{"id":58128,"date":"2020-11-06T01:26:19","date_gmt":"2020-11-06T04:26:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58128"},"modified":"2020-12-21T00:23:49","modified_gmt":"2020-12-21T03:23:49","slug":"entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/06\/entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso\/","title":{"rendered":"Entrevista: Cineasta Bernard Attal fala sobre o document\u00e1rio &#8220;Sem Descanso&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 02 de agosto de 2014, Geovane Mascarenhas de Santana, de 22 anos, foi abordado por uma viatura policial enquanto pilotava sua moto no bairro da Cal\u00e7ada, em Salvador. Rendido, m\u00e3o na cabe\u00e7a, de costas para um deles, j\u00e1 foi covardemente agredido fisicamente pelo primeiro policial que se aproximou. Colocado em seguida de joelhos, foi revistado e teve seus documentos verificados. Ap\u00f3s longos minutos, foi colocado na viatura, enquanto um dos oficiais pilotava sua moto. Toda a a\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do dia, em um dos locais de maior movimento da capital baiana, passou como rotineira pelos transeuntes e motoristas. A certeza da impunidade diante de mais um ato de trucul\u00eancia e abuso de poder era certa para aqueles homens fardados diante de mais um jovem negro. Por\u00e9m, uma c\u00e2mera estava l\u00e1 para registrar a \u00faltima vez que Geovane foi visto com vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">22 dias depois, o corpo do jovem seria sepultado na cidade de Serra Preta, interior do estado. O intervalo de tempo entre a grava\u00e7\u00e3o daquele v\u00eddeo no qual Geovane encontrara seus ju\u00edzes e carrascos, junto a uma reflex\u00e3o urgente e um anseio de mudan\u00e7a quanto a barb\u00e1rie da viol\u00eancia policial, \u00e9 o que prop\u00f5e apresentar \u201cSem Descanso\u201d (2020), document\u00e1rio do cineasta Bernard Attal, que narra a busca angustiante de Jurandy, pai de Geovane, pelo seu filho durante as duas semanas que se seguiram \u00e0 abordagem no bairro da Cal\u00e7ada. Jurandy passou por delegacias, batalh\u00f5es, hospitais, instituto m\u00e9dico legal, e, como o pr\u00f3prio nome do filme diz, n\u00e3o descansou at\u00e9 ter not\u00edcias de seu filho. A confirma\u00e7\u00e3o do assassinato surgiu ap\u00f3s partes do corpo decapitado de Geovane terem sido encontradas em dois pontos distintos do sub\u00farbio de Salvador, em uma tentativa covarde e monstruosa de acobertar as atrocidades cometidas dentro do batalh\u00e3o da pol\u00edcia, um \u00f3rg\u00e3o do Estado que deveria proteger sua popula\u00e7\u00e3o, mas a assassina abusando do poder que esse mesmo omisso Estado lhe concede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;V\u00e1rias vezes tentamos conversar com o governo, com os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e com a corregedoria da pol\u00edcia. Chegamos at\u00e9 a marcar encontros, mas eles desistiam de \u00faltima hora ou negavam esse encontro. Realmente, \u00e9 uma pena porque eu n\u00e3o queria fazer um filme contra a pol\u00edcia&#8221;, explica Bernard Attal acerca das motiva\u00e7\u00f5es de investigar para o document\u00e1rio o caso Geovane. Por\u00e9m, o cineasta deixa claro que a busca pelo di\u00e1logo foi primordial na constru\u00e7\u00e3o de seu filme. \u00c9 o di\u00e1logo que impede a barb\u00e1rie. \u00c9 o di\u00e1logo que fortalece democracias e impede a ascens\u00e3o de uma viol\u00eancia fascista oriunda daqueles que deveriam proteger, mas amea\u00e7am a sociedade. &#8220;A viol\u00eancia policial \u00e9 uma trag\u00e9dia da sociedade toda. A sociedade toda \u00e9 respons\u00e1vel. Tanto a Pol\u00edcia, quanto o Estado, quanto a Justi\u00e7a, quanto n\u00f3s, como cidad\u00e3os, somos respons\u00e1veis. Eu n\u00e3o queria apontar especialmente a pol\u00edcia nesse caso. Eu queria conversar com as autoridades p\u00fablicas para entender se eles iam tomar provid\u00eancias para reduzir esses casos. E eles se negaram completamente ao di\u00e1logo. Isso foi realmente uma pena porque achei que seria uma dimens\u00e3o do filme que eu teria gostado de ter, mas, no final, n\u00e3o temos. A postura desse governo \u00e9 de simplesmente n\u00e3o tratar o problema da viol\u00eancia policial&#8221;, afirma Bernard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu assassinato, Geovane deixou para tr\u00e1s mulher e filha, pessoas que foram privadas do conv\u00edvio com ele. Deixou para tr\u00e1s av\u00f3s e amigos. Deixou para tr\u00e1s seu pai, Jurandy, que n\u00e3o descansou at\u00e9 o momento em que p\u00f4de perceber, vendo o caix\u00e3o do seu filho, a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia que sua vida teve. Esse descanso, ali\u00e1s, nunca vir\u00e1. Como \u201cAnt\u00edgona\u201d (442 a.C), da obra de S\u00f3focles, Jurandy exigiu o direito de enterrar seus mortos. &#8220;\u00c9 um tema muito grave quando se trata da viol\u00eancia policial. A pol\u00edcia faz de tudo para que n\u00e3o sejam descobertos os corpos. Porque, se o corpo n\u00e3o for descoberto, n\u00e3o tem caso na Justi\u00e7a. E isso vem j\u00e1 da ditadura militar e de antes. \u00c9 por isso que se pode negar crimes pol\u00edticos e crimes n\u00e3o pol\u00edticos. Sem corpo, n\u00e3o h\u00e1 caso&#8221;, pontua Bernard, e salienta a refer\u00eancia que seu filme faz a Ant\u00edgona e ao risco sofrido por Jurandy. &#8220;Esse \u00e9 o n\u00edvel de barbaridade. N\u00e3o se sabe em que circunst\u00e2ncias essas pessoas foram levadas. Isso \u00e9 totalmente coerente com a hist\u00f3ria de Ant\u00edgona. Mas Ant\u00edgona tem uma outra dimens\u00e3o, tamb\u00e9m, pois ela desafia as autoridades. Ela aceita o risco pelo direito de enterrar seu irm\u00e3o. No caso de Jurandy, foi exatamente isso. Ele sabia que estava correndo um risco grande na busca do corpo do filho&#8221;, compara Bernard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciada a produ\u00e7\u00e3o em 2015 e lan\u00e7ado em festivais em 2018, o filme estreia comercialmente em um 2020 marcado por mais exemplos de viol\u00eancia policial. E a indigna\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumenta. &#8220;A dimens\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diminuindo ao longo do tempo. Eu n\u00e3o costumo assistir aos meus filmes depois. Eu tento me distanciar do filme, mas, cada vez que eu escuto mais uma hist\u00f3ria de uma pessoa agredida pela pol\u00edcia, minha indigna\u00e7\u00e3o s\u00f3 faz aumentar. Realmente, esse filme nasceu dessa indigna\u00e7\u00e3o&#8221;, finaliza o cineasta. Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Bernard aborda a constru\u00e7\u00e3o do seu filme, o contato com Jurandy e sua fam\u00edlia, bem como embasa a discuss\u00e3o da necessidade urgente de se desvincular a compet\u00eancia de uma for\u00e7a policial ao seu alto n\u00edvel de viol\u00eancia. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sem Descanso - Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wRN22j68EGA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Caso Geovane aconteceu em 2014 e chocou a popula\u00e7\u00e3o baiana (ao menos, as pessoas conscientes do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra). Seis anos depois, vemos esse mesmo caos se ampliar, com o assassinato das crian\u00e7as Agatha e Jo\u00e3o Pedro no sudeste; com o assassinato de Michael Brown, de Breonna Taylor e de George Floyd nos Estados Unidos. No seu acompanhar da fam\u00edlia de Geovane durante os \u00faltimos anos, como voc\u00ea observou a amplia\u00e7\u00e3o deste problema grav\u00edssimo que \u00e9 a viol\u00eancia policial?<\/strong><br \/>\nAcho que a dimens\u00e3o do tempo sempre ser\u00e1 importante no filme. Desde o que aconteceu em 2014, eu queria realmente acompanhar a jornada da fam\u00edlia de Geovane ao longo dos anos. Muitas vezes, nesses casos, se fala do que aconteceu na hora, mas depois todo mundo esquece. N\u00e3o continuam a acompanhar o que aconteceu com os familiares que buscaram na Justi\u00e7a uma forma de repara\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o temporal sempre foi muito importante na constru\u00e7\u00e3o da narrativa. Al\u00e9m disso, acontece que a problem\u00e1tica da viol\u00eancia policial foi piorando ao longo dos anos. Tem um mapa no filme que mostra que, na \u00e9poca, era 4 mil o n\u00famero de mortes decorrentes de interven\u00e7\u00e3o policial. Hoje em dia, estamos chegando perto de 7 mil. Estamos diante de uma trag\u00e9dia que vai piorando, porque n\u00e3o se d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o para esse problema, para essa trag\u00e9dia. E a sociedade parece estar se afastando cada vez mais. Tem uma conscientiza\u00e7\u00e3o ocasional quando acontece, por exemplo, uma trag\u00e9dia como a morte da menina Agatha ou, recentemente, nos Estados Unidos, o caso do George Floyd. Mas o problema n\u00e3o sendo resolvido. N\u00e3o est\u00e3o tratando por onde. Nos Estados Unidos, est\u00e3o agora falando um pouco porque pensam em reduzir o or\u00e7amento dos departamentos de pol\u00edcia. Fala-se de alterar as modalidades de gest\u00e3o dos departamentos de pol\u00edcia. Mas, no Brasil, absolutamente nada. O que est\u00e1 acontecendo aqui \u00e9 o contr\u00e1rio. Dar mais poder, mais impunidade aos policiais. Apesar do fato de que o Brasil foi condenado pelos excessos da pol\u00edcia. Mas apesar dessa condena\u00e7\u00e3o, o assunto fica cada vez mais grave. Ent\u00e3o, realmente, parece que estamos correndo atr\u00e1s dessa problem\u00e1tica. H\u00e1 esses casos que s\u00e3o conhecidos, mas n\u00e3o parece ter nenhuma vontade pol\u00edtica, vontade da sociedade de acatar essas solu\u00e7\u00f5es. No caso de Michael Brown, o pai dele recebeu uma indeniza\u00e7\u00e3o menos de um ano depois da morte do filho. No caso de Geovane, da indeniza\u00e7\u00e3o nem se fala mais. O caso nem entrou na Justi\u00e7a ainda. S\u00e3o v\u00e1rios recursos que foram solicitados pelos policiais e, at\u00e9 hoje, (a possibilidade de indeniza\u00e7\u00e3o) n\u00e3o est\u00e1 na Justi\u00e7a. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que a dimens\u00e3o do tempo \u00e9 completamente diferente e faz muito parte desse drama no caso de Jurandy, pai de Geovane. \u00c9 um componente social da dor da fam\u00edlia e do drama desse pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s todo esse per\u00edodo acompanhando tanto o desenrolar na Justi\u00e7a do Caso Geovane, quanto um consider\u00e1vel aumento da viol\u00eancia policial no Brasil e no mundo, bem como a ascens\u00e3o do \u00f3dio e da intoler\u00e2ncia ao presid\u00eancia do Brasil, voc\u00ea se demonstra pessimista em rela\u00e7\u00e3o ao que o futuro nos reserva?<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o d\u00e1 para parecer nem otimista e nem pessimista. Tem uma evolu\u00e7\u00e3o negativa que claramente est\u00e1 na postura do (atual) presidente. Sua postura consiste em dar cada vez mais carta branca aos policiais e proteger a impunidade deles. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2019\/10\/03\/bolsonaro-diz-que-e-um-absurdo-condenacao-de-policiais-por-excesso.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Isso \u00e9 uma postura clara<\/a>. At\u00e9 o ponto em que o objetivo seja alcan\u00e7ado e que eles n\u00e3o sejam julgados pela justi\u00e7a civil, mas pela justi\u00e7a militar, o que, de fato, vai aumentar a impunidade deles. Mas do outro lado, tem organiza\u00e7\u00f5es no terreno que est\u00e3o se formando para lutar contra a viol\u00eancia do Estado. Especialmente no Rio, onde se conseguiu v\u00e1rias coisas. Tem o movimento das m\u00e3es que conseguiu do governo federal a suspens\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Isso foi suspenso, mesmo. Tem, tamb\u00e9m, o movimento das m\u00e3es de S\u00e3o Paulo, que realizaram uma conscientiza\u00e7\u00e3o para as vitimas do Estado que ocorreram em maio de 2006 (<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/santos-regiao\/educacao\/noticia\/2019\/05\/18\/maes-de-maio-pedem-ha-13-anos-justica-para-filhos-vitimas-de-onda-de-crimes.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">M\u00e3es de Maio<\/a>). Ent\u00e3o, tem uma mobiliza\u00e7\u00e3o das vitimas que est\u00e1 acontecendo e que \u00e9 realmente uma forma nova de lutar contra o problema da viol\u00eancia policial. Acho que de um lado tem raz\u00f5es de ser pessimista por conta do Poder Executivo, mas do outro lado, tem uma conscientiza\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o diria da sociedade de uma forma geral, mas uma organiza\u00e7\u00e3o do campo, mesmo. Pessoas que est\u00e3o usando os exemplos do que est\u00e1 acontecendo, por exemplo, nos Estados Unidos, para propor medidas para se organizar, para se coordenar e achar maneiras de reduzir a viol\u00eancia policial. <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2019\/09\/24\/policiais-sao-responsaveis-por-uma-a-cada-tres-mortes-na-cidade-de-sp.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chegamos a um n\u00edvel intoler\u00e1vel<\/a>. Tem estados onde 30% dos homic\u00eddios totais v\u00eam de a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia. Ent\u00e3o, eu acho que nesse ponto de vista da conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, da para ser otimista. Tem uma coisa que eu sempre lembro. N\u00f3s fomos gravar nos Estados Unidos, em 2017, <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2016\/08\/vigilia-lembra-dois-anos-da-morte-de-michael-brown-em-ferguson.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tr\u00eas anos depois do assassinato do Michael Brown<\/a>. Quando chegamos l\u00e1, foi bem dif\u00edcil entrevistar as pessoas. Elas estavam muito desanimadas. Trump tinha chegado ao poder. O <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2020\/06\/03\/black-lives-matter-conheca-o-movimento-fundado-por-tres-mulheres.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">movimento Black Lives Matter<\/a> enfrentou v\u00e1rios problemas. V\u00e1rios deles acabaram perdendo os seus empregos. Acho que dois ativistas <a href=\"https:\/\/www.chicagotribune.com\/nation-world\/ct-ferguson-activist-deaths-black-lives-matter-20190317-story.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">se suicidaram<\/a>. Ent\u00e3o, a gente tinha bastante dificuldade em entrevistar pessoas que n\u00e3o queriam mais falar do assunto. Achavam que n\u00e3o tinha mais motivo de ser otimista na luta. E veja o que est\u00e1 acontecendo tr\u00eas anos depois. O Black Lives Matter agora \u00e9 uma for\u00e7a pol\u00edtica, mesmo. Eles est\u00e3o conseguindo reformar a pol\u00edtica em v\u00e1rios estados. \u00c0s vezes, quando voc\u00ea tem um (poder) executivo polarizado demais, voc\u00ea consegue juntar as pessoas e avan\u00e7ar a sua causa. Espero que, nesse caso, estejamos nesse contexto. Que os excessos do governo federal v\u00e3o fazer as pessoas se darem conta de que n\u00e3o d\u00e1 para ficar desse jeito. Que temos que reformar o funcionamento da pol\u00edcia e do Estado de uma forma geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 percept\u00edvel, de fato, um aumento no n\u00famero de mortos por a\u00e7\u00f5es policiais nos \u00faltimos anos. Basta pesquisar os dados disponibilizados publicamente.<\/strong><br \/>\nSim. Se voc\u00ea tem 100 homic\u00eddios no local, se considerar 10 homic\u00eddios por interven\u00e7\u00e3o policial, isso \u00e9 considerado uma taxa razo\u00e1vel. \u00c9 meio absurdo, mas \u00e9 assim. Somente quando voc\u00ea passa de 10%, \u00e9 que se entra em uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia policial preocupante. <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/1-em-cada-10-mortes-violentas-no-brasil-e-causada-pela-policia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Em 10 estados<\/a>, incluindo SP, o n\u00famero de <a href=\"https:\/\/anistia.org.br\/noticias\/25-dos-assassinatos-rio-de-janeiro-em-2017-foram-cometidos-pela-policia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mortos que vem de interven\u00e7\u00e3o policial chega a 25%<\/a>.&nbsp; E tem outros estados, como o Cear\u00e1, por exemplo, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ce\/ceara\/noticia\/2020\/04\/27\/ceara-registra-25-mortes-por-intervencao-policial-no-primeiro-trimestre-de-2020.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que n\u00e3o passa de 5%<\/a>. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente em fun\u00e7\u00e3o do estado e em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas cada vez que passa de 10%, voc\u00ea j\u00e1 sabe que est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o extremamente preocupante. H\u00e1 pa\u00edses que n\u00e3o tem uma morte sequer por viol\u00eancia policial. Os Estados Unidos tem muitas mortes, sabemos que \u00e9 uma quest\u00e3o l\u00e1, <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/graphics\/2019\/national\/police-shootings-2019\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mas n\u00e3o passa de 1500 mortes anuais<\/a>. No Brasil, todos os anos com os n\u00fameros crescendo, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/monitor-da-violencia\/noticia\/2020\/09\/03\/no-de-pessoas-mortas-pela-policia-cresce-no-brasil-no-1o-semestre-em-plena-pandemia-assassinatos-de-policiais-tambem-sobem.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vamos chegar em 2020 passando de 7000 mortos<\/a>. A gente achava que a pandemia ia reduzir essa taxa, porque teriam menos pessoas na rua, mas, n\u00e3o. <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/sao-paulo\/noticia\/2011\/04\/sp-registra-quase-500-mortes-em-confrontos-com-pm-em-2010.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fica aumentando sempre<\/a>. H\u00e1 10 anos, o n\u00famero n\u00e3o passava de dois mil. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea <a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/sociedade\/letalidade-policial-no-brasil-e-cinco-vezes-maior-que-nos-eua\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o crescimento do problema<\/a>. Passamos de <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/policia-que-mais-mata\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2 mil para 7 mil em 10 ano<\/a>s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se deu sua aproxima\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Geovane?<\/strong><br \/>\nEu e minha esposa (Gel Santana), que \u00e9 produtora do filme, fomos no enterro de Geovane. O enterro aconteceu no interior da Bahia, na cidade de Serra Preta, que \u00e9 tamb\u00e9m a terra da fam\u00edlia da minha esposa. L\u00e1, n\u00f3s ficamos muito chocados pelo fato de que n\u00e3o tinha nenhum representante do Estado presente. S\u00f3 estavam presentes amigos, parentes e dois ou tr\u00eas jornalistas. N\u00e3o tinha nenhum artista ou formador de opini\u00e3o. E isso apesar do fato do caso ter conseguido muita notoriedade. Era um fato muito p\u00fablico. Isso foi completamente em contraste ao que aconteceu nos Estados Unidos no enterro de Michael Brown, na semana anterior. L\u00e1 tinham <a href=\"https:\/\/exame.com\/mundo\/ferguson-se-mobiliza-para-funeral-de-michael-brown\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">centenas de pessoas<\/a>. Houve manifesta\u00e7\u00f5es. Spike Lee compareceu, outros artistas negros foram tamb\u00e9m. E n\u00e3o s\u00f3 artistas negros. O Obama fez um discurso em Washington. O Estado do Missouri apresentou suas desculpas aos familiares. Eu vi essa posi\u00e7\u00e3o e falei: &#8220;temos que continuar a falar desse caso, porque, sen\u00e3o, amanh\u00e3 ningu\u00e9m mais vai lembrar.&#8221; Ent\u00e3o, me aproximei do Jurandy (N.E. Pai de Giovani) logo depois do enterro, e perguntei se ele topava conversar. Nessa \u00e9poca, n\u00f3s n\u00e3o fal\u00e1vamos do filme. S\u00f3 queria conversar com ele para entender melhor a sua jornada. Ele se mostrou imediatamente muito aberto. Mas eu sempre tive essa preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o banalizar a dor de pessoas que passam por uma trag\u00e9dia t\u00e3o profunda. \u00c9 muito f\u00e1cil se aproveitar dessa dor. Tem um roteirista franc\u00eas que fala uma coisa muito bonita. Ele fala que n\u00e3o basta retratar a dor dos outros, tem que tamb\u00e9m entregar a sua pr\u00f3pria dor para conseguir realmente uma conex\u00e3o com as pessoas que passam por isso. Ent\u00e3o, a gente sempre ficou com essa preocupa\u00e7\u00e3o de, como eu falei, acompanh\u00e1-los. De faz\u00ea-los perceber que n\u00e3o \u00edamos apenas fazer o filme e depois larg\u00e1-los l\u00e1 depois. N\u00f3s os acompanhamos durante tr\u00eas a quatro anos. Eles moram perto daqui. N\u00f3s nos se vemos de uma forma regular. O Jurandy sempre ia participar dos debates que t\u00ednhamos nos festivais. Ele me acompanhou em v\u00e1rios festivais. Depois do lan\u00e7amento comercial (N.E. O filme estreou no dia 05\/11\/2020), n\u00f3s vamos fazer o que se chama de lan\u00e7amento de impacto. Levar o filme para as comunidades, para as escolas, para as ONGs. E eu convidei o Jurandy para participar desse lan\u00e7amento, para dividir, compartilhar com as pessoas, a sua vida e a sua experi\u00eancia. Compartilhar o fracasso dele, tamb\u00e9m, porque ele aprendeu muitas coisas pelo fato de ter ficado duas semanas procurando o filho e n\u00e3o ter encontrado. Agora, ele sabe onde ir, mas, naquela \u00e9poca, n\u00e3o sabia. Ficamos muito pr\u00f3ximos. Tanto do Jurandy quanto da fam\u00edlia dele. Para n\u00f3s, era muito importante ficar ao lado deles, porque, sen\u00e3o, era como se aproveitar da dor de um pai. No caso da perda de um filho, \u00e9 uma dor extremamente profunda. Uma dor que nunca se resolve. Ent\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para chegar l\u00e1, filmar, e ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe em \u201cSem Descanso\u201d uma imprescind\u00edvel den\u00fancia contra a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia em algo que, no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, reverbera por todo o s\u00e9culo XX e esse come\u00e7o do XXI que \u00e9 a quest\u00e3o da sombra das ditaduras. Da busca de pessoas pelo direito de enterrar seus mortos (algo que o filme salienta ao citar S\u00f3focles e sua trag\u00e9dia \u201c<a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/antigona-e-o-direito-universal-de-enterrar-nossos-mortos\/#:~:text=Sepultar%20um%20irm%C3%A3o%20%C3%A9%20um,irm%C3%A3o%2C%20condenado%20a%20jazer%20insepulto.&amp;text=Esse%20direito%20foi%20negado%20ao%20Lula.)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ant\u00edgona<\/a>\u201d. E isso \u00e9 algo que angustia ainda mais, pois vemos os anos passarem e poucos horizontes positivos surgem.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um tema muito grave quando se trata da viol\u00eancia policial. A pol\u00edcia faz de tudo para que n\u00e3o sejam descobertos os corpos. Porque, se o corpo n\u00e3o for descoberto, n\u00e3o tem caso na Justi\u00e7a. Tem um fator jur\u00eddico que a pol\u00edcia est\u00e1 muito ciente. E isso, como voc\u00ea falou, vem j\u00e1 da ditadura militar e de antes. \u00c9 por isso que se pode negar crimes pol\u00edticos e crimes n\u00e3o pol\u00edticos. Sem corpo, n\u00e3o h\u00e1 caso. \u00c9 isso que est\u00e1 acontecendo muito com as m\u00e3es que aparecem no final do filme. V\u00e1rias delas fazem parte do movimento M\u00e3es de Maio. Estamos falando de um caso que tem quase 15 anos e, at\u00e9 hoje, n\u00e3o descobriram o corpo do filho de uma delas. Hoje, tem esse conceito que chama dos \u201c<a href=\"http:\/\/www.mprj.mp.br\/conheca-o-mprj\/centro-de-pesquisas\/diagnostico-plid\/desaparecimento-forcado-nas-margens-da-democracia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Desaparecidos For\u00e7ados<\/a>\u201d, que s\u00e3o, geralmente, meninos, \u00e0s vezes meninas, que a pol\u00edcia levou e n\u00e3o se sabe o que aconteceu. N\u00e3o se sabe. Esse \u00e9 o n\u00edvel de barbaridade. N\u00e3o se sabe em que circunst\u00e2ncias essas pessoas foram levadas. Isso \u00e9 totalmente coerente com a hist\u00f3ria de Ant\u00edgona. Mas Ant\u00edgona tem outra dimens\u00e3o, tamb\u00e9m, pois ela desafia as autoridades. Ela aceita a pena de morte pelo direito de enterrar seu irm\u00e3o. No caso de Jurandy, foi exatamente isso. Ele sabia que estava correndo um risco grande na busca do corpo do filho. <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/vou-enterrar-o-que-me-derem-diz-pai-de-geovane-depois-de-descobrir-destino-do-filho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">At\u00e9 os jornais contaram essa hist\u00f3ria<\/a>. Ele ficou sozinho por duas semanas buscando o corpo do filho. E durante todo esse per\u00edodo, ele sabia que as circunst\u00e2ncias dele de descobrir poderia resultar na sua morte. Porque todas as provas, na verdade, estavam na exist\u00eancia do corpo do filho. E finalmente, claro, tem essa terceira dimens\u00e3o que \u00e9 o fato de que sua dor n\u00e3o vai cessar at\u00e9 voc\u00ea descobrir o corpo do seu parente. Essas m\u00e3es que mencionei, muitas delas t\u00eam problemas psicol\u00f3gicos por conta disso, dificuldades para dormir h\u00e1 15 anos, porque n\u00e3o sabem o que aconteceu com seus filhos. Ainda possuem, \u00e0s vezes, essa esperan\u00e7a irracional de que, talvez, vai aparecer o filho. Aparecer o corpo e que elas v\u00e3o descobrir coisas horrorosas. Ent\u00e3o, essas tr\u00eas dimens\u00f5es de Ant\u00edgona est\u00e3o completamente org\u00e2nicas com a hist\u00f3ria de Jurandy. Ele mesmo n\u00e3o se deu conta de que estava seguindo essa jornada. Mas \u00e9 uma coisa absolutamente crucial, ainda mais em rela\u00e7\u00e3o ao que voc\u00ea falou, ainda mais pertinente quando se fala da Am\u00e9rica Latina, porque tem uma hist\u00f3ria extremamente contundente com esse ponto de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em algum momento durante a constru\u00e7\u00e3o do filme, na apura\u00e7\u00e3o, na busca por informa\u00e7\u00f5es em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, voc\u00ea se sentiu inseguro ou temeroso por conta de qualquer amea\u00e7a?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. S\u00f3 teve um ou dois acontecimentos durante as grava\u00e7\u00f5es de pessoas que ficaram nos provocando, mas eram casos isolados. Mas o que aconteceu \u00e9 que fiquei l\u00e1 montando o filme e, durante esse per\u00edodo, v\u00e1rias vezes tentamos conversar com o governo e com os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, com a corregedoria da pol\u00edcia. Chegamos at\u00e9 a marcar encontros. E a cada vez, eles desistiam de \u00faltima hora ou negavam esse encontro. Realmente, \u00e9 uma pena porque, primeiro, eu n\u00e3o queria fazer um filme contra a pol\u00edcia. A viol\u00eancia policial \u00e9 uma trag\u00e9dia da sociedade toda. A sociedade toda \u00e9 respons\u00e1vel. Tanto a Pol\u00edcia, quanto o Estado, quando a Justi\u00e7a, quanto n\u00f3s, como cidad\u00e3os, somos respons\u00e1veis. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o queria apontar especialmente a pol\u00edcia nesse caso. Eu queria conversar com as autoridades p\u00fablicas para entender se eles iam tomar provid\u00eancias para reduzir esses casos. E eles se negaram completamente ao di\u00e1logo. Isso foi realmente uma pena porque achei que seria uma dimens\u00e3o do filme que eu teria gostado de ter, mas, no final, n\u00e3o temos. Mas n\u00e3o fomos amea\u00e7ados. A postura desse governo \u00e9 de simplesmente n\u00e3o tratar o problema da viol\u00eancia policial. <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/e-como-um-artilheiro-em-frente-ao-gol-diz-rui-costa-sobre-acao-da-pm-com-doze-mortos-no-cabula\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">E isso se v\u00ea na fala do governador<\/a>. O que eu entendo \u00e9 que o governo anterior, o do Jacques Wagner, foi bastante traumatizado pelas greves da pol\u00edcia. <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/bahia\/noticia\/2014\/04\/acaba-greve-da-policia-militar-da-bahia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Houve duas greves da pol\u00edcia<\/a> e eles n\u00e3o querem que aconte\u00e7a de novo. Ent\u00e3o, eles fazem de tudo para n\u00e3o irritar a pol\u00edcia de uma forma ainda maior. Aquela foi uma fala muito infeliz. Acho que tamb\u00e9m n\u00e3o se resolve o problema da seguran\u00e7a p\u00fablica aceitando tudo o que a pol\u00edcia pretende fazer. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2019\/09\/29\/violencia-policial-nao-diminui-ocorrencia-de-crimes-no-rj-aponta-estudo-do-ministerio-publico.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">As estat\u00edsticas recentes<\/a> mostram claramente que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/justica\/noticia\/2019-10\/mp-cobra-do-governo-do-rio-medidas-de-combate-letalidade-policial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entre o crime de uma forma geral e a viol\u00eancia policial<\/a>. Do outro lado, tem estados que t\u00eam uma redu\u00e7\u00e3o do crime <a href=\"https:\/\/www.opovo.com.br\/noticias\/ceara\/2020\/10\/09\/policia-foca-em-inteligencia-e-troca-de-informacoes-para-combater-trafico-de-drogas-no-ceara.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">com a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial<\/a>. E tem estat\u00edsticas que v\u00e3o de um lado e outras que v\u00e3o do outro lado. A esperan\u00e7a mostra que a popula\u00e7\u00e3o tem que confiar na pol\u00edcia. Temos que ter uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com a pol\u00edcia. E n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o de medo. Isso \u00e9 o que a gente queria ter conversado com as autoridades p\u00fablicas neste filme. E n\u00f3s n\u00e3o conseguimos. Esperamos poder ter esse debate quando lan\u00e7armos no cinema. Vamos buscar condi\u00e7\u00f5es. Sei que existem movimentos antifascistas na pol\u00edcia. Movimentos que se criaram nos \u00faltimos anos. Ent\u00e3o, pelo menos, vamos tentar essa conversa com eles. Mas, o ambiente atual n\u00e3o favorece a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea optou por usar um modo de document\u00e1rio perform\u00e1tico em alguns momentos, com as imagens dos \u00e2ncoras de TV e a reconstru\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria de Jurandy. Como se deu essa op\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1vamos querendo usar arquivos da TV Globo, mas eles n\u00e3o liberaram. Ent\u00e3o, tivemos que usar esse recurso. Tamb\u00e9m tem toda a dimens\u00e3o de reencenar algumas cenas, porque reencenamos a jornada do Jurandy. Como filmamos um ano depois do acontecimento, usamos desse recurso. Tentei n\u00e3o exagerar nesse ponto de vista, porque Jurandy n\u00e3o \u00e9 um ator. Mas, do ponto de vista da dramaturgia, foi a maneira mais eficiente para entender o que o ele estava passando. Era melhor do que simplesmente entrevist\u00e1-lo e escutar a sua narrativa. No caso do jornal, foi realmente porque a Globo n\u00e3o liberou. O Jornal Correio nos ajudou. Tentamos v\u00e1rias indica\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o deu certo. A Globo n\u00e3o libera mais os arquivos de imagens deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Jornal Correio, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TmYSji2Desg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">atrav\u00e9s do rep\u00f3rter Bruno Wendel<\/a>, foi quem trouxe \u00e0 tona todo o caso na \u00e9poca. Al\u00e9m disso, houve uma forte cobertura dos ve\u00edculos de imprensa daqui acerca da den\u00fancia. Como voc\u00ea avaliou esse suporte dos jornais e sites para toda a situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFiquei muito impressionado pela presen\u00e7a da imprensa no caso todo. E agora tamb\u00e9m, sobre a quest\u00e3o da viol\u00eancia policial. Porque, se voc\u00ea prestar aten\u00e7\u00e3o, a imprensa nunca foi t\u00e3o atacada como hoje em dia. Por parte da popula\u00e7\u00e3o e, principalmente, pelos governantes. A imprensa, seja de direita ou de esquerda, seja l\u00e1 o que for, para muitos se tornou o inimigo do povo. Mas o que estamos vendo \u00e9 que o espa\u00e7o democr\u00e1tico, hoje, est\u00e1 na imprensa. A rede social, para mim, \u00e9 uma m\u00eddia completamente ineficaz e que ajuda as pessoas a se esconderem ainda mais. A imprensa, pelo contr\u00e1rio, hoje em dia, \u00e9 o espa\u00e7o que mais denuncia a viol\u00eancia policial. At\u00e9 a revista Veja fez mat\u00e9ria sobre a viol\u00eancia policial. Ent\u00e3o, o Jornal Correio, na \u00e9poca, cumpriu o seu papel investigativo. Na realidade, hoje em dia, a maioria dos jornais n\u00e3o tem os recursos para fazer isso. Mas todos os jornais acompanharam o caso Geovane. E hoje em dia vejo que todos os jornais, seja o A Tarde, o Correio, a Carta Capital, o El Pa\u00eds, a Veja, a Isto\u00e9, publica\u00e7\u00f5es que voc\u00ea n\u00e3o poderia antecipar que iam se interessar pelo caso, est\u00e3o tratando disso. Esse desprezo que se construiu em cima da imprensa ao longo dos anos, achando que a imprensa n\u00e3o representava mais um quarto poder, algo que era a voca\u00e7\u00e3o dela, agora mesmo ela est\u00e1 assumindo esse papel. E acho, realmente, que seja uma coisa muito feliz. Isso foi, realmente, uma das coisas positivas que saiu dessa experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem tido contato frequente com Jurandy sobre todo o desenrolar do caso. Como est\u00e1 o caso no momento e como Jurandy e sua fam\u00edlia t\u00eam lidado com essa lentid\u00e3o pela justi\u00e7a ap\u00f3s seis anos do assassinato de Geovane, <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/caso-geovane-sete-dos-11-pms-vao-a-juri-popular\/#:~:text=Geovane%20foi%20sequestrado%2C%20morto%2C%20esquartejado%20por%20policiais%20militares%20Rondesp.&amp;text=Os%20sete%20policiais%20foram%20pronunciados,pessoas%20e%20oculta%C3%A7%C3%A3o%20de%20cad%C3%A1ver\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ap\u00f3s a decis\u00e3o em primeira inst\u00e2ncia do caso ser levado a j\u00fari popular<\/a>?<\/strong><br \/>\nAntes, havia 11 policiais indiciados Hoje, s\u00e3o 7. Eles entraram com recursos at\u00e9 no STJ, em Bras\u00edlia. E todos os recursos foram negados. Ent\u00e3o, o caso vai mesmo a j\u00fari popular. Falei com o Jurandy a semana passada. Mas n\u00e3o tem prazo ainda. A esperan\u00e7a era que iria a j\u00fari popular esse ano, mas com a pandemia n\u00e3o ocorreu. Ent\u00e3o, a esperan\u00e7a \u00e9 que aconte\u00e7a ano que vem. Mas sabemos que eles v\u00e3o entrar de novo com recursos depois. A expectativa de Jurandy e do advogado dele \u00e9 que esse caso n\u00e3o ser\u00e1 resolvido em menos de 5 anos. Estamos falando de um processo que vai durar entre 10 e 15 anos. Como voc\u00ea vai conseguir resolver a sua dor? Como voc\u00ea vai conseguir se reconciliar com o setor da Justi\u00e7a quando voc\u00ea tem que carregar esse processo durante 15 anos? \u00c9 muito dif\u00edcil. Jurandy continua acreditando. \u00c9 uma coisa milagrosa. Ele n\u00e3o perde a f\u00e9. Ele acredita que em algum momento vai conseguir a justi\u00e7a. Mas, realmente, tem que ter muita f\u00e9. N\u00e3o sei se voc\u00ea acompanhou o caso do Amarildo, no Rio. No Rio, a Justi\u00e7a votou pela indeniza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. O assassinato do Amarildo foi em 2014. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2018\/08\/28\/tjrj-concede-indenizacao-para-familia-de-pedreiro-amarildo.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Justi\u00e7a concedeu uma indeniza\u00e7\u00e3o em 2018<\/a>. At\u00e9 hoje a fam\u00edlia n\u00e3o recebeu, porque <a href=\"https:\/\/www.istoedinheiro.com.br\/recursos-sobre-indenizacao-a-familia-de-amarildo-serao-julgados-dia-28\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Estado entrou com v\u00e1rios recursos<\/a>. Ent\u00e3o, mesmo quando a Justi\u00e7a se pronuncia, os casos n\u00e3o se resolvem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me de assistir ao seu filme no <a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiv-panorama\/filmes\/competitiva-nacional-longas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a> em 2018 e sair com um aperto no peito por conta da indigna\u00e7\u00e3o que toda aquela viol\u00eancia me causou. Rev\u00ea-lo agora, com todo o contexto de 2020, s\u00f3 fez tal indigna\u00e7\u00e3o aumentar.<\/strong><br \/>\nAcho que a dimens\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diminuindo ao longo do tempo. Eu n\u00e3o costumo assistir aos meus filmes depois. Tento me distanciar do filme, mas, cada vez que escuto mais uma hist\u00f3ria de uma pessoa agredida pela pol\u00edcia, minha indigna\u00e7\u00e3o s\u00f3 faz aumentar. Realmente, esse filme nasceu dessa indigna\u00e7\u00e3o. Claro, a fam\u00edlia da minha esposa \u00e9 do mesmo bairro de Jurandy, e a gente sabe que para os irm\u00e3os dela, para os seus primos, eles correm o mesmo perigo ao voltar \u00e0 noite para casa. Eles t\u00eam medo de voltar para casa, porque n\u00e3o sabem se v\u00e3o encontrar uma viatura. N\u00e3o sabem se n\u00e3o v\u00e3o se encontrar no lugar errado, na hora errada. Ent\u00e3o, eles ficam completamente \u00e0 merc\u00ea do que a pol\u00edcia pode fazer a qualquer momento. A dimens\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte. Foi uma grande motiva\u00e7\u00e3o nesse filme. Outra dimens\u00e3o que vem complementar essa indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 que foi bastante dif\u00edcil divulgar esse filme no Brasil. A gente teve mais facilidade de entrar nos festivais fora do Brasil do que aqui. Em Salvador, o Cl\u00e1udio (Marques, diretor e curador do Panorama Internacional Coisa de Cinema) logo selecionou o filme e abra\u00e7ou a causa. Porque ele mesmo estava muito indignado com essa situa\u00e7\u00e3o. O Festival do Rio selecionou o filme um ano depois. Mas, fora isso, foi muito dif\u00edcil. Parecia que os curadores n\u00e3o se interessaram pelo assunto. Hoje em dia, vejo bastante pessoas que n\u00e3o est\u00e3o querendo tratar o assunto. N\u00e3o est\u00e3o querendo abordar de uma forma precisa o assunto. O que o filme est\u00e1 mostrando \u00e9 que somos todos respons\u00e1veis. N\u00e3o s\u00f3 a pol\u00edcia, mas, tamb\u00e9m, os v\u00e1rios segmentos da sociedade. O que esse filme realmente quer apontar \u00e9 que todos n\u00f3s temos que nos mobilizar para reduzir a viol\u00eancia policial. A indigna\u00e7\u00e3o faz parte e \u00e9 o primeiro passo dessa mobiliza\u00e7\u00e3o. Mas vejo essa dificuldade de mobilizar as pessoas, de mobilizar os curadores em cima do assunto. N\u00f3s mobilizamos alguns artistas <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=555239505293991\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">como Wagner Moura<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=375030457104554\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vladimir Brichta<\/a> para gravar v\u00eddeos sobre o filme. E os dois imediatamente toparam e gravaram para n\u00f3s. Mas, da mesma forma, \u00e9 bastante dif\u00edcil fazer com que as pessoas assistissem, se mobilizem e topem contribuir de alguma forma. \u00c9 algo que n\u00e3o vai se resolver t\u00e3o logo. Vamos ver o que o filme far\u00e1 agora depois do lan\u00e7amento comercial, mas, realmente, a minha indigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 aqui. Acho que a sociedade n\u00e3o se mobilizou quanto \u00e0 gravidade do problema. Como falei v\u00e1rias vezes, gostar\u00edamos de salientar que vidas negras importam, mas enquanto se mobilizam nos Estados Unidos, no Brasil n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 a prova de que perde-se qualquer tra\u00e7o de humanidade quando o absurdo vira o comum.<\/strong><br \/>\nSim. Sabemos que a viol\u00eancia policial n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para se reduzir o crime de forma nenhuma. J\u00e1 foi comprovado pelos dados de v\u00e1rias maneiras. Mas continuam a pensar que o Brasil \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o particular e que a viol\u00eancia policial \u00e9 intimamente ligada ao n\u00edvel de viol\u00eancia do crime de uma forma geral. Ent\u00e3o, tem essa dimens\u00e3o trazida pelo filme que o professor Jo\u00e3o Reis aborda na fala dele. \u00c9 algo que j\u00e1 vem da escravid\u00e3o. A classe m\u00e9dia branca, h\u00e1 s\u00e9culos, delegou para a pol\u00edcia a quest\u00e3o de se resolver o crime. Na \u00e9poca da escravid\u00e3o, quando um escravo tentava fugir, o castigo era feito pela guarda, pelos policiais, pelos capit\u00e3es do mato. A classe branca n\u00e3o queria sujar as m\u00e3os ou se envolver com a quest\u00e3o da viol\u00eancia policial. Nessa \u00e9poca, n\u00e3o era pol\u00edcia, mas era o mesmo tipo de atribui\u00e7\u00e3o. Ainda estamos no mesmo esquema. A classe branca n\u00e3o quer se envolver nessa problem\u00e1tica. A classe branca do Brasil n\u00e3o quer se aproximar disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Levando em considera\u00e7\u00e3o as medidas sanit\u00e1rias por conta da pandemia, um n\u00famero reduzido de pessoas nas salas, bem como os cuidados no acesso aos cinemas, como voc\u00ea avalia essa op\u00e7\u00e3o em lan\u00e7ar \u201cSem Descanso\u201d nas salas, ao inv\u00e9s do streaming ou VOD?<\/strong><br \/>\nComo voc\u00ea sabe, tem muitos document\u00e1rios que s\u00e3o lan\u00e7ados diretamente em plataformas on line. Realmente \u00e9 uma maneira mais f\u00e1cil e tamb\u00e9m mais barata de se lan\u00e7ar o filme. Mas, por conta do tema, por conta do contexto, fizemos quest\u00e3o de fazer esse lan\u00e7amento nas salas de cinema. As salas de cinema s\u00e3o o lugar da resist\u00eancia. O lugar do debate. Muito mais do que as redes sociais. Nas redes sociais, geralmente, os debates se esgotam logo. Claro, a gente n\u00e3o sabe qual vai ser o p\u00fablico e a bilheteria. Talvez v\u00e1 ser complicado porque o contexto \u00e9 dif\u00edcil. Mas n\u00e3o importa. Acho que, simbolicamente, se voc\u00ea faz um filme que tenha uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, que tenha uma dimens\u00e3o social, voc\u00ea precisa levar esse filme para as salas de cinema. Porque n\u00e3o h\u00e1 lugar melhor para criar a resist\u00eancia e para debater de uma forma produtiva. Ent\u00e3o, apesar das dificuldades de fazer isso, do fato de que muitas salas ainda est\u00e3o fechadas, n\u00f3s mantivemos esse objetivo. Em princ\u00edpio, vamos lan\u00e7ar o filme em dez cidades, se as salas se confirmarem. A gente tem que reconhecer o papel dos exibidores, apesar do fato de que eu acredito que a sala de cinema \u00e9 um lugar seguro. Muito mais seguro do que ir no supermercado, do que ficar duas horas na fila do banco. As salas de cinema ficaram muito prejudicadas pelo confinamento. Na Fran\u00e7a, est\u00e1 se fazendo uma revolu\u00e7\u00e3o em torno disso, porque n\u00e3o se entende porque voc\u00ea poderia ir ao supermercado, mas n\u00e3o se poderia ir a uma sala de cinema. Os exibidores foram muito corajosos mantendo as salas abertas e se organizando para continuar a estrear filmes com seguran\u00e7a ao seu p\u00fablico. Se a gente n\u00e3o levar filmes para eles, \u00e9 realmente desrespeitar todos os esfor\u00e7os que eles est\u00e3o tendo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-58132\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/semdescanso.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1113\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/semdescanso.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/semdescanso-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 02 de agosto de 2014, Geovane Mascarenhas de Santana, de 22 anos, foi abordado por uma viatura policial em Salvador. 22 dias depois, o corpo do jovem seria sepultado na cidade de Serra Preta, interior do estado. &#8220;Sem Descanso&#8221; acompanha a busca angustiante de Jurandy, pai de Geovane, por seu filho&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/06\/entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":58131,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4816],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58128"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58128"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58128\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58406,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58128\/revisions\/58406"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58131"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}