{"id":57618,"date":"2006-04-26T00:16:42","date_gmt":"2006-04-26T03:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57618"},"modified":"2020-10-03T10:28:57","modified_gmt":"2020-10-03T13:28:57","slug":"cinema-estrela-solitaria-de-win-wenders","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/04\/26\/cinema-estrela-solitaria-de-win-wenders\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221;, de Wim Wenders"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57619 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ESTRELA1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"634\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ESTRELA1.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ESTRELA1-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelo.costa.5855\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; (&#8220;Don&#8217;t Come Knocking&#8221;, 2005), novo filme de Wim Wenders, \u00e9 o trabalho mais simples (e at\u00e9 singelo) do diretor em anos e anos. A hist\u00f3ria &#8211; \u00f3bvia &#8211; \u00e9 muito bem recortada pelo roteiro simples e envolvente, que destaca um n\u00facleo de personagens secund\u00e1rios t\u00e3o fortes que, por vezes, roubam o brilho da \u00f3tima atua\u00e7\u00e3o principal de Sam Shepard, que assina o roteiro, baseado em um texto pr\u00f3prio. Esque\u00e7a a redu\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa da cr\u00edtica que diz que o filme \u00e9 um &#8216;road movie&#8217; (ele apenas absorve elementos do estilo) e o compara a &#8220;Paris-Texas&#8221;. H\u00e1 semelhan\u00e7as com o (j\u00e1 cl\u00e1ssico) filme de 1984, mas isso ocorre muito mais pela loca\u00e7\u00e3o no oeste norte-americano do que pela tem\u00e1tica do vazio da alma, at\u00e9 presente nas duas pel\u00edculas, mas tratados de forma bastante diferente em cada um delas. Wim Wenders deixou a densidade de lado para filmar uma simples hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto de partida de &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; acontece em um set de filmagem. Howard Spence (interpretado com excel\u00eancia por Sam Shepard), ator do tipo arruaceiro, daqueles que dividem suas apari\u00e7\u00f5es em revistas de fofoca por tema (drogas, mulheres e pol\u00edcia), \u00e9 um famoso cowboy de filmes de faroeste cuja carreira est\u00e1 em franca decad\u00eancia, assim como o pr\u00f3prio g\u00eanero western. Ap\u00f3s uma noite de intensa farra em seu trailer, no set de filmagem, o ator desaparece, deixando para tr\u00e1s uma rotina de sexo, drogas, bebidas e sabemos l\u00e1 mais o que. E um filme por acabar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O abandono do set de filmagem divide o foco da narrativa em quatro a\u00e7\u00f5es. De um lado temos o ator, cavalgando com sua roupa de cowboy pelo deserto de Utah e se perguntando: &#8220;Por que eu ainda n\u00e3o morri? Por que?&#8221;. Em segundo plano, a companhia cinematogr\u00e1fica t\u00eam um filme para terminar, e precisa que Howard retorne ao set para cumprir o seu contrato. Mais abaixo, uma garota caminha de l\u00e1 para c\u00e1 carregando as cinzas de sua m\u00e3e em uma urna funer\u00e1ria. Por fim, um cantor mastiga sua vida cantando o folk e o blues em um velho boteco perdido no velho oeste. Essas quatro narrativas, muito bem desenvolvidas e editadas, conseguem dar brilho ao roteiro, que mesmo partindo de uma premissa batida (a busca pela reden\u00e7\u00e3o tardia) transformam &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; em um filme tocante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito do brilho do filme surge pela perfeita caracteriza\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios personagens secund\u00e1rios que giram ao redor de Howard Spence, dando ao espectador momentos de humor enquanto o ator cavalga do inferno ao purgat\u00f3rio. Eva Marie Saint, que interpreta a m\u00e3e do ator, conquista o p\u00fablico antes mesmo de entrar em cena, quando troca poucas palavras com ele ao celular. A candura do personagem, aliada a interpreta\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel de Eva Marie, entra e sa\u00ed de cena transbordando inspira\u00e7\u00e3o. No entanto, o receio de que o filme perca ritmo com a sa\u00edda de cena de Eva Marie \u00e9 deixado de lado quando se percebe que o cuidado com os pap\u00e9is coadjuvantes permanece, dando ritmo e for\u00e7a ao filme, seja na pele do advogado\/ seguran\u00e7a\/ detetive\/ sabemos-l\u00e1-o-que interpretado por Tim Roth (que quase chega ao orgasmo ao esmiu\u00e7ar banalidades do dia-a-dia), de uma ex-affair do ator (Jessica Lange, admir\u00e1vel), de um cantor de bar (Gabriel Mann) e da tal garota que passeia carregando sua m\u00e3e em uma urna funer\u00e1ria (a loirinha Sarah Polley).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A densidade textual e tem\u00e1tica encontrada em obras como &#8220;Asas de Desejo&#8221;, &#8220;Paris-Texas&#8221; e &#8220;T\u00e3o Longe T\u00e3o Perto&#8221; n\u00e3o d\u00e1 as caras em &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221;. Wim Wenders optou por filmar com extrema simplicidade, e mesmo as cenas nonsense bastante caracter\u00edsticas ao cineasta surgem embaladas por uma aura de leve lirismo, que sugerem mais contempla\u00e7\u00e3o do que reflex\u00e3o. As imagens s\u00e3o limpas, e o recurso &#8220;Day For Night&#8221; (o hoje popular, ap\u00f3s Truffaut, &#8220;noite americana&#8221;), que permite que cenas noturnas sejam filmadas durante o dia, surge na cena inicial e em algumas outras passagens com o intuito de demonstrar que, por mais que tudo pare\u00e7a estar escuro, a realidade \u00e9 muito mais ensolarada do que Howard possa perceber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, mais do que remeter-se a &#8220;Paris-Texas&#8221;, este &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; \u00e9 irm\u00e3o direto de &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/01\/04\/cinema-flores-partidas-de-jim-jarmusch\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flores Partidas<\/a>&#8220;, de Jim Jarmusch. Por\u00e9m, enquanto &#8220;Flores Partidas&#8221; exibe o vazio existencial de forma &#8220;apaixonadamente vazia&#8221;, &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; apenas namora a tem\u00e1tica, seguindo por um outro caminho (por vezes \u00f3bvio, mas at\u00e9 mais interessante): o de contar a hist\u00f3ria de um homem que, no fundo do po\u00e7o, percebe que precisa dar um rumo \u00e0 sua vida. O que acontece ap\u00f3s essa decis\u00e3o pela busca da reden\u00e7\u00e3o tardia move o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto &#8220;Flores Partidas&#8221; quanto &#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; tratam do vazio da alma e trazem bons momentos c\u00f4micos que disfar\u00e7am o gosto amargo da tem\u00e1tica central. No entanto, Jarmusch demarcou seu microcosmo tendo como base um personagem cujo vazio n\u00e3o nos \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3ximo, um Don Juan dos novos tempos, g\u00eanio da computa\u00e7\u00e3o, cuja vida apenas \u00e9 um amontoado de horas se amontoando cada vez mais, e nem o dinheiro serve para diminuir o t\u00e9dio. Perdido em sua pr\u00f3pria vida, o personagem de Bill Murray \u00e9 empurrado para o mundo real pelo vizinho. Ele \u00e9 deslocado de seu tempo\/espa\u00e7o e jogado contra sua vontade ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Wenders optou por um personagem bastante comum, que passa a vida fugindo de si mesmo &#8211; e de suas obriga\u00e7\u00f5es &#8211; at\u00e9 perceber que o tempo (implac\u00e1vel) n\u00e3o p\u00e1ra de girar os segundos do rel\u00f3gio. Dinheiro e fama aqui &#8211; como em &#8220;Flores Partidas&#8221; &#8211; tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam fun\u00e7\u00e3o nenhuma, al\u00e9m de estender a dist\u00e2ncia entre realiza\u00e7\u00e3o profissional e felicidade plena. No caso de Howard, por\u00e9m, \u00e9 ele quem decide mudar seu rumo. Ele flutua de l\u00e1 para c\u00e1 amparado em personagens secund\u00e1rios, mas a escolha de se mover em busca deste algo \u00e9 sua. De m\u00e3os dadas, Jarmusch e Wenders filmaram as mesmas fagulhas de humanismo, por\u00e9m, de \u00e2ngulos diferentes. A diferen\u00e7a exp\u00f5e o olhar pessoal de cada um dos diretores sobre o vazio da alma: Jarmusch acredita na culpa enquanto Wenders cr\u00ea no perd\u00e3o. Pessoalmente, admiro mais o segundo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer ?ESTRELA SOLIT\u00c1RIA (Don&#039;t Come Knocking), de Win Wenders, SONY, 2005\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9bY1KI0POZQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Estrela Solit\u00e1ria&#8221; (&#8220;Don&#8217;t Come Knocking&#8221;, 2005), novo filme de Wim Wenders, \u00e9 o trabalho mais simples (e at\u00e9 singelo) do diretor em anos e anos. 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