{"id":57775,"date":"2020-10-09T02:02:56","date_gmt":"2020-10-09T05:02:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57775"},"modified":"2020-11-17T03:11:45","modified_gmt":"2020-11-17T06:11:45","slug":"especial-lennon-80-o-encontro-de-marco-antonio-mallagoli-com-john","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-o-encontro-de-marco-antonio-mallagoli-com-john\/","title":{"rendered":"Especial Lennon 80 anos: O encontro de Marco Antonio Mallagoli com John"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco Antonio Mallagoli iniciou sua trajet\u00f3ria como f\u00e3 dos Beatles ainda adolescente, nos anos 1960, quando ouviu pela primeira vez \u201cShe Loves You\u201d. Mal imaginava o garoto que, 17 anos depois, receberia de presente do pr\u00f3prio John Lennon o disco de ouro que a banda ganharia pela m\u00fasica. Marco conheceu John na ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de 40 anos do m\u00fasico, em 1980, quando ficou de plant\u00e3o em frente ao Edif\u00edcio Dakota para tentar presentear o beatle com o disco \u201cOs Reis do I\u00ea I\u00ea I\u00ea\u201d, vers\u00e3o brasileira do \u201cA Hard Days Night\u201d. N\u00e3o s\u00f3 conseguira ambos intentos, como fizera com que John Lennon, ap\u00f3s anos, voltasse a ouvir uma can\u00e7\u00e3o da banda que ajudara a eternizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 10 de outubro, Marco p\u00f4de conversar com John. &#8220;Conversamos por cerca de 10, 15 minutos. N\u00e3o sei precisar o tempo exato, porque \u00e9 uma coisa assim que voc\u00ea n\u00e3o calcula. N\u00e3o ando de rel\u00f3gio. E foi uma coisa muito emocionante. Para voc\u00ea parece que foi um segundo, e, ao mesmo tempo, um s\u00e9culo. A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. \u00c9 algo muito forte. Perguntei a ele como ia ser o nome do novo disco. Ele respondeu dizendo que ia ser \u2018Double Fantasy\u2019. E, tamb\u00e9m, que ele ia lan\u00e7ar um outro disco logo depois, no dia 01 de janeiro de 1981. Ele queria que fosse o primeiro disco da d\u00e9cada de 1980. Disse que ia se chamar \u2018Milk and Honey\u2019 e, junto com os dois discos, ele queria sair para uma turn\u00ea. Ele disse que queria come\u00e7ar pelo Jap\u00e3o, Estados Unidos, Europa. E perguntei porque ele nunca veio ao Brasil. Ele falou que nunca tinha sido convidado. E eu o convidei. Ele disse que, depois que acabasse a turn\u00ea nos Estados Unidos, viria. E falou uma coisa muito importante para mim. Vejo isso como uma frase muito significativa na vida dele e dos Beatles: \u2018Depois que terminar essa turn\u00ea, vou chegar em NY, ligar para os outros tr\u00eas e perguntar o que a gente vai fazer da vida&#8221;, relembra Marco e ficamos com aquela sensa\u00e7\u00e3o de que poderia ter sido diferente caso aquele 1980 terminasse de outra forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Marco relembra sua trajet\u00f3ria como f\u00e3 da banda, presidente do <a href=\"http:\/\/revolution9.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">F\u00e3 Clube Revolution<\/a> dos Beatles no Brasil, seu encontro com John, bem como com os outros tr\u00eas Beatles, al\u00e9m de poder falar sobre a figura de John Lennon e em como sua import\u00e2ncia ainda \u00e9 crucial para o mundo. Confira o papo!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Leia tamb\u00e9m &#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-lizzie-bravo-a-brasileira-que-cantou-com-os-beatles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Especial Lennon 80: Lizzie Bravo, a brasileira que cantou com os Beatles<\/a><\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57777\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/5John-e-Marco-10-10-1980.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/5John-e-Marco-10-10-1980.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/5John-e-Marco-10-10-1980-288x300.jpg 288w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marco, voc\u00ea conheceu John Lennon em outubro de 1980. Como se deu esse encontro?<\/strong><br \/>\nEu tinha ido para Nova York porque eu sabia que era anivers\u00e1rio do John e que ele estava l\u00e1. Pensei: &#8220;A chance de encontrar com ele \u00e9 agora, ou sabe Deus l\u00e1 quando&#8221;. Ent\u00e3o, fui. Eu tinha uma lojinha na \u00e9poca e alguns trabalhos para fazer l\u00e1 na cidade. Mas deixei uns dias para ficar l\u00e1 de plant\u00e3o, no Dakota, para esperar o John entrar ou sair. Ent\u00e3o, foi mais ou menos isso que aconteceu. No dia 08 de outubro de 1980, eu estava l\u00e1 na porta de plant\u00e3o, da\u00ed chegou uma limusine, o porteiro abriu o port\u00e3o, ela entrou. O porteiro tipo que encostou os port\u00f5es na limusine para ningu\u00e9m passar dali, sabe? Depois de um tempo, John e Yoko entraram na limusine. Eu estava bem perto do port\u00e3o, os vi saindo de dentro do pr\u00e9dio e entrando no carro. Uma menina que estava atr\u00e1s de mim gritou assim: &#8220;Happy birthday, John&#8221;. Ele saiu e falou: &#8220;Thank you&#8221;. E entrou. E quando a limusine saiu, ele passou na janela do lado direito do carro, e eu estava bem ali. Nesse dia o vi bem de perto. Eu tinha levado o disco brasileiro \u201cOs Reis do I\u00ea I\u00ea I\u00ea\u201d, que \u00e9 como o \u201cA Hard Days Night\u201d saiu no Brasil. Ele \u00e9 diferente da vers\u00e3o inglesa, que tem a capa toda azul. O americano tem a capa com apenas quatro fotos, ao inv\u00e9s daquelas fotos pequenas, e vermelha. E o brasileiro tem a capa vermelha e tinha escrito \u201cOs Reis do i\u00ea i\u00ea i\u00ea\u201d. Fiz uma dedicat\u00f3ria ao John, desejando um feliz anivers\u00e1rio meu e de todos os f\u00e3s brasileiros. Eu queria ter dado na m\u00e3o nele, mas n\u00e3o consegui. Quando vi que o John passou e n\u00e3o consegui entregar o disco para ele, pedi para o porteiro, uma cara chamado Jos\u00e9 Perdomo, para entregar quando ele voltasse. Eu n\u00e3o sabia a que horas o John ia voltar, e nem sabia se eu ia estar ali, mas eu sabia que o Jos\u00e9 Perdomo estaria. Deixei com ele. No dia seguinte, 09 de outubro, era anivers\u00e1rio do John. Voltei ao Dakota. Teve uma hora que come\u00e7aram a escrever no c\u00e9u: &#8220;Happy Birthday, John and Sean.&#8221; E Yoko saiu com Sean e mais algumas pessoas no teto do edif\u00edcio Dakota, em frente \u00e0 rua do Central Park. Ele fica de esquina do Central Park com a rua 72. Corri pra l\u00e1 junto com o pessoal, e todos come\u00e7aram a gritar para o Sean chamar o pai. Dai falaram para irmos na porta que haveria uma surpresa. Quando chegamos l\u00e1 na porta, saiu um cara assim de cabelinho tipo beatle, oclinhos redondinhos iguais ao do John, carregando uma cesta de bolo e umas bexigas autografadas. Ele falou que tinha sido o John, a Yoko e o Sean que haviam mandado. E colocou ali no ch\u00e3o, perto da guarita. Foi todo mundo no bolo e nas bexigas. E eu fui no cara. Eu peguei pelo bra\u00e7o e perguntei quem ele era. Ele respondeu que era o Fred Seaman, secret\u00e1rio do John. Eu me apresentei, disse que era o Marco Antonio Mallagoli, do F\u00e3 Club Revolution, do Brasil. Falei que havia deixado um disco na portaria e queria saber se haviam entregado ao John. Ele demonstrou surpresa e perguntou: &#8220;Ah, foi voc\u00ea? Entra aqui&#8221;. Ele me chamou para dentro dos port\u00f5es do Dakota e me disse que o John havia recebido e gostado muito do presente. E que o John queria saber o que significa o t\u00edtulo no disco. E eu expliquei a ele sobre \u201cKings of Yeah Yeah Yeah\u201d, falei que, no Brasil, abrasileiram o Yeah para i\u00ea. Ele me contou que eu tinha conseguido duas coisas. Primeiro que o John n\u00e3o ouvia Beatles h\u00e1 muitos anos e ele tinha posto o disco na vitrola para ouvir porque ficou curioso em ver como era o som do disco. E queira saber, tamb\u00e9m, se era cantado em portugu\u00eas. E segundo: &#8220;A Yoko est\u00e1 te xingando porque o John n\u00e3o ouvia Beatles h\u00e1 muito tempo e j\u00e1 \u00e9 a terceira ou quarta vez que ele ouve o disco. Ela est\u00e1 te xingando muito porque n\u00e3o queria que ele escutasse nada de Beatles&#8221; (risos). Perguntei se eu podia subir para conversar com o John, e ele falou que, naquele dia, era uma festa particular, mas que ia falar com ele e que, se o John falasse algo, ela ia descer e me chamar. S\u00f3 que nesse dia n\u00e3o aconteceu mais nada. Isso foi no dia 09 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O encontro com o John, ent\u00e3o, foi no dia seguinte ao anivers\u00e1rio dele?<\/strong><br \/>\nIsso. No dia seguinte, 10 de outubro de 1980, eu estava passando pelo Dakota. Eram 8h ou 9h da manh\u00e3 por a\u00ed. Eu vi a limusine parada em fila dupla. E pensei: &#8220;caramba, o John vai sair. Ele vai ter que sair l\u00e1 de dentro da arcada, vai ter que passar pela cal\u00e7ada e entrar na limusine&#8221;. Eu fiquei no meio do caminho. A limusine estava com o motor ligado e presumi que ele ia sair logo. N\u00f3s ficamos quase duas horas esperando, e nada do John sair. Teve um momento em que eu estava conversando com uma menina, de costas para a entrada do pr\u00e9dio. E, de repente, essa menina ficou branca, azul, vermelha. Apontou pra mim e quando eu olhei, o John estava atr\u00e1s de mim. Falei: &#8220;Oi, John. Eu sou o Marco Antonio. Fui eu que mandei aquele disco para voc\u00ea&#8221;. Ele respondeu: &#8220;Ah, legal. Muito prazer&#8221;. Ele apertou minha a m\u00e3o e come\u00e7amos a conversar. O mais engra\u00e7ado \u00e9 que devia ter umas 10, 12 pessoas ali observando. Nesse momento, saiu todo mundo de perto. Passou o jornalista da Rolling Stone, que estava fazendo uma entrevista com ele. Passou a Yoko, e foram os dois para o carro. O John parou para conversar comigo e ficou todo mundo de longe, olhando. Ningu\u00e9m entrou no meio da nossa conversa, tentou falar com ele ou pedir autografo. N\u00f3s conversamos por cerca de 10, 15 minutos. N\u00e3o sei precisar o tempo exato, porque \u00e9 uma coisa assim que voc\u00ea n\u00e3o calcula. N\u00e3o ando de rel\u00f3gio. E foi uma coisa muito emocionante. Para voc\u00ea parece que foi um segundo, e, ao mesmo tempo, um s\u00e9culo. A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. \u00c9 algo muito forte. Perguntei para ele como ia ser o nome do novo disco e ele respondeu dizendo que ia ser \u201cDouble Fantasy\u201d. E, tamb\u00e9m, que ele ia lan\u00e7ar outro disco logo depois, no dia 01 de janeiro de 1981. Ele queria que fosse o primeiro disco da d\u00e9cada de 1980. Disse que ia se chamar \u201cMilk and Honey\u201d e, junto com os dois discos, ele queria sair para uma turn\u00ea. Disse que queria come\u00e7ar pelo Jap\u00e3o, Estados Unidos, Europa. E perguntei porque ele nunca veio para o Brasil. Ele falou que nunca tinha sido convidado. E eu o convidei. Ele disse que, depois que acabasse a turn\u00ea nos Estados Unidos, viria para o Brasil. E falou uma coisa muito importante para mim. Eu vejo isso como uma frase muito significativa na vida dele e dos Beatles: &#8220;Depois que eu terminar essa turn\u00ea, vou chegar em NY, ligar para os outros tr\u00eas e perguntar o que a gente vai fazer da vida&#8221;. Ou seja, eu entendi, e voc\u00ea entendeu tamb\u00e9m, que ele iria falar com os outros e, de repente, poderia acontecer algo de Beatles novamente. Ele me perguntou, tamb\u00e9m, qual m\u00fasica dos Beatles que eu mais gostava. Eu falei que eram todas, que n\u00e3o tinha uma espec\u00edfica. Mas ele ficou insistindo. Eu disse que a primeira m\u00fasica da banda que eu havia escutado tinha sido \u201cShe Loves You\u201d. E perguntei por que da pergunta: &#8220;Por nada&#8221;. Depois de uns 10, 15 dias (John tinha meu cart\u00e3o com endere\u00e7o) chegou l\u00e1 em casa um disco de ouro da m\u00fasica \u201cShe Loves You\u201d com um bilhete do Fred Seaman, que, infelizmente, eu n\u00e3o tenho mais: &#8220;Marco, John pediu para eu lhe enviar esse disco porque ele vai estar melhor nas suas m\u00e3os do que nas dele.&#8221; E a\u00ed eu liguei para o Fred para agradecer o disco e eu perguntei por que o John mandou. Ele disse para mim que o John, quando me encontrou, &#8220;sentiu como se voc\u00eas fossem velhos amigos que h\u00e1 muitos anos n\u00e3o se encontravam. Que ele gostou muito de mim. E a\u00ed ele resolveu me dar esse presente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea det\u00eam uma impressionante cole\u00e7\u00e3o de materiais relacionados ao Beatles, al\u00e9m de um dos mais antigos f\u00e3 clubes da banda. Como o primeiro f\u00e3 clube dos Beatles no Brasil iniciou as suas atividades?<\/strong><br \/>\nNa verdade, o Revolution n\u00e3o foi o primeiro porque, nos anos 1960, o f\u00e3 clube oficial ingl\u00eas tinha uma sede no Rio de Janeiro. Mas quando os Beatles acabaram e o f\u00e3 clube na Inglaterra parou com as atividades, esse f\u00e3 clube no Rio acabou. Tiveram alguns f\u00e3s clubes nesse meio tempo aqui no Brasil, mas nenhum deles foi considerado oficial pelos quatro Beatles. S\u00f3 o Revolution. Depois que conversei com cada um deles foi que pedi e eles me falaram que eu poderia me considerar oficial por eles. E tenho uma carta do falecido Derek Taylor (N.E. assessor de imprensa e diretor de Comunica\u00e7\u00f5es dos Beatles) tamb\u00e9m falando que o Revolution \u00e9 o \u00fanico f\u00e3 clube oficial na Am\u00e9rica Latina reconhecido pelos Beatles. S\u00f3 esclarecendo para n\u00e3o dar margens \u00e0 interpreta\u00e7\u00f5es. Lembro que outro dia uma pessoa da Argentina entrou em contato comigo falando que ela tinha um f\u00e3 clube oficial, e n\u00e3o sei o que. S\u00f3 respondi: &#8220;Ent\u00e3o t\u00e1 bom&#8221;. N\u00e3o quero arrumar atrito com ningu\u00e9m. Tem gente que fala assim: &#8220;Ah, voc\u00ea tem a maior cole\u00e7\u00e3o de Beatles no Brasil\u201d. Eu n\u00e3o gosto de falar muito sobre isso porque tem gente que tem um ego muito grande. Falam que tem a maior cole\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o estou preocupado se a minha \u00e9 a maior ou a melhor, ou nada. Estou preocupado que a minha cole\u00e7\u00e3o me satisfaz, entendeu? Uma vez eu estava em Recife, no Shopping Tacaruna, fazendo uma exposi\u00e7\u00e3o, e chegou um rapaz l\u00e1 dizendo que eu falava que tinha a maior cole\u00e7\u00e3o de Beatles no Brasil. Respondi com um parab\u00e9ns. Ele falou: &#8220;Eu quero que voc\u00ea v\u00e1 na minha casa&#8221;. Pensei: &#8220;Nunca que eu vou na casa desse cara. Porque do jeito agressivo que ele est\u00e1 falando aqui&#8230;&#8221; Depois de uns dias ele veio com uma lista, umas 50 folhas de papel, com os itens da cole\u00e7\u00e3o dele. Disse que queria que eu lesse e assinasse depois, dizendo que a cole\u00e7\u00e3o dele era a maior do Brasil. Eu s\u00f3 perguntei onde eu assinava. Porque \u00e9 uma coisa que n\u00e3o adianta nada voc\u00ea ficar entrando em pol\u00eamica. Tem gente que t\u00eam coisas que eu n\u00e3o tenho, eu tenho coisas que muita gente n\u00e3o tem. Ent\u00e3o, eu acho isso uma bobagem. A ideia \u00e9 eu ter a minha cole\u00e7\u00e3o e ficar feliz com isso. N\u00e3o de ficar competindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entendi. Foi bom voc\u00ea citar esse ponto em corre\u00e7\u00e3o \u00e0 minha impress\u00e3o. Vamos, ent\u00e3o, fazer uma linha cronol\u00f3gica de sua proximidade com a banda at\u00e9 chegar ao F\u00e3 Clube Revolution?. Como come\u00e7ou sua paix\u00e3o pelos Beatles?<\/strong><br \/>\nVou come\u00e7ar l\u00e1 de baixo, t\u00e1? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tudo bem. (risos)<\/strong><br \/>\nEu, quando tinha quatro anos de idade, entrei na casa da minha tia e vi que ela tinha comprado um piano para a minha prima. Eu nunca tinha visto um piano antes. Fui l\u00e1, levantei a tampa do piano, puxei o banco, sentei e comecei a tocar. E ficou todo mundo olhando e falando: &#8220;Nossa, ele est\u00e1 tocando piano?&#8221; E eu pensei: &#8220;Nossa, eu estou tocando piano!&#8221; Meus pais, ent\u00e3o, me colocaram em uma escola de m\u00fasica. Lembro que eu chegava \u00e0 escola de m\u00fasica, e as pessoas colocavam as partituras para eu ler. E eu ficava l\u00e1 tentando tocar e a m\u00fasica n\u00e3o saia. A professora sentava ao piano e tocava. Ela levantava e eu conseguia tocar. Ela a\u00ed puxava a partitura e eu continuava. E ela brigava comigo, dizendo que eu n\u00e3o podia tocar de ouvido. Eu tinha que ler. Eu pensava assim: &#8220;Se eu sei tocar, por que eu vou precisar ficar lendo?&#8221;(risos) L\u00e1 em casa, meu pai ouvia muita m\u00fasica. Sempre. Aos domingos de manh\u00e3, enquanto minha m\u00e3e fazia almo\u00e7o, ele levava a mim e os meus irm\u00e3os (n\u00f3s \u00e9ramos seis filhos) para o quintal e a gente ficava l\u00e1 ouvindo m\u00fasicas, brincando. Ele tocava de tudo. Ele gostava muito de Sinatra, das Big Bands, todo aquele pessoal dos anos 1940. Ele ouvia, tamb\u00e9m, muito as bandas militares que ele gostava. Ele ouvia Elizeth Cardoso, Pixinguinha, Noel Rosa, Luiz Gonzaga. Ele ouvia tudo quanto era tipo de m\u00fasica que chegava \u00e0s m\u00e3os dele. E eu sempre fica l\u00e1 ouvindo junto. Eu ficava mais prestando aten\u00e7\u00e3o nas m\u00fasicas do que brincando. E eu sempre falava pra ele que faltava alguma coisa na minha vida, mas eu n\u00e3o sabia o que era. Nessa \u00e9poca eu tinha 10 ou 11 anos. Em 1963, meu pai trabalhava com exporta\u00e7\u00e3o\/importa\u00e7\u00e3o, e um funcion\u00e1rio dele foi para a Inglaterra. Esse funcion\u00e1rio me conhecia. Naquela ocasi\u00e3o, \u201cShe Loves You\u201d estava em primeiro lugar nas paradas. Ele comprou um compacto e trouxe de presente para mim. No domingo seguinte, meu pai colocou na vitrola. Naquela hora, eu virei pra ele e falei: &#8220;Olha, pai, era isso a\u00ed que faltava na minha vida&#8221;. Foi, assim, amor \u00e0 primeira audi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que, nessa \u00e9poca, a gente n\u00e3o tinha muita coisa. Porque o compacto n\u00e3o tinha capa, n\u00e3o tinha foto. Ele tinha uma capa apenas com o nome The Beatles \u201cShe Loves You\u201d &#8211; Lennon\/McCartney. No lado b, tinha \u201cI&#8221;II Get You\u201d. Mas n\u00e3o dizia muito mais coisas. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma informa\u00e7\u00e3o em livros, revistas, jornais, r\u00e1dios. Ningu\u00e9m na imprensa falava muito sobre os Beatles. Eles s\u00f3 foram ficar mais conhecidos, aqui no Brasil, depois de fevereiro de 1964, quando aconteceu o show no Ed Sullivan, nos Estados Unidos. Naquele momento, eles explodiram para o mundo e para o Brasil, tamb\u00e9m. Foi a\u00ed que a gente come\u00e7ou a ter mais informa\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, essas informa\u00e7\u00f5es vinham meio erradas. Ou \u00e0s vezes totalmente erradas. Ent\u00e3o, por exemplo, era dif\u00edcil alguma revista publicar uma foto deles. E quando publicavam fotos deles, com cada um sozinhos, os nomes eram colocados errados na legenda. Na foto do John, colocavam George; na foto do Paul, colocavam Ringo. Voc\u00ea nunca sabia se o Ringo era Paul, se o George era o John, ou quem era quem. Foi muito complicado no come\u00e7o porque as pr\u00f3prias revistas n\u00e3o tinham muita informa\u00e7\u00e3o. Assim, passaram informa\u00e7\u00f5es muito erradas para a gente. Tinha umas entrevistas, umas mat\u00e9rias, muito sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, sem nexo. Coisas que n\u00e3o diziam muito. Os f\u00e3s, aqui, sofriam muito com isso naquele 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi nesse ponto que voc\u00ea come\u00e7ou a aprofundar-se nas pesquisas.<\/strong><br \/>\nSim. Nas minhas pesquisas, eu peguei uma revista chamada \u201cBeatles Monthly Book\u201d, que era a revista oficial dos Beatles l\u00e1 Inglaterra. L\u00e1 tinha uma coluna de correspondentes. E comecei a escrever para todo mundo cujo nome eu via l\u00e1. Mandava carta para todos eles. E comecei a me corresponder com v\u00e1rias pessoas do mundo inteiro. E foi a\u00ed que come\u00e7ou a chegar para mim outras revistas, informa\u00e7\u00f5es reais, verdadeiras e fidedignas. Passei a receber fotos e materiais da banda. Muita coisa que eu tenho de cole\u00e7\u00e3o, hoje, eu ganhei de algum amigo americano, alem\u00e3o, franc\u00eas, japon\u00eas, brit\u00e2nico. Vinha coisa do mundo inteiro. E eu sempre escrevendo, sempre mandando o que podia daqui do Brasil. Eu fui me aperfei\u00e7oando muito. Fui ficando com muita informa\u00e7\u00e3o que a m\u00eddia brasileira ou a grande m\u00eddia brasileira n\u00e3o tinha o menor interesse em divulgar. Mas aqui tinham f\u00e3s suficientes para poder consumir essas not\u00edcias, essas mat\u00e9rias. Ent\u00e3o, comecei a procurar pessoas, amigos que gostavam. E a gente se reunia, tocava junto, faz\u00edamos umas brincadeiras, e tal. Mas nada a ponto de formar um f\u00e3 clube ou coisa assim. Era mais divers\u00e3o. A gente se reunia aos finais de semana. Eu consegui um super8 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9AiD-02CvVE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">do show de Washington DC<\/a>, depois do <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M6DfG7sml-Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeiro show dos Beatles em est\u00e1dio nos Estados Unidos<\/a>, em 1964. Consegui um \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pc2n-46tLRg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Come to Town<\/a>\u201d, que \u00e9 um show em Manchester, colorido. Tudo em filme super8, mesmo, com som. A gente se reunia na minha casa ou na casa de algu\u00e9m, no s\u00e1bado \u00e0 noite, colocava o projetor de super8 na parede branca, passava o filme e ficava l\u00e1, delirando com aquilo. Porque voc\u00ea n\u00e3o tinha muita coisa. TV n\u00e3o passava. Voc\u00ea n\u00e3o tinha muita informa\u00e7\u00e3o, mesmo depois. Ent\u00e3o, foi bem por a\u00ed. Comecei a ouvir Beatles pela primeira vez com 11 anos. E estou at\u00e9 hoje. Tudo que eu posso, eu tenho, eu coleciono. Beatles ou carreira solo dos quatro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como era observar as mudan\u00e7as dos Beatles desde 1964, passando por \u201cFor Sale\u201d, \u201cHelp!\u201d, \u201cRubber Soul\u201d, \u201cRevolver\u201d, \u201cSgt. Peppers\u201d? Dava para ter uma no\u00e7\u00e3o do que estava acontecendo com a m\u00fasica naquele momento?<\/strong><br \/>\nNos anos 1960, voc\u00ea tinha um disco dos Beatles que era o disco do momento. Lan\u00e7avam aquele disco, voc\u00ea curtia aquilo, mas n\u00e3o sabia se ia ter um pr\u00f3ximo. Se os Beatles iam acabar ali. Se o pr\u00f3ximo disco ia ser t\u00e3o bom quanto esse, se ia ser pior, se ia ser melhor. Voc\u00ea n\u00e3o tinha nenhuma refer\u00eancia. Hoje \u00e9 diferente. Hoje, voc\u00ea vai em uma loja, voc\u00ea compra todos os discos ao mesmo tempo. Pode ouvir do jeito que quiser, come\u00e7ar pelo disco que voc\u00ea quiser. Nos anos 1960, n\u00e3o t\u00ednhamos isso. Voc\u00ea tinha aquele disco e acabou. Voc\u00ea tinha que ouvir aquilo que era o que estava acontecendo no momento. Ent\u00e3o, a gente curtia. E eu fui curtindo o momento de cada disco. E cada um, logicamente, conforme eles foram gravando. Tecnicamente, eles foram evoluindo. Sent\u00edamos uma diferen\u00e7a de disco para disco. Uma coisa muito boa nos Beatles \u00e9 que eles n\u00e3o se repetiam. Eles sempre lan\u00e7avam m\u00fasicas diferentes, mudavam o tom da m\u00fasica. A pr\u00f3pria melodia era diferente. A letra era outra coisa. Eles n\u00e3o ficavam naquela mesmice de repetir a f\u00f3rmula por v\u00e1rios discos. N\u00e3o. Eles soltavam uma m\u00fasica e acabou. Buscavam coisas novas a seguir. Eles foram criando essas coisas novas e eu sentia a evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica deles. Embora o come\u00e7o da banda fosse muito bom (foi a base de tudo e eu tamb\u00e9m n\u00e3o menosprezo isso, claro), deu para perceber que eles estavam evoluindo no est\u00fadio. A cria\u00e7\u00e3o deles estava se manifestando de uma maneira diferente. Eles estavam partindo para outros caminhos, outros rumos. E v\u00e1rias coisas do mundo que aconteciam, giravam, tamb\u00e9m, muito em torno dos Beatles. Giravam em torno das m\u00fasicas deles, dos fatos que circulavam entre eles e das coisas que aconteciam nas suas vidas. Coisas que eram de conhecimento p\u00fablico e not\u00f3rio para todo mundo. A influ\u00eancia deles n\u00e3o foi s\u00f3 na m\u00fasica. Foi tamb\u00e9m no comportamento, no visual. No pr\u00f3prio jeito de falar. Cabelos cresceram, roupas mais descontra\u00eddas vieram, g\u00edrias, liberdade maior de express\u00e3o. Poder falar o que voc\u00ea quer, onde voc\u00ea quiser, desde que n\u00e3o ofenda o outro. Ent\u00e3o, os Beatles ensinaram muita coisa para a gente por meio das m\u00fasicas, dos comportamentos e tal. E nessa evolu\u00e7\u00e3o, eles passaram a usar timbres diferentes nas guitarras, pianos com sons diferentes, teclados. Quando chegou no \u201cSgt. Peppers\u201d, eles colocaram orquestras, que era uma coisa morta naquela \u00e9poca. Ningu\u00e9m mais falava de orquestra. Ningu\u00e9m mais queria ouvir orquestra. Todo mundo queria ouvir guitarra, baixo e bateria. No m\u00e1ximo, um piano no meio, ou um \u00f3rg\u00e3o. Estava todo mundo acomodado naquela situa\u00e7\u00e3o. De repente, os Beatles foram l\u00e1 e mudaram. Eles come\u00e7aram j\u00e1 com \u201cRubber Soul\u201d, colocando c\u00edtara. Ali\u00e1s, no \u201cHelp!\u201d, j\u00e1 tinha um pouco de c\u00edtara, mas n\u00e3o nas m\u00fasicas deles. No disco lan\u00e7ado nos Estados Unidos, voc\u00ea v\u00ea que tem v\u00e1rias faixas com c\u00edtara. Ent\u00e3o, come\u00e7ou com \u201cNorwegian Wood\u201d, no \u201cRubber Soul\u201d, com a c\u00edtara, depois, no \u201cRevolver\u201d, foi com \u201cLove You Too\u201d. E a\u00ed no \u201cSgt. Peppers\u201d, o George chutou o pau da barraca e colocou \u201cWithin You Without You\u201d no estilo hindu. E isso entre outras coisas, como eu disse. Orquestras, efeitos. Tudo aquilo que voc\u00ea ouve, por exemplo, nesses discos, foi criado nos est\u00fadios por eles ou para eles. E os Beatles tiveram muita criatividade naquela \u00e9poca, que era uma \u00e9poca com pouqu\u00edssimos recursos de est\u00fadio, de fazer tudo aquilo junto com o George Martin (N.E. Produtor de quase todos os discos da banda, exceto o \u201cLet it Be\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi uma evolu\u00e7\u00e3o que acabou impactando o modo de diversas bandas em fazer as suas pr\u00f3prias m\u00fasicas.<\/strong><br \/>\nSim. Nos anos 1960, voc\u00ea n\u00e3o podia avaliar o que ia acontecer. Voc\u00ea tinha que esperar a tend\u00eancia. E essa tend\u00eancia musical eram os Beatles. Quando os Beatles lan\u00e7avam um disco, era assim: todo mundo, os Rolling Stones, The Who, The Mamas &amp; The Papas, todo mundo buscava lan\u00e7ar seus discos depois do lan\u00e7amento do Beatles. Nunca ningu\u00e9m se atrevia a lan\u00e7ar um disco antes deles, porque depois que eles lan\u00e7assem, podia ir contra a corrente musical dos Beatles. O disco n\u00e3o ia ser sucesso. Ent\u00e3o, os Beatles ditaram a tend\u00eancia musical dos anos 1960 por meio dessas atitudes, dessa forma de fazer as coisas. No come\u00e7o da carreira, eles tinham que compor, gravar, depois sair para fazer filmes, para shows, para programas de r\u00e1dio e TV. Quando eles resolveram dar um basta, em 1966, em tudo isso, e ficar trancados no est\u00fadio, eles j\u00e1 tinham gravado o \u201cRubber Soul\u201d, j\u00e1 estavam lan\u00e7ando o \u201cRevolver\u201d, que \u00e9 um disco, tamb\u00e9m, muito revolucion\u00e1rio. Ali\u00e1s, acho que os dois juntos daria um \u00f3timo \u00e1lbum duplo. Ap\u00f3s isso, eles come\u00e7aram a preparar o \u201cSgt. Peppers\u201d. Ent\u00e3o, um disco dos Beatles saia a cada cinco meses, no m\u00e1ximo, \u00e0 \u00e9poca. E de repente eles ficaram mais de seis meses sem lan\u00e7ar nada. E a press\u00e3o foi tanta que eles acabaram lan\u00e7ando \u201cPenny Lane\/Strawberry Fields\u201d em compacto, contra a vontade da banda, por uma press\u00e3o do Brian Epstein e da gravadora. E, com isso, eles mudaram o escopo do \u201cSgt. Peppers\u201d. Porque ele era para ser um disco totalmente voltado a Liverpool. Ele era para ser um disco falando da cidade, das pessoas, dos fatos, dos acontecimentos. Da vida deles em Liverpool. A\u00ed quando eles lan\u00e7aram \u201cPenny Lane\/Strawberry Fields\u201d, que era a grande chamada do disco, eles decidiram modific\u00e1-lo e criar um outro conceito. Acabou saindo o \u201cSgt. Peppers\u201d, que foi um disco totalmente revolucion\u00e1rio pra \u00e9poca, porque abriu portas para as orquestras, aos coros, os efeitos especiais com sintetizadores, teclados. Tudo o que voc\u00ea imagina que come\u00e7ou a acontecer na m\u00fasica, come\u00e7ou a acontecer a partir do \u201cRevolver\u201d e do \u201cSgt. Peppers\u201d. Antes disso, o rock era aquela coisa, mais ou menos, Chuck Berry, Little Richards, Elvis Presley. Com um pouquinho de incrementa\u00e7\u00e3o dos Beatles em algumas m\u00fasicas, mas o ritmo era praticamente um rock mais preocupado na melodia, nas letras, sem se preocupar na parte t\u00e9cnica ou na parte instrumental. Sem se preocupar de evoluir aqui, de colocar mais acordes, colocar uma s\u00e9tima, uma oitava, uma ter\u00e7a, como depois eles come\u00e7aram a fazer com o \u201cRubber Soul\u201d e com o \u201cRevolver\u201d. Eles criaram muitas coisas que abriram as portas para muita gente no mundo do Rock, inclusive. Voc\u00ea v\u00ea que os Beatles foram a primeira banda a gravar um heavy metal, por exemplo. Ent\u00e3o, eles fizeram muita coisa. Gravaram valsa. Gravaram muitos estilos de m\u00fasicas diferentes, todos conectados ao rock and roll. Algo que, at\u00e9 ent\u00e3o, nenhuma banda se atrevia a fazer. Ent\u00e3o, eles abriram as portas n\u00e3o s\u00f3 para eles mesmos, como para os Stones, para o Pink Floyd, para o The Who, para que, assim, todo mundo tivesse o livre arb\u00edtrio de criar sem aquela culpa na consci\u00eancia de que eu estou fugindo do rock and roll. N\u00e3o! Tudo \u00e9 rock and roll. E nesse meio tempo surge o psicodelismo, que foi um movimento de paz e amor, como os shows em Woodstock, o festival de Monterey, ambos grandes festivais musicais, dos quais os Beatles n\u00e3o participaram, por diversos motivos. Mas tudo isso foi calcado em cima da m\u00fasica, da atividade, das coisas que os Beatles faziam. Ent\u00e3o, assim, eles tiveram um papel super importante, revolucion\u00e1rio, na m\u00fasica mundial dos anos 1960, principalmente. Inclusive, at\u00e9 na carreira solo, at\u00e9 o come\u00e7o dos anos 1980, tamb\u00e9m, teve muita coisa que eles fizeram j\u00e1 separados que mexeu muito com muita gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda adolescente nos anos 1960, como foi que voc\u00ea iniciou seu acervo relacionado aos Beatles, bem como o acesso aos discos?<\/strong><br \/>\nEra dif\u00edcil. (risos) Eu ia para a escola todo dia, minha m\u00e3e fazia um lanche, ent\u00e3o tinha um sandu\u00edche, um suco. E sempre ela dava um dinheiro para eu comprar algum doce ou algo assim para depois do lanche. E comecei a parar de comer os doces para juntar dinheiro e comprar um compacto simples por m\u00eas. E era o que a gente conseguia fazer na \u00e9poca (risos). Eu tinha um primo que morava na Zona Sul, aqui em S\u00e3o Paulo, no Aeroporto. Eu sempre morei na Zona Norte. E o pai dele era aviador, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, o pai dele trazia coisas das viagens. Principalmente dos Estados Unidos. Ele j\u00e1 era mais velho do que eu. Ent\u00e3o, quando saiu o primeiro disco \u201cBeatlemania\u201d aqui no Brasil, eu n\u00e3o consegui comprar porque n\u00e3o tinha dinheiro. Meu pai n\u00e3o queria comprar porque era caro. Nem sabiam se eu ia curtir, se eu ia dar valor, e tal. E esse primo comprou esse disco. Ent\u00e3o, eu tinha um outro primo que era mais ou menos nove meses mais velho do que eu, o Robertinho, j\u00e1 falecido, infelizmente. N\u00f3s am\u00e1vamos os Beatles juntos. V\u00edamos juntos os filmes dos Beatles. Ent\u00e3o, tinham s\u00e1bados em que \u00e0s vezes a gente pegava um \u00f4nibus aqui na Vila Guilherme, descia no Centro de S\u00e3o Paulo. Depois pegava um outro \u00f4nibus para ir um pouco mais longe, depois um terceiro \u00f4nibus para chegar l\u00e1 no Aeroporto de Congonhas, que era onde morava esse primo chamado Itamar. E a\u00ed o Itamar deixava a gente l\u00e1, \u00e0 vontade. Tinha um quarto dele com um a varanda. Lig\u00e1vamos a vitrola, colocava o disco bem alto, e fic\u00e1vamos na varanda ouvindo o \u201cBeatlemania\u201d seguidas vezes. Uma atr\u00e1s da outra. Porque, depois, dava o hor\u00e1rio, a gente tinha que ir embora, e s\u00f3 \u00edamos ouvir na outra semana. E assim foi at\u00e9 que saiu o \u201cBeatles Again\u201d. Quando o Itamar comprou o \u201cBeatles Again\u201d, ele me deu de presente o \u201cBeatlemania\u201d. Eu agradeci muito. Tenho at\u00e9 hoje. E eu e o Robertinho passamos a ir l\u00e1 aos s\u00e1bados, mas, agora, para ouvir o \u201cBeatles Again\u201d. Depois foi assim no \u201cBeatles &#8217;65\u201d, e assim por diante. Quando a gente fazia anivers\u00e1rio, ped\u00edamos para os tios, para os amigos e tal, para dar discos dos Beatles. Os amigos eram mais ou menos iguais a gente, n\u00e3o tinham muito dinheiro. Normalmente, eles davam compactos. Mas tios e tias sempre davam LPs. Ent\u00e3o, a gente escolhia. Foi mais ou menos assim que eu fui come\u00e7ando a minha cole\u00e7\u00e3o, ganhando discos, comprando um por m\u00eas. De repente, arrumava dinheiro daqui, vendia alguma coisa, comprava outro disco. E assim foi, ganhando daqui, pedindo dali, pegando emprestado sem devolver (risos), aquelas coisas assim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57779\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/beatlemania.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/beatlemania.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/beatlemania-300x149.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curioso ouvir voc\u00ea falar sobre juntar dinheiro de lanche para comprar discos. Fiz o mesmo, s\u00f3 que no come\u00e7o dos anos 1990 com os primeiros CDs dos Beatles a chegar aqui.<\/strong><br \/>\nSim. A Hist\u00f3ria s\u00f3 muda o endere\u00e7o. Muita gente agiu da mesma forma. Eu sou f\u00e3 do vinil. Muito! Eu tenho CD por obriga\u00e7\u00e3o, assim, de algumas coisas que s\u00f3 existem em CD, n\u00e3o existem em vinil. Ent\u00e3o, se eu quiser ouvir, vai ter que ser no CD. Mas eu prefiro ouvir, assim, cem vezes mais no vinil, do que qualquer outra m\u00eddia, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Observar a maturidade alcan\u00e7ada por cada um dos quatro, suas prioridades de vida ao final dos anos 1960, os atritos ocorridos, me faz refletir acerca do t\u00e9rmino da banda.<\/strong><br \/>\nPara mim, os Beatles n\u00e3o acabaram em 1969. Se voc\u00ea for analisar, na verdade, eles nunca falaram &#8220;Acabou os Beatles&#8221;. Publicamente, no caso. Eles tiveram o contrato com Allen Klein, que queria tomar conta de tudo, o que gerou muito atrito. Eles tiveram que assinar um contrato se desfazendo do cara, mas nunca falaram assim: &#8220;Acabou, n\u00e3o vamos gravar mais. N\u00e3o vamos nos encontrar mais&#8221;. Simplesmente, o que aconteceu foi que as atividades pessoais e as atividades musicais de cada um passaram a seguir um caminho diferente. Se voc\u00ea for analisar, os Beatles, quando come\u00e7aram, os quatro juntos estavam em est\u00fadio, hot\u00e9is, shows, avi\u00e3o. Sempre juntos. Os quatro viviam juntos durante o tempo inteiro. A realidade, o mundo deles, eram os Beatles e fim de papo. De 1966 para a frente, esse circulo no qual eles viviam come\u00e7ou a aumentar. Come\u00e7aram a entrar pessoas entranhas. De certa forma, isso foi bom. Mas, tamb\u00e9m de certa forma, foi ruim porque acabou afastando um do outro. Principalmente da parte musical. Eles come\u00e7aram a ter novos conceitos musicais, outras ideias. Cada um come\u00e7ou a ter outros compromissos. E nunca pararam para sentar, conversar e voltar a fazer um disco da banda. Esse eu acho que foi um dos poucos tabus que os Beatles nunca quebraram na vida deles. Quando eles anunciaram a separa\u00e7\u00e3o e os lan\u00e7amentos solos de cada um foram surgindo, eu comecei a pegar os discos solo e a fazer uma fita cassete com o LP dos Beatles do ano pra mim. Eu pegava m\u00fasicas dos discos do Ringo, do John, do George e do Paul, gravava as que eu achava que caberiam em um disco do Beatles, e montava uma fita cassete com um disco dos Beatles. Para mim, os Beatles s\u00f3 foram acabar mesmo em 1980. Eles deram um hiato em 1975, com a aus\u00eancia do John Lennon, at\u00e9 1980. Mas, para mim, at\u00e9 dezembro de 1980, os Beatles ainda existiam. Para mim, eles acabaram junto com o John Lennon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea, tamb\u00e9m, continuou acompanhando as carreiras solos deles? Qual sua opini\u00e3o sobre suas trajet\u00f3rias separadamente?<\/strong><br \/>\nEu continuei e continuo at\u00e9 hoje acompanhando a carreira solo deles. A carreira solo do John e do George, apesar de muita gente n\u00e3o gostar muito, \u00e9 impec\u00e1vel. Eles fizeram verdadeiras obras primas durante esse per\u00edodo. Apesar da Yoko atrapalhar algumas coisas nos discos do John, mas, era o que ele queria. Ent\u00e3o, temos que respeitar isso. O Ringo tem muitos discos bons. E tem muitos discos m\u00e9dios. Tem um ou outro que \u00e9 fraquinho. E o Paul tem muita coisa. Muita coisa, mesmo! Eu amo o Paul, acho que o trabalho dele \u00e9 maravilhoso. Acho que ele n\u00e3o precisa provar nada para ningu\u00e9m. N\u00e3o precisa fazer mais nada na vida, embora eu espero que ele continue fazendo muita coisa ainda por muitos anos. Mas o Paul tem muita coisa. Tem m\u00fasicas que acho que nem ele mais lembra que fez ou que gravou. E tem muitas coisas assim dele que, com certeza, n\u00e3o entrariam em nenhum disco dos Beatles, se ele fosse levar para a banda. Possivelmente, seria vetado pelo John, pelo George, pelo Ringo, at\u00e9 mesmo pelo George Martin. Os f\u00e3s, hoje em dia, muita gente n\u00e3o enxerga isso. Eu acho que o Paul tem discos incr\u00edveis. O \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/22\/discografia-comentada-paul-mccartney\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flaming Pie<\/a>\u201d, na minha opini\u00e3o, \u00e9 o disco mais beatle que ele lan\u00e7ou na carreira solo inteira. E muita gente n\u00e3o gosta desse disco. N\u00e3o reconhece. Ele n\u00e3o foi um disco t\u00e3o aclamado como \u201cBand on the Run\u201d, por exemplo, que \u00e9 um disco maravilhoso. Mas, na minha opini\u00e3o, o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/22\/discografia-comentada-paul-mccartney\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Band on the Run<\/a>\u201d j\u00e1 \u00e9 um disco mais Paul McCartney. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um disco t\u00e3o beatle assim quanto \u00e9 o \u201cFlaming Pie\u201d. Ent\u00e3o, acho que o Paul tem umas coisas que&#8230; (pausa) Por exemplo, o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/22\/discografia-comentada-paul-mccartney\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">McCartney II<\/a>\u201d, daria um \u00f3timo compacto simples ali. Eu, se fosse ele, teria lan\u00e7ado uma ou duas m\u00fasicas e s\u00f3. \u00c9 um disco dele que n\u00e3o gosto. N\u00e3o gosto, mesmo! Pra mim, foi um dos piores discos que ele fez. Mas, ele tem o direito. Ele quis fazer um neg\u00f3cio diferente. Eu sei que tem muita gente que adora esse disco. Mas a minha opini\u00e3o, no meu conceito musical, \u00e9 um disco fraco e eu n\u00e3o gosto. Nas carreiras deles, houve uma riqueza muito grande. O George, por exemplo, ele foi muito sufocado a princ\u00edpio. Ele teve muitas m\u00fasicas que lan\u00e7ou no \u201cAll Things Must Pass\u201d que vinham desde 1965, 1966, e que os Beatles nunca quiseram gravar. Ent\u00e3o, ele juntou tudo aquilo que estava na garganta dele, e soltou no disco. E saiu um \u00e1lbum triplo maravilhoso. Ent\u00e3o, eles t\u00eam muito disso. O John fez coisas fant\u00e1sticas. Mas \u00e9 preciso entender um pouco o John. Ele era uma pessoa muito controvertida. Em um momento, ele falava assim: &#8220;Ah, eu amo os Beatles, eles foram a raz\u00e3o da minha vida.&#8221; E a\u00ed no outro momento ele poderia falar assim: &#8220;Nossa, os Beatles foram a pior coisa que aconteceu na minha vida&#8221;. Ele tinha muitas dessas declara\u00e7\u00f5es nas quais ele mesmo se contradizia. E isso em um per\u00edodo curto, \u00e0s vezes, de diferen\u00e7a. Certa vez, quando falou dos Beatles, ele deu cancha para o Mick Jagger falar mal dos Beatles. E a\u00ed ele virou para o Mick Jagger e falou: &#8220;Olha, eu posso falar mal dos Beatles. Voc\u00ea n\u00e3o pode porque n\u00e3o estava l\u00e1&#8221;. O John era muito assim. Ele tinha muito essas coisas de momento. Tinha momentos em que ele estava de bom humor, que estava bem com a vida, e falava coisas legais. E tinham momentos em que ele n\u00e3o estava bem e que dizia qualquer coisa. Depois ele falava assim: &#8220;Mas eu nunca falei isso&#8221;. E respondiam: &#8220;Sim, voc\u00ea falou. Est\u00e1 gravado&#8221;. Ent\u00e3o, tem muito disso. Mas o trabalho musical dele, se a gente n\u00e3o levar em conta esse aspecto, eu acho um trabalho fant\u00e1stico. Tanto o dele como o do George, mesmo com poucos discos lan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Consegue apontar um disco ou m\u00fasica preferida?<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil dizer um disco preferido da carreira solo. Tem dias que eu acordo com vontade s\u00f3 de ouvir John Lennon. Tem dias que eu acordo com vontade s\u00f3 de ouvir George. Teve at\u00e9 um dia que eu acordei com vontade de ouvir Yoko, por incr\u00edvel que pare\u00e7a (risos). Mas depende do momento, do dia, da situa\u00e7\u00e3o de vida. Eu n\u00e3o tenho um disco predileto, ou uma m\u00fasica predileta. Na minha cabe\u00e7a, eu ou\u00e7o m\u00fasica o dia inteiro, independente de estar ligado em uma r\u00e1dio ou em algum lugar. E a cada hora est\u00e1 uma m\u00fasica diferente de um deles. Ou dos Beatles. Ou qualquer coisa assim. Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil dizer uma, porque tem uma gama muito grande de m\u00fasicas fant\u00e1sticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou a loja que j\u00e1 existia em 1980, bem como o F\u00e3 Clube. Como surgiu a ideia a ideia de criar o f\u00e3 clube tanto como local de reuni\u00e3o de pessoas que gostavam dos Beatles como uma pequena empresa sua?<\/strong><br \/>\nNaquela ocasi\u00e3o, eu j\u00e1 havia ido para os Estados Unido, quando, durante 15 dias, visitei cinco f\u00e3 clubes em estados diferentes. Fui ver como eles funcionavam. Porque eu via assim: tudo quanto era f\u00e3 clube brasileiro que aparecia, fosse dos Beatles, ou de qualquer outro artista, fechava logo. O pessoal n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de manter. Ficava um m\u00eas, dois meses, e o f\u00e3 clube desaparecia. Ent\u00e3o eu, antes de fundamentar o Revolution, eu fui aos Estados Unidos para ver como que o pessoal estava l\u00e1 h\u00e1 15, 20 anos com o f\u00e3 clube e continuava o mantendo. Aprendi muito que um f\u00e3 clube \u00e9 totalmente deficit\u00e1rio. Voc\u00ea tem que ter um suporte, um patroc\u00ednio, ou uma forma de vender coisas para poder manter o f\u00e3 clube. Principalmente nos anos 1960, 1970 e 1980, quando a gente escrevia cartas. Muita gente mandava cartas perguntando mil coisas e voc\u00ea tinha que comprar o papel para responder, o envelope, o selo, e a\u00ed enviar para a pessoa. O pessoal nem selo mandava junto, para voc\u00ea n\u00e3o precisar gastar. Poucos mandavam. Ent\u00e3o, voc\u00ea tinha esse custo se quisesse manter contato com as pessoas. E isso tinha que sair do bolso, porque n\u00e3o era uma fonte de renda. Voc\u00ea podia cobrar uma mensalidade. Essa mensalidade, se voc\u00ea cobrasse muito caro, ningu\u00e9m pagava. Se voc\u00ea cobrasse muito barato, n\u00e3o cobria os custos. Ent\u00e3o, qual era o subterf\u00fagio para voc\u00ea manter um f\u00e3 clube? Era voc\u00ea vender material junto com as coisas. Por exemplo, voc\u00ea respondia uma carta para a pessoa, mas mandava junto um folheto, vendendo, na \u00e9poca, um compacto, um LP, uma fita cassete, um VHS, uma camiseta ou algo assim. A pessoa, comprando isso, voc\u00ea destinava uma parte deste valor para manter o f\u00e3 clube e assim ele n\u00e3o ficar deficit\u00e1rio. Eu aprendi isso com o pessoal l\u00e1 fora e coloquei em pr\u00e1tica. Eu j\u00e1 comecei o Revolution com o amor pelos Beatles, mas com a ideia de uma empresa. De manter, pelo menos, algo como uma mini-empresa, que era centrada em mim apenas, para poder dar continuidade ao trabalho. Porque, sen\u00e3o, eu n\u00e3o conseguiria ir muito longe. Ent\u00e3o, acho que essa coisa empresarial veio junto com o f\u00e3 clube. N\u00e3o foi separado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a abertura da loja?<\/strong><br \/>\nEu abri a lojinha na Faria Lima naquela \u00e9poca e vivia cheio de gente o dia inteiro. De segunda a segunda. Sempre tinha gente. Para voc\u00ea ter uma ideia, nessa primeira viagem que fiz para os Estados Unidos, eu levei 15 dias e comprei bastante coisa para trazer e abrir o F\u00e3 Clube Revolution como uma loja, tamb\u00e9m. Abri a loja ap\u00f3s uns seis ou sete meses que eu estava com o F\u00e3 Clube funcionando. Nessa viagem, eu trouxe material para vender em um m\u00eas. E eu planejava, depois de um m\u00eas, voltar aos Estados Unidos e comprar mais. S\u00f3 que a car\u00eancia aqui no Brasil era t\u00e3o grande e eu n\u00e3o tinha uma dimens\u00e3o e uma ideia exata disso. Todo esse material que eu trouxe para vender em um m\u00eas vendeu em um dia. E isso me surpreendeu muito, de certa forma, porque eu n\u00e3o esperava. Eu esperava, assim, que fossem comprar as coisas, mas n\u00e3o com tanta rapidez e tanta ansiedade. Quando dei por mim, eu j\u00e1 estava viajando, tipo, uma vez por semana para Nova York para buscar materiais de Beatles para suprir a lojinha. E, assim, poder manter o f\u00e3 clube. De repente, quando vi, eu n\u00e3o parei mais. Desde 1979, eu n\u00e3o parei mais. A\u00ed resolvi juntar o \u00fatil ao agrad\u00e1vel <a href=\"https:\/\/www.turismodeexperiencia.com.br\/tour\/magical-history-tour-seguindo-os-beatles-em-liverpool-e-londres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">e comecei a fazer a minha Magical History Tour<\/a>, com viagens para os Estados Unidos e para a Inglaterra (Londres e Liverpool), onde eu mostrava os lugares onde os Beatles haviam passado, onde havia acontecido algo relacionado a banda, locais onde eles moraram, onde tocara, gravaram. Tudo. Come\u00e7ou por a\u00ed. Em 1979, eu j\u00e1 comecei com isso. Foram formas que eu achei de manter o f\u00e3 clube e manter uma liga\u00e7\u00e3o mais forte com as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revista Revolution, lan\u00e7ada na metade dos anos 1990, teve sete n\u00fameros e serviu como um \u00f3timo guia para essa \u00e9poca pr\u00e9 internet. Lembro de ter bastante informa\u00e7\u00e3o aprofundada naquela fase do \u201cAnthology\u201d trazendo a banda \u00e0s not\u00edcias, inclusive.<\/strong><br \/>\nSim, a ideia da revista era fazer uma coisa profissional aqui no Brasil e que n\u00e3o existia at\u00e9 ent\u00e3o. Nem com f\u00e3 clube nenhum. N\u00e3o s\u00f3 dos Beatles, como com nenhum outro. N\u00f3s v\u00edamos surgir v\u00e1rias bandas e, depois de dois, tr\u00eas meses, tanto f\u00e3 clube quanto banda desapareciam porque n\u00e3o tinham continuidade. N\u00e3o eram profissionais. Eles n\u00e3o sabiam levar o produto deles. Afinal, voc\u00ea acaba levando isso como um produto. Voc\u00ea tem que saber trabalhar, por mais que voc\u00ea tenha o amor \u00e0 banda, ao cantor, ao ator ou ao que quer que seja, voc\u00ea tem que saber trabalhar isso para manter a imagem viva. Porque, sen\u00e3o, voc\u00ea d\u00e1 aquele boom, e todo mundo fala e fala, mas daqui a uma semana, ningu\u00e9m fala mais. E acaba caindo no esquecimento. Ent\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1 na hora que estourou tudo, \u00e9 f\u00e1cil, \u00e9 gostoso, \u00e9 legal, e tal. O dif\u00edcil \u00e9 voc\u00ea manter viva toda essa cultura, toda essa hist\u00f3ria, de uma maneira correta, com responsabilidade. N\u00e3o voc\u00ea ficar inventando coisas, entendeu? A ideia da revista era esse registro. \u00c9 isso que eu tenho procurado fazer at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57783\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-Revolution.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-Revolution.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-Revolution-300x143.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s o fim da revista impressa, j\u00e1 com a internet se popularizando no Brasil no come\u00e7o dos anos 2000, voc\u00ea passou a trabalhar mais o site da Revolution?<\/strong><br \/>\nAntigamente, eu atualizava o site com tudo que acontecia. Dai percebi que tudo que eu atualizava saia no site dos Beatles, saia no site do <a href=\"https:\/\/www.paulmccartney.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paul McCartney<\/a>, do <a href=\"http:\/\/www.johnlennon.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">John Lennon<\/a>, do <a href=\"https:\/\/www.georgeharrison.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">George Harrison<\/a>, do <a href=\"http:\/\/www.ringostarr.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ringo Starr<\/a>. Ou seja, as pessoas iam \u00e0s fontes primarias. Para que eu ia ficar repetindo as not\u00edcias no meu site se todo mundo ia ler nos outros canais oficiais da banda? Era uma perda de tempo. Procurei colocar no meu site s\u00f3 coisas que eu coloco com exclusividade. N\u00e3o as not\u00edcias generalizadas, como an\u00fancios de lan\u00e7amentos, como essa colet\u00e2nea do John, \u201c<a href=\"http:\/\/www.johnlennon.com\/news\/john-lennon-gimme-some-truth-the-ultimate-mixes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gimme Some Truth<\/a>\u201d, que vai sair. N\u00e3o tenho muito interesse de divulgar isso porque, na p\u00e1gina oficial, est\u00e1 sendo divulgado. Todas as redes sociais oficiais do John Lennon est\u00e3o divulgando. Ent\u00e3o, acho que perdeu muito sentido eu ficar pegando not\u00edcias que sa\u00edram no site dos quatro Beatles e colocando no meu site. L\u00f3gico que procuro por algo quando \u00e9 muito importante. Alguma coisa mais pessoal, mais comentada. Eu posso at\u00e9 divulgar algo de lan\u00e7amento, mas prefiro aprofundar. Por exemplo, eu se fosse falar agora dessa nova colet\u00e2nea do John Lennon, n\u00e3o ia ser uma coisa muito boa (risos). Porque acho que a Yoko est\u00e1 abusando da gente mais do que ela devia. Porque, para a Yoko, o John Lennon s\u00f3 lan\u00e7ou \u201cImagine\u201d. Ele n\u00e3o lan\u00e7ou outro disco na vida. Eu acho que ela nunca valorizou os outros discos dele e nunca lan\u00e7ou nada de bom. E tem muita coisa fant\u00e1stica dele por a\u00ed. Inclusive, o pessoal chama muito de pirataria e eu n\u00e3o gosto muito desse termo. Porque, a pirataria, ao meu entender, \u00e9 aquela coisa que voc\u00ea pega do oficial, copia e vende. Eu gosto de chamar de alternativo. Um material alternativo. S\u00e3o materiais que o m\u00fasico gravou, fica l\u00e1 na gravadora, ela n\u00e3o tem interesse em lan\u00e7ar isso comercialmente, e, ent\u00e3o, fica guardado. Mas pra gente que \u00e9 f\u00e3, a gente tem interesse de ouvir, de divulgar, de mostrar para os outros e tal. Como a gravadora n\u00e3o quer e n\u00e3o vai ganhar dinheiro com isso, \u00e0s vezes voc\u00ea lan\u00e7a a\u00ed 1000 LPs, 500 Lps, 1000 CDs, 500 CDs, e, assim, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 roubando teu \u00eddolo. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 lesando a gravadora, lesando ningu\u00e9m. E voc\u00ea est\u00e1 levando uma coisa pra frente que, quem \u00e9 f\u00e3 de verdade, vai atr\u00e1s. O pr\u00f3prio Paul McCartney chegou a fazer muito disso. De pegar coisas que ele queria lan\u00e7ar e a gravadora n\u00e3o queria. Ele ia e jogava na m\u00e3o do pessoal pra lan\u00e7ar como disco alternativo. John Lennon era o maior colecionador daquilo que as pessoas chamam de discos piratas. Ele falava que os melhores trabalhos dos Beatles estavam nas coisas que n\u00e3o foram lan\u00e7adas oficialmente. N\u00e3o concordo totalmente com ele nisso, mas tem muita coisa boa no mundo alternativo que voc\u00ea n\u00e3o acha por a\u00ed em muitos lugares. Por exemplo, o \u201cAnthology\u201d. O \u201cAnthology\u201d, primeiro, foi um sucesso enorme de vendas porque h\u00e1 muito tempo n\u00e3o lan\u00e7avam nada novo dos Beatles. Mas, na grande cr\u00edtica e no grande p\u00fablico, muita gente n\u00e3o gostou. Porque tinham coisas l\u00e1 dos Beatles que interessam para quem \u00e9 f\u00e3, como eu, como voc\u00ea, como muitos outros que tem no mundo. Mas n\u00e3o para o cara que compra um disco dos Beatles para ouvir s\u00f3 m\u00fasicas da banda normais. Ali voc\u00ea vai ouvir raridades que, para a gente, \u00e9 fant\u00e1stico. Mas para muita gente que n\u00e3o tem o conhecimento, que n\u00e3o tem a cultura, e n\u00e3o curte Beatles como a gente, \u00e9 um disco que n\u00e3o \u00e9 interessante. Para a gravadora, \u00e9 menos interessante ainda. Porque a gravadora vai se sentir mal de n\u00e3o vender um milh\u00e3o de c\u00f3pias. Eu vejo a coisa desse aspecto. Os Beatles t\u00eam um trabalho muito interessante de muitas coisas que eles fizeram, mas n\u00e3o \u00e9 interesse do p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a internet, creio ter havido uma banaliza\u00e7\u00e3o de muitos fatos e uma pregui\u00e7a em se aprofundar na hist\u00f3ria dos Beatles. Para algu\u00e9m que passou por todas as fases de divulga\u00e7\u00e3o da banda, qual sua impress\u00e3o quanto a esse meio de divulga\u00e7\u00e3o e pesquisa?<\/strong><br \/>\nHoje em dia, a internet tem duas pontas. Uma boa e uma muito ruim. A muito ruim \u00e9 que todo mundo que consegue escrever um site, um blog, ou entra no Instagram e faz uma live, ou qualquer coisa assim, se julga expert em Beatles. Vai l\u00e1 e fala as maiores besteiras do mundo, coisas que voc\u00ea n\u00e3o tem como barrar, porque \u00e9 aquela pessoa que vai l\u00e1 e fala, e tem um monte de gente que segue, que escuta, que v\u00ea, que gosta e acabou. Ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem como filtrar isso. A internet deu uma abertura onde as pessoas falam as coisas com irresponsabilidade, e depois n\u00e3o assumem aquilo que falaram. No final, acabam levando informa\u00e7\u00f5es falsas para as pessoas. Isso eu estou falando em rela\u00e7\u00e3o a Beatles. Elas falam sem responsabilidade nenhuma. Falam e acabou. \u00c9 que nem a pessoa l\u00e1 na Inglaterra, que escreveu um livro dizendo que o John Lennon tinha rela\u00e7\u00f5es sexuais com a Julia, sua m\u00e3e. O moleque quando escreveu o livro tinha 18 anos. Fazia simplesmente 50 anos que a Julia Lennon tinha morrido, e 20 ou 30 anos que o John tinha morrido. Ent\u00e3o, de onde ele tirou isso? Simplesmente foi uma ideia que o garoto teve ou algu\u00e9m passou pra ele. A\u00ed ele escreveu o livro e criou uma pol\u00eamica. Um monte de gente leu. O livro foi vetado, foi recolhido, mas algumas pessoas compraram. Teve alguns escritores famosos at\u00e9, um deles at\u00e9 com um livro lan\u00e7ado em portugu\u00eas aqui no Brasil, que usou desse livro para o dele (N.E. Philip Norman, autor da biografia \u201cJohn Lennon: a vida\u201d). Eu acho um absurdo, porque ele n\u00e3o precisava fazer isso. E nisso ele caiu no conceito de bi\u00f3grafo de Beatles comigo, pelo menos. Ent\u00e3o, sabe, teve tudo isso. Tem muita coisa que, hoje, a internet \u00e9 ben\u00e9fica pela rapidez com que ela divulga as informa\u00e7\u00f5es, mas ela \u00e9 ruim porque nem todas as informa\u00e7\u00f5es que ela divulga s\u00e3o fidedignas ou boas. E eu me ressinto muito disso, sabe? \u00c9 o que eu chamo de &#8220;Dr. Beatles&#8221; na internet direto. Por exemplo, a minha gera\u00e7\u00e3o, o pessoal que viveu os anos 1960, a gente custava para ter uma informa\u00e7\u00e3o, uma mat\u00e9ria, uma not\u00edcia. E quando tinha, a gente lia e relia aquilo. L\u00edamos livros varias vezes at\u00e9 voc\u00ea assumir na tua mente que aquilo existiu, que tinha acontecido daquela forma. Al\u00e9m da hist\u00f3ria viva, t\u00ednhamos uma cultura que veio de livros, revistas, jornais, filmes que a gente leu e viu na \u00e9poca e que est\u00e3o na mente da gente por viv\u00eancia. Hoje em dia, a maioria das pessoas, principalmente os adolescentes, os mais jovens, n\u00e3o t\u00eam isso. Muita gente, se voc\u00ea faz uma pergunta sobre os Beatles, o cara fala assim: &#8220;Pera um pouquinho a\u00ed. Vou olhar aqui no Google&#8221;. A\u00ed ele olha no Google e te responde. Legal. A\u00ed daqui a 10 minutos, voc\u00ea pergunta de novo a mesma coisa, e ele tem que olhar de novo no Google, entendeu? Ent\u00e3o, voc\u00ea percebe que as pessoas n\u00e3o d\u00e3o tanta import\u00e2ncia para fixar aquela imagem, aquela hist\u00f3ria, aquela coisa na cabe\u00e7a, porque ficou t\u00e3o f\u00e1cil voc\u00ea consultar o Google, que voc\u00ea n\u00e3o precisa armazenar isso no teu c\u00e9rebro. Acho isso muito ruim porque acaba, de uma certa forma, na minha opini\u00e3o, emburrecendo as pessoas. Deixando-as mais burras, menos cultas. Sem a preocupa\u00e7\u00e3o de assumir a responsabilidade por uma informa\u00e7\u00e3o. E voc\u00ea sabe, como jornalista, que isso \u00e9 crucial na vida da gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as redes de divulga\u00e7\u00e3o que voc\u00ea costuma usar?<\/strong><br \/>\nUso o Instagram, embora esteja muito decepcionado com a rede, porque fui travado duas ou tr\u00eas vezes. Eu mal entrava no Instagram, postava uma vez ou duas por dia e ele me travava porque eu estava postando muito. Sem explica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tive recursos, n\u00e3o deu pra me defender, nem nada. Fiquei 15 dias sem poder postar, sem fazer nada l\u00e1. Isso me deixou muito chateado e eu passei a usar menos ainda. Ent\u00e3o, uso s\u00f3 pra divulgar coisas, como as lives que eu estou fazendo hoje em dia, algum produto que estamos vendendo e tal. Gosto muito do Twitter, que uso bastante. J\u00e1 o Facebook eu n\u00e3o gosto tanto. Porque o Facebook \u00e9 um local, na minha opini\u00e3o, de fofoquinhas, sabe? Voc\u00ea v\u00ea posts l\u00e1 assim: &#8220;Olha, eu comprei essa camiseta. Eu tenho e voc\u00ea n\u00e3o tem. Eu tenho esse disco e voc\u00ea n\u00e3o tem. Eu tenho isso e voc\u00ea n\u00e3o tem&#8221;. Quer dizer, as pessoas ficam procurando se vangloriar por ter um objeto que o outro n\u00e3o tenha. N\u00e3o se vangloriar por ter conhecimento de que existe aquele objeto, ou de que ela ouviu aquele disco e o achou maravilhoso. N\u00e3o. Ela n\u00e3o fala que o disco \u00e9 fant\u00e1stico, que tem aquele detalhe, que tem aquela m\u00fasica tal. N\u00e3o. Ela apenas fala: &#8220;Eu tenho esse disco e voc\u00ea n\u00e3o tem&#8221;. Acabou. Entendeu? Ent\u00e3o, eu sou at\u00e9 antifacebook. Mal entro. Eu posto as coisas l\u00e1, mas sem entrar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57780\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-George-Harrison-em-1987.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-George-Harrison-em-1987.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-George-Harrison-em-1987-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se deu o seu encontro com os outros tr\u00eas Beatles?<\/strong><br \/>\nO primeiro beatle que eu vi de perto foi o Ringo, em 1974, l\u00e1 nos escrit\u00f3rios da Apple, em Londres, na Saint James St. Eu cheguei l\u00e1, entrei no pr\u00e9dio, ele passou por mim em um corredor, saiu por uma porta lateral, entrou em um carro e eu n\u00e3o consegui falar com ele. A\u00ed, em seguida, veio o George Harrison. Ele vinha ao Brasil em 1979 para o grande pr\u00eamio de F\u00f3rmula 1. Eu j\u00e1 estava sabendo disso pelo Emerson Fittipaldi. Dai eu fui para o Hilton Hotel, encontrei com o George por oito vezes seguidas. A gente conversou entre as entradas e sa\u00eddas dele. Ele sempre parou para conversar. Ele me deu muitos aut\u00f3grafos, sempre muito atencioso. Ele foi muito bacana. Na sequ\u00eancia, encontrei com o John Lennon em 1980, l\u00e1 no Dakota, dia 10 outubro. Agora faz 40 anos. Depois disso, voltei a encontrar com o George em 1986, quando eu passei uma tarde com ele em Los Angeles, por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do disco \u201cCloud Nine\u201d. A gravadora resolveu fazer uma promo\u00e7\u00e3o e me consultou sobre o que a gente poderia fazer. Eu sugeri de fazer um concurso e o f\u00e3 que ganhasse passaria uma tarde com ele. No fim, eu acabei indo porque o f\u00e3 que ganhou tinha outros objetivos, n\u00e3o queria ir pra l\u00e1, muito menos conhecer o George. Eles fizeram um concurso meio estranho. Eu acabei indo e passei uma tarde com ele. Quando cheguei l\u00e1, ele estava hospedado em uma casa da gravadora Warner, que costumava ser a casa da Annie Lennox e do David Stewart, do Eurythmics. E l\u00e1 no fundo eles tinham um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o para demos. Ele foi l\u00e1 comigo, me mostrou o est\u00fadio e tudo. Quando eu entrei, lembrei de um amigo que eu tinha aqui em S\u00e3o Paulo, o Marcus Rampazzo, <a href=\"https:\/\/www.virgula.com.br\/musica\/morre-fundador-da-beatles-4ever-e-professor-de-musica-marcus-rampazzo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que j\u00e1 faleceu, infelizmente<\/a>. Eu s\u00f3 tinha visto uma guitarra Gretsch na m\u00e3o dele. Eu lembrei de uma vez que eu havia ido \u00e0 casa dele para visit\u00e1-lo. Ele estava com essa guitarra e eu pedi pra segurar um pouco. Ele pediu um momento, disse para eu tirar anel, alian\u00e7a, cinto. Pediu para eu me sentar. Ele me deu a guitarra na m\u00e3o, eu toquei nela por alguns segundos. &#8220;T\u00e1 bom, t\u00e1 bom, t\u00e1 bom&#8221;, ele veio falando e pegando a guitarra de volta. J\u00e1 veio com uma flanelinha, limpou toda a guitarra. Ele era muito cuidadoso. E com toda raz\u00e3o do mundo. E eu s\u00f3 tinha visto at\u00e9 ent\u00e3o essa guitarra Gretsch. Quando eu cheguei na casa do George, tinha, assim, um monte de guitarra Gretsch no ch\u00e3o. Quando eu vi aqui, eu imaginei: &#8220;Se o Rampazzo ver isso, ele tem um ataque do cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Porque ele tomava o maior cuidado com as guitarras e elas estavam l\u00e1, no ch\u00e3o. N\u00e3o estavam nem dentro de caixas de guitarra. E tinham v\u00e1rios modelos de Gretsch diferentes. Tamanho, cores, tudo. Da\u00ed o George veio, tocou com uma. Eu fiquei mostrando uma fita que o pr\u00f3prio Rampazzo gravou na casa dele. O George achou que era at\u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o pirata dele. Eu falei que tinha sido o Rampazzo que havia gravado na casa dele. O George fez at\u00e9 um elogio. &#8220;Marcus, a great guitar player&#8221;. E a\u00ed ele foi tocar \u201cIsn\u00b4t a Pity\u201d, mas n\u00e3o estava lembrando o tom. Eu falei que era sol maior. Ele falou: &#8220;Quer tocar comigo?&#8221; Eu falei: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o. Quero ouvir voc\u00ea tocar&#8221;. Ele cantou, tocou e tal. Eu estava interessado em v\u00ea-lo, n\u00e3o eu tocar com ele. Marquei bobeira. Poderia ter tocado com ele. Mas eu n\u00e3o quis, mesmo. N\u00e3o estava preparado para isso. A\u00ed ele disse para eu me sentar e tirou uma foto minha com a guitarra dele. Coisa assim que eu nunca imaginei que fosse acontecer. E foi legal, pois ele me mostrou bastante coisa. Mostrou <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2007\/11\/26\/the-traveling-wilburys-collection\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">os demos do Traveling Wilburys<\/a> que eles estavam gravando l\u00e1. O motivo daquele monte de guitarra estar ali era porque o pessoal estava indo l\u00e1 toda noite. Eu fui durante o dia. Foi uma experi\u00eancia muito legal. A gente conversou bastante, por muito tempo. Ele foi atencioso, muito legal. Depois disso eu estive com o Ringo em 1988, em Saratoga Springs, em um show que ele fez. Ele lan\u00e7ou a primeira All Star Band e eu fui em oito shows diferentes pelos Estados Unidos. Na sequ\u00eancia desses shows, quando acabaram, eu fui para Nova York e encontrei com o empres\u00e1rio dele. Ele falou: &#8220;olha, o Ringo vai tocar amanh\u00e3 em Saratoga Springs&#8221;. \u00c9 uma cidade que fica pr\u00f3xima a Nova York, conhecida por corridas de cavalo. E ele me deu um ingresso e uma credencial. Eu fui l\u00e1 assistir a um show do Ringo, tiramos uma foto juntos e essa foto eu nunca vi at\u00e9 hoje. (N.E. Marco voltou a encontrar Ringo em 2012, quando a ocasi\u00e3o foi registrada em foto). Depois disso, em 1989, eu estive no Madison Square Garden e assisti a dois shows do Paul McCartney. Foi o primeiro show do Paul que eu vi na vida. No segundo show eu conheci o Steve Van Zandt. Ele estava assistindo ao show ao meu lado e n\u00f3s come\u00e7amos a conversar. Quando acabou o show, ele falou que estava indo para um coquetel e me convidou. Quando eu entrei com ele na sala, estava um monte gente. E tamb\u00e9m estavam o Paul e a Linda. Eles estavam do outro lado da sala. Quando eu cheguei pr\u00f3ximo de onde eles estavam, que foi muito dif\u00edcil porque tinha muita gente, eles j\u00e1 tinham sumido. N\u00e3o sei como, mas eles sumiram. Eu os vi de perto, mas n\u00e3o consegui falar. Depois disso, o Paul veio para o Rio de Janeiro em 1990. A\u00ed eu j\u00e1 tinha feito os arranjos com o pr\u00f3prio pessoal da MPL, na Inglaterra, para ir ao camarim dele. Eu fui no primeiro dia. Dei de presente a ele um baixo Dolphin. Um baixo feito especialmente para ele. A gente conversou e quando eu estava indo embora, comentei que a minha filha, Jana\u00edna, de quatro anos, cantava \u201cYesterday\u201d. Falei do meu filho, Jo\u00e3o Paulo, que eu dei esse nome por causa dele e do John. E a\u00ed ele perguntou se eu poderia traz\u00ea-los para ele conhecer. Ele queria conhec\u00ea-los no dia seguinte. J\u00e1 combinamos com a secret\u00e1ria dele na hora. No dia seguinte, eu peguei a minha esposa e meus filhos e a gente foi para o camarim. Ele nos recebeu. Quando a gente entrou, ele falou assim: &#8220;\u00c9 ela?&#8221; e cantou \u201cYesterday\u201d. Imagina voc\u00ea ver o Paul a dois passos de dist\u00e2ncia de voc\u00ea cantando \u201cYesterday\u201d&#8230; A\u00ed ele veio, se ajoelhou, pegou os dois, um em cada bra\u00e7o. Come\u00e7ou a beijar, abra\u00e7ar. Foi uma coisa que eu nunca esperava na vida. Ver o Paul McCartney, ou outro beatle, pegar meus filhos no colo, beijar, e querer brincar com eles e conversar. Foi uma coisa fant\u00e1stica para mim. Eu fiquei babando. Ele foi muito legal. Conversamos muito. Foi muito bacana. Depois disso, ele voltou em 1993 para o Pacaembu, aqui em S\u00e3o Paulo. Eu estive no camarim dele de novo. Ele queira ver como as crian\u00e7as estavam, como eles tinham crescido. A\u00ed n\u00f3s fomos no camarim, eu levei meu baixo Hoffner e ele o autografou. Ficou segurando o baixo um tempo. At\u00e9 brincou dizendo que ia ficar com o baixo. Eu falei: &#8220;Tudo bem. Fica com esse e eu fico com o seu. N\u00e3o tem problema&#8221;. A\u00ed ele falou assim: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. T\u00f4 brincando&#8221; (risos). Depois n\u00f3s tiramos uma foto juntos. Essa foi assim, em camarim, a \u00faltima vez que eu encontrei com ele. Depois eu o reencontrei em v\u00e1rios shows pelo Brasil, nos bastidores. N\u00e3o cheguei a ir ao camarim, mas a gente se falou nos bastidores. Tr\u00eas vezes na nossa Magical History Tour, chegamos a encontrar com ele pr\u00f3ximo \u00e0 casa dele, com ele chegando ou saindo. Ele atendeu a gente, conversou, foi muito bacana. Eu o tenho visto de vez em quando em shows, a gente passa, como jornalista eu vou para os bastidores. \u00c0s vezes ele passa, me cumprimenta. Aquelas coisas assim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57782\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-sua-familia-com-Paul-Linda-em-1990.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"593\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-sua-familia-com-Paul-Linda-em-1990.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marco-e-sua-familia-com-Paul-Linda-em-1990-300x237.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marco relembra sua trajet\u00f3ria como f\u00e3 da banda, presidente do F\u00e3 Clube Revolution dos Beatles no Brasil, seu encontro com John, bem como com os outros tr\u00eas Beatles, al\u00e9m de poder falar sobre a figura de John Lennon e em como sua import\u00e2ncia ainda \u00e9 crucial para o mundo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-o-encontro-de-marco-antonio-mallagoli-com-john\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57778,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4273,4272,1187,4274,1521],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57775"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57775"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58474,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57775\/revisions\/58474"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57778"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}