{"id":57759,"date":"2020-10-09T00:27:23","date_gmt":"2020-10-09T03:27:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57759"},"modified":"2020-11-17T03:13:08","modified_gmt":"2020-11-17T06:13:08","slug":"especial-lennon-80-lizzie-bravo-a-brasileira-que-cantou-com-os-beatles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-lizzie-bravo-a-brasileira-que-cantou-com-os-beatles\/","title":{"rendered":"Especial Lennon 80 anos: Lizzie Bravo, a brasileira que cantou com os Beatles"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu acho estranho comemorar o anivers\u00e1rio de uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 mais aqui. A gente vai celebrar o nascimento dele, mas, infelizmente, ele n\u00e3o est\u00e1 mais aqui para se desejar feliz anivers\u00e1rio. \u00c9 dif\u00edcil falar do John, porque ele \u00e9 uma pessoa, uma figura t\u00e3o importante na minha vida. As coisas que ele dizia me impressionavam muito. Desde menina. A maneira dele pensar, a maneira dele ser. As m\u00fasicas dele, claro, maravilhosas. As imperfei\u00e7\u00f5es dele, porque ele era humano. Ali\u00e1s, ele nunca pretendeu ser nada al\u00e9m do que ele foi&#8221;, me fala <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bravolizzie\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lizzie Bravo<\/a> ao final dessa entrevista acerca de sua experi\u00eancia de vida como f\u00e3 dos Beatles e, em especial, de John Lennon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lizzie chegou a Londres em 14 de fevereiro de 1967. Partindo do Rio de Janeiro, nunca esperava que, naquele mesmo dia que chegou \u00e0 Inglaterra, estaria de frente para seus \u00eddolos nas portas do Abbey Road Studios durante o per\u00edodo em que o quarteto gravava seu \u00e1lbum pilar \u201cSgt. Pepper&#8217;s Lonely Hearts Club Band\u201d. Muito menos que, praticamente um ano depois, em 04 de fevereiro de 1968, estaria gravando com a banda na faixa \u2018Across the Universe\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre essas duas datas, e al\u00e9m delas, Lizzie conviveu rotineiramente com contatos com a banda, seja nos plant\u00f5es que passou em frente aos est\u00fadios, quanto nas ruas pr\u00f3ximas a Abbey Road. Nesse per\u00edodo, uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade se deu com os Beatles, quando p\u00f4de desconstruir muito da imagem de \u00eddolos inalcan\u00e7\u00e1veis que muitos tinham deles. &#8220;Sabe, voc\u00ea estava conversando com eles, em momento algum voc\u00ea ficava pensando: &#8216;estou conversando com um Beatle&#8217;. N\u00e3o. Porque eles eram t\u00e3o &#8216;na boa&#8217;, t\u00e3o normais, que voc\u00ea ficava tranquilo. Eles n\u00e3o tinham nenhuma coisa do tipo: \u2018Ah, sou um astro pop\u2019. N\u00e3o. Eles n\u00e3o tinham nada disso. Lembro de uma vez que a gente estava l\u00e1, de noite, passando aquele frio desgra\u00e7ado. A\u00ed acho que o Paul deve ter ficado de saco cheio, saiu l\u00e1 de dentro do est\u00fadio, sentou l\u00e1 com a gente na escada. N\u00f3s todas agasalhadas, e ele de camisa. Lembro que ele falou: &#8216;T\u00e1 friozinho aqui, n\u00e9?&#8217; &#8216;Sim, t\u00e1 bem friozinho&#8217;. Ele perguntou: &#8216;E a\u00ed? O que voc\u00eas est\u00e3o fazendo?&#8217; E n\u00f3s respondemos: &#8216;U\u00e9, n\u00f3s estamos esperando voc\u00ea!&#8217; (risos). Enfim, ele sentou l\u00e1 pra bater papo&#8221;, relembra Lizzie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s aquele final de d\u00e9cada de 1960, Lizzie Bravo retornou ao Brasil. Aqui, se tornou cantora, trabalhou com diversos nomes da MPB, teve uma filha, viajou o mundo a trabalho e morou em outros pa\u00edses. Em 2015, lan\u00e7ou um livro sobre seus dias com Beatles no qual resgata seus di\u00e1rios de adolescente, centenas de fotos da \u00e9poca e um sonho realizado. Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Lizzie fala sobre seu amor pelos Beatles, sobre cantar com eles e sobre a figura John Lennon na ocasi\u00e3o em que ele completaria 80 anos de idade. Confira o papo!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Leia tamb\u00e9m &#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-o-encontro-de-marco-antonio-mallagoli-com-john\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Especial Lennon 80: O encontro de Marco Antonio Mallagoli com John<\/a><\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Across The Universe (Remastered 2009)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/90M60PzmxEE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lizzie, essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que voc\u00ea j\u00e1 deve ter contado muitas vezes desde ent\u00e3o. Mas, voc\u00ea poderia falar um pouco sobre o seu primeiro dia em Londres, quando viu os quatro Beatles em Abbey Road, naquele 14 de fevereiro de 1967?<\/strong><br \/>\nOs Beatles pararam de fazer excurs\u00f5es no final de 1966. Ent\u00e3o, a minha melhor amiga, Denise (Werneck), e eu, ficamos em um conflito. Como \u00e9 que a gente vai fazer para conhecer esses caras? Porque eles n\u00e3o v\u00e3o vir ao Brasil. Ent\u00e3o, n\u00f3s convencemos nossos pais a mandar a gente para Londres como presente de 15 anos. N\u00f3s t\u00ednhamos acabado de fazer 15 anos. Eu no final de maio e ela em meados de junho (de 1966). N\u00e3o sei se hoje em dia ainda se faz isso, mas, naquela \u00e9poca, ao se completar 15 anos, tinha uma festa para te apresentar para a sociedade. Aquela coisa cafonerrima que a gente n\u00e3o queria. Ou voc\u00ea ia para a Europa. Mas, geralmente, voc\u00ea ia para a Europa naquelas viagens com guias, excurs\u00e3o, uma por\u00e7\u00e3o de mo\u00e7as. E n\u00f3s s\u00f3 quer\u00edamos ir para conhecer os Beatles. O intuito da viagem era esse. A minha sorte foi que a Denise foi na frente, algumas semanas antes. Meu pai estava viajando, e eu precisava que ele assinasse a documenta\u00e7\u00e3o para eu poder viajar sozinha com 15 anos. Ent\u00e3o, quando cheguei l\u00e1, ela, que j\u00e1 vinha me escrevendo, sabia tudo. Sabia onde eles moravam, onde gravavam, a que horas chegavam ao est\u00fadio. Tudo. Tanto que cheguei a Londres no dia 14 de fevereiro de 1967, n\u00f3s nos encontramos na esta\u00e7\u00e3o de trem, largamos as malas no hostel, e fomos direto para os est\u00fadios. Porque ela tinha os visto entrando para gravar, eles estavam gravando o \u201cSgt. Peppers\u201d. Ela falou: &#8220;Vamos para l\u00e1 que eles v\u00e3o sair&#8221;. N\u00f3s fomos e, algumas horas depois, sa\u00edram primeiro o John e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-charles-gavin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ringo<\/a>. Depois sa\u00edram o Paul e o George, junto com o Brian Epstein. Ou seja, no dia que cheguei a Londres, com a mesmas roupa, pois a Denise n\u00e3o deixou nem eu tomar um banho e mudar de roupa, eu vi os quatro Beatles e o Brian Epstein. No mesmo dia que cheguei. Imagina o choque. Num dia estou no Leme, na minha casa, e, no dia seguinte, eu estou vendo os quatro Beatles. Foi meio de supet\u00e3o, tudo de uma vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea acabou ficando l\u00e1, n\u00e3o retornando na data combinada com seus pais. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nMeus pais achavam que eu ia ficar s\u00f3 durante as f\u00e9rias. O que eles n\u00e3o sabiam \u00e9 que eu n\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o de voltar. Esse foi um probleminha mais adiante. Na hora em que papai ligou pra mim&#8230; Lembrando que telefonar para a Europa naquela \u00e9poca era um neg\u00f3cio complicado. Tinha que pedir a liga\u00e7\u00e3o para a telefonista, esperar. Ele ligou e falou: &#8220;Olha, volta porque sua m\u00e3e est\u00e1 vendo neg\u00f3cio de uniforme, material para escola&#8221;. Eu respondi: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o voltar n\u00e3o.&#8221; A\u00ed foi aquele choque para eles, mas n\u00e3o voltei. Minha amiga voltou para o Brasil, eu n\u00e3o. Sai do hostel, fui trabalhar num hotel de quinta, como faxineira e fazendo caf\u00e9 da manh\u00e3. Mas fui despedida, porque eu n\u00e3o era suficientemente r\u00e1pida para fazer as camas e lavar os banheiros. Sendo que eu nunca tinha feito uma cama em toda a minha vida (risos). Ent\u00e3o, eu n\u00e3o podia ser muito r\u00e1pida. Mas, depois dali, fui trabalhar como \u2018au pair\u2019, que \u00e9 um acordo que o governo faz para trabalho onde voc\u00ea fica com documenta\u00e7\u00e3o e legal no pa\u00eds. \u00c9 quando uma jovem estrangeira vem para a Inglaterra estudar, e ela mora com uma fam\u00edlia, ganha uma mesada. Pouco dinheiro, mas ela mora com essa fam\u00edlia em troca de cuidar de crian\u00e7a ou ajudar na casa. Primeiro, estive em uma casa onde eu era, na verdade, faxineira. N\u00e3o tinha crian\u00e7a para cuidar. Ralei muito. Depois que sai dessa casa, fui para outra muito legal. Essa outra fam\u00edlia \u00e9 minha amiga at\u00e9 hoje. Eles tinham duas menininhas pequenas que eu ajudava a cuidar. Nesse per\u00edodo, entre o final de 1968 e o come\u00e7o de 1969, foi a \u00e9poca em que tive mais estabilidade. Em um lugar legal, em uma casa legal, com um quarto lindo e uma fam\u00edlia bacana. Mas passei muitos perrengues antes disso. Enfim, com 15, 16 anos, voc\u00ea saber que pode ver o seu \u00eddolo, no meu caso, o John, quase todo dia, n\u00e3o h\u00e1 perrengue que segure.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando aconteceu a grava\u00e7\u00e3o de \u201cAcross the Universe\u201d? Eu vi em uma entrevista sua de 2010, para um canal de TV londrino, voc\u00ea e a sua amiga \u00e0 \u00e9poca falando a respeito. Voc\u00eas j\u00e1 se conheciam?<\/strong><br \/>\nA grava\u00e7\u00e3o do \u201cAcross the Universe\u201d foi praticamente um ano depois de eu chegar l\u00e1. Eu cheguei no dia 14 de fevereiro de 1967 e a grava\u00e7\u00e3o foi no dia 04 de fevereiro de 1968. Em 10 dias teria feito um ano. Durante esse per\u00edodo, eu ia todos os dias para os est\u00fadios. Ent\u00e3o, j\u00e1 tinha um monte de amigos. Um monte de amigas inglesas e algumas de outros pa\u00edses. Porque \u00edamos todo dia para a porta da casa do Paul, \u00e0 tarde, porque o John sempre ia l\u00e1 para, sei l\u00e1, acabar de compor ou resolver o que eles iam gravar e, depois, eles iam para os est\u00fadios. Inclusive, o Paul tem essa casa at\u00e9 hoje, em Saint John&#8217;s Wood. \u00c9 a casa dele em Londres at\u00e9 hoje e \u00e9 muito perto dos est\u00fadios. Ele vinha a p\u00e9 \u00e0s vezes. V\u00e1rias vezes ele vinha \u00e0 p\u00e9 e, no ver\u00e3o, ele vinha \u00e0 p\u00e9 e descal\u00e7o. Por isso que quando saiu a capa do \u201cAbbey Road\u201d, n\u00e3o achei nada demais ele estar descal\u00e7o. E as pessoas fizeram o maior au\u00ea, n\u00e9? &#8220;Ah, \u00e9 porque ele morreu, e n\u00e3o sei o que&#8221;. E, claro, quem morava l\u00e1 sabia que era simplesmente porque ele andava descal\u00e7o mesmo. Ent\u00e3o, voltando, nesse dia em que eles estavam gravando \u201cAcross the Universe\u201d, eu chamei essa amiga para cantar comigo, a Gayleen (Pease &#8211; na foto abaixo com Lizzie), que eu j\u00e1 conhecia h\u00e1 um tempo. Eu a conheci logo depois que cheguei l\u00e1. Nesse quase um ano depois, a Denise voltou nas f\u00e9rias. Ela teve f\u00e9rias escolares e voltou a Londres. Estava l\u00e1 no dia da grava\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que n\u00e3o pude cham\u00e1-la pra cantar, pois ela era desafinada. Ent\u00e3o, eu chamei essa minha amiga, a Gayleen, porque ela sempre cantou em coral de col\u00e9gio, que nem eu.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57763\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/lizzie-bravo-e-gayleen-pease.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/lizzie-bravo-e-gayleen-pease.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/lizzie-bravo-e-gayleen-pease-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual foi a sua percep\u00e7\u00e3o, para uma menina de 15 anos, entrar nos est\u00fadios de Abbey Road e cantar com os Beatles?<\/strong><br \/>\nQuando a gente entrou nos est\u00fadios, uma das primeiras coisas que o Paul fez foi me pedir para cantar em &#8220;brasileiro&#8221;. Mas fiquei com vergonha e n\u00e3o cantei em \u201cbrasileiro\u201d, como ele pediu. At\u00e9 hoje tenho raiva. Sempre gostei muito e continuo amando loucamente a m\u00fasica brasileira. Embora a gente tivesse vivido no exterior por um tempo (n\u00f3s moramos, meu irm\u00e3o e eu, com nossos pais na Venezuela por oito anos. Eu fui para l\u00e1 com tr\u00eas anos), meu pai fazia quest\u00e3o de manter a gente informado quanto \u00e0 m\u00fasica brasileira. Ele sempre trazia discos para a gente. Ent\u00e3o, eu conhecia muito a bossa nova. As muitas m\u00fasicas brasileiras que eu poderia ter cantado, n\u00e9? Mas fiquei com vergonha e n\u00e3o cantei. Ainda assim, o ambiente no est\u00fadio foi muito legal. Uma das coisas que contribu\u00edram \u00e9 que, tanto a Gayleen quanto eu, \u00e9ramos meninas calmas, mais para t\u00edmidas. E a gente estava muito acostumada a v\u00ea-los, falar com eles. Praticamente todos os dias n\u00f3s os v\u00edamos. Ent\u00e3o, ficamos tranquilas. N\u00e3o ficamos, sabe, uma cutucando a outra, nem dando risadinha. Ficamos tranquilas, sentadas l\u00e1, rindo das palha\u00e7adas. Curtindo o momento, tomando ch\u00e1 e comendo biscoito. Acho que se tiv\u00e9ssemos nos comportado de uma forma diferente, talvez eles n\u00e3o teriam mantido a gente l\u00e1 para cantar. O fato de n\u00f3s duas sermos do jeito que \u00e9ramos foi positivo. O ambiente no est\u00fadio estava \u00f3timo. Eles, muito entrosados uns com os outros, muito engra\u00e7ados. Sempre tinha algu\u00e9m fazendo alguma palha\u00e7ada. Paul adora tocar bateria, n\u00e9? Bobeou, ele est\u00e1 na bateria. A\u00ed teve uma hora em que ele tocou bateria. Teve outra hora que foi o George tocar com ele. Teve uma hora em que o George sentou no ch\u00e3o e ficou tocando um instrumento indiano. Ele acendeu uns incensos no est\u00fadio. O clima estava super agrad\u00e1vel, tranquilo. Sem press\u00e3o nenhuma. Um clima leve, engra\u00e7ado. Foi uma experi\u00eancia \u00fanica. O John me chamou para cantar no microfone com ele. Ele explicou que o microfone era direcional. Ele tem uma guardazinha retangular na frente. O John me explicou que n\u00f3s dois t\u00ednhamos que cantar naquele espa\u00e7o, porque, sen\u00e3o, o microfone n\u00e3o iria captar. Ent\u00e3o, eu tinha que ficar perto do microfone. E ele falou duas vezes: &#8220;Mais perto! Mais perto!&#8221; Assim, eu era absolutamente apaixonada por ele, sabe? Ele era a raz\u00e3o da minha exist\u00eancia (risos). E a\u00ed ele estava encostado aqui no meu ombro, do meu lado direito, muito perto mesmo. Eu n\u00e3o podia nem olhar para o lado, porque ele estava muito perto. Eu tinha que olhar para a frente e cantar. Naquele momento, a minha emo\u00e7\u00e3o era uma emo\u00e7\u00e3o de menina, apaixonada. Em nenhum momento eu pensei: &#8220;estou cantando com um dos maiores \u00edcones&#8221;, sabe? Alias, nem eu nem a Gayleen, em nenhum momento naquela grava\u00e7\u00e3o, pensamos isso. (Voz empossada): &#8220;N\u00f3s estamos gravando com a maior banda que jamais existiu&#8221;. N\u00e3o. Isso n\u00e3o passou pela nossa cabe\u00e7a. Depois desse dia, eu e ela j\u00e1 nos encontramos outras vezes e conversamos sobre isso. N\u00f3s est\u00e1vamos apenas felizes de estar l\u00e1 dentro, ao inv\u00e9s de l\u00e1 fora, que era o nosso lugar de sempre. Ficar do lado de fora e v\u00ea-los entrar e sair. Isso \u00e9 o que a gente fazia todo dia. E, naquele momento, est\u00e1vamos l\u00e1 dentro junto com eles. Isso era a nossa emo\u00e7\u00e3o daquele momento. E para mim ficar do lado do John foi, assim, imagina! O meu cora\u00e7\u00e3o estava disparado ao ponto de eu pensar se o microfone poderia captar o quanto ele estava disparado. Foi uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. Tenho muitas amigas que me dizem: &#8220;N\u00e3o sei como voc\u00ea conseguiu cantar&#8221;. Mas era porque eu estava muito acostumada a cantar, mesmo. Com o coral. Sen\u00e3o, acho que a minha voz ia falhar. Mas, claro, imagina uma menina do sub\u00farbio carioca, como eu sou. Apaixonada pelo John. F\u00e3 dos Beatles, claro, mas eu era mesmo apaixonada pelo John. Estar t\u00e3o perto dele, cantar junto com ele, saber que a minha voz estava sendo gravada junto com a dele. At\u00e9 hoje, quando ou\u00e7o esse m\u00fasica, eu penso: &#8220;Gente, essa voz que est\u00e1 cantando&#8230; Eu estava l\u00e1! Eu estava l\u00e1 grudada nele!&#8221; \u00c9 muito doido isso. \u00c9 uma coisa, assim, quase inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57764\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Lizzie-Bravo-e-John_Foto-tracks.co_.uk_.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"751\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Lizzie-Bravo-e-John_Foto-tracks.co_.uk_.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Lizzie-Bravo-e-John_Foto-tracks.co_.uk_-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Lizzie-Bravo-e-John_Foto-tracks.co_.uk_-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea estava l\u00e1 em 27 de agosto de 1967, quando morreu o empres\u00e1rio dos Beatles, Brian Epstein. Voc\u00ea se recorda do clima entre os f\u00e3s \u00e0 frente dos est\u00fadios, ou dos pr\u00f3prios Beatles quando voc\u00ea os viu novamente ap\u00f3s o dia fat\u00eddico?<\/strong><br \/>\nNo fim de semana em que o Epi morreu, os Beatles estavam em Bangor, em um encontro de medita\u00e7\u00e3o com o Maharishi. Quando aconteceu, eu tinha 16 anos. Uma pessoa de 15, 16 anos em 1967, \u00e9 equivalente a uma pessoa de oito anos, hoje. A gente era muito crian\u00e7a. Muito, sabe, inocente. A alegria da gente era ver os Beatles. Ningu\u00e9m ficava pensando como eles estavam psicologicamente. N\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00e3o de avaliar isso. Em 1967, eles continuaram indo quase todo dia aos est\u00fadios. Depois eles fizeram o \u201cMagical Mistery Tour\u201d, passaram meses editando o disco. Isso j\u00e1 era em um outro est\u00fadio, no Soho. 1967 seguiu normal. N\u00e3o notei diferen\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu livro tem bel\u00edssimas fotos deles naquele per\u00edodo que voc\u00ea passou em Londres visitando a frente do est\u00fadio. No dia da grava\u00e7\u00e3o, houve alguma foto que voc\u00ea tenha conseguido tirar l\u00e1 dentro?<\/strong><br \/>\nTenho muitas fotos deles, sim. Meu livro tem pouco mais de 200 fotos, a maioria tirada por mim, outras pela minha amiga Denise e por alguns outros amigos que estavam l\u00e1. Do dia da grava\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o tenho nenhuma foto. A \u00fanica foto que tem \u00e9 uma do John saindo dos est\u00fadios que uma amiga tirou e cedeu para que eu colocasse no livro. No dia que entramos para gravar, eu estava com a minha m\u00e1quina, mas o motivo de eu n\u00e3o tirar fotos s\u00e3o dois. Primeiro: eu tirava fotos todos os dias. Nesse dia, eu estava em uma situa\u00e7\u00e3o diferente. Uma situa\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia com eles. Eu achei que n\u00e3o tinha nada a ver eu tirar a m\u00e1quina da bolsa e sair tirando fotos. Segundo: o Mal Evans (N.E. Assistente dos Beatles) estava com uma 35mm, tirando fotos direto da gente. Fez closes meus com o John e com o Paul. S\u00f3 do rosto. Um monte. Um filme inteiro. A\u00ed eu pensei: &#8220;bom, j\u00e1 que ele est\u00e1 tirando foto com essa m\u00e1quina poderosa, eu n\u00e3o vou tirar minha caixinha de pl\u00e1stico barata para tirar foto, porque eu j\u00e1 vou ter fotos maravilhosas&#8221;. S\u00f3 que essas fotos n\u00e3o sa\u00edram. E eu, que eventualmente me tornei fot\u00f3grafa, at\u00e9 imagino o que possa ter acontecido. Ele pode ter colocado o filme na m\u00e1quina e n\u00e3o ter prendido direito. Isso j\u00e1 aconteceu comigo. Na \u00e9poca, logo que ganhei a minha primeira 35mm, percebi que \u00e9 comum acontecer de ficar batendo as fotos, achar que o filme est\u00e1 rodando, mas, na verdade, ele n\u00e3o est\u00e1. Ele est\u00e1 parado no mesmo lugar. Ent\u00e3o, acredito que tenha sido isso que aconteceu com a m\u00e1quina do Mal Evans, por isso as fotos n\u00e3o sa\u00edram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Me lembro de ter visto uma mat\u00e9ria sobre uma pessoal ter comprado uma mala em um mercado de pulgas na Austr\u00e1lia, em 2004, e ao chegar em casa e abrir, achar diversas fotos originais, discos, fitas e outros materiais relacionados aos Beatles. Especialistas em cole\u00e7\u00f5es dos Beatles <a href=\"https:\/\/www.latimes.com\/archives\/la-xpm-2004-jul-18-oe-carter18-story.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ligaram esse material ao Mal Evans<\/a>.<\/strong><br \/>\nEu lembro de ter visto isso na \u00e9poca, mas n\u00e3o me aprofundei muito. Eu sei que o Mal estava escrevendo um livro, que nunca saiu. Sei que o material que ele tinha ficou com a vi\u00fava e os filhos dele, com quem tenho contato pelo Facebook \u2013 eles s\u00e3o gente boa. O Mal era uma figura. Super gente boa. Nesse primeiro dia meu em frente ao Abbey Road, quando eu vi o John pela primeira vez, o Mal me consolou. Lembro que o John foi o primeiro que eu encontrei. Ele desceu a escada onde n\u00f3s est\u00e1vamos sentadas. Quando levantei, dei de cara com ele. A\u00ed, quando ele foi embora, comecei a chorar. A Denise foi e me expulsou (risos). &#8220;Vai chorar em outro canto que o Paul vai sair e eu n\u00e3o quero que ele te veja chorando&#8221;. E fui prum canto, chorando, e o Mal veio atr\u00e1s de mim. Ele me abra\u00e7ou, perguntando:&#8221; O que houve? Por que voc\u00ea est\u00e1 chorando desse jeito?&#8221; E falei, solu\u00e7ando: &#8220;Ah, eu sou do Brasil, tenho 15 anos. Cheguei hoje e acabei de ver o John. Eu gosto muito dele&#8221;. E ele: &#8220;Ah, n\u00e3o chora n\u00e3o. Amanh\u00e3 o John estar\u00e1 aqui de novo. Voc\u00ea vai v\u00ea-lo de novo\u201d. E me deu um chocolate, um Kit Kat, tenho at\u00e9 hoje o papel. Est\u00e1 no meu livro. E digo que muitos desses quilos que eu carrego s\u00e3o culpa do Mal, pois foi ele quem me viciou em Kit Kat naquele fevereiro de 1967. Isso foi uma coisa que pensei muito recentemente. Acho que o Kit Kat, para mim, como eu o ganhei minutos depois de ter visto o John e o Ringo pela primeira vez, ficou associado a uma alegria e um prazer. Ent\u00e3o, ver aquele papelzinho vermelho d\u00e1 aquela sensa\u00e7\u00e3o, sabe? Essa \u00e9 a minha desculpa para ser viciada em Kit Kat (risos). Aten\u00e7\u00e3o pessoas: n\u00e3o sigam o que eu estou falando. Recentemente isso me passou pela cabe\u00e7a. A lembran\u00e7a daquele momento ficou associada ao Kit Kat. E voc\u00ea encontra esse chocolate em qualquer farm\u00e1cia. Sempre que vou pagar algo, vejo aquele Kit Kat e tenho que pegar um. Porque a minha mente olha para aquilo e lembra de coisa boa, de um momento bacana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Lembro de ter lido no livro que o Barry Miles \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/manyears.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paul McCartney &#8211; Many Years From Now<\/a>\u201d uma fala do Paul <a href=\"https:\/\/entertainment.time.com\/2009\/09\/09\/top-10-things-you-didnt-know-about-the-beatles\/slide\/what-happened-to-mal-evans\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sobre a perda do Mal<\/a> naquelas circunst\u00e2ncias tr\u00e1gicas&nbsp; e no quanto am\u00e1vel ele era.<\/strong><br \/>\nO Mal era super gente boa. Ele era grand\u00e3o, impressionava pelo tamanho. Os Beatles n\u00e3o tinha seguran\u00e7a, nada. Era tudo aberto. Mas, \u00e0s vezes, quando havia muita gente, o Mal dava uma organizada. Antes deles chegarem, ele orientava quem estava l\u00e1. &#8220;Fica um grupo ali, outro aqui. Abre um espa\u00e7o porque eles v\u00e3o chegar&#8221;. Lembro de uma vez o George chegar e falar: &#8221; D\u00e1 um tempo, Mal. Deixa as meninas&#8221;. Uma bobagem, uma brincadeira assim. Tanto o Mal quanto eles, os Beatles, eram muito simp\u00e1ticos com a gente. Eles eram muito normais, mesmo. Tranquilos. Sabe, voc\u00ea estava conversando com eles, em momento algum voc\u00ea ficava pensando: &#8220;estou conversando com um Beatle&#8221;. N\u00e3o. Porque eles eram t\u00e3o &#8216;na boa&#8217;, t\u00e3o normais, que voc\u00ea ficava tranquilo. Eles n\u00e3o tinham nenhuma coisa do tipo: &#8220;Ah, sou um astro pop&#8221;. N\u00e3o. Eles n\u00e3o tinham nada disso. Eu lembro de uma vez que a gente estava l\u00e1, de noite, passando aquele frio desgra\u00e7ado. A\u00ed eu acho que o Paul deve ter ficado de saco cheio, saiu l\u00e1 de dentro do est\u00fadio, sentou l\u00e1 com a gente na escada. N\u00f3s todas agasalhadas, e ele de camisa. Lembro que ele falou: &#8220;T\u00e1 friozinho aqui, n\u00e9?&#8221; &#8220;Sim, t\u00e1 bem friozinho&#8221;. Ele perguntou: &#8220;E a\u00ed? O que voc\u00eas est\u00e3o fazendo?&#8221; E n\u00f3s respondemos: &#8220;U\u00e9, n\u00f3s estamos esperando voc\u00ea!&#8221; (risos). Enfim, ele sentou l\u00e1 pra bater papo. Ele era bem tranquilo. Lembro uma vez em que eu estava com a Denise e n\u00f3s encontramos com ele por acaso, algo que aconteceu v\u00e1rias vezes. Nesse dia, a gente estava comendo uma bala. N\u00f3s oferecemos e ele aceitou. Eu tenho esse saco de bala at\u00e9 hoje. E a hist\u00f3ria est\u00e1 no meu livro. Eu tirei uma foto da Denise com ele, e ele comendo a bala. Era, tipo, um Mentex, aquela bala branca. S\u00f3 que era uma bala grande. Na foto, ele est\u00e1 com a bala na boca. Ent\u00e3o, assim, eles eram muito normais. N\u00e3o tinha frescura. Eles tinham uma rela\u00e7\u00e3o legal com as f\u00e3s. N\u00f3s \u00e9ramos The Girls. E eles, para a gente, eram The Boys. &#8220;The Boys v\u00e3o chegar. The Boys v\u00e3o sair&#8221;. A gente os chamava de The Boys e, n\u00f3s, para eles, \u00e9ramos The Girls. Teve um domingo em que a gente estava nesse est\u00fadio de edi\u00e7\u00e3o, l\u00e1 no Soho. Quando o George chegou, ele olhou para a gente e perguntou: &#8220;U\u00e9, voc\u00eas n\u00e3o deviam estar na igreja?&#8221; Afinal, era domingo (risos). Ent\u00e3o, tinham essas brincadeirinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Houve outros momentos ou locais em que voc\u00ea encontrou com eles al\u00e9m do Abbey Road?<\/strong><br \/>\nSim. Teve um dia que eu estava voltando. Eu havia me matriculado em uma escola, j\u00e1 no finalzinho, quando eu j\u00e1 estava para vir embora. Essa escola ficava perto dos est\u00fadios. Mas frequentei pouqu\u00edssimas vezes. Eu s\u00f3 ia quando n\u00e3o estava acontecendo absolutamente nada, quando os Beatles estavam viajando, por exemplo. Eu, inclusive, morava bem perto dos est\u00fadios Abbey Road. As meninas todas moravam bem longe. Eu era a \u00fanica das que ia pra l\u00e1 todo dia, pois morava perto. Mas tinham algumas outras meninas estrangeiras, americanas, italianas, que alugaram apartamento ali perto, para n\u00e3o ficar t\u00e3o longe E teve um dia que eu estava voltando da escola e, ao inv\u00e9s de eu pegar o \u00f4nibus na porta, eu dei uma volta andando e passei na porta dos est\u00fadios. Quando eu vi que n\u00e3o estava acontecendo nada, comecei a ir embora. Mas olhei para o outro lado e o Paul estava vindo, andando. Ele estava vindo a p\u00e9. Eu esperei ele chegar. Ele parou para falar comigo, pegou meus cadernos e livros, folheou para ver se eu estava estudando mesmo. Perguntou pela Denise. Ela era f\u00e3 do Paul e era muito bonita. Sempre muito bem vestida. Era t\u00edmida, tamb\u00e9m, mas fazia um g\u00eanero. Ele perguntou por ela e eu disse que ela havia voltado para o Brasil. Comentei com ele que havia recebido uma fita cassete de uns amigos, todo mundo conversando comigo, mas eu n\u00e3o conseguia ouvir, pois ningu\u00e9m tinha gravador cassete. Gravador cassete era uma coisa recente. E era caro. E o Paul falou: &#8220;Eu tenho! Vai l\u00e1 em casa que te empresto&#8221;. Respondi: &#8220;T\u00e1 bom!&#8221; No dia seguinte, fui \u00e0 casa dele. Quando cheguei l\u00e1, tinha aquele monte de amigas minhas na porta. Cheguei e meti o dedo na campainha. Lembro que as meninas olharam, assim: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 doida? O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, Lizzie?&#8221; Eu falei: &#8220;Calma, calma&#8221;. A empregada atendeu, eu falei que era a Lizzie, expliquei tudo. Ela abriu a porta eletr\u00f4nica. E l\u00e1 estava o Paul na porta, me esperando, todo sorridente. Eu levei uma revista Manchete sobre o Rio de Janeiro para ele. N\u00f3s fomos para a sala de visitas dele, que ficava nos fundos da casa. Quando entrei, observei que a sala de jantar, quando voc\u00ea entra, fica logo \u00e0 direita. Aquela sala bem inglesona, com aquele rel\u00f3gio cuco grande, aquela mesa grande, uma mob\u00edlia bem tradicional. N\u00e3o me lembro de ter visto nenhuma foto dele nessa mesa. Onde ele me levou, era uma sala de visita que d\u00e1 para um jardim bem grande. Eu j\u00e1 vi v\u00e1rias fotos deles ali, nessa sala de visitas. Inclusive fotos do John e da Yoko, tamb\u00e9m. Ele me levou para essa sala, pegou o gravador, me mostrou como \u00e9 que usava. E me explicou que as pilhas estavam vencidas. Para quem \u00e9 da minha idade (eu tenho 69 anos), naquela \u00e9poca, coisas port\u00e1teis, significavam carregar aquelas pilhas enormes. Aquela maior de todas, sabe? Tipo, meia d\u00fazia dessas pilhas. E isso fazia o aparelho em si ficar pesado. A\u00ed eu falei para ele n\u00e3o se preocupar que eu ia comprar as pilhas. Quando sai, as meninas estavam hist\u00e9ricas, querendo saber o que eu fazia l\u00e1 dentro. Eu expliquei que ele havia me emprestado o gravador, pois eu queria ouvir umas fitas. Para elas se acalmarem, abri o gravador, tirei as seis pilhas, e dei uma pra cada. Pilhas usadas pelo Paul McCartney (risos). Fui pra casa, comprei as pilhas no caminho, e ouvi as fitas. Depois devolvi o gravador. Bom, isso tudo para voc\u00ea ter uma ideia. Isso foi em 1969, o cara j\u00e1 era famoso pra caramba. Muito famoso. E ele se preocupou de uma f\u00e3 n\u00e3o conseguir ouvir uma fita, a ponto de se oferecer para me emprestar. Sabe? \u00c9 esse tipo de delicadeza que eu estou falando. E no meu caso espec\u00edfico, como eu n\u00e3o era apaixonada pelo Paul, embora a maioria das meninas fossem, eu me dava muito bem com ele. Ele me perguntou se eu n\u00e3o tinha saudade da minha m\u00e3e. E eu dizia que n\u00e3o. (risos). Imagina: voc\u00ea tem 15 anos, pode ver os quatro Beatles todo dia, voc\u00ea vai lembrar de m\u00e3e nessa hora? Que Deus a tenha, minha m\u00e3ezinha. Mas, naquela \u00e9poca, sabe? Imagina! E a\u00ed tudo que ele lia no jornal sobre o Brasil, ele me contava quando me via. Quando eu estava na porta da casa dele ou na porta dos est\u00fadios, ele dizia: &#8220;Olha, s\u00f3. Ontem deu 40 graus no Rio de Janeiro! Saiu no jornal&#8221;. Eu n\u00e3o estava nem um pouco interessada, mas tudo bem. Ele era uma figura. Um dia, ele disse pra mim: &#8220;Olha l\u00e1, o John est\u00e1 sozinho. Vai l\u00e1 falar com ele&#8221;. Eu me dava super bem com o Paul. As meninas todas, quando viam o Paul, ficavam do mesmo jeito que eu ficava com o John. Com o John, eu ficava t\u00edmida. Eu queria ser a mais inteligente, mas, ao lado do John, olhando para ele, e falando para ele, era diferente. Eu tinha umas frases feitas, j\u00e1 prontas, sabe? &#8220;Como vai o Julian? E o disco, falta muito pra ficar pronto?&#8221; De resto, era muita emo\u00e7\u00e3o estar do lado dele.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57760\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cortesiadelizziebravo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cortesiadelizziebravo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cortesiadelizziebravo-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ficou l\u00e1 entre fevereiro de 1967 at\u00e9 quando?<\/strong><br \/>\nFiquei direto at\u00e9 abril de 1968, quando voltei com a Denise para o Rio. Fiquei alguns meses aqui visitando a fam\u00edlia e voltei para Londres a tempo do anivers\u00e1rio do John, em outubro de 1968. Quando eu estava no Rio, inclusive, eu fiz um cachecol laranja de croch\u00ea que ele usou. Tenho duas fotos dele em dias diferentes usando esse cachecol. Dei no dia do anivers\u00e1rio dele. De outubro de 1968, fiquei at\u00e9 o final de outubro de 1969. Na verdade, eu n\u00e3o sei o dia exato dessa volta minha para o Brasil. Se foi final de outubro ou come\u00e7o de novembro. Eu tenho at\u00e9 hoje todos os passaportes que tive na minha vida. At\u00e9 um de quando eu tinha tr\u00eas anos, que \u00e9 de quando eu fui para a Venezuela. Mas o \u00fanico passaporte importante, que seria esse de quando eu voltei, para eu saber exatamente a data em que eu fui embora, sumiu. H\u00e1 muitos anos, ele desapareceu. Ningu\u00e9m sabe. Eu me mudei algumas vezes, morei em outros pa\u00edses. Nessas mudan\u00e7as, ele sumiu. Ent\u00e3o, essa data da volta exata, eu n\u00e3o sei. No meu di\u00e1rio, eu parei de escrever em um determinado dia no final de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Per\u00edodo riqu\u00edssimo de cria\u00e7\u00e3o da banda.<\/strong><br \/>\nAqui tinha um grupo grande de beatleman\u00edacas, todas as nossas amigas. E as \u00fanicas que se aventuraram, literalmente se aventuraram, foram n\u00f3s duas, eu e Denise. Porque a gente n\u00e3o conseguia conceber de continuar gostando deles sem nunca v\u00ea-los. Agrade\u00e7o aos c\u00e9us pela Denise ter tido essa ideia de irmos para l\u00e1. De ter me ajudado a convencer meus pais. E ao universo por termos escolhido um momento maravilhoso como aquele para irmos. Imagina voc\u00ea chegar l\u00e1 quando eles est\u00e3o gravando o \u201cSgt. Pepper\u201d. E ainda ficar durante o tempo em que gravaram os outros discos, como \u201cMagical Mistery Tour\u201d, o \u201cAlbum Branco\u201d, o \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2020\/09\/20\/os-50-anos-de-let-it-be\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Let it Be<\/a>\u201d e o \u201cAbbey Road\u201d. Foi um per\u00edodo em que eles estavam fazendo muita coisa. Talvez se a gente tivesse ido na \u00e9poca em que eles faziam turn\u00eas, n\u00e3o \u00edamos conseguir v\u00ea-los tanto. Porque eles viajavam durante meses e meses. Ent\u00e3o, foi muita sorte a gente ter ido exatamente nesse momento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57761\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Do-Rio-a-Abbey-Road.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"489\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Do-Rio-a-Abbey-Road.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Do-Rio-a-Abbey-Road-300x196.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em que momento surgiu a ideia de escrever o livro?<\/strong><br \/>\nA ideia de fazer o livro j\u00e1 vinha desde a \u00e9poca em que eu estava l\u00e1. Eu percebi que aquilo tudo que eu estava vivendo tinha que ser contado. N\u00e3o podia ficar s\u00f3 comigo. Lembrando que, naquela \u00e9poca&#8230; por exemplo, a (hist\u00f3ria da) grava\u00e7\u00e3o do \u201cAcross the Universe\u201d n\u00e3o saiu em lugar nenhum. S\u00f3 no \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Beatles_Book\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The Beatles Monthly Book<\/a>\u201d. S\u00f3 nessa revistinha que teve um paragrafozinho que o Mal Evans escreveu. E acabou. Ou seja, n\u00f3s continuamos ficando do lado de fora. N\u00e3o mudou nada. S\u00f3 os nossos amigos mais pr\u00f3ximos que sabiam. E anos e anos depois \u00e9 que come\u00e7aram a colocar isso nos livros sobre a discografia dos Beatles. Come\u00e7aram a citar a gente. Na \u00e9poca, eu lembro que algumas pessoas aqui no Brasil achavam que eu tinha inventado aquilo. Alias, eu n\u00e3o estou brincando. H\u00e1 uns meses, agora, teve um cara que comentou no YouTube. Sabe essas pessoas que gostam de comentar para causar pol\u00eamica? Ele escreveu assim em um v\u00eddeo do YouTube sobre a gente ter cantado com eles: &#8220;Ah, quem \u00e9 que garante que ela gravou, mesmo? Cad\u00ea a foto?&#8221; E fiquei pensando: &#8220;Meu Deus do C\u00e9u! Essa pessoa vive em que planeta? N\u00f3s estamos em 2020, \u00e9 s\u00f3 ela colocar Lizzie Bravo no Google, vai aparecer v\u00e1rias coisas&#8221;. At\u00e9 comentei com meus amigos: &#8220;Poxa, eu sou boa de mentira, n\u00e9? Porque eu inventei uma coisa e os Beatles acreditaram. Porque eles botaram o meu nome e o da Gayleen em v\u00e1rios produtos oficiais da banda&#8221;. Ent\u00e3o, como \u00e9 que a pessoa pode ser t\u00e3o ignorante de n\u00e3o se dar ao trabalho de parar para pesquisar, buscar, confirmar que \u00e9 verdade. Naquela \u00e9poca, como n\u00e3o saiu em lugar nenhum, podia at\u00e9 a pessoa duvidar, mas agora? Com esse acesso que se tem \u00e0 informa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, voltando, desde aquela \u00e9poca que eu achava que deveria escrever um livro. Voltei para o Brasil, comecei a namorar o Z\u00e9 Rodrix, casei, tive a nossa filha. A gente casou em dezembro e a Marya nasceu no final de outubro do ano seguinte. E naquela \u00e9poca eu estava cantando em v\u00e1rios discos, come\u00e7ando a fazer jingles, e criando filha. Acabou que a minha cole\u00e7\u00e3o dos Beatles foi l\u00e1 para o alto do arm\u00e1rio. Naquele momento, eu n\u00e3o estava com muito tempo para lidar com esse assunto. Em mar\u00e7o de 1980, eu lembro que pedi a uma amiga minha para me ajudar com aquelas coisas. Ela subiu a escada e foi me passando os objetos. Os di\u00e1rios, as fotos, os \u00e1lbuns. Eu desci aquilo tudo e comecei a pensar. &#8220;Bom, eu vou fazer um livro&#8221;. Comecei por datilografar os di\u00e1rios. Eu n\u00e3o sabia ainda como eu ia contar essa hist\u00f3ria. Mas eu achei que o primeiro passo era pegar os cadernos escritos \u00e0 m\u00e3o. Eram v\u00e1rios. E comecei a datilografar aquilo na \u00e9poca \u00e0 m\u00e1quina de escrever, porque n\u00e3o tinha computador. Mas ficou por isso mesmo, porque no final do ano, teve aquela trag\u00e9dia, aquela desgra\u00e7a, com o assassinato do John e eu n\u00e3o consegui pensar em mais nada. Fiquei muito tempo, assim. Muito triste. E esqueci desse assunto. Ap\u00f3s um tempo, eu fui morar em Nova York. Nessa \u00e9poca, eu passei para o computador. Papai comprou o primeiro Apple Macintosh. Eu o tenho at\u00e9 hoje aqui, guardado. Quando papai saia do computador, eu entrava. Assim, eu passei para o computador aquilo que j\u00e1 tinha feito na m\u00e1quina manual. Assim daria para, eventualmente, editar. Mas tamb\u00e9m abandonei isso. Passaram-se anos e anos. Nunca mais peguei. Muito tempo passou at\u00e9 que minha melhor amiga, a Cec\u00edlia Leal de Oliveira, que \u00e9 a designer do livro, me convenceu. Eu digo o seguinte: esse livro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 meu. Eu tinha as fotos, a hist\u00f3ria, os objetos, aut\u00f3grafos, mas a Cec\u00edlia \u00e9 que fez o formato do livro. A maneira como ele mostra as fotos \u00e0 medida em que voc\u00ea est\u00e1 lendo. Quando voc\u00ea estiver com ele em m\u00e3os, voc\u00ea vai entender. N\u00f3s come\u00e7amos a trabalhar loucamente no livro. Em 2015, a gente decidiu que ia acabar esse livro. Eu ia para a casa dela, nos duas juntas fic\u00e1vamos trabalhando. Na hora de escolher uma foto, a gente avaliava qual formato e qual foto seria melhor. Por exemplo, se tinham quatro fotos do John no mesmo dia, eu pensava: &#8220;Eu sei que o John dirigindo, \u00e9 uma coisa muito diferente. Porque ele raramente dirigia, gra\u00e7as a Deus, porque ele era p\u00e9ssimo motorista. Ent\u00e3o, dessas quatro fotos, coloca grande a foto dele dirigindo e as outras tr\u00eas em volta, menores&#8221;. Esse tipo de coisa, sabe? Era eu quem tinha dar essas dicas para ela com rela\u00e7\u00e3o aos objetos e as fotos. O livro ficou pronto em dezembro de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como funcionou o processo de venda e cobertura dos custos de impress\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFiz uma pr\u00e9 venda. Voc\u00ea pode imaginar o que custa fazer um livro de capa dura, papel couch\u00ea, 300 p\u00e1ginas, praticamente todas ilustradas? Custa muito dinheiro! Eu fiz uma pr\u00e9 venda que deu para pagar a primeira presta\u00e7\u00e3o da gr\u00e1fica. E continuei fazendo a pr\u00e9-venda. Quando chegou a hora de pagar a segunda presta\u00e7\u00e3o para eles me entregarem os livros, ficou faltando. Sabe quando voc\u00ea cata tudo? Raspa o cheque especial, quando voc\u00ea faz o diabo. Tira dinheiro de pedra, mas ainda faltavam 7 mil reais. Pensei: &#8220;Caramba, onde vou arrumar 7 mil reais?&#8221; Eu tenho uma neta, a Morgana, que hoje tem 27 anos. Ela est\u00e1 na It\u00e1lia, trabalhava h\u00e1 muitos anos no Cirque Du Solei, e me ligou. Na \u00e9poca, ela me ligou n\u00e3o sei de qual pa\u00eds e perguntou como estava o livro. Expliquei que estava tudo bem, que estava pronto na gr\u00e1fica, mas que eu tinha que arrumar um dinheiro para poder pegar os exemplares. Ela perguntou: &#8220;V\u00f3, est\u00e1 faltando quanto?&#8221; Respondi: &#8220;Ah, minha filha, muito dinheiro. 7 mil reais.&#8221; Ela falou: &#8220;Estou passando agora para a sua conta do Bradesco&#8221;. Cara, comecei a chorar. A minha neta, que eu literalmente vi nascer, porque eu estava presente no parto dela, pegou da poupan\u00e7a dela, do trabalho dela. Ela trabalha desde muito jovem. E mandou esse dinheiro emprestado para mim. Foi uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. Ela falou: &#8220;V\u00f3, eu fico muito feliz de poder te ajudar, porque voc\u00ea sempre fez tudo pela mam\u00e3e e por mim&#8221;. E foi com o dinheiro da Morgana que eles entregaram os livros. Lembro que postei no Facebook uma foto na \u00e9poca, com a van chegando l\u00e1 embaixo trazendo os livros. Quando chegaram, comecei a autografar os exemplares. Uma coisa engra\u00e7ada foi que, o primeiro livro que eu autografei, eu escrevi: &#8220;Para fulano, Beatles Forever. Lizzie Bravo&#8221;. E as pessoas fotografavam e colocavam no Facebook. Eu pensei: &#8220;Cara, eu vou ter que escrever Beatles Forever para todo mundo&#8221;. Porque, sen\u00e3o, as pessoas v\u00e3o perguntar: &#8220;U\u00e9, ele recebeu o Beatles Forever, mas eu n\u00e3o?&#8221; Uma coisa \u00e9 voc\u00ea escrever Beatles Forever uma vez. Outra \u00e9 voc\u00ea escrever 1000 vezes. \u00c9 um trabalho todo feito por mim. O livro chega, eu embalo, eu fa\u00e7o a etiqueta, eu colo, eu vou para a fila dos Correios, tudo eu (risos). Na \u00e9poca, eu e meu irm\u00e3o viemos morar com a mam\u00e3e, pois ela ficou doente, com Alzheimer. N\u00f3s viemos cuidar dela. Nessa mesma \u00e9poca, quando o livro chegou, a nossa sala de visita era s\u00f3 livro. Era caixa para botar livro, era etiqueta, impressora, sabe? Era um esquema ali s\u00f3 para os livros. Eu tive que mandar primeiro pra todo mundo que comprou adiantado. Aqui no Rio, eu fiz v\u00e1rios encontros em restaurantes para entregar. Eu avisava: &#8220;Pessoal do bairro tal: estarei no restaurante tal entre as horas de&#8230; voc\u00ea quer o seu livro?&#8221; A\u00ed as pessoas respondiam dizendo que queriam pegar l\u00e1 comigo e eu levava. Chamava o frete para me levar. A pessoa tinha que pegar os livros (cada um pesa 1,5 kg) no terceiro andar, onde eu morava, descer, colocar no carro. Enfim, tem que ser um pouco doido para fazer um projeto desse tamanho sem nenhum tipo de apoio financeiro. E outra coisa: eu n\u00e3o contabilizei um monte de despesas. Eu n\u00e3o contabilizei que eu tinha que alugar um local para guardar os livros, que chamam de storage. Eu gastei uma grana com etiquetas, tinta para impressora, pl\u00e1stico bolha, fita adesiva. Coisas que eu n\u00e3o contabilizei na hora de fazer o pre\u00e7o do livro. Fiquei vendendo os exemplares at\u00e9 que se esgotaram, em setembro de 2017. A essa altura, mam\u00e3e j\u00e1 estava bem doente. Eu simplesmente tirei isso da cabe\u00e7a. Todo mundo me pedindo. &#8220;Faz mais livros, faz mais&#8221;. Eu devia ter feito. Mas eu estava muito perturbada. Acho que qualquer pessoa que viu um familiar ou um amigo passar por esse processo da dem\u00eancia para o alzheimer, sabe que \u00e9 uma coisa muito dolorosa. S\u00f3 quem passou mesmo que sabe. Sua cabe\u00e7a vai para outro lugar. Agora, no come\u00e7o de 2020, mandei fazer mais mil exemplares. N\u00e3o \u00e9 uma segunda edi\u00e7\u00e3o, mas a primeira edi\u00e7\u00e3o revisada. A Cec\u00edlia e eu demos uma geral no livro, corrigimos uma ou outra coisinha que tinha ficado errada, como datas de fotos (umas duas ou tr\u00eas, apenas). Corrigi e mandei fazer. S\u00f3 que eu mandei fazer o livro no Paraguai. Eu j\u00e1 estive no Paraguai duas vezes. Fiz fant\u00e1sticas amizades l\u00e1. J\u00e1 fui duas vezes fazer palestras, cantar com as bandas locais. S\u00e3o pessoas muito bacanas e muito f\u00e3s dos Beatles. E eu consegui fazer os livros l\u00e1, em uma gr\u00e1fica de muita qualidade por um pre\u00e7o melhor do que o daqui. S\u00f3 que eles ficaram prontos exatamente quando come\u00e7ou a pandemia. Ent\u00e3o, tenho mil livros maravilhosos, ainda na vers\u00e3o em portugu\u00eas, guardados l\u00e1. Eu tenho tido contatos semanais com o pessoal da gr\u00e1fica, os livros est\u00e3o muito bem cuidados. Eu liberei os livros s\u00f3 para as pessoas que j\u00e1 tinha comprado l\u00e1 no Paraguai. E eles est\u00e3o me dizendo que ficou maravilhoso. Tem um amigo que j\u00e1 tinha o livro da primeira tiragem feita no Brasil e ele disse que a impress\u00e3o dessa parece que ficou melhor ainda do que a do primeiro, que j\u00e1 \u00e9 muito boa. \u00c9 isso. Eu tenho mil livros, mas n\u00e3o sei te dizer quando eles v\u00e3o estar aqui.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57765\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/pauljohn.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/pauljohn.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/pauljohn-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu li que voc\u00ea, tamb\u00e9m, est\u00e1 no processo de lan\u00e7ar uma edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do livro. Em que andamento est\u00e1 esse projeto em outro idioma?<\/strong><br \/>\nSim. No meio disso tudo, eu, n\u00e3o sei como, com a mam\u00e3e muito doente, consegui traduzir para o ingl\u00eas. Essa vers\u00e3o traduzida eu mandei para um amigo brit\u00e2nico corrigir. Ele \u00e9 escritor e, por acaso, eu o conheci l\u00e1 nos est\u00fadios. Ele era f\u00e3, tamb\u00e9m, e estava l\u00e1 na porta. Ele escreve para a BBC e j\u00e1 trabalhou na EMI, onde conheceu os Beatles. Ele disse para mim: &#8220;Lizzie, quando eu ia imaginar, naquela \u00e9poca em que a gente ficava l\u00e1, adolescentes, na porta dos est\u00fadios, que um dia eu ia sentar com os o Paul, com o George, para discutir plano de marketing da carreira solo deles?&#8221; Isso aconteceu com ele. Ent\u00e3o, ele corrigiu o meu ingl\u00eas j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. Mas s\u00f3 h\u00e1 uns dois meses (N.E. Entrevista gravada em 17\/09\/2020) \u00e9 que eu comecei a ler essas corre\u00e7\u00f5es. Eu j\u00e1 li, digamos, a metade. Hoje estou fechando a tampa do cap\u00edtulo do \u201cAcross the Universe\u201d. O meu livro s\u00e3o os meus di\u00e1rios. Mas dividi em cap\u00edtulos. Eu tenho um cap\u00edtulo s\u00f3 do \u201cAcross the Universe\u201d, eu tenho uma introdu\u00e7\u00e3o, eu tenho dois cap\u00edtulos que s\u00e3o de um amigo meu ingl\u00eas que passou a tarde entrevistando o John na casa do Paul. Esse cap\u00edtulo est\u00e1 l\u00e1 por uma hist\u00f3ria curiosa. O que aconteceu foi que a gente se conheceu l\u00e1 e eu emprestei a minha m\u00e1quina para ele. Ele n\u00e3o tinha m\u00e1quina. E acabou que ele tirou fotos fant\u00e1sticas. E depois me devolveu a m\u00e1quina e a gente nunca trocou nome e endere\u00e7o. Eu nunca soube o nome dele e nem ele o meu. E eu tinha uma foto maravilhosa que ele tirou do John para mim. A\u00ed, em 2009, uma amiga minha estava na fila para entrar em um show do Paul l\u00e1 em Londres, e ouviu essa hist\u00f3ria. Pediu licen\u00e7a, se aproximou, e falou com ele que me conhecia. Falou que conhecia a mo\u00e7a que havia emprestado a c\u00e2mera a ele. Ele pirou, n\u00e9? De l\u00e1 pra c\u00e1, a gente conversou muito. Ficamos amigos, fal\u00e1vamos por horas ao telefone. Toda vez que eu vou a Londres, passamos horas juntos. Ele nunca havia contado a hist\u00f3ria sobre esse dia em que ele havia passado horas na casa do Paul, com o pr\u00f3prio Paul, o John e o Mick Jagger. E depois o George chegou. No meu livro, essa hist\u00f3ria dele \u00e9 um dos cap\u00edtulos. E outro cap\u00edtulo \u00e9 de dois amigos ingleses. Esse que \u00e9 escritor e traduziu o livro, e mais um outro amigo que eu fiz l\u00e1 na porta dos est\u00fadios. Eles tamb\u00e9m nunca tinham contado a hist\u00f3ria deles nem ningu\u00e9m nunca tinha visto as fotos que eles tiraram. S\u00e3o muito bonitas. Todas P&amp;B, fotos lindas que ningu\u00e9m nunca viu. Essa edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas eu vou finalizar e a Cec\u00edlia vai montar para colocar as fotos. Com o idioma ingl\u00eas, vai ser um pouco menor o texto. Teremos que ampliar algumas fotos, para o livro ficar direito. Mas a gente n\u00e3o sabe o que vai acontecer. N\u00e3o posso mandar imprimir mil livros e n\u00e3o saber se os Correios v\u00e3o funcionar. Mas eu quero deixar o livro em ingl\u00eas pronto, esperando para ver o que vai acontecer. Perto de 200 pessoas que n\u00e3o falam portugu\u00eas compraram o meu livro. Eles me escrevem dizendo que j\u00e1 decoraram todas as fotos. &#8220;Pelo amor de Deus, eu preciso ler o que voc\u00ea escreveu&#8221;, j\u00e1 me disseram. Teve gente que comprou dicion\u00e1rio ingl\u00eas-portugu\u00eas para tentar entender o que eu estou dizendo. Teve de tudo. Mas, enfim, espero conseguir lan\u00e7ar. A gente n\u00e3o sabe o que vai acontecer. Mas eu quero deixar ele pronto para, assim que for poss\u00edvel, mandar fazer essa vers\u00e3o em ingl\u00eas. Mas, \u00e9 aquela coisa. Os livros em portugu\u00eas, que j\u00e1 est\u00e3o impressos no Paraguai, tamb\u00e9m n\u00e3o sei quando v\u00eam para c\u00e1. Sem previs\u00e3o de abrir as estradas. Na hora que chegar, anuncio. O outro cap\u00edtulo surgiu por conta de uma sugest\u00e3o da pessoa que corrigiu o livro. Aqui no Brasil teve duas pessoas profissionais que fizeram essa corre\u00e7\u00e3o do meu livro. Na segunda corre\u00e7\u00e3o, essa mo\u00e7a falou para mim: &#8220;Lizzie, eu como leitora, gostaria de saber o que aconteceu com voc\u00ea depois que voc\u00ea voltou de Londres&#8221;. A\u00ed, por conta disso, eu fiz um outro cap\u00edtulo chamado \u201cMinha Vida Depois de Londres\u201d. Meu livro \u00e9 a minha hist\u00f3ria contada pelos di\u00e1rios da \u00e9poca, com esse cap\u00edtulos separados, e \u00e9 isso. Olha, eu tenho uma quantidade absurda de depoimentos de leitores que eu junto em um arquivo do Word que s\u00e3o emocionantes para mim. Sempre gostei de escrever. Mas eu nunca havia escrito um livro antes. Saber que eu pude tocar a emo\u00e7\u00e3o de tanta gente&#8230; Porque era esse o meu intuito, Jo\u00e3o. Eu queria dividir com as pessoas o que eu senti estando l\u00e1. E acho que consegui. Pela quantidade de relatos, acho que consegui isso. O que era meu intuito. E agora espero conseguir de novo com a edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma vasta experi\u00eancia profissional como cantora, al\u00e9m de amizades e uma hist\u00f3ria de vida ligada \u00e0 MPB. Poder\u00edamos falar um pouco essa sua trajet\u00f3ria ap\u00f3s voltar de Londres, em 1969?<\/strong><br \/>\nA minha liga\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica brasileira \u00e9 algo muito forte na minha vida. <a href=\"http:\/\/blogs.jornaldaparaiba.com.br\/silvioosias\/2017\/09\/25\/quem-sao-lizzie-bravo-e-ze-rodrix-vou-responder\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eu tenho um filha com o Z\u00e9 Rodrix<\/a>, a Marya Bravo, <a href=\"https:\/\/www.deezer.com\/br\/artist\/1727081\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que \u00e9 cantora<\/a>, compositora e atriz de teatro musical. Eu conheci o Z\u00e9 logo depois que eu cheguei de Londres. Junto com ele, conheci o Bituca (Milton Nascimento), que \u00e9 meu padrinho de casamento. Conheci o <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1517-75992014000200011\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Som Imagin\u00e1rio&nbsp; inteiro<\/a>. O Fredera (Frederico Mendon\u00e7a de Oliveira), o Wagner Tiso, Luiz Alves, Robertinho Silva, Nan\u00e1 Vasconcelos. Esse pessoal passou a ser parte do meu dia a dia. E comecei a gravar no disco de um, no disco de outro. Nesse per\u00edodo, tamb\u00e9m, eu comecei a gravar jingles. Fiquei anos e anos. Depois fiz parte de v\u00e1rias bandas. Eu fui da banda do Z\u00e9 Ramalho quando ele estourou. \u00c9ramos eu e Elba (Ramalho) as vocalistas, com mais uma outra mo\u00e7a. Quando o Z\u00e9 saiu do S\u00e1, Rodrix e Guarabira, eu entrei no trio. Depois, entre 1980 e 1992, eu cantei com a Joyce (Moreno), que \u00e9 minha comadre. Cantei naqueles discos todos dela. \u201cClareana\u201d, \u201cFeminina\u201d, aquelas m\u00fasicas todas eu canto. Viajamos para o Jap\u00e3o, fizemos shows nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Gravei com muita gente da MPB. Isso \u00e9 uma coisa que tenho muito orgulho. Eu sou muito apaixonada por m\u00fasica brasileira. Eu sou muito f\u00e3 dos Beatles, mas, tamb\u00e9m, muito f\u00e3 de m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Z\u00e9 Rodrix - CASA NO CAMPO - Z\u00e9 Rodrix e Tavito Moura - grava\u00e7\u00e3o de 1976\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d7ey3iLCvgM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me de ter lido sobre \u201cCasa no Campo\u201d e sobre a &#8220;esperan\u00e7a de \u00f3culos&#8221; ser voc\u00ea.<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica, o Z\u00e9 Rodrix fez com o Tavito. A gente cantou no Festival de Juiz de Fora, no come\u00e7o de setembro de 1971. Ganhamos o primeiro lugar. E isso garantiu uma vaga para se apresentar no FIC, Festival da Can\u00e7\u00e3o, l\u00e1 no Maracan\u00e3zinho. Tiramos o nono lugar. Agora \u00e9 interessante que, um dia, a gente estava em casa, e eu falei para ele: &#8220;Zeca, que neg\u00f3cio \u00e9 esse dessa letra que voc\u00ea fez? Neg\u00f3cio de &#8216;esperan\u00e7a de \u00f3culos&#8217;? O que \u00e9 isso?&#8221; E ele falou pra mim: &#8220;Lizzie, \u00e9 voc\u00ea!&#8221; Eu quase morri de vergonha (risos). &#8220;Desculpa, amor&#8221;. Eu n\u00e3o me toquei que era eu. N\u00e3o me toquei, mesmo. N\u00e3o sabia o que era e ainda achei esquisito. Por a\u00ed voc\u00ea v\u00ea (risos). Isso n\u00e3o tem muito a ver, mas lembrei agora de quando fui ver o show do Paul, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/01\/com-metais-paul-mccartney-faz-outro-grande-show-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o \u00faltimo dele em S\u00e3o Paulo<\/a>, nessa \u00faltima vez em que ele esteve aqui. Fui com a minha filha. E ele come\u00e7ou a cantar \u201cMaybe I&#8217;m Amazed\u201d. E eu chorei porque essa era uma m\u00fasica que Z\u00e9 tocava ao piano e cantava para mim. Porque a gente fazia tudo junto. Cantava junto. Vivia junto o dia inteiro. Nosso casamento foi breve, ma muito intenso, porque voc\u00ea ficar o tempo todo com aquela pessoa, parece que foi muito mais tempo do que realmente foi. Eu tenho minha filha Marya, maravilhosa, super talentosa. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 minha filha, n\u00e3o (risos). \u00c9 porque ela \u00e9 muito boa. E minha neta Morgana, minha amada neta. Com quem eu falo mais pelo WhatsApp, porque ela vive viajando. E \u00e9 isso. Esse presente que o Z\u00e9 me deu. Essa filha e, atrav\u00e9s dela, essa neta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o seu encontro com o Paul anos depois de Abbey Road?<\/strong><br \/>\nA \u00faltima vez que eu o Paul foi no dia 14 de fevereiro de 1990. Lembro porque cheguei a Londres no dia 14 de fevereiro de 1967. Ent\u00e3o, foi muita coincid\u00eancia. Em 1990, ele estava em coletiva de imprensa na cidade de Indian\u00f3polis, Indiana, para os rep\u00f3rteres brasileiros. Era para falar sobre a vinda dele ao Maracan\u00e3. E eu havia sido contratada como fot\u00f3grafa. S\u00f3 que, quando eu cheguei l\u00e1, a Fiona, secret\u00e1ria dele, falou pra mim: &#8220;Lizzie, n\u00f3s n\u00e3o estamos autorizando fot\u00f3grafos. Mas como eu te conhe\u00e7o, deixa a sua m\u00e1quina aqui comigo, voc\u00ea entra e assiste \u00e0 coletiva,&#8221; Eu entrei, fiquei na minha, assistindo a coletiva n\u00e3o na mesa dos rep\u00f3rteres, mas um pouco afastada. Na hora que acabou, ele apertou a m\u00e3o de todo mundo. Quando ele falou comigo, perguntou: &#8220;Por que eu me lembro de voc\u00ea?&#8221;. E contei: &#8220;Porque cantei contigo no mesmo microfone&#8221;. Comecei cantando com o John, mas, mais adiante, o Paul me chamou para cantar com ele. A\u00ed ele botou a m\u00e3o na cabe\u00e7a, exclamou: &#8220;\u00c9 mesmo! Voc\u00ea estava l\u00e1 em Abbey Road!&#8221; N\u00f3s nos falamos rapidamente, eu falei que morava em Nova Iorque, que tinha uma filha, que era cantora. Ele at\u00e9 falou: &#8220;T\u00e1 vendo? Foi bom ter come\u00e7ado a cantar com a gente&#8221;. E perguntou: &#8220;Voc\u00ea vai para o Brasil pra ver o meu show?&#8221; Eu falei: &#8220;Claro que vou&#8221;. A \u00faltima frase que eu ouvi da boca do Paul McCartney foi: &#8220;I see you there&#8221;. Mas, de l\u00e1 para c\u00e1, j\u00e1 tentei centenas de vezes encontrar com ele e ningu\u00e9m nunca deixou eu chegar perto. Desisti h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o deixam chegar perto dele de jeito nenhum. O que acho uma coisa muito burra. Porque se eu fosse dos Estados Unidos&#8230; Voc\u00ea sabe que qualquer coisa que um americano fa\u00e7a, eles fazem um escarc\u00e9u. Se eu fosse americana, eles iam arrumar um jeito de me colocar junto com o cara. Mas aqui no Brasil, sucesso \u00e9 uma ofensa pessoal. N\u00e3o que eu seja famosa, nem nada. Mas, sabe, eu acho que seria um encontro muito interessante colocar eu e o Paul para conversar. Porque a gente conheceu pessoas da mesma \u00e9poca. Eu o vi muitas e muitas vezes pessoalmente. Eu acho que seria um papo interessante de ser realizado. O fato de eu ser brasileira, de ele estar no meu pa\u00eds. Enfim, mas n\u00e3o rolou. Dificilmente vai rolar. Mas n\u00e3o posso reclamar. Porque o vi tantas e tantas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vi uma postagem sua sobre o livro ter chegado \u00e0s m\u00e3os dele em 2017, quando ele estava aqui em Salvador para o show.<\/strong><br \/>\nSim. Fiquei muito feliz quando vi que o meu livro chegou at\u00e9 ele a\u00ed em Salvador. Infelizmente, naquela \u00e9poca, eu n\u00e3o estava conseguindo viajar por causa da mam\u00e3e. Eu s\u00f3 fui a um show naquela turn\u00ea. Geralmente eu ia a mais de um, quando ele estava aqui. Porque eu conseguia viajar, meu irm\u00e3o ficava com a mam\u00e3e e eu fazia um bate-volta. Mas v\u00e1rios amigos meus foram para Salvador, gostaram muito do show. Foi uma grande emo\u00e7\u00e3o saber que ele tem o meu livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quase novo encontro com John.<\/strong><br \/>\nOutro dia <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/miltonbitucanascimento\/photos\/a.497817060247064\/1772575392771218\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Sean Lennon postou<\/a>&nbsp;que tinha encontrado uns discos brasileiros nas coisas do pai dele. E que ele estava ouvindo discos do Milton Nascimento. Vendo isso, me lembrei que, em 1967, em dei um disco para o John chamado &#8220;Os Sambeatles&#8221;, do Manfredo Fest. E eu perguntei para ele se ele gostou. Ele disse que sim. Eu imagino que, por curiosidade, pelo menos uma faixa ele deve ter ouvido. Por ser uma mistura de Beatles e samba. E o disco \u00e9 bom, mesmo. Outro dia at\u00e9 voltei a ouvir. E eu sei que eu dei outros discos para ele. No ver\u00e3o de 1980, eu estive em Nova York de f\u00e9rias e eu deixei l\u00e1 no Dakota um pacote com v\u00e1rios presentes para ele e para o Sean. E deixei v\u00e1rios discos brasileiros. E com certeza nesses discos, tinham discos do Bituca. Provavelmente, dei a ele discos nos quais eu canto, como &#8220;Minas&#8221;, &#8220;Geraes&#8221;, discos do Toninho Horta, da Joyce. N\u00e3o me lembro exatamente quais os discos que inclui nesse pacote, mas, com certeza, desses discos que o Sean achou, pelo menos um deve ter sido eu quem mandou. Mas embora o John estivesse l\u00e1, come\u00e7ando o &#8220;Double Fantasy&#8221;, eu n\u00e3o fiquei nem na porta dos est\u00fadios e nem na porta da casa dele. Claro que hoje eu me arrependo muito, mas eu n\u00e3o queria incomod\u00e1-lo. Achei que eu j\u00e1 tinha ficado tempo suficiente em portas esperando por eles. E me deu um neg\u00f3cio de n\u00e3o querer incomodar. As amigas que fiz depois e que frequentavam o Dakota, me disseram: &#8220;Nossa, ele ia adorar te encontrar, conhecer sua filha (ela tinha oito anos e estava comigo), te ver. Que pena que voc\u00ea n\u00e3o o procurou&#8221;. \u00c9 isso. Mas os outros tr\u00eas Beatles eu vi depois. Rapidamente, mas vi. Mas o John eu nunca mais vi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>John Lennon completaria nesse 09 de outubro de 2020, 80 anos. Voc\u00ea, que o conheceu, que conversou com ele, poderia falar um pouco dessa figura m\u00edtica, do artista, bem como da pessoa John Lennon?<\/strong><br \/>\nEu acho estranho comemorar o anivers\u00e1rio de uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 mais aqui. A gente vai celebrar o nascimento dele, mas, infelizmente, ele n\u00e3o est\u00e1 mais aqui para se desejar feliz anivers\u00e1rio. \u00c9 dif\u00edcil falar do John, porque ele \u00e9 uma pessoa, uma figura t\u00e3o importante na minha vida. As coisas que ele dizia me impressionavam muito. Desde menina. A maneira dele pensar, a maneira dele ser. As m\u00fasicas dele, claro, maravilhosas. As imperfei\u00e7\u00f5es dele, porque ele era humano. Ali\u00e1s, ele nunca pretendeu ser nada al\u00e9m do que ele foi. Tem muita gente que n\u00e3o consegue imagin\u00e1-lo como &#8220;normal&#8221;. Por causa dessa circunst\u00e2ncia horr\u00edvel da morte dele, ele virou uma figura, assim, meio&#8230; (pausa) Eu n\u00e3o sei nem explicar direito. Mas, eu tenho muito carinho pela pessoa dele. Pelo o que eu consegui conviver. Mesmo sendo t\u00e3o menina na \u00e9poca, e sendo apenas uma f\u00e3, eu tenho muito orgulho dele, das posturas dele. Eu acho bacana at\u00e9 quando ele fazia besteira, porque ele se dava conta. Ele tinha uma coisa meio ing\u00eanua. Uma vez, n\u00e3o me lembro para quem, mas eu disse que achava o John meio t\u00edmido. A pessoa disse: &#8220;Voc\u00ea t\u00e1 doida! John? T\u00edmido?!&#8221; A\u00ed, a Yoko, em uma reportagem, falou que o John tinha realmente um lado t\u00edmido. E eu falei: &#8220;T\u00e1 vendo? Eu, mesmo adolescente, consegui perceber isso&#8221;. Ent\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil falar do John. Desculpe se esse final vai ser meio decepcionante. Mas \u00e9 dif\u00edcil, porque \u00e9 uma tristeza t\u00e3o grande pensar nisso que aconteceu com ele. Mas, ao mesmo tempo, ele deixou tanta coisa espetacular para a gente. Eu adoro ouvir entrevistas de \u00e1udio dele. Ou at\u00e9 de v\u00eddeo, mesmo. Ouvir a voz dele. Porque, ouvindo a voz dele, eu consigo me lembrar dele se mexendo, falando. Mas, \u00e9 isso. \u00c9 uma pessoa muito especial na minha vida. Um dos meus \u00eddolos. E me sinto muito privilegiada de ter podido ficar um pouquinho perto dele. Mesmo na condi\u00e7\u00e3o de quase crian\u00e7a e f\u00e3, mas, um pouquinho, eu consegui. E, tamb\u00e9m, eu tenho orgulho de ter deixado uma gotinha m\u00ednima de Brasil na hist\u00f3ria dos Beatles com a minha voz no \u201cAcross the Universe\u201d. Eu tenho muito orgulho de ter participado dessa grava\u00e7\u00e3o, que foi uma coisa inacredit\u00e1vel mesmo. Voc\u00ea pensar que uma menina, como eu disse antes, do sub\u00farbio do Rio de Janeiro, acabar no mesmo microfone com seu \u00eddolo. Isso \u00e9 um neg\u00f3cio muito doido. E eu sei que a m\u00fasica dele \u00e9 eterna. E, at\u00e9 hoje, atual. Enfim, eu estou dizendo de verdade: n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil falar do John.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57766\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/JohnLizzieAlta2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"776\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/JohnLizzieAlta2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/JohnLizzieAlta2-290x300.jpg 290w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lizzie chegou a Londres em 14 de fevereiro de 1967. Partindo do Rio, nunca esperava que, naquele mesmo dia que chegou \u00e0 Inglaterra, estaria de frente para seus \u00eddolos nas portas do Abbey Road Studios durante o per\u00edodo em que o quarteto gravava seu \u201cSgt. Pepper&#8217;s Lonely Hearts Club Band\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/09\/especial-lennon-80-lizzie-bravo-a-brasileira-que-cantou-com-os-beatles\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57762,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4272,1521],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57759"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57759"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57759\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58476,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57759\/revisions\/58476"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}