{"id":58912,"date":"2020-12-08T00:59:33","date_gmt":"2020-12-08T03:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58912"},"modified":"2021-01-13T18:02:13","modified_gmt":"2021-01-13T21:02:13","slug":"entrevista-lara-rossato-fala-de-solidez-seu-terceiro-disco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/08\/entrevista-lara-rossato-fala-de-solidez-seu-terceiro-disco\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lara Rossato fala de &#8220;Solidez&#8221;, seu terceiro disco"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um disco de can\u00e7\u00f5es novas, totalmente ac\u00fasticas, misturando a forma\u00e7\u00e3o pop com a mem\u00f3ria afetiva de chacareras e milongas. Dito assim, n\u00e3o parece a premissa de um disco indie ou moderno, e tudo bem, porque sua autora n\u00e3o tinha qualquer inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-lo dessa forma. O que a cantora e compositora ga\u00facha Lara Rossato queria era fazer um disco aut\u00eantico, com can\u00e7\u00f5es que fossem honestas e coerentes com sua hist\u00f3ria e sua sensibilidade, e que conseguissem entregar essa honestidade e coer\u00eancia com apuro cancioneiro. Conseguiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLhqJtsUd2lFQfoWwEtFS-a8eZw5lSwSbB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Solidez<\/a>\u201d \u00e9 o terceiro \u00e1lbum de Lara Rossato. O primeiro, \u201cDoce\u201d (2010), \u00e9 praticamente caseiro, percebido pela pr\u00f3pria como uma aventura adolescente. O segundo, \u201cMesa para Dois\u201d (2014), \u00e9 uma p\u00e9rola preciosa (ainda que pouqu\u00edssimo valorizada) do pop de guitarra nacional. Entre eles, alguns singles que tateavam um caminho bastante indefinido, uma busca no qual a vontade de entregar uma m\u00fasica relevante e pessoal se chocava contra a necessidade de sobreviver da m\u00fasica e o questionamento sobre a validade da pr\u00f3pria carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/06\/tres-perguntas-lara-rossato\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Na primeira vez que falou com o Scream &amp; Yell<\/a>, Lara Rossato tinha a seguran\u00e7a ing\u00eanua que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel aos 20 e poucos anos. Cinco anos e meio depois, e j\u00e1 tendo dobrado a casa dos 30, Lara mostra nessa nova conversa uma lucidez e uma coragem que antes n\u00e3o apareciam. Mais impressionante, as 11 can\u00e7\u00f5es de \u201cSolidez\u201d refletem essa transforma\u00e7\u00e3o pessoal, configurando um \u00e1lbum sens\u00edvel e cativante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Lara Rossato consegue com esse \u00e1lbum \u00e9 resgatar uma can\u00e7\u00e3o popular que faz sentido em sua vida e torn\u00e1-la vigente para si e para o ouvinte nesse 2020 de dor, mudan\u00e7a e imprevisibilidade. N\u00e3o \u00e9 pouco \u2013 e cada nova audi\u00e7\u00e3o sugere que essa vig\u00eancia n\u00e3o encontrar\u00e1 data de vencimento. \u00c9, talvez, o primeiro disco de m\u00fasica ga\u00facha feita por uma mulher, com apelo pop, e sem se apegar a um id\u00edlio rural que n\u00e3o existe mais. Na conversa a seguir, Lara conta como chegou a isso, em um caminho em que a mudan\u00e7a de carreira se mistura, se confunde e se complementa com a pessoal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lara Rossato - hum hum hum (videoclipe oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9hMgrvPnsZE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje vivemos um mundo &#8220;l\u00edquido&#8221;, naquela defini\u00e7\u00e3o do Zygmunt Bauman, no que diz respeito \u00e0s nossas rela\u00e7\u00f5es e sentimentos. &#8220;Solidez&#8221; \u00e9 uma resposta a isso? Uma busca de reagir a tanta fluidez, tentar represar algo?<\/strong><br \/>\nSim e n\u00e3o, acho que tem que haver um equilibrio. J\u00e1 deixei de fazer muitas coisas na vida por estar inserida inconscientemente nesse contexto de \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d. Sempre fui bastante imediatista e convencida de que deveria aproveitar as \u201condas\u201d do momento, mas com o passar dos anos e boas doses de psican\u00e1lise, percebi que deixei de construir coisas s\u00f3lidas por pensar dessa maneira, e tamb\u00e9m acredito que se tu segue todas as tend\u00eancias, tu perde tua identidade art\u00edstica ou fica sem nenhuma. Quando esse conceito do Bauman come\u00e7ou a ficar conhecido, encontrei nessa teoria o \u201cnome bonito\u201d pra explicar aquilo que eu j\u00e1 tinha percebido em mim e ao meu redor e que fez todo o sentido, al\u00e9m de tornar mais consciente minhas escolhas e padr\u00f5es de comportamento. O fato \u00e9 que a tend\u00eancia do momento n\u00e3o \u00e9 de lan\u00e7amento de \u00e1lbuns, e eu lancei o \u201cSolidez\u201d e estou tendo um feedback incr\u00edvel! Quis fazer um \u00e1lbum ac\u00fastico em um momento que existe muita m\u00fasica eletr\u00f4nica e urbana tocando por a\u00ed. Foi meio que provando pra mim mesma que \u00e9 poss\u00edvel fazer o que eu quero, sem seguir tend\u00eancias. Consciente disso, tamb\u00e9m trabalho com o conceito de fluidez. O \u00e1lbum tem um prazo de validade e eu preciso lan\u00e7ar outros singles, outros clipes, at\u00e9 porque vou ter outros momentos pra registrar e eu evoluo atrav\u00e9s da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitas das can\u00e7\u00f5es dizem respeito a encontrar a si mesma \u2013 e manter-se fiel depois desse &#8220;encontro&#8221;. Esse processo teve algo a ver com tua sa\u00edda de Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nSim! Eu precisava fazer as pazes com meu diferencial art\u00edstico que todos j\u00e1 conheciam, mas eu n\u00e3o queria aceitar porque queria me enturmar, queria fazer parte da cena da capital pra ter meu espa\u00e7o. Meus colegas faziam bossa nova, samba e eu me sentia um peixe fora d&#8217;\u00e1gua nesse mar \u201cbrasileiro e tropical\u201d. Sem falar na galera mais alternativa, com m\u00fasicas mais \u201ccabe\u00e7a\u201d, cheia de met\u00e1foras que s\u00f3 eles entendem. E eu gostava dos tangos, das chacareras, dos viol\u00f5es flamencos, daquele dramalh\u00e3o todo. Um dia me peguei tentando compor algo mais alternativo e ficou horr\u00edvel. N\u00e3o sabia mais que m\u00fasica queria fazer, fiquei sem lan\u00e7ar nada por um tempo. Al\u00e9m disso, estava cansada da capital, queria viver com mais seguran\u00e7a, mais prop\u00f3sito, ficar mais perto das pessoas que eu amo. Depois de um per\u00edodo bem turbulento, decidi que iria fazer um som mais regional ou pelo menos com mais latinidade. N\u00e3o quis mais me enturmar e nem fazer parte de cena alguma. Eu n\u00e3o me encaixei e n\u00e3o fa\u00e7o mais nenhuma quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea estava vindo numa explora\u00e7\u00e3o de um pop mais contempor\u00e2neo, flertando com o eletr\u00f4nico e o dan\u00e7ante em singles como &#8220;Suspeitos&#8221;, &#8220;N\u00e3o Tem Freio&#8221; e a primeira vers\u00e3o de &#8220;hum hum hum&#8221;. E agora voc\u00ea vem com um \u00e1lbum eminentemente ac\u00fastico, destacando sua origem ga\u00facha. O que causou essa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nUma das minhas metas sempre foi ter um \u00e1lbum mais dan\u00e7ante e usar elementos regionais. Eu j\u00e1 vinha tentando fazer isso desde o meu primeiro \u00e1lbum caseiro em 2009, quando usei acordeom em algumas m\u00fasicas. Infelizmente, \u201cSuspeitos\u201d e a primeira vers\u00e3o de \u201chum hum hum\u201d tiveram produ\u00e7\u00f5es sobre as quais n\u00e3o tive controle algum. Na verdade, eu fiz essa m\u00fasica para uma marca nacional de sapatos, com uma letra em ingl\u00eas como foi pedido, s\u00f3 que n\u00e3o foi aprovada pela marca. Ent\u00e3o, como j\u00e1 estava com o arranjo gravado, decidimos lan\u00e7ar pelo selo com o qual eu trabalhava na \u00e9poca (Loop Discos), eu estava sedenta por lan\u00e7amentos e aceitando o que viesse, minha carreira estava parada. Tamb\u00e9m me disseram que gravar\u00edamos mais outras. O fato foi que n\u00e3o gravamos porque n\u00e3o havia tempo dispon\u00edvel no est\u00fadio. A primeira vers\u00e3o de \u201chum hum hum\u201d foi uma loucura total! Ela j\u00e1 estava bem encaminhada, mais ac\u00fastica, com um arranjo do Pedro Petracco (m\u00fasico e compositor, ex-integrante da banda Cartolas). Ent\u00e3o comecei a trabalhar com um produtor que me prop\u00f4s levar a faixa para outro est\u00fadio para mixar e masterizar. Ele acabou chamando outro produtor para modificar as baterias e deixar mais pop, a inten\u00e7\u00e3o era tentar rodar nas r\u00e1dios mesmo. No total foram mais de 20 horas de mixagem, um super desgaste emocional e um enorme gasto financeiro. Fui aceitando a vers\u00e3o porque estava realmente cansada e pressionada para lan\u00e7ar logo. Ela foi a primeira m\u00fasica que me fez receber mensagens de f\u00e3s me pedindo muito por ela! Logo depois rompi com esse produtor por problemas no nosso relacionamento de trabalho. Estava j\u00e1 com dia marcado para fazer um videoclipe e cancelei tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a \u201cN\u00e3o Tem Freio\u201d?<\/strong><br \/>\nEla foi meu laborat\u00f3rio disso que eu sonhava fazer, misturar m\u00fasica de raiz com pop. Ela \u00e9 uma m\u00fasica eletr\u00f4nica com trap e chacarera. Eu ganhei a produ\u00e7\u00e3o dessa faixa em um concurso de compositores do mentor de carreiras Rulio Salinas em parceria com os produtores do [est\u00fadio] 48k e fui a S\u00e3o Paulo gravar. A experi\u00eancia foi maravilhosa, mas n\u00e3o teve continuidade porque o projeto era somente para um lan\u00e7amento e esse n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o deles exigiria um enorme investimento em grava\u00e7\u00e3o, caso eu quisesse gravar mais. Dito tudo isso, eu respondo tua pergunta anterior (risos). Eu tinha um or\u00e7amento \u201cX\u201d para gravar um disco e impulsionar ele nas redes sociais. Acho t\u00e3o importante o investimento em impulsionamento e propaganda, tanto quanto em grava\u00e7\u00e3o. Um disco ac\u00fastico, mais simples, viabilizaria esse lan\u00e7amento + impulsionamento. Com pegada mais \u201cga\u00facha\u201d eu enriqueceria muito os arranjos, porque nossa m\u00fasica tem muitas possibilidades, \u00e9 linda, eu amo e t\u00e1 enraizada em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea estava conversando com o Carlos Eduardo Miranda pouco antes dele morrer, e ele tinha levantado a ideia de voc\u00ea trabalhar suas ra\u00edzes ga\u00fachas, mas numa proposta mais indie, que \u00e9 um universo no qual voc\u00ea n\u00e3o tem interesse. Ainda assim, esse papo com ele teve alguma influ\u00eancia? Como foi tua rela\u00e7\u00e3o com ele?<\/strong><br \/>\nConhecer o Miranda foi algo muito especial, e com o pouco contato que tivemos pude ver o qu\u00e3o humano ele era. A Bell Hammes (que era esposa dele) e eu, est\u00e1vamos com uma proposta de criar um show em que revisitar\u00edamos os cl\u00e1ssicos ga\u00fachos, numa linguagem mais cl\u00e1ssica, para teatro. Lembro de um dia que est\u00e1vamos ouvindo alguns cl\u00e1ssicos e ele chorou muito por lembrar de um adorado tio dele, que havia falecido, e que gostava muito da can\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos ouvindo. Ele era um cara sens\u00edvel, eu conheci somente esse lado dele. Nas nossas conversas, ele me falava que eu tinha tudo pra usar minhas ra\u00edzes, por\u00e9m com arranjos super alternativos e me enviava exemplos, e eu concordava com o uso das ra\u00edzes, mas com os arranjos alternativos&#8230; n\u00e3o gostava de nada! (risos) Vez ou outra ele chamava no inbox e dizia \u201couve isso aqui, te imagino fazendo\u201d, eram coisas como Calexico e Los Lobos. Eu s\u00f3 respondia que achava legal, mas que a gente deveria se conhecer mais, pra ele entender melhor minha proposta. Infelizmente n\u00e3o deu tempo de acontecer. Acredito que ele n\u00e3o teve influ\u00eancia, mas com certeza tinha raz\u00e3o sobre as ra\u00edzes. Acho que ele iria odiar o \u201cSolidez\u201d, iria implicar com ele! (risos) Ele era demais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O primeiro disco dos Engenheiros do Hawaii foi batizado &#8220;Longe Demais das Capitais&#8221; porque, mesmo sendo de PoA, a banda se via deslocada do eixo musical da \u00e9poca. Vivendo hoje no campo, em Dom Pedrito, e investindo num \u00e1lbum inteiro regional (ainda que pop), voc\u00ea est\u00e1 ainda mais longe das capitais. O quanto disso \u00e9 escolha e o quanto \u00e9 causado pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias?<\/strong><br \/>\n\u00c9 100% escolha. Eu atribuo todos os meus fracassos e sucessos \u00e0s minhas escolhas. Estar aqui, gravando esse disco, foi a melhor escolha que eu fiz nos \u00faltimos anos, est\u00e1 sendo um processo maravilhoso. Acredito que me ajudaria estar em um centro maior sim, mas estou num momento de construir essa base s\u00f3lida. Aqui, na zona rural, longe de tudo, eu produzi mais que em sete anos na capital. Algo a\u00ed est\u00e1 muito certo. E mesmo na capital, sempre carreguei muito o interior no meu sotaque, na minha vis\u00e3o de mundo, sem dizer que as capitais est\u00e3o cheias de pessoas do interior. Mesmo quem \u00e9 super urbano teve uma inf\u00e2ncia ou um parente que tinha uma casa no interior. O p\u00fablico adora, e \u00e9 ele que importa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda nesse t\u00f3pico, como voc\u00ea vai &#8220;mover&#8221; o disco? Voc\u00ea usa bastante as redes para falar com seu p\u00fablico, mas est\u00e1 num lugar t\u00e3o remoto que nem mesmo videoconfer\u00eancia pudemos fazer para essa entrevista.<\/strong><br \/>\nEstou movendo o disco com os impulsionamentos nas redes sociais, que sempre me trouxeram pessoas incr\u00edveis, e \u00e9 onde o meu p\u00fablico est\u00e1. A internet que chega aqui s\u00f3 n\u00e3o permite videoconfer\u00eancias, mas de resto, funciona muito bem! Estou alimentando as redes todos os dias e me relacionando normalmente com meu p\u00fablico. Nos anos que passei em Pelotas e Porto Alegre conheci muita gente da imprensa tradicional. Me comunico com eles via e-mail e WhatsApp. \u00c9 super tranquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Suas can\u00e7\u00f5es sempre s\u00e3o bem pessoais, mas &#8220;Solidez&#8221; traz algumas que tratam de quest\u00f5es espinhosas. &#8220;Talento&#8221;, por exemplo, toca em um assunto que sempre rola no meio musical, mas pouqu\u00edssimas vozes falam dele, que \u00e9 o ass\u00e9dio moral e sexual que as artistas sofrem com triste regularidade. O que te levou a falar sobre isso?<\/strong><br \/>\nPoucas vozes falam porque t\u00eam medo de perder oportunidades ou de \u201cse queimar\u201d no meio, porque a mulher \u00e9 constantemente privada de credibilidade. A verdade foi que, conversando com amigas artistas que passaram pelas mesmas situa\u00e7\u00f5es, eu tive o desejo de comunicar isso da maneira que eu sei. Na \u201cTalento\u201d, eu falo sobre ass\u00e9dio moral, que \u00e9 aquele que acontece no ambiente de trabalho e exp\u00f5e algu\u00e9m a situa\u00e7\u00f5es humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas. \u00c9 disso que a letra trata: descrevi o passo a passo em que isso acontece, para que outras mulheres possam identificar esse abuso moral e tomarem provid\u00eancias com anteced\u00eancia. O protocolo \u00e9 esse: geralmente o produtor chega falando que somos um diamante bruto \u2013 olha que clich\u00ea! \u2013 e que precisa ser lapidada. Ent\u00e3o depois ele diz que \u00e9 a \u00fanica pessoa no mundo que percebeu esse talento em voc\u00ea, e que vai te ajudar nesse processo. Logo depois ele atribui somente a ele todas as conquistas conjuntas e que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada demais e ele \u201cfez voc\u00ea ter talento\u201d. Sobre ass\u00e9dio sexual, j\u00e1 passei por situa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis sim, acho que toda a mulher sabe bem o que \u00e9 isso, em qualquer meio. O que mais me incomoda em ser mulher no meio musical \u00e9 que nunca sei a real inten\u00e7\u00e3o de algum homem que me oferece uma oportunidade, se \u00e9 pelo \u201ctalento\u201d ou se por interesse em sexo. N\u00e3o acho errado quem troca sexo por oportunidades ou dinheiro, n\u00e3o julgo mesmo, acredito que cada um \u00e9 livre pra usar seu corpo da forma que quiser \u2013 desde que a coisa seja consensual, claro. Agora, quando a gente t\u00e1 falando de ass\u00e9dio mesmo, de intimidar, amea\u00e7ar, da troca por sexo ser \u201co \u00fanico caminho poss\u00edvel\u201d, isso \u00e9 crime, e tem que ser denunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falar em p\u00fablico sobre algo dessa natureza nessa era de julgamentos online e invas\u00e3o de privacidade n\u00e3o te amedronta?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o muito. Eu demorei, mas entendi que n\u00e3o vou agradar a todos e est\u00e1 tudo bem. Aprendi a dar valor a cada minuto da minha vida e penso que poderia estar lendo algo construtivo ao inv\u00e9s de perder aquele momento t\u00e3o precioso respondendo \u201chater\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por outro lado, o disco traz uma can\u00e7\u00e3o de despedida extremamente sens\u00edvel, que \u00e9 &#8220;Dorme, Amor&#8221;. Imagino que seja reflexo de despedidas que voc\u00ea teve que enfrentar. Voc\u00ea pode contar um pouco sobre essa can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEssa can\u00e7\u00e3o \u201cnasceu\u201d de uma morte. Passei por uma experi\u00eancia bem ruim que foi acompanhar os \u00faltimos dias de uma mulher que me embalou pra dormir. Ela era uma pessoa que tinha medo de morrer, dizia que n\u00e3o queria parar em um lugar escuro e frio, por isso escrevi na m\u00fasica que ela est\u00e1 dentro de mim, onde h\u00e1 luz e calor. Quis fazer uma can\u00e7\u00e3o de ninar como se ela estivesse cantando pra mim quando beb\u00ea, e ao mesmo tempo, eu cantando pra ela no leito da UIT, pedindo para que dormisse logo, porque n\u00e3o tinha mais sa\u00edda e n\u00e3o aguentava mais ver tanto sofrimento. O incr\u00edvel \u00e9 que muitas mam\u00e3es est\u00e3o usando a m\u00fasica para cantar para seus beb\u00eas e postam \u201cstories\u201d com eles. Da\u00ed eu percebo os ciclos e como a m\u00fasica \u00e9 algo m\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para encerrar: sem querer cair em clich\u00eas, mas se tem algo que a pandemia ensinou foi que a vida n\u00e3o aceita planos. Diante de tanta imprevisibilidade, o que te parece um plano razo\u00e1vel para teu futuro?<\/strong><br \/>\nUm plano razo\u00e1vel \u00e9 seguir usando a internet para construir meu p\u00fablico, lan\u00e7ando m\u00fasicas, gravando videoclipes e evoluindo como ser humano e profissional atrav\u00e9s disso, sem criar expectativas, desfrutando do caminho. \u00c9 um processo dolorido e delicioso de enfrentamento de muitos medos, rejei\u00e7\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es&#8230; te deixa incrivelmente forte e maduro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lara Rossato - Respirar (Videoclipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TZlVthIRcwM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lara Rossato - S\u00f3 o que o cora\u00e7\u00e3o sangrar\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qAMC_UXPJUU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lara Rossato - SOLIDEZ (\u00e1lbum completo).\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLhqJtsUd2lFQfoWwEtFS-a8eZw5lSwSbB\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O que Lara Rossato consegue com esse \u00e1lbum \u00e9 resgatar uma can\u00e7\u00e3o popular que faz sentido em sua vida e torn\u00e1-la vigente para si e para o ouvinte nesse 2020 de dor, mudan\u00e7a e imprevisibilidade. \u00c9, talvez, o primeiro disco de m\u00fasica ga\u00facha feita por uma mulher&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/12\/08\/entrevista-lara-rossato-fala-de-solidez-seu-terceiro-disco\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":58913,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[830],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58912"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58912"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58912\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58915,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58912\/revisions\/58915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58913"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}