{"id":57226,"date":"2020-09-05T10:37:08","date_gmt":"2020-09-05T13:37:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57226"},"modified":"2020-11-17T04:12:25","modified_gmt":"2020-11-17T07:12:25","slug":"entrevista-hq-pandemonium-autores-falam-sobre-desafios-no-lancamento-independente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/05\/entrevista-hq-pandemonium-autores-falam-sobre-desafios-no-lancamento-independente\/","title":{"rendered":"Entrevista: HQ &#8220;Pandemonium&#8221; \u2013 Autores falam dos desafios no lan\u00e7amento independente"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevistas por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mercado editorial dos quadrinhos independentes, distantes da realidade de gigantes como a editora Panini e sua extensa gama de edi\u00e7\u00f5es que variam entre simples brochuras a luxuosos (e caros) encadernados, respira em um ritmo diferente de sobreviv\u00eancia. Tamb\u00e9m h\u00e1 exemplos de sucessos com editoras que surgiram como projetos independentes de amigos, leitores e colecionadores (como \u00e9 o caso da bem sucedida \u201cPipoca&amp;Nanquim\u201d), mas h\u00e1 diversos outros artistas do l\u00e1pis e escritores entusiastas dessa representa\u00e7\u00e3o cultural. Tais artistas seguem em uma luta constante no escalar dos infernos atrelados a conseguir produzir, imprimir e levar ao p\u00fablico leitor (e colecionador) de quadrinhos um material de qualidade dentro do nicho da literatura de g\u00eanero do terror e do fant\u00e1stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma analogia (um tanto gratuita, verdade) a Alighieri nessa linha anterior apenas para que seja poss\u00edvel tra\u00e7ar uma ponte entre os escritos infernais de Dante e, assim, pode falar de John Milton e seu \u201cPara\u00edso Perdido\u201d. L\u00e1, o pal\u00e1cio do rei das trevas era chamado na obra do s\u00e9culo XV de \u201cPandemonium\u201d. O nome, bastante apropriado, diga-se de passagem, batiza o quadrinho tocado por alguns autores da Bahia. \u201cPandemonium\u201d, colet\u00e2nea de hist\u00f3rias que caminha entre o fant\u00e1stico, o terror gore e slasher, bem como o psicol\u00f3gico, com inser\u00e7\u00f5es de noir e fic\u00e7\u00e3o p\u00f3s apocal\u00edptica, est\u00e1 em financiamento coletivo pelo Catarse (<a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/pandemonium\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.catarse.me\/pandemonium<\/a>) e delineia um mercado editorial na Bahia e no Brasil que encontra um p\u00fablico cativo e \u00e1vido por hist\u00f3rias dentro do g\u00eanero abordado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizado pelo coletivo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/quadrinhosdeemergencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Quadrinhos de Emerg\u00eancia<\/a> e pelo grupo por tr\u00e1s da <a href=\"http:\/\/www.cinehorror.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mostra Cine Horror<\/a>, Pandemonium tem como autores <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/alexlinsart\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alex Lins<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/alexandrevigas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alix<\/a>, Dami\u00e3o Santana, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dino_lucas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dino Galeazzi<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hector_cartunista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hector Salas<\/a>, H\u00e9lcio Rog\u00e9rio, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/italosilvb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00cdtalo Silva<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/radiowctive\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Giulia Lagrotta<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ricardo.cidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ricardo Cidade<\/a>, Ricardo Martins, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rob.saint.56\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rob Saint<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rodrigoviniciusartes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rodrigo Vinicius<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rogerio_rios_ilustrador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rog\u00e9rio Rios<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/romeumcmartins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Romeu Martins<\/a>, Saul Mendez Filho e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/valoliveira.art\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Valmar Olivreira<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, Valmar, artista gr\u00e1fico respons\u00e1vel por parte das artes da HQ, analisa a quest\u00e3o da barreira financeira para trazer a esse p\u00fablico obras criativas e impactantes dentro dessa proposta. &#8220;A parte financeira \u00e9 um grande problema. Como uma publica\u00e7\u00e3o independente, temos o pre\u00e7o do papel e das gr\u00e1ficas que sempre varia. O financiamento coletivo \u00e9 uma forma de pr\u00e9-venda na qual contamos com os interessados em adquirir o produto. N\u00f3s, assim, s\u00f3 imprimimos a quantidade realmente necess\u00e1ria. Mas tem outro fator que \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o para que as pessoas tenham conhecimento do projeto. Como existem v\u00e1rios quadrinhos sendo planejados e lan\u00e7ados, temos um grande trabalho para aparecermos e nos destacarmos. Sem a devida divulga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos como alcan\u00e7ar nosso p\u00fablico alvo, e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o teremos como alcan\u00e7ar o objetivo de lan\u00e7ar nossa publica\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Valmar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto a ser destacado dentro dessa dificuldade reside na resist\u00eancia de algumas linhas editoriais em enxergar o potencial dos quadrinhos dentro da proposta do terror e do fant\u00e1stico. Seja isso por medo de uma patrulha virtual, t\u00e3o comum na era dos &#8220;cancelamentos&#8221;, ou por n\u00e3o acreditarem que tais publica\u00e7\u00f5es possam gerar retorno em vendas. Roteirista presente em \u201cPandemonium\u201d, Saul Mendez Filho destaca que, para algumas editoras, &#8220;\u00e9 mais dif\u00edcil apostar hoje em algo novo que possa ser linchado virtualmente do que em uma franquia estabelecida, ainda que a mesma seja considerada \u201cincorreta\u201d em diversos sentidos. Existem marcas e personalidades que sempre estar\u00e3o livres de ataque, e outras n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O co-autor traz um exemplo preciso ao abordar as diferentes m\u00eddias em an\u00e1lise de uma obra mundialmente conhecida como \u201cLolita\u201d. \u201cAinda hoje se assiste \u2018Lolita\u2019, filme de Kubrick, nos c\u00edrculos cin\u00e9filos, sem qualquer coment\u00e1rio que n\u00e3o seja elogioso. Ao mesmo tempo se cancela Nabokov e sua obra liter\u00e1ria, ainda que o livro possua mais questionamento e culpa em seus milhares de caracteres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s aplaudidas linhas de roteiro que foram confeccionadas pelo pr\u00f3prio autor para o filme. Kubrick nunca ser\u00e1 criticado, porque isso se tornou um padr\u00e3o. Da mesma forma, criticar alguns nomes espec\u00edficos \u2013 como Woody Allen \u2013 se torna um padr\u00e3o, e a sensa\u00e7\u00e3o de participar na internet de um grupo que concorda \u00e9 sempre fant\u00e1stica. Em grupo, se abate quem pensa diferente com muita maestria&#8221;, compara Saul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para essa entrevista, o Scream &amp; Yell contou com depoimentos, al\u00e9m de Valmar Oliveira e Saul Mendez Filho, de Romeu Martins e Hector Salas, que trouxeram mais impress\u00f5es acerca dos desafios de se firmar dentro do nicho do terror gr\u00e1fico na arte sequencial com refer\u00eancias diversas a obras consagradas das d\u00e9cada pregressas. Confira o papo.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/pandemonium\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.catarse.me\/pandemonium<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PANDEMONIUM - J\u00e1 no catarse\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/goKwz-YbGiI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentro de um mercado de quadrinhos dominado por publica\u00e7\u00f5es oriundas de gigantes como Marvel e DC, vemos o cen\u00e1rio independente resistir, com projetos de lan\u00e7amentos realizados atrav\u00e9s de financiamentos coletivos e editoras que, mesmo sem o poder de gigantes como Panini, ainda conseguem se firmar. Para o Coletivo Quadrinhos de Emerg\u00eancia e voc\u00eas do Cine Horror Bahia, al\u00e9m do aspecto financeiro, quais as principais dificuldades nesse adentrar em um mercado como este?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira &#8211; A parte financeira \u00e9 um grande problema. Como uma publica\u00e7\u00e3o independente, temos o pre\u00e7o do papel e das gr\u00e1ficas que sempre varia. O financiamento coletivo \u00e9 uma forma de pr\u00e9-venda, na qual contamos com os interessados em adquirir o produto, e s\u00f3 imprimimos a quantidade realmente necess\u00e1ria. Mas tem outro fator que \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o, para que as pessoas tenham conhecimento do projeto. Como existem v\u00e1rios quadrinhos sendo planejados e lan\u00e7ados, temos um grande trabalho para aparecermos e nos destacarmos. Sem a devida divulga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos como alcan\u00e7ar nosso p\u00fablico alvo, e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o teremos como alcan\u00e7ar o objetivo de lan\u00e7ar nossa publica\u00e7\u00e3o. Lembrando que temos que chamar a aten\u00e7\u00e3o enquanto independentes e ainda lutar contra a grande maquina publicit\u00e1ria das grandes e m\u00e9dias editoras, que geralmente trabalham com muitos atrativos para o grande p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho &#8211; Existe p\u00fablico para todos os nichos e subcategorias que as grandes empresas n\u00e3o abrangem, mas o dif\u00edcil \u00e9 chegar at\u00e9 ele. E conseguir a confian\u00e7a deles no projeto: no financiamento coletivo a pessoa n\u00e3o sabe com exatid\u00e3o o que vai receber, n\u00e3o existe ainda um produto impresso lan\u00e7ado, com resenhas em sites e canais do YouTube. A \u00fanica base que se tem \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o do produto, poucas imagens e um hist\u00f3rico dos realizadores. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 uma experi\u00eancia que remete \u00e0 boa surpresa de comprar uma revista lacrada na banca, como antigamente. Acompanhar a porcentagem de apoios e ver a mesma se desdobrar em novos brindes e conte\u00fado tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica, e, felizmente, tem funcionado no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abordar temas do fant\u00e1stico e do terror \u00e9 um desafio maior do que outros tipos de tem\u00e1ticas abordadas pelos quadrinhos atuais?<\/strong><br \/>\nRomeu Martins \u2013 O fant\u00e1stico, principalmente na sua vertente do terror, \u00e9 um g\u00eanero que tem leitores bastante fi\u00e9is entre os apreciadores dos quadrinhos. Prova disso \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o de outro projeto que tenho em parceria com o Val, para uma pequena editora chamada Skript. Estamos adaptando contos do escritor de horror H. P. Lovecraft para o formato de graphic novels e a primeira delas, baseada em \u201cA Cor que Caiu do Espa\u00e7o\u201d, ultrapassou em mais de 300% a meta estabelecida pela editora no Catarse. H\u00e1 leitores \u00e1vidos por tais temas, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valmar Oliveira \u2013 No nosso caso, o desafio maior \u00e9 tentar ser o mais criativo poss\u00edvel. O g\u00eanero fant\u00e1stico pode ser trabalhado de varias formas, abordando os mais variados temas, inclusive podemos tratar de tudo usando o horror e a fic\u00e7\u00e3o cientifica, como alegorias para diversos assuntos. O fant\u00e1stico pode ser usado para discutir temas sens\u00edveis, pois n\u00e3o deve ser preso a dogmas, conven\u00e7\u00f5es e ciclos temporais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Isso varia de \u00e9poca para \u00e9poca. No momento, acredito que n\u00e3o, pois vivenciamos um alto interesse dos brasileiros no g\u00eanero de horror. As tem\u00e1ticas de representatividade racial e feminina, que vem sendo o par\u00e2metro guia at\u00e9 para a confec\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados de super-her\u00f3is, tamb\u00e9m veio chamando aten\u00e7\u00e3o para o cinema de horror como express\u00e3o de cr\u00edtica social (embora isso j\u00e1 existisse h\u00e1 muito tempo) e muito do frisson atual com o g\u00eanero vem da\u00ed, com nomes como Jordan Peele, Robert Eggers, Ari Aster, Jennifer Kent, sendo constantemente citados e exaltados em canais dos mais populares, em meio \u00e0s not\u00edcias dos pr\u00f3ximos filmes dos universos de her\u00f3i. O desafio \u00e9 pular essa fileira do p\u00fablico que est\u00e1 interessado apenas por conta do momento e por essas demais motiva\u00e7\u00f5es, e atingir o p\u00fablico que gosta do g\u00eanero por si mesmo e em todas suas nuances.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57233\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-5-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Temos, nos quadrinhos, dentro desse estilo de hist\u00f3rias calcadas no fant\u00e1stico, uma s\u00e9rie de nomes como Alan Grant e John Wagner (\u201cRa\u00e7a das Trevas\u201d), John Bolton, Dan Spiegle (\u201cHellraiser\u201d), ambas sob consultoria de Clive Baker. Essas duas s\u00e3o as que me vieram \u00e0 mente por conta de estarem na estante desde a adolesc\u00eancia. Mas o pr\u00f3prio material de divulga\u00e7\u00e3o de &#8220;Pandemonium&#8221; traz outros nomes de publica\u00e7\u00f5es marcantes, tais quais Kripta, Spektro, Heavy Metal, dentre outras, que trouxeram uma diversidade enorme de quadrinhos. Voc\u00eas poderiam trazer mais aspectos de como essas influ\u00eancias se manifestam no trabalho que o leitor acessar\u00e1 nesse lan\u00e7amento?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira \u2013 Somos todos leitores e f\u00e3s de quadrinhos. A maioria do grupo tem uma predile\u00e7\u00e3o pelos quadrinhos antigos, mas sem deixar de apreciar os mais atuais. No caso, tentamos trazer quadrinhos que t\u00eam uma pegada voltada para o bizarro, o obscuro, sem ter medo de tratar de temas que hoje em dia podem ser considerados \u201cincorretos\u201d e \u201cn\u00e3o aceit\u00e1veis\u201d. O horror e a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o devem ser limitados, mas devem ser feitos sem se tornar algo gratuito. Horror, fic\u00e7\u00e3o, fantasia e suspense, humor negro e nonsense, s\u00e3o abordados em nossas HQs com um estilo mais voltado para o que era publicado nos anos 1970 e 1980, mas sem soar datado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 A est\u00e9tica geral se assemelha \u00e0s antigas colet\u00e2neas de quadrinhos alternativos consumidas nos anos 80. Simplesmente s\u00e3o revistas que n\u00e3o existem mais. As principais hist\u00f3rias possuem uma narrativa direta, com foco em contar uma trama b\u00e1sica ou acompanhar uma sequ\u00eancia de a\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes com a presen\u00e7a de pouco texto e foco na ambienta\u00e7\u00e3o. Tudo isso \u00e9 heran\u00e7a dos quadrinhos de horror dos anos 50, e foi muito consumido at\u00e9 o fim do s\u00e9culo passado, at\u00e9 desaparecer das prateleiras. Ao mesmo tempo, a revista \u00e9 permeada de hist\u00f3rias mais curtas que apostam no sarcasmo e num experimentalismo que lembra a produ\u00e7\u00e3o nacional de uma Chiclete com Banana. Essas influ\u00eancias mistas comp\u00f5em, literalmente, um pandem\u00f4nio. \u00c9 natural nesse tipo de revista que o leitor se apegue mais ao tra\u00e7o de um ou outro artista, \u00e0 narrativa ou ao tema de um ou outro autor. O ganho est\u00e1 justamente na liberdade do formato e na aposta de um produto que n\u00e3o se encontra mais. Nesse quesito, quanto mais volumes forem realizados, maior a chance de se produzirem p\u00e9rolas curtas do quadrinho nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 jun\u00e7\u00e3o entre a narrativa escrita e a arte sequencial, voc\u00eas poderiam falar um pouco desse processo de constru\u00e7\u00e3o? Nesse conjunto de desenhistas e escritores, h\u00e1 como descrever esse passo a passo na cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nHector Salas \u2013 Cada autor tem seu m\u00e9todo, sendo que alguns desenham e escrevem seus pr\u00f3prios roteiros, e outros desempenham apenas uma destas fun\u00e7\u00f5es. As HQs podem nascer de um argumento, \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo de um rabisco. O quadrinho mais autoral difere do quadrinho mais \u201cindustrializado\u201d onde cada artista desempenha uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u2013 roteiro, desenhos, arte final, cores, letras. Isso n\u00e3o tem dem\u00e9rito algum. Grandes obras s\u00e3o feitas de ambas as formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Romeu Martins \u2013 No caso de minha contribui\u00e7\u00e3o na revista, era um conto que mostrei a Val assim que ele me falou sobre a proposta da volta de uma revista de antologia com hist\u00f3rias curtas. Ele leu, aprovou, e ainda me sugeriu um final de maior impacto na trama, sugest\u00e3o que adotei imediatamente assim que fiz a adapta\u00e7\u00e3o para o formato de roteiro. Enviei o texto com uma previs\u00e3o de dez p\u00e1ginas para um desenhista de minha cidade, o Pawlick, que, por sua vez, pediu para ampliar a HQ em uma p\u00e1gina a mais, para que sua narrativa visual flu\u00edsse melhor. Este \u00e9 um bom exemplo da intera\u00e7\u00e3o entre o roteirista primeiramente com o editor e, depois, com o desenhista, pois n\u00f3s somos a parte que faz um processo intermedi\u00e1rio neste processo colaborativo que \u00e9 uma hist\u00f3ria em quadrinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Seguimos o processo padr\u00e3o, mas definimos qual roteirista trabalhar\u00e1 com cada desenhista de forma muito livre. Basicamente apresenta-se um argumento, e caso o desenhista visualize seus interesses e refer\u00eancias pra desenvolver aquele projeto, se forma uma dupla de trabalho. As novas tecnologias contribuem pra que isso possa ser feito completamente \u00e0 dist\u00e2ncia. Depois, \u00e9 quest\u00e3o de como afinar a rela\u00e7\u00e3o de trabalho, at\u00e9 porque existem roteiristas mais espec\u00edficos no resultado visual que se pretende alcan\u00e7ar e roteiristas que contam com muito com a criatividade do desenhista tanto na pagina\u00e7\u00e3o quanto na cria\u00e7\u00e3o visual dos personagens e cen\u00e1rios. Li recentemente uma entrevista com Jean-Claude Mezi\u00e8res e Pierre Christian, criadores de Valerian et Laureline, onde eles discutem justamente esses limites entre o desenhista e o roteirista e como eles se expandem ora para c\u00e1, ora para l\u00e1, o que \u00e9 bem comum se tratando de quadrinhos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57232\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-4-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao ler alguns trechos de &#8220;Pandemonium&#8221;, observei uma grande variedade de estilos. Tra\u00e7os que remetem ao noir no jogo de luz e trevas da hist\u00f3ria hom\u00f4nima desenhada por H\u00e9lcio Rog\u00e9rio; ao mang\u00e1, com o tra\u00e7o de Giulia Lagrota; ao aspecto apocal\u00edptico do tra\u00e7o de Valmar Oliveira em \u201cMonstros\u201d. Minha pergunta \u00e9 sobre esse processo de escolha de estilos dentro das possibilidades que a arte sequencial oferece. Como se d\u00e1 esse processo de escolha dentro da linha editorial proposta por voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira \u2013 Algumas vezes o estilo do artista vai de encontro com o roteiro. Um complementa o outro, em outras \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. A arte cria um contraste com o texto. No caso da Giulia, o tra\u00e7o dela \u00e9 fofinho e faz esse contraste com um texto mais pesado. Os tra\u00e7os mais estilizados como o do Rob Saint, Rodrigo Vinicius ou do Dami\u00e3o Santana servem como contraste ao texto e as situa\u00e7\u00f5es grotescas que ele apresenta. Mas alguns artistas tem um estilo mais definido e j\u00e1 trabalham com temas espec\u00edficos. O ideal \u00e9 que cada um tenha a liberdade para trabalhar com o seu estilo, e acho interessante a diversidade de tra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Existe muita liberdade nesse aspecto. Como falei, \u00e9 sempre o resultado de uma discuss\u00e3o entre roteirista e desenhista, para aquele argumento em espec\u00edfico. A linha editorial, pelo formato, prev\u00ea a variedade que resulta dessa liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em conversa pr\u00e9via com Valmar Oliveira, foi abordada quest\u00e3o de negativas oriundas de editoras quanto \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de material de quadrinhos de terror, com um foco em situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. O mercado est\u00e1 mais conservador? Qual a opini\u00e3o de voc\u00eas quanto a essa caretice relacionada ao tipo de abordagem proposta por &#8220;Pandemonium&#8221;?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira \u2013 Creio que parte do mercado est\u00e1 mais conservador, ou tem medo da rea\u00e7\u00e3o por parte do p\u00fablico. Em momento algum deixei de falar que nossa publica\u00e7\u00e3o seria algo feito para adultos e com inspira\u00e7\u00e3o em quadrinhos antigos. Tivemos criticas em rela\u00e7\u00e3o ao nome, que diziam ser uma alus\u00e3o \u00e0 pandemia, criticas \u00e0 nudez na capa e ao conte\u00fado de algumas historias. O nome da revista \u00e9 referencia ao cl\u00e1ssico \u201cO Para\u00edso Perdido\u201d (1667), de John Milton, e \u00e9 o nome do pal\u00e1cio de L\u00facifer. A nudez \u00e9 algo cl\u00e1ssico nas revistas de horror e fic\u00e7\u00e3o das \u00e9pocas que nos inspiram e parecia l\u00f3gico usar a incr\u00edvel arte do H\u00e9lcio Rog\u00e9rio, ilustrador baiano premiado. Hoje, em plena democracia, n\u00e3o podemos ter medo de nos expressar livremente. Liberdade \u00e9 a base de toda democracia. A intoler\u00e2ncia n\u00e3o pode vir por parte de quem deveria, justamente, defender a liberdade de pensamento e a pluralidade de ideias. Queremos, sim, abordar temas pol\u00eamicos com responsabilidade, ter liberdade de desenhar e escrever o que queremos. N\u00e3o estamos fazendo apologias a viol\u00eancias de qualquer natureza. Se algu\u00e9m n\u00e3o gostar de nossa publica\u00e7\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o ler. A arte tem que ser livre, e ser libert\u00e1ria. O artista n\u00e3o deve ser limitado. Existe espa\u00e7o para todos. E como diria o fil\u00f3sofo Voltaire: \u201cPosso n\u00e3o concordar com uma \u00fanica palavra do que dizes, mas defenderei at\u00e9 a morte o teu direito de diz\u00ea-la\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Romeu Martins \u2013 N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que o Brasil est\u00e1 mais conservador e retr\u00f3grado hoje do que foi h\u00e1 vinte, trinta anos. E isso parte n\u00e3o apenas de uma \u00fanica parcela da nossa sociedade, infelizmente, h\u00e1 muito moralismo que se pretende progressista. E h\u00e1 tamb\u00e9m um problema grave de avalia\u00e7\u00e3o nas editoras, que aparentemente escolhem para avaliar material de terror quem n\u00e3o est\u00e1 habituado com o g\u00eanero. Se \u00c1lvares de Azevedo tivesse que passar por tal crivo hoje, a obra vision\u00e1ria que ele criou em nosso pa\u00eds com \u201cNoite na Taverna\u201d provavelmente n\u00e3o seria impressa. Com isso perdem todos, artistas, editoras e p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 \u00c9 preciso lembrar que tudo passa sempre por uma an\u00e1lise reversa e extremamente m\u00faltipla. As dicotomias s\u00f3 existem como uma grande fantasia abra\u00e7ada neste novo s\u00e9culo. Um exemplo da multiplicidade de perspectivas: no universo dos movimentos estudantis, nas faculdades, existem os \u201cconscientizados\u201d e os \u201cn\u00e3o-conscientizados\u201d, mas no universo de uma faixa do empresariado o que existe na verdade s\u00e3o os \u201cnormais\u201d e os que \u201csofreram lavagem cerebral\u201d. Em meio a isso, pode ter certeza que v\u00e3o coexistir diversas outras dicotomias moldadas dentro dessa perspectiva. Eu poderia dizer que existem as editoras \u201ccaretas\u201d e as \u201cn\u00e3o-caretas\u201d, as \u201cconscientizadas\u201d e as \u201cn\u00e3o-conscientizadas\u201d, talvez at\u00e9 as \u201cpseudo-conscientizadas\u201d. Mas isso seria, sempre, uma an\u00e1lise muito pessoal. Para muitos conhecidos eu sou quase um comunista; para outros, eu represento um dos males da classe m\u00e9dia. A realidade sempre existe em algum espa\u00e7o extremamente l\u00edquido que permeia os elementos dessas dicotomias. Existem fragmentos de verdade em toda uma multiplicidade de olhares. Por isso mesmo, acho que n\u00e3o cabe julgar. A &#8220;Pandemonium&#8221; \u00e9 uma quest\u00e3o de escolha para o leitor, assim como o \u00e9 para uma editora. Mas em algum momento, em meio a toda essa onda de cancelamento que tende a moldar a multiplicidade a uma s\u00f3 perspectiva do real, haver\u00e1 de caber o auto-julgamento, se seguiram o melhor caminho de fato. Chegar\u00e3o at\u00e9 eles tamb\u00e9m julgamentos reversos completamente esdr\u00faxulos e inesperados por parte dos consumidores. As editoras n\u00e3o est\u00e3o livres disso. O melhor \u00e9 sempre a sinceridade consigo mesmo e com seu pr\u00f3prio projeto. Ningu\u00e9m \u00e9 algum \u201c&#8230;ista\u201d s\u00f3 porque decidiram.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57231\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-3-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um ano no qual lan\u00e7amentos como os da editora Pipoca&amp;Nanquim, nos quais a viol\u00eancia gr\u00e1fica encontra espa\u00e7o nas p\u00e1ginas de, por exemplo, \u201cTartarugas Ninjas\u201d e \u201cO Maskara\u201d, \u00e9 percept\u00edvel que h\u00e1 espa\u00e7o para esse tipo de literatura no mercado editorial. Essas negativas s\u00e3o casos isolados?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira \u2013 H\u00e1 um espa\u00e7o para quadrinhos com tem\u00e1tica mais adulta. Recentemente tivemos a volta do \u201cNecron\u201d, do artista italiano Magnus, pela Tai Editora. Uma HQ recheada de humor negro, necrofilia, sexo e viol\u00eancia, antes publicada na saudosa \u201cAnimal\u201d e at\u00e9 pela L&amp;PM Editores. H\u00e1 espa\u00e7os para todos, mas alguns temas, eu acho que s\u00e3o sens\u00edveis para algumas linhas editoriais. Resta ao autor tentar lan\u00e7ar de forma independente, visando um p\u00fablico espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Romeu Martins &#8211; Havendo profissionalismo em todas as etapas, da cria\u00e7\u00e3o e da avalia\u00e7\u00e3o, com certeza h\u00e1 espa\u00e7o para todo tipo de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 \u00c9 uma maioria. Tenho certeza que \u00e9 mais dif\u00edcil apostar hoje em algo novo que possa ser linchado virtualmente do que em uma franquia estabelecida, ainda que a mesma seja considerada \u201cincorreta\u201d em diversos sentidos. Existem marcas e personalidades que sempre estar\u00e3o livres de ataque, e outras n\u00e3o. Por isso mesmo ainda hoje se assiste &#8220;Lolita&#8221;, de Kubrick, nos c\u00edrculos cin\u00e9filos, sem qualquer coment\u00e1rio que n\u00e3o seja elogioso; enquanto ao mesmo tempo se cancela Nabokov e sua obra liter\u00e1ria, ainda que o livro possua mais questionamento e culpa em seus miles de caracteres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s aplaudidas linhas de roteiro que foram confeccionadas pelo pr\u00f3prio autor para o filme. Kubrick nunca ser\u00e1 criticado, porque isso se tornou um padr\u00e3o. Da mesma forma criticar alguns nomes espec\u00edficos \u2013 como Woody Allen \u2013 se torna um padr\u00e3o, e a sensa\u00e7\u00e3o de participar na internet de um grupo que concorda \u00e9 sempre fant\u00e1stica. Em grupo se abate quem pensa diferente com muita maestria. O caso da Pipoca&amp;Nanquim, assim como o de outras editoras como a Darkside, \u00e9 claro: tudo que elas imprimirem se tornar\u00e1 uma obra a elogiar e a relevar qualquer falha, pois para os grandes grupos de consumo do pa\u00eds esse interlocutor \u00e9 algu\u00e9m com quem sempre se concorda. Dessa forma, eles t\u00eam muito mais liberdade editorial do que editoras menores, ainda que produzam material supostamente pol\u00eamico. \u201cRanxerox\u201d foi produzido no Brasil. Ningu\u00e9m critica \u201cRanxerox\u201d. Existe sempre uma bola da vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em quanto, em termos de dificuldades para se concretizar um lan\u00e7amento, o formato f\u00edsico dos quadrinhos \u00e9 uma barreira financeira para lan\u00e7amentos? Pergunto isso n\u00e3o como um entusiasta da m\u00eddia digital, esclare\u00e7o. Para mim, n\u00e3o h\u00e1 outra forma de se acessar uma HQ se n\u00e3o no papel. Mas, pensando mercadologicamente, h\u00e1 consumo significativo em um lan\u00e7amento digital?<\/strong><br \/>\nValmar Oliveira \u2013 As dificuldades de um lan\u00e7amento f\u00edsico s\u00e3o os de sempre, a parte financeira, para custear as impress\u00f5es, a divulga\u00e7\u00e3o do produto e a distribui\u00e7\u00e3o. Essa \u00faltima \u00e9 uma das mais complicadas, pois as saudosas bancas de revistas t\u00eam sumido. Restam comic shops, livrarias e sites como Amazon. No caso do nosso projeto financiados pelo Catarse, n\u00f3s ficaremos encarregados das postagens dos exemplares aos apoiadores. Oferecemos, tamb\u00e9m, a op\u00e7\u00e3o de c\u00f3pia digital, mas, felizmente, a grande maioria dos f\u00e3s de quadrinho preferem as edi\u00e7\u00f5es impressas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Para os livros, o consumo digital tem se tornado uma realidade muito presente, com o leitor Kindle da Amazon fazendo sucesso. Mas at\u00e9 nesse mercado, o que mais empolga na compra do aparelho \u00e9 a possibilidade do consumo das obras pirateadas, ainda que exista uma boa quantidade de consumo quando a oferta do e-book se mant\u00e9m dentro de uma faixa pequena de pre\u00e7o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 para amadores. No caso dos quadrinhos, lidamos por um lado com o publico colecionista, que tem poder de consumo, e por outro lado com um p\u00fablico estudantil de baixo ou pouco poder de consumo. Esse p\u00fablico est\u00e1 acostumado a baixar quadrinhos escaneados e ler gratuitamente, mas n\u00e3o se prev\u00ea que venham a se acostumar com a compra de uma HQ digital. Ent\u00e3o, basicamente, para a faixa de pre\u00e7o e a proposta, a perspectiva \u00e9 toda focada no p\u00fablico colecionista, no material impresso, que \u00e9 sempre (e cada vez mais) caro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57230\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-2-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Localmente, pensando em Salvador como uma cidade que possui uma cena relevante dentro da produ\u00e7\u00e3o de quadrinhos (lembro agora de nomes como Vitor Sousa, Hugo Canuto, para citar apenas dois), quais os entraves encontrados para encontrar parceiros comerciais que viabilizem projetos?<\/strong><br \/>\nHector Salas \u2013 No nosso caso em espec\u00edfico, a natureza do projeto pode ser um entrave ao patroc\u00ednio. N\u00e3o estamos fazendo nada fofinho ou pretensamente educativo. Por\u00e9m, de uma maneira geral, Salvador \u00e9 uma cidade pobre com nichos de riqueza que n\u00e3o parecem se interessar no financiamento de quadrinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Acredito que a realidade seja a mesma em qualquer capital do pa\u00eds. Quando se trata de um produto de entretenimento, o empresariado tem os dois p\u00e9s atr\u00e1s para investir. O brasileiro tem se acostumado a consumir cultura hoje mais do que em outras d\u00e9cadas, mas, ainda assim, n\u00e3o exatamente a produ\u00e7\u00e3o nacional. Outros pa\u00edses hermanos possuem uma melhor perspectiva de produ\u00e7\u00e3o e consumo da pr\u00f3pria literatura. No Brasil \u00e9 mais dif\u00edcil vender um livro ou uma HQ de um autor brasileiro \u201cdesconhecido\u201d do que de um autor internacional, e os empres\u00e1rios sabem e levam isso em conta. \u00c9 preciso ter dados, n\u00fameros, realidades concretas para apresentar, mostrar que o p\u00fablico existe e contar com uma mesma vis\u00e3o de objetivos por parte da empresa. Contar com quem compreende que nem sempre a inten\u00e7\u00e3o imediata \u00e9 o lucro e que \u00e9 preciso colocar nas prateleiras do pa\u00eds mais do que biografias de youtubers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Selos editoriais locais s\u00e3o vias concretas que conseguir materializar um projeto?<\/strong><br \/>\nSaul Mendez Filho \u2013 \u00c9 um caminho. Normalmente a editora local tem essa vis\u00e3o diferenciada. Busca o lucro, porque ningu\u00e9m se sustenta sem isso, mas objetiva desde sua cria\u00e7\u00e3o dar visibilidade e voz para os autores regionais, esse \u00e9 o combust\u00edvel que alimenta a cria\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da empresa. Eu acredito no potencial desse olhar. Mas nem tudo s\u00e3o rosas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57229\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Arte-1-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o a incentivos oriundos da Secult, como s\u00e3o vistas as possibilidades de viabiliza\u00e7\u00e3o? J\u00e1 houve, por voc\u00eas, tentativas de incluir projetos de quadrinhos em inscri\u00e7\u00f5es de editais?<\/strong><br \/>\nHector Salas \u2013 H\u00e1 uma dificuldade em obter estes recursos por conta do grande n\u00famero de inscritos e, tamb\u00e9m, por conta de alguns entraves burocr\u00e1ticos. No caso espec\u00edfico de nossa publica\u00e7\u00e3o, nem mesmo cogitamos em seguir por esta via. Outros artistas j\u00e1 obtiveram sucesso com editais, outros morreram na praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valmar Oliveira \u2013 \u00c9 complicado e burocr\u00e1tico. Fora que nem todo projeto \u00e9 aceito. Isso por determinados aspectos que possam divergir n\u00e3o do edital, mas, sim, de quem seleciona. J\u00e1 tentamos conseguir incentivo para a Mostra de Cinema Cine Horror, e sempre tem algo que impossibilitou. O evento segue totalmente independente, sem recursos, a n\u00e3o ser os oriundos de n\u00f3s mesmos. O \u00fanico apoio que o evento tem \u00e9 por parte da Dimas \u2013 Diretoria de Audiovisual da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Estado da Bahia, que nos cede a Sala de Cinema Walter da Silveira. E estou falando de um evento voltado para o g\u00eanero fant\u00e1stico, que recebe e exibe produ\u00e7\u00f5es do mundo inteiro, de pa\u00edses t\u00e3o diferentes quanto Dinamarca e Ir\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Mendez Filho \u2013 Eu, nunca. N\u00e3o acredito que um material como a &#8220;Pandemonium&#8221; se enquadre em algum edital do governo do Estado. Tenho outros projetos, mas n\u00e3o acredito que qualquer deles se enquadre nos objetivos primordiais do financiamento estatal. Participei de banca avaliadora do edital FUNCEB 2012, na \u00e1rea de Culturas Digitais, e conhe\u00e7o os par\u00e2metros que fundamentam o trabalho da Secretaria de Cultura. Penso que h\u00e1, sim, a possibilidade de realizar um material do g\u00eanero horror que englobe muito da cultura baiana. Conhe\u00e7o o \u201cContos dos Orix\u00e1s\u201d, do Hugo Canuto, que fez um trabalho incr\u00edvel ao desenvolver um quadrinho de her\u00f3is totalmente \u201cKirbyano\u201d com deuses da cultura africana. Ficou muito bom. Mas acredito que para um projeto nesse aspecto do terror, caberia abordar uma urbanidade soteropolitana que vai al\u00e9m dos africanismos pra chegar em um \u201cje ne sais quoi\u201d muito mais caracter\u00edstico, na personalidade pr\u00f3pria de uma grande am\u00e1lgama. A Bahia \u00e9 \u00fanica em suas apropria\u00e7\u00f5es e cria em tudo seu pr\u00f3prio jeito. At\u00e9 na viol\u00eancia. Seria uma HQ que talvez se assemelhasse a uma mistura entre Quintanilha, Jack Ketchum e Adonias Filho. Mas com tra\u00e7os de um Caryb\u00e9 reinventado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste aspecto, Valmar Oliveira citou a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de um selo pr\u00f3prio a partir desse lan\u00e7amento. Em que est\u00e1gio esse desenvolvimento se encontra? Poderiam falar mais sobre esse processo?<\/strong><br \/>\nSaul Mendez Filho \u2013 No est\u00e1gio das ideias. Tudo depende desse primeiro financiamento coletivo, dos apoiadores e do p\u00fablico leitor. E \u00e9 sempre preciso ir por partes. Pra n\u00e3o virar um pandem\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector Salas \u2013 N\u00e3o sei ao certo dizer se vale para todos. No nosso caso, parecia ser o mais vi\u00e1vel, pois tenho uma empresa h\u00e1 muitos anos, e uma das atividades \u00e9 justamente atuar como editora. Vamos ver o que acontece.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57235\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ghfgh.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ghfgh.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ghfgh-300x270.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Idealizado pelo coletivo Quadrinhos de Emerg\u00eancia e pelo grupo da Mostra Cine Horror, &#8220;Pandemonium&#8221; est\u00e1 em financiamento coletivo pelo Catarse e delineia um mercado editorial na Bahia e no Brasil que encontra um p\u00fablico cativo e \u00e1vido por hist\u00f3rias dentro do g\u00eanero.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/05\/entrevista-hq-pandemonium-autores-falam-sobre-desafios-no-lancamento-independente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36,9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57226"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57226"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57226\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57241,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57226\/revisions\/57241"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}