{"id":58691,"date":"2020-11-22T01:24:20","date_gmt":"2020-11-22T04:24:20","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58691"},"modified":"2020-12-14T01:21:12","modified_gmt":"2020-12-14T04:21:12","slug":"entrevista-wagner-moura-fala-sobre-a-importancia-de-marighella-no-brasil-de-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/22\/entrevista-wagner-moura-fala-sobre-a-importancia-de-marighella-no-brasil-de-2020\/","title":{"rendered":"Entrevista: Wagner Moura fala de \u201cMarighella\u201d e do Brasil de 2020"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia e impacto existentes no lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marighella_ofilme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marighella<\/a>\u201d (2020), longa metragem dirigido por Wagner Moura, justamente na semana do Dia da Consci\u00eancia Negra traz um peso e ainda maior relev\u00e2ncia hist\u00f3rica para o trabalho. E o lan\u00e7amento aconteceu em Salvador, a cidade mais negra da Am\u00e9rica Latina, terra natal do pr\u00f3prio deputado e escritor Carlos Marighella. A capital baiana recebeu a primeira sess\u00e3o em circuito comercial de um filme cuja urg\u00eancia se faz necess\u00e1ria pelo tenebroso momento de negacionismo proposital e manipulador da ditadura e do golpe militar de 1964, bem como diante de uma tentativa oportunista e canalha de se reescrever os fatos hist\u00f3ricos, banalizando todos os crimes e monstruosidades cometidas pelos militares no per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moura, em sua estreia como diretor de longas metragens, adapta a densa biografia escrita por M\u00e1rio Magalh\u00e3es em uma obra que coloca sua audi\u00eancia quase que fisicamente dentro do mesmo turbilh\u00e3o que os \u00faltimos anos de vida de Marighella representaram. Junto ao seu diretor de Fotografia, Adrian Teijido, no processo de dramatiza\u00e7\u00e3o f\u00edlmica da hist\u00f3ria do autor de \u201c<a href=\"https:\/\/documentosrevelados.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/carlos-marighella-manual-do-guerrilheiro-urbano.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Minimanual do Guerrilheiro Urbano<\/a>\u201d, de \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Chamamento-povo-brasileiro-outros-escritos\/dp\/8571260427\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chamamento ao Povo Brasileiro<\/a>\u201d (organizado ap\u00f3s seu assassinato) e fundador da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional, grupo revolucion\u00e1rio que lutou contra a homicida ditadura no Brasil, Wagner Moura equilibra cenas fren\u00e9ticas em planos sequ\u00eancia que nos colocam dentro da a\u00e7\u00e3o com momentos tenros, em uma simb\u00f3lica ideia de calmaria que precede a tempestade na vida de seu protagonista. Na calmaria, vemos Marighella (Seu Jorge, em um peso expressivo para o papel) brincar com seu filho no mar do Rio de Janeiro, e equilibr\u00e1-lo na suavidade da superf\u00edcie da \u00e1gua. L\u00e1 fora, tanques de guerra esmagam tanto asfalto quanto a liberdade. Moura tem plena consci\u00eancia do que monta naqueles paralelos e o que pretende nos fazer refletir com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hoje h\u00e1 gente discutindo se a ditadura foi mesmo ruim, se a tortura \u00e9 aceit\u00e1vel e se a terra \u00e9 mesmo redonda. Isso era impens\u00e1vel h\u00e1 cinco ou seis anos. Aprendi que n\u00e3o se pode menosprezar a capacidade de piadas e absurdos se alastrarem at\u00e9 ganharem status de verdades. Mentira e desinforma\u00e7\u00e3o precisam ser levadas a s\u00e9rio e combatidas pedagogicamente, n\u00e3o se pode mais rir de sandices como a mamadeira de piroca&#8221;, alerta Wagner em rela\u00e7\u00e3o ao estado de mentiras, negacionismo e manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que vivemos em 2020, algo que tem ecos desde o golpe parlamentar de 2016 e a elei\u00e7\u00e3o de 2018. &#8220;\u00c9 preciso levar a s\u00e9rio e reagir imediatamente. O manejo escroto das redes sociais polarizou o mundo e relativizou a verdade. E, claro, a avers\u00e3o de tipos como Trump e Bolsonaro \u00e0 cultura, \u00e0 ci\u00eancia, ao pensamento cr\u00edtico, \u00e0 regula\u00e7\u00e3o das redes e \u00e0 liberdade de imprensa favorecem um projeto de domina\u00e7\u00e3o que se beneficia da ignor\u00e2ncia&#8221;, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a dificuldade de se adaptar uma obra t\u00e3o densa quanto o livro de M\u00e1rio Magalh\u00e3es, Moura explica que, para ele, o roteiro \u00e9 a parte mais dif\u00edcil do cinema. &#8220;N\u00f3s est\u00e1vamos lidando com a hist\u00f3ria de vida de muitas pessoas e com um per\u00edodo conturbado do pa\u00eds. Eu e Felipe (Braga, co-roteirista) trabalhamos juntos em \u2018Marighella\u2019 desde 2013. Para n\u00f3s, desde o come\u00e7o era claro que t\u00ednhamos que ter um recorte muito espec\u00edfico&#8221;, salienta o cineasta. Inserindo elipses exatas no avan\u00e7ar da luta e do tempo que resta a Marighella, tempo este conscientemente contado pelo revolucion\u00e1rio naquele recorte dos anos de chumbo e sangue, o roteiro, juntamente com a montagem de Lucas Gonzaga, demonstra seu foco como o de um filme que, apesar dos seus intensos 155 minutos, tem uma urg\u00eancia explosiva no transmitir daquela trajet\u00f3ria para o p\u00fablico. &#8220;N\u00e3o gosto de ver filmes biogr\u00e1ficos que em apenas duas horas tentam dar conta da vida inteira de algu\u00e9m. Melhor ler um livro ou ver um document\u00e1rio. N\u00f3s optamos pelos cinco \u00faltimos anos da vida de Marighella. E muitas vezes pensei se n\u00e3o deveria ter feito um filme s\u00f3 sobre o \u00faltimo dia de sua vida&#8221;, relembra Wagner.<\/p>\n<figure id=\"attachment_58692\" aria-describedby=\"caption-attachment-58692\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-58692 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58692\" class=\"wp-caption-text\"><em>Seu Jorge e Wagner Moura nos bastidores do filme \/ Foto de Ariela Bueno (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um assalto a um trem para o roubo de armamento militar que abre seus minutos iniciais, com o plano sequ\u00eancia citado a nos pegar e colocar dentro daquela mesma tens\u00e3o encontrada pelo protagonista e seus camaradas, ao momento de anos antes, quando o corte para o mar da ba\u00eda de Guanabara denota exatamente a fugaz calmaria antes do caos e da perda, a estrutura proposta por Wagner Moura em sua c\u00e2mera na m\u00e3o, muitas vezes tr\u00eamula, transmite de maneira precisa esse esgotamento f\u00edsico e temporal. A queda pode at\u00e9 ser inevit\u00e1vel diante do poder do inimigo, mas tamb\u00e9m ser\u00e1 sentida pelo carrasco. &#8220;N\u00e3o. VOC\u00caS perderam&#8221;, replica Branco, personagem de Luiz Carlos Vasconcelos, pendurado em um pau-de-arara, enquanto um assassino militar o tortura. A simbologia desse momento \u00e9 exata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na trucul\u00eancia esbanjada e regada a mortes e sangue, a representa\u00e7\u00e3o governamental militar encontra em L\u00facio (delegado vivido por Bruno Gagliasso em uma atua\u00e7\u00e3o corajosa e sem vaidades) suas mais profundas camadas de desonestidade e virul\u00eancia. Desde a deturpa\u00e7\u00e3o de fatos, passando pela manipula\u00e7\u00e3o de cenas de crime, at\u00e9 a aspereza e fel engolidos a seco quando tem que se curvar diante de agentes estadunidenses que v\u00eam ao Brasil no rastro do seu suporte ao golpe militar, L\u00facio \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o vil \u00e9 o estado brasileiro dentro daquela pol\u00edtica de viol\u00eancia, censura e terror. O mesmo terror que utiliza como pretexto para acusar de &#8220;terroristas&#8221; aqueles que se op\u00f5em \u00e0 sua corrup\u00e7\u00e3o, algo que vemos se repetir em tentativas de um ministro da Justi\u00e7a corrupto de um governo al\u00e7ado em uma plataforma de mentiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo sua primeira experi\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o de um longa metragem, Wagner Moura explica que o seu processo por tr\u00e1s da c\u00e2mera tem similaridades com sua experi\u00eancia na atua\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu acho que dirijo como atuo. Tento estar muito presente e contagiar o ambiente com energia criativa. Mas dirigir \u00e9 muito mais f\u00e1cil que atuar. Quando eu dirijo, sinto muita empatia pelos atores, porque eu sei o quanto aquilo pode ser doloroso&#8221;, evidencia o ator e diretor. Ainda sobre esse processo, \u201cMarighella\u201d referencia um tipo de dire\u00e7\u00e3o bastante pr\u00f3xima aos seus atores, com uma c\u00e2mera a captar seus movimentos constantes, algo que remete ao cinema feito pelos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/irmaos-dardenne\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">irm\u00e3os Dardenne<\/a>, diretores preferidos de Wagner. &#8220;Os Dardenne s\u00e3o meus cineastas favoritos. Seus filmes s\u00e3o muito pol\u00edticos, mas extremamente humanos, geralmente sobre jovens de classe social baixa. Eu acho que a crueza com que eles filmam encontra eco na nossa tradi\u00e7\u00e3o de cinema pol\u00edtico, do Cinema Novo at\u00e9 \u2018<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/10\/tropa-de-elite-um-quase-grande-filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tropa de Elite<\/a>\u2019. E todos bebem no <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/01\/filmografia-comentada-federico-fellini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">neo-realismo italiano<\/a>, que \u00e9 meu cinema favorito&#8221;, declara o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da influ\u00eancia de um cinema que historicamente surgiu como uma luta contra o fascismo, \u201cMarighella\u201d e seu diretor se estabelecem como s\u00edmbolos dessa mesma luta. Nesta entrevista concedida por e-mail ao Scream &amp; Yell, Wagner aprofunda mais essa experi\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o de \u201cMarighella\u201d, bem como sobre esse estranho Brasil de 2020. Confira !<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marighella | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fd8oX1u8gRA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marighella chega \u00e0 tela da sala 1 do Cine Glauber Rocha, aqui na Pra\u00e7a Castro Alves, em Salvador, justamente na Semana da Consci\u00eancia Negra. Isso ap\u00f3s ter tido seu lan\u00e7amento adiado pela pandemia, bem como ter sofrido um leviano boicote de agentes do governo. Como voc\u00ea avalia a simbologia dessa resist\u00eancia ao ver a vida de Carlos Marighella ser levada ao p\u00fablico da cidade com maior percentual de cidad\u00e3os afro-descendentes na Am\u00e9rica Latina justamente nessa data?<\/strong><br \/>\nMarighella era um homem negro. Seus av\u00f3s maternos eram sudaneses escravizados e esse fato \u00e9 relevante na constru\u00e7\u00e3o de sua personalidade. Os ataques que nosso filme sofreu pelo fato de Seu Jorge ter a cor de pele mais escura do que a de Marighella, s\u00f3 refor\u00e7am que aqueles que n\u00e3o querem ver a hist\u00f3ria de Marighella contada tamb\u00e9m se esfor\u00e7am para que se conservem as estruturas tradicionais que tendem a embranquecer personagens hist\u00f3ricos. Antes da censura que sofremos no ano passado, a data escolhida para nossa estreia havia sido justamente o 20 de Novembro, dia da Consci\u00eancia Negra. Salvador tem a maior popula\u00e7\u00e3o negra do Brasil e o cine Glauber Rocha n\u00e3o est\u00e1 distante da Baixa do Sapateiro, onde Marighella cresceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No mesma semana, vemos acender um pouco da esperan\u00e7a de dias melhores quando aconteceu a elei\u00e7\u00e3o de nomes como Maria Marighella na c\u00e2mara dos vereadores aqui em Salvador, al\u00e9m de um projeto de governo mais humano com Guilherme Boulos em SP chegando ao segundo turno, bem como um aumento do n\u00famero de negros e negras eleitas em diversos estados. \u00c9 poss\u00edvel enxergar nisso um vislumbre de que o Brasil consegue sair do pesadelo de mentiras e esc\u00e2ndalos tidos como &#8220;normais&#8221; no qual se afoga na atual necropol\u00edtica advinda da extrema-direita?<\/strong><br \/>\nSim, Bolsonaro e seu cortejo de horrores s\u00e3o uma resposta ultra conservadora aos anos de pol\u00edticas progressistas que tivemos no Brasil. Mas o acirramento das lutas identit\u00e1rias, raciais, por justi\u00e7a social e prote\u00e7\u00e3o ao meio-ambiente tamb\u00e9m s\u00e3o uma resposta \u00e0 distopia trazida por seu governo e agudizada por seu comportamento genocida durante a pandemia. A hist\u00f3ria \u00e9 feita de avan\u00e7os e retrocessos. Veja: as elei\u00e7\u00f5es com vota\u00e7\u00f5es expressivas de mulheres trans como \u00c9rica Hilton em S\u00e3o Paulo e Duda Salabert em Minas talvez n\u00e3o tivessem acontecido com tanta for\u00e7a se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos agora no poder um sujeito que encarna todo o \u00f3dio hist\u00f3rico dirigido aos LGBTQ. A Elaine, do Quilombo Perif\u00e9rico de S\u00e3o Paulo, assim como muitos candidatos e candidatas que trazem a pauta do combate ao genoc\u00eddio de afro-descendentes, chegam ao parlamento como uma resposta clara ao racismo estrutural hist\u00f3rico, potencializado pela elei\u00e7\u00e3o de 2016. E claro, Maria Marighella eleita vereadora! Ela concretiza a profecia de Jorge Amado, retira da maldi\u00e7\u00e3o e do sil\u00eancio e devolve seu sobrenome \u00e0 pol\u00edtica institucional. Lutar para Boulos governar a maior cidade do Brasil deve ser um compromisso de todos n\u00f3s, n\u00e3o s\u00f3 dos paulistas. Pode-se criar em S\u00e3o Paulo um laborat\u00f3rio de ant\u00edtese dessa necropol\u00edtica \u00e0 qual voc\u00ea se refere. S\u00e3o Paulo pode ser uma refer\u00eancia para o pa\u00eds que queremos em 2022. H\u00e1, sim, esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Volto a citar o boicote do atual governo perante o filme, algo que aconteceu, tamb\u00e9m, com a campanha de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/02\/cinema-bacurau-de-kleber-mendonca-filho-e-juliano-dornelles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bacurau<\/a>\u201d e de \u201cDemocracia em Vertigem\u201d. Como jornalista e algu\u00e9m assumidamente de esquerda, vejo essas tentativas de repress\u00e3o \u00e0 Cultura em geral (e especificamente ao Cinema Brasileiro) como algo angustiante. E isso justamente quando est\u00e1vamos come\u00e7ando a criar uma ind\u00fastria cultural cinematogr\u00e1fica rent\u00e1vel. Voc\u00ea acredita em uma perspectiva futura diferente dentro do nosso audiovisual? Algo como o que vimos na Cor\u00e9ia do Sul, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-51420743\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no qual os investimentos governamentais<\/a> de longa data na ind\u00fastria do audiovisual e nas salas de cinema permitiram um avan\u00e7o e um \u00e1pice como o de, por exemplo, Bong Joon Ho e o seu \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/12\/18\/cinema-parasita-de-bong-joon-ho-e-o-grande-filme-de-2019\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Parasita<\/a>\u201d.<\/strong><br \/>\nVai demorar muito at\u00e9 que o cinema se recupere do estrago. A Ancine j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 funcional e tem seus dias contados. O cinema independente brasileiro acabou. Nosso audiovisual sobrevive gra\u00e7as \u00e0s plataformas estrangeiras de streaming. A \u00e1rea da Cultura foi das mais afetadas por esse projeto de destrui\u00e7\u00e3o de pa\u00eds. Mas a campanha de convencimento da popula\u00e7\u00e3o de que artistas s\u00e3o vagabundos \u00e9 anterior a Bolsonaro, e, infelizmente, se provou muito eficaz. O artista brasileiro virou \u201cO Inimigo do Povo\u201d, l\u00e1 da pe\u00e7a de Ibsen. Atacando a reputa\u00e7\u00e3o dos artistas e o valor da nossa produ\u00e7\u00e3o, eles tiveram o caminho aberto para acabar com o fomento a cultura, sem que ningu\u00e9m reclamasse ou achasse que o pa\u00eds estava perdendo algo importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O seu processo de se adequar \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de diretor, tendo toda sua carreira centrada na atua\u00e7\u00e3o, foi dif\u00edcil? Como foi esse processo de cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem cinematogr\u00e1fica como diretor? Houve travas?<\/strong><br \/>\nEu acho que dirijo como atuo. Tento estar muito presente e contagiar o ambiente com energia criativa. Mas dirigir \u00e9 muito mais f\u00e1cil que atuar. Quando eu dirijo, sinto muita empatia pelos atores, porque eu sei o quanto aquilo pode ser doloroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Li acerca da influ\u00eancia dos irm\u00e3os Dardenne na sua c\u00e2mera como diretor. Voc\u00ea poderia aprofundar em como essa influ\u00eancia se deu?<\/strong><br \/>\nOs Dardenne s\u00e3o meus cineastas favoritos. Seus filmes s\u00e3o muito pol\u00edticos, mas extremamente humanos, geralmente sobre jovens de classe social baixa. Eu acho que a crueza com que eles filmam encontra eco na nossa tradi\u00e7\u00e3o de cinema pol\u00edtico, do Cinema Novo at\u00e9 \u201cTropa de Elite\u201d. E todos bebem no neo-realismo italiano, que \u00e9 meu cinema favorito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_58696\" aria-describedby=\"caption-attachment-58696\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-58696 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Marighella5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58696\" class=\"wp-caption-text\"><em>Wagner Moura e Francisco Bacelar no set de &#8220;Marighella&#8221; \/ Foto de F\u00e1bio Bouzas (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Felipe Braga e voc\u00ea assinam o roteiro baseado no denso livro de M\u00e1rio Magalh\u00e3es. O processo de adapta\u00e7\u00e3o foi dif\u00edcil? Como foi essa constru\u00e7\u00e3o de uma estrutura cinematogr\u00e1fica para um livro t\u00e3o completo dentro da vida de uma pessoa da import\u00e2ncia de Carlos Marighella? Houve algum conflito pessoal seu no sentido de precisar deixar de fora algum trecho no corte final de 155 minutos de dura\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMuito dif\u00edcil. O roteiro, para mim, \u00e9 a parte mais dif\u00edcil do cinema. E n\u00f3s est\u00e1vamos lidando com a hist\u00f3ria de vida de muitas pessoas e com um per\u00edodo conturbado do pa\u00eds. Eu e Felipe trabalhamos juntos em \u201cMarighella\u201d desde 2013. Para n\u00f3s, desde o come\u00e7o era claro que t\u00ednhamos que ter um recorte muito espec\u00edfico. N\u00e3o gosto de ver filmes biogr\u00e1ficos que em apenas duas horas tentam dar conta da vida inteira de algu\u00e9m. Melhor ler um livro ou ver um document\u00e1rio. N\u00f3s optamos pelos cinco \u00faltimos anos da vida de Marighella. E muitas vezes pensei se n\u00e3o deveria ter feito um filme s\u00f3 sobre o \u00faltimo dia de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A urg\u00eancia de se contar a hist\u00f3ria de Marighella em um per\u00edodo no qual a apologia \u00e0 tortura, tal qual a banaliza\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o criminosa da ditadura militar angariam votos e vencem elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 palp\u00e1vel. Como voc\u00ea avalia a possibilidade de levar essa reflex\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0s pessoas? Tanto aquelas que, da citada forma criminosa, negam e fazem apologia \u00e0 tortura, bem como as que foram manipuladas a acreditar nesse discurso e elegeu quem os proferiu e profere.<\/strong><br \/>\nHoje h\u00e1 gente discutindo se a ditadura foi mesmo ruim, se a tortura \u00e9 aceit\u00e1vel e se a terra \u00e9 mesmo redonda. Isso era impens\u00e1vel h\u00e1 cinco ou seis anos. Aprendi que n\u00e3o se pode menosprezar a capacidade de piadas e absurdos se alastrarem at\u00e9 ganharem status de verdades. Mentira e desinforma\u00e7\u00e3o precisam ser levadas a s\u00e9rio e combatidas pedagogicamente, n\u00e3o se pode mais rir de sandices como a mamadeira de piroca. \u00c9 preciso levar a s\u00e9rio e reagir imediatamente. O manejo escroto das redes sociais polarizou o mundo e relativizou a verdade. E, claro, a avers\u00e3o de tipos como Trump e Bolsonaro \u00e0 cultura, \u00e0 ci\u00eancia, ao pensamento cr\u00edtico, \u00e0 regula\u00e7\u00e3o das redes e \u00e0 liberdade de imprensa favorecem um projeto de domina\u00e7\u00e3o que se beneficia da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda neste aspecto da den\u00fancia das torturas no per\u00edodo tenebroso da ditadura militar no Brasil que temos acesso atrav\u00e9s da obra de M\u00e1rio Magalh\u00e3es e atrav\u00e9s do filme que voc\u00ea dirigiu, a audi\u00eancia pode perceber a urg\u00eancia dessa discuss\u00e3o acerca das monstruosidades cometidas. Longas como \u201cTorre das Donzelas\u201d, \u201cA Noite Escura da Alma\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/06\/entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sem Descanso<\/a>\u201d ou o curta metragem \u201cTorre\u201d, para citar apenas algumas obras, bem como outras recentes que abordam a quest\u00e3o em um per\u00edodo de nega\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis e oportunistas de tais monstruosidades, cumprem o papel de n\u00e3o nos deixar esquecer e\/ou banalizar tais atos. Tendo em mente essa conscientiza\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o oferecidas pelo Cinema, quero lhe perguntar sobre sua opini\u00e3o acerca dessa fun\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do audiovisual, sobretudo o brasileiro, no intuito de conscientiza\u00e7\u00e3o de um povo altamente manipul\u00e1vel por mentiras e bravatas pol\u00edticas.<\/strong><br \/>\nSim, um pa\u00eds que n\u00e3o encara seu passado de frente, n\u00e3o pode se desenvolver plenamente. A Lei da Anistia, quando poupa o Estado de ser julgado por crimes de tortura e assassinato, presta um desservi\u00e7o enorme ao pa\u00eds, na medida em que interdita o direito de um povo \u00e0 lidar com sua mem\u00f3ria. E a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria \u00e9 uma das atribui\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o cultural. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que essa produ\u00e7\u00e3o tem sido v\u00edtima de censura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Amarildo, Michael Brown, Geovane, Agatha, Jo\u00e3o Pedro, Breonna Taylor, George Floyd. A lista de pessoas torturadas e\/ou mortas pelas for\u00e7as do Estado tanto aqui no Brasil quanto em outros lugares, como os Estados Unidos, cresce de maneira assustadora. E esses s\u00e3o &#8220;apenas&#8221; alguns dos nomes que chegam \u00e0 m\u00eddia. Diversos estudos comprovam que a brutalidade policial n\u00e3o tem qualquer liga\u00e7\u00e3o com a efetividade dessa for\u00e7a do Estado perante a sociedade. Na sua opini\u00e3o, a brutalidade policial \u00e9 um reflexo justamente dessa pol\u00edtica que se alimenta de uma sociedade mesquinha e violenta? Como essa consci\u00eancia pode ser criada e focada em uma mudan\u00e7a? Voc\u00ea \u00e9 otimista nesse sentido?<\/strong><br \/>\nA pol\u00edcia \u00e9 a face mais evidente de Estados enraizados em estruturas historicamente racistas. Em \u00e1reas pobres, de maioria negra, a pol\u00edcia muitas vezes \u00e9 a \u00fanica face vis\u00edvel desse Estado. Tanto no Brasil quanto nos EUA. A pol\u00edcia brasileira \u00e9 a que mais mata e tamb\u00e9m a que mais morre no mundo. H\u00e1 algo tragicamente errado nisso, s\u00f3 n\u00e3o v\u00ea quem n\u00e3o quer. O discurso de que se resolve o problema da seguran\u00e7a publica endurecendo a brutalidade e letalidade da pol\u00edcia j\u00e1 n\u00e3o se sustenta, apesar de ter sido vitorioso em 2016. Eu sou otimista. O Black Lives Matter \u00e9 um dos movimentos mais poderosos da hist\u00f3ria dos EUA e um dos fatores decisivos para a derrota de Donald Trump. No come\u00e7o dessa entrevista falamos do espa\u00e7o hist\u00f3rico que o movimento negro, feminista e LGBTQ ocupou nessa elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenha d\u00favidas de que a reforma das pol\u00edcias e enfrentamento ao genoc\u00eddio de afro descendentes ser\u00e1 uma pauta forte no legislativo de agora em diante.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-58697\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Poster-Marighella.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1057\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Poster-Marighella.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Poster-Marighella-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de F\u00e1bio Bouzas (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Da influ\u00eancia de um cinema que historicamente surgiu da luta contra o fascismo, \u201cMarighella\u201d e seu diretor se estabelecem como s\u00edmbolos dessa mesma luta. Nesta entrevista, Wagner aprofunda mais essa experi\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o, bem como seu olhar sobre esse estranho Brasil de 2020.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/22\/entrevista-wagner-moura-fala-sobre-a-importancia-de-marighella-no-brasil-de-2020\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":58695,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4249,4958],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58691"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58691"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58708,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58691\/revisions\/58708"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}