{"id":57622,"date":"2006-01-04T00:24:11","date_gmt":"2006-01-04T02:24:11","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57622"},"modified":"2020-11-17T03:30:40","modified_gmt":"2020-11-17T06:30:40","slug":"cinema-flores-partidas-de-jim-jarmusch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/01\/04\/cinema-flores-partidas-de-jim-jarmusch\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Flores Partidas&#8221;, de Jim Jarmusch"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/paula.dume\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paula Dume<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lend\u00e1ria imagem do mito latino Don Juan compartilha a tela em &#8220;Flores Partidas&#8221; (&#8220;Broken Flowers&#8221;, 2005), de Jim Jarmusch, com Don Johnston (Bill Murray). Conquistador por natureza, Don Juan \u00e9 um personagem m\u00edtico da hist\u00f3ria. Tem v\u00e1rias mulheres, mas n\u00e3o se prende a nenhuma. \u00c9 inconstante com todas e constante s\u00f3 na sua inconst\u00e2ncia. Os dois Dons possuem algo em comum: privilegiam o presente e se esquecem do passado e futuro. Assim, a\u00e7\u00f5es mal realizadas no passado e mal formuladas para o futuro podem abalar suas vidas. A de Don Johnston se abala no in\u00edcio do filme com a not\u00edcia de que tem um filho de dezenove anos, fruto de um caso do passado. E n\u00e3o \u00e9 para tanto aqui que o &#8220;passado prega pe\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Solteir\u00e3o por op\u00e7\u00e3o, Don \u00e9 abandonado pela \u00faltima namorada, Sherry, sob a alega\u00e7\u00e3o de que era tratada como um caso ao inv\u00e9s de um relacionamento s\u00e9rio. A instabilidade sentimental dele se contrap\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 ao de seu vizinho e melhor amigo Winston (Jeffrey Wright), mas tamb\u00e9m ao do tempo dos outros personagens da trama. Para Don, seu passado ficava isolado em dada \u00e9poca vivida e o futuro n\u00e3o era o amanh\u00e3, mas o agora, o sempre presente, fato esse que o protagonista n\u00e3o se prendia a nada nem muito menos a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carta rosa, assim como todos os ind\u00edcios rosas que Don encontra pelo caminho, ao tentar localizar o paradeiro de seu filho, nada mais s\u00e3o que casualidades. Ele vive sozinho em um mundo que \u00e9 s\u00f3 seu, por isso nunca se deixou envolver por completo. N\u00e3o deixou que ultrapassassem a barreira entre o privado e o coletivo que ele preza e defende. Don pensa seduzir a todos, mas n\u00e3o se deixa seduzir pelos verdadeiros prazeres da vida. Ele n\u00e3o se leva a s\u00e9rio e acaba magoando as pessoas que pensa amar por uma quest\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e n\u00e3o compartilhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro reencontro que tem \u00e9 com Laura (Sharon Stone), sendo recebido ironicamente por Lolita, filha de sua ex-namorada. Dora, a segunda que reencontra, \u00e9 agente imobili\u00e1ria e tem uma vida pacata com seu marido e tamb\u00e9m s\u00f3cio. A terceira \u00e9 a veterin\u00e1ria Carmen que fica constrangida ao reencontr\u00e1-lo. Por\u00e9m, Penny, a \u00faltima ex visitada, ser\u00e1 a chave para a reflex\u00e3o do personagem. Ele \u00e9 recepcionado por uma gangue que o encara de frente e isso o assusta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Don parece infeliz no trabalho e nas realiza\u00e7\u00f5es que teve. Computadores, que foram a fonte de seu sustento, n\u00e3o t\u00eam vez na sua casa. Ele assiste TV a maior parte do tempo e flerta com as pessoas como quem joga uma partida sinuosa de cartas marcadas. Ele age instintivamente somente sob esse aspecto. Os filmes reproduzem uma monotonia a qual ele se acostumou, mas n\u00e3o tomou consci\u00eancia do quanto lhe faz mal. Sua vida parece um v\u00f3rtex de mesmice e \u00e9 justamente nesta reflex\u00e3o que mora o segredo da pel\u00edcula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor Jim Jarmusch escreveu o roteiro especialmente para Bill Murray, selando mais uma vez o trabalho da dupla, brilhante anteriormente no epis\u00f3dio &#8220;Delirium&#8221; em &#8220;Sobre Caf\u00e9 e Cigarros&#8221; (2003). Mas Jarmusch vai al\u00e9m. O jogo de c\u00e2meras \u00e9 intimista e a proximidade com que o foco das lentes capta a fisionomia dos atores impressiona o espectador e o transporta para dentro da trama, ou melhor, para os conflitos internos dos personagens. E como isso custa paci\u00eancia e acuidade aos nossos olhos, pois em alguns momentos do filme, o sil\u00eancio \u00e9 mais presente do que ausente. A lacuna imperfeita e, sobretudo, humana, que Jarmusch exp\u00f5e, \u00e9, em certa parte, sanada pelo olhar mais atento aos conflitos n\u00e3o s\u00f3 daqueles que est\u00e3o ali na grande tela, mas aqui, muito pr\u00f3ximo de n\u00f3s. Sim, de fato, s\u00e3o nossas fraquezas de cada dia que est\u00e3o expostas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Broken Flowers Official Trailer #1 - (2005) HD\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c_TB7MkrGyc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O jogo de c\u00e2meras \u00e9 intimista e a proximidade com que o foco das lentes capta a fisionomia dos atores impressiona o espectador e o transporta para dentro da trama, ou melhor, para os conflitos internos dos personagens. 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