eu fico feliz que muitas pessoas que tinham esse preconceito, acabaram conhecendo Mario Bava, acabaram conhecendo v\u00e1rios grandes diretores de g\u00eanero gra\u00e7as \u00e0 Vers\u00e1til. E v\u00e1rias pessoas falam isso. Quando tem esses posts de perguntas como: &#8220;Qual diretor voc\u00ea conheceu pela Vers\u00e1til?&#8221; \u00e9 que a gente v\u00ea o nosso trabalho. Teve a miss\u00e3o cumprida que foi a de apresentar as p\u00e9rolas. Apresentar os diretores \u00e0s pessoas. Eu adoro essa parte do trabalho. Para um curador, n\u00e3o tem nada melhor do que ver o brilho nos olhos dos colecionadores. V\u00ea-los se deixarem conhecer. Se abrirem ao novo. N\u00e3o ficarem apenas na nostalgia, nos filmes conhecidos. E a Vers\u00e1til prop\u00f5e isso. \u00c9 a empresa que mais lan\u00e7a filmes fora do circuito de filmes cl\u00e1ssicos, filmes pouco convencionais. Temos recortes diferenciados e n\u00e3o ficamos no mais do mesmo. Isso \u00e9 um diferencial nosso. Sempre foi. Eu procuro sempre trazer essas p\u00e9rolas. Porque acho que \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do homevideo: apresentar esses filmes raros, fazer esse trabalho. Como a Sess\u00e3o Comodoro <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/sp\/santos-regiao\/blog\/espaco-de-cinema\/post\/legado-de-carlos-reichenbach-segue-firme-com-projeto-em-santos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fez em S\u00e3o Paulo com o Carlos Reichenbach<\/a> ou o Projeto Raros, em Porto Alegre, <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/smc\/noticias\/projeto-raros-lanca-mostra-vinganca-dos-filmes-b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">com o Christian Verardi e o Leopoldo (Tauffenbach)<\/a>, um grande cin\u00e9filo l\u00e1 de Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em rela\u00e7\u00e3o a curadorias dos extras, Fernando, voc\u00ea poderia falar um pouco acerca desse processo?<\/strong><br \/>Fernando Brito \u2013 A gente sempre estuda essa busca do extras. A cada edi\u00e7\u00e3o, fazemos um mapeamento do que tem de extra do que est\u00e1 dispon\u00edvel l\u00e1 fora, do que a gente pode trazer. E procuro sempre trazer extras que \u00e9 de um diretor, de um making off. Por exemplo, quando tem extras, mas queremos acrescentar, procuro produzir novos extras, e tamb\u00e9m propor rela\u00e7\u00f5es. A cada lan\u00e7amento, analisamos os extras dispon\u00edveis j\u00e1 produzidos sobre o mesmo e tentamos viabilizar sua utiliza\u00e7\u00e3o em nosso lan\u00e7amento. Como disse, procuro sempre conte\u00fados relevantes, como making of, entrevistas com o diretor e a equipe do filme, coment\u00e1rios em \u00e1udio, an\u00e1lises e mesmo filmes correlatos (longas, curtas, etc.). O importante \u00e9 trazer o filme e tudo aquilo que o cerca, pois o cinema s\u00f3 se enriquece quando visto dentro do seu contexto hist\u00f3rico, cultural e de produ\u00e7\u00e3o. Por exemplo, a edi\u00e7\u00e3o nossa do \u201c<a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/415836\/kagemusha-a-sombra-do-samurai-edicao-especial-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Kagemusha<\/a>\u201d, al\u00e9m de trazer a vers\u00e3o mais longa pela primeira vez no Brasil, e alguns extras referentes ao filme, n\u00f3s trouxemos um filme que \u00e9 muito importante na evolu\u00e7\u00e3o do Kurosawa no cinema, que \u00e9 um filme maravilhoso do Kazuo Mori, um diretor <a href=\"http:\/\/www.tasteofcinema.com\/2015\/25-great-jidaigeki-films-that-are-worth-your-time\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">especializado em jidaigeki<\/a>, que \u00e9 o drama de \u00e9poca japon\u00eas, no qual envolve tamb\u00e9m filmes de samurai, que chama \u201cA Vingan\u00e7a do Samurai\u201d, de 1952, como quatro atores que viriam a fazer depois \u201cOs Sete Samurais\u201d, e com o roteiro do Akira Kurosawa. \u00c9 um filme maravilhoso e rar\u00edssimo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/versatilhv\/posts\/2523716864352156\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">e que est\u00e1 l\u00e1 nos extras do \u201cKagemusha\u201d<\/a>. Ent\u00e3o, propor extras diferentes, trazer conte\u00fado relevante. A empresa que mais trouxe coment\u00e1rios em \u00e1udio traduzidos foi a Vers\u00e1til. A gente procura fazer esse diferencial. Acho importante os extras. Porque \u00e9 como aquilo que eu falo: os filmes n\u00e3o s\u00e3o apenas os filmes. Eles s\u00e3o os filmes e tudo aquilo que os cerca. E isso \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59004\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Lobo-Solitario.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"523\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Lobo-Solitario.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Lobo-Solitario-300x209.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Lobo-Solitario-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Andr\u00e9, voc\u00ea citou as livrarias e os produtos exclusivos. Em que momento essa parceria de exclusividade foi percebida como algo vi\u00e1vel e rent\u00e1vel?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Quando n\u00f3s come\u00e7amos a desenvolver um produto com melhor custo benef\u00edcio pensando nos clientes. Mas acredito que at\u00e9 antes disso, houve uma certa adequa\u00e7\u00e3o ao produto. Entre algumas hist\u00f3rias em que isso ficou muito evidente, recordo-me de uma. Coincidentemente, a Vers\u00e1til fica a duas quadras da PUC-SP. Sem querer puxar muito a sardinha pela forma\u00e7\u00e3o em Psicologia (risos), um dos produtos que achamos interessante em lan\u00e7ar e trabalhar com as institui\u00e7\u00f5es de ensino foram o <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/225826\/freud-alem-da-alma-2-dvds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">filmes do Freud<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/225783\/c-g-jung-a-sabedoria-dos-sonhos-minisserie\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">do Jung<\/a>, ambos, inclusive, sucesso de vendas. E uma das principais faculdades no pa\u00eds para estudar psicologia \u00e9 a PUC. Lembro quando est\u00e1vamos tentando fechar uma venda grande, fomos at\u00e9 l\u00e1, conversamos com o reitor e com alguns professores. Falamos sobre fazer um produto premium, al\u00e9m destes lan\u00e7ados, colocando entrevistas como extras \u2013 mas sempre individuais, sem a ideia atual de cole\u00e7\u00e3o. E a\u00ed foi uma situa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa que vivenciamos. Ap\u00f3s a sa\u00edda da reuni\u00e3o para a videoteca, vimos uma pequena \u201cbanca\u201d vender por R$10 os filmes da Vers\u00e1til. Inclusive, com o logo estampado da empresa (risos). Nada foi dito, mas certamente deve ter passado na cabe\u00e7a de alguns: &#8220;Porque estamos fazendo esse investimento se meu aluno est\u00e1 tendo acesso a isso de outra forma e at\u00e9 mais barata&#8221;. Complicado como funciona essa l\u00f3gica de valores, para voc\u00ea ver como o mercado de homevideo sempre foi muito sens\u00edvel a reajustes de pre\u00e7o. Desde muito antes daquela \u00e9poca, quando comecei \u2013 inclusive at\u00e9 os dias atuais \u2013 todos os DVDs simples com um filme eram e s\u00e3o vendidos a R$40 para o consumidor final. E a\u00ed a pirataria pegava a mesma m\u00eddia, duplicava em um DVD-R e colocava \u00e0 venda por R$10. Obviamente que aquilo n\u00e3o era nada vantajoso nem para n\u00f3s nem para quem se interessava pelo conte\u00fado. O &#8220;pirateiro&#8221; comprava um produto da Vers\u00e1til, replicava uma dezena, pagava a m\u00eddia e ainda saia com lucro. Foi quando percebi que era aquele (enf\u00e1tico) formato que estava sendo desenvolvido por n\u00f3s que n\u00e3o estava ajudando e fazia sentido a queda de faturamento ano ap\u00f3s ano que vivenci\u00e1vamos. Foi quando come\u00e7amos a perceber como outras empresas no exterior (principalmente na Europa) estavam encontrando alternativas, principalmente com m\u00eddias de \u00e1udio, que j\u00e1 competiam espa\u00e7o com os apps. J\u00e1 t\u00ednhamos passado por revolu\u00e7\u00f5es de softwares para facilitar a ouvir m\u00fasica e v\u00edamos que as distribuidoras de CD de m\u00fasica, l\u00e1 fora, fazendo edi\u00e7\u00f5es com valores maiores e produtos mais premium da mesma forma que uma ou outra distribuidora de filme. Foi quando a gente come\u00e7ou a \u201ctropicalizar\u201d essa realidade para o Brasil. O ticket m\u00e9dio do brasileiro \u00e9 baixo. N\u00e3o podemos colocar o produto premium a R$300, R$500 ou R$1000 como era feito na Europa, mas poder\u00edamos pensar em um formato para chegar pr\u00f3ximo. Por exemplo, &#8220;R$40 \u00e9 vantajoso? \u00c9 dif\u00edcil mexer nesse valor? Ent\u00e3o vamos come\u00e7ar a trabalhar com R$60 &#8211; R$70 &#8211; R$80. Ao inv\u00e9s de pegar um disco, vamos colocar dois, tr\u00eas discos e veremos o que poder\u00edamos reduzir de valor na produ\u00e7\u00e3o. Com a f\u00e1brica, ir\u00edamos trabalhar com mais quantidade de discos, logo poderia ajudar no pre\u00e7o do individual. Com os direitos autorais, ir\u00edamos comprar mais filmes e conseguir um menor pre\u00e7o no titulo individual do cat\u00e1logo. O Fernando Brito refor\u00e7ava ainda mais a agregar valor ao produto da cole\u00e7\u00e3o. Com um ou dois t\u00edtulos fortes, e demais in\u00e9ditos, nunca lan\u00e7ados no Brasil, ou rec\u00e9m remasterizados l\u00e1 fora, ou at\u00e9 que mereceriam estar em um box pelo tema retratado no conceito do produto ou potencial que poderiam desenvolver uma vez lan\u00e7ados. Aos poucos, foi se aperfei\u00e7oando a possibilidade de colocar dois filmes no mesmo disco, sem perder a qualidade, fazendo muitos testes. Ali, est\u00e1vamos concebendo um produto com um custo benef\u00edcio mais atrativo. Ent\u00e3o, ao sugerir ao cliente que estava visitando a livraria e perceber que poderia levar um filme por R$40 ou seis filmes por R$70, gerava uma reflex\u00e3o sobre o custo-benef\u00edcio do produto. Quando a livraria viu aquilo como um produto premium, dava destaque. Foi nesse o momento em que a Vers\u00e1til come\u00e7ou a se aproximar ainda mais das livrarias, principalmente a Livraria Cultura que percebeu a quantidade de conte\u00fado que havia naqueles produtos e come\u00e7aram a aumentar os pedidos conosco. Em contrapartida, as locadoras, que j\u00e1 estavam buscando sobreviv\u00eancia ap\u00f3s as \u201cblockbusters\u201d e a pirataria, compravam e n\u00e3o sabiam como iriam trabalhar nossos produtos. Colocando mais filmes em um \u00fanico produto nas prateleiras, achando irreal a inser\u00e7\u00e3o de dois filmes no mesmo disco para o pessoal alugar (risos). Alguns eram criativos. Tiravam uma c\u00f3pia do cartaz do filme e colocavam na frente da caixinha do DVD, ou copiavam e colocavam a caneta o numero do disco\/filmes enquanto outros mudaram a tabela de valores especialmente para nossos produtos. Por outro lado, no momento em que coloc\u00e1vamos quatro a seis filmes no mesmo produto, enquanto alguns reclamavam que precisariam fazer muito mais c\u00f3pias, trabalhar muito mais, outros n\u00e3o sabiam como iam desenvolver. Enquanto isso, as majors continuavam no mesmo formato de sempre. Outros, n\u00e3o sabiam como precificar e explicar ao cliente que ele ia levar um box de filmes e que ali iria ter o valor de seis produtos e n\u00e3o apenas um, como estavam acostumados. Havia muitas limita\u00e7\u00f5es\/resist\u00eancia para se mobilizar e saber trabalhar aquele produto. Al\u00e9m de que, a cada ano, havia menos locadoras ativas, n\u00f3s percebemos que era a \u201chora de virar a chave\u201d. Embora com as livrarias, \u00e9ramos, muitas vezes, tratados como um entre 900 fornecedores. S\u00f3 depois de muito tempo passou a ser diferente e come\u00e7aram a dar import\u00e2ncia ao produto da marca Vers\u00e1til e pela identidade que t\u00ednhamos. Na metade dessa segunda d\u00e9cada, passamos a ter um relacionamento diferente com a Livraria Cultura. Faz\u00edamos reuni\u00f5es semestrais, alinh\u00e1vamos todos os lan\u00e7amentos, n\u00e3o somente os exclusivos, m\u00eas a m\u00eas: a comunica\u00e7\u00e3o era muito mais presente e alinhada. Se ela estava em um bom momento, tamb\u00e9m est\u00e1vamos. Todo mercado acompanhava com t\u00edtulos fortes, e o inverso da mesma forma. Ao mesmo tempo, era uma parceria muito mais prestigiosa. Recordo de citarem em que houve diversos momentos em que fic\u00e1vamos entre o primeiro e o segundo lugar como distribuidora de produtos em m\u00eddia f\u00edsica mais vendida da Livraria Cultura. Competindo o \u201cp\u00f3dio\u201d com a inabal\u00e1vel Disney.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em que momento essa parceria come\u00e7a a declinar por conta dos problemas financeiros e administrativos das livrarias Cultura e Saraiva, que inclu\u00edam, tamb\u00e9m, <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2018-out-25\/leia-pedido-recuperacao-judicial-livraria-cultura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma recupera\u00e7\u00e3o judicial<\/a>?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Melo \u2013 Na verdade, em 2016, bem antes da recupera\u00e7\u00e3o judicial, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7ou a se complicar, porque eles passaram a ter alguns problemas de pagamento, principalmente a livraria Cultura. E n\u00f3s depend\u00edamos deles muito, muito mesmo. Nesse per\u00edodo, eu e o meu irm\u00e3o, o Juliano, come\u00e7amos a atuar no Mercado Livre e a entender como era atuar diretamente com o cliente final e a trabalhar com uma loja. Ap\u00f3s alguns meses, em um hotsite, fizemos alguns experimentos de vendas de produtos isolados e testando o impacto em que poderia se atingir. Na primeira ocasi\u00e3o em que houve um foco em quem tinha interesse em adquirir mais de um volume de uma cole\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, por exemplo, Obras Primas do Terror volume 4 e o volume 7 tinham um valor mais em conta do que comprados individualmente pelos sites das livrarias. Depois fomos abrindo leque para outros produtos. E foi, realmente, um jeito de percebermos que tinha um p\u00fablico que ainda tinha interesse em nosso produto. E n\u00e3o fazia sentido da Livraria estar atrasando os pagamentos para n\u00f3s. Quando, em 2018, aconteceu a recupera\u00e7\u00e3o judicial de fato, quando houve a cartada final, nos fez perceber que t\u00ednhamos que repensar toda estrat\u00e9gia que est\u00e1vamos nos baseando nos \u00faltimos anos. Fornecer mercadoria de uma forma mais consciente, sen\u00e3o n\u00e3o ir\u00edamos sobreviver. Com dividas em bancos, diversos fornecedores, impostos e royalties em atraso: est\u00e1vamos prestes, em diversos momentos, a nos tornar mais uma empresa que entraria em fal\u00eancia. Faz\u00edamos reuni\u00f5es de diretoria a cada semana, toda vez saindo delas em clima de vel\u00f3rio. Inclusive, at\u00e9 fazendo um par\u00eanteses em rela\u00e7\u00e3o aos exclusivos que t\u00ednhamos com a Livraria Cultura, uma das cole\u00e7\u00f5es que a gente mais se popularizou ao longo da Vers\u00e1til <a href=\"https:\/\/studioghibli.com.br\/2014\/03\/25\/lancamento-colecao-studioghibli\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">foi a Studio Ghibli<\/a>.\u00a0 Em 2016, no primeiro \u201ccalote\u201d que sofremos da Livraria Cultura, tivemos problemas em acertar valores com a detentora de direitos l\u00e1 fora. N\u00f3s t\u00ednhamos feito esse acerto de exclusividade com a Cultura com um prazo para pagar. Esse prazo estava relacionado com o que n\u00f3s t\u00ednhamos acertado com os detentores \u2013 e nossa margem de lucro, sempre foi muito pequena. E o que aconteceu? A Cultura n\u00e3o pagou, n\u00f3s n\u00e3o pudemos acertar com o est\u00fadio, e ficamos com uma imagem muito prejudicada l\u00e1 fora. Mesmo apresentando mat\u00e9rias e justificativas do que estava ocorrendo no pa\u00eds, n\u00e3o queriam saber: o acordo foi acertado e deveria ter sido pago. Parcelamos os valores em anos e foi realmente um per\u00edodo muito dif\u00edcil que come\u00e7ou desde 2016 para a gente. Em 2018, com a retomada dos atrasos, novamente a situa\u00e7\u00e3o voltou. \u00c9 horr\u00edvel voc\u00ea dar sua palavra, tudo estar indo conforme programa\u00e7\u00e3o e, de repente, voc\u00ea precisa tomar a decis\u00e3o entre pagar sal\u00e1rio de quem est\u00e1 todo o dia ao seu lado, ou manter a palavra. Demorou anos para apaziguarmos essa situa\u00e7\u00e3o. Embora nunca tivesse tido um momento com muita margem, considerando que a gente trabalhava com lojistas, pelo menos nossos sal\u00e1rios consegu\u00edamos manter. Recentemente <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a4lX3V_K_Gw&amp;t=2193s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">participei em uma live<\/a> (N.E. Entrevista realizada em 22\/09\/2020) em que falei que aquela foi a ocasi\u00e3o em que eu desenvolvi vitiligo, algo relacionado ao estresse por conta dessa dificuldade que a gente acabou passando. Outro empres\u00e1rio, do mesmo ramo, chegou a citar em outra live o desenvolvimento da depress\u00e3o que tamb\u00e9m teve naquele per\u00edodo. Certamente foram diversos que passaram por isso. Foi muito dif\u00edcil para muitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste ponto que voc\u00eas decidiram focar mais no contato direto com o consumidor final?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Em 2020, hoje, \u00e9 o que possibilitou principalmente estarmos investindo em blu-ray, em aquisi\u00e7\u00f5es de filmes mais caros e recentes. Mas tudo gra\u00e7as a 2019, a partir das recupera\u00e7\u00f5es judiciais, quando focamos no desenvolvimento da nossa infraestrutura e na imagem da loja online pr\u00f3pria. Eu lembro que, em 2019, desde o inicio do ano, em janeiro e fevereiro, n\u00f3s come\u00e7amos com um dos piores faturamentos da hist\u00f3ria da Vers\u00e1til e chegamos em novembro e dezembro com um dos melhores faturamentos da nossa hist\u00f3ria. Tudo no mesmo ano. Foi o segundo grande momento que est\u00e1vamos vivenciando. Aquele foi um ano muito decisivo para n\u00f3s. Eu lembro que, em dezembro, reuni toda a equipe e apresentei esses dados. E iniciei falando: &#8220;agora, precisamos avaliar o que faremos para sobreviver nesse mercado&#8221;. E um dos principais pontos levantados foram: &#8220;Vamos voltar para o blu-ray. Vamos desenvolver a nossa loja, vamos melhorar o nosso SAC, melhorar nossa forma de envio. \u00c9 melhor pecar pelo excesso do que pela falta&#8221;. Entre as principais sugest\u00f5es, reabr\u00edssemos o projeto em retomar os BDs (N.E. Sigla para blu-ray disc) e fazer o volume tr\u00eas do Ghibli acontecer. Embora um pouco da d\u00edvida com o est\u00fadio ainda estivesse em aberto, a maior parte j\u00e1 havia sido paga e est\u00e1vamos planejando, logo em janeiro, em como negociar. Foi quando disponibilizaram os filmes para o Netflix. Isso nos fez acreditar que perderia o potencial comercial e come\u00e7amos a pensar em outras op\u00e7\u00f5es. Depois de dois meses, em mar\u00e7o, a gente j\u00e1 estava come\u00e7ando a colocar algumas informa\u00e7\u00f5es nas redes sociais, teasers e informa\u00e7\u00f5es para conscientizar e movimentar o pessoal que \u00edamos voltar para o blu-ray \u2013 tanto com lan\u00e7amentos (N.E. O box Carpenter Essencial deu in\u00edcio a essa leva <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/03\/07\/agora-sim-versatil-volta-para-os-bracos-da-alta-definicao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no primeiro semestre de 2020<\/a>) como relan\u00e7amentos muito pedidos. Mas n\u00e3o seria tamb\u00e9m uma tarefa f\u00e1cil, pois n\u00e3o s\u00f3 a produ\u00e7\u00e3o do blu-ray \u00e9 bem mais cara que a do DVD (tr\u00eas vezes mais caro s\u00f3 na produ\u00e7\u00e3o na f\u00e1brica, e \u00e0s vezes at\u00e9 mais, dependendo se a m\u00eddia for 25gb ou 50gb), ainda havia o fator do p\u00fablico estar acostumado com os BDs encalhados nas lojas Americanas por R$9,90. Da mesma forma como estava diretamente relacionada a quantidade de material que agrega ainda mais ao produto (cards, p\u00f4ster, livreto e, principalmente, a luva), sem contar a crise arrastada no pa\u00eds: n\u00e3o seria um produto barato. \u00c9 um produto mais premium, por\u00e9m atinge n\u00e3o s\u00f3 o cin\u00e9filo-cliente da Vers\u00e1til, como, tamb\u00e9m, uma parte de quem gosta de colecionar, agregando valor ao produto. E isso teve um resultado muito bom, pelo que \u00e9 poss\u00edvel acompanhar no desenrolar deste ano em nossos lan\u00e7amentos, m\u00eas ap\u00f3s m\u00eas, agora no final do ano, principalmente, que temos nove blu-rays em novembro e dezembro, entre exclusivos e cole\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o para ser lan\u00e7ados (N.E. Entrevista realizada em 22\/09\/2020). Al\u00e9m at\u00e9 do que t\u00ednhamos capacidade de fazer a esse prazo, n\u00f3s investimos em equipe e reformulamos todo o pessoal para atender a essa demanda de final de ano. Se as pr\u00e9-vendas promocionadas continuarem a fazer sucesso e as vendas desses produtos tamb\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 porqu\u00ea a Vers\u00e1til n\u00e3o continuar e at\u00e9 acelerar esse ritmo em 2021 com mais (lan\u00e7amentos em) BD.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59006\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Obras-Primas-do-Terror-14.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Obras-Primas-do-Terror-14.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Obras-Primas-do-Terror-14-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 havia falado em outras oportunidades em grupos de colecionadores acerca da necessidade de esclarecer junto ao consumidor, bem como a licenciadores estrangeiros e junto \u00e0s livrarias, a confus\u00e3o que alguns faziam <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2010\/10\/19\/continental-descaso-e-misterios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entre a Vers\u00e1til e a extinta Continental<\/a>, distribuidora que lan\u00e7ava filmes de qualidade duvidosa e proced\u00eancias de direitos autorais d\u00fabias. Poderia abordar oficialmente esse problemas que a Vers\u00e1til acerca das obras que sa\u00edram, tamb\u00e9m, pela Continental, e que causou imbr\u00f3glios junto \u00e0s livrarias e clientes?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sempre a delicada quest\u00e3o direitos autorais com filmes no mercado. \u00c9 complicado de ser explicado em poucas palavras ou determinar uma variante s\u00f3, mas podem ser comparados como contratos mut\u00e1veis e desde que favore\u00e7a ambas as partes de acordo com o que procuram. Podem \u201cmudar de m\u00e3os\u201d da noite para o dia a partir de uma negocia\u00e7\u00e3o X ou Y; podem durar de 2 a 40 anos; e h\u00e1 os sublicenciamos. N\u00e3o s\u00e3o contratos baratos (quando pensamos no c\u00e2mbio D\u00f3lar X Real + % de IR). H\u00e1 exclusividades, h\u00e1 quem \u201csenta em cima\u201d, n\u00e3o lan\u00e7a e escolhe n\u00e3o fazer nada estrategicamente. E s\u00e3o todos confidenciais. A grande verdade \u00e9 essa. O que mais intriga a todos \u00e9 a confidencialidade, e n\u00e3o \u00e9 a toa. A justificativa \u00e9 se empresa X adquire por Y determinado tempo e abre a informa\u00e7\u00e3o, todo mercado pode atuar de forma K ou Z com o filme (com atores, diretores, tema em comum, por exemplo), ou at\u00e9 aguardar que o per\u00edodo acabe para adotar um posicionamento diferente no mercado com aquele produto no per\u00edodo posterior. Por via de regra, um filme pode ser de uma distribuidora por um per\u00edodo m\u00ednimo de tr\u00eas anos, por\u00e9m pode ser por menos por situa\u00e7\u00f5es X ou Y acordadas. Sei que parece muito vago, mas n\u00e3o tem f\u00f3rmula simples pra explicar oficialmente. Outra vertente, por exemplo, \u00e9, em um contrato fechado, a empresa adquirir o direito de um mesmo filme de duas a tr\u00eas atua\u00e7\u00f5es comerciais, ou at\u00e9 o &#8220;guarda-chuva completo\u201d, com um pacote de direitos de v\u00e1rios filmes. Significa que ela pode comprar para lan\u00e7ar em DVD\/Bluray, para lan\u00e7ar em VOD, para o Streaming, para a TV aberta\/fechada, e trabalhar com cada uma das plataformas em janelas\/per\u00edodos diferentes para melhor potencializar o investimento feito. Isso, hoje. Na \u00e9poca em quem meu pai atuava no mercado, havia menos op\u00e7\u00f5es e recordo de hist\u00f3rias que aconteciam casos de distribuidoras trabalhar em homev\u00eddeo durante todo o contrato, e, quando prestes a vencer, compravam outro \u2013 ou at\u00e9 \u2013 outra distribuidora fazia esse papel, justamente para trabalhar em um formato complementar a primeira e \u201csair por cima\u201d. Exatamente por isso que deve haver a confidencialidade (enf\u00e1tico). Entende? Hipoteticamente falando, vamos dizer que a Vers\u00e1til lan\u00e7ou um filme em 2015 e compramos os direitos de um filme por tr\u00eas anos. A partir da mesma data vencida h\u00e1 tr\u00eas anos, os filmes n\u00e3o s\u00e3o mais da distribuidora \u2013 a n\u00e3o ser que ela renove. N\u00e3o podemos produzi-los mais na f\u00e1brica ou comercializ\u00e1-los. Por\u00e9m, se eu tiver pe\u00e7as em estoque e informar a sublicenciadora\/detentora de direitos se posso continuar vendendo esses filmes, e fazer um contrato complementar somente de royalties e fazer o repasse a eles l\u00e1 para a frente, algumas empresas internacionais aceitam. Outras licenciadoras dizem algo similar a: &#8220;Acerte conosco, simbolicamente, US$500-1k, n\u00f3s prolongamos um pouco o contrato, e renovamos os direitos at\u00e9 que voc\u00ea venda essas pe\u00e7as legalmente&#8221;. E, claro, outras n\u00e3o querem conversa. Al\u00e9m de todo esse cen\u00e1rio, como em todo lugar, existiam alguns pilantras que trabalhavam no mercado. Faziam contratos falsos, por exemplo, em italiano ou mandarim. Ou, por terem alguma informa\u00e7\u00e3o privilegiada. Por exemplo: detentoras que haviam fechado as portas e estavam negociando individualmente os filmes com terceiros, havendo um hiato de tempo, at\u00e9 que os filmes voltassem a estar dispon\u00edveis novamente. Ou situa\u00e7\u00f5es em que os direitos autorais voltariam para os produtores originais, e estes n\u00e3o estavam cientes \u2013 o que n\u00e3o significa que pode reaver os royalties das vendas de um filme em um futuro pr\u00f3ximo. Ou at\u00e9 situa\u00e7\u00f5es em que os direitos estavam sendo negociados em justi\u00e7a a partir de herdeiros. Ent\u00e3o, dito isso, \u00e9 compreens\u00edvel que alguns filmes que a Vers\u00e1til lan\u00e7ou, outras distribuidoras tamb\u00e9m lan\u00e7aram\/poderiam lan\u00e7ar. Seja por terem adquirido os direitos em outro per\u00edodo, ou at\u00e9 com empresas diferentes. Outro exemplo eram filmes que estavam em dom\u00ednio p\u00fablico. Os filmes, por situa\u00e7\u00e3o X ou Y que acontecia no mercado, tornaram-se universais, no sentido de direito p\u00fablico. Todas as distribuidoras independentes j\u00e1 trabalharam com isso, por tratar-se de um baixo investimento. Claro, era muito atrativo lan\u00e7ar esses filmes para compor o cat\u00e1logo, e, obviamente, havia impasses. Depois de um momento, \u00e0s vezes, informa\u00e7\u00e3o X era mais atualizada do que a Y. E logo outros filmes que tinham os direitos autorais eram lan\u00e7ados por distribuidora X e alegavam ser de dom\u00ednio p\u00fablico pela Y. A Vers\u00e1til, inclusive, j\u00e1 entrou uma ocasi\u00e3o ou outra com um filme que havia sa\u00eddo por outra distribuidora, mas sempre buscou entrar em acordo. Isso n\u00e3o \u00e9 ilegal ou exclusivo da Vers\u00e1til ou do Brasil. Ocorre o mesmo em diversos pa\u00edses, como tamb\u00e9m \u00e9 formalizada, assinada por ambas as partes e pode ser considerada em ambiente judicial. Por\u00e9m, quando a gente sentava para negociar com algumas empresas, por exemplo, n\u00e3o queriam dar explica\u00e7\u00e3o. Momento ou outro fomos questionados e acontecia algo ainda pior: eram fornecidos documentos falsos, ou at\u00e9 em outros idiomas (n\u00e3o fazendo sentido, por exemplo, um filme do Fellini, italiano, com contrato em mandarim). E come\u00e7avam as hist\u00f3rias&#8230; Mas, a grande realidade \u00e9 que cedo ou tarde todo o mercado fica sabendo e a empresa fica marcada. E a\u00ed o representante sumia, ou empresa mudava de nome&#8230; Fica evidente e chato, mas n\u00e3o havia outra escolha sen\u00e3o comprar briga judicialmente ou deixar passar. Independente de qualquer cen\u00e1rio, para a Vers\u00e1til, assim como aprendi com meu pai, sempre tivemos postura de negociar os direitos autorais de nossos filmes, buscar alternativas amig\u00e1veis e n\u00e3o denegrir imagem e outras empresas \u2013 independente de como atuavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como era a receptividade junto \u00e0s livrarias nesses casos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 A atua\u00e7\u00e3o tanto das locadoras quanto das livrarias ou revendedoras \u00e9 de n\u00e3o se importar com quest\u00e3o de direitos autorais ou de como as distribuidoras v\u00e3o negociar ou trabalhar isso. Porque ela quer vender o produto e ponto. Agora, se a livraria come\u00e7a a perceber que h\u00e1 uma massiva quantidade de devolu\u00e7\u00f5es de clientes, isso come\u00e7a a afet\u00e1-la (custo de frete), logo, pode haver uma reavalia\u00e7\u00e3o \u2013 ou mesmo manter de acordo com as diretrizes da empresa. Voc\u00ea pode vivenciar isso, por exemplo, da quantidade de produtos de origem duvidosa sendo revendida pelos grandes marketplaces. H\u00e1 tamb\u00e9m livraria\/revendedor\/locadora que fala que \u00e9 normal, que n\u00e3o vai se importar com isso; ou tem uma \u00e1rea, como algumas grandes, que cuidam exclusivamente com SAC para tratar disso. Se \u00e9 frequente ou n\u00e3o, faz parte do neg\u00f3cio \u2013 mas se gera custo, cedo ou tarde, certamente, vai afetar. Por\u00e9m, pelo menos no homevideo, percebemos que isso vem se tornado diferente, quando as distribuidoras come\u00e7aram a falar diretamente com os colecionadores. Eu acho que estamos em um momento legal e que vem crescendo: existe uma consci\u00eancia do colecionador, e, do mesmo lado, uma preocupa\u00e7\u00e3o pela experi\u00eancia que o cliente vai passar. Uma preocupa\u00e7\u00e3o para o consumidor entender o que \u00e9 uma distribuidora que trabalha de forma id\u00f4nea e trabalha com produtos de qualidade. Porque, tamb\u00e9m em muitas ocasi\u00f5es, o consumidor entra em uma livraria e est\u00e1 pouco ligando quem \u00e9 a editora do livro, quem \u00e9 a distribuidora de um filme, quem \u00e9 que vai fazer o material extra, se paga ou n\u00e3o imposto ou det\u00e9m os direitos. N\u00e3o. Ele vai pegar o produto, vai manusear, vai experimentar. Se gostar, ele compra e consome. Se n\u00e3o, ele vai para outro. Eu acho que tinha um pouco disso que estava enraizado, de fato, no com\u00e9rcio, mas hoje percebemos que isso vem mudando. As pessoas se preocupam com a imagem institucional da marca, ou se, por exemplo, um diretor\/s\u00f3cio da empresa j\u00e1 foi envolvido em uma polemica envolvendo situa\u00e7\u00f5es il\u00edcitas, ou teve uma atitude racista, por exemplo, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/09\/entrevista-igor-oliveira-cpc-umes-filmes-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Na entrevista que fiz com Igor Oliveira<\/a>, coordenador comercial do CPC UMES Filmes, selo especializado em cinema sovi\u00e9tico e russo, abordei justamente essa nova maneira de se aproximar do p\u00fablico consumidor de m\u00eddia f\u00edsica, em grupos e redes sociais. Algo bem diferente de como era no passado, quando n\u00e3o imagin\u00e1vamos uma empresa major dialogando com seu p\u00fablico. Igor afirmou que, para ele, daqui para frente, n\u00e3o h\u00e1 outro modo do mercado seguir. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre essa proximidade da Vers\u00e1til junto ao seu p\u00fablico nas redes e grupos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 O Igor \u00e9 10! Desde que conhecemos o trabalho que desenvolve e a qualidade do conte\u00fado do CPC Umes Filmes, decidimos logo nos prim\u00f3rdios da nossa loja que n\u00e3o t\u00ednhamos como pensar em um parceiro melhor e que mereceria destaque \u2013 tanto que foi a \u00fanica empresa que dividimos os produtos, sen\u00e3o os nossos, em nossa vitrine (altamente prov\u00e1vel que isso mude em 2021). Recordo de ter percebido, no final de 2019, quando est\u00e1vamos percebendo a cria\u00e7\u00e3o de alguns abaixo assinados (pedindo lan\u00e7amentos de filmes), reclama\u00e7\u00f5es constantes no site do Blog do Jotac\u00ea quanto a aus\u00eancia dos BDs da Vers\u00e1til no mercado e uma comunidade bem ativa de colecionadores nas m\u00eddias sociais, o Fora de Cat\u00e1logo. Um grupo com personalidade forte, bem aberto a novos membros, e exclusivamente para colecionadores. Envolvendo muita a intera\u00e7\u00e3o do interlocutor das lives, Oscar Parlamone, com outros colecionadores, come\u00e7aram a comentar, enviar e-mails e questionar algumas distribuidoras, juntamente com quem tinha interesse na compra de m\u00eddias f\u00edsica, do fato de n\u00e3o estarem lan\u00e7ando ou das independentes em lan\u00e7ar produtos mais recentes\/comerciais, j\u00e1 que as majors estavam cada vez menos trabalhando com a m\u00eddia f\u00edsica. &#8220;Porque distribuidora X est\u00e1 lan\u00e7ando, e a Y tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1? H\u00e1 um ano, ela estava lan\u00e7ando tudo e de repente, s\u00f3 se fala em streaming? E depois que o filme sair do plataforma? Onde est\u00e3o os BDs? Por que a Vers\u00e1til tem lan\u00e7ado tanto produto em DVD e nada em BD?&#8221;, indagavam. Acredito que, esse momento, teve uma enorme import\u00e2ncia, pois motivou a comunidade de cin\u00e9filos a ficarem mais ativos, e, principalmente, foi o momento em que vi ali uma oportunidade em esclarecer muitas d\u00favidas e, tamb\u00e9m, em apresentar n\u00e3o s\u00f3 os filmes e o trabalho que desenvolv\u00edamos na Vers\u00e1til, como a loja em si, como troca e tentar\u00edamos viabilizar e atender pedidos. Eu queria entender um pouco melhor o que o colecionador buscava dali em diante. Tamb\u00e9m percebia muita confus\u00e3o e havia necessidade de um di\u00e1logo\/explica\u00e7\u00f5es de como o mercado agia. Ent\u00e3o, comecei a, pessoalmente, eu mesmo, com meu perfil particular no Facebook, a conversar com o colecionador. Eu me identificava como sendo diretor da Vers\u00e1til e opinava, explicando no que concordava ou n\u00e3o. Muitos me julgaram negativamente por conta disso. &#8220;Ah, n\u00e3o acredito que voc\u00ea, diretor da Vers\u00e1til, est\u00e1 vindo falar comigo&#8221;, era algo que eu lia como resposta. Julgavam que, por ser diretor, dando uma explica\u00e7\u00e3o X ou Y, que estava destratando ou com goza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o era isso! Minha inten\u00e7\u00e3o era, de fato, dialogar. Acho que muitos estranharam ou at\u00e9 acreditavam que eu era fake (risos). A meu ver, sou uma pessoa como qualquer outra. Desenvolvo meu trabalho e tenho as minhas responsabilidades \u2013 assim como muitos colecionadores e cin\u00e9filos. Ent\u00e3o, a ideia era justamente abrir um di\u00e1logo. Eu via muitas descren\u00e7as ou muitas informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o estavam batendo com quando est\u00e1vamos fazendo os lan\u00e7amentos. Por exemplo, quando a gente estava lan\u00e7ando \u201cFilme Noir Vol. 12\u201d, e a\u00ed algumas pessoas do grupo comentavam: &#8220;De novo Filme Noir?&#8221; E a\u00ed eu acho que, bem, deveria ter algo mais al\u00e9m desse coment\u00e1rio. E eu via necessidade de interagir mais com este pessoal: \u201cQual a sua ideia? O que te atrai mais em um lan\u00e7amento?\u201d Foi naquele momento em que refleti que n\u00e3o deveria entrar com o perfil institucional da Vers\u00e1til para responder, mas com o meu pr\u00f3prio. Logo comentava: &#8220;Olha, eu sou da Vers\u00e1til, e acho que a cole\u00e7\u00e3o Filme Noir vende, sim. Pelo menos isso representa em n\u00fameros&#8230; H\u00e1 um porqu\u00ea de continuarmos lan\u00e7ando produto dessa linha, tem quem goste sim. Mas, se quiser sugerir outros lan\u00e7amentos, fique \u00e0 vontade. Pode dar ideias&#8221;. E assim, aos poucos, o di\u00e1logo foi come\u00e7ando. Aprendi muito disso com o Fernando Brito, que tinha essa abertura de contato com p\u00fablico pelo Facebook dele quando era citado ou havia espa\u00e7o para tal. Tanto quanto por e-mail, que ocasionalmente o procuravam pelo seu papel de curador. Mas a ideia era atuar al\u00e9m disso, respondendo \u00e0s pessoas diariamente, entrando em grupos de colecionadores em WhatsApp e conscientizando de como o mercado funcionava e como fortalec\u00ea-lo. Ao meu ver, foi um passo necess\u00e1rio, para alinharmos a expectativa e desejo do colecionador com as estrat\u00e9gias futuras da empresa. Desde fevereiro desse ano, eu mesmo passei a fazer parte de grupos de WhatsApp, alguns deles, com centenas de pessoas \u2013 inclusive com meu telefone celular pessoal, o qual n\u00e3o mudo de n\u00famero h\u00e1 algumas d\u00e9cadas! (risos). Quando h\u00e1 alguma d\u00favida e citam meu nome ou a Vers\u00e1til, me apresento e comento. Ou surgindo um coment\u00e1rio sobre o mercado que acho pertinente, eu comento, tamb\u00e9m. E, \u00e9 claro, o Igor foi muito feliz nessa coloca\u00e7\u00e3o: n\u00e3o tinha outro formato! T\u00ednhamos que nos aproximar dos nossos clientes, as distribuidoras sempre tiveram um relacionamento muito distante do colecionador por conta do revendedor. A livraria, a locadora, tinham esse papel e n\u00e3o nos repassavam na integra (vide pergunta no inicio dessa entrevista, em que insistiam em que fiz\u00e9ssemos reuni\u00f5es mensais com os representantes comerciais pra trazer essas informa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o t\u00ednhamos esse retorno. S\u00f3 queriam saber de promo\u00e7\u00f5es e de melhorar condi\u00e7\u00f5es comerciais, etc). E \u00e9 curioso como o colecionador\/cin\u00e9filo se relaciona com o filme. A maior parte das vezes n\u00e3o tem contato direto com o est\u00fadio, ou com a distribuidora que de fato fez a curadoria e fez o produto estar ali. Raramente, era um ou outro cliente que relacionava \u00e0 marca. A partir do momento em que h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o da marca para o seu p\u00fablico, acho que a\u00ed foi realmente o momento da Vers\u00e1til como empresa perceber que ainda tinha um papel a desenvolver. Continuar lan\u00e7ando em m\u00eddia f\u00edsica e de forma ativa, para atender ao colecionador\/cin\u00e9filo. H\u00e1 prefer\u00eancia por filmes cl\u00e1ssicos ainda? Preferem filmes mais recentes? Nacionais? Estamos lan\u00e7ando o \u201cMorto n\u00e3o Fala\u201d, filmes da d\u00e9cada de 80-90 como o \u201cCarpenter Essencial\u201d, \u201cPaul Thomas Anderson Essencial\u201d. Mais recentes, estamos avaliando, inclusive, em migrar tamb\u00e9m para filmes da \u00faltima d\u00e9cada. E isso \u00e9 algo que, nos primeiros anos da Vers\u00e1til, era inimagin\u00e1vel. N\u00e3o fazia parte da ess\u00eancia da distribuidora e isso vem mudando porque buscamos o que os colecionadores querem. N\u00f3s estamos cumprindo nosso papel, de acordo com a viabilidade legal, \u00e9 claro. Acho engra\u00e7ado, na funda\u00e7\u00e3o, meu pai nomeou a distribuidora por conta da 2\u00aa letra da sigla da revolu\u00e7\u00e3o do audiovisual, o &#8220;versatile&#8221; do DVD. Nos dias atuais, caminhamos para um cen\u00e1rio com atua\u00e7\u00e3o diferente, independente do tipo de m\u00eddia de DVD e BD, pelo outro sentido da palavra: de Versatilidade. H\u00e1 interesse em agradar diversos p\u00fablicos, sempre \u2013 n\u00e3o nos limitando somente ao cinema cl\u00e1ssico, de terror, noir, nacional, etc.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Teaser: Morto N\u00e3o Fala\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qDTkY4Q6a40?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o real impacto do mercado de streaming nos lan\u00e7amentos de m\u00eddia f\u00edsica?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Lembro que, logo no meu in\u00edcio na Vers\u00e1til, o streaming estava come\u00e7ando cada vez mais a ficar presente. Na ocasi\u00e3o, o meu pai dizia: &#8220;Ao mesmo tempo que a Blockbuster entrou nos bairros e atrapalhou o neg\u00f3cio de diversas locadoras pequenas e de bairro, o Netflix entrou para atrapalhara m\u00eddia f\u00edsica e o cinema. Mas, assim como a Blockbuster perdeu espa\u00e7o, Netflix tamb\u00e9m vai&#8221;. Ouvi aquilo e ficou como um mantra por muitos anos. Ou seja, somente devia ter paci\u00eancia ao inv\u00e9s de encarar o VOD como uma assombra\u00e7\u00e3o. At\u00e9 realmente come\u00e7ar a entender a inten\u00e7\u00e3o da fala dele, mas tamb\u00e9m considerasse que, mesmo que ela se mantivesse ativa \u2013 que \u00e9 o caso pelo menos at\u00e9 os dias atuais \u2013 sabia que ainda havia um papel a ser desenvolvido por n\u00f3s, da Vers\u00e1til. O Netflix sobrevive tendo como base investimentos externos, pois, organicamente, n\u00e3o se paga pelo tamanho que ele precisa ter para oferecer conte\u00fado atrativo suficiente e pelo retorno que arrecada. Se voc\u00ea pensar nisso, voc\u00ea conclui que a atua\u00e7\u00e3o com os filmes de cat\u00e1logo, antigamente compunham 80% dele. Eram filmes irrelevantes, encarados como \u2018bottom of the library titles\u2019 (que, literalmente, ningu\u00e9m negocia\/procura lan\u00e7ar ou sublicenciar h\u00e1 anos) de categorias C, D, E dentro dos est\u00fadios. Por isso s\u00e3o filmes presentes que simplesmente n\u00e3o atraem aten\u00e7\u00e3o e de uma forma muito bagun\u00e7ada (depois at\u00e9 veio o \u2018algoritmo\u2019, o qual, muitas vezes, n\u00e3o entende de fato o que motivou cliente a buscar um titulo e sugere erroneamente conte\u00fado). Por\u00e9m, quando voc\u00ea \u201cvende\u201d acesso a 500 filmes por R$ 19,90, ai \u00e9 legal, n\u00e3o \u00e9? Depois de alguns anos, com a press\u00e3o de investidores, ao inv\u00e9s de comprar novos conte\u00fados dos est\u00fadios (pois encareceria muito a condu\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio, e retomando a depend\u00eancia que todo mercado tem de repasse de royalties) come\u00e7aram a produzir (ou comprar de pequenas produtoras) conte\u00fado pr\u00f3prio e, de fato, foi quando se destacaram chegando a impactar estrat\u00e9gias dos grandes est\u00fadios. Ap\u00f3s alguns anos vimos surgindo outras, como a Amazon Prime e, recentemente, a Disney. Uma delas j\u00e1 entrou com esse formato de produzir conte\u00fado pr\u00f3prio e recentemente anunciado pela outra, fazendo mil parcerias com empresas grandes aqui no Brasil, e que disponibilizar\u00e1 seu forte cat\u00e1logo dessa nova plataforma. Mas essencialmente, podemos reparar que h\u00e1 essa sensa\u00e7\u00e3o de acesso a muito conte\u00fado (enf\u00e1tico) para os assinantes. Mas ser\u00e1 que agora a maior parte do conte\u00fado tamb\u00e9m ser\u00e1 irrelevante? Dif\u00edcil dizer ainda. Mas, certamente, ser\u00e1 limitado. N\u00e3o creio que disponibilizar\u00e3o todo o cat\u00e1logo para ambiente online. Retomando ao discurso de meu pai h\u00e1 alguns anos, eu comecei a entender que para n\u00f3s, como distribuidora, o streaming pode ser um facilitador, mas, ao mesmo tempo, pode atrapalhar. Independentemente temos de ser estrat\u00e9gicos. H\u00e1 varia\u00e7\u00e3o de como o t\u00edtulo pode ser trabalhado. Por exemplo, conforme citado nessa entrevista, quando lan\u00e7amos os box dos volumes 1 e 2 do Studio Ghibli, tanto o DVD quanto o blu-ray, haviam acabado de ficar dispon\u00edveis para aquisi\u00e7\u00e3o. Naquela ocasi\u00e3o, n\u00e3o estavam em streaming nenhum. Ap\u00f3s anos em que paramos de trabalhar e a detentora n\u00e3o fechando novos acordos\/renovando contrato, finalmente fez um contrato com a Netflix, gerando repercuss\u00e3o. Naquela ocasi\u00e3o, foi essencial para muitos (principalmente que conheciam um ou mais filmes deles) terem seu primeiro contato com a Vers\u00e1til. Um p\u00fablico que, possivelmente, n\u00e3o havia comprado t\u00edtulos nossos. At\u00e9 os dias de hoje nos procuram pedindo esses filmes em m\u00eddia f\u00edsica. Outra situa\u00e7\u00e3o foi de um filme brasileiro chamado \u201c<a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/produto\/348115\/a-menina-indigo-edicao-especial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Menina \u00cdndigo<\/a>\u201d, em que o diretor entrou em contato buscando um lan\u00e7amento conosco. Por\u00e9m, ao mesmo tempo que seria lan\u00e7ado pela Vers\u00e1til, tamb\u00e9m iria para as plataformas VOD. E o que acontece \u00e9 que quando voc\u00ea entra em contato com uma distribuidora de m\u00eddia f\u00edsica, h\u00e1 um prazo muito longo para desenvolver o material digital, entregar para a f\u00e1brica produzir. At\u00e9 a\u00ed s\u00e3o quase 20 a 30 dias, e, depois de pronto, ainda sair de Manaus, chegar a S\u00e3o Paulo para entrega aos Centros de Distribui\u00e7\u00e3o das grandes livrarias, para s\u00f3 depois ser colocado nas prateleiras para venda. Quando para lan\u00e7amento no VOD, \u00e9 enviado o arquivo, convertido e sobe na nuvem. O timing \u00e9 totalmente diferente. Infelizmente, para n\u00f3s, ele fez isso ao mesmo tempo. N\u00e3o houve \u201cjanela\u201d entre uma a\u00e7\u00e3o e outra. E isso impactou diretamente nas vendas do DVD de \u201cA Menina \u00cdndigo\u201d. N\u00f3s est\u00e1vamos vendendo o filme ainda no formato individual (o DVD por R$40) sem nada complementar ao streaming, e o mesmo estava dispon\u00edvel no Now e no iTunes por R$15,90. Obviamente, perdeu muito a for\u00e7a do lan\u00e7amento. Eu avalio que, fora a diferen\u00e7a de valores para acesso ao mesmo conte\u00fado, muitos ainda acham que aquele conte\u00fado (adquirido ali e disponibilizado ou alugado via streaming) sempre estar\u00e1 l\u00e1 dispon\u00edvel. O que n\u00e3o \u00e9 verdade! Diferentemente da m\u00eddia f\u00edsica, que, se bem conservada, raramente ter\u00e1 problemas. Isso tratando de lan\u00e7amentos recentes. Hoje, meu pai tem o mesmo discurso que o meu: a m\u00eddia f\u00edsica nunca vai acabar. Por\u00e9m, quando a gente pega um filme que est\u00e1 fora do mercado h\u00e1 quase 10\/15 anos, e lan\u00e7amos em blu-ray ou em DVD, repleto de conte\u00fado extra e materiais exclusivos, cobi\u00e7ados at\u00e9 internacionalmente, o tratamento \u00e9 diferente. H\u00e1 um porqu\u00ea. N\u00e3o trata-se somente (e que n\u00e3o \u00e9 pouco) de uma identifica\u00e7\u00e3o\/prefer\u00eancia do consumidor com a obra, mas em possu\u00ed-lo e de livre-f\u00e1cil acesso \u00e0quele conte\u00fado. At\u00e9 os dias atuais, ainda somos questionados quanto ao lan\u00e7amento do \u201cStudio Ghibli volume 3\u201d. Mas n\u00e3o h\u00e1 uma previs\u00e3o da mesma forma. Somente come\u00e7ar\u00e1 a se tornar interessante fazer nova proposta para os licenciadores ap\u00f3s, pelo menos, dois ou tr\u00eas anos da sa\u00edda das plataformas digitais. Porque, somente ap\u00f3s este hiato, a demanda surge suficientemente para aquisi\u00e7\u00e3o em larga escala nos primeiros meses, no intuito de suprir o investimento a curto prazo \u2013 e, infelizmente, como distribuidora independente, dependemos desse r\u00e1pido retorno para que se viabilize um lan\u00e7amento\/relan\u00e7amento. No momento de lan\u00e7amento de um filme\/produto, ele precisa obrigatoriamente ter uma venda alta, agressiva, para reduzir o valor de investimento que foi feito (m\u00ednimo garantido de direitos autorais, fornecedores e funcion\u00e1rios desenvolvendo material, produ\u00e7\u00e3o\/custo da f\u00e1brica, etc). O mesmo ocorre com os est\u00fadios que financiam grandes produ\u00e7\u00f5es em que n\u00fameros das bilheterias est\u00e3o diretamente relacionados ao sucesso do filme (seja para com o p\u00fablico, cr\u00edticos, potencial comercial para venda em outras plataformas, etc). Precisa ocorrer um retorno o mais r\u00e1pido poss\u00edvel do capital que foi colocado na frente, adiantado. Caso negativo, h\u00e1 uma venda alta nos primeiros tr\u00eas\/quatro meses. N\u00e3o tem porque lan\u00e7ar de novo aquele produto (ou algo similar a ele) ap\u00f3s ele se esgotar. E, infelizmente, esse baixo retorno nas vendas acontece com alguns de nossos produtos que tinham um potencial fant\u00e1stico, mas, por situa\u00e7\u00e3o X ou Y, n\u00e3o \u201cvingaram\u201d. Ent\u00e3o, temos que fazer constantes promo\u00e7\u00f5es e aguardar um n\u00edvel de aceita\u00e7\u00e3o maior ou ocorrer uma demanda ap\u00f3s determinado tempo passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/05\/entrevista-fabio-martins-famdvd-especial-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Em outra entrevista, conversei com o Fabio Martins<\/a>, fundador da loja FAMDvD, sobre a Disney ter anunciado sua retirada do mercado da m\u00eddia f\u00edsica na Am\u00e9rica Latina para focar no streaming, ele salientou que, para a Disney, esse mercado no Brasil nem \u00e9 visto. Em uma analogia precisa, a Disney olha para o mercado de m\u00eddia f\u00edsica na Am\u00e9rica Latina l\u00e1 de cima, como se fosse um gigante, e nem chega a enxerg\u00e1-lo. Observando o fracasso do \u201cMulan\u201d nos cinemas em tempos de pandemia, <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/cinema-e-streaming\/noticia\/disney-indica-que-mulan-sera-lancado-no-brasil-custando-r-112-90\/105312\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bem como o valor irreal de R$112,90<\/a> para o cliente assistir ao filme em seu canal, voc\u00ea considera um tiro no p\u00e9 essa desprezo por esse mercado no qual ela construiu uma base fiel de consumidores de m\u00eddia f\u00edsica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Melo \u2013 Se o mercado de homevideo atual fosse um tabuleiro de xadrez, certamente o Fabio seria uma pe\u00e7a simb\u00f3lica como o bispo ou a torre (para quem n\u00e3o conhece xadrez \u2013 s\u00e3o as pe\u00e7as mais essenciais e estrat\u00e9gicas do jogo). Ele agrega e ainda vai agregar muito em nosso pequeno mercado. Conhece muito de t\u00edtulos individualmente, \u201cvai pra cima\u201d, atr\u00e1s de oportunidades. Gosta de se aproximar de pessoas e tem \u00f3timas sacadas. Quanto a coloca\u00e7\u00e3o dele, n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 correta, como \u00e9 o mesmo impasse que temos quando entramos em contato com est\u00fadios fora do pa\u00eds, ou at\u00e9 com uma pessoa nova de um est\u00fadio (com o qual ainda n\u00e3o hav\u00edamos tido contato) e temos que nos apresentar\/conquistar o respeito. Fora o preconceito (ainda) de alguns (futebol, samba, etc), exige uma paci\u00eancia (que muitos n\u00e3o t\u00eam) para fechar acordos consideravelmente menores do que outros pa\u00edses fechariam. N\u00e3o por se tratar de filmes fracos ou negocia\u00e7\u00f5es pequenas, mas do tamanho do esfor\u00e7o que empresas independentes precisam fazer para que se chegue no \u201cm\u00ednimo garantido\u201d para que comecem a ter o m\u00ednimo de aceitabilidade em uma proposta em d\u00f3lares\/euros. H\u00e1 uma grande empresa, por exemplo, que mesmo nesse ano (de pandemia, em que teoricamente, est\u00fadios est\u00e3o sendo prejudicados por conta da baixa no cinema) foi clara: \u201cU$ 35k is the minimum of a agreement acceptable, out of discussion with less\u201d. \u00c9 diferente (e certamente mais desafiador) quando negociado em libras ou euros com um p\u00fablico acostumado a consumir\/adquirir cultura. Essa \u00e9 uma realidade do que n\u00f3s, distribuidoras independentes brasileiras, enfrentamos para fechar contratos l\u00e1 fora, principalmente com as grandes. N\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes em que \u00e9 preciso mandar dezenas de e-mails e propostas, \u00e0s vezes tendo que envolver outras duas ou tr\u00eas pessoas, para come\u00e7ar a ter um pouco de sucesso. Claro, embora a Criterion fa\u00e7a o mesmo tipo de acordo, ela entra em contato e fecha o neg\u00f3cio sem grandes dificuldades n\u00e3o s\u00f3 por ser um valor muito mais significativo, mas porque ali h\u00e1 um nome a ser considerado. Agora, voltando \u00e0 Disney que foi a sua pergunta, podemos refletir que estamos vivenciando uma consequ\u00eancia desses poucos \u00faltimos anos passados, em que houve a necessidade de uni\u00e3o de est\u00fadios aqui no Brasil, <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/10\/22\/trio-sony-universal-paramount-encerra-suas-atividades-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">como a rec\u00e9m extinta Sony-Universal-Paramount<\/a> e a atua\u00e7\u00e3o\/representa\u00e7\u00e3o da Cinecolor, da Disney. De fato, \u00e9 muito caro ter uma opera\u00e7\u00e3o em um s\u00f3 pa\u00eds, ou mesmo em um aglomerado de pa\u00edses (como a Am\u00e9rica Latina) e, com absoluta certeza, para a Disney, em uma atua\u00e7\u00e3o global, o quanto ela n\u00e3o perde para a pirataria. Ou seja, al\u00e9m de ser um valor monstruoso que ela perde (para os pirateiros de DVD-R de seus filmes e downloads\/torrents), sua estrat\u00e9gia envolve o desmembramento de opera\u00e7\u00f5es caras e uma centraliza\u00e7\u00e3o no controle-administra\u00e7\u00e3o de conte\u00fado diretamente da matriz. A grande realidade \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 barato o custo de m\u00eddia, de armazenamento, equipe comercial, repasses a fornecedores, representantes comerciais, tratativa com revendedores (ainda mais com a problem\u00e1tica das livrarias de 2018, que eram os maiores players do mercado \u2013 conforme dito). \u00c9 diferente quando voc\u00ea abra\u00e7a tudo, fica com toda a opera\u00e7\u00e3o para si e tem o ganho de todos \u2013 a\u00e7\u00e3o muito similar a que vivenciamos, recentemente, na venda direta do nosso produto ao cliente-consumidor. Nessa primeira d\u00e9cada da Vers\u00e1til, a gente produzia um t\u00edtulo e replicava na f\u00e1brica cinco mil pe\u00e7as. A pe\u00e7a da unidade, para ser vendida pelo mesmo valor, o ganho que \u00edamos ter pelo custo de produ\u00e7\u00e3o seria muito maior. Hoje, a gente produz mil pe\u00e7as. Quando temos uma oportunidade de fazer uma quantidade maior, arriscamos, no m\u00e1ximo, at\u00e9 duas mil pe\u00e7as. A nossa margem n\u00e3o \u00e9 grande se considerar o tanto de gastos envolvidos e ainda o repasse de royalties para os detentores, a prazo. Entendo o movimento que a Disney est\u00e1 fazendo, brigando por um espa\u00e7o que j\u00e1 perderam h\u00e1 muito tempo com a pirataria e n\u00e3o est\u00e1 tendo mais resultados como antigamente faziam, com a m\u00eddia f\u00edsica. N\u00e3o acho que seja uma m\u00e1 ideia o que ela fez com o Disney Plus. Vai agradar muita gente. Vai chegar a muitas pessoas que n\u00e3o t\u00eam acesso a isso. O colecionador de m\u00eddia f\u00edsica, e de fato, todo o mercado que vive disso, perde muito. Entendo que deixaremos de ter aqueles antigos contratos absurdos que a B2W e Lojas Americanas https:\/\/blogdojotace.com.br\/2012\/03\/11\/o-titanic-do-e-commerce-brasileiro-encontrou-seu-iceberg-e-agora-b2w\/ fechavam diretamente com os est\u00fadios ou com as distribuidoras daqui, em que replicavam uma quantidade gigantesca e em uma canetada, todo um sistema saia ganhando: a f\u00e1brica um pouco, a Disney um pouco e a Americanas um pouco, e o consumidor pagava um excelente pre\u00e7o por conte\u00fado. Todos contentes. No momento em que a Disney chega direto no consumidor final e n\u00e3o precisa desses repasses, game over para os intermedi\u00e1rios&#8230; &#8220;Ah, mas a Disney mata a m\u00eddia f\u00edsica&#8221;. N\u00e3o sei se \u201cmatar\u201d seria a palavra, mas prejudica sim, e muito. Principalmente no in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o f\u00edsica do produto: a f\u00e1brica. Que precisa de uma quantidade X de m\u00eddias feitas por m\u00eas para chegar em &#8220;break-even&#8221; de compra de insumos. Sem as produ\u00e7\u00f5es em larga escala, acabam perdendo margem. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a necessidade em atuar com mais ou menos m\u00e1quinas para produzir o DVD-BLU-RAY. Foi algo que j\u00e1 aconteceu conosco h\u00e1 alguns anos com uma pequena f\u00e1brica. \u00c9 preciso aguardar duas semanas, o tempo de chegada de uma pe\u00e7a importada para manuten\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina para que reinicie o processo de finaliza\u00e7\u00e3o do lan\u00e7amento\/produto que estava com data prevista j\u00e1 ultrapassada. Independente de tudo isso, ainda enxergamos, aqui na Vers\u00e1til, que n\u00e3o \u00e9 um mercado morto ou que morrer\u00e1, mas um mercado de nicho: da mesma forma que h\u00e1 (embora bem mais t\u00edmido) ainda o LP, a fita cassete, ou o VHS \u2013 como formas de conserva\u00e7\u00e3o de material que n\u00e3o foi repassado para outros formatos mais atuais. Claro que nossa atua\u00e7\u00e3o era bem maior, mas, mesmo assim, ir\u00e1 sobreviver e continuar existindo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59002\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Giallo-10.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Giallo-10.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Giallo-10-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que pode existir uma possibilidade futura dela voltar atr\u00e1s nessa suspens\u00e3o dos lan\u00e7amentos em m\u00eddia f\u00edsica?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Acredito que isso possa acontecer, mas acho dif\u00edcil, sinceramente. \u00c9 como o Fabio disse. L\u00e1 de cima, a Disney n\u00e3o est\u00e1 enxergando o Brasil como um ganho a vir se tornar algo com potencial. Ele enxerga como uma formiga, mesmo. Todavia, ela precisa perceber que \u201cn\u00e3o se deve pisar em um formigueiro\u201d. Acredito que o F\u00e1bio seja muito sensato no movimento em tentar unir o mercado brasileiro de homevideo, seja para regula\u00e7\u00e3o ou para atrair a aten\u00e7\u00e3o das majors. Entendo que h\u00e1 diversos outras formas do jogo se desenrolar aqui no Brasil, sen\u00e3o essa que est\u00e1 sendo adotada e imposta. E, certamente, a Disney ir\u00e1 encontrar alternativas para gerar maior lucratividade poss\u00edvel, mirando o consumidor habitual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 preciso observar isso que voc\u00ea falou l\u00e1 em cima acerca do streaming acabar se auto-sabotando.<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. Al\u00e9m dos fatores que sempre haver\u00e1 um fluxo de conte\u00fado dispon\u00edvel na plataforma \u2013 ou seja, de tempos em tempos novos filmes-s\u00e9ries entram, enquanto outros saem (a crit\u00e9rio que outra pessoa vai definir para voc\u00ea), como ocorre em qualquer outro streaming \u2013 e que h\u00e1 um limite at\u00e9 a troca de senhas de streaming com amigos-familiares. Acho muito curioso que muita gente tem comentado: &#8220;Mas, espera, eu vou assinar agora Netflix pagando tanto por m\u00eas. Vou assinar Amazon Prime pagando outro tanto. Agora vem Disney Plus e a Paramount, que eu vou pagar por m\u00eas mais um tanto. Mas, eu j\u00e1 tenho um canal por assinatura. E eu tenho canais de streaming agora por assinatura. \u00c9 esse que vai ser o novo formato? N\u00e3o posso desligar aqui e deixar s\u00f3 canal aberto na minha televis\u00e3o?&#8221; A gente pensa nisso e v\u00ea que, l\u00e1 fora, \u00e9 muito f\u00e1cil porque \u00e9 muito barato. Quando a gente pensa na renda per capita nos Estados Unidos, a hist\u00f3ria \u00e9 diferente. L\u00e1, o valor monet\u00e1rio disso \u00e9 p\u00edfio. Se voc\u00ea parar para pensar, isso d\u00e1 mais do que 10% do sal\u00e1rio m\u00ednimo, assinando todos esses canais. Mas, para o brasileiro \u00e9 o que da margem \u00e0s trocas de assinatura: \u201cEu assino Amazon, meu irm\u00e3o Disney, a namorada Netflix: compartilhamos senha e todo mundo se resolve\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na mesma entrevista com o Fabio Martins, ele observou que o mercado de colecionadores de m\u00eddia f\u00edsica em todo o Brasil tem, pela experi\u00eancia dele de 12 anos \u00e0 frente da FAMDvD, \u00e9 composto por, no m\u00e1ximo 700 a 800 pessoas em todo o Brasil. Isso para citar um n\u00famero de pessoas que coleciona filmes em blu-ray e DVD e os compra regularmente. A Disney tinha nos \u00faltimos anos no Brasil uma tiragem m\u00e9dia de tr\u00eas mil unidades para cada lan\u00e7amento seu em m\u00eddia f\u00edsica. Observando esse n\u00famero, constata-se que demorou at\u00e9 bastante tempo para ela perceber como estava investindo de maneira errada nesse mercado. Mas que, para mim, n\u00e3o justifica uma suspens\u00e3o total como foi anunciado.<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Acho tarefa imposs\u00edvel mensurar. S\u00e3o muitas vari\u00e1veis: gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o ultrapassadas, liga\u00e7\u00f5es afetivas com filme X ou Y s\u00e3o individuais e surgem a cada momento. Cada um tem sua forma de rela\u00e7\u00e3o com o consumo, ou h\u00e1 quem vive com hobby de colecionismo por um determinado per\u00edodo. Todos passamos por fases de fartura e fases de aperto financeiro&#8230; \u00e9 normal e c\u00edclico. Esse cen\u00e1rio que vivenciamos em 2020, em plena pandemia e n\u00edveis alt\u00edssimos de desemprego por um lado, houve tamb\u00e9m a valoriza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de dentro de casa (vide setor de constru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi afetado) e um super aquecimento no e-commerce, que crescia devagar, ano ap\u00f3s ano, e teve um boom por conta dessa necessidade. Outro exemplo disso: tenho duas filhas de oito anos de idade e temos diversos DVDs da Disney para assistir. Particularmente, acho fant\u00e1stico (embora alguns possam considerar obsoleto) aquela entrada para colocar DVD no carro, na parte do encosto da cabe\u00e7a do motorista-passageiro da frente. Toda viagem que fazemos, h\u00e1 uma prepara\u00e7\u00e3o delas na escolha do que ir\u00e3o assistir no trajeto e programar sua viagem. N\u00e3o tenho todos os filmes\/desenhos em m\u00eddia f\u00edsica deles, mas elas j\u00e1 assistiram uma boa parte na TV fechada ou mesmo via streaming e temos aqueles que mais gostam ou j\u00e1 foram importantes a uma ou ambas, em DVD. J\u00e1 chegaram a pedir pra comprar desenho X ou Y em que colegas comentaram, at\u00e9 eu perceber que estava criando colecionadoras h\u00e1 quatro anos j\u00e1 (riso). Mas o que \u00e9 curioso \u00e9 que quando elas tinham dois anos de idade, sabiam pegar meu celular e mexer com o dedo para mudar de foto (deslizando com o dedo para o lado), por\u00e9m n\u00e3o tinham ainda a for\u00e7a para abrir a ma\u00e7aneta de uma porta. Embora isso seja uma coisa trivial pelo desenvolvimento delas, prova tamb\u00e9m que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito mais preparada \u00e0 tecnologia ao streaming e ao acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Hoje (at\u00e9 por conta das aulas n\u00e3o presenciais, em que as crian\u00e7as tem encontrado alternativas de brincar com amigos via jogos online), embora estejam mais antenadas aos tablets, \u00e0s vezes as vejo sentadas na frente dos DVDs, pegando a caixinha e relembrando a cena dos desenhos (obviamente, quando sento para conversar, me contam de situa\u00e7\u00f5es que remetem a um passado delas ou algo que vivenciaram e relacionaram ao filme). Eu mostro que h\u00e1 uma forma diferente delas se relacionarem com aquele tipo de m\u00eddia. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o ali que vai al\u00e9m do consumo entre elas e o filme\/conte\u00fado\/produto. \u00c9 totalmente diferente se elas o veem em uma lista a cada vez que v\u00e3o procurar um filme novo para assistir at\u00e9 este sumir dessa lista. Obviamente, a Disney reproduzia ainda tr\u00eas mil pe\u00e7as por conta do lucro sob unidade ser o m\u00ednimo vantajoso para a opera\u00e7\u00e3o dela. Por\u00e9m tamb\u00e9m existiu uma \u00e9poca em que ela fazia 100 mil c\u00f3pias e, se n\u00e3o vendesse 30-40%, incinerava a quantidade n\u00e3o vendida sem pestanejar. Seguindo a f\u00f3rmula que todo mercado conhece: ap\u00f3s sete-oito anos, relan\u00e7avam o mesmo produto, ligeiramente com novo aspecto, com a justificativa de que a gera\u00e7\u00e3o mudou. Talvez ela tenha demorado para deixar de produzir em m\u00eddia f\u00edsica, por conta do seu porte e leva tempo uma simbiose com toda a empresa at\u00e9, de fato, gerar a mudan\u00e7a para fazer mudan\u00e7as estruturais como esta. Outra possibilidade \u00e9 que envolveria prazos de contratos que deveriam estar vencidos com empresas que faziam a representa\u00e7\u00e3o ou que cogitaram que era algo c\u00edclico a baixa nas vendas ou mesmo sustentava a cren\u00e7a que o seu p\u00fablico principal era o infanto-juvenil por muito tempo e deveria haver alguma rela\u00e7\u00e3o com o produto trabalhando com todas as janelas simultaneamente enquanto houvesse mercado ou uma soma de diversos fatores. \u00c9 dif\u00edcil saber com exatid\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59003\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Horror-Japones.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Horror-Japones.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Horror-Japones-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa pauta teve seu inicio a partir da peti\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/secure.avaaz.org\/community_petitions\/po\/empresas_produtoras_de_aparelhos_bluray_no_brasil_queremos_a_volta_da_producao_de_aparelhos_bluray_no_brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pela volta da fabrica\u00e7\u00e3o de aparelhos de blu-ray no Brasil<\/a>\u00a0 e que <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/07\/28\/manifesto-pela-volta-da-fabricacao-de-players-de-blu-ray-no-brasil-voltabdplayernobr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">foi divulgada pelo Blog do Jotac\u00ea<\/a>. Foi alcan\u00e7ado um n\u00famero at\u00e9 significativo, mas que n\u00e3o convenceu os fabricantes que contatei para declara\u00e7\u00f5es nessa mat\u00e9ria. Voc\u00ea acredita nessa possibilidade de um retorno desse mercado ao Brasil observando tiragens de filmes que se esgotam e um mercado fiel de colecionadores que permanece?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Eu acredito que temos grandes possibilidades disso acontecer. O Jotac\u00ea faz um trabalho magn\u00edfico, e eu n\u00e3o tiro a raz\u00e3o em continuar pressionando os fabricantes de blu-rays, pois a ideia \u00e9 a populariza\u00e7\u00e3o (que nunca aconteceu desse produto) e a facilidade ao acesso a diversos p\u00fablicos ajudaria massivamente o mercado a ganhar for\u00e7a (at\u00e9 chegando a baratear produtos a m\u00e9dio-longo prazo e tornando vi\u00e1vel o lan\u00e7amento de produtos cada vez mais premium). Inclusive, a Vers\u00e1til foi uma das empresas que concordaram em fazer parte da divulga\u00e7\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o e logo na mesma semana fizemos um post nas m\u00eddias sociais demonstrando o apoio para a produ\u00e7\u00e3o de aparelhos. Embora minha opini\u00e3o pessoal sobre a produ\u00e7\u00e3o de aparelhos \u00e9 acreditar que nunca deixar\u00e1 de existir e a retomada na produ\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas e cess\u00e3o \u00e0s lojas \u00e9 somente uma quest\u00e3o de tempo e\/ou adapta\u00e7\u00e3o. Novamente um exemplo para retratar disso \u00e9 considerando a oferta-procura de aparelhos para compra. H\u00e1 algumas semanas, o Daniel Melo, irm\u00e3o respons\u00e1vel pela parte digital da Vers\u00e1til, me falou que um dos Blu-rays que t\u00ednhamos \u201cpifou\u201d. Para contextualizar, quando a gente lan\u00e7a um produto, ap\u00f3s receber a master com o filme com as pastas pass\u00edveis para altera\u00e7\u00e3o no arquivo dentro da Vers\u00e1til para come\u00e7ar a trabalhar digitalmente no conte\u00fado (no menu, na legenda, nos extras etc) trabalhando com a nossa vers\u00e3o, fechamos e mandamos para a f\u00e1brica para replica\u00e7\u00e3o. Antes de enviar para replica\u00e7\u00e3o a f\u00e1brica, fazemos testes com v\u00e1rios players para detectar eventuais erros de incompatibilidades (isso ap\u00f3s a revis\u00e3o final pessoal do Fernando Brito, que atesta qualidade\/portugu\u00eas\/travamentos, etc). \u00c9 o nosso Controle de Qualidade. Esse aparelho que o Daniel citou estar com problemas era o da LG que, por coincid\u00eancia, muitos colecionadores ainda t\u00eam. Ficamos tr\u00eas dias contatando diversas lojas em S\u00e3o Paulo procurando quem tinha esse modelo espec\u00edfico de aparelho de blu-ray. S\u00f3 depois desse interm\u00e9dio foi que tivemos a \u201cbrilhante\u201d ideia de consultar lojas de e-commerce para compra online e l\u00e1 apareceram, entre as op\u00e7\u00f5es, uma vi\u00e1vel e r\u00e1pida via Mercado Livre. Voc\u00ea deve ter pensado: &#8220;por que n\u00e3o pensaram nisso antes?&#8221; Tamb\u00e9m me questionei na ocasi\u00e3o (risos). Acabei comprando e chegou no dia seguinte exatamente o modelo que estava buscando. Em resumo: ainda h\u00e1 players dispon\u00edveis no mercado, fora quem utiliza v\u00eddeo game (como eu, que tenho um PS3 exclusivamente para isso em casa), basta &#8220;saber onde procurar&#8221;. Somente com essa premissa, e conhecendo o hist\u00f3rico de nosso mercado e o impacto do streaming nos dias atuais, \u00e9 poss\u00edvel pensar em possibilidades do porqu\u00ea de n\u00e3o estarem produzindo novos aparelhos, como a baixa demanda das revendedoras (as grandes magazines) al\u00e9m da reduzida venda de players ou por ainda possu\u00edrem grande quantidade em estoque ou perceberam baixa rotatividade do produto. Durante uma das lives do Blog do Jotac\u00ea, foi feito um interessante coment\u00e1rio sobre se os colecionadores chegaram a consultar empresas ou profissionais que faziam reparos nos aparelhos de blu-ray (assist\u00eancia t\u00e9cnica), ou mesmo da viabilidade em se tornar um mercado em ascens\u00e3o (e at\u00e9 mais \u201cecon\u00f4mico\u201d, tendo com base o custo de fabrica\u00e7\u00e3o em escala de novos aparelhos, para atender toda demanda do nicho). Estas reflex\u00f5es foram geradas gra\u00e7as a peti\u00e7\u00e3o e, acredito, est\u00e3o altamente relacionadas a uma justificativa dessa produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorrer mais nos dias atuais. Mas jamais desmereceria o abaixo assinado. N\u00e3o acho perda de tempo (como muitos disseram), mas principalmente, e mais importante de tudo: para obter de todos um engajamento e entendimento de como funciona o mercado de homevideo e \u00e9 o que vai ajudar a solidificar e fortalecer para que ele continue existindo. Uma das pautas mais importantes e est\u00e1 diretamente relacionada, por exemplo, \u00e9 sobre o pre\u00e7o do disco em blu-ray nas vitrines. H\u00e1 clientes que reclamam por causa de valores de R$40\/50, e h\u00e1 lojas que atuam com esse pre\u00e7o m\u00e9dio, por\u00e9m ficam \u00e0 merc\u00ea de descontos\/situa\u00e7\u00f5es de encalhe m\u00e9dio das distribuidoras\/representantes. O consumidor precisa se acostumar que o antigo R$19,90 da Americanas \u00e9 hoje R$69,90 dos lan\u00e7amentos, e \u00e9 o valor que todos devem estar acostumados como pre\u00e7o m\u00e9dio para que haja uma sobrevida das distribuidoras, e n\u00e3o ter como regra o que \u00e9 estipulado nas promo\u00e7\u00f5es. Por outro lado, n\u00e3o podemos desconsiderar a renda per capita no Brasil e a capacidade econ\u00f4mica pessoal de muitos colecionadores\/cin\u00e9filos\/amantes de filmes e da dificuldade em adquirir tudo o que o mercado lan\u00e7a (mesmo em per\u00edodos de poucos lan\u00e7amentos). Fora isso, em nosso pa\u00eds, ainda h\u00e1 uma grande discrep\u00e2ncia nos p\u00fablicos, que, diariamente, verifica eventuais promo\u00e7\u00f5es que estejam acontecendo (at\u00e9 repassando em grupos, que inclusive fa\u00e7o parte), por\u00e9m ficam \u00e0 merc\u00ea da disponibilidade daquele produto e havendo uma r\u00e1pida venda e a \u201cvaloriza\u00e7\u00e3o\u201d daquele filme em m\u00eddia f\u00edsica atrav\u00e9s de colecionadores-revendedores de ML e Shopee. Enquanto h\u00e1 quem compra importado em outra frequ\u00eancia. A dial\u00e9tica em quest\u00e3o \u00e9 que existe um mercado que est\u00e1 disposto a comprar um videogame (formato que sempre ter\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o para ser um player de blu ray , e j\u00e1 foi provado que mesmo empresas produzindo dois modelos de videogame, com e sem disco, aquelas com disco tiveram mais sucesso em vendas) e ainda exista a import\u00e2ncia na populariza\u00e7\u00e3o do produto (press\u00e3o para retomada na produ\u00e7\u00e3o das grandes fabricantes). Em suma, n\u00e3o acredito que, pelo menos nesse per\u00edodo em que vivemos, esteja atrelado a extin\u00e7\u00e3o da m\u00eddia em blu-ray ou mesmo DVD por conta disso. Embora esteja enfrentando impasses de tempos em tempos, n\u00e3o \u00e9 o que vai acabar, mas melhorar o aspecto que vivemos hoje. Simultaneamente, o problema das livrarias estarem atravessando um per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o judicial \u00e9 muito mais grave, pois atingia diretamente o p\u00fablico m\u00e9dio e antes ajudava no contato do produto a novos p\u00fablicos (diferentemente pela internet, em que h\u00e1 direcionamento na divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a4lX3V_K_Gw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Na live do Blog do Jotac\u00ea<\/a> voc\u00ea j\u00e1 havia falado sobre a situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade ocorrida com voc\u00ea. Nesse momento, voc\u00ea tocou no aspecto da recupera\u00e7\u00e3o judicial e eu queria aproveitar essa deixa para aprofundar contigo sobre o processo que aconteceu com a Livraria Cultura h\u00e1 dois anos e em como isso te afetou f\u00edsica e psicologicamente, bem a empresa Vers\u00e1til.<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Hoje \u00e9 dif\u00edcil ser empres\u00e1rio no Brasil, tendo em vista as condi\u00e7\u00f5es que nos submetemos a pagar impostos muito caros. Estamos entre os pa\u00edses mais caros do mundo. Temos que lidar com cargas tribut\u00e1rias federais\/estaduais\/municipais (n\u00e3o estando isenta a alguns, como o mercado de livros). Ao mesmo tempo, estar sujeito a condi\u00e7\u00f5es comerciais predat\u00f3rias do mercado, como de grandes magazines. Al\u00e9m da responsabilidade perante uma empresa, sua fam\u00edlia e familiares da equipe contratada e de fornecedores, que atua e depende da parceria todos os dias, tudo dependente das decis\u00f5es que s\u00e3o tomadas. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil trabalhar com cultura, e isso \u00e9 potencializado quando se atua com um nicho espec\u00edfico como o mercado de m\u00eddia f\u00edsica, que, diferentemente do livro, paga-se mais impostos e n\u00e3o atinge sebos e pequenos comerciantes (onde muitas editoras se apoiaram ap\u00f3s as recupera\u00e7\u00f5es judiciais das livrarias) e ficamos limitados a poucos revendedores interessados. Simultaneamente, como somos tratados internacionalmente por sermos uma empresa brasileira e estarmos negociando um valor p\u00edfio para os grandes est\u00fadios\/detentores e, para n\u00f3s, se n\u00e3o tomar cuidado, perde-se toda a margem de lucro \u2013 quando n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 grande coisa \u2013 principalmente se o d\u00f3lar dar uma disparada. E mesmo diante de tudo isso, no momento em que as livrarias entraram em recupera\u00e7\u00e3o judicial (com t\u00edtulos vencidos de at\u00e9 um ano, proporcional \u00e0 mesma quantidade em meses de faturamento bruto da Vers\u00e1til) e \u00e9 autorizado por um juiz para pagamento em 13 anos, a iniciar ap\u00f3s dois anos da data, muitos como a Vers\u00e1til se viram em \u201cbecos sem sa\u00edda\u201d e at\u00e9 chegaram a fechar as portas. Mesmo quem tem cr\u00e9dito banc\u00e1rio, sabemos que parcelamentos s\u00e3o em no m\u00e1ximo quatro ou cinco anos, com data de inicio em 30 dias, logo n\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria a n\u00e3o ser repensar em todo o neg\u00f3cio \u2013 inclusive considerando a fal\u00eancia como possibilidade. H\u00e1 outro empres\u00e1rio do mesmo ramo que o nosso que mencionou diversas vezes o que passou. Inclusive, citou diretamente ao CEO de uma das livrarias durante a reuni\u00e3o com mais de 30 empresas que tamb\u00e9m que forneciam a ela. Isso o desestabilizou psicologicamente, parando a empresa por um tempo e se afundando na depress\u00e3o, tornando-se dependente de medicamentos. Tudo gra\u00e7as \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial das livrarias. \u00c9 incompreens\u00edvel para quem v\u00ea de fora, mas estando imerso a isso, \u00e9 desesperador. N\u00e3o vou mentir, houveram diversas situa\u00e7\u00f5es em que perdia as esperan\u00e7as e o impulso era grande para cometer atrocidades. Gra\u00e7as a Deus, tive for\u00e7a para enfrentar isso. Agrade\u00e7o imensamente ao meu pai e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que me concedeu na inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia dentro do Espiritismos de Kardec, que me ajudou bastante no per\u00edodo. Era duro voc\u00ea contar com pessoal para trabalhar em parceria contigo, seguir o que rege e ter ci\u00eancia que quando h\u00e1 algum problema, a responsabilidade \u00e9 sua. Agora, se d\u00e1 problema nos outros, e voc\u00ea fica impossibilitado (por exemplo, de pagar pens\u00e3o aliment\u00edcia), \u00e9 frustrante. Tomar a decis\u00e3o em pagar um fornecedor e ter mercadoria para empresa \u201cgirar\u201d, ao inv\u00e9s de fazer mercado para o final de semana para sua fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 das situa\u00e7\u00f5es mais agrad\u00e1veis. Derruba qualquer pessoa. Eu lembro que houve uma ocasi\u00e3o em que eu fui buscar as minhas filhas na escola, e elas me pediram para comer pastel de feira. No momento em que eu aceitei, come\u00e7ou um novo tormento. Na minha cabe\u00e7a, eu lembrei que, para a Vers\u00e1til fazer o lan\u00e7amento do m\u00eas seguinte, estava faltando dinheiro, fundamental para a empresa ter o m\u00ednimo giro poss\u00edvel. Faltava pouco e, naquela manh\u00e3, estava contando centavos de cr\u00e9dito (trabalhando j\u00e1 com o limite de cheque especial) em diversas contas banc\u00e1rias pra fechar o pedido. O mesmo que depois serviria para pagar sal\u00e1rio de funcion\u00e1rios, tamb\u00e9m. Minhas filhas animad\u00edssimas, pois comeriam o desejado pastel e eu calculando se sobraria para pagar, que fosse, 20% do sal\u00e1rio da equipe ap\u00f3s dias de atraso da data de pagamento. Eu me sentia muito culpado por isso. Minhas filhas tinham seis anos na \u00e9poca, em toda sua inoc\u00eancia e pedindo por algo simples como um pastel de feira, que n\u00e3o \u00e9 das coisas mais caras. Mas o que significava ali era representatividade do dinheiro. E a\u00ed eu pensei: &#8220;Vou comprar pastel para elas, mas n\u00e3o vou comer. Vou conseguir ai 0,05% a mais para pagar ao pessoal&#8221;. Dei a elas, as deixei em casa, dirigi at\u00e9 o quarteir\u00e3o seguinte, me tranquei no carro e desabei. Isso ap\u00f3s diversas vezes em que e vi refletindo sobre situa\u00e7\u00f5es que aconteceram durante aquele per\u00edodo, como n\u00e3o estar disponibilizando em casa uma alimenta\u00e7\u00e3o simples e barata, como uma fruta, por exemplo, que uma delas gosta de comer. Isso para poder fazer a empresa girar e poder pagar o b\u00e1sico para a empresa sobreviver e continuar contando com a equipe do nosso lado. Sei que n\u00e3o deve se comparar com a fome ou situa\u00e7\u00f5es alarmantes de mis\u00e9ria ou o desemprego, mas \u00e9 frustrante a dedica\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de 10 a 14 horas por dia de trabalho e, no final do m\u00eas, ter dificuldade para ter o m\u00ednimo para viver. Enquanto isso, lidava com as livrarias que, ap\u00f3s dias pedindo algum acerto, prometiam uma data e n\u00e3o cumpriam. Foi em uma dessas situa\u00e7\u00f5es em que desenvolvi o vitiligo por conta do stress. Foi uma etapa na minha vida no qual eu deixava de comer ou de dormir direito. N\u00e3o conseguia me entreter, pois acreditava que meu tempo\/esfor\u00e7o poderia salvar \u2013 que fosse \u2013 1% para diminuir o impacto de quem estivesse ao meu lado. Recordo que, na \u00e9poca, eu tinha uma l\u00f3gica maluca que eu n\u00e3o tinha o benef\u00edcio de sonhar, em lidar com subconsciente e fornecer satisfa\u00e7\u00e3o de alguma forma para o pr\u00f3prio ego, enquanto havia uma pessoa sendo prejudicada pela decis\u00e3o que hav\u00edamos tomado que era acreditar no discurso das livrarias de que tudo seria pago. Na minha cabe\u00e7a, eu precisava viver apenas para trabalhar. Ent\u00e3o, no meio da noite, quando tinha consci\u00eancia de qualquer ind\u00edcio de sonhos, acordava frustrado e ia estudar alguma forma de vender\/melhorar o lucro. Passavam semanas em que as noites dormidas eram de tr\u00eas a quatro horas\/descanso por dia. Era o n\u00edvel de stress com o qual estava convivendo. Tudo isso antes e durante nos meses iniciais da recupera\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou o foco necess\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.versatilhv.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">na loja pr\u00f3pria da Vers\u00e1til<\/a> atrav\u00e9s do site para conseguir reerguer a empresa. Emergencialmente, \u00e0 \u00e9poca, como foi lidar com essa necessidade urgente de inje\u00e7\u00e3o de capital?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 A Vers\u00e1til gastou todo cr\u00e9dito banc\u00e1rio que tinha. E eu te digo: estamos pagando at\u00e9 hoje, e ainda vai demorar mais alguns anos para quitar todo empr\u00e9stimo que tivemos que fazer. Pra ser mais preciso, hoje, a Vers\u00e1til paga por m\u00eas, em parcelas para bancos, o equivalente a tr\u00eas vezes a folha de pagamento dela. Porque, no momento em que a gente n\u00e3o tinha sequer limite para cheque especial dispon\u00edvel, pois est\u00e1vamos devendo para fornecedores, com imposto em atraso, devendo para tudo quanto \u00e9 canto, o que fizemos? Fomos atr\u00e1s de cr\u00e9dito banc\u00e1rio de tudo quanto \u00e9 canto. Hoje, a gente est\u00e1 pagando por tudo que a recupera\u00e7\u00e3o judicial est\u00e1 fazendo. &#8220;Ah, ent\u00e3o o que te afeta hoje na recupera\u00e7\u00e3o judicial?&#8221; Pra voc\u00ea ter uma ideia, eu estou falando com voc\u00ea agora e com uma tabela aberta aqui na minha frente. Amanh\u00e3, preciso pagar R$7 mil para um banco em uma parcela. Daqui a dois dias, mais R$5 mil para outro. E precisa sobrar, na sexta-feira, mais 20% disso para pagamento do benef\u00edcio de alimenta\u00e7\u00e3o do pessoal \u2013 isso s\u00f3 esta semana! Voc\u00ea entende? Ent\u00e3o, voc\u00ea pensa em datas para sobreviver, e o que sobra, investe para manter a empresa girando \u2013 sen\u00e3o para. Uma fez convidei um consultor do SEBRAE para acompanhar nossas contas e ele citou que o problema \u00e9 estarmos arcando com a mesma d\u00edvida das livrarias, que mal administraram seus neg\u00f3cios e conseguiram aprova\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o judicial, s\u00f3 que elas conseguiram prazo em 13 anos. Enquanto que n\u00f3s s\u00f3 temos quatro ou cinco anos para isso, situa\u00e7\u00e3o esta que a Vers\u00e1til dificilmente conseguiria aprova\u00e7\u00e3o por conta da sua visibilidade no mercado. Diferente das livrarias, com as quais todos est\u00e3o familiarizados. Por isso \u00e9 muito revoltante a recupera\u00e7\u00e3o judicial da forma como aconteceu, da noite para o dia. E, hoje, estamos vivendo essa not\u00edcia de que a contraproposta que as livrarias <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2020\/09\/15\/plano-de-recuperacao-da-livraria-cultura-e-rejeitado-por-parte-dos-credores.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">propuseram aos credores foi negada<\/a>. \u00c9 ambivalente quando pensamos que a Livraria Cultura, que ajudou muito, inclusive, na imagem da Vers\u00e1til, tamb\u00e9m chegou a nos causar tanta dor e dificuldade. No momento em que ela est\u00e1 pedindo ajuda, \u00e9 dif\u00edcil aceitar todos os termos que ela pede, mas ainda tentamos negociar com ela, pois o mercado precisa cada vez de mais players ativos no mercado. \u00c9 dif\u00edcil. Ent\u00e3o, aquele foi realmente um desabafo que eu dei na live do Blog do Jotac\u00ea. Ao mesmo tempo em que temos que saber separar n\u00e3o s\u00f3 o profissional do pessoal, como distinguir o que \u00e9 o profissional do passado e atua\u00e7\u00e3o\/estrat\u00e9gias para atuar como um profissional que pensa em consequ\u00eancias futuras ao mercado. A gente precisa ter um mercado vivo e fortalecido. Eu agrade\u00e7o ao Fabio, da FAMDVD, que torce para a loja da Vers\u00e1til, assim como de outros lojas, para que d\u00eaem certo. Tamb\u00e9m desejo o mesmo para a The Originals, a Colecione Cl\u00e1ssicos, a Classicline, a V\u00eddeo P\u00e9rola \u2013 mesmo que algumas delas n\u00e3o tenham nossos produtos, \u00e9 importante que todas estejam buscando alternativas das mais criativas. Acredito que a consci\u00eancia coletiva, a presen\u00e7a e a habilidade de auto-renova\u00e7\u00e3o de todos no mercado, \u00e9 o que ir\u00e1 garantir a sobreviv\u00eancia de todos. Claro que a Vers\u00e1til perde espa\u00e7o quando, por exemplo, a Classicline lan\u00e7a o \u201cC\u00f3digo Nolan\u201d em blu-ray? Momentaneamente pensa que o consumidor podia estar em nossa loja, por\u00e9m, ao mesmo tempo, fortalece o mercado e nos desafia a fazer um produto melhor. A concorr\u00eancia e auto-cobran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 algo prejudicial.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59018\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/musicanocinema.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"625\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/musicanocinema.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/musicanocinema-300x250.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em termos de valores, quanto deve a Livraria Cultura \u00e0 Vers\u00e1til, hoje?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Hoje, a Livraria Cultua est\u00e1 devendo para a gente R$120 mil de produtos que fornecemos em novembro de 2019 at\u00e9 agora (Setembro\/2020, ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o judicial), al\u00e9m dos R$1.3 mi (informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www3.livrariacultura.com.br\/comunicados\/recuperacao-judicial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www3.livrariacultura.com.br\/comunicados\/recuperacao-judicial<\/a>), que s\u00f3 iremos receber de forma parcelada a partir de 2022 a 2035. Longe de 1% disso ao m\u00eas. A partir de uma reuni\u00e3o com a Livraria Cultura, continuando no fornecimento de mercadorias a ela, busquei outras distribuidoras independentes de filmes para alinharmos e a seguir o mesmo discurso com a Livraria Cultura. A Vers\u00e1til, CPC Umes Filmes, OP e a Classicline. Por\u00e9m, fomos colocados \u00e0 margem dela, que n\u00e3o demonstrou import\u00e2ncia com nossas dificuldades. Quando houve aceita\u00e7\u00e3o para a recupera\u00e7\u00e3o judicial das livrarias, sabia da import\u00e2ncia e eu procurei ajuda de um escrit\u00f3rio de advocacia especializado nessa \u00e1rea e sempre compartilhava informa\u00e7\u00f5es obtidas com representantes das independentes. Assim como acontece comigo, o tempo j\u00e1 \u00e9 escasso suficientemente para se aprofundar e a meia compreens\u00e3o podia estar equivocada. Poderia levar a tomar uma decis\u00e3o X ou Y e, assim, o mercado de m\u00eddia f\u00edsica para um rumo ainda pior. Ent\u00e3o, come\u00e7amos a desenvolver algumas alternativas que a gente poderia tomar e apoiamos a recupera\u00e7\u00e3o judicial votando a favor. Mas quando buscamos ajuda, ela nos negou. Havia uma obriga\u00e7\u00e3o legal por parte da Livraria Cultura, depois da recupera\u00e7\u00e3o judicial, a pagar valores consider\u00e1veis e cont\u00ednuos em novas compras ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o. Tudo estava acertado para come\u00e7armos a receber agora em outubro de 2020. At\u00e9 vir a pandemia, quando ficou certo que ningu\u00e9m sobreviveria se n\u00e3o atuasse em conjunto e cada um com a pr\u00f3pria loja. E agora todos questionamos: qual ser\u00e1 o futuro da Livraria Cultura? Ser\u00e1 que ela fecha, e se caso isso acontecer, quem vai entrar ali? Ser\u00e1 uma nova livraria? Ser\u00e1 que ir\u00e1 disponibilizar m\u00eddia f\u00edsica para venda? Ou ser\u00e1 outro neg\u00f3cio, com nada relacionado? A chance de todos sa\u00edrem perdendo n\u00e3o \u00e9 pequena. Ainda \u00e9 mais vantajoso o mercado estar vendendo, por mais superficial que fosse. Logo, por conta disso, fornecemos exclusivos dentro da Amazon, e continuamos tentando negociar com a Livraria Cultura, \u2013 obviamente, sem colocar nossa opera\u00e7\u00e3o em risco, conforme feito no passado. Insisto, o mercado precisa estar fortalecido. Temos de crer que o que est\u00e1 acontecendo com a Saraiva e com a Livraria Cultura ser\u00e1 passageiro, assim como a pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou a Amazon e quero aproveitar a deixa para citar a parceira da Vers\u00e1til com ela para a venda de filmes em blu-rays exclusivos. Isso ap\u00f3s um ano j\u00e1 vendendo em parceria com a gigante do varejo. Como se deu essa proximidade e negocia\u00e7\u00e3o desde 2019?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Em abril de 2019, a gente tinha acabado de passar pelos piores meses de faturamento da hist\u00f3ria da Vers\u00e1til. T\u00ednhamos acabado de sofrer a recupera\u00e7\u00e3o judicial da Livraria Cultura em novembro de 2018. Pouca gente conhecia a loja da Vers\u00e1til e os revendedores n\u00e3o estavam comprando nada. Foi quando veio a not\u00edcia: a Amazon iria come\u00e7ar a vender m\u00eddia f\u00edsica. Come\u00e7amos a procurar empresas parceiras que j\u00e1 tinham contato com o pessoal de l\u00e1, chegando a um comprador da Amazon. Real\u00e7amos o interesse e insistimos para marcar uma reuni\u00e3o. A primeira reuni\u00e3o da Amazon foi em abril\/maio de 2019, nem tinham aberto as vendas da m\u00eddia f\u00edsica e j\u00e1 est\u00e1vamos l\u00e1 (risos). Eu e o Fernando Brito apresentamos a Vers\u00e1til e como o nosso mercado funciona, falando de produtos exclusivos, apresentamos prints dos destaques que t\u00ednhamos na Livraria Cultura e na Saraiva, e da ajuda na divulga\u00e7\u00e3o pelas nossas m\u00eddias sociais. E j\u00e1 de cara demonstraram interesse, por\u00e9m disseram que o investimento que a Amazon faria iria depender de acordo com o retorno financeiro que ela obt\u00e9m no per\u00edodo anterior. Ou seja, logo no in\u00edcio, obviamente, seria muito fraco, mas prometia um crescimento a m\u00e9dio-longo prazo. &#8220;Vamos come\u00e7ar a trabalhar juntos logo no in\u00edcio a partir de setembro\/outubro. Ser\u00e1 super positivo&#8221;. S\u00f3 que entre aquele m\u00eas de abril e agosto de 2019, foi justamente a reviravolta que come\u00e7amos a ter na nossa loja, nosso site, o que foi tamb\u00e9m fundamental para as etapas seguintes. As livrarias n\u00e3o estavam mais adquirindo os nossos produtos, a todo momento havia um novo impasse nos tratos comerciais por conta da situa\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias da recupera\u00e7\u00e3o judicial em si e ainda pouqu\u00edssimas lojas de menor porte estavam interessados em revender nossos produtos. Enquanto isso, houve situa\u00e7\u00f5es em que clientes nos ligavam diretamente perguntando onde comprar nossos produtos. Recordo de uma liga\u00e7\u00e3o que recebi um dia \u00e0s 20h, direto no escrit\u00f3rio, de um senhor falando que ia toda semana na Livraria Cultura procurar os produtos da Vers\u00e1til, mas n\u00e3o achava mais. Foi quanto indicamos nossa loja. Lembro ele ter falado que tinha toda a cole\u00e7\u00e3o \u201cFilme Noir\u201d, sua cole\u00e7\u00e3o favorita, citando que tinha do 1 ao 8. Quando eu disse que est\u00e1vamos no volume 13 j\u00e1, ele ficou pasmo e pediu a conta pra depositar na hora e adquirir os outros cinco volumes (risos). Minutos ap\u00f3s a entrada do recurso, usei o valor para pagar uma conta vencida&#8230; Ao mesmo tempo, come\u00e7amos a ver que muita gente nos procurava para comprar diretamente pelas m\u00eddias sociais ou perguntava onde teria aquela mercadoria para adquirir. Foi quando come\u00e7amos a reparar que havia uma esperan\u00e7a de sobrevida. \u00c9 o que eu falei sobre os aparelhos: ainda existe uma demanda e acreditamos no potencial para o crescimento. Foi quando come\u00e7amos a estudar outras lojas, condi\u00e7\u00f5es melhores de frete, visual da loja, infra estrutura da equipe, etc. Meu irm\u00e3o, Juliano Melo, encabe\u00e7ou todo esse projeto e, hoje, \u00e9 quem administra e controla a maior parte nesse setor. Nesse momento, come\u00e7amos a obter resultados. Simultaneamente, a Amazon abriu as vendas de produtos do nosso ramo. Considerando a situa\u00e7\u00e3o que encontr\u00e1vamos, eu n\u00e3o sei se sobreviver\u00edamos at\u00e9 este ano, quando, hoje, est\u00e3o efetivamente aceitando fazer exclusivos com mais pe\u00e7as. Afinal de contas, a Vers\u00e1til possui uma margem bem mais atrativa na pr\u00f3pria loja, o que capacita, inclusive, a fazer mais lan\u00e7amentos. E independente disso, continuamos trabalhando comercialmente com a Amazon e outros players interessados na revenda. Precisamos que os produtos da Vers\u00e1til estejam l\u00e1. Enfatizando, novamente, o acesso do p\u00fablico m\u00e9dio para que venha conhecer a marca, que \u00e9 o que faz o diferencial para chegarmos a uma quantidade maior de pe\u00e7as produzidas na nossa f\u00e1brica. O produto tem que ser levado aos grandes p\u00fablicos para que haja o reconhecimento e o valor da m\u00eddia f\u00edsica. O produto bem acabado, bem apresentado, curadoria bem selecionada, repleto de conte\u00fado e extras, etc. O colecionador ativo conhece a fundo, mas, por exemplo, o p\u00fablico m\u00e9dio, como esse senhor que ligou para a Vers\u00e1til, n\u00e3o conhece a FAMDvD ou The Originals e fica ressabiado de comprar. Mas no final de semana, frequenta shoppings e tem familiaridade com a Livraria Cultura ou Saraiva. Foi quando come\u00e7amos a oferecer exclusivos dentro da Amazon, em outubro e novembro do ano passado. E eles falaram: &#8220;Olha, para exclusivos, a parte de m\u00eddia f\u00edsica, as vendas ainda est\u00e3o t\u00edmidas. Ainda n\u00e3o nos apresentaram n\u00fameros suficientes. Ent\u00e3o, neste momento, podemos fazer um exclusivo com 100 pe\u00e7as&#8221;. Todavia, somos obrigados a seguir uma tiragem m\u00ednima de produ\u00e7\u00e3o na f\u00e1brica de mil pe\u00e7as \u2013 e n\u00e3o haveria como investir antecipadamente, estocar e segurar 900 pe\u00e7as por meses estas mercadorias paradas. Ainda mais naquela condi\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos vivendo. Ent\u00e3o, aquele momento ainda era muito embrion\u00e1rio para a Amazon, por mais que seu sistema seja mais tecnol\u00f3gico no quesito de compras (algo que as livrarias possu\u00edam, antigamente, pessoal especializado, como o Igor Oliveira \u2013 hoje atuante no CPC Umes Filmes). Hoje, tamb\u00e9m entendemos que foi gra\u00e7as a esse timing da Amazon que ocasionou o sucesso da nossa loja e aproxima\u00e7\u00e3o dos clientes. Come\u00e7amos a desenvolver possibilidades, como a retomada dos blu-rays, j\u00e1 pr\u00f3ximo do final de 2019. Come\u00e7amos a preparar a distribuidora para focar no que o mercado queria, para que tipo de produtos que ir\u00edamos trabalharem 2020, buscando um aperfei\u00e7oamento e melhor atendimento a quem entrasse em contato com a nossa loja. Ap\u00f3s alguns meses fazendo exclusivos na Vers\u00e1til, e estando certo do resultado positivo dos blu-rays, foi que fizemos a retomada da proposta\/parceria com alguma revendedora. Ap\u00f3s um ano daquele primeiro contato que tivemos em 2019 com a Amazon, percebemos a Saraiva h\u00e1 seis meses sem interesse em comprar nossos t\u00edtulos. Sequer respondia nossos e-mails e rod\u00edzio de compradores a cada dois meses. A Livraria Cultura ainda em recupera\u00e7\u00e3o judicial, comprando pouco e exigindo novamente um trato comercial mais vantajoso a eles do que para n\u00f3s. As pequenas livrarias, por conta da pandemia estavam com as portas fechadas e certamente iriam demorar para &#8220;recuperar o f\u00f4lego&#8221;, na reabertura do com\u00e9rcio. E a Amazon estava crescendo cada vez mais, atuante e comprando bem mais do que quando do inicio as negocia\u00e7\u00f5es conosco. Vejo que \u00e9 essencial trabalhar com revendedores, tamb\u00e9m, pois eles ajudam no investimento deles para ter um produto em loja por um tempo determinado. Ent\u00e3o, isso j\u00e1 garante 20% ou 30% a mais a ser produzido na f\u00e1brica, melhorando a margem da venda do custo unit\u00e1rio, sendo mais vantajoso produzir dois ou tr\u00eas mil unidades, ao inv\u00e9s de mil. \u00c9 interessante para todo o mercado isso. Sempre procurei propor exclusivo para todos os clientes, abria possibilidades, buscando algo para inovar, mas nenhuma outra loja queria investir mais de 20 pe\u00e7as e colocam a responsabilidade na distribuidora. A\u00cd fica dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e0 toa que vamos lan\u00e7ar agora em novembro e dezembro, nove t\u00edtulos em blu-ray, ainda mais completos e com mais memorabilia do que outros produtos da linha lan\u00e7ados h\u00e1 alguns anos. Tudo isso foi o passo adiante dado ap\u00f3s mar\u00e7o desse ano, <a href=\"https:\/\/blogdojotace.com.br\/2020\/03\/07\/agora-sim-versatil-volta-para-os-bracos-da-alta-definicao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">quando anunciamos o lan\u00e7amento do \u201cCarpenter Essencial\u201d<\/a>. Mas, por que isso foi poss\u00edvel? Porque vimos at\u00e9 que ponto conseguir\u00edamos administrar juntamente com a f\u00e1brica, testando o valor\/itens como de brindes que poder\u00edamos colocar junto. Qual frete eu posso trabalhar na nossa loja; como \u00e9 que est\u00e1 o mercado para ter um produto assim; quantas pessoas v\u00e3o comprar, etc. Ent\u00e3o, a gente vai testando e estipulando m\u00e9tricas, acompanhando resultados e medindo at\u00e9 quanto conseguimos. \u00c9 gra\u00e7as a esse momento de nicho que estamos passando, que conseguimos fazer um investimento desse porte, por mais que possam ocorrer atrasos, ser\u00e3o entregues nas condi\u00e7\u00f5es que anunciamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em diversas entrevistas, foi observado o perfil predat\u00f3rio da Amazon em rela\u00e7\u00e3o a pequenas livrarias e lojas de filmes bem como varejistas de outras \u00e1reas. No campo da m\u00eddia f\u00edsica, a vemos vender por valores bem menores, causando um desequil\u00edbrio percept\u00edvel em um mercado que j\u00e1 \u00e9 fr\u00e1gil. Como distribuidora e tamb\u00e9m varejista, qual sua opini\u00e3o sobre isso enquanto diretor da Vers\u00e1til?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 A Amazon tem alcance a uma quantidade enorme de pessoas, que jamais a Vers\u00e1til ou 90% das empresas com produtos ali sendo vendidos teria com a loja pr\u00f3pria. Ao mesmo tempo, acredito, como qualquer outro acordo comercial, tudo tem que ser proposto, seguido e concordado por ambas as partes. A Amazon, independente da sua \u201cfama\u201d, deve-se estar atento \u00e0s \u201cletras mi\u00fadas\u201d. Em outras palavras, acordos podem estar sujeitos a altera\u00e7\u00f5es e cancelamentos se n\u00e3o forem bem pontuadas inicialmente e lembrados a todo momento durante o acordo. \u00c9 a mesma tratativa quando negoci\u00e1vamos com grandes varejistas na primeira d\u00e9cada da Vers\u00e1til. Todo contrato tem que ser avaliado com lupa e por diversas pessoas, pois podem resultar em uma venda que gere preju\u00edzo ao inv\u00e9s de lucro. Tudo deve ser tratado estrategicamente, considerando at\u00e9 a hip\u00f3tese de desistir de uma a\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 da parceria. Por conta da dificuldades que tivemos em 2018 e em 2019, est\u00e1vamos sujeitos a aceitar muitas condi\u00e7\u00f5es comerciais que a Amazon ou qualquer outra empresa ofertasse. Mas por sorte nossa, isso n\u00e3o ocorreu. Hoje, damos gra\u00e7as a Deus. Ao mesmo tempo em que a Amazon pode ajudar na divulga\u00e7\u00e3o do produto\/marca, ela tamb\u00e9m pode fazer a extin\u00e7\u00e3o de mercados em prol dela. Por isso, todo mundo que trabalha com a Amazon deve refletir muito bem antes de desenvolver algo com ela. Sabendo onde e quando ir em frente ou n\u00e3o \u2013 pois talvez s\u00f3 compense usar o canal do marketplace. Tendo como exemplo, fizemos muitos estudos antes de propor aos analistas da Amazon com estes exclusivos que levamos para parceria. E a margem da Vers\u00e1til \u00e9 p\u00edfia a curto prazo: somente teremos margem na quantidade que vendermos em nossa loja e a m\u00e9dio prazo. Mas a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a Amazon ajude na divulga\u00e7\u00e3o dos produtos e da Vers\u00e1til, pois al\u00e9m de tudo, ela tem uma atua\u00e7\u00e3o mundial e sabemos at\u00e9 onde ela pode esticar a opera\u00e7\u00e3o Brasil dela e a ajudar no movimento em prol da m\u00eddia f\u00edsica. Por isso, uma coisa \u00e9 certa: dificilmente, considerando na atualidade, a Amazon ter\u00e1 exclusivos no mesmo n\u00edvel que a Livraria Cultura teve conosco, um por m\u00eas, por exemplo. Tanto que mantivemos em nossa loja o mesmo produto anunciado por eles. Todos devemos aproximar o m\u00e1ximo de p\u00fablico poss\u00edvel para a m\u00eddia f\u00edsica. Queremos chegar a uma produ\u00e7\u00e3o e a uma margem de lucro muito mais interessante e mais saud\u00e1vel para colocar mais produtos no mercado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59017\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil3-300x170.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/versatil3-388x220.jpg 388w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2020 se encerra como um ano bastante significativo para a Vers\u00e1til em termos de lan\u00e7amentos em blu-ray. Para al\u00e9m da curadoria, algo que o Fernando descreveu bem em suas respostas, voc\u00ea poderia abordar mais sobre esse processo de escolha dos t\u00edtulos?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Quando idealizamos um lan\u00e7amento, ap\u00f3s an\u00e1lise de mercado (atualmente via m\u00eddias sociais e enquetes) com ajuda do Juliano Melo (diretor) e da excelente curadoria\/conhecimento do Fernando Brito, seguimos adiante. Havendo concord\u00e2ncia de todos do que \u00e9 legal principalmente para a comunidade cin\u00e9fila, seguimos em frente. Fazemos o levantamento de algumas hip\u00f3teses de produtos (comercialmente falando \u2013 ou seja, se j\u00e1 foi lan\u00e7ado no Brasil, h\u00e1 pouco ou muito tempo, se h\u00e1 bastante material complementar, etc.), come\u00e7amos a sondar a viabilidade, como a disponibiliza\u00e7\u00e3o de direitos autorais, pois somente depois de estarmos em processo de fechar um contrato, come\u00e7amos a montar como ser\u00e1 a configura\u00e7\u00e3o do produto. Dublagens e extras acabam surgindo na pesquisa e v\u00e3o entrando como complemento posteriormente, na maior parte das vezes, embutidas no mesmo contrato. Com todas as partes j\u00e1 acertadas, apenas aguardando a assinatura do contrato (\u00e0s vezes leva semanas para estar 100%). Um produto da linha \u201cFilme Noir\u201d, por exemplo, pode ter at\u00e9 seis est\u00fadios\/contratos diferentes. H\u00e1 os valores de como ficar\u00e1 o produto na f\u00e1brica\/gr\u00e1fica, ou se haver\u00e1 envolvimento de outros profissionais na confec\u00e7\u00e3o do produto, como o desenhista, ou convidado para escrever no livreto, etc., que tamb\u00e9m entram nessa parte final. Quando o pessoal vem com toda essa carga de informa\u00e7\u00f5es, montamos tudo. Confio muito na equipe, e, assim, seguimos para assinatura. \u00c9 quando fechamos o contrato l\u00e1 fora de todas as propostas que t\u00ednhamos feito para essas seis empresas. Embora \u00e0s vezes, com duas j\u00e1 temos o contrato\/produto fechado. H\u00e1 ocasi\u00f5es, de filmes em dom\u00ednio p\u00fablico, logo s\u00e3o menos. Mas s\u00f3 lan\u00e7amos o produto efetivamente quando a gente estiver com tudo certo, tudo assinado e (pelo menos uma parte) j\u00e1 pago (o m\u00ednimo garantido) que \u00e9 uma cl\u00e1usula contratual da garantia que os direitos autorais daquele produtos v\u00e3o estar com a distribuidora por aquele determinado per\u00edodo em diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outro lan\u00e7amento \u00e9 o do blu-ray de \u201cMorto N\u00e3o Fala\u201d, um dos melhores filmes nacionais dentro de um cinema de g\u00eanero, que surgiu a partir de uma procura dos pr\u00f3prios detentores do filme para um lan\u00e7amento em m\u00eddia f\u00edsica. Como se deu esse processo de escolha do lan\u00e7amento em m\u00eddia f\u00edsica? H\u00e1 possibilidade de outros filmes nacionais na Vers\u00e1til?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Se a gente come\u00e7a a sentir que os colecionadores est\u00e3o pedindo muito uma coisa, seja no formato do produto ou do custo-benef\u00edcio na embalagem, por exemplo, procuramos alternativas. Se \u00e9 vi\u00e1vel, fazemos nossa parte em procurar alternativas e demonstrar interesse quando alguns projetos s\u00e3o encaminhados a n\u00f3s por e-mail e\/ou indica\u00e7\u00e3o. Queremos fazer um A ARTE DE ou CINEMA DE com um cineasta brasileiro, tamb\u00e9m. E j\u00e1 tem alguma coisa a\u00ed aparentemente surgindo para 2021. Al\u00e9m disso, alguns t\u00edtulos individuais que valeriam o produto seja em DVD ou blu-ray. Nesse caso de \u201cMorto N\u00e3o Fala\u2019, n\u00e3o ser\u00e1 somente o filme do Dennison Ramalho, mas, tamb\u00e9m, entrevistas feitas com a equipe do filme, os curtas feitos por ele, al\u00e9m do storyboard do projeto das cenas. O produto \u00e9 digno de um lan\u00e7amento em Blu-ray, da mesma forma que deve ter o mesmo alcance lan\u00e7ando-o em DVD. Ser\u00e1 uma aposta grande, principalmente em alta defini\u00e7\u00e3o, pois al\u00e9m de fazer muito tempo em n\u00e3o lan\u00e7armos produto nacional, nunca o fizemos em BD. Todavia, \u201cMorto N\u00e3o Fala\u201d tem um fator que deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o que \u00e9 o fato de ainda estar em muitos canais de streaming, por mais que j\u00e1 tenha passado o hype (e o material em blu-ray ter um aproveitamento muito melhor), o material complementar aqui ser\u00e1 o trunfo. \u00c9 uma realiza\u00e7\u00e3o muito grande para n\u00f3s trabalhar com um produto nacional, com atores conhecidos e respeitados, al\u00e9m de valorizar o produto f\u00edsico para aproxima\u00e7\u00e3o do p\u00fablico n\u00e3o cin\u00e9filo\/n\u00e3o colecionador. E como o blu-ray j\u00e1 \u00e9 uma outra barreira de acessibilidade, a ideia seria trazer o p\u00fablico para esse formato de reprodu\u00e7\u00e3o. A ideia do lan\u00e7amento simult\u00e2neo \u00e9 divulgar o projeto tamb\u00e9m para os seguidores dos atores, que possuem uma legi\u00e3o enorme de f\u00e3s ainda maior do que dos grupos de colecionadores de m\u00eddia f\u00edsica. Convid\u00e1-los a conhecer a Vers\u00e1til e conhecer a nossa luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lan\u00e7ar nas duas m\u00eddias eu vejo com o um acerto, de fato. O alcance do DVD para esse p\u00fablico que conhece esses atores a partir da TV ser\u00e1 bem maior, de fato.<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Sim. No Brasil, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito mais acostumada a novelas da Globo e a identidades emblem\u00e1ticas dos atores. Enxergam ali uma fonte de conte\u00fado que, al\u00e9m de entreter, \u00e9 interessante e acess\u00edvel. Embora existam outras formas de entretenimento relacionadas \u00e0 TV e ao audiovisual, como o DVD, que pode agregar muito mais conte\u00fado complementar. Ok, \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea propor ao p\u00fablico acostumado a consumir novela da Globo e filmes da Marvel\/Tela Quente, a conhecer filmes como \u201cO S\u00e9timo Selo\u201d (Bergman), \u201cPai e Filha\u201d (Ozu) ou \u2018Nosferatu\u201d (vers\u00f5es de Herzog ou de Murnau). Por\u00e9m, se voc\u00ea apresenta \u201cRuas de Fog\u201do, ou \u201cStargate\u201d, por exemplo, come\u00e7a a ser mais interessante. \u00c9 um p\u00fablico que j\u00e1 vivenciou aquele filme de alguma forma, e certamente, quando for buscar adquirir esse produto, acabar\u00e1 conhecendo mais do nosso material. Me lembro quando fizemos o anivers\u00e1rio de 20 anos da Vers\u00e1til no ano passado. N\u00f3s realizamos uma palestra na Livraria Blooks, do Shopping Frei Caneca. Estavam presentes meu pai, o Fernando Brito e eu. Eu lembro que perguntei a eles qual a import\u00e2ncia do DVD hoje, e meu pai foi muito pontual afirmando que n\u00e3o \u00e9 somente o tipo de entretenimento que ir\u00e1 trazer a divers\u00e3o ou a emo\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, gerar conte\u00fado, aumentar os n\u00edveis de humanidade e sensibilidade, algo muito ausente nos dias de hoje, tanto no mundo capitalista como nas m\u00eddias sociais. Logo, quanto ao conte\u00fado, voc\u00ea tendo acesso a mais filmes, mais voc\u00ea tem a agregar e a enriquecer com isso. Eu lembro quando o Fernando falou: &#8220;para compor o box, quando come\u00e7o a minha curadoria, eu n\u00e3o penso s\u00f3 em coisa comercial. Eu penso o comercial, algo que nunca foi lan\u00e7ado, algo que poucas pessoas conhecem. Porque, certamente, v\u00e3o conhecer coisas novas e v\u00e3o gostar. N\u00e3o h\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o maior, para mim, apresentar algo que n\u00e3o conhecem e essas pessoas venham a gostar\u201d. E acredito que para o lan\u00e7amento de \u201cMorto N\u00e3o Fala\u201d chegar nesse p\u00fablico, seja pelo elenco, autor, diretor ou pela pr\u00f3pria Globo Filmes, ele deve ter um atrativo especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem sido dif\u00edcil lan\u00e7ar mais filmes nacionais por causa dos direitos autorais?<\/strong><br \/>Andr\u00e9 Melo \u2013 Tem alguns filmes que mesmo voc\u00ea lan\u00e7ando diretamente com o produtor, causa problemas. Seja porque em algum momento foi lan\u00e7ado por outra empresa, ou algum contrato que venceu de uma forma, mas n\u00e3o de outra, ou algu\u00e9m que v\u00ea ali a possibilidade de arrecadar alguma quantia monet\u00e1ria de alguma forma, como herdeiro de algu\u00e9m que fez parte do filme, ex-esposa, etc. Al\u00e9m de tudo isso, \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o do sistema judici\u00e1rio em nosso pa\u00eds. At\u00e9 ter tudo esclarecido, o juiz barra as vendas, o que causa voc\u00ea lan\u00e7ar, ter um gasto todo envolvido e precisar ficar com o produto parado em estoque enquanto levam meses\/anos para que haja a devida libera\u00e7\u00e3o legal para a retomada da comercializa\u00e7\u00e3o. Ou seja, quem acaba \u201cpagando o pato\u201d \u00e9 a distribuidora que investe e n\u00e3o tem o retorno. E ainda fica sendo cobrada pelos licenciadores de royalties, que n\u00e3o se importam com os tratos comerciais de terceiros. Um exemplo disso \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o judicial das livrarias, em que tivemos que atrasar com alguns parceiros \u2013 e mesmo sabendo de toda situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quiseram saber: nos obrigavam a acertar algo sem mesmo termos recebido por isso. Ent\u00e3o, \u00e9 o mesmo discurso para alguns filmes que est\u00e3o impossibilitados para distribuidoras independentes lan\u00e7arem. \u00c9 necess\u00e1rio aguardar. Assim como o \u201cCidade de Deus\u201d, temos que esperar vencer o contrato de direitos autorais de quem assinou, tornar-se dispon\u00edvel, \u201cpassar para outras m\u00e3os\u201d, como voltar ao detentor\/produtor original, para da\u00ed, realmente, come\u00e7ar a pensar um novo projeto. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 como ser comercializado. \u00c9 uma das situa\u00e7\u00f5es que chamamos de filmes que est\u00e3o \u201cno limbo\u201d e devemos aguardar uma possibilidade mais vi\u00e1vel para lan\u00e7ar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-59005\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/morto.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/morto.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/morto-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><strong>Panorama do Mercado Cin\u00e9filo de M\u00eddia F\u00edsica em 2020 no Brasil<\/strong><br \/>01)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/05\/entrevista-fabio-martins-famdvd-especial-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">F\u00e1bio Martins \u2013 Loja FAMDv<\/a><br \/>02)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/06\/entrevista-fernando-alves-the-originals-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Luiz Alves \u2013 Loja The Originals<\/a><br \/>03)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/07\/entrevista-classicline-1films-e-video-perola-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\">Classicline, 1Films e V\u00eddeo P\u00e9rola<\/a><br \/>04)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/08\/entrevista-valmir-fernandes-obras-primas-do-cinema-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\">Valmir Fernandes (Obras Primas do Cinema)<\/a><br \/>05)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/09\/entrevista-igor-oliveira-cpc-umes-filmes-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Igor Oliveira (CPC UMES Filmes)<\/a><br \/>06)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/10\/entrevista-daniel-herculano-clube-box-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\">Daniel Herculano (Clube Box)<\/a><br \/>07)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/11\/entrevista-gleisson-dias-clube-rosebud-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gleisson Dias (Rosebud Club)<\/a><br \/>08)\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/12\/entrevista-andre-melo-e-fernando-brito-versatil-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Andr\u00e9 Melo e Fernando Brito (Vers\u00e1til)<\/a><br \/>09) <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/13\/entrevista-juliano-vasconcellos-e-celso-menezes-blog-do-jotace-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\">Juliano Vasconcellos e Celso Menezes (Blog do Jotac\u00ea)<\/a><\/p>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nessa entrevista ao Scream &#038; Yell, um dos atuais diretores, Andr\u00e9 Melo, e o curador Fernando Brito, trazem uma aprofundada an\u00e1lise desse mercado desde o surgimento h\u00e1 21 anos da Vers\u00e1til, bem como abordam processos curatoriais, escolhas comerciais e os desafios de se manter ativa\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/12\/entrevista-andre-melo-e-fernando-brito-versatil-mercado-cinefilo-de-midia-fisica-2020\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":59007,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4993,5011],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58989"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58989"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":59051,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58989\/revisions\/59051"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59007"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}