{"id":58107,"date":"2020-11-03T00:15:30","date_gmt":"2020-11-03T03:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=58107"},"modified":"2020-12-08T00:31:46","modified_gmt":"2020-12-08T03:31:46","slug":"entrevista-em-o-barco-tentamos-inventar-um-novo-tempo-e-um-novo-mundo-diz-petrus-cariry","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/03\/entrevista-em-o-barco-tentamos-inventar-um-novo-tempo-e-um-novo-mundo-diz-petrus-cariry\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Em &#8216;O Barco&#8217; tentamos inventar um novo tempo e um novo mundo&#8221;, diz Petrus Cariry"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-58108 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/obarco1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"731\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/obarco1.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/obarco1-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Adolfo Gomes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sherazade mitol\u00f3gica, a protagonista de &#8220;O Barco&#8221; (2018), de Petrus Cariry, instiga a imagina\u00e7\u00e3o de seus ouvintes com uma narrativa permeada de lubricidade e viol\u00eancia. Um filme sem tempo definido, incrustado entre monumentais fal\u00e9sias e um mar viscoso. \u201cTentamos inventar um novo tempo e um novo mundo a partir do conto hom\u00f4nimo do grande escritor Carlos Em\u00edlio Corr\u00eaa Lima\u201d, explica o diretor em entrevista ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para al\u00e9m da beleza pl\u00e1stica da obra e da sua atmosfera de encantamento, o realizador cearense desafia aqui in\u00fameros sortil\u00e9gios: desde o lan\u00e7amento da obra nos cinemas brasileiros em plena crise sanit\u00e1ria (e salas com ocupa\u00e7\u00e3o restringida), at\u00e9 a ren\u00fancia ao regime tradicional de representa\u00e7\u00e3o naturalista. Cariry filma o desejo de fuga, a utopia dessa embarca\u00e7\u00e3o n\u00e1ufraga \u2013 que \u00e9 o Brasil \u2013 e sua re(des)constru\u00e7\u00e3o ainda sem um horizonte definido, mas, especialmente, a placidez da fabula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exibido na 43\u00aa Mostra SP, em 2019, e com um percurso internacional bastante exitoso, \u201cO Barco\u201d chega enfim ao circuito de cinemas brasileiro num momento delicado de retorno ainda t\u00edmido \u00e0s salas de exibi\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o tenho expectativas e nem grandes apreens\u00f5es, mas tenho uma intui\u00e7\u00e3o que se as pessoas forem ao cinema ver o \u2018O Barco\u2019, ter\u00e3o uma surpresa positiva diante de um cinema extremamente sensorial\u201d, aposta Petrus. Confira a entrevista na integra.<\/p>\n<figure id=\"attachment_58110\" aria-describedby=\"caption-attachment-58110\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-58110 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Petrus-Cariry-Foto-Barbara-Cariry.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Petrus-Cariry-Foto-Barbara-Cariry.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Petrus-Cariry-Foto-Barbara-Cariry-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58110\" class=\"wp-caption-text\"><em>O cineasta Petrus Cariry \/ Foto de B\u00e1rbara Cariry<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A que atribui o seu cinema ser t\u00e3o aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de representa\u00e7\u00e3o? Quero dizer que h\u00e1 algo quase cors\u00e1rio, para evocar a imagem do barco, na sua proposta de constru\u00e7\u00e3o narrativa, que evita que o filme se torne circunscrito a um momento hist\u00f3rico e, j\u00e1 de nascen\u00e7a, confere ao trabalho, ao meu ver, mais longevidade&#8230; De onde vem essa puls\u00e3o arquet\u00edpica?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o existe ningu\u00e9m que possa viver sem conex\u00f5es com o seu povo, com suas heran\u00e7as do passado, com as suas proje\u00e7\u00f5es do futuro, arquet\u00edpicas ou n\u00e3o. Mas gosto de trabalhar o cinema na chave do \u201cfant\u00e1stico\u201d. No caso de \u201cO Barco\u201d, tentamos inventar um novo tempo e um novo mundo a partir do conto hom\u00f4nimo do grande escritor Carlos Em\u00edlio Corr\u00eaa Lima. Dito isso, n\u00e3o me sinto preso a nenhuma imposi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, estou sempre aberto ao di\u00e1logo com o mundo e tenho procurado realizar um cinema livre de regras. \u00c0s vezes os caminhos s\u00e3o dif\u00edceis e tortuosos, mas que precisam ser trilhados de qualquer forma. Algumas pessoas me veem como um lobo solit\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9 assim, dialogo constantemente com outros artistas e t\u00e9cnicos que trabalham comigo. Aqui destaco, como exemplo, a parceria constante com Firmino Holanda e Rosemberg Cariry, no roteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A alegoria se tornou uma esp\u00e9cie de tabu no cinema brasileiro depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. Parece que \u00e9 urgente abordar os temas de frente, sem media\u00e7\u00f5es. O resultado disso \u00e9 a hegemonia do naturalismo. &#8220;O Barco&#8221;, pela sua natureza e atmosfera l\u00edrica, \u00e9 aleg\u00f3rico. Essa op\u00e7\u00e3o ou transgress\u00e3o \u00e9 mais um gesto pol\u00edtico, est\u00e9tico ou po\u00e9tico-libert\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nO homem \u00e9 um animal simb\u00f3lico e aleg\u00f3rico quando estabelece a linguagem. H\u00e1 sempre que ter uma porta aberta para o sonho, para o inconsciente, para os significados simb\u00f3licos. Em &#8220;O Barco&#8221;, trabalhamos com a mat\u00e9ria do sonho, do inconsciente, da met\u00e1fora, do s\u00edmbolo. O pr\u00f3prio barco j\u00e1 representa uma alegoria poderosa da possibilidade de romper com as pris\u00f5es daquele mundo fechado, representa a liberdade do mundo al\u00e9m-mar. Da mesma forma que o livro enterrado representa o perigo, a subvers\u00e3o que vem atrav\u00e9s das palavras. Acredito que a alegoria fant\u00e1stica foi a melhor sa\u00edda para a narrativa do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A exuber\u00e2ncia da paisagem e do mar refor\u00e7a o car\u00e1ter atemporal da trama \u2013 a for\u00e7a da natureza aqui \u00e9 uma \u00e2ncora da ancestralidade. De que maneira as loca\u00e7\u00f5es determinaram o tom e os caminhos de &#8220;O Barco&#8221;?<\/strong><br \/>\nEu sabia desde o in\u00edcio do projeto que a paisagem do filme \u201cO Barco\u201d teria que ter uma for\u00e7a quase sobrenatural na tela do cinema. Uma imagem que usasse de forma on\u00edrica a constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o atrav\u00e9s do tempo. Buscamos um lugar que fosse atemporal em todos os sentidos, e chegamos na bel\u00edssima Praia das Fontes, no Cear\u00e1, com suas forma\u00e7\u00f5es rochosas quase lunares, fal\u00e9sias imensas e areia branca. Mais uma vez eu fiz a dire\u00e7\u00e3o de fotografia do filme, n\u00e3o porque n\u00e3o reconhe\u00e7a o admir\u00e1vel trabalho de muitos colegas, reconhe\u00e7o e admiro, mas t\u00e3o somente porque eu queria ter o maior controle dos enquadramentos, das luzes naturais e noturnas (revisando Rembrandt e La Tour), ou seja, da concep\u00e7\u00e3o visual que \u00e9 fundamental na narrativa do filme. Tinha a ver com a minha obsess\u00e3o pela luz de candeeiros e de velas, da\u00ed minha op\u00e7\u00e3o para que as sequ\u00eancias noturnas do filme fossem feitas apenas com luz natural. Os planos diurnos foram feitos basicamente no alvorecer e no crep\u00fasculo \u2013 t\u00ednhamos paletas de cores fant\u00e1sticas. T\u00ednhamos poucas horas \u00fateis por dia (o sol nasce e morre r\u00e1pido), mas sinceramente valeu a pena, pois conseguimos um resultado visual que me deixou contente, como diretor e fot\u00f3grafo. B\u00e1rbara Cariry, a produtora executiva, possibilitou-me essas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um desejo de fuga no filme, de atingir o alto-mar atrav\u00e9s da imagem e da palavra. As hist\u00f3rias da personagem central, que reconfiguram o cotidiano daquela vila de pescadores, s\u00e3o a um s\u00f3 tempo pessoais e fabulares. Me parece uma s\u00edntese do trabalho de realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Considera que o cinema pode nos ajudar a atravessar esse per\u00edodo da cena s\u00f3cio comportamental do Pa\u00eds de tanto desalinho e falta de esperan\u00e7a? O que o motivou a optar pela linguagem audiovisual nessa travessia?<\/strong><br \/>\nHoje n\u00f3s vivemos no Brasil um clima sufocante e j\u00e1 n\u00e3o enxergamos com facilidade uma sa\u00edda poss\u00edvel. Vivemos um clima de instabilidade e medo. Acho que no filme, naquela pequena aldeia de pescadores, nem o cego vidente (Everaldo Pontes) consegue mais \u201cenxergar\u201d o futuro, apenas um jovem chamado letra \u201cA\u201d (R\u00f4mulo Braga), fustigado pelo desejo de mudan\u00e7a e pelo amor que lhe desperta Ana \u2013 a mulher misteriosa (Samya de Lavor), acredita que h\u00e1 algo mais na vida e rompe com aquela estrutura sufocante. A chegada do barco e de Ana tem um papel fundamental em mexer com o imagin\u00e1rio da comunidade, mas \u00e9 no jovem que \u00e9 despertada a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO Barco\u201d fez um percurso internacional bastante exitoso. Agora chega aos cinemas brasileiros num momento delicado de retorno ainda t\u00edmido \u00e0s salas de exibi\u00e7\u00e3o. Para um filme que demanda, para sua melhor frui\u00e7\u00e3o e encantamento, o espa\u00e7o tradicional da grande tela, qual a expectativa e maiores apreens\u00f5es?<\/strong><br \/>\nSinceramente, para um filme mais alternativo e com uma linguagem peculiar, \u00e9 dif\u00edcil entrar no circuito comercial e se manter em cartaz por v\u00e1rias semanas. Seria necess\u00e1ria uma bela campanha de marketing, com uma escala maior. No atual momento, por conta da pandemia de Covid-19, temos consci\u00eancia que essa miss\u00e3o se torna ainda mais complicada, mas por raz\u00f5es contratuais temos que lan\u00e7ar. N\u00e3o tenho expectativas e nem grandes apreens\u00f5es, mas tenho uma intui\u00e7\u00e3o que se as pessoas forem ao cinema ver o \u201cO Barco\u201d, ter\u00e3o uma surpresa positiva diante de um cinema extremamente sensorial (som e imagem) e acho mesmo que, nesse tempo dif\u00edcil, o filme poder\u00e1 ter uma leitura renovada. \u201cO Barco\u201d foi filmado no formato de tela scope e com som em 7.1, um trabalho precioso do \u00c9rico Paiva, respons\u00e1vel pelo desenho sonoro e pela mixagem, totalmente pensado para os cinemas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer &quot;The Boat&quot; by Petrus Cariry | Int. Filmfest Oldenburg 2018\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/coxA3wJlzFI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Adolfo Gomes<\/a>&nbsp;\u00e9 cineclubista e cr\u00edtico filiado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema (<a href=\"https:\/\/abraccine.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Abraccine<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cariry filma o desejo de fuga, a utopia dessa embarca\u00e7\u00e3o n\u00e1ufraga \u2013 que \u00e9 o Brasil \u2013 e sua re(des)constru\u00e7\u00e3o ainda sem um horizonte definido, mas, especialmente, a placidez da fabula\u00e7\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/03\/entrevista-em-o-barco-tentamos-inventar-um-novo-tempo-e-um-novo-mundo-diz-petrus-cariry\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":71,"featured_media":58109,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4814,4876],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58107"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58107"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58412,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58107\/revisions\/58412"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}