{"id":5808,"date":"2010-09-02T10:21:59","date_gmt":"2010-09-02T13:21:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5808"},"modified":"2010-12-24T19:33:55","modified_gmt":"2010-12-24T22:33:55","slug":"entrevistao-helio-flanders-vanguart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/09\/02\/entrevistao-helio-flanders-vanguart\/","title":{"rendered":"Entrevist\u00e3o: H\u00e9lio Flanders, Vanguart"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>ENTREVIST\u00c3O DE SETEMBRO<\/strong><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4950715433\/in\/set-72157624862755860\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5809 aligncenter\" title=\"helio1_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio1_foto_lili.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio1_foto_lili.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio1_foto_lili-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<\/a>, <a href=\"http:\/\/twitter.com\/marcot_\" target=\"_blank\">Marco Tomazzoni<\/a> e <a href=\"http:\/\/twitter.com\/tiagoagostini\" target=\"_blank\">Tiago Agostini<\/a><br \/>\nrevis\u00e3o: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/murilo_basso\" target=\"_blank\">Murilo Basso<\/a><br \/>\nfotos: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/licallegari\" target=\"_blank\">Liliane Callegari<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">H\u00e9lio Flanders tem apenas 25 anos, mas suas hist\u00f3rias s\u00e3o as de um cara que j\u00e1 viveu ao menos o dobro disso. Ele parece levar a s\u00e9rio aquela m\u00e1xima do Lob\u00e3o sobre ser melhor viver 10 anos a mil do que mil anos a dez, mas precisou pisar no freio e agora vive sem pressa, fazendo as coisas totalmente de seu jeito. E ainda assim parece estar sempre dois passos \u00e0 frente dos demais.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A primeira banda apareceu com 13 anos. Sexo, drogas, glam rock e Oscar Wilde no pacote. Aos 17, surgiu a necessidade de um auto-ex\u00edlio na Bol\u00edvia, em que a loucura maior foi ficar careta. \u201cEu, artisticamente, na maneira mais simples da palavra, queria sentir coisas que nunca tinha sentido\u201d, explica. Ap\u00f3s uma bebedeira em La Paz que durou tr\u00eas dias, H\u00e9lio decidiu voltar para Cuiab\u00e1, reencontrar os amigos e montar uma banda.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">O Vanguart surgiu como um furac\u00e3o no cen\u00e1rio independente nacional. O boca a boca fez a banda lotar de curiosos a Funhouse, em S\u00e3o Paulo, num domingo \u00e0s 19h para ver um grupo que fazia apenas seu segundo show na cidade. O disco de estreia, gravado e produzido em Cuiab\u00e1, apareceu no topo de v\u00e1rias listas de melhores do ano, inclusive do Scream &amp; Yell (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/especial\/2007\/disconacional.htm\" target=\"_blank\">melhor disco<\/a> de 2007, <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/listas\/2007musicanacional.htm\" target=\"_blank\">melhor m\u00fasica<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/listas\/2007shownacional.htm\" target=\"_blank\">melhor show<\/a> de 2006), e muitos jornalistas viram no hit \u201cSem\u00e1foro\u201d o hino da gera\u00e7\u00e3o 00.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Pelo andar da carruagem, o pr\u00f3ximo passo seria o mainstream. A banda assinou um contrato com a Universal, lan\u00e7ou um disco ao vivo com a marca Multishow, mas deu um basta \u00e0s necessidades do mercado, pois as cobran\u00e7as ficaram maiores do que os desejos art\u00edsticos. O pr\u00f3ximo disco do Vanguart, por exemplo, n\u00e3o tem data para sair. \u201cN\u00e3o se assustem se simplesmente n\u00e3o rolar\u201d, ele avisa em certa altura desta entrevista.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Foram cinco horas de conversa regadas a uma caixa de cerveja belga Leffe em que H\u00e9lio \u2013 em est\u00e1gio \u201csemi-b\u00eabado\u201d, ele frisa \u2013 abriu o cora\u00e7\u00e3o diversas vezes. Relembrou o come\u00e7o da banda, explicou por que o Vanguart n\u00e3o toca mais em festivais, defendeu Mallu Magalh\u00e3es, detonou o rock burro, falou de sua recente paix\u00e3o pelo trompete e contou que j\u00e1 entregou 36 m\u00fasicas novas para a gravadora, mas avisa: \u201cO que menos me preocupa \u00e9 a necessidade de voltar. O que mais me preocupa \u00e9 voltar com algo que fa\u00e7a sentido\u201d. Com voc\u00eas, H\u00e9lio Flanders.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em 2008 voc\u00eas foram para a Europa. Como foram os shows?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Fomos participar do Popkomm Festival, que \u00e9 um festival de world music classudo em Berlim, na Alemanha. Tocaram bandas brasileiras tipo o Cabruera, do Sergipe, que \u00e9 do caralho, mas [o festival] tem um lado regional muito forte, batuque&#8230; Fodeu. Ningu\u00e9m entendeu nada [do nosso som]. Lembrou meus shows em Cuiab\u00e1. Mas fizemos um show em uma universidade em Luneburg e foi \u00f3timo. Depois tocamos em uma festa de m\u00fasica brasileira em Bamberg, na Bav\u00e1ria, que ningu\u00e9m entendeu nada tamb\u00e9m, mas estava todo mundo b\u00eabado. Eu j\u00e1 estava falando alem\u00e3o no terceiro show (risos). Porque voc\u00ea come\u00e7a a fazer umas conex\u00f5es sem nexo nenhum, tipo \u201cisso vem do latim\u201d (mais risos), chega ao terceiro, quarto idioma f\u00e1cil. Nem precisa estudar (risos).<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quantos shows foram?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Tr\u00eas. O quarto show seria em Londres com o Wry. A Clarah Averbuck estava lan\u00e7ando o livro dela na mesma \u00e9poca em que \u00edamos tocar. Mas n\u00e3o rolou. Tomamos um ch\u00e1 de sala de 10 horas no aeroporto de Londres. Treinei bem o ingl\u00eas na entrevista. Parecia reuni\u00e3o de pais da Wizard. Est\u00e1vamos como turistas, sem visto de trabalho e nos deportaram de volta para a Alemanha. S\u00f3 que nossa passagem de volta [para o Brasil] era saindo de Londres, ent\u00e3o rolou uma grana para desmarcar. Ficamos dois dias em Berlim, que se me perguntarem como foi&#8230; n\u00e3o vou saber dizer. Tinham uns vinhos sul-africanos em promo\u00e7\u00e3o por 2,80 euros e fizemos a festa do vinho. Cada um levava tr\u00eas para o albergue e as su\u00ed\u00e7as amaram a gente, porque os caras eram muito grossos \u2013 e elas eram muito barangas. E a gente: \u201cComo assim?\u201d (risos). Uma chorou contando do ex. Ficamos super amigos. Tomamos cada um tr\u00eas garrafas de vinho e comemos wurst&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Foi a \u00fanica vez que voc\u00eas tocaram fora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Foi. Eu toquei em Buenos Aires solo com o Arthur de Faria, que \u00e9 um cara que para mim tem uma dimens\u00e3o musical muito grande. V\u00e1rias vezes encontro pessoas do meio musical pop que n\u00e3o conhecem ele e fico espantado. Eu estava preocupado com o lugar que \u00edamos ocupar, ou que ocupamos ou j\u00e1 ocupamos no mercado. E a mais otimista das vis\u00f5es \u00e9: n\u00e3o existe esse lugar. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea um show na Argentina, era o Arthur e o Mauricio Pereira, que considero um dos maiores letristas de S\u00e3o Paulo. E estavam os dois juntos tocando em um circuito para 40, 60 pessoas. No primeiro estava o Caito Marcondes, um cara que tocou com o Hermeto [Pascoal], com o Marcos Suzano, um dos maiores percursionistas do Brasil. \u00c9 outra realidade musical. Eles pensam a m\u00fasica de outro jeito. O rock &#8216;n&#8217; roll \u00e9 quase uma piada. E se eles est\u00e3o nesse n\u00edvel, tocando pra 60 pessoas, eu vou ficar tentando compor um hit babaca, com letrinha de \u201cela vai sair pra dan\u00e7ar hoje\u201d pra tocar pra 200 pessoas na Rua Augusta? N\u00e3o! Eu vi um cen\u00e1rio que me surpreendeu totalmente. Estou indo no caminho errado e est\u00e1 maravilhoso, o ostracismo. Meu MySpace cada m\u00eas vai diminuindo&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Isso tamb\u00e9m \u00e9 reflexo de voc\u00eas terem dado um tempo que, na verdade, n\u00e3o foi um tempo, foi um trilh\u00e3o de anos na m\u00fasica pop. Voc\u00eas estavam em uma ascendente. Em alguns shows voc\u00eas davam a primeira nota de \u201cSem\u00e1foro\u201d e a plateia delirava.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Quest\u00e3o de escolha. Depois do \u201cMultishow Registro\u201d vimos uma realidade: nosso p\u00fablico n\u00e3o estava pronto. Muito menos o Brasil. N\u00e3o tinha como pagarem o m\u00ednimo que precis\u00e1vamos para tocar em um teatro, levar o quarteto de cordas \u2013 o que n\u00e3o conseguimos fazer nenhuma vez. Mas ent\u00e3o voc\u00ea diz: \u201cP\u00f4, \u00e9 meio ut\u00f3pico\u201d, mas para mim eram os teatros os errados. Dev\u00edamos estar tocando em teatros para 80 pessoas e o Vanguart tinha tomado uma propor\u00e7\u00e3o de equipe e suporte que n\u00e3o dava mais pra fazer isso. A n\u00e3o ser que pagassem uma grana que existe apenas em projetos estatais.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Que \u00e9 limitado&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">\u00c9 e n\u00e3o \u00e9. Voc\u00ea pode estar num grupo de pessoas que fa\u00e7a isso funcionar de uma maneira mais f\u00e1cil, mas n\u00e3o quisemos levantar bandeira nenhuma nem entrar em discuss\u00f5es de mercado. Vinham falar comigo sobre politicagem e eu respondia: \u201cBicho, estamos fazendo pe\u00e7as dodecaf\u00f4nicas! \u00c9 matem\u00e1tica. N\u00e3o posso gastar tempo lendo coment\u00e1rio de blog. Eu n\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo\u201d. Ent\u00e3o eu era um alienado, um ignorante? N\u00e3o, eu s\u00f3 estava canalizando meu tempo para minhas prioridades, que hoje \u00e9 estudar trompete, escrever sobre futebol e atualizar o Twitter. Se voc\u00ea fica dez dias sem atualizar o Twitter hoje em dia, voc\u00ea morreu. Os caras n\u00e3o v\u00e3o ao seu show.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Em uma entrevista recente do Marcelo Camelo para a Trip ele diz que 1% do tempo dele \u00e9 destinado \u00e0 m\u00fasica&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Por isso que fumamos maconha, n\u00e9? (risos) Passamos 1% do tempo com o viol\u00e3o na m\u00e3o, mas 61% do tempo eu estou pensando na cria\u00e7\u00e3o. Pelo menos eu penso nisso porque a minha cria\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m de estar com um viol\u00e3o e estar pensando m\u00fasica. N\u00e3o quero que soe pretensioso, mas demos uma desacelerada porque est\u00e1vamos pensando em um conceito e a cada seis meses eu mudo esse conceito. Ent\u00e3o prefiro n\u00e3o lan\u00e7ar um disco que n\u00e3o diga nada pra mim. \u00c9 meio burrice, porque estou perdendo grana, estou perdendo uma f\u00f3rmula de folk bonitinho, de cal\u00e7a apertada, que podia estar dando dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, descobri uma forma de fazer dois shows por m\u00eas, pagar minhas contas, comprar meu fumo e n\u00e3o precisar ficar blefando, nem segurar placa de g\u00eanio pensando ou ficar fingindo que eu tenho culpa crist\u00e3. O protecionismo ao redor do artista&#8230; isso \u00e9 um golpe.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>O punk veio pra quebrar isso, mostrar que era legal que as coisas estivessem em um pedestal, mas era bom lembrar que foi uma pessoa quem fez, n\u00e3o um deus&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">O lance do Vanguart foi uma escolha. Tivemos problemas com nosso empres\u00e1rio, com a gravadora que queria que vend\u00eassemos disco&#8230; E eu: \u201cBicho, quem est\u00e1 vendendo disco hoje? Voc\u00ea me contratou para isso? Voc\u00ea est\u00e1 louco!\u201d<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como foi a aproxima\u00e7\u00e3o com a gravadora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">N\u00f3s gravamos um disco completamente independente, com ajuda de Lei de Incentivo do governo de Mato Grosso, lan\u00e7ado na revista do Lob\u00e3o. Depois come\u00e7amos a nos envolver com a m\u00eddia, ir aos programas&#8230; e tinha nosso empres\u00e1rio, que fez coisas muito legais para n\u00f3s, mas tinha outro perfil. Sem contar o fator idade. Mudamos muito r\u00e1pido, come\u00e7amos a ouvir outras coisas. Cara, eu vim para S\u00e3o Paulo com 21 anos! Eu sou do mato, me fodi muito por ingenuidade e deslumbre. De olhar para onde chegamos. E na verdade n\u00e3o aconteceu porra nenhuma! Hoje eu queria estar fazendo coisas cada vez mais livres e por isso o Vanguart teve um hiato. Era isso ou nos adequar e lan\u00e7ar um disco que n\u00e3o tinha nada a ver conosco. \u201cAh, mas a pegada da banda \u00e9 massa\u201d. A pegada \u00e9 o caralho! N\u00e3o estou interessado na pegada. Estou interessado em harmoniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>A \u00fanica sa\u00edda para a banda era crescer&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Se segu\u00edssemos a f\u00f3rmula \u201cSem\u00e1foro\u201d&#8230; Eu tenho outras quatro \u201cSem\u00e1foros\u201d l\u00e1 em casa e acho uma bosta! Renunciamos e a banda me entendeu completamente. Pod\u00edamos lan\u00e7ar discos de dois em dois anos, rodar o Brasil em festivais tocando rock &#8216;n&#8217; roll, mas n\u00e3o quero fazer isso. Soa at\u00e9 meio babaca, mas eu tive uma banda de rock aos 13, 14 anos chamada Valium. Era uma banda glam. Voc\u00eas assistiram ao \u201cVelvet Goldmine\u201d? Lembra do Bowie tocando viol\u00e3o, sendo vaiado e depois reaparecendo? \u00c9 tipo o inverso. Come\u00e7amos em uma coisa meio glamour, guitarra. Eu ouvia glam pra caralho, achava Marc Bolan melhor que John Lennon! Obviamente hoje n\u00e3o acho, mas j\u00e1 achei. Era reflexo do que eu estava ouvindo na \u00e9poca e quando ouvi Dylan, o \u201cBlood on the Tracks\u201d, em 2000, com 15 anos, entrei em crise. Eu sempre curti letra, comecei a fazer m\u00fasica para escrever letra. E percebi que a narrativa do cara era genial, ele n\u00e3o canta, mas tem personalidade e era isso que eu queria fazer. E \u00e9 curioso olhar os [nossos] discos hoje e pensar na concep\u00e7\u00e3o deles. Eu estava desempregado em Cuiab\u00e1 e voc\u00eas n\u00e3o fazem ideia do que \u00e9 Cuiab\u00e1, do calor que \u00e9 l\u00e1 o dia inteiro, pegar \u00f4nibus de manh\u00e3 e chegar ensopado no trabalho. \u00c9 foda. Trabalhei vendendo marmita, em hospital, computa\u00e7\u00e3o. Eu destacaria tr\u00eas momentos importantes [na minha vida]: quando ouvi Dylan, quando ouvi Tom Jobim sabendo o que ele estava fazendo harmonicamente e quando vi Hermeto Pascoal. Antes de conhecer os Beatles eu achava que era s\u00f3 Bach. Ouvia m\u00fasica cl\u00e1ssica e torcia o nariz para o rock. Tinha 5 anos e era uma crian\u00e7a que queria ser exc\u00eantrica, mas achava aquilo realmente foda at\u00e9 que vieram os Beatles. Depois o Raimundos (gargalhadas gerais). Pra mim, o Rodolfo \u00e9 um grande poeta. Ele \u00e9 o Genival Lacerda dos anos 90, de uma clandestinidade tosca que existe no Brasil. O Rodolfo teve a casualidade para compor que o J\u00fapiter teve em \u201cLugar do Caralho\u201d e que hoje vemos no Tat\u00e1 Aeroplano. Escrever bonito \u00e9 f\u00e1cil. Olavo Bilac tem um monte. Cantar coisa casual \u00e9 foda. O Tat\u00e1 faz isso muito bem, voc\u00eas v\u00e3o ver nesse disco novo [do C\u00e9rebro Eletr\u00f4nico].<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4950701819\/in\/set-72157624862755860\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5812   aligncenter\" title=\"helio4_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio4_foto_lili.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio4_foto_lili.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio4_foto_lili-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea partiu de Bach, passou por Beatles e chegou em Raimundos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">E depois eu conheci o folk do Dylan. E eu juntei tudo, com 15 anos, pensando: \u201cCara, eu n\u00e3o me permito mais ouvir rock &#8216;n&#8217; roll\u201d. E n\u00e3o \u00e9 uma disciplina \u2013 eu n\u00e3o curtia mesmo. Ent\u00e3o rolou o Strokes e eu achava as melodias uma del\u00edcia. Mas de repente todas as bandas come\u00e7aram a copiar Strokes e pensei: \u201cGente, fudeu! A hist\u00f3ria do Brasil agora vai ficar marcada\u201d. Tanto que de 2000 a 2006 tudo foi assim.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>O Los Hermanos n\u00e3o bateu em Cuiab\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Pra minha turma chegou. Ouvi muito Los Hermanos por tabela, porque todo mundo estava ouvindo. Tem pessoas que t\u00eam birra, falam mal da banda. Acho que n\u00e3o h\u00e1 o que falar. O problema \u00e9 quando voc\u00ea ouve uma guitarra meio progressiva e diz: \u201cparece Pink Floyd\u201d. N\u00e3o! N\u00e3o tem nada a ver com Pink Floyd. Ent\u00e3o todas as bandas de 2003 para c\u00e1, que n\u00e3o eram rock, que tinham uma pegada levemente s\u00e9tima maior bossa nova \u201cparecem\u201d Los Hermanos. Voc\u00ea canta grave \u00e9 Amarante. E s\u00e3o v\u00edcios culturais que a galera acaba pegando e se tornam dif\u00edceis de tirar. Acho que \u00e9 por isso que a galera tem uma leve birra.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Era 2001\/2002, Strokes e Los Hermanos rolando, e voc\u00ea estava na fase Bob Dylan.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">N\u00e3o era nem Dylan, estava mais no estudo do \u201cAmerican Anthology of Folk Music\u201d. Em 2000 namorei uma garota que gostava muito do som dos anos 60 e eu ouvi tudo de 1962 a 1970. Tudo que era Flower power e bonito, incluindo os ingleses. Ouvi tudo, por isso que n\u00e3o acho \u201cImpossible Germany\u201d [Wilco] grande coisa (discuss\u00e3o e risos gerais). \u00c9 meia bomba. Eu ouvi o \u201cBeing There\u201d quando descobri o Dylan e pensei que era muito legal porque era tosco. Tem emo\u00e7\u00e3o. Depois parece que ele [Jeff Tweddy] come\u00e7ou a usar compressor e n\u00e3o tem gra\u00e7a mais. E ele n\u00e3o fala uns absurdos na letra. Eu acho [o Wilco]&#8230; Higien\u00f3polis demais. N\u00e3o tem travesti andando na rua (risos gerais). \u00c9 torcer para o S\u00e3o Paulo. N\u00e3o d\u00e1! \u00c9 tipo mudar para o Rio e ir morar na Barra. \u00c9 at\u00e9 uma coisa carrancuda, rebelde da minha parte, mas porra, n\u00e3o tem como voc\u00ea torcer pra Imperatriz Leopoldinense. \u00c9 Mangueira ou Portela. Eu gosto do Wilco, mas achei os \u00faltimos discos pouco inspirados, convencionais. E voc\u00ea pega os discos do Dylan, que n\u00e3o tem nada de novo, \u00e9 ele se copiando, mas com uma puta banda de blues e blues mais pro country. Acho o blues do Wilco muito quadrado, careta. O blues do Dylan ainda tem viola, umas coisas assim. Eu n\u00e3o fui ver o Dylan no Via Funchal. Eu vi um velho declamando as letras e uma puta banda de blues. S\u00f3 que as letras que o cara declamava eram fodas!<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Como foi para voc\u00ea ver o Dylan?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">P\u00f4, ele vem sacaneando o ouvinte h\u00e1 40 anos. Achei o show do caralho! Ele declamou v\u00e1rias, \u00e9 o Dylan, n\u00e9! At\u00e9 achei que ele zoou pouco, tocou altos hits. No segundo dia rolou at\u00e9 \u201cBlowin&#8217; in the Wind\u201d.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Beleza, demos a volta, voltamos ao Dylan, voc\u00ea est\u00e1 em Cuiab\u00e1. Quando voc\u00ea foi para a Bol\u00edvia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu descobri depois que essa hist\u00f3ria da Bol\u00edvia foi coisa para jornalista. Porque todo release tem a parada da Bol\u00edvia, parece que \u00e9 algo absurdo. E tudo \u00e9 um ponto de passagem, n\u00e3o s\u00f3 a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>\u00c9 que foi vendido que voc\u00ea tinha ido para a Bol\u00edvia e \u201cvoltou\u201d com o Vanguart.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu terminei o \u201cterceir\u00e3o\u201d e j\u00e1 estava renunciando da minha vida. Estudava \u00e0 noite, era demais. Todo mundo na minha classe trabalhava, menos eu. Acordava \u00e0s seis e meia da tarde, ia pra aula, depois ia dormir \u00e0s oito, nove da manh\u00e3. E comecei a fazer umas loucuras. J\u00e1 tinha tido minha primeira crise criativa em que pensei: \u201cn\u00e3o posso ser eu, tenho que procurar outra coisa, o &#8216;eu&#8217; j\u00e1 estou fazendo h\u00e1 15 anos\u201d. Queria algo que n\u00e3o conhecia. Ent\u00e3o rolou a oportunidade de ir pra Bol\u00edvia, porque minha av\u00f3 estava morando l\u00e1. Ela abriu um restaurante em Santa Cruz de la Sierra.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como \u00e9 sua fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">\u00c9 uma fam\u00edlia classe m\u00e9dia cat\u00f3lica tradicional brasileira, toda descendente de italianos e portugueses. Minha av\u00f3 foi para a Bol\u00edvia porque estava aposentada, tinha passeado por l\u00e1 com meu tio, viu que a cidade estava crescendo, montou o neg\u00f3cio, tinha um \u201cap\u00eaza\u00e7o\u201d. Fui para l\u00e1 e ela queria que eu fizesse medicina. Desde pequeno eu analisava uns v\u00eddeos e livros de psiquiatria cl\u00ednica do meu pai, ent\u00e3o sempre li isso. E come\u00e7ava a analisar os colegas de classe. Falava: \u201cEsse \u00e9 demente. Aquele \u00e9 viado\u201d. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o pode, ele tem namorada\u201d. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, olha l\u00e1, \u00f3 o comportamento, gestual er\u00f3tico\u201d (risos). E numa dessas pensei em fazer medicina e virar psiquiatra. Visitei a universidade e na cidade descobri umas banquinhas que vendiam fotoc\u00f3pias dos livros do Garcia M\u00e1rquez por cinco pesos. O \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d era 10 pesos. Comecei a ler, falar espanhol pra caralho, gramaticalmente careta&#8230; Percebi que n\u00e3o estava pronto pra faculdade. Fiquei meio ano, estudei espanhol por conta, um pouco de ingl\u00eas em um curso l\u00e1, porque precisava do diploma. J\u00e1 tinha trabalhado como professor de ingl\u00eas na clandestinidade quando menti no meu curr\u00edculo e inventei que fiz um curso avan\u00e7ado. Mas eu estava com muitas ideologias nessa viagem. Primeira coisa: ficar careta e n\u00e3o usar nada. Ironicamente, na Bol\u00edvia em momento algum eu pirei, mesmo porque seria \u00f3bvio demais fazer isso. Fiquei os primeiros cinco meses em um quartinho. Careta, dormia todo dia \u00e0s 23h. Acho que foi a \u00e9poca em que eu mais compus m\u00fasica na minha vida. Antes eu compunha m\u00fasica na guitarra para tocar em uma banda glam e, de repente, estava compondo umas coisas muito folks que eu nunca gravei porque s\u00e3o de 10 minutos, meio \u00e9picos. Dessa \u00e9poca s\u00f3 gravei \u201cInto the Ice\u201d e \u201cLast Express Blues\u201d. De m\u00fasicas que eram blues tinham 30. E fui testando muito afina\u00e7\u00e3o, coisa que eu ainda n\u00e3o sabia. Comprei um charango, que \u00e9 tipo um bandolim de dez cordas, com a l\u00f3gica da viola caipira, mas diferente. Alguns t\u00eam forma de tatu. Um instrumento bem andino. E eu testava as afina\u00e7\u00f5es. Nesse tempo que fiquei na Bol\u00edvia n\u00e3o tinha nenhum amigo. Foi meio que uma lavagem cerebral. Sa\u00ed de um lugar onde eu tinha uma banda, um lugar onde voc\u00ea sai sozinho e sempre conhece algu\u00e9m, e de repente fui para um lugar careta onde ningu\u00e9m conseguia nem pronunciar meu nome: era \u201cH\u00ealio\u201d. E o que eu queria era ser algu\u00e9m que eu n\u00e3o era. Gravei o \u201cThe Noon Moon\u201d, segundo disco do Vanguart, antes de ir pra Bol\u00edvia. E tem uma musica \u00e9pica que sou eu explicando a minha viagem pra l\u00e1: \u201chere no one knows my name, they never see me around\u201d. Era quilom\u00e9trica, prevendo o que seria. E foi muito pior. Foi uma solid\u00e3o bizarra. Voc\u00ea tem que reaprender mesmo em um lugar totalmente novo. E eu, artisticamente, na maneira mais simples da palavra, queria sentir coisas que nunca tinha sentido. Tinha 17 anos, pensei em ir pra Bol\u00edvia e dar uma pirada em cima da caretice, uma coisa muito louca. Ent\u00e3o comecei a trampar no restaurante da minha av\u00f3 e ela queria que eu ficasse no caixa. Pedi para ir pra cozinha, cheiro de gordura o dia inteiro. Jogava bola com a gurizada. Fui perifa na Bol\u00edvia e foi do caralho. Depois fui para La Paz. Foi quando passei a seguir caminhos mais sinuosos (risos)&#8230; Comecei a raciocinar fora do recipiente. Tive uma bebedeira que durou dois ou tr\u00eas dias em La Paz. Depois disso decidi voltar porque a miss\u00e3o tinha sido cumprida. E eu j\u00e1 tinha 150 m\u00fasicas, talvez oito coubessem em uma banda. Cheguei a Cuiab\u00e1 com show marcado, foi uma reden\u00e7\u00e3o voltar, encontrar os meus melhores amigos de um ano atr\u00e1s, que eu tinha me exilado deles. Montamos uma banda e ningu\u00e9m entendeu nada.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Por que se exilado deles?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">\u00c9 meio cabe\u00e7a dura da minha parte, mas achei que precisava sofrer algumas coisas na vida para conseguir viver umas coisas al\u00e9m. Algo meio masoquista. Tipo: \u201ceu preciso terminar com ela, mesmo a amando ainda, porque preciso saber o que \u00e9 isso, preciso sofrer e isso vai me fazer algu\u00e9m melhor. Vou me ferrar tanto que vou ver coisas que quando estou bem eu n\u00e3o vejo\u201d. Um auto-ex\u00edlio total. Minha vida \u00e9 pensar no pr\u00f3ximo, sempre. E o choque do Vanguart tamb\u00e9m foi um ex\u00edlio em S\u00e3o Paulo, que \u00e9 a coisa mais claustrof\u00f3bica do mundo, mas que est\u00e1 sendo necess\u00e1rio. Acho que s\u00f3 vai acabar ano que vem. Ainda estou exilado.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quando voc\u00eas vieram definitivamente para S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Em 2006, moramos por dois meses aqui, dois meses l\u00e1, alternados. Em 2007, viemos oficialmente. O show da Funhouse, em 2006, foi legal porque n\u00e3o t\u00ednhamos dimens\u00e3o nenhuma do que poderia ser qualquer repercuss\u00e3o. Hoje olho para tr\u00e1s e penso \u201cque pena que hoje eu sei o que \u00e9 o cen\u00e1rio\u201d, porque a ingenuidade de tocar sem depender de uma cena \u00e9 a maior alegria do mundo. Voc\u00ea estar na sua cidade do interior, gravando e fazendo sua m\u00fasica \u00e9 o maior luxo que a m\u00fasica pode proporcionar.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas no show da Funhouse j\u00e1 tinha um bafaf\u00e1. E o show foi \u00f3timo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Mas tem muito a ver com a energia. A Funhouse \u00e9 muito diferente de um teatro do Sesc, onde voc\u00ea vai ter que ir l\u00e1 e tocar pra caralho. Na Funhouse voc\u00ea precisa chegar com uma puta energia e querendo estar ali. E depois de ficar um ano na Bol\u00edvia, de ter voltado para Cuiab\u00e1, meu melhor amigo ter sido internado em uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o, ter ficado um ano off e ter voltado para banda&#8230; E n\u00f3s come\u00e7amos a viajar o Brasil! Era um clima que hoje vejo como n\u00f3s nos recuperando depois de ficarmos tr\u00eas anos em depress\u00e3o. Mas chegamos em S\u00e3o Paulo e vimos, de repente, que existia um mercado pra alimentar. E pensamos: \u201cPuta que pariu, n\u00e3o \u00e9 nada disso!\u201d.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Todo mundo mora em S\u00e3o Paulo hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Desde 2007 est\u00e1 todo mundo aqui. Eu moro com o [Bruno] Montalv\u00e3o, que \u00e9 nosso secret\u00e1rio adjunto e assessor pra outros assuntos (risos). Ele \u00e9 um guru, uma refer\u00eancia, um contador de hist\u00f3rias. E moramos com o Douglas, o baterista, que h\u00e1 um ano e meio, no auge da crise, quase foi embora. N\u00f3s pedimos para ele esperar que ir\u00edamos resolver&#8230; Foi uma crise da banda com o meio, n\u00e3o foi a banda em si. A banda em si sempre foi muito franca. Somos grandes amigos, tipo irm\u00e3os. Voc\u00ea manda o cara tomar no cu e na outra hora est\u00e1 tudo bem. E hoje a rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 incr\u00edvel, no \u00e1pice da amizade e do entendimento de tudo que passamos.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como \u00e9 a pira\u00e7\u00e3o do sucesso? Tem gente que se mata, Kurt Cobain que o diga.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Totalmente compreens\u00edvel. Sei l\u00e1, n\u00e3o tem nada a ver com arte, com qualidade art\u00edstica. Por exemplo, desconfio de m\u00fasica alegre. Hoje n\u00e3o tem como fazer m\u00fasica alegre sabendo tudo o que acontece. Sucesso \u00e9 algo&#8230; fico muito \u201cnoiado\u201d quando tenho que mudar alguma coisa [na m\u00fasica] para faz\u00ea-la ficar mais f\u00e1cil. E durante dois anos fiz concess\u00f5es que h\u00e1 seis meses parei de fazer. N\u00e3o vou mais fazer isso. Por que voc\u00ea acha que n\u00f3s n\u00e3o estamos hoje com clipe na MTV? Porque n\u00e3o fomos fazer um clipe. Por que est\u00e3o enchendo o meu saco? Porque as \u00faltimas fotos de divulga\u00e7\u00e3o s\u00e3o de um ano e meio atr\u00e1s. \u00c9 meio babaca por um lado, o cara est\u00e1 nessa e n\u00e3o quer estar, mas n\u00e3o \u00e9 que eu estou nessa: eu s\u00f3 quero fazer m\u00fasica. E tenho um p\u00fablico do caralho! Parece um milagre. A gente toca e tem 300 pessoas cantando a m\u00fasica, achamos demais! Como veio acontecer isso? Quatro anos atr\u00e1s est\u00e1vamos em Cuiab\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quando foi o momento em que voc\u00ea virou uma chavinha de \u201ceu quero me exilar de novo\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Acho legal que a entrevista esteja indo pra um lado meio desolado, decepcionado, mas n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 simplesmente uma op\u00e7\u00e3o. N\u00e3o desprezo meus amigos que est\u00e3o comprando roupas novas e fazendo m\u00fasica com a bateria estilo Franz Ferdinand porque assim eles v\u00e3o aparecer no Multishow. S\u00e3o objetivos diferentes. Essa chavinha j\u00e1 veio virada. O Vanguart veio dessa chave virada. Eu n\u00e3o espero nada do mercado. E se fosse esperar, estaria ferrado. N\u00e3o seria genu\u00edno, n\u00e3o faria minha m\u00fasica. Por isso gravei dois discos em casa. O primeiro nunca liberei porque \u00e9 muito tosco. S\u00f3 fui afinar guitarra no segundo disco. N\u00e3o estudei m\u00fasica, mas acho o punk um golpe. Ele foi um grande erro do inicio ao fim. O punk \u00e9 e sempre foi uma grande piada enquanto m\u00fasica. O cara me fala no Twitter: \u201cEu ou\u00e7o Iggy Pop at\u00e9 hoje\u201d. Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 louco! \u00c9 uma pregui\u00e7a intelectual. Porra! A cria\u00e7\u00e3o tem que partir de uma auto-ren\u00fancia, uma ren\u00fancia das influ\u00eancias, uma ren\u00fancia de tudo, se n\u00e3o voc\u00ea vai soar igual&#8230; Tudo que penso quando vou compor \u00e9 fazer com que o Dylan seja um bosta, e mesmo assim j\u00e1 parece [com ele]. As bandas n\u00e3o t\u00eam essa preocupa\u00e7\u00e3o. O Vanguart nasceu de eu, com 15 anos, pensando: \u201ccansei, o rock n\u00e3o \u00e9 pra mim\u201d. Virei a chave e resolvi ser estranho, lancei dois discos muito lo-fi pela internet. Vejo a galera se adequando e \u00e9 deprimente. Por isso o sucesso virou algo muito pejorativo. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o quero. N\u00e3o \u00e9 a hipocrisia de n\u00e3o querer fazer sucesso, mas \u00e9 a hipocrisia da galera que diz que est\u00e1 sendo sincera e n\u00e3o est\u00e1 sendo. 90% das bandas que rodam o Brasil s\u00e3o genu\u00ednas, fazem isso porque amam e porque n\u00e3o podiam estar fazendo outra coisa. Tomara que elas virem a chave como eu virei, mas acho dif\u00edcil. \u00c9 muito mais c\u00f4modo seguir a sua f\u00f3rmula. E eu acho que 99% das bandas do mainstream, se \u00e9 que se pode chamar assim, est\u00e3o sendo mentirosas. Est\u00e3o sendo hip\u00f3critas.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Tem como fazer sucesso sendo \u00edntegro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Existe a possibilidade. Se voc\u00ea j\u00e1 fez sucesso anteriormente e j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 em cima, v\u00e3o te chamar de g\u00eanio por qualquer coisa que voc\u00ea fa\u00e7a. \u00c9 o que o Caetano faz. O \u201cC\u00ea\u201d \u00e9 foda. Um disco genial, mas se fosse de um cara novo seria um disco genial? N\u00e3o, seria algo como \u201cum puta disco, o cara pode ficar bom\u201d. Existe um julgamento que \u00e9 maior que n\u00f3s. A pessoa, depois que chega a certo lugar, tudo o que ela faz \u00e9 conceito, voc\u00ea analisa de outra forma. A banda nova se fode porque ou ela faz tudo ou ela \u00e9 uma bosta. E no Brasil parece que ou voc\u00ea \u00e9 muito foda ou voc\u00ea \u00e9 um bosta. Ficou dez dias sem atualizar o Twitter, ningu\u00e9m vai ao seu show. Voc\u00ea \u00e9 muito mais escravo do que se trabalhasse em uma reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4951333054\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5811   aligncenter\" title=\"helio3_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio3_foto_lili.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Voc\u00ea n\u00e3o acha que o Caetano perdeu um pouco a for\u00e7a que ele tinha de uns anos pra c\u00e1? Voc\u00ea n\u00e3o precisa mais do apadrinhamento dele pra ser um artista relevante.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ainda, de certa forma, \u00e9 importante ser apadrinhado pelo Caetano. Mas acho o \u201cZii Zie\u201d menos relevante que o \u201cC\u00ea\u201d, menos inspirado. Porque antes o cara tomou um p\u00e9 na bunda e fez um disco do caralho. P\u00e9 na bunda \u00e9 a melhor coisa que pode acontecer para um homem. Nada melhora o homem como um p\u00e9 na bunda.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>O que voc\u00ea j\u00e1 comp\u00f4s depois de um p\u00e9 na bunda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Nada, mas j\u00e1 bebi pra caralho! Acho que eu transformo a m\u00fasica em algo que n\u00e3o fique biogr\u00e1fico. Porque tudo \u00e9 biogr\u00e1fico, ent\u00e3o a partir do momento em que tudo \u00e9 biogr\u00e1fico, faz com que esses fatos sejam uma coisa mais ampla, n\u00e3o d\u00e1 para ser isolado tipo \u201ctomei um p\u00e9 na bunda aqui e fiz isso\u201d. Talvez a viagem para a Bol\u00edvia seja a coisa mais direcionada que j\u00e1 escrevi. Agora n\u00e3o sei o que vai vir. Estamos com 18 m\u00fasicas novas para o disco e dessas resolvemos ficar com quatro. Ou tr\u00eas. E n\u00e3o tinha nenhuma \u201cSem\u00e1foro\u201d no meio. Era tudo muito trash no sentido de \u201canti-pop\u201d mesmo. Atonal quase, muito mais modal.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>\u00c9 uma coisa geral da banda ou come\u00e7ou contigo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ah, o sentimento \u00e9 geral&#8230; Continuamos tocando juntos, fazendo shows e compondo.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas diminuiu o ritmo de tocar \u2013 voc\u00ea come\u00e7ou a fazer projetos paralelos, come\u00e7ou a tocar com a Mallu, com o Z\u00e9 Mazzei, do Forgotten Boys.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">\u00c9, foi isso. E ocupar o tempo. S\u00e3o Paulo \u00e9 complicado. At\u00e9 voc\u00ea conseguir acostumar a fazer nada&#8230; Porque fazer nada pra mim \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o. Eu preciso ficar cinco horas ali, pego o viol\u00e3o, toco 15 minutos, fa\u00e7o uma m\u00fasica. E o pr\u00f3ximo est\u00e1gio \u00e9 entender o que voc\u00ea fez.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Voc\u00ea consegue n\u00e3o fazer nada em S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Depende. Eu consigo ficar uma semana sem sair de casa e trabalhar mais do que se eu tivesse sa\u00eddo todo dia.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas \u00e9 que em S\u00e3o Paulo voc\u00ea tem teatro, v\u00e1rios filmes pra escolher no cinema&#8230; filmes fodas. Aprendemos a viver numa cidade em que tinha o mesmo filme em cartaz por 15 dias. E esse filme era da Xuxa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu come\u00e7o a tocar piano e fico l\u00e1 pensando: \u201cn\u00e3o, n\u00e3o vou a lugar algum, vou ficar aqui\u201d. Uma vez foi engra\u00e7ado porque deixei o MSN ligado e o cara apareceu para fazer uma entrevista. N\u00f3s come\u00e7amos por ali, eu falei com ele e estava compondo. Ele fez tr\u00eas perguntas, respondi meio monossil\u00e1bico e depois pedi para ele pra parar porque estava fazendo uma m\u00fasica. No texto depois estava: \u201cEnt\u00e3o ele parou a entrevista no meio e disse que ia compor uma m\u00fasica\u201d, de uma maneira pejorativa at\u00e9. Achei um absurdo. Em toda festa boca livre que rola da MTV, est\u00e1 todo mundo l\u00e1. Eu n\u00e3o estou porque at\u00e9 posso estar fazendo nada, mas estou me crucificando, me torturando porque hoje n\u00e3o saiu a melodia, ent\u00e3o n\u00e3o vou. N\u00e3o vou. Eu come\u00e7o a tocar e n\u00e3o sai. Vou cozinhar. E as pessoas me dizem que \u00e9 importante eu ir a festas para as pessoas me verem, porque existe o Vanguart e n\u00e3o posso sumir. Mas n\u00e3o \u00e9 que estou sumido. Estou priorizando outras coisas. E isso faz \u2013 olha como \u00e9 escroto esse cen\u00e1rio que a gente vive \u2013 parecer algo estranho, tanto que voc\u00eas perguntaram por que n\u00f3s ficamos um bom tempo off. N\u00e3o lancei um disco ainda porque n\u00e3o curti o que estou fazendo. V\u00e1rias coisas eu curti, mas repensei e n\u00e3o \u00e9 isso que eu quero fazer de novo.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas qual \u00e9 a vibe? Como \u00e9 na sua cabe\u00e7a, sendo que o Vanguart tem uma sonoridade que n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea vai fazer com o cara do Forgotten Boys, n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea vai fazer com o Major Luciana? Que ter\u00e1 uns toques de jazz, voc\u00ea tocando trompete&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ent\u00e3o, esse tempo foi necess\u00e1rio pra eu compreender isso, para eu entender o que era um projeto e o que era o outro. Tudo isso ajudou muito a entender o Vanguart, porque deviam ter oito ou dez can\u00e7\u00f5es ali que eram completamente dissonantes. MPB em um sentido que n\u00e3o \u00e9 rock &#8216;n&#8217; roll. Desculpa, gente, eu n\u00e3o curto rock! N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o acho legal. Acho esteticamente do caralho, mas eu n\u00e3o faria nada pelo rock &#8216;n&#8217; roll. N\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o de ter uma guitarra na minha banda fazendo \u201ctan-tan\u201d, muito menos uma bateria, mas precisei valorizar isso, ainda mais aqui [em S\u00e3o Paulo]. Porque em Cuiab\u00e1 \u00e9 normal voc\u00ea ser estranho e fazer s\u00f3 viol\u00e3o e voz. Em S\u00e3o Paulo, rolou a onda folk e pelo amor de Deus&#8230; Ser\u00e1 que as pessoas ainda me associam ao folk? Ok, menos mal, afinal tem gente sendo associada a coisas piores. Mas porra, eu tinha dez can\u00e7\u00f5es que estava pensando em gravar no Vanguart que eram t\u00e3o estranhas, t\u00e3o novas no sentido de composi\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, modal, que falei que n\u00e3o iria rolar. Eu precisava achar um meio termo do que \u00e9 o Vanguart dentro disso, o que \u00e9 a linguagem do Vanguart e o que \u00e9 a minha linguagem enquanto compositor. Agora estou come\u00e7ando a entender isso. E nisso foram 30 can\u00e7\u00f5es que ficaram perdidas em um limbo.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quando houve a mudan\u00e7a da sonoridade mais folk para outra mais Hermeto Pascoal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Quando o Vanguart come\u00e7ou folk era uma coisa de necessidade. Voltei da Bol\u00edvia e precisava gravar minhas m\u00fasicas. Antes era viol\u00e3o e gaita. Quando voltei, chamei uma banda para fazer a mesma coisa e assim foi o \u201cBefore Vallegrant\u201d, nosso primeiro EP. Eram as minhas can\u00e7\u00f5es da Bol\u00edvia, com uma puta sonoridade nova de um baixo dan\u00e7ante. Com uma guitarra sem distor\u00e7\u00e3o, que era uma coisa pensada. N\u00f3s n\u00e3o usamos distor\u00e7\u00e3o e a guitarra nunca pode fazer ritmo \u2013 e j\u00e1 nos fodemos v\u00e1rias vezes porque dava pau no viol\u00e3o, precis\u00e1vamos terminar uma m\u00fasica e n\u00e3o sab\u00edamos fazer o ritmo. Era uma coisa meio xiita, \u201cvamos fazer diferente: proibido usar distor\u00e7\u00e3o e efeito em guitarra\u201d. Acho foda essas coisas de tremolo do [Fernando] Catatau, mas na minha banda n\u00e3o rola. Eu falava: \u201cgente, a ideia \u00e9 folk, mas pensa no caipira\u201d. Esse \u00e9 o primeiro disco do Vanguart. \u00c9 uma ren\u00fancia das influ\u00eancias o tempo inteiro, porque elas j\u00e1 estavam t\u00e3o incrustadas que&#8230; Cara, banda que parece o Iggy Pop tem um monte. Banda que faz Bob Dylan n\u00e3o tem, mas eu n\u00e3o quero parecer o Dylan. Eu quero viver a minha \u00e9poca. Nesse meio termo o Caymmi caiu como uma coincid\u00eancia, talvez destino. Eu pensei no Dorival e tinha que ser ele, senti uma energia do caralho. Estava ouvindo muito ele antes da sua morte. E a primeira vez que tocamos ao vivo foi antes dele morrer \u2013 ele morreu de manh\u00e3 e tocamos \u201cO Mar\u201d na madrugada. Assim como ele, o Tom Jobim caiu; o Jo\u00e3o Gilberto, que acho que ningu\u00e9m entendeu ainda; muita m\u00fasica brasileira caiu, at\u00e9 o Milton [Nascimento]. As pessoas falam: \u201cesse falsete \u00e9 Thom Yorke\u201d e eu me desespero. Porque n\u00e3o \u00e9! Voc\u00ea n\u00e3o ouviu direito! \u00c9 Milton, \u00e9 Paul [McCartney], \u00e9 Judy Garland! Acho que h\u00e1 uma pregui\u00e7a de refer\u00eancias quando algu\u00e9m analisa. Com o Caymmi tamb\u00e9m foi algo assim. Soa folk. Ouvimos tanta coisa bizarra de m\u00fasica brasileira e dodecafonia que depois do Hermeto, do Egberto Gismonti, dessa galera, voc\u00ea pensa que o Iggy Pop n\u00e3o \u00e9 do caralho. Acho do caralho, mas n\u00e3o vou ouvir Stooges. Nasci brasileiro. Estou ouvindo umas coisas que me falam. A cultura pop veio e mandou umas coisas que n\u00e3o precis\u00e1vamos ter absorvido. Mas ent\u00e3o S\u00e3o Paulo n\u00e3o seria S\u00e3o Paulo e o Outs [bar da Rua Augusta] n\u00e3o existiria.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas por que voc\u00eas tocam um projeto de Beatles e n\u00e3o tocam isso? \u00c9 grana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">N\u00e3o. Beatles t\u00eam um lugar inexplic\u00e1vel no nosso cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais uma magia indescrit\u00edvel de ter assistido aos filmes aos 12 anos e ter chorado antes de dormir porque os Beatles tinham acabado, porque ningu\u00e9m tinha feito aquelas melodias. \u201cAh, eu prefiro Stones\u201d. Tudo bem. Eu prefiro melodia. Amo os Stones, mas prefiro os Beatles. Pra gente eles sempre foram a coisa mais natural do mundo pra tocar.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>\u00c9 que n\u00e3o se ouviu o Vanguart fazendo esse tipo de m\u00fasica brasileira, mas tem uma sonoridade Beatles na guitarra.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu acredito em uma sonoridade do Vanguart de mais conceito. O que \u00e9 o Vanguart sonoramente envolve muito m\u00fasica americana, de influ\u00eancias da inf\u00e2ncia, de Beatles a Bob Dylan. O Vanguart absorveu tudo isso, as coisas que n\u00e3o tem nada a ver, que n\u00e3o v\u00e3o se aplicar, mas que est\u00e3o ali, que \u00e9 modal pra caralho agora. Que eu acho que n\u00e3o s\u00e3o nada comerciais e que provavelmente a gravadora achar\u00e1 o mesmo.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas o \u201cKind of Blue\u201d [disco de Miles Davis] \u00e9 o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ainda se estiv\u00e9ssemos falando de jazz, talvez estiv\u00e9ssemos melhores. Ou n\u00e3o (risos). Mas por exemplo, esse projeto novo, Major Luciana, conseguiu desovar boa parte das can\u00e7\u00f5es do Vanguart que estavam jogando a banda para o buraco. A banda n\u00e3o estava se adaptando a essa sonoridade. E olha que eles s\u00e3o m\u00fasicos fodas. E todo mundo est\u00e1 no Major Luciana, mas \u00e9 diferente, pela presen\u00e7a do Julio. Tem uns pianos, agora estamos pirando em umas pe\u00e7as dodecaf\u00f4nicas e l\u00edricas. Estou com dois discos para fazer esse ano. Penso que lancei o primeiro disco em 2007, devia ter lan\u00e7ado um novo em 2009. Lancei um disco ao vivo que n\u00e3o conta, mas tinha cinco in\u00e9ditas, beleza. Ent\u00e3o esse ano eu tinha que lan\u00e7ar um disco de in\u00e9ditas, mas foda-se! Vou ficar pirando. A minha ideia ainda est\u00e1 fomentando. Prefiro sobreviver de fazer dois shows por m\u00eas segurando minha onda, fumando menos, porque acredito que a ideia n\u00e3o est\u00e1 pronta. O que menos me preocupa \u00e9 a necessidade de voltar. O que mais me preocupa \u00e9 voltar com algo que faz sentido. Sen\u00e3o eu vou jogar bola, volto a trabalhar. A gravadora at\u00e9 j\u00e1 pediu um single, mas ainda n\u00e3o tem um single. A gente n\u00e3o vai fazer nada para se adequar \u00e0 gravadora. Se tivermos que fazer, preferimos sair. Nunca estivemos t\u00e3o pouco preocupados em fazer sucesso e t\u00e3o preocupados em fazer algo que nos satisfa\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4950703725\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5810   aligncenter\" title=\"helio2_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio2_foto_lili.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio2_foto_lili.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio2_foto_lili-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como foi o contato com o [empres\u00e1rio] Glauber Amaral?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">O Glauber \u00e9 um cara que admiro, mas tivemos algumas diverg\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como aconteceu de voc\u00eas divergirem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Quisemos ficar independentes e n\u00e3o passar por ele. Poder parar quando quis\u00e9ssemos.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas como era a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ficamos dois anos em um circuito de tocar, tocar, tocar, produzir, produzir, produzir, fazer grana, ensaiar e cad\u00ea o disco novo? Chegou uma hora que eu disse: \u201c\u00d3, bicho, desculpa, mas o disco novo n\u00e3o vai rolar n\u00e3o\u201d. \u201cPor qu\u00ea?\u201d \u201cN\u00e3o estou afim, n\u00e3o \u00e9 assim\u201d. Sou criticado na minha fam\u00edlia. Tenho um tio que sempre me pergunta onde est\u00e1 a \u201cSem\u00e1foro\u201d nova. E eu falo, \u201ctio, n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed\u201d. \u00c9 uma coisa de op\u00e7\u00e3o. Eu queria dar uma mensagem positivista para a galera que est\u00e1 come\u00e7ando. Eu podia dizer: \u201cgalera, vamos fazer os festivais, vamos tocar\u201d, mas \u00e9 at\u00e9 ing\u00eanuo falar isso. N\u00e3o se vendam! Eu sinto uma caretice generalizada.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Que bandas da sua gera\u00e7\u00e3o voc\u00ea admira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Muitas. Cada vez mais fico feliz de ver bandas maravilhosas musicalmente consolidadas, mas tem duas especiais: Porcas Borboletas e Los Porongas. S\u00e3o bandas que est\u00e3o levemente \u201clost in translation\u201d, como o Vanguart est\u00e1 \u201ccompletely lost in translation\u201d, porque est\u00e3o se negando a fazer o careta. Quem est\u00e1 se negando a fazer o careta na m\u00fasica brasileira \u00e9 a galera de raiz, mas n\u00f3s n\u00e3o viemos da raiz \u2013 viemos de todo um conhecimento geral de arte. Ent\u00e3o voc\u00ea pensa, \u201cestou fodido, j\u00e1 fizeram tudo\u201d. Voc\u00ea tenta ser de raiz, mas n\u00e3o consegue e tem que achar um meio termo de uma linguagem que seja de personalidade, e hoje o mais dif\u00edcil \u00e9 isso. Pega essas bandas que viajaram o Brasil nos festivais independentes: quem est\u00e1 fazendo algo genu\u00edno, quem est\u00e1 fazendo algo de nega\u00e7\u00e3o? Ningu\u00e9m. \u201cAh, mas a arte n\u00e3o precisa ser negada.\u201d \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o minha. Eu acredito que para voc\u00ea ser voc\u00ea, voc\u00ea precisa negar voc\u00ea mesmo o tempo inteiro. S\u00f3 assim voc\u00ea vai olhar depois de 20 anos e se surpreender. Ver que fez algo que n\u00e3o era o convencional. Eu sinto poucas bandas fazendo isso e a f\u00f3rmula mata todo mundo. Mas para ganhar dinheiro \u00e9 assim: tem que seguir a f\u00f3rmula.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel ganhar dinheiro nessa nega\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Vamos saber agora, mas a perspectiva \u00e9 ruim.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas voc\u00eas romperam com o Glauber?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Hoje vamos fazer um show juntos, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o&#8230; Contratualmente eu falei para ele: \u201cGlauber, somos amigos, trabalhamos juntos at\u00e9 agora, mas eu n\u00e3o estou curtindo j\u00e1 tem um tempo e o Vanguart vai acabar\u201d. Ele disse: \u201cP\u00f4, H\u00e9lio, voc\u00ea est\u00e1 mentindo pra mim. Est\u00e1 usando isso para a gente romper\u201d. Eu falei: \u201cN\u00e3o, \u00e9 verdade. N\u00e3o est\u00e1 rolando. Se tiver que continuar assim ou eu vou para Cuiab\u00e1, ou para Europa ou sei l\u00e1, vou fazer umas fitas, descolei uma nacionalidade italiana e vou nessa. Hoje o Vanguart \u00e9 a minha vida, mas eu n\u00e3o vou fazer o que n\u00e3o quero para manter uma coisa que logo n\u00e3o vou querer mais\u201d. Ent\u00e3o ele perguntou o que eu queria e eu disse que queria ficar sem exclusividade, para poder parar quando quisesse. Ele at\u00e9 disse que entendia, mas tamb\u00e9m precisa entender que para mim \u00e9 importante estar independente de um jeito que fa\u00e7a bem para a banda. No princ\u00edpio ele n\u00e3o entendeu, n\u00f3s \u201ctretamos\u201d, s\u00f3 que uma semana depois conversamos e nos entendemos. E pronto. Ainda temos o contrato. A \u00faltima coisa que gosto \u00e9 discutir com algu\u00e9m com quem fiz muitas coisas juntos, ent\u00e3o sentei com ele e bati a real. E rolou. Ele foi bacana conosco nesse sentido. Estou editando minhas m\u00fasicas com ele ainda. Temos um monte de coisas juntos. \u00c9 uma necessidade muito mais art\u00edstica que eu tinha. Estava me sentindo preso, n\u00e3o tinha exig\u00eancia nenhuma, mas, porra, raspei a cabe\u00e7a com 16 e fui para Bol\u00edvia com 17. N\u00e3o ia assinar contrato para ficar preso. Fiquei e me fodi.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas voc\u00ea tem algo pronto? Quantas m\u00fasicas gravadas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Mandamos uma pr\u00e9via para a Universal com 18 m\u00fasicas e vamos mandar mais 18. V\u00e3o ser 36 para escolher. Disso, metade em ingl\u00eas e metade em portugu\u00eas. Tem guitarra sem distor\u00e7\u00e3o, ainda continuamos negando tudo, mas estamos cada vez mais longe do rock &#8216;n&#8217; roll. Essa \u00e9 \u00fanica coisa que eu posso dizer com certeza.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a arte, o palco?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">O palco pode ser a etapa final. Sabe quando voc\u00ea se apaixona e \u00e9 correspondido? Sabe essa alegria? Ent\u00e3o voc\u00ea a beija na primeira noite, voc\u00eas se acariciam e voc\u00ea n\u00e3o quer saber se voc\u00ea vai para a casa dela, se ela vai para sua, se voc\u00eas v\u00e3o meter, voc\u00ea n\u00e3o quer saber disso porque n\u00e3o \u00e9 importante. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o seja importante, mas voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o envolto em uma coisa que o gozo \u00e9 algo eventual. O palco \u00e9 o gozo, \u00e9 a etapa final. Muitas vezes voc\u00ea nem precisa chegar nele, mas acabamos sempre indo para o palco. \u00c9 um dos momentos mais afirmativos.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como est\u00e3o os shows nesse per\u00edodo de mudan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Os shows do Vanguart t\u00eam sido incr\u00edveis porque estamos fazendo um repert\u00f3rio baseado no primeiro disco, com duas, tr\u00eas in\u00e9ditas. E com Caymmi. Tem sido incr\u00edvel. O Vanguart nunca foi t\u00e3o rock &#8216;n&#8217; roll, o Caymmi \u00e9 rock no palco. Quando eu vou pra casa compor e ensaiamos com os meninos, \u00e9 totalmente o oposto. E sinto que vamos precisar de todos esses anos de espera justamente para analisarmos, entendermos esse processo. O pr\u00f3ximo disco vai vir bem pouco rock &#8216;n&#8217; roll, embora ao vivo eu possa tocar m\u00fasicas com pegada rock. Mas o nosso show vai ter, fatalmente, um bloco no futuro que vai ser MPB. \u00c9 um passo natural. Volto a dizer: o rock &#8216;n&#8217; roll pra mim \u00e9 mais uma possibilidade. E n\u00e3o uma religi\u00e3o como \u00e9 pra 98% das pessoas com quem eu convivo. O rock foi importante, mas n\u00e3o \u00e9 um dogma. E posso muito bem viver sem ouvir rock at\u00e9 o fim da minha vida. N\u00e3o \u00e9 que eu acho bonito falar mal do rock, mas \u00e9 verdade, \u00e9 sincero. N\u00e3o acho legal, pelo contr\u00e1rio: acho bem careta ouvir rock &#8216;n&#8217; roll hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Nessa linha, quando \u00e9 que voc\u00ea vai fazer MPB?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">J\u00e1 estou fazendo MPB desde o come\u00e7o. O Vanguart pode ser analisado como um disco de MPB. Se o Caetano no \u201cTransa\u201d, quando canta \u201cYou Don\u2019t Know Me\u201d, \u00e9 MPB, ent\u00e3o acho que tamb\u00e9m sou. Claro que eu n\u00e3o sou o Caetano. Sou muito menos. Um guri do Mato Grosso que lan\u00e7ou um disco. Mas eu cantando em ingl\u00eas no meu primeiro disco, para mim, \u00e9 MPB.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Houve uma grande discuss\u00e3o devido \u00e0 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/13\/carta-aos-musicos-e-artistas\/\" target=\"_blank\">carta do Jo\u00e3o Para\u00edba<\/a> aqui no Scream &amp; Yell. Em certo momento, perguntamos por que o Romulo Fr\u00f3es n\u00e3o tocava nos festivais independentes. A resposta foi: \u201cAh, o R\u00f4mulo tem um perfil controverso para festival de rock\u201d. Desde quando os festivais s\u00e3o de rock?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Desde quando os festivais emburreceram se fechando em uma tem\u00e1tica \u201crock stoner, guitarra \u00e9 legal\u201d. Guitarra s\u00f3 \u00e9 legal quando \u00e9 bem feita. A partir de 2006, os festivais independentes emburreceram. Por que o Vanguart sumiu dos festivais? Porque n\u00e3o tem mais espa\u00e7o. S\u00f3 tem espa\u00e7o para bandas que \u201cagitam a galera\u201d (aumenta a voz). Isso \u00e9 o rock &#8216;n&#8217; roll brasileiro independente atual. \u00c9 som pesado. S\u00f3 que o \u201cKind of Blue\u201d \u00e9 mais pesado que o \u201cArtista Igual Pedreiro\u201d. N\u00e3o ataco o rock quando falo mal dele. Eu falo mal da caretice, do fechamento art\u00edstico totalmente burro que o rock faz. Um exemplo: a galera que jogou lata no Lob\u00e3o quando ele subiu com a Mangueira pra tocar um som pesado e ningu\u00e9m entendeu. Essa \u00e9 a massa rock que me decepciona. Ainda bem que eu n\u00e3o estou nesse bolo porque parece que o som pesado \u00e9 o que rola. Minha esperan\u00e7a \u00e9 que daqui a cinco anos seja diferente, que o R\u00f4mulo esteja ganhando uma puta grana com as m\u00fasicas dele e que eu possa estar compondo para algu\u00e9m, porque hoje estamos compondo uma m\u00fasica que se fode porque \u00e9 diferente. O Romulo \u00e9 um dos artistas mais corajosos, inquietos e criativos dos \u00faltimos anos. O nosso disco novo tem coisas t\u00e3o diferentes, bizarras, que resolvemos n\u00e3o lan\u00e7ar&#8230; ainda.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Por que n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A gravadora fez uma press\u00e3o pra ter uma m\u00fasica forte e eu disse que n\u00e3o tinha uma, mas 14, que todas eram fortes, dependendo do jeito que voc\u00ea olha (risos). Tem uma que fala: \u201cEu te levei at\u00e9 a praia \/ eu me desfiz da minha esposa \/ eu joguei fora o meu dinheiro \/ e eu dei de costas para um amigo e s\u00f3 sonhei meu desengano\u201d. Coisas de voc\u00ea ter se fodido mesmo, e eles n\u00e3o acharam forte. Ent\u00e3o isso mostra que at\u00e9 nossa gravadora, que sempre foi incr\u00edvel conosco, sempre nos entendeu, est\u00e1 pensando de outra maneira. Assim como eu acho que 90% das bandas brasileiras est\u00e3o pensando de outra maneira. Ainda mais as bandas novas que entraram e vislumbraram um cen\u00e1rio de festivais independentes. \u201cMeu, vamos viajar o Brasil inteiro curtindo? Comendo buceta? Vamos, vamos?\u201d E quem n\u00e3o vai? \u00c9 foda. E tudo envolve paix\u00e3o porque todos est\u00e3o apaixonados pelo som que est\u00e3o fazendo, mas n\u00e3o est\u00e1 existindo um questionamento sobre o que se est\u00e1 fazendo. Falta uma sagacidade art\u00edstica de \u201cvamos fazer diferente, mesmo que seja uma bosta\u201d. Est\u00e1 todo mundo s\u00f3 seguindo a onda. E quem est\u00e1 tendo essa sagacidade \u2013 como o R\u00f4mulo, a Lulina e o pr\u00f3prio Vanguart \u2013 est\u00e1 se fodendo porque n\u00e3o falam a l\u00edngua dos festivais, que acharam muito mais c\u00f4modo pegar bandas que seguem uma onda. Funciona pra eles. O p\u00fablico vai rolar e a politicagem est\u00e1 na ponta da l\u00edngua. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de prioridades. Quem n\u00e3o est\u00e1 tendo a prioridade de defender a cena e tocar de gra\u00e7a pelo Brasil inteiro est\u00e1 em casa, por isso que continua fazendo coisa boa, como o Romulo Fro\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>E voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Voc\u00eas n\u00e3o sabem o que eu estou fazendo? Voc\u00eas ouviram o Major Luciana?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Vimos um peda\u00e7o do show na abertura do Jonathan Richman, bem estranho&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Yes!<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>A Universal tem contrato de quantos discos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Fizemos um contrato de um a quatro discos. Ent\u00e3o j\u00e1 fizemos o primeiro, que foi o ao vivo. Se n\u00f3s educadamente quisermos romper \u00e9 s\u00f3 comunic\u00e1-los, mas ainda estamos conversando. N\u00e3o temos nenhuma obriga\u00e7\u00e3o, at\u00e9 por isso eu estou com esse discurso. Quando a \u00e1gua bater na bunda, o discurso muda.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Parece que a Universal tem uma janela para o trabalho de voc\u00eas muito maior do que voc\u00eas imaginavam.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Sim, mas vamos chegar e apresentar o material. Apresentei o material anterior, que foram 18 can\u00e7\u00f5es. Falei com o diretor art\u00edstico: \u201cOh, essa \u00e9 a pira: provavelmente 40% do disco ser\u00e1 isso. Ouve. N\u00f3s ainda n\u00e3o sabemos o que estamos fazendo\u201d. E ele respondeu: \u201cAchei legal pra caralho. Tem cinco m\u00fasicas que acho fortes, mas n\u00e3o vejo o hit. Voc\u00eas pensam em regravar algo?\u201d Porra, at\u00e9 penso, dependendo da proposta. E agora estamos compondo uma coisa que tem muito mais a ver com a cara da banda e vamos chegar nisso, que \u00e9 parecido com uns 30% da primeira parte. Acho que \u00e9 a nossa cara, n\u00e3o \u00e9 muito cabe\u00e7a como o Major Luciana, que \u00e9 bem complexo. O Vanguart \u00e9 natural. Se eles n\u00e3o se interessarem pelas m\u00fasicas, vamos fazer um disco por fora. A quest\u00e3o \u00e9 que estamos sobrevivendo e \u00e9 outra conduta: s\u00f3 precisamos pagar as contas e fazer um som. Lembro quando fomos assinar com a Universal e a Deckdisc, do grande Rafael [Ramos], queria um contrato de quatro discos. E falei: \u201cBicho, quatro discos? Quando estivermos no segundo nem vai existir mais disco. Que vou gravar um eu sei. Que vou gravar dois eu j\u00e1 n\u00e3o sei. Tr\u00eas j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, agora o quarto n\u00e3o vou gravar nem fodendo\u201d. N\u00e3o podia assinar aquilo. N\u00e3o posso fazer um contrato desses. N\u00e3o estou na m\u00fasica pra fazer carreira. Estou nela para fazer disco, conceito. Se o conceito n\u00e3o rolar, n\u00f3s n\u00e3o vamos gravar. N\u00e3o se assustem se o pr\u00f3ximo disco do Vanguart simplesmente n\u00e3o rolar. A minha pretens\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer som. Se o disco n\u00e3o rolar, eu trabalho em cozinha, fa\u00e7o produ\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas \u00e9 uma coisa que o Tat\u00e1 Aeroplano j\u00e1 falou, algo como quando voc\u00ea comp\u00f5e, voc\u00ea tem que lan\u00e7ar para \u201cse livrar\u201d da m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu tive isso aos 15. Hoje prefiro n\u00e3o gravar um disco sem achar que ele \u00e9 muito foda.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4950708993\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5813   aligncenter\" title=\"helio5_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio5_foto_lili.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio5_foto_lili.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio5_foto_lili-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha o primeiro disco do Vanguart muito foda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">N\u00e3o. Ele \u00e9 um bom disco. Acho at\u00e9 que poderia ser muito melhor. E lembro que rolou uma cr\u00edtica falando, acho que foi at\u00e9 o querid\u00edssimo Jos\u00e9 Fl\u00e1vio J\u00fanior quem falou. Porque o Z\u00e9 Fl\u00e1vio saca muito, assim, das coisas que ele gosta. E lembro que ele mandou uma mat\u00e9ria falando mal do Otto porque o Otto tinha defendido a maconha, e isso \u00e9 at\u00e9 uma queixa com os jornalistas da atualidade, porque eles se comportam como estudantes do Mackenzie. Eles s\u00e3o muito caretas. E ent\u00e3o o Z\u00e9 me encontrou e falei: \u201cBicho, voc\u00ea falou mal de n\u00f3s. Voc\u00ea n\u00e3o ouviu?\u201d. E ele disse: \u201cOuvi, mas parece que voc\u00ea n\u00e3o quis que fosse um disco de rock\u201d. Ent\u00e3o beleza, abra\u00e7o. E nem falei nada porque se o cara diz isso pra mim \u00e9 \u00f3bvio que ele n\u00e3o entendeu. \u201cParece que voc\u00ea n\u00e3o quis.\u201d N\u00e3o \u00e9 isso! Tudo que eu quis foi que n\u00e3o fosse um disco de rock (aumenta a voz). Eu batalhei, fiquei no produtor falando: \u201cEssa guitarra, abaixa\u201d. \u201cEssa pegada est\u00e1 legal, curtiu essa pegada? Abaixa\u201d. Tudo que quis foi querer um disco \u201cn\u00e3o rock &#8216;n&#8217; roll\u201d enquanto m\u00e9rito conceitual, de ter tido um disco bizarro esteticamente em que estou de vestido na capa. O resto n\u00e3o interessa. Sei l\u00e1 se as m\u00fasicas s\u00e3o boas. Contextualizando \u00e9 um grande disco. E pra fazer um segundo disco&#8230; S\u00f3 vou fazer se fizer sentido pra mim, por isso n\u00e3o fiz at\u00e9 hoje. E olha, est\u00e1 todo mundo lan\u00e7ando disco. Show de lan\u00e7amento d\u00e1 muita gente. D\u00e1 dinheiro, d\u00e1 buceta, at\u00e9 droga. S\u00f3 que s\u00f3 eu n\u00e3o estou fazendo show de lan\u00e7amento. E tenho namorada.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o hoje com a Mallu Magalh\u00e3es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Cara, eu gosto muito da Mallu! Acho que ela \u00e9 muito injusti\u00e7ada pela m\u00fasica que faz. Fora que tamb\u00e9m envolve a chegada dela, que foi algo dif\u00edcil pra quem estava acostumado \u00e0 velocidade natural das coisas no mercado. Acho que ela sofreu com isso, com a ida ao Faust\u00e3o e etc. Mas voc\u00eas ouviram o \u00faltimo disco dela? O que voc\u00eas acharam? O que ela fez com 15 eu s\u00f3 fiz com 16. Ent\u00e3o acho que n\u00e3o consegui superar ela, mas me apaixonei pela Mallu porque ela tem um estilo de compor que \u00e9 dela&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Todos os m\u00fasicos se apaixonam por ela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Me apaixonei por ela como me apaixonei pela Cida Moreira. Cada mulher tem seu encanto e quando conheci a Mallu ela trouxe muita coisa boa pra mim. Somos muito parecidos, de compor naturalmente. Valorizo o \u201ctake um\u201d. N\u00e3o aquela grava\u00e7\u00e3o foda. E a Mallu \u00e9 muito \u201ctake um\u201d, natural, por isso que \u00e0s vezes ela se fode e paga um pre\u00e7o da cr\u00edtica, do p\u00fablico e \u00e9 t\u00e3o vista com preconceito, porque ela \u00e9 genu\u00edna. Ela \u00e9 daquele jeito. E \u00e9 por isso que ela \u00e9 t\u00e3o bacana, comp\u00f5e coisas t\u00e3o legais. Eu sou um grande f\u00e3 da Mallu. Sinto que ela est\u00e1 no mesmo ex\u00edlio que eu, mas est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o privilegiada, porque nasceu mulher.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Ela parece ter sido engolida pelo mercado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Essa busca de voc\u00eas tem grande culpa nisso. Est\u00e3o sempre buscando algo novo e n\u00e3o tem que buscar algo novo. O novo vai vir e ele n\u00e3o vai ser novo, vai ser melhor. E voc\u00eas, como jornalistas, tem que ter a sensibilidade de que muitas vezes o novo \u00e9 somente o novo e n\u00e3o tem nada. Ou nem \u00e9 novo, mas est\u00e1 todo mundo chamando de novo e voc\u00eas precisam, pelo trabalho, ir l\u00e1 cobrir o novo, mesmo sem gostar.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas o que \u00e9 o \u201cMallu Magalh\u00e3es 1\u201d ao lado do \u201cBlood on the Tracks\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Acho que ela \u00e9 algu\u00e9m que foi profundamente influenciada pelo Dylan e fez isso de maneira muito boa, especialmente se voc\u00ea olhar o Brasil. \u00c9 s\u00f3 isso. \u00c9 uma leitura que eu tenho. Estou analisando a nossa situa\u00e7\u00e3o, o meio que vivemos. Acho do caralho esse disco da Mallu mesmo ao lado do \u201cBlood on the Tracks\u201d. Obviamente jamais vou comparar ele com o \u201cBlood on the Tracks\u201d, mesmo porque jamais compararia nada com o \u201cBlood on the Tracks\u201d. Talvez o \u201cSongs of Love and Hate\u201d [disco de Leonard Cohen].<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas tudo \u00e9 m\u00fasica. \u00c9 preciso comparar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Mas \u00e9 bizarro comparar a Mallu com Bob Dylan como, ouvi essa semana, comparar Mini Box Lunar com Stereolab. Vanguart com Violent Femmes. Superguidis com&#8230; Foo Fighters? Est\u00e1 louco, meu? N\u00e3o tem que comparar. Falar de influ\u00eancia \u00e9 uma coisa, mas se voc\u00ea for ouvir a Mallu comparando ao Dylan ou ao Leonard Cohen voc\u00ea vai achar uma bosta. Se voc\u00ea for ouvir o Vanguart comparando [ao Dylan] vai achar uma bosta.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>S\u00f3 que o Dylan n\u00e3o escreveu nada para essa gera\u00e7\u00e3o 00 como voc\u00ea escreveu! Nem a Mallu.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Voc\u00ea acha que eu escrevi pra minha gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Sim. L\u00facio Ribeiro e Humberto Finatti tamb\u00e9m j\u00e1 definiram \u201cSem\u00e1foro\u201d como o hino dessa gera\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Acho que analisar a Mallu n\u00e3o tem nada a ver com o L\u00facio ter dito que eu escrevi algo para minha gera\u00e7\u00e3o. Eu li a letra de \u201cLittle Noil\u201d e de \u201cIt Takes Two to Tango\u201d e n\u00e3o tem nenhuma banda brasileira que escreva em ingl\u00eas que chegue aos p\u00e9s dela. Rola um problema com as influ\u00eancias. Ela n\u00e3o tem culpa de ter escolhido o Bob Dylan como influ\u00eancia. Se eu tivesse escolhido fazer uma banda para imitar o Foo Fighters eu estava at\u00e9 hoje tocando guitarra e achando do caralho. No m\u00ednimo rodando os festivais independentes tocando rock &#8216;n&#8217; roll, usando All Star e comendo mulher. Eu n\u00e3o quis isso. \u00c9 careta. Mas acho foda ela ter feito \u201cGet to Denmark\u201d com 14 anos e meio e colocado no MySpace. Quem fez isso? Acho a Lulina foda, mas ela n\u00e3o chegou nesse n\u00edvel de subjetivismo que a Mallu alcan\u00e7ou com 15 anos. Nem n\u00f3s chegamos. Ent\u00e3o acho que ela foi totalmente perseguida. A culpa \u00e9 toda dela, quem se exp\u00f4s foi ela, quem foi no Faust\u00e3o foi ela, eu n\u00e3o iria&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>N\u00e3o mesmo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Nem fudendo. Se n\u00e3o me entenderam no \u201cAltas Horas\u201d v\u00e3o me entender no Faust\u00e3o? N\u00e3o vou l\u00e1 queimar o meu filme.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Tamb\u00e9m n\u00e3o entenderam o Lucas Santanna no \u201cAltas Horas\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">E Lucas Santanna \u00e9 do caralho! Mas o que eu queria dizer em defesa da Mallu: quando ela surgiu tinham duas mil cantoras de MPB por a\u00ed. Chatas. A metade era l\u00e9sbica. Seguindo a regra, hoje qualquer cantora de MPB que n\u00e3o for l\u00e9sbica j\u00e1 \u00e9 subversiva. S\u00f3 nisso a Mallu j\u00e1 \u00e9 subversiva, mas ela tem 15 anos e ainda escreve umas letras boas. \u00c9 \u00f3bvio que iam meter o pau. Desde que cheguei a S\u00e3o Paulo n\u00e3o li letras assim. Eu n\u00e3o acho legal o cara fazer uma letra falando de buceta, mulher e cerveja. Porra, bicho, qual \u00e9? Eu n\u00e3o sou viado, mas a viadagem me apetece. A Mallu est\u00e1 escrevendo coisas subjetivas na escola Dylan&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas ao mesmo tempo voc\u00ea vai ter o C\u00e9rebro Eletr\u00f4nico fazendo uma coisa do caralho com boas letras. Vamos ter o Romulo Fro\u00e9s com as letras do Nuno Ramos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Sim, mas isso \u00e9 10% do todo. Eu venho de uma cidade que \u00e9 perif\u00e9rica. Em Cuiab\u00e1, Bel\u00e9m ou Goi\u00e2nia, 80% das bandas est\u00e3o imitando as pr\u00f3prias bandas de l\u00e1. Elas n\u00e3o t\u00eam personalidade. Voc\u00eas viajam os festivais, sabem como \u00e9.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Beleza. O H\u00e9lio de Cuiab\u00e1, que precisou virar a chave, era um H\u00e9lio que acabou virando umas duas ou tr\u00eas chaves at\u00e9 aqui. Quantas chaves a Mallu virou? E qual vai ser o valor daquele primeiro H\u00e9lio viol\u00e3o e gaita? A Mallu tem tudo para ser uma grande compositora. A diferen\u00e7a \u00e9 que voc\u00ea chegou num ponto e falou: \u201ceu n\u00e3o quero fazer mais quatro &#8216;Sem\u00e1foros&#8217;\u201d. E ela est\u00e1 fazendo uma puta letra legal, mas tocando uma m\u00fasica que ainda sofre de uma refer\u00eancia norte-americana. Tem o seu valor, mas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu achei que nesse disco novo as refer\u00eancias foram muito \u00f3bvias: m\u00fasica norte-americana e Marcelo Camelo. Mesmo assim, ela fez algo com consist\u00eancia que 90% das bandas independentes n\u00e3o fazem. Ent\u00e3o prefiro criticar 90% das bandas independentes que ainda n\u00e3o se encontraram do que meter o pau na Mallu. Ela \u00e9 uma das artistas mais honestas do Brasil, mesmo com todo marketing por tr\u00e1s. O namoro com o Camelo apenas exp\u00f5e ela. E o lance dela ser precoce parece que joga contra ela, quando na verdade devia jogar a favor. Ela \u00e9 uma puta artista. N\u00e3o conhe\u00e7o o Black Drawing Chalks, nunca ouvi. Vi na propaganda da MTV e percebi que era meio \u201cstoner\u201d. Mudei de canal. Eu prefiro valorizar uma mina que est\u00e1 com o viol\u00e3o dela cantando m\u00fasicas e melodias dela do que uma banda que fica fazendo \u201cgan-gan-gan-gan-gan, uaaaau\u201d. \u00c9 uma coisa pessoal, minha. N\u00e3o gosto de rock &#8216;n&#8217; roll, muito menos de bandas de rock que n\u00e3o falam nada. A Mallu, com um viol\u00e3o, me diz mais que 90% das bandas disseram em quatro anos de cena independente. Talvez porque tenha a linguagem folk&#8230; Como eu entendo a Lulina e acho que ela est\u00e1 falando a minha l\u00edngua. Como eu acho que o Romulo, meu Deus&#8230; Ele n\u00e3o est\u00e1 falando a minha l\u00edngua; ele est\u00e1 falando a l\u00edngua que eu vou falar. Gosto de falar [nas letras] sobre o que vejo, o que rola em volta, e rolam coisas t\u00e3o bizarras que n\u00e3o posso nem escrever. Ent\u00e3o usamos met\u00e1foras. A grande m\u00fasica \u00e9 aquela que consegue te trazer anos depois um entendimento ou uma li\u00e7\u00e3o meio vanguarda mesmo. Tem m\u00fasicas que voc\u00ea escreve e entende que \u00e9 uma coisa. Um ano depois voc\u00ea ouve e pensa: \u201cPorra, meu. Eu nunca tinha visto dessa maneira\u201d. E voc\u00ea j\u00e1 passou por uma experi\u00eancia que n\u00e3o tinha passado antes, voc\u00ea se identifica. Enquanto compositor isso \u00e9 uma d\u00e1diva.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Voc\u00ea curte ser int\u00e9rprete?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu s\u00f3 queria ser int\u00e9rprete. Queria gravar meu disco s\u00f3 com m\u00fasicas do J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3. A letra, como compositor, \u00e9 o mais importante, ent\u00e3o como int\u00e9rprete vai ser o mais do caralho para escolher. Tem uma m\u00fasica do Mauricio Pereira chamada \u201cTrovoa\u201d que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o perfeita. Voc\u00ea n\u00e3o questiona porque ela est\u00e1 ali. Senti isso com algumas outras coisas na vida como \u201cJunk\u201d, do Paul McCartney. E paralelamente tem \u201cSozinho\u201d, do Emicida. M\u00fasicas que voc\u00ea n\u00e3o questiona tipo \u201cCap\u00edtulo 4, Vers\u00edculo 3\u201d, dos Racionais. Uma m\u00fasica foda do Los Hermanos: \u201cRetrato pra I\u00e1 I\u00e1\u201d, semi nonsense, com um refr\u00e3o maravilhoso.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quando come\u00e7ou a paix\u00e3o pelo trompete?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ah, adoraria mentir e dizer que ouvi o \u201cKind of Blue\u201d antes, mas eu ouvi \u201cLet\u2019s Get Lost\u201d [disco de Chet Baker] primeiro e descobri muitas semelhan\u00e7as no crossover entre Jo\u00e3o Gilberto e o cool jazz. Curti, vi que ele tocava meia boca e sempre tive o sonho de aprender. No fim do ano passado, resolvi. N\u00e3o estou fazendo aula. Se voc\u00ea sabe o campo harm\u00f4nico no viol\u00e3o, voc\u00ea tem isso na m\u00e3o. No piano tamb\u00e9m. No trompete voc\u00ea tem que ter isso na cabe\u00e7a e no bei\u00e7o. Estou estudando os campos harm\u00f4nicos e intervalos, o principal. A sonoridade ainda est\u00e1 estranha. At\u00e9 componho, s\u00f3 n\u00e3o sai bonito. Tem cinco meses que toco trompete. Depois que voc\u00ea come\u00e7a a tocar trompete, vira piada, uma brincadeira cantar. Voc\u00ea sabe exatamente o que tem que fazer. Chet Baker cantava bem por causa do trompete.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>E literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eu fui fazer uma viagem e levei um livro do [Samuel] Beckett e um do [Jorge Luis] Borges. Foi curioso porque eu li primeiro o Beckett, fui tomado por aquele ar meio junkie dele e estava me sentindo pr\u00f3ximo de Deus. Na volta, estava esperando o \u00f4nibus e faltavam dez p\u00e1ginas para terminar o Beckett, mas resolvi parar e ler o Borges. Cara, Samuel Beckett \u00e9 o caralho! Achava \u00f3timo at\u00e9 ler Borges. Isso agora. Tive uma grande fase Oscar Wilde na \u00e9poca da banda glam. O Oscar Wilde foi foda. Eu dava aula de ingl\u00eas e contava os contos infantis dele. Era lindo. Wilde \u00e9 um cara que me formou muito como leitor. E o Hermann Hesse, que \u00e9 quase a mesma coisa, s\u00f3 que menos viado. Paralelamente teve o Gabriel G\u00e1rcia M\u00e1rquez, que tem uma narrativa que permite um paralelo com Dylan. Se ele fosse escrever m\u00fasica, faria como o Dylan. Ou se o Dylan fosse escrever prosa, escreveria como ele.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea nosso momento atual? Segundo alguns, vamos ter no mainstream Ivete. Autoramas \u00e9 o top dos indies. Imagine que voc\u00ea \u00e9 um m\u00fasico preparando um disco que n\u00e3o \u00e9 pop, mas voc\u00ea vive num cen\u00e1rio em que voc\u00ea faz m\u00fasica, a Ivete faz m\u00fasica, o Autoramas faz m\u00fasica e esse \u00e9 o organograma da m\u00fasica brasileira. Voc\u00ea vai ter um midstream que \u00e9 o Fresno&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Fresno \u00e9 mainstream. Vamos fazer [uma escala] de um a cinco. O Fresno \u00e9 cinco, Autoramas \u00e9 dois e Vanguart \u00e9 um. Ou Vanguart chegou a ser dois e voltou a ser um. O cara da Universal me falou: \u201cMas investimos muita grana no Moptop e n\u00e3o rolou\u201d. Ent\u00e3o, bicho, n\u00f3s vamos rolar muito menos se voc\u00ea pensar com essa mentalidade.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Vanguart ainda toca em festival independente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Eles n\u00e3o t\u00eam nos chamado muito porque acho que n\u00e3o estamos inseridos muito nessa quest\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica. N\u00e3o acho errado fomentar que voc\u00ea precisa se articular, ir com seu produtor e ver se tem algu\u00e9m da associa\u00e7\u00e3o. Acho isso tudo muito v\u00e1lido porque faz com que as novas bandas apare\u00e7am, mas acho que deveria ter um departamento separado para cuidar da manuten\u00e7\u00e3o das bandas que j\u00e1 existem. E uma curadoria totalmente art\u00edstica e nada pol\u00edtica. Sinto falta de bandas que n\u00e3o est\u00e3o tocando mais hoje porque n\u00e3o se adaptaram ao padr\u00e3o pol\u00edtico dos festivais. \u00c9 uma pena.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Mas quando voc\u00ea voltou da Bol\u00edvia, formou a banda e encontrou os caras. Como foi? Voc\u00eas tocaram em v\u00e1rios festivais&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Pablo Capil\u00e9 foi fundamental na hist\u00f3ria do Vanguart. Lembro muito bem quando voltei. Convers\u00e1vamos todos os dias sobre algo novo. Sempre concord\u00e1vamos e diverg\u00edamos no assunto. De que era necess\u00e1ria uma organiza\u00e7\u00e3o. Eu defendia que era uma organiza\u00e7\u00e3o individual de cada um diante de algo. O Pablo sempre defendia uma coisa mais reta, mas nunca deixamos de se admirar pelas ideias iniciais. E n\u00f3s sempre conversamos. S\u00f3 que sempre tivemos prop\u00f3sitos muito diferentes. N\u00e3o minto quando digo que de dois anos para c\u00e1 n\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo. Ou\u00e7o a galera falar, mas paci\u00eancia, a minha quest\u00e3o art\u00edstica de criar algo novo \u00e9 t\u00e3o grande que prefiro n\u00e3o me envolver, porque vou gastar uma energia que j\u00e1 estou gastando com piano e com minha namorada. Estou precisando terminar uma m\u00fasica, n\u00e3o vou ler blog. Talvez por n\u00e3o saber [o que anda acontecendo] o Vanguart n\u00e3o esteja frequentando tanto os festivais que fomentam uma maior participa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea ir l\u00e1 falar com os produtores, sentar e falar: \u201ceu toco aqui e n\u00e3o cobro nada e a gente tenta fazer algumas coisas\u201d. Acho isso v\u00e1lido, mas cada caso \u00e9 um caso e talvez o Vanguart n\u00e3o esteja frequentando porque eu esteja com outros interesses que n\u00e3o sejam apenas de estar participando dos festivais. S\u00e3o de vital import\u00e2ncia, mas j\u00e1 estive l\u00e1 e hoje posso estar em casa&#8230;<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Quando convidamos voc\u00ea para vir aqui, pensamos que era legal ter um cara que esteve dentro do neg\u00f3cio e poderia falar umas coisas boas, outras nem tanto. Falamos dessa forma porque tem gente que acha que somos contra os festivais. N\u00e3o somos. S\u00f3 n\u00e3o aprovamos a maneira como eles v\u00eam sendo feitos, e apenas fazer n\u00e3o basta: tem que fazer bem.<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Entendo que a inten\u00e7\u00e3o seja a melhor do mundo, como a minha tamb\u00e9m \u00e9. Parece que existe certa atitude de defesa natural da Abrafin que n\u00e3o deveria existir. Eles poderiam ter feito uma manuten\u00e7\u00e3o do poder que adquiriram de uma maneira muito mais saud\u00e1vel e muito mais de curadoria do que de parceiros pol\u00edticos. Nisso eles acabaram se enfraquecendo, com pessoas muito influentes que estavam ao lado deles. Faltou um pouco de tato para eles serem mais nobres de abra\u00e7ar quem realmente estava sendo relevante e n\u00e3o s\u00f3 todo mundo que estava apoiando cegamente o trabalho deles. Se me aprofundar na quest\u00e3o vou continuar apoiando, talvez por uma quest\u00e3o natural, mais marxista minha, essa ideia de democratiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que eles levantam. J\u00e1 estive l\u00e1 dentro e sei que as id\u00e9ias do Pablo [Capil\u00e9] s\u00e3o as mais nobres poss\u00edveis. Como isso tem sido conduzido eu n\u00e3o sei, mas gostaria que eles tivessem tido uma curadoria mais neutra do que partid\u00e1ria, porque a Abrafin \u00e9 uma das ideias mais legais dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>Como voc\u00ea imagina estar em dez anos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Quero estar muito louco. De chinelo, passando calor, tomando uma breja na praia. O mundo vai esquentar. A \u00faltima coisa que eu quero daqui dez anos \u00e9 estar em um puta apartamento, paranoico, achando que eu sou foda. Eu quero estar de boa. Fazendo m\u00fasica com uma vis\u00e3o muito mais real do que est\u00e1 rolando de cria\u00e7\u00e3o. Se ainda puder estar fazendo isso, curtindo sem precisar dar a bunda, vou estar satisfeito.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4950705917\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5814   aligncenter\" title=\"helio6_foto_lili\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio6_foto_lili.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"908\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio6_foto_lili.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/helio6_foto_lili-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina o blog <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><br \/>\n&#8211; Marco Tomazzoni \u00e9 jornalista e escreve no <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/cultura\/p1237569155697.html\" target=\"_blank\">iG Cultura<\/a><br \/>\n&#8211; Tiago Agostini \u00e9 jornalista, colaborador da Rolling Stone e assina o blog <a href=\"http:\/\/baladadolouco.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">A Balada do Louco<\/a><br \/>\n&#8211; Liliane Callegari \u00e9 arquiteta e fot\u00f3grafa: <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o do m\u00eas de maio: Lulina e Stela Campos (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/13\/entrevistao-lulina-e-stela-campos\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o do m\u00eas de abril: Romulo Fr\u00f3es (<a href=\"..\/2010\/04\/01\/entrevista-do-mes-romulo-froes\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o do m\u00eas de fevereiro: Nevilton e Heitor (Banda Gentileza) (<a href=\"..\/2010\/05\/13\/2010\/02\/21\/entrevista-do-mes-heitor-e-nevilton\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Mac, Tomazzoni e Agostini\nH\u00e9lio Flanders tem apenas 25 anos, mas suas hist\u00f3rias s\u00e3o as de um cara que j\u00e1 viveu ao menos o dobro disso. Ele parece&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/09\/02\/entrevistao-helio-flanders-vanguart\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5808"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5808"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5808\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5819,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5808\/revisions\/5819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}