{"id":57626,"date":"2004-12-20T00:33:33","date_gmt":"2004-12-20T02:33:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57626"},"modified":"2020-11-17T03:29:35","modified_gmt":"2020-11-17T06:29:35","slug":"cinema-sobre-cafe-e-cigarros-de-jim-jarmusch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/12\/20\/cinema-sobre-cafe-e-cigarros-de-jim-jarmusch\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Sobre Caf\u00e9 e Cigarros&#8221;, de Jim Jarmusch"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelo.costa.5855\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o fumo cigarros, nem gosto muito de caf\u00e9. Mas eu j\u00e1 fumei: eu tinha 16 anos e achava cool ter um cigarro entre os dedos, como se aquilo me trouxesse mais seguran\u00e7a ou sei l\u00e1 o que (at\u00e9 hoje me pergunto de que adiantou ler Shakespeare e Hesse antes dos 15, mas tudo bem). Por\u00e9m, convenhamos: fumar \u00e9 cool, mas \u00e9 preciso ter prazer em jogar tabaco para dentro do pulm\u00e3o, algo que eu n\u00e3o tinha. O charme durou uns sete meses. J\u00e1 com o caf\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 mais pr\u00f3xima. N\u00e3o costumava tomar puro. Em casa, era sempre caf\u00e9 com leite. Por\u00e9m, depois que voc\u00ea come\u00e7a a morar sozinho e a trabalhar demais, o caf\u00e9 surge com um bom companheiro. No entanto, n\u00e3o posso exagerar: a gastrite reclama quando os baldes de caf\u00e9 come\u00e7am a se tornar freq\u00fcentes, mas, assumo: at\u00e9 gosto um pouco de caf\u00e9, mas na escala de l\u00edquidos consum\u00edveis, acho que ele n\u00e3o fica nem no top ten.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sobre Caf\u00e9 e Cigarros&#8221; (&#8220;Coffee and Cigarettes&#8221;, 2003), do cult diretor Jim Jarmusch, joga todo esse par\u00e1grafo anterior no cinzeiro. O filme \u00e9 uma constante tenta\u00e7\u00e3o ao espectador, tendo como foco 11 pequenas hist\u00f3rias em preto (caf\u00e9) e branco (cigarros) que se passam, invariavelmente, em uma mesa em que pessoas alternam tragadas em bastonetes nicotinosos com goles de cafe\u00edna fervida em \u00e1gua quente, e a\u00e7\u00facar ao gosto de cada um. Por\u00e9m, mais do que um filme, &#8220;Sobre Caf\u00e9 e Cigarros&#8221; parece um passatempo do diretor alem\u00e3o. S\u00e3o pequenas hist\u00f3rias que brincam com as personas de algumas celebridades, entre elas, Roberto Benigni, Steve Buscemi, Iggy Pop, Tom Waits, Cate Blanchet, Jack White, Meg White e Bill Murray.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O embri\u00e3o do filme foi um curta-metragem filmado por Jarmusch em 1986, para o Saturday Night Live. Em &#8220;Strange to Meet You&#8221;, um Roberto Benigni com cara de psicopata partilha com Steven Wright algumas doses de caf\u00e9s e cigarros. No curta, um dos melhores do filme, o duo chega a conclus\u00e3o que tomar caf\u00e9 a noite acelera os sonhos. O papo termina de uma forma deliciosamente nonsense. Com esse curta filmado, Jarmusch guardou a ideia durante anos, filmando sempre quando tinha uma oportunidade. Assim, em 1989, Steve Buscemi encarou os g\u00eameos Cinqu\u00e9 e Joie Lee (filhos do diretor Spike Lee) num boteco para contar uma incr\u00edvel hist\u00f3ria de Elvis Presley (sim, sim, ele est\u00e1 vivo!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos depois foi a vez de Iggy Pop e Tom Waits se encontrarem em um boteco, ao lado de uma jukebox, e ficarem trocando id\u00e9ias impag\u00e1veis. &#8220;Cara, conheci um baterista sensacional. Assim que o vi tocando, pensei: preciso apresenta-lo para o Tom&#8221;, diz Iggy. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 querendo dizer que o som da bateria dos meus discos \u00e9 uma porcaria? \u00c9 isso?&#8221;, responde Tom Waits, s\u00e9rio e impag\u00e1vel. O sarcasmo flutua no ar junto com a fuma\u00e7a, que, alias, nem devia marcar presen\u00e7a nesse quadro, j\u00e1 que tanto Tom quanto Iggy haviam abandonado os cigarros por ordem m\u00e9dica. &#8220;Mas fumar um cigarro \u00e9 um exemplo de for\u00e7a&#8221;, provoca Tom Waits. &#8220;S\u00f3 quem parou de fumar pode acender um cigarro e dizer: estou fumando um cigarro, mas eu j\u00e1 parei. E s\u00f3 para provar que sou forte vou fumar apenas um&#8221;, conclui o pensamento Tom Waits. Incr\u00e9dulo, Iggy Pop aceita um cigarro e os dois astros parecem ter orgasmos quando a nicotina invade o corpo. Hil\u00e1rio. O final do esquete \u00e9 muito engra\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de 1992, tamb\u00e9m, o mediano quarto epis\u00f3dio do filme, em que Joe Rignano e Vinny Vella passam o tempo discutindo os malef\u00edcios do cigarro. Desse ponto em diante, &#8220;Sobre Caf\u00e9 e Cigarros&#8221; sofre uma queda sintom\u00e1tica, principalmente a partir dos epis\u00f3dios filmados em 2003. Entre os mais fracos est\u00e3o o quinto epis\u00f3dio (com Ren\u00e9e French) e o s\u00e9timo (com o duo White Stripes enchendo o saco). Dos medianos, temos o sexto (com os atores Isaach de Bankol\u00e9 e Alex Des\u00e7as), o oitavo (com Cate Blanchet fazendo papel duplo e brincando com a fama) e o \u00faltimo (com William Rice e Taylor Mead transformando caf\u00e9 em champagne num trecho bastante po\u00e9tico). Os dois \u00fanicos trechos que mant\u00e9m o pico inicial s\u00e3o o nono (Alfred Molina e Steve Coogan) e o d\u00e9cimo (RZA e GZA, do Wu-Tan Clan, e Bill Murray, absurdamente impag\u00e1vel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No nono, o americano Alfred Molina recebe o ingl\u00eas Steve Coogan nos Estados Unidos. Para quem n\u00e3o se lembra, Steve Coogan faz o papel principal do filme &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2003\/06\/06\/a-festa-nunca-termina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">24 Hour Party People<\/a>&#8220;, encarnando o produtor Tony Wilson. Na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, Peter Hook, do New Order, chegou a dizer que o papel da pessoa mais chata de Manchester (Tony) havia ficado com a segunda pessoa mais chata da cidade (Steve). Em &#8220;Caf\u00e9 e Cigarros&#8221;, Jarmusch apenas refor\u00e7a a tese. Molina quer se aproximar de Coogan de qualquer maneira, mas o ingl\u00eas (que dispensa o caf\u00e9 e toma ch\u00e1) n\u00e3o corresponde a amizade. Em um momento crucial, Molina pede o n\u00famero do celular de Coogan. &#8220;Seria muito horr\u00edvel da minha parte n\u00e3o te dar o n\u00famero?&#8221;, diz Coogan. At\u00e9 que toca o telefone de Molina. &#8220;Oi, Spike, tudo bem?&#8221;. A conversa segue, close no rosto de Coogan, maluco de curiosidade e querendo ouvir alguma coisa do papo, sem sucesso. Quando Molina desliga o telefone, Coogan pergunta: &#8220;Voc\u00ea estava falando com o Spike Lee?&#8221;. Molina responde: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o Coogan solta a respira\u00e7\u00e3o, completamente aliviado, at\u00e9 que Molina emplaca: &#8220;Era o Spike Jonze&#8221;. Sem palavras&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 para considerar &#8220;Coffee and Cigarettes&#8221; um filme. Autor de obras fortes como &#8220;Estranhos no Para\u00edso&#8221; (1984), &#8220;Down by Law&#8221; (1986), &#8220;Mystery Train&#8221; (1989) e &#8220;Dead Man&#8221; (1995), Jarmusch apenas exercita sua maneira de ver o mundo em pequenos relatos cheios de cinismo, t\u00e9dio, banalidade e sil\u00eancios. O ponto mais interessante do filme, no entanto, \u00e9 sua correla\u00e7\u00e3o com a realidade. Jarmusch filma as personas de alguns \u00edcones do cinema e da m\u00fasica em um momento de pretensa realidade. A brincadeira acaba sendo a grande sacada do filme, afinal, ser\u00e1 que Iggy Pop \u00e9 realmente daquele jeito, ou est\u00e1 atuando como Iggy Pop? No entanto, no fiel da balan\u00e7a, por mais que existam pontos em comum entre os esquetes, e as refer\u00eancias tentem aproximar alguns trechos, &#8220;Coffee and Cigarettes&#8221; carece de unidade. Os momentos bons s\u00e3o muito bons. Os ruins s\u00e3o muito ruins. E o resultado \u00e9 mediano. Vale com divers\u00e3o, mas j\u00e1 \u00e9 costume esperar um pouco mais do que divers\u00e3o de diretores como Jim Jarmusch. &#8220;Coffee and Cigarettes&#8221; \u00e9 apenas um filme feito entre caf\u00e9s e cigarros, um passatempo no intervalo de obras maiores.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sobre Caf\u00e9 e Cigarros\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rvMRuiVnF_0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os momentos bons s\u00e3o muito bons. 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