{"id":58796,"date":"2020-11-30T00:11:41","date_gmt":"2020-11-30T03:11:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58796"},"modified":"2020-12-22T18:31:25","modified_gmt":"2020-12-22T21:31:25","slug":"entrevista-markinhos-moura-do-hit-meu-mel-a-shows-na-asia-e-carreira-no-teatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/30\/entrevista-markinhos-moura-do-hit-meu-mel-a-shows-na-asia-e-carreira-no-teatro\/","title":{"rendered":"Entrevista: Markinhos Moura, do hit &#8220;Meu Mel&#8221; a shows na \u00c1sia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0Andr\u00e9 Aram<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem viveu a d\u00e9cada de 80 certamente se recorda da can\u00e7\u00e3o \u201cMeu Mel\u201d, um dos maiores hits nas r\u00e1dios em 1987. A can\u00e7\u00e3o \u2013 uma vers\u00e3o de &#8220;Music&#8221;, de F. R. David, da banda francesa Les Variations \u2013 tornou o cearense Markinhos Moura famoso nacionalmente, com participa\u00e7\u00f5es em todos os programas de TV da \u00e9poca (e nas caravanas de Chacrinha, Bolinha e Raul Gil): \u201cFiz Chacrinha, Globo de Ouro, Xuxa\u2026 todos os programas de TV\u201d, relembra o artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a carreira iniciada no teatro, ainda no Cear\u00e1, e com apadrinhamento de Wando, j\u00e1 no Rio de Janeiro, Markinhos Moura lan\u00e7ou diversos compactos pela gravadora Continental, que tamb\u00e9m os \u00e1lbuns \u201cDiretrizes\u201d (1984) e \u201cMarkinhos Moura\u201d (1987), este j\u00e1 no embalo do sucesso do compacto \u201cMeu Mel\u201d, que deslanchou porque a equipe \u201cteve a ideia de mandar fitas k7 com \u2018Meu Mel\u2019 para v\u00e1rias r\u00e1dios, e trabalhamos muito durante um ano\u201d, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s trocar a Continental pela Polygram, Markinhos passou a lutar contra a s\u00edndrome do p\u00e2nico, problemas financeiros e outras quest\u00f5es pessoais. Sua carreira foi renascer na \u00c1sia, com um per\u00edodo em Miami. Na conversa abaixo, o cantor\/ator fala sobre sua admira\u00e7\u00e3o por Elis Regina e Ney Matogrosso, o dif\u00edcil in\u00edcio no Rio de Janeiro, a inf\u00e2ncia humilde no Cear\u00e1, shows no exterior e a consagra\u00e7\u00e3o com o seu maior sucesso. Confira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MARQUINHOS MOURA   MEU MEL GLOBO DE OURO 1987\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/barfYlE4RzY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea come\u00e7ou a sua carreira como ator em Fortaleza. Como era fazer teatro em plena ditadura?<\/strong><br \/>\nEu fiz a pe\u00e7a &#8220;O Reino da Limin\u00faria&#8221; (na TV Cear\u00e1), que era totalmente pol\u00edtica, e eu n\u00e3o sabia. Eu fazia o papel da repress\u00e3o (risos). Me lembro que numa cena eu entrava dentro de um saco amarrado e tinha que vir rolando pelo palco, e isso quando tinha palco, porque certa vez fizemos a pe\u00e7a numa comunidade chamada na \u00e9poca de Favela da Muri\u00e7oca, e fizemos toda a pe\u00e7a a base de lamparina. Me lembro com muita alegria e orgulho, porque tive contato com essas pessoas, todas mais velhas do que eu, todas muito aculturadas, algumas radicais, mas meu fasc\u00ednio era o palco. Na minha casa n\u00e3o se discutia isso (cultura \/ pol\u00edtica). N\u00e3o tinha esse n\u00edvel de discuss\u00e3o e entendimento sobre pol\u00edtica, ditadura e sexualidade. Eu morava com a minha av\u00f3, foram as pessoas do teatro que come\u00e7aram a me moldar, a me ensinar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o entendia as m\u00fasicas daquela \u00e9poca em que havia aquele duplo sentido por causa da ditadura&#8230;<\/strong><br \/>\nEu tive um grande mentor que era escritor e artista pl\u00e1stico. Ele j\u00e1 faleceu. Ele \u00e9 hom\u00f4nimo do Eurico Bivar, chamava-se Antonio Eurico Bivar, e ele foi o meu tutor durante muito tempo. Ele me explicava o que vinha por tr\u00e1s das letras e das m\u00fasicas que eu achava melodicamente lindas, mas n\u00e3o entendia o significado. Ele dizia \u201cessa letra quer dizer isso aqui, essa frase aqui\u2026&#8221;, geralmente m\u00fasicas do Chico Buarque. Ele foi abrindo a minha mente e horizontes. Ele amava Elis (Regina) e eu j\u00e1 amava a Elis e depois fui descobrindo outras pessoas que foram me influenciando muito. Quando descobri Secos e Molhados fiquei enlouquecido. E eu s\u00f3 podia falar isso quando estava com os meus amigos de teatro, porque s\u00f3 eles entendiam aquela ousadia, aquela arte, e eu dizia que queria ser assim, uma mistura de Elis com Ney Matogrosso, como se fosse poss\u00edvel, n\u00e9. N\u00e3o era. Comecei a ficar muito f\u00e3 dele, roubei uns trocados de um tio meu e comprei um LP do Secos e Molhados e depois fui comprando escondido e escutando escondido os k7 do Ney, j\u00e1 como artista solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua fam\u00edlia era muito humilde?<\/strong><br \/>\nEu nasci numa fam\u00edlia pobre, que antes de eu nascer tinha posses, mas quando nasci j\u00e1 estava pobre. N\u00e3o era uma pobreza que passasse fome, mas uma pobreza que n\u00e3o me dava condi\u00e7\u00f5es de ter uma bicicleta. Eu nunca tive brinquedos. As coisas que eu ganhava eram dos outros, ou que minha m\u00e3e e av\u00f3 me dava, que eram coisas bem simples. Minha av\u00f3 foi minha grande mentora. At\u00e9 hoje n\u00e3o sei andar de bicicleta, porque quando pude comprar eu n\u00e3o tinha tempo. Eu tinha uns 7 tios(a), algumas morreram, meus tios eram muito mach\u00f5es, muito viris, mas eu tive muito carinho da parte feminina da fam\u00edlia. Minha av\u00f3, minha m\u00e3e e minhas tias me tratavam com muito amor e \u00e0s vezes severidade. Apanhei tamb\u00e9m porque mereci, de chinelo havaiana que do\u00eda pra caralho, e eu j\u00e1 chorava antes de apanhar, era o ator vindo com for\u00e7a total (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Deve ter sido uma inf\u00e2ncia muito r\u00edgida e dif\u00edcil&#8230;<\/strong><br \/>\nO meu av\u00f4, mesmo separado de minha av\u00f3, era o senhor de tudo, s\u00f3 se sentava na mesa pra comer quando ele comia. A sugest\u00e3o de alguma coisa dele era uma ordem. Ele era muito severo, mas adorava jogo, e foi por causa do jogo que a fam\u00edlia perdeu o que tinha antes, mas ele me amava, l\u00f3gico, eu era o primeiro neto. Uma vez ele trancou uma das minhas tias na despensa, porque ela apenas conversou com um rapaz que tinha o cabelo um pouco crespo, ent\u00e3o pra ele, o rapaz era negro. Ent\u00e3o, (ele tinha) toda essa severidade, esse conceito medieval, (mas) quando faleceu n\u00f3s descobrimos que ele tinha uma outra fam\u00edlia, paralela&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aos 17 anos voc\u00ea j\u00e1 estava morando no Rio, foi dif\u00edcil esse in\u00edcio na Cidade Maravilhosa?<\/strong><br \/>\nFui para o Rio em 1979 pela segunda vez, e como o casamento dos meus pais chegou a um ponto que n\u00e3o tinha mais como segurar, eu j\u00e1 tinha um certo entendimento disso. Dois meses ap\u00f3s essa mudan\u00e7a, as brigas come\u00e7aram, a viol\u00eancia come\u00e7ou, e eu resolvi que aquilo tinha que acabar. Conversei com a minha m\u00e3e, e disse pra ela que era hora dela ir embora (voltar para o Cear\u00e1) porque ela n\u00e3o tinha mais que ter a desculpa de ficar com um homem que ela n\u00e3o gostava mais e sofrendo viol\u00eancia, ent\u00e3o que ela fosse embora, e eu iria ficar. Nessa \u00e9poca, mor\u00e1vamos no bairro do Encantado (RJ), e eu fiquei porque meu pai tinha prometido que ia pagar um curso de teatro pra mim, que era um curso do Jaime Barcelos, muito conhecido na \u00e9poca, s\u00f3 que ele n\u00e3o fez nada disso. Pra mim, foi um rompimento terr\u00edvel porque pela primeira vez eu estaria me afastando da minha m\u00e3e, a pessoa que eu mais amava e amo, e do meu irm\u00e3o tamb\u00e9m. Foi um corte brutal, eu chorei todos os dias durante quase um ano ouvindo os poucos LPs que eu pude trazer. Eu os escutava todos os dias e chorava porque meu pai trabalhava e eu ficava em casa sozinho. Ent\u00e3o, comecei a p\u00f4r em pr\u00e1tica tudo que eu aprendi quando crian\u00e7a, comecei a cozinhar, costurar&#8230; porque s\u00f3 havia n\u00f3s dois em casa e algu\u00e9m tinha que fazer alguma coisa. Ele continuava naquela vida de alcoolismo, que \u00e9 uma coisa bem recorrente na minha fam\u00edlia desde que nasci. Pra me recompor foi muito dif\u00edcil, at\u00e9 porque eu n\u00e3o sabia se voltaria a v\u00ea-la, coisa que aconteceu sete anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea se tornou cantor no Rio de Janeiro?<\/strong><br \/>\nNesse meio tempo, eu estava com uma amiga de inf\u00e2ncia, que \u00e9 cantora at\u00e9 hoje, a Tet\u00ea Cavalcanti, que mora no Rio de Janeiro. Ela tinha ido antes de mim, tentar a carreira e estava com a m\u00e3e dela. Eu a convidei para ficar na minha casa, j\u00e1 que eu estava s\u00f3 com o meu pai, e ele a conhecia. N\u00f3s \u00e9ramos muito unidos, e acho que aquilo incomodava muito ele, o enciumava muito, e certa vez ele chegou muito alcoolizado, e n\u00f3s tivemos uma discuss\u00e3o muito grande. Ele disse coisas inclusive sobre a minha sexualidade, jogou coisas na cara, foi ali que eu senti as pedras em cima de mim, o lance do nordestino falar cuspindo pedra, e ele insinuou que a minha amiga deixasse a minha casa. No calor da discuss\u00e3o, eu disse pra ele que quando ele voltasse do trabalho no dia seguinte, n\u00e3o estar\u00edamos mais l\u00e1. Foi quando n\u00f3s tr\u00eas sa\u00edmos, sem horizonte, sem lugar nenhum pra ir. As poucas coisas que eu tinha em sacolas de mercado, LPs. A minha m\u00e3e s\u00f3 soube disso muito tempo depois, porque a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o era f\u00e1cil na \u00e9poca, era orelh\u00e3o de ficha ou telefonema pago, interurbano, e isso era car\u00edssimo, e eu n\u00e3o tinha um tost\u00e3o. Dali fomos conhecendo pessoas, essa minha amiga conhecia algumas que moravam em Copacabana, que nos deixaram ficar por alguns dias. A gente ficou nessa de pular de casa em casa durante um bom tempo, at\u00e9 que eu reencontrei um grande amigo na \u00e9poca, que \u00e9 humorista, Paulo Di\u00f3genes, que faz humor at\u00e9 hoje. Ele morava no Rio com a m\u00e3e, e ele trabalhava com uma ex vedete\/atriz, e ela fazia teatro amador nas escolas. N\u00f3s nos conhecemos, e essas pessoas foram a minha fam\u00edlia, ela me convidou pra participar do grupo dela e montamos um grupo de teatro, e faz\u00edamos pe\u00e7as infantis nas escolas, pe\u00e7as simples, e passei a morar na casa dela. Morei por alguns anos. Um dia, resolvemos dar um passeio em Duque de Caxias (RJ), e passamos em uma lanchonete que na parte de cima tinha m\u00fasica ao vivo a noite, chamava-se \u201cBonequinha\u201d, olha o nome (risos). Fiz uma aposta com ela de brincadeira, disse que se entrasse ali e desse uma canja, eu arranjaria um emprego no lugar do cantor do lugar, mas foi uma brincadeira. Mas eu realmente fui convidado a ficar. Por ser um menino entrando na maioridade, p\u00f3s adolescente, com uma voz andr\u00f3gina, mas parecida com a da Elis, embora vozes n\u00e3o sejam iguais, mas eu sempre me espelhei muito nela. Ela estava muito impregnada em mim, ia fazer um ano que ela tinha falecido, acho que foi em 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a gravar um compacto que vendeu mais de 100 mil c\u00f3pias\u2026<\/strong><br \/>\nGravei meu primeiro compacto (duplo, com as can\u00e7\u00f5es \u201cSegredos\u201d e \u201cGente Humilde\u201d no lado A e \u201cEdredon de Seda\u201d e \u201cSamba Com Pressa (Viver \u00c9 Voar)\u201d no lado B), que foi feito gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do meu padrinho art\u00edstico, o Wando, de quem eu me tornei bastante pr\u00f3ximo, que eu conheci atrav\u00e9s do meu empres\u00e1rio na \u00e9poca. Eu n\u00e3o vendi 100 mil c\u00f3pias n\u00e3o, porque a Copacabana (gravadora) ainda n\u00e3o confiava muito em mim. A grava\u00e7\u00e3o que existe no programa Fant\u00e1stico, quando eu canto \u201cFascina\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o que eu fiz na sala da casa do Wando, com ele tocando em um dia qualquer que eu estava l\u00e1. Ele gravou em k7 e ela foi utilizada na chamada do Fant\u00e1stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro que a m\u00fasica \u201cMeu Mel\u201d fez tanto sucesso que voc\u00ea ia em todos os programas de TV da \u00e9poca\u2026<\/strong><br \/>\nN\u00e3o era uma m\u00fasica popular, era bem nos moldes da MPB mais antiga, que era o que eu gostava. S\u00e3o Paulo tinha muitos programas de televis\u00e3o e aqui comecei a ter um p\u00fablico, a ficar conhecido. Ent\u00e3o, eu fazia v\u00e1rios programas de TV, mesmo sem ter alcan\u00e7ado o sucesso popular, por isso que eu acho que eu estou t\u00e3o na mente das pessoas, e no imagin\u00e1rio delas, porque eu fiz muita televis\u00e3o. Eu sou uma cria\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o, eu sou um instrumento que a televis\u00e3o usou muito, isso foi muito bom pra mim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-58798\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/markinhosmoura2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"729\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/markinhosmoura2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/markinhosmoura2-300x292.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como surgiu a m\u00fasica \u201cMeu Mel\u201d?<\/strong><br \/>\nEm 1987, eu j\u00e1 tinha lan\u00e7ado cinco ou seis discos, incluindo compactos. Mas pra estourar essa m\u00fasica n\u00f3s a trabalhamos durante um ano. Por contrato, este seria meu \u00faltimo disco pela Copacabana (gravadora), e se n\u00e3o acontecesse nada, eu estaria sem gravadora. Eu j\u00e1 tinha gravado l\u00e1 um LP que eu gosto muito, mas n\u00e3o gosto da capa. Apesar de ter sido ideia minha, mas a acho horrorosa, \u00e9 uma que eu pare\u00e7o um paquito. Chama-se \u201cDiretrizes\u201d (1984). Meu produtor chamou os m\u00fasicos do Roupa Nova para fazer os arranjos e eles tocaram tamb\u00e9m nesse disco, que eu adoro, canto samba, rock, enfim. Ap\u00f3s muitas tentativas do meu produtor para gravar \u201cMeu Mel\u201d, eu resolvi p\u00f4r a voz, mas a permiss\u00e3o n\u00e3o chegou a tempo de ser inclu\u00edda nesse disco, pois ela era uma regrava\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica chamada \u201cMusic\u201d. O LP \u201cDiretrizes\u201d n\u00e3o aconteceu, e n\u00f3s come\u00e7amos a ficar desesperados. Ent\u00e3o veio a libera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, e a equipe (empres\u00e1rio\/produtor) teve a ideia de mandar fitas k7 com \u201cMeu Mel\u201d para v\u00e1rias r\u00e1dios, e trabalhamos muito durante um ano. A m\u00fasica come\u00e7ou a ser pedida nas r\u00e1dios, a ser aceita pelo p\u00fablico e eu comecei a fazer televis\u00e3o divulgando-a e foi quando chegamos ao sucesso. Fiz Chacrinha, Globo de Ouro, Xuxa\u2026 todos os programas de TV. (Ela saiu como compacto em 1987 e abre o disco \u201cMarkinhos Moura\u201d, do mesmo ano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tinha um estilo ousado para \u00e9poca, era uma inspira\u00e7\u00e3o no Ney Matogrosso?<\/strong><br \/>\nA minha forma de me apresentar, a minha apar\u00eancia era, digamos assim, influenciado pelos dois (Elis e Ney), mas como eu n\u00e3o podia ser os dois, ent\u00e3o ela era estudada. Eu tinha aulas de express\u00e3o corporal para n\u00e3o ficar t\u00e3o evidente, porque se eu fosse dan\u00e7ar como o Ney n\u00e3o ia dar certo. Ent\u00e3o, eu tinha que ser uma op\u00e7\u00e3o dentro desse universo andr\u00f3gino. Os anos 80 foram muito andr\u00f3genos, voc\u00ea v\u00ea isso pela capa dos discos, do Menudo, por exemplo. Todo mundo sensualizando nas capas: Simone, Joana, Ney j\u00e1 tinha aparecido nu\u2026 enfim mais na frente eu fa\u00e7o isso. Eu n\u00e3o podia ser t\u00e3o ousado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea lidava com o ass\u00e9dio dos f\u00e3s na \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nTodas as vezes que um f\u00e3 vinha at\u00e9 mim no camarim ou mesmo nos programas de TV, e come\u00e7ava a chorar, sem acreditar que estava ao meu lado, eu sempre mostrava pra elas \u201cpegue em mim, me d\u00ea um abra\u00e7o, eu sou um ser humano como voc\u00ea&#8221;. Isso era pra dizer \u201ceu n\u00e3o sou perfeito\u201d, e sou cheio de defeitos. Eu ficava muito constrangido quando uma garota come\u00e7ava a chorar, a passar mal\u2026 meu Deus, quem eu sou! Eu n\u00e3o conseguia entender essa rea\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eu fazia quest\u00e3o de mostrar pra elas que eu era de carne e osso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fez muitas caravanas ? Shows em locais inusitados?<\/strong><br \/>\nFiz com o Chacrinha e Bolinha. Eram clubes enormes. \u00c0s vezes faz\u00edamos um ou dois shows numa noite, e a\u00ed como come\u00e7ou a ser implantado aquela coisa maldita do playback, que eu odeio. Ent\u00e3o, ficou mais f\u00e1cil. Eu lembro que, naquela \u00e9poca, eu fiz muitos shows com a Furac\u00e3o 2000, que tamb\u00e9m contratava artistas para fazer shows para eles. O Chacrinha gostava muito de mim, do artista Markinhos. Eu n\u00e3o tive acesso como pessoa a ele ou a casa dele, mas eu sentia que ele gostava muito do que eu causava. Com o Bolinha, n\u00f3s viaj\u00e1vamos mesmo, era eu, Sula Miranda e outros artistas. Era um \u00f4nibus muito confort\u00e1vel para a \u00e9poca. Ele nos tratava muito bem. N\u00f3s \u00edamos muito ao Paraguai, \u00edamos ao interior. Tamb\u00e9m faz\u00edamos shows no Carandiru. Eu acho que fiz alguns com o Raul Gil, mas fiz v\u00e1rios shows de final de ano no Carandiru. Eram v\u00e1rios artistas tamb\u00e9m que faziam. Tenho \u00f3timas recorda\u00e7\u00f5es dessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguma hist\u00f3ria curiosa que tenha ocorrido durante um show?<\/strong><br \/>\nTeve uma vez que eu fui fazer um show em S\u00e3o Paulo, acho que era de r\u00e1dio ou gravadora. No carro estava eu, Gretchen, Ovelha, um monte de gente de v\u00e1rias gravadoras. Era muita, muita gente (p\u00fablico). Foi uma coisa terr\u00edvel. Na hora da sa\u00edda, as pessoas n\u00e3o limitavam o carinho delas. As mulheres sempre foram carinhosas, mas os homens, imagina n\u00e9: camiseta decotada, loiro e maquiado. N\u00e3o era primazia minha, porque todo artista sempre se maquiou e a minha sa\u00edda foi muito turbulenta. Me colocaram junto de um cambur\u00e3o com a pol\u00edcia em volta. Me lembro que entrei na parte da frente, a Gretchen j\u00e1 estava l\u00e1, e pra eu caber l\u00e1, eu fiquei nos p\u00e9s dela. Eu estava apavorado, era o in\u00edcio de muita coisa se abrindo pra mim (sucesso). Eu n\u00e3o me esque\u00e7o que a Gretchen, maravilhosamente, j\u00e1 era uma estrela popular na \u00e9poca, os homens do Brasil inteiro querendo ela e eu aos p\u00e9s dela, e ela me disse \u201cn\u00e3o se preocupa n\u00e3o querido, olha eles todos me querendo, mas olha quem est\u00e1 aqui, \u00e9 voc\u00ea que est\u00e1 aqui comigo\u201d, foi algo assim que ela me disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea teve contato com grandes artistas da m\u00fasica, Wando, Cauby Peixoto etc. Alguma hist\u00f3ria curiosa ou frustrante envolvendo algum artista?<\/strong><br \/>\nHouve uma \u00e9poca no Rio de Janeiro que todos n\u00f3s nos encontr\u00e1vamos, logo ap\u00f3s a gravadora Copacabana, eu fui pra Polygram, que depois virou Universal. O Cauby eu j\u00e1 conhecia. O Ney (Matogrosso) j\u00e1 conhecia. O Cazuza era mais jovem. Todo mundo se encontrava no Baixo Leblon, no Baixo G\u00e1vea, em algum momento, em alguma festa, todos n\u00f3s est\u00e1vamos juntos. Eu apenas tenho uma foto com o Cazuza, apesar de sermos da mesma gravadora na \u00e9poca. O Wando era uma pessoa maravilhosa, tive bastante contato com ele e com a fam\u00edlia dele. O Milton (Nascimento), todas as vezes que eu me encontrava com ele nos programas de televis\u00e3o, eu n\u00e3o tinha coragem de chegar perto, porque pra mim, ele \u00e9 e sempre foi um mito, mas n\u00e3o tenho hist\u00f3rias assim frustrantes, n\u00e3o tenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na d\u00e9cada de 90, voc\u00ea ressurge fazendo shows no exterior, como foi isso?<\/strong><br \/>\nQuando acabou meu contrato com a Polygram (ap\u00f3s dois discos, \u201cSabor de Mim\u201d e \u201cAnjo Azul\u201d), passei um ano tratando de uma s\u00edndrome do p\u00e2nico. N\u00e3o se sabia o que era (na \u00e9poca). Eu estava em Sorocaba, fazendo um tratamento espiritual com um m\u00e9dium muito famoso na \u00e9poca, que me ajudou muito e uma das pessoas que trabalhava comigo (que depois at\u00e9 trabalhou com o Lob\u00e3o atrav\u00e9s de mim), entrou em contato comigo l\u00e1 em Sorocaba. Ele me perguntou se eu gostaria de ir pra China. Eu achei aquilo uma loucura, e ele disse \u201cpreciso da sua resposta hoje\u201d. Eu estava super confuso com medicamentos, tratamentos, fragilizado, com contas a pagar, sem dinheiro nenhum. Eu estava no abismo mesmo, financeiro. A carreira indo por \u00e1gua abaixo. Pensei: \u201cmeu Deus, se voc\u00ea est\u00e1 me mandando para o outro lado do mundo, \u00e9 porque eu tenho que ir\u201d. Eu n\u00e3o estava 100% curado de algo que eu nem sabia o que era. Aceitei, fui para Hong Kong, onde passei tr\u00eas meses l\u00e1. Voltei para o Brasil e a mesma empresa me levou para o Jap\u00e3o, onde fiquei um ano, seis meses e depois mais seis, e foram as experi\u00eancias mais maravilhosas da minha vida. Acho que fui me curando totalmente. Depois do Jap\u00e3o, eu recebi uma proposta para fazer um festival de jazz que iria acontecer em Miami e fui, claro, eu queria trabalhar porque eu n\u00e3o via naquele momento espa\u00e7o na m\u00fasica para mim no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi nos Estados Unidos?<\/strong><br \/>\nA proposta me pareceu muito oportuna. Eu queria muito sair, respirar outros ares. Eu n\u00e3o tinha trabalho no Brasil, nenhum. Eu tinha acabado de sair de cena, ou seja, me tiraram de cena n\u00e9, e pra que ficar no Brasil? Ent\u00e3o, fui pra outros lugares, sabendo sempre que eu n\u00e3o ia construir uma carreira fora do Brasil. Eu ia trabalhar com um p\u00fablico completamente diferente, num lugar diferente, mas para ganhar dinheiro, para pagar as minhas d\u00edvidas que eu tinha no Brasil, para sustentar\/ajudar a minha m\u00e3e, para me sustentar e tudo mais. Ent\u00e3o aceitei ir pra Miami, s\u00f3 que foi um fiasco total. Eu cantei apenas uma vez em um hotel em rela\u00e7\u00e3o a esse Festival e depois a pessoa sumiu, e eu tinha data pra ficar em Miami. L\u00e1 eu encontrei, quase na minha partida, um grande m\u00fasico chamado Ary Piassarollo, e ele me ofereceu um churrasco na casa dele de despedida. Ele tinha um grupo que era dos filhos dele, chamado Alma, e passamos uma tarde muito agrad\u00e1vel, dei uma canja, e no final ele disse que eu n\u00e3o ia embora, que eu poderia ficar na casa dele e seria o convidado do grupo Alma. E foi assim que eu fiquei em Miami. Foi maravilhoso, fizemos muitos shows. E um jornalista e f\u00e3 meu conhecia o Emilio Estefan (marido da cantora Gloria Estefan), e levou uma fita k7 minha cantando em espanhol, mas n\u00e3o deu em nada. Senti um pouco de preconceito. Sou brasileiro, quem comandava Miami, pelo menos na \u00e9poca, e eu amo o som cubano, latino de Miami, eram os cubanos. Ele n\u00e3o ia dar a chance pra mim, pra um brasileiro que estava chegando l\u00e1, no cen\u00e1rio musical (risos). Achei um bairrismo total, mas tudo bem, mas era a minha chance. Vivi uns tr\u00eas anos em Miami e quando vi que eu n\u00e3o ia chegar mais a lugar nenhum, veio uma proposta para trabalhar em um transatl\u00e2ntico e foi quando eu voltei para o Brasil e passei tr\u00eas meses fazendo a costa brasileira e Montevid\u00e9u, Argentina etc. Tinha um show meu e paralelo a shows de outros ritmos como bossa nova, ax\u00e9 etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea segue cantando e est\u00e1 em cartaz com uma pe\u00e7a teatral, correto?<\/strong><br \/>\nIsso (<a href=\"https:\/\/bileto.sympla.com.br\/event\/67061\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cAngel\u201d, pe\u00e7a de V\u00edtor Oliveira e Carlos Fernando Barros<\/a> sobre os bastidores de um cabar\u00e9 decadente que se mant\u00e9m gra\u00e7as ao favoritismo de uma senadora que usa o espa\u00e7o para lavar dinheiro). Quero continuar cantando, mas cada vez mais quero o ator mais em cena, mais presente. Estou aberto a projetos, porque as pessoas ainda t\u00eam muito o que aprender sobre mim, muito, tanto que quando elas v\u00e3o me ver no teatro, elas ficam muito surpresas. Daqui a alguns dias, eu vou estar lan\u00e7ando um CD novo em todas as plataformas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MARKINHOS MOURA - ANJO AZUL ( 1988 ).\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RV8M8Emm8OU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Markinhos Moura | Meu Mel\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wL6MZnoaEHo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Markinhos Moura e Miele |  Tributo a Elis Regina\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p-IQ3r1FIMA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Andr\u00e9 Aram \u00e9 jornalista e redator. Tem passagens pela \u00c1frica, America do Norte\/Sul e por v\u00e1rios pa\u00edses da Europa. Colabora com o Euro Dicas e outros sites e portais. \u00c9 tamb\u00e9m consultor de viagens para destinos na \u00c1frica e Europa e apoia projetos de conserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem na \u00c1frica do Sul.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Markinhos fala sobre sua admira\u00e7\u00e3o por Elis Regina e Ney Matogrosso, o dif\u00edcil in\u00edcio no Rio de Janeiro, a inf\u00e2ncia humilde no Cear\u00e1, shows no exterior e a consagra\u00e7\u00e3o com o seu maior sucesso. Confira.\u00a0\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/30\/entrevista-markinhos-moura-do-hit-meu-mel-a-shows-na-asia-e-carreira-no-teatro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":93,"featured_media":58797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4989],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58796"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/93"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58796"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58800,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58796\/revisions\/58800"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}