{"id":57412,"date":"2003-09-19T17:48:29","date_gmt":"2003-09-19T20:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57412"},"modified":"2020-11-17T04:20:24","modified_gmt":"2020-11-17T07:20:24","slug":"esse-voce-precisa-ver-a-morte-em-veneza-1971-de-luchino-visconti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2003\/09\/19\/esse-voce-precisa-ver-a-morte-em-veneza-1971-de-luchino-visconti\/","title":{"rendered":"Esse voc\u00ea precisa ver: &#8220;A Morte em Veneza&#8221; (1971), de Luchino Visconti"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57417 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/morteemveneza2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"503\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/morteemveneza2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/morteemveneza2-300x201.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Renata di Modrone<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A morte em Veneza&#8221; (&#8220;Morte a Venezia&#8221;, 1971) \u00e9 uma vis\u00e3o do Kabuki ajustado a sinfonia de Mahler. Cento e vinte oito minutos do problema e do desejo, do amor plat\u00f4nico entre um homem mais velho e um belo adolescente; tratada em profunda an\u00e1lise psicol\u00f3gica e em extremo requinte de estilo dentro de um rigoroso teor art\u00edstico, na adapta\u00e7\u00e3o do romance concebido no umbral da Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pel\u00edcula, dirigida por Luchino Visconti, exprime ostensivamente o car\u00e1ter de adapta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o da novela de Thomas Mann, imprimindo um pragmatismo por vezes infiel a obra liter\u00e1ria. Direito inquestion\u00e1vel nas Artes! Visconti omite as primeiras dezesseis p\u00e1ginas das setenta e nove p\u00e1ginas da obra de Thomas Mann, porque n\u00e3o acredita que o mon\u00f3logo interior desta se\u00e7\u00e3o teria precis\u00e3o no filme, passando imediatamente a por\u00e7\u00e3o da novela que emula o interesse de Aschenbach em Tadzio; usando o artif\u00edcio dos flashbacks que s\u00e3o incorporados na narrativa para explicar a motiva\u00e7\u00e3o atr\u00e1s da atra\u00e7\u00e3o fatal de Aschenbach. Ao contr\u00e1rio do livro entretanto, a pel\u00edcula nunca busca isolar Tadzio dentro do reino de interesses apenas criativos de Aschenbach. A for\u00e7a de Tadzio \u00e9 posta como a imagem que evoca um relacionamento mais visceral e subseq\u00fcentemente mais amb\u00edguo entre os dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos \u00e9 dada atrav\u00e9s da correspond\u00eancia entre Mahler (em quem Mann baseou parcialmente o car\u00e1ter de Aschenbach) e Sh\u00f6nberg, onde os flashbacks s\u00e3o t\u00e3o perturbadores quanto o siroco. Tentando elevar as tormentas do artista a estas conversa\u00e7\u00f5es, com alus\u00f5es a Nietzsche e a Schopenhauer, resultam freq\u00fcentemente mais como extratos da guia das notas de um penhasco ao confronto da id\u00e9ia do belo e da pr\u00f3pria est\u00e9tica. Aschenbach professa uma opini\u00e3o no artista como o criador da beleza. Esta proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 ovacionada por Alfred durante as seq\u00fc\u00eancias do flashback. Corte de encontro \u00e0 vis\u00e3o do belo adolescente Tadzio, sugestionada numa simetria complementar. Esta argumenta\u00e7\u00e3o intrusiva e taciturnica atribuem a Tadzio uma posi\u00e7\u00e3o meramente formal na desintegra\u00e7\u00e3o de Aschenbach. \u00c9 obscurecida abaixo desta roupa filos\u00f3fica uma obsess\u00e3o mais f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A beleza ideal de Tadzio \u00e9 trazida \u00e0 tela no corpo de treze anos do bel\u00edssimo modelo e ator Bj\u00f6rn Andressen. \u00c9 imposs\u00edvel determinar o quanto esta equa\u00e7\u00e3o de pederastia tenha jogado em surdina a aceita\u00e7\u00e3o do discurso do desejo contido na Morte em Veneza e com qual efeito.Quando a estranheza desta pel\u00edcula \u00e9 discutida est\u00e1 geralmente nos termos de uma oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria: um ou outro Aschenbach como o artista numa obsess\u00e3o est\u00e9tica e espiritual terminal; ou um ou outro Aschenbach arrebatado pela paix\u00e3o carnal pelo p\u00fabere.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns escritores foram aos grandes elogios e outros refutaram e acusaram a homossexualidade salientada na pel\u00edcula, responsabilizando a permissividade sexual por uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o dos sentimentos de Aschenbach para com Tadzio. Visconti salienta que a refer\u00eancia \u00e9 muito mais ao platonismo em si do que a mera homossexualidade. Mesmo a obra liter\u00e1ria de Thomas Mann, com todo o dom\u00ednio do estilo e a finura da an\u00e1lise dos sentimentos n\u00e3o conseguiu escapar ilesa aos severos julgamentos, o escritor Per Hallstr\u00f6m atacou: &#8220;A admira\u00e7\u00e3o sem limites que esta empresa temer\u00e1ria provocou um pouco em toda parte \u00e9, entre muitos outros, um fato comprometedor, que diz bastante da decad\u00eancia espiritual da Europa no umbral da guerra de 1914&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raps\u00f3dia sobre a atra\u00e7\u00e3o pelo belo adolescente Tadzio \u00e9 posta de forma efusiva e ao mesmo tempo plat\u00f4nica. Poderia-se dissecar o artif\u00edcio cinematogr\u00e1fico atr\u00e1s das superf\u00edcies projetadas, mas seria uma extravag\u00e2ncia. Andressen reflete uma beleza \u00f3bvia, beleza que descreve uma perspectiva do desejo.Medita\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias que puderam atear fogo \u00e0 palavra escrita, plano da queda antes de sua imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importa comprovar o correto discurso filos\u00f3fico da pel\u00edcula; n\u00e3o importa o quanto velho \u00e9 o homem; n\u00e3o importa que seja menor a beleza do sexo na tela; esta \u00e9 uma pel\u00edcula que n\u00e3o pode ser negada no seu modo. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o existencial, nem simplesmente escabroso como julgam os detratores, mas \u00e9 ao contr\u00e1rio mais inclinado ao erotismo l\u00e2nguido, envolventemente espiritual e tensamente sensual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A morte em Veneza&#8221; \u00e9 o escrit\u00f3rio dianteiro de Tadzio querendo dos irm\u00e3os da Warner uma nomea\u00e7\u00e3o para o Oscar expurgado por n\u00e3o adaptarem a figura do menino para o papel de uma menina (&#8220;Lolita&#8221; diz EST\u00c1 BEM a hetero-pedofilia). O \u00fanico toque compartilhado est\u00e1 na fantasia, a \u00fanica declara\u00e7\u00e3o da afei\u00e7\u00e3o \u00e9 mantida al\u00e9m do alcance da voz. N\u00e3o fiador do olhar; Tadzio no jogo; na bandeja lenta da c\u00e2mera, &#8220;A Morte em Veneza&#8221; \u00e9 bordos do tecnicolor de Dirk Bogarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma evoca\u00e7\u00e3o rica do amor que ousa n\u00e3o falar seu nome, do desejo e do seu g\u00eameo terminal, &#8220;Morte em Veneza&#8221; fala como o sil\u00eancio (= morte). Uma vez que Aschenbach arrepende-se em sua tentativa de fugir de Veneza e abandonar seu fasc\u00ednio por Tadzio, o colapso do amacilamento do homem anuncia a presen\u00e7a da praga. As ruas se esvaziam e logo os turistas desaparecem, funcionando preferivelmente como pretexto para desinfetar no fumo de seus fogos o p\u00fatrido. Os estragos da c\u00f3lera asi\u00e1tica avan\u00e7am de modo devastador assim como a obsess\u00e3o de Aschenbach que como a pestil\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o tem rem\u00e9dio, vaga perdida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carretel e a cara finais de Aschenbach est\u00e3o nas ru\u00ednas, uma destrui\u00e7\u00e3o que mascarada com a beleza recorda a seq\u00fc\u00eancia da abertura com sua t\u00edmida parodia de uma rainha dandy do envelhecimento. Um reacion\u00e1rio reflexo, um mimesis, dando a voz ao mito do homossexual destrutivo do self (infringindo) o Sodom novo, uma trag\u00e9dia velha. Duramente, vai esvaindo-se no momento que considera estas liga\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo desenhadas entre o sexo e a morte, sem pensar na epidemia da nossa pr\u00f3pria era. Isto \u00e9, antes que estas incurs\u00f5es estivessem ascendentes, quebrando, para ca\u00edrem afastadas antes do jogo claro da mem\u00f3ria de Tadzio, balan\u00e7ando o alicerce das colunas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O escritor alem\u00e3o e autor da novela &#8220;A Morte em Veneza&#8221;, Thomas Mann:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas Mann, grande e complexo escritor alem\u00e3o, Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 1929 por &#8220;Os Buddenbrook&#8221; (1901) e mentor de numerosos cl\u00e1ssicos da literatura mundial (&#8220;A Montanha M\u00e1gica&#8221;, &#8220;A Morte em Veneza&#8221;, &#8220;O Doutor Fausto&#8221;, &#8220;Felix Krull&#8221; e outros). Nasceu em 6 de junho de 1874 na cidade de Lubeck, Alemanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu pai foi um rico importador e senador de origem alem\u00e3 e a m\u00e3e possu\u00eda ascend\u00eancia brasileira, provocando em Mann um choque entre a heran\u00e7a latina vibr\u00e1til materna e o racionalismo conferido pela fria autodisciplina paterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu pai morre subitamente no outono de 1891, \u00e0 parte da heran\u00e7a concebida para Thomas n\u00e3o o obrigam a ganhar a vida por um bom tempo. Desposa a filha de um rico e famoso professor universit\u00e1rio, K\u00e1tia Pringesheim, companheira ideal (ensa\u00edsta e tradutora) que poupava Mann das preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1933, com a ascens\u00e3o de Hitler e do Nazismo na Alemanha, Mann parte com a fam\u00edlia para o ex\u00edlio na Su\u00ed\u00e7a, enquanto imigrante, \u00e9 naturalizado cidad\u00e3o tcheco, indo pouco tempo depois lecionar na Universidade de Princeton, nos EUA.Volta a Su\u00ed\u00e7a, onde falece em 1955.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos filhos de Thomas Mann, destaque para os ativistas gays, \u00c9rika Mann e Klaus Mann (contista e ensa\u00edsta respeitado na critica liter\u00e1ria contempor\u00e2nea) e tamb\u00e9m para Golo Mann (historiador apreci\u00e1vel, professor em Stuttgart).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Confiss\u00f5es p\u00f3stumas de pendores homossexuais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escreveu ele na sua autobiografia: &#8220;no elevador, quantas vezes quando entravam belos meninos eu tinha que esconder minha excita\u00e7\u00e3o f\u00edsica&#8230;&#8221; Esta cita\u00e7\u00e3o reascendeu as discuss\u00f5es e os julgamentos quanto \u00e0 obra mais pol\u00eamica e conhecida pelos leitores de Mann, &#8220;A Morte em Veneza (1912)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Objeto de desejo de um escritor no livro \u2013 e de um compositor no filme -, Tadzio, descobriu-se, teria realmente existido e inspirado Mann, que tinha pendores homossexuais. O seu nome real seria Wladyslaw Moes, de origem polonesa, e ele teriam estado em Veneza, de fato, no in\u00edcio do s\u00e9culo, na mesma \u00e9poca em que Mann visitou o local. Moes leu o romance e identificou v\u00e1rias passagens com situa\u00e7\u00f5es vividas por ele durante a viagem \u2013 inclusive a sa\u00edda de sua fam\u00edlia da cidade em virtude do surto de c\u00f3lera. A hist\u00f3ria foi confirmada pelo tradutor de Mann para o polon\u00eas, Andrej Doegowski, na revista Twen. Em &#8220;Morte em Veneza&#8221;, como em outros romances de Mann, o &#8220;hero\u00edsmo da fraqueza&#8221; corre paralelo \u00e0 &#8220;sedu\u00e7\u00e3o pelo decl\u00ednio&#8221; e consiste em resistir, pela disciplina, a tudo o que \u00e9 &#8220;desmedido&#8221; e &#8220;ca\u00f3tico&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Morte em Veneza - Trailer - 1971\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XY_e_2QuomA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A morte em Veneza&#8221; \u00e9 uma vis\u00e3o do Kabuki ajustado a sinfonia de Mahler. 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