{"id":58113,"date":"2020-11-04T01:38:47","date_gmt":"2020-11-04T04:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58113"},"modified":"2020-12-09T01:35:41","modified_gmt":"2020-12-09T04:35:41","slug":"entrevista-piero-sbragia-fala-sobre-o-livro-novas-fronteiras-do-documentario-entre-a-factualidade-e-a-ficcionalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/04\/entrevista-piero-sbragia-fala-sobre-o-livro-novas-fronteiras-do-documentario-entre-a-factualidade-e-a-ficcionalidade\/","title":{"rendered":"Entrevista: Piero Sbragia fala sobre o livro \u201cNovas Fronteiras do Document\u00e1rio &#8211; Entre a Factualidade e a Ficcionalidade\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A foto que ilustra essa entrevista para o Scream &amp; Yell, na qual o escritor Piero Sbragia conversa com o documentarista Eduardo Coutinho, foi tirada em outubro de 2013 durante uma tarde de aut\u00f3grafos de um livro que trazia uma colet\u00e2nea de seus textos. A foto, clicada pelo amigo de Piero, Pedro Moreira, traz um Eduardo Coutinho um tanto desfocado. No pref\u00e1cio do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Novas-Fronteiras-Document%C3%A1rio-Factualidade-Ficcionalidade\/dp\/989527498X\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Novas Fronteiras do Document\u00e1rio &#8211; Entre a Factualidade e a Ficcionalidade<\/a>\u201d, que Piero Sbragia lan\u00e7a em 2020, o autor observa que a falta de foco daquele registro \u00e9 &#8220;conotativa e denotativa&#8221;, pois revela &#8220;o nervosismo dos jovens diante do mestre&#8221;. Na conversa com Piero para essa mat\u00e9ria, relembrei uma compara\u00e7\u00e3o semelhante com a capa do \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blonde on Blonde<\/a>\u201d, na qual o escritor falava que a imagem um tanto borrada de Bob Dylan refletia a velocidade na qual ele estava naquele distante 1966. Digo a Piero que enxerguei na imagem borrada de Eduardo Coutinho a mesma velocidade e vis\u00e3o \u00e0 frente do seu pr\u00f3prio tempo, que o colocava em um patamar diferenciado de entendimento da nossa realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu livro, Piero Sbragia analisa diversos aspectos da constru\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, focando n\u00e3o somente em alguns desses aspectos atrelados a Coutinho e sua aten\u00e7\u00e3o a um cinema documental visando a audi\u00e7\u00e3o de suas personagens, mas, tamb\u00e9m, a Cao Guimar\u00e3es, diretor cujos filmes seguem por um norte de introspec\u00e7\u00e3o e observa\u00e7\u00e3o. Piero observa que &#8220;\u00e9 interessante essa conex\u00e3o do Cao com o Coutinho porque, efetivamente, eles fazem filmes muito diferentes. O Coutinho, para mim, sempre foi um cara \u00e0 frente do seu tempo. Ele antecipava tend\u00eancias. Era um cara da vanguarda, no sentido da origem da palavra, do franc\u00eas avant-garde. A pessoa que ia na frente para levar bala. Levava o tiro primeiro, mas conseguia chegar primeiro aos lugares. Coutinho \u00e9 esse cara. O Cao eu vejo mais como algu\u00e9m atento ao zeitgeist, ao tempo. O Cao \u00e9, para mim, o reflexo do momento, da nossa contemporaneidade. E coloco os dois no mesmo patamar&#8221;, pontua o escritor, salientando a ideia de observar a velocidade do primeiro, cuja inesperada met\u00e1fora que encontramos na foto do seu encontro com o documentarista reverbera nesse texto e em quase sete anos ap\u00f3s sua morte brutal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cNovas Fronteiras do Document\u00e1rio &#8211; Entre a Factualidade e a Ficcionalidade\u201d, Sbragia, al\u00e9m de aprofundar o estudo do cinema de document\u00e1rio, algo que surgiu a partir da constru\u00e7\u00e3o de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, traz na vis\u00e3o de 10 documentaristas de diferentes gera\u00e7\u00f5es e abordagens de cinema, um maneira de traduzir um olhar da realidade por vis\u00f5es atentas. Assim, atrav\u00e9s de Amanda Kamanchek, Cristiano Burlan, Eduardo Escorel, Eliza Capai, Geraldo Sarno, Juca Badar\u00f3, Maria Augusta Ramos, Orlando Senna, Paula Trabulsi e Susanna Lira, o autor cria um panorama amplo desse cinema que registra para sua audi\u00eancia nuances profundas do real. Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Piero Sbragia fala sobre o processo de escrita, bem como o desafio de manter-se focado nesse mesmo processo enquanto confinado durante uma pandemia. Confira o papo!<\/p>\n<figure id=\"attachment_58117\" aria-describedby=\"caption-attachment-58117\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-58117 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Coutinho-e-Piero-Foto-Pedro-Carvalho_.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Coutinho-e-Piero-Foto-Pedro-Carvalho_.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Coutinho-e-Piero-Foto-Pedro-Carvalho_-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58117\" class=\"wp-caption-text\"><em>Coutinho e Piero\/ Foto de Pedro Carvalho<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro &#8220;Novas Fronteiras do Document\u00e1rio: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade&#8221; traz um foco bem amplo na an\u00e1lise do processo de constru\u00e7\u00e3o do cinema de document\u00e1rio atrav\u00e9s do olhar de v\u00e1rias pessoas que realizam filmes no Brasil, inclusive nomes aqui da Bahia. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre como se deu esse processo de escolha das fontes?<\/strong><br \/>\nEu tinha muito claro para mim algumas quest\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade dos entrevistados e das entrevistadas. Acho que a diversidade \u00e9 uma palavra que est\u00e1 na moda, a gente fala muito, mas pouco refletimos sobre ela. Eu tinha uma quest\u00e3o bem evidente que era ter a mesma quantidade de homens e de mulheres. Eu n\u00e3o sabia quantas pessoas eu teria. Como eu tive 10 pessoas, foram cinco homens e cinco mulheres. Se fossem 20, seriam 10 e 10. Eu tamb\u00e9m queria, de certa maneira, ter um espectro de viv\u00eancia grande. Eu queria ter pessoas como o <a href=\"http:\/\/www.atarde.uol.com.br\/cinema\/noticias\/2120470-entrevista-cineasta-baiano-geraldo-sarno-lanca-sertania-na-mostra-tiradentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Geraldo Sarno<\/a>, como o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=2401459783452816\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Orlando Senna<\/a> e como o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IZn5TXgHTP4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eduardo Escorel<\/a> que, juntos, t\u00eam 150 anos de cinema. Eu queria ter pessoas como o Juca Badar\u00f3 (diretor do premiado &#8220;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ascoresdaserpentefilme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">As Cores da Serpente<\/a>&#8220;), como a <a href=\"https:\/\/www.caurs.gov.br\/especial-mes-da-mulher-cidades-para-mulheres-com-amanda-kamanchek\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amanda Kamanchek<\/a>, que s\u00f3 t\u00eam um longa metragem no curr\u00edculo, mas que conseguiram realizar nesses longas obras que, de certa maneira, foram revolucion\u00e1rias para mim. E voc\u00ea coloca essa quest\u00e3o da Bahia, de Orlando, de Geraldo, do Juca nessa, porque eu tamb\u00e9m me preocupava muito com essa an\u00e1lise do cinema brasileiro dentro do eixo Rio-SP. E acho que tenho um lugar fala para abordar isso porque sou paulistano. Morei em Salvador, morei no interior de S\u00e3o Paulo, e, a maior parte da minha vida, morei na cidade de S\u00e3o Paulo. Acho que qualquer an\u00e1lise de cinema que n\u00e3o se proponha a sair do eixo Rio-SP \u00e9 uma an\u00e1lise fraca. Porque, hoje, voc\u00ea tem o cinema de Pernambuco muito forte; voc\u00ea tem o cinema do Cear\u00e1 muito forte; voc\u00ea tem aquele n\u00facleo de Contagem, perto de BH, muito forte. Voc\u00ea tem o Cinema da Bahia. S\u00f3 o Cinema da Bahia j\u00e1 se equipara com o Cinema brasileiro como um todo. N\u00e3o preciso nem falar de Glauber Rocha, mas de outros talentos que a gente tem no Cinema da Bahia. Claro que n\u00e3o consigo representar o Brasil inteiro no meu livro. E tamb\u00e9m n\u00e3o era a minha ideia. Mas, por exemplo, eu quis ouvir o <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/diversao\/a-tragedia-das-maes-da-periferia-sob-o-olhar-de-cristiano-burlan,239b6423bb9ebfe7408c928e3bacd806jx27vln8.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cristiano Burlan<\/a>, que \u00e9 uma pessoa que nasceu em Porto Alegre, morou a vida inteira em Uberl\u00e2ndia, e se mudou para S\u00e3o Paulo, indo morar no Cap\u00e3o, na periferia. Apesar dele hoje morar em SP, n\u00e3o o considero dentro do eixo RJ-SP. Eu tenho o Orlando, o Geraldo e o Juca, que s\u00e3o baianos. De certa maneira, tentei fugir um pouco dessa an\u00e1lise limitada de que o Cinema no Brasil parece que s\u00f3 foi feito no Rio ou em S\u00e3o Paulo. Acho muito importante e saud\u00e1vel em qualquer discuss\u00e3o de cinema que a gente tenha, seja em um livro, um debate ou em uma live, pensarmos o cinema como algo produzido no Brasil inteiro. Temos muitos jovens talentos ind\u00edgenas de Manaus, de Roraima, do Acre, que est\u00e3o produzindo filmes, curtas, longas. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 chegando, que est\u00e1 a\u00ed em festivais. A <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qDY892nQwW8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Larissa Ye&#8217;padiho Duarte<\/a>, uma cineasta do povo Tucano que tem feito cinema. \u00c9 uma profissional que teve acesso, que aprendeu a fazer cinema e est\u00e1 produzindo coisas muito bacanas. Ent\u00e3o, acho importante a gente discutir o cinema considerando que o Brasil n\u00e3o se resume apenas a Rio e a SP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo nas primeiras p\u00e1ginas do seu livro, voc\u00ea fala sobre seu encontro com Eduardo Coutinho, em 2013, poucos meses antes do documentarista ser assassinado. Na sua descri\u00e7\u00e3o daquele momento, quando voc\u00ea pede ao Coutinho dicas acerca da labuta do document\u00e1rio, eu percebi o surgir da fagulha, uma g\u00eanese daquele seu inicio no campo do document\u00e1rio. O Coutinho te respondeu dizendo que a melhor dica \u00e9 n\u00e3o ter nenhuma. Como aquele conselho do Coutinho chegou a voc\u00ea em termos de reflex\u00e3o?<\/strong><br \/>\nGostei dessa sua reflex\u00e3o considerando aquela como a g\u00eanese de algo dentro de mim. Curioso. Eu talvez nunca tenha parado para pensar nesse sentido. Aquele encontro foi muito simb\u00f3lico. Tem um aspecto em rela\u00e7\u00e3o aquilo e que n\u00e3o mencionei no livro. At\u00e9 pensei, mas n\u00e3o mencionei. O Coutinho autografou o livro e escreveu: &#8220;Para Piero, de Stephen Rose&#8221;. E durante muito tempo fiquei com isso na cabe\u00e7a. Cheguei a perguntar na \u00e9poca ao Escorel. Perguntei a ele porque o Coutinho escreveu Stephen Rose. O Escorel rachava o bico. Pediu na \u00e9poca para eu tirar uma foto e mandar. Ele publicou a foto do livro com o autografo do Coutinho\/Stephen Rose <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/eduardo-coutinho-na-mostra-dois-instantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">na coluna dele<\/a>. Depois de muito tempo, lendo o bel\u00edssimo livro do Carlos Alberto Mattos, \u201c<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/01\/28\/sete-faces-de-eduardo-coutinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">As Sete Faces de Eduardo Coutinho<\/a>\u201d, eu descubro que o Coutinho fazia isso com frequ\u00eancia. Achei que havia sido algo exclusivo para mim, mas parece que n\u00e3o foi (risos). Todo autografo que o Coutinho deu em vida, me parece que ele adotou essa alcunha de Stephen Rose. Essa coisa do Stephen Rose aliado com a &#8220;dica da n\u00e3o dica&#8221;, que conto no livro, ou seja da subvers\u00e3o das dicas, por si s\u00f3 constitui um pilar bem interessante daquilo que precisamos refletir hoje em dia. Primeiro que acho que o fato dele usar o Stephen Rose no lugar do nome dele \u00e9 justamente aquilo que muito me interessa e aquilo que discuto no livro: a quest\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o dentro do document\u00e1rio. A partir do momento que ele, que \u00e9 o maior documentarista brasileiro, sem discuss\u00e3o, sem d\u00favida alguma \u2013 geralmente, as unanimidades s\u00e3o burras, como diria Nelson Rodrigues, mas acho que, nesse caso, ela n\u00e3o \u00e9 burra \u2013 em um autografo num livro, adota um pseud\u00f4nimo ficcional, o que isso significa? O que isso representa? A leitura que fa\u00e7o \u00e9 como se ele estivesse falando para mim: &#8220;Olha, n\u00e3o me mitifique. N\u00e3o crie um mito sobre a minha pessoa&#8221;. Glauber Rocha falava muito isso. E acho que quando o Coutinho assina como Stephen Rose, em outras palavras ele est\u00e1 falando assim: &#8220;cuidado com os mitos&#8221;. E quando falo &#8220;cuidado com os mitos&#8221;, fazendo essa ponte de 2013 para 2020, \u00e9 claro que tamb\u00e9m estou falando de Jair Bolsonaro. \u00c9 claro que tamb\u00e9m estou falando de v\u00e1rias pessoas e de v\u00e1rios pol\u00edticos que se elegem na sombra de um mito que \u00e9 constru\u00eddo sobre eles. O Brasil me parece muito dependente de her\u00f3is. Geraldo Sarno fala muito isso e, inclusive, no meu livro, ele fala isso, tamb\u00e9m. A gente considera, por exemplo, o Ayrton Senna um her\u00f3i. A gente considera Bolsonaro um her\u00f3i. Quando eu digo a gente, obviamente, n\u00e3o me refiro a mim. O Lula um her\u00f3i. Se voc\u00ea for ver, quantos her\u00f3is o Brasil tem? Seria o Brasil uma na\u00e7\u00e3o com esse carma? O Brasil s\u00f3 produz her\u00f3is? Porque \u00e9 impressionante a quantidade de her\u00f3is que a gente produz. E eu prefiro ir na contram\u00e3o disso. Porque, por exemplo, o her\u00f3i, na F\u00f3rmula 1, \u00e9 o Lewis Hamilton, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/sport\/formula1\/54478983\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que \u00e9 um cara ativista<\/a> em um mundo no qual ser ativista \u00e9 pior do que ser assassino. As pessoas consideram o ativismo como se fosse algo&#8230; (pausa) O ativista parece estar matando algu\u00e9m! As pessoas dizem que fulano \u00e9 ativista como se aquilo fosse a pior coisa do mundo. Ent\u00e3o, her\u00f3i, para mim, \u00e9 o Lewis Hamilton. O Ayrton Senna, para mim, n\u00e3o est\u00e1 nem no chinelo do Hamilton. Mas a gente, aqui no Brasil, mitificou o Senna. Ele virou uma pessoa intoc\u00e1vel. O Guga, no t\u00eanis, \u00e9 a mesma coisa. O Pel\u00e9, no futebol, a mesma coisa. Acho que isso \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o muito importante que o Coutinho trouxe para mim nesse aut\u00f3grafo em que ele assina como Stephen Rose. Para mim, ali, ele est\u00e1 falando para a gente n\u00e3o mitific\u00e1-lo. E n\u00e3o mitificar qualquer pessoa. Para passarmos a entender o ser humano como algu\u00e9m complexo, como algu\u00e9m contradit\u00f3rio. N\u00f3s somos contradit\u00f3rios. Eu, voc\u00ea, o Coutinho, o Glauber, o Senna. Todo mundo. E a segunda quest\u00e3o que acho que realmente foi uma fa\u00edsca que o Coutinho colocou em mim, ou como o Geraldo (Sarno) brinca, &#8220;foi uma brasa que o Coutinho espalhou&#8221;, foi quando ele disse que n\u00e3o iria oficializar a dica. Que ele n\u00e3o ia transformar o conselho como algo oficial. E lembrando que a gente vive na terra de Augusto Cury, que lan\u00e7a livros sobre &#8220;dez maneiras de acabar com a corrup\u00e7\u00e3o&#8221;; &#8220;dez maneiras de trazer seu amor de volta&#8221;; &#8220;dez maneiras de ganhar dinheiro e ser feliz&#8221;. Ent\u00e3o, o Brasil me parece, tamb\u00e9m, gostar de pegar esses atalhos das dicas dos gurus de auto-ajuda. Hoje, temos gurus no mercado financeiro, gurus na Cultura, gurus no Esporte. Em tudo quanto \u00e9 lugar. Todo mundo tem dicas para tudo, todo mundo sabe o segredo para tudo. E pergunto: porque estamos no fundo do po\u00e7o? Se todo mundo tem a resposta para tudo? Se o Augusto Cury foi bestseller, livro mais vendido no Brasil, dez dicas para acabar com a corrup\u00e7\u00e3o (N.E. \u201cO M\u00e9dico da Humanidade e A Cura para a Corrup\u00e7\u00e3o\u201d), como \u00e9 que o Brasil continua sendo um pa\u00eds prop\u00edcio aos corruptos? Acho que isso, tamb\u00e9m, \u00e9 muito importante. O Coutinho refutava essa ideia de pensador. Ele n\u00e3o gostava de se colocar como pensador de nada no Brasil. Mas acho que ele foi, sim, um dos grandes pensadores contempor\u00e2neos brasileiros. Principalmente pelo o que ele n\u00e3o diz. Essas duas quest\u00f5es que tenho com ele nesse breve e \u00fanico encontro que tivemos, dizem muito sobre esse hiato de 2013 para 2020. De que talvez, hoje, \u00e9 o momento da gente falar menos e ouvir mais. Isso foi o que ele fez nos filmes dele. O Coutinho \u00e9 o cara da escuta. O Coutinho \u00e9 o cara do afeto. Ele n\u00e3o \u00e9 o cara da garganta. Ele n\u00e3o \u00e9 o cara do discurso. O Coutinho \u00e9 o cara que vai ouvir. O Coutinho \u00e9 um cara que a pessoa vai falar uma coisa para ele, e ele ia falar: &#8220;Putaquepariu, \u00e9 isso mesmo. Que merda, n\u00e9? Voc\u00ea tem raz\u00e3o&#8221;. E ia acender o cigarrinho dele. Acho que isso \u00e9 importante. Vivemos hoje em uma sociedade que berra. As pessoas berram nas redes. As pessoas gritam nas janelas. As pessoas batem panelas. As pessoas fazem buzina\u00e7o. Todo mundo grita e o que de fato est\u00e1 acontecendo? Nada! Que tipo de mudan\u00e7a essa gritaria toda traz para o Brasil? Nenhuma. Ent\u00e3o, gritar n\u00e3o \u00e9 o caminho. Talvez o caminho seja ouvir. Que \u00e9 o que o Coutinho fez nos filmes dele. O Coutinho sempre foi um bom ouvinte. Sinto essa necessidade da gente ouvir mais nesse Brasil em que as pessoas gritam muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No nortear das ideias que voc\u00ea reuniu durante a escrita, durante o planejamento das entrevistas, norteando o tema da constru\u00e7\u00e3o dos document\u00e1rios e apresentando-o \u00e0s fontes com quem voc\u00ea conversou, houve dificuldades no processo de esquematiza\u00e7\u00e3o das ideias? Como voc\u00ea conseguiu criar essa estrutura? Pergunto por conta da grande quantidade de informa\u00e7\u00f5es que o livro traz, diversas fontes e propostas de an\u00e1lises norteando (olha a palavras a\u00ed de novo) o estudo do document\u00e1rio.<\/strong><br \/>\nS\u00f3 fazer um pequeno introito aqui na resposta, eu gosto do &#8220;norteado&#8221;, tamb\u00e9m. No caso espec\u00edfico do Brasil, o Norte e o Nordeste s\u00e3o esquecidos. H\u00e1 um, digamos, projeto de esquecimento, de apagamento do Norte e do Nordeste. Adoro usar esse termo, tamb\u00e9m. No nosso caso, aqui, acho que a ideia \u00e9 essa. Temos que virar as costas para o Sul, para o Sudeste, e come\u00e7ar a olhar mais para os lados do Brasil que tentam esconder da gente. Ent\u00e3o, feito esse pequeno introito sobre o norteado, cara, eu n\u00e3o sei te dizer assim como eu consegui. Eu sabia como eu ia come\u00e7ar o livro. Sempre soube. O livro parte da minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. E eu nunca soube como eu ia terminar. O fato de eu ter terminado o livro j\u00e1 durante a pandemia revela que o livro, na verdade, para mim, est\u00e1 em aberto. Algumas pessoas at\u00e9 falaram que eu precisava lan\u00e7ar o volume dois. Falei que n\u00e3o. A \u00faltima entrevista que fiz foi com o Cristiano Burlan, uma semana antes da quarentena ser oficializada na cidade de S\u00e3o Paulo. Fiz a entrevista com ele j\u00e1 em mar\u00e7o. Escrevi boa parte da introdu\u00e7\u00e3o em abril, e escrevi as considera\u00e7\u00f5es finais em maio. Meu livro foi finalizado j\u00e1 em quarentena, j\u00e1 em distanciamento social comigo dentro de casa literalmente olhando pela janela. E da minha janela, aqui em S\u00e3o Paulo, eu s\u00f3 vejo cinza. Eu s\u00f3 vejo pr\u00e9dio. Eu moro perto do aeroporto de Congonhas, vejo muito avi\u00e3o. Eu n\u00e3o vejo pessoas da minha janela. \u00c9 curioso isso. As pessoas da minha janela s\u00e3o muito pequenas. Porque moro no 17\u00ba andar, ent\u00e3o elas t\u00eam os mesmo tamanho dos carros. Para minha vis\u00e3o da minha janela, \u00e9 uma coisa muito distante. E isso me impactava muito quando eu tentava buscar uma inspira\u00e7\u00e3o, quando eu travava em algum momento do texto. Porque eu quis fazer com que o livro fosse uma conversa de boteco. Eu quis fazer com o texto do livro algo pr\u00f3ximo de quem estivesse lendo. E, porra, como \u00e9 que eu vou estar pr\u00f3ximo das pessoas se eu, fisicamente, estou distante nesse momento? Acho que essa contradi\u00e7\u00e3o, enquanto eu finalizava a escrita do livro, foi muito importante para encontrar esse caminho que voc\u00ea falou. Porque n\u00e3o pensei assim. Isso n\u00e3o foi uma coisa que eu, na \u00e9poca, pensei. At\u00e9 porque eu n\u00e3o sabia onde livro ia acabar. O que, alias, eu acho que deve ser o terror de qualquer escritor. De n\u00e3o saber como o livro vai acabar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aquela coisa do escritor n\u00e3o terminar, mas, sim, abandonar o livro.<\/strong><br \/>\nExato. Eu acho que essa coisa do distanciamento naquela \u00e9poca mexeu muito comigo. Eu vivi boa parte da quarentena no 17\u00ba andar de um pr\u00e9dio em S\u00e3o Paulo e, cara, isso \u00e9 cruel. Eu queria passar a quarentena em Len\u00e7\u00f3is, na Chapada Diamantina. L\u00e1 em Itapoan, l\u00e1 perto do farol, em Salvador. Eu queria passar a quarentena em um lugar bonito. Mas, n\u00e3o. Eu estava aqui vendo s\u00f3 cinza da minha janela, polui\u00e7\u00e3o. E tendo que finalizar um livro. Acho que isso mexeu muito comigo no sentido de que passei a enxergar essa coisa das rela\u00e7\u00f5es humanas como algo muito importante. E a\u00ed o Coutinho e o Cao (Guimar\u00e3es), tamb\u00e9m, s\u00e3o muito valorosos nesse sentido. \u201c<a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com\/2014\/08\/o-homem-das-multidoes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Homem das Multid\u00f5es<\/a>\u201d \u00e9 sobre isso: sobre o isolamento. E olha que o filme \u00e9 de 2013. E o texto original de 200 anos atr\u00e1s, do Edgar Allan Poe. \u201cO Homem das Multid\u00f5es\u201d fala do distanciamento social em uma \u00e9poca que n\u00e3o havia quarentena, n\u00e3o havia pandemia do novo corona v\u00edrus. Quem \u00e9 o homem das multid\u00f5es? \u00c9 uma pessoa que n\u00e3o se identifica com o outro. Que n\u00e3o consegue uma conex\u00e3o humana com as pessoas. E acho que isso traz uma reflex\u00e3o crucial que \u00e9 a seguinte: a gente est\u00e1 se distanciando das pessoas. Eu estou me distanciando de amigos, de parentes. Imagino que voc\u00ea tamb\u00e9m. Imagino que o seu colega de trabalho, tamb\u00e9m. Imagino que o seu vizinho, tamb\u00e9m. Que o meu vizinho, tamb\u00e9m. N\u00f3s todos estamos nos distanciando das pessoas. E acho que agora, talvez, seja o momento de nos aproximarmos das pessoas. E claro que aproxima\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e o afeto. E a\u00ed volto de novo naquela dica do Coutinho. Da mesma maneira que ele n\u00e3o vai oficializar a dica, eu tamb\u00e9m n\u00e3o vou oficializar a hipocrisia de dizer que a gente tem que ter empatia com todo mundo, que a gente tem que pensar positivo na vida, que a gente tem que orar e pedir a Deus. N\u00e3o temos que fazer nada disso. Temos que fazer com que as nossas rela\u00e7\u00f5es humanas se pautem pelo afeto. Ent\u00e3o, n\u00e3o sofro mais por quem me distanciei. Mas comemoro pelas pessoas de quem me aproximei nesse ano. Acho que a gente tem que valorizar isso. Tenho afeto por quem? Quem me faz bem? Isso \u00e9 positivo. \u00c9 o sentido real da empatia. E isso para um document\u00e1rio \u00e9 fundamental. Porque eu estou contando a hist\u00f3ria de algu\u00e9m. E o Coutinho fazia isso muito bem. O Coutinho falava: &#8220;eu n\u00e3o estou ali para julgar as pessoas. Eu n\u00e3o estou ali para questionar se ela est\u00e1 falando a verdade, se ela est\u00e1 falando a mentira. Se ela \u00e9 de direita ou de esquerda. Se ela \u00e9 rica ou pobre&#8221;. O Coutinho n\u00e3o estava preocupado com isso. Ele estava preocupado em estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o intima. Havia uma met\u00e1fora que ele fazia de uma rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o no sentido de que ele assediava as pessoas. Pelo contr\u00e1rio. Mas ele comparava a entrevista como se fosse uma rela\u00e7\u00e3o sexual entre duas pessoas. Porque voc\u00ea tem ali uma atra\u00e7\u00e3o. Tem ali um desnudamento, no sentido de que aquela pessoa precisa estar despida o m\u00e1ximo poss\u00edvel de m\u00e1scaras que ela tem, para voc\u00ea conseguir extrair dela alguma coisa. E o Coutinho fazia isso muito bem. Ent\u00e3o, acho que essa coisa do Coutinho saber se conectar com as pessoas faz muita falta para o Brasil, hoje, em 2020. Acho que a gente tinha que come\u00e7ar a se conectar com as pessoas. A gente se desconectou de muita gente. E acho v\u00e1lida a desconex\u00e3o de pessoas t\u00f3xicas, de pessoas que professam uma ignor\u00e2ncia ativa. Fa\u00e7o quest\u00e3o, por exemplo, de me desconectar de um terraplanista. N\u00e3o quero ter o menor v\u00ednculo afetivo, emocional, nenhum, com um terraplanista. Nem perco tempo debatendo. Mas quero, sim, ter conex\u00f5es com pessoas. Eu quero voltar a ter afeto com os brasileiros e brasileiras. Acho que isso \u00e9 importante. Esse \u00e9 o momento. Eu vejo agora esse fim de 2020 como esse momento de reconex\u00e3o. E o Coutinho, para mim, era uma pessoa que fazia isso muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu livro traz uma conex\u00e3o importante entre dois cineastas de \u00e9pocas distintas, de abordagens diferentes dentro do cinema do document\u00e1rio: o Eduardo Coutinho e o Cao Guimar\u00e3es, este com um foco de destaque na obra. Como foi encontrar esse paralelo entre ambos?<\/strong><br \/>\n\u00c9 interessante essa conex\u00e3o do Cao com o Coutinho porque, efetivamente, eles fazem filmes muito diferentes. Acho que o Coutinho, para mim, sempre foi um cara \u00e0 frente do seu tempo. O Coutinho antecipava tend\u00eancias. Era um cara da vanguarda, no sentido da origem da palavra, do franc\u00eas avant-garde. A pessoa que ia na frente para levar bala. Levava o tipo primeiro, mas conseguia chegar primeiro aos lugares. Coutinho \u00e9 esse cara. O Cao eu vejo mais como algu\u00e9m atento ao zeitdgeist, ao tempo. O Cao \u00e9, para mim, o reflexo do momento, da nossa contemporaneidade. E eu coloco os dois no mesmo patamar. Cao est\u00e1 entre os maiores documentaristas brasileiros, e ainda que ele fa\u00e7a filmes bem diferentes do que o Coutinho fazia, eu sinto que h\u00e1 neles uma sensibilidade muito grande de tentar entender o que est\u00e1 acontecendo na nossa frente. O Cao tem um document\u00e1rio bem interessante, um curta chamado \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UFxK3431I_E\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Da Janela do Meu Quarto<\/a>\u201d. Ele gravou da janela da casa dele, em BH. Nele, ele mostra duas jovens, duas crian\u00e7as brigando na rua. E eu acho que esse filme fala muito do Cao como artista. Porque ele \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 preocupado com aquilo que est\u00e1 da janela para fora. E n\u00e3o com aquilo que est\u00e1 da janela para dentro. Tanto o Cao quanto o Coutinho n\u00e3o est\u00e3o preocupados com o pr\u00f3prio umbigo. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, por exemplo, se voc\u00ea entrar no Instagram do Cao Guimar\u00e3es, voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar nenhuma selfie dele. Nenhuma. O Coutinho n\u00e3o era um cada de redes sociais, mas, se fosse, imagino que tamb\u00e9m n\u00e3o encontrar\u00edamos uma selfie do Coutinho. Enquanto que eu vejo, \u00e0s vezes, alguns colegas de profiss\u00e3o, alguns jornalistas, voc\u00ea entra no perfil da rede social do cara, e s\u00f3 tem selfie. Tem jornalista que faz selfie em vel\u00f3rio. O vel\u00f3rio do Gugu aqui, em S\u00e3o Paulo, teve um monte de jornalista fazendo selfie ao lado do caix\u00e3o do Gugu. Isso, para mim, revela, para n\u00e3o dizer outra coisa, a podrid\u00e3o da alma humana. O que o Cao traz de mais belo nos filmes dele? \u00c9 justamente esse olhar para fora da janela. E olhar para fora da janela n\u00e3o \u00e9 algo s\u00f3 literal. N\u00e3o \u00e9 olhar para fora da janela apenas. \u00c9 olhar para (enf\u00e1tico) fora da janela. Da minha janela. Essa coisa de que o documentarista contempor\u00e2neo precisa ter uma sensibilidade diferenciada \u00e9 muito importante. Porque, se n\u00e3o, ele n\u00e3o vai captar o zeitgeist. Ele n\u00e3o vai captar o momento que a gente est\u00e1 vivendo. Ent\u00e3o, quando a gente pega, por exemplo, o \u201cDemocracia em Vertigem\u201d, que \u00e9 o filme da Petra Costa que foi indicado ao Oscar de Melhor Document\u00e1rio. Um monte de gente criticou. Eu tenho minhas ressalvas a esse filme. Eu acho que o \u201cElena\u201d \u00e9 muito melhor que o \u201cDemocracia em Vertigem\u201d. Mas, p\u00f4, a Petra fala no in\u00edcio do filme quem ela \u00e9, de onde ela veio, o que ela pensa. E a\u00ed teve gente que veio falar: &#8220;Ah, mas ela \u00e9 petista&#8221;. Mas ela falou que era de esquerda! Falou que se identificou com o PT durante muito tempo. Ela teve uma honestidade no filme dela que poucos cineastas t\u00eam. E ela nem era obrigada a isso. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a explicar: &#8220;Olha, antes de come\u00e7ar o meu filme, eu preciso dizer quem eu sou, de onde eu vim, onde eu morei, em quem eu votei&#8221;. Mas ela fez isso no \u201cDemocracia em Vertigem\u201d. Voc\u00ea pode n\u00e3o gostar do filme dela. Mas voc\u00ea n\u00e3o pode dizer que ela foi desleal com voc\u00ea. Por que? Porque ela diz no come\u00e7o do filme. Ela diz de onde vem, o que pensa, o que n\u00e3o pensa, quem \u00e9 a fam\u00edlia dela, e tudo mais. Essa coisa da sensibilidade \u00e9 muito importante. N\u00f3s estamos nesse momento de filmes cada vez mais subjetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A subjetividade \u00e9 algo que tem se destacado de maneira importante nos document\u00e1rios recentes.<\/strong><br \/>\nSim. Tem um filme no (Festival) \u00c9 Tudo Verdade que ganhou men\u00e7\u00e3o honrosa, chamado \u201c<a href=\"http:\/\/etudoverdade.com.br\/br\/filme\/47239-Fico-te-Devendo-uma-Carta-sobre-o-Brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fico te Devendo uma Carta Sobre o Brasil<\/a>\u201d. \u00c9 um filme que \u00e9 uma experi\u00eancia pessoal da diretora, a Carol Benjamin, com o pai dela. O filme \u00e9 sobre o pai dela, o C\u00e9sar Benjamin, que \u00e9 uma pessoa que ficou presa pela ditadura entre os 15 e os 18 anos. Imagine um adolescente de 15 anos sendo preso pela ditadura militar, sendo torturado, dos 15 aos 18 anos. Ele passou o fim da adolesc\u00eancia dele, basicamente, sendo torturado nos por\u00f5es da ditadura no Brasil. E ela resolve fazer um filme sobre a vida dela. Porque o pai, quando sai da cadeia, evidentemente n\u00e3o \u00e9 mais a mesma pessoa. Ele n\u00e3o fala muito com ela sobre isso. O relacionamento do pai com a pr\u00f3pria m\u00e3e, av\u00f3 da Carol, mudou. E a\u00ed \u00e9 interessante porque ela est\u00e1 falando dela. Ela narra o filme na primeira pessoa. Mas sua subjetividade faz com que n\u00f3s enxerguemos no filme dela uma grande met\u00e1fora do Brasil. Ali, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Carol falando do C\u00e9sar, pai dela. Ali sou eu falando dos meus amigos e dos meus parentes que dizem &#8220;que preferiam viver na ditadura militar&#8221;. &#8220;Que na \u00e9poca n\u00e3o tinha criminalidade&#8221;. &#8220;Que na \u00e9poca da ditadura a vida era melhor&#8221;. Ent\u00e3o, quando eu vejo o filme da Carol, que \u00e9 um filme dela contando a hist\u00f3ria dela com o pai, e do pai com a av\u00f3, e do pai com a ditadura, na verdade a Carol est\u00e1 fazendo um filme sobre esse Brasil bolsonarista de 2020, em que as pessoas negam a realidade. Em que as pessoas t\u00eam uma certa &#8220;nostalgia&#8221; de algo que n\u00e3o existiu. Porque a vida n\u00e3o era boa durante a ditadura. Do ponto de vista econ\u00f4mico, o Brasil entrou numa das piores recess\u00f5es da hist\u00f3ria. Acho que s\u00f3 foi pior na \u00e9poca do Brasil Col\u00f4nia, na \u00e9poca em que Portugal mandava em tudo aqui. E, claro, voc\u00ea n\u00e3o tinha not\u00edcia de crime por tinha censura nos jornais. Uma pessoa falou pra mim: &#8220;Ah, mas eu n\u00e3o lia nos jornais not\u00edcias de crime&#8221;. Claro! Voc\u00ea lia not\u00edcia de receita de bolo, porque tinha censura. N\u00e3o \u00e9 porque o crime n\u00e3o existia. \u00c9 porque o crime n\u00e3o era noticiado. Ent\u00e3o, essa quest\u00e3o da subjetividade \u00e9 muito importante para a gente entender como nos relacionamos com o mundo. Considerando que as vacinas v\u00e3o chegar, considerando que a pandemia vai acabar, e considerando que vamos ter que sair do distanciamento social, eu acho que n\u00e3o vamos mais poder continuar vivendo nesse mundinho de condom\u00ednio fechado, de bolha. &#8220;Ah, estou vivendo na minha bolha&#8221;. Desculpa, mas se a gente continuar vivendo em uma bolha, vamos voltar para a cavernas. Porque o ser humano \u00e9 um ser coletivo. Ele tem que viver em sociedade. Queira voc\u00ea ou n\u00e3o. Mas a\u00ed voc\u00ea pergunta para mim: &#8220;\u00c9 legal viver em sociedade?&#8221; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, cara. Eu acho que tem muitas quest\u00f5es delicadas, hoje. Mas a gente precisa. Temos que nos relacionar. N\u00e3o tem como a gente fugir disso. A n\u00e3o ser que voc\u00ea queira ir para a caverna. A\u00ed o Cao tem um filme magn\u00edfico. Um document\u00e1rio chamado a \u201cA Alma do Osso\u201d, que mostra um ermit\u00e3o que vivia em uma caverna em Minas Gerais. Ent\u00e3o, se a galera quiser continuar vivendo na sua pr\u00f3pria bolha, vivendo nos condom\u00ednios fechados da vida, eu sugiro que assista esse document\u00e1rio do Cao Guimar\u00e3es. Quem sabe essas pessoas n\u00e3o se inspiram, saiam dos condom\u00ednios fechados e v\u00e3o para as cavernas? Eu n\u00e3o quero isso para meu futuro, e acho que o Brasil n\u00e3o pode seguir por esse caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu livro, voc\u00ea aborda a ideia dos elementos de fic\u00e7\u00e3o dentro do document\u00e1rio. Poderia falar um pouco acerca desse tipo inser\u00e7\u00e3o dentro de uma proposta de abordagem da realidade?<\/strong><br \/>\nNo livro, eu defendo a ideia de que qualquer elemento de fic\u00e7\u00e3o (e a dramatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos elementos) deve fazer parte do document\u00e1rio. A Maria Augusta Ramos faz isso em \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GoOcpDhfJRs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ju\u00edzo<\/a>\u201d, quando ela chama meninos das comunidades do Rio para representar os menores infratores, que, pela lei, pelo estatuto da crian\u00e7a e do adolescente, n\u00e3o podem aparecer em frente \u00e0s c\u00e2meras. Ent\u00e3o, ela contrata aqueles atores &#8220;n\u00e3o profissionais&#8221;, porque eles n\u00e3o viviam como atores. O \u201cJu\u00edzo\u201d, por isso, \u00e9 menos document\u00e1rio? N\u00e3o acho que seja. Acho que h\u00e1 muitos document\u00e1rios que trabalham em cima da reencena\u00e7\u00e3o. A <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/05\/23\/cinema-varda-por-agnes-de-agnes-varda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Agn\u00e8s Varda<\/a> era uma pessoa que fazia muito esses document\u00e1rios perform\u00e1ticos. \u201cAs Praias de Agn\u00e8s\u201d, um bel\u00edssimo document\u00e1rio em que ela conta a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, \u00e9 estruturado, montado a partir de performances. H\u00e1, claro, duas discuss\u00f5es \u00e9ticas por tr\u00e1s da performance no document\u00e1rio. A primeira \u00e9 que voc\u00ea precisa deixar claro no filme de que aquilo \u00e9 uma performance. De alguma maneira. Por exemplo, no caso do \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/live\/?v=1131841376895641&amp;ref=watch_permalink\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jogo de Cena<\/a>\u201d, do Coutinho, ele deixa isso claro. N\u00e3o didaticamente, pois se voc\u00ea n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o direito, voc\u00ea vai passar batido. Tem gente que n\u00e3o percebe as atrizes no filme. Mas, enfim, voc\u00ea tem que deixar claro para o espectador que aquilo \u00e9 uma performance. E voc\u00ea tem que considerar eticamente se aquela sua provoca\u00e7\u00e3o em cima da realidade \u00e9 eticamente aceit\u00e1vel. Um exemplo que o Caco Barcelos me deu quando fui estagi\u00e1rio na Globo. Ele chegou para mim e falou: &#8220;Olha, por favor, se um dia voc\u00ea estiver saindo aqui da Globo, avistar uma velhinha, e ver um \u00f4nibus se aproximando dela, n\u00e3o pegue uma c\u00e2mera e ligue, esperando o \u00f4nibus atropel\u00e1-la e voc\u00ea ter aquele registro. N\u00e3o fa\u00e7a isso, por favor. Por favor, grite. V\u00e1 correndo. Tente salvar aquela velhinha do atropelamento&#8221;. Essa \u00e9 uma reflex\u00e3o \u00e9tica importante que o Caco Barcelos trouxe para mim e que at\u00e9 hoje eu a guardo. Porque, assim, a performance que vou criar, a provoca\u00e7\u00e3o que vou fazer, eu vou alterar a realidade pelo menos naquele momento em que estivermos gravando. Isso \u00e9 eticamente aceit\u00e1vel? Eu vou deixar uma velhinha ser atropelada por um \u00f4nibus para fazer um filme? N\u00e3o, n\u00e3o vou. Ent\u00e3o, acho que precisamos fazer essa reflex\u00e3o. Acho que a performance \u00e9 bem vinda. Ela \u00e9 muito bem vinda. Tem hist\u00f3rias, tem narrativas que vamos contar, que voc\u00ea n\u00e3o tem material de arquivo. Voc\u00ea n\u00e3o tem depoimentos da \u00e9poca. Mas voc\u00ea precisa contar aquela hist\u00f3ria. O que voc\u00ea faz? Ou voc\u00ea faz uma anima\u00e7\u00e3o, igual aquele \u201cValsa com Bashir\u201d, um document\u00e1rio feito a partir de anima\u00e7\u00e3o, ou voc\u00ea faz uma performance. N\u00e3o devemos ter preconceito com a performance em rela\u00e7\u00e3o ao fato dela, supostamente, diminuir o document\u00e1rio. Mas acho que precisamos ter essas duas reflex\u00f5es \u00e9ticas antes de adotar uma performance.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Novas Fronteiras do Document\u00e1rio: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade&quot;, de Piero Sbragia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D-i6jzZheOI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entrevistando diversos nomes de gera\u00e7\u00f5es distintas para o seu livro, voc\u00ea teve dificuldades no desenvolvimento das conversas, no adentrar na personalidade de cada fonte?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o considero dificuldade. A entrevista \u00e9 um momento tenso para o jornalista. Eu, talvez, sempre fico mais tenso do que as pessoas que estou entrevistando. Mas acho que cada entrevista no livro teve sua particularidade. No caso, por exemplo, do Geraldo Sarno, eu mesmo brinco ali que ele \u00e9 um cara indom\u00e1vel. Independente do que eu for perguntar, ele vai responder o que ele quiser. E isso \u00e9 uma coisa interessante, porque s\u00f3 quem faz isso \u00e9 pol\u00edtico. Entrevistei o Maluf algumas vezes aqui, numa \u00e9poca em que ele tinha um certo status pol\u00edtico em S\u00e3o Paulo. Eu fazia a primeira pergunta e ele vinha me abra\u00e7ar, perguntava como estava minha m\u00e3e, meu pai, me servia um caf\u00e9. Uma vez ele me deu uma bala. Ele fazia o que ele queria, respondia o que queria. E o Geraldo \u00e9 meio um cara indom\u00e1vel nesse sentido. Mas em momento nenhum eu quis colocar o Geraldo Sarno numa r\u00e9dea. Eu tinha um roteiro de perguntas pr\u00e9 escrito para todos os entrevistados e entrevistadas. Mas o caso do Geraldo fugiu um pouco do roteiro. E n\u00e3o vejo nisso um problema. \u00c9 igual a curva de um rio caudaloso. Ele vai para direita, para a esquerda, sobe, desce, tem uma queda d&#8217;\u00e1gua, um riachinho, depois volta a ter volume. Faz parte da vida. No caso da Maria Augusta Ramos, ela j\u00e1 estava na Holanda. Ela mora entre a Holanda e o Rio. Eu a entrevistei via skype, em uma \u00e9poca que eu nem conhecia o que era Zoom. Se fosse hoje, seria pelo Zoom, ou pelo google meets, que tem uma qualidade melhor. Mas a entrevista que eu fiz com ela deu quase tr\u00eas horas. Muito longa e bem interessante. Mas para colocar no livro foi dif\u00edcil porque eu n\u00e3o quis cortar as entrevistas. Eu quis coloc\u00e1-las na integra. Fiz poucos ajustes gramaticais. E no caso dela, ela pediu para ver a vers\u00e3o transcrita e deu uma sintetizada. Achei at\u00e9 v\u00e1lido, porque a entrevista tinha ficado muito maior que as outras. As outras tiveram, em m\u00e9dia, 40, 50 minutos. A dela teve duas horas e meia. Foi bom ela ter dado essa sintetizada porque, sen\u00e3o, ficaria realmente muito grande. Mas acho que todas as entrevistas t\u00eam seus desafios. O Cristiano Burlan, por exemplo, estava com um pouco de pressa, pois estava trabalhando na finaliza\u00e7\u00e3o do seu \u00faltimo filme, que ele gravou com a Marc\u00e9lia Cartaxo, chamado \u201cA M\u00e3e\u201d. Ent\u00e3o, ele parou a montagem para me encontrar em um caf\u00e9 ali na Paulista, em S\u00e3o Paulo. E ele \u00e9 aquele jeit\u00e3o, dando sempre respostas curtas. O Burlan \u00e9 o extremo oposto do Geraldo Sarno. O que o Geraldo fala em 20 minutos, o Cristiano fala em 20 segundos. Mas ele \u00e9 assim. Ent\u00e3o, eu tinha que ter essa sensibilidade de perceber que cada pessoa reage de uma maneira. A Paula Trabulsi deu uma entrevista junto com a produtora dela. A produtora, Sueli, gente bon\u00edssima, em alguns momentos colocava uma ou outra quest\u00e3o ali para complementar. Cada entrevista teve a sua caracter\u00edstica. Na entrevista do (Eduardo) Escorel, ele estava de costas para a janela. At\u00e9 menciono isso. E era uma manh\u00e3 de s\u00e1bado ensolarado no Rio. O sol estava bem na minha cara. Aquela luz do sol estava meio que me incomodando. E encarei aquilo at\u00e9 como uma met\u00e1fora. Eu estava diante de Eduardo Escorel. Ent\u00e3o, acho que aquela luz me deixou meio que incomodado em rela\u00e7\u00e3o a isso. Acho que cada entrevista tem a sua caracter\u00edstica e acho que isso que \u00e9 o gostoso. Se um dia eu for fazer uma entrevista e n\u00e3o sentir um friozinho na barriga, me aposento (risos). Toda entrevista tem que ter essas quest\u00f5es, essas particularidades. Se n\u00e3o, voc\u00ea esquece a import\u00e2ncia daquele contato com aquela pessoa naquele momento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-58118\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Frente.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"931\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Frente.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Frente-242x300.jpg 242w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Al\u00e9m de aprofundar o estudo do cinema de document\u00e1rio, Piero traz na vis\u00e3o de 10 documentaristas de diferentes gera\u00e7\u00f5es e abordagens de cinema um maneira de traduzir um olhar da realidade por vis\u00f5es atentas. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/04\/entrevista-piero-sbragia-fala-sobre-o-livro-novas-fronteiras-do-documentario-entre-a-factualidade-e-a-ficcionalidade\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":58116,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,9],"tags":[4815,4875],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58113"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58113"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58113\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58410,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58113\/revisions\/58410"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}