{"id":57201,"date":"2020-09-04T02:11:07","date_gmt":"2020-09-04T05:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57201"},"modified":"2020-11-17T04:13:03","modified_gmt":"2020-11-17T07:13:03","slug":"entrevista-vania-lima-e-rodrigo-luna-falam-sobre-a-serie-memorias-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/04\/entrevista-vania-lima-e-rodrigo-luna-falam-sobre-a-serie-memorias-do-brasil\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vania Lima e Rodrigo Luna falam sobre a s\u00e9rie &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevistas por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro da necessidade intr\u00ednseca a um povo consciente de sua Hist\u00f3ria, bem como da relev\u00e2ncia do seu patrim\u00f4nio cultural enquanto pa\u00eds detentor de um legado amea\u00e7ado por hordas de ignorantes que buscam a todo custo apag\u00e1-lo, falar (e registrar para a posteridade) de trajet\u00f3rias de pessoas que ajudaram o Brasil a construir alguns de seus pilares culturais \u00e9 tarefa crucial neste 2020 que n\u00e3o parece o futuro que imagin\u00e1vamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, celebrar trajet\u00f3rias de pessoas que seguem construindo essa identidade, bem como honrar a mem\u00f3ria de algumas delas que j\u00e1 nos deixaram, surge como um dos pontos mais louv\u00e1veis de \u201cMem\u00f3rias do Brasil\u201d, s\u00e9rie em 13 epis\u00f3dios que tem exibi\u00e7\u00e3o toda sexta-feira no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/canalarte1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Canal Arte 1<\/a>, sempre \u00e0s 20h30, com reprise aos domingos, 18h. Outro ponto louv\u00e1vel \u00e9 a possibilidade de apresentar tais pessoas \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, t\u00e3o presas ao imediatismo e \u00e0 superficialidades dentro do consumo bombardeador de informa\u00e7\u00f5es rasas em um s\u00e9culo que chega a sua segunda d\u00e9cada movido pela cria\u00e7\u00e3o (e pelo fugaz esquecimento) de &#8220;\u00eddolos&#8221; instant\u00e2neos e sem muito a oferecer al\u00e9m de pol\u00eamicas em redes sociais, &#8220;stories&#8221;e &#8220;lacra\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizada por Vania Lima (que dirigiu dois epis\u00f3dios), da <a href=\"http:\/\/www.temdende.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">T\u00eamDend\u00ea Produ\u00e7\u00f5es<\/a>, a s\u00e9rie conta com sua dire\u00e7\u00e3o geral, e teve em seus cap\u00edtulos a dire\u00e7\u00e3o de mais tr\u00eas cineastas: Diogo Oliveira, Walkiria Hamu e Rodrigo Luna. Sobre essa quest\u00e3o citada em rela\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia do resgate da mem\u00f3ria, Vania explica: &#8220;Eu tenho um pertencimento muito forte a essa ideia de resgate. Na minha ideia, mem\u00f3ria \u00e9 algo que voc\u00ea escolhe lembrar ou escolhe esquecer. Meu trabalho todo se baseia nesse aspecto da Hist\u00f3ria. O Brasil tem essa s\u00edndrome. Parece que queremos apagar coisas da nossa mem\u00f3ria deliberadamente. E eu queria muito come\u00e7ar a construir materiais org\u00e2nicos que pudessem trazer coisas que n\u00e3o pudessem ser assim t\u00e3o facilmente apagadas\u201d, explica a cineasta por tr\u00e1s da dire\u00e7\u00e3o dos cap\u00edtulos sobre Lia de Itamarac\u00e1 e sobre Severino Vitalino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Lia de Itamarac\u00e1 e Severino Vitalino, a s\u00e9rie ilustra esse potencial a partir dos nomes de Tuz\u00e9 de Abreu, Lia Robatto, Ger\u00f4nimo, Nild\u00e3o, Luiz Melodia, Gerson King Combo, Maria Alcina, Mara Salles, Z\u00e9 Celso, Milton Hatoum e Fernando Mello. Adentramos, assim, em suas express\u00f5es art\u00edsticas a partir da M\u00fasica, Dan\u00e7a, Culin\u00e1ria, Artes Pl\u00e1sticas e Visuais, Dire\u00e7\u00e3o e Cenografia Teatral, bem como da Literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diretor de quatro dos 13 epis\u00f3dios, o cineasta Rodrigo Luna construiu narrativas que mergulham nas vidas da core\u00f3grafa Lia Robatto, dos m\u00fasicos Tuz\u00e9 de Abreu e Ger\u00f4nimo, al\u00e9m do cartunista Nild\u00e3o. No processo de capta\u00e7\u00e3o de entrevistas e na montagem dos epis\u00f3dios (capitaneada pela diretora de Montagem, Taguay Tayussy), Luna destaca a import\u00e2ncia desse processo atrav\u00e9s da muitas horas de capta\u00e7\u00e3o e do garimpo de imagens e de momentos chave no trabalho de montar os cap\u00edtulos. Um exemplo \u00e9 quando o diretor de Fotografia, Cl\u00e1udio Antonio de Jesus, pede para a core\u00f3grafa lhe explicar sobre a perspectiva de lente no movimento dos bailarinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esse \u00e9 o tipo de momento que eu mais gosto. Quando eu vi que rolou, foi um achado&#8221;, explica Luna. &#8220;Eu senti que eu estava documentando esse processo de cria\u00e7\u00e3o, mesmo. Eu acho que n\u00e3o tem quest\u00e3o de vaidade, pois, para mim, o audiovisual \u00e9 coletivo. E ali eu estava vendo um diretor de Fotografia falando com a diretora do espet\u00e1culo. Era isso que estava sendo registrado naquele momento. E, como disse, foi um grande achado. \u00c9 um garimpo na montagem que, para mim, torna bem importante essa momento &#8220;, salienta Rodrigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Vania e Rodrigo aprofundam a experi\u00eancia de adentrar na trajet\u00f3ria de pilares da Cultura Brasileira. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mem\u00f3rias do Brasil - Teaser\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JlVW4PtHlE0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>ENTREVISTA COM VANIA LIMA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um pa\u00eds que parece optar arbitrariamente por apagar e\/ou negar sua Hist\u00f3ria em diversos aspectos; que n\u00e3o lamenta em como\u00e7\u00e3o inc\u00eandios em museus e n\u00e3o luta pelo registro exato dos fatos de sua exist\u00eancia como Na\u00e7\u00e3o, como se deu a constru\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie que trabalha justamente a ideia de registro de \u00edcones culturais desse povo?<\/strong><br \/>\nVania Lima: Eu tenho um pertencimento muito forte a essa ideia de resgate de mem\u00f3rias. A s\u00e9rie surgiu em 2016, em torno de um ano antes da aprova\u00e7\u00e3o pela ANCINE, e da contrata\u00e7\u00e3o do primeiro canal, o Curta!. Eu j\u00e1 vinha trabalhando esse conceito de mem\u00f3ria. Na minha ideia, mem\u00f3ria \u00e9 algo que voc\u00ea escolhe lembrar e escolhe esquecer. Meu trabalho nesse projeto se baseia nesse aspecto. O que voc\u00ea quer lembrar e o que voc\u00ea deseja esquecer. Eu acho que o Brasil tem essa s\u00edndrome. A gente parece querer apagar coisas da mem\u00f3ria, deliberadamente. E eu queria muito come\u00e7ar a construir materiais org\u00e2nicos que pudessem trazer coisas que n\u00e3o pudessem ser t\u00e3o facilmente apagadas. E tudo isso que voc\u00ea falou faz muito parte do que me inquietou naquele momento. Acho que, tamb\u00e9m, inquietou Rodrigo (Luna), Walkiria (Hamu) e o Diogo (Oliveira), que dirigiram epis\u00f3dios individualmente. Por exemplo, lembro que o Diogo ainda n\u00e3o tinha conversado com o Luiz Melodia sobre as coisas que eles falaram. Acabou que foi essa a \u00faltima s\u00e9rie que o Melodia gravou. Diogo ficou muito impressionado com a quantidade de informa\u00e7\u00f5es, com a quantidade de vida que tinha ali naquele homem. E logo em seguida, Melodia, infelizmente, falece. Uma biblioteca humana que foi para outro plano. Como \u00e9 que a gente vai trabalhar essa mem\u00f3ria? Por exemplo, tive a felicidade de fazer o epis\u00f3dio do Severino Vitalino, que foi um dos \u00faltimos filhos do mestre Vitalino, que tamb\u00e9m faleceu a seguir. O Severino Vitalino \u00e9 da cultura da oralidade, o que o torna ainda mais importante. Tudo o que ele aprendeu foi atrav\u00e9s do exemplo. Na visualidade com o pai. A afirma\u00e7\u00e3o de vida dele \u00e9 o fazer. Ent\u00e3o, \u00e9 uma vida de a\u00e7\u00e3o. Uma vida de pr\u00e1tica. Se ele entende que \u00e9 justo fazer de determinada forma, ele vive o justo, ele n\u00e3o s\u00f3 fala o justo. Ele se foi para outro plano, ap\u00f3s a produ\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie. E acho muito importante que a gente preserve isso. H\u00e1 toda uma hist\u00f3ria em Caruaru com ele, um bairro inteiro de pessoas que transmitem isso. Cada personagem elegeu o que lembrar e o que esquecer. Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa interessante. Mas acho que, na hora que a gente escolheu os personagens da s\u00e9rie, a gente tamb\u00e9m queria dizer um pouco disso. Sobre as coisas que a gente n\u00e3o quer esquecer. As coisas que queremos reafirmar, sabe? E acho que \u00e9 um pouco do que me motivou, tamb\u00e9m. Tem muito sentido isso que voc\u00ea est\u00e1 falando para mim. Porque \u00e9 uma coisa que me atinge muito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57205\" aria-describedby=\"caption-attachment-57205\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57205 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/LUIZ_MELODIA_4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/LUIZ_MELODIA_4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/LUIZ_MELODIA_4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57205\" class=\"wp-caption-text\"><em>Luiz Melodia em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma s\u00e9rie de 13 epis\u00f3dios com nomes t\u00e3o diversos da nossa Cultura, abrangendo diferentes artes e pessoas com total dom\u00ednio de seus campos de atua\u00e7\u00e3o, como funcionou para a curadoria a escolha de tais personagens?<\/strong><br \/>\nVania Lima: O projeto teve essa temporada na qual temos muitos artistas de reconhecimento nacional. Lia Robatto, uma bailarina, uma core\u00f3grafa, uma mulher da dan\u00e7a que \u00e9 muito conhecida no Brasil. Ela tem muita refer\u00eancia na Bahia, mas com um trabalho que \u00e9 muito conhecido nacionalmente. Na m\u00fasica, temos o Gerson King Combo, o Luiz Melodia, a Lia de Itamarac\u00e1, a Alcina. Mesmo dentro de um segmento, tentamos pulsar em caminhos diferentes dessa mem\u00f3ria. N\u00e3o quer\u00edamos pulsar em caminhos j\u00e1 conhecidos, j\u00e1 estabelecidos pelo p\u00fablico. S\u00e3o caminhos que o p\u00fablico j\u00e1 reconhece na mem\u00f3ria dos artistas brasileiros. Quer\u00edamos pulsar diferente. Se \u00e9 m\u00fasica, queremos falar de Tuz\u00e9, queremos falar de Ger\u00f4nimo, queremos falar de Lia de Itamarac\u00e1. Queremos pegar coisas diversas, que atinjam e pulsem essa mem\u00f3ria coletiva do imagin\u00e1rio brasileiro, da arte brasileira de forma diversa. Se s\u00e3o artes visuais, a mesma coisa. Temos o Nild\u00e3o, Severino Vitalino, que para a gente \u00e9 arte visual, artes pl\u00e1sticas. Tem o cunho de artesanato? Talvez, sim. Algumas pessoas consideram essa arte como artesanal. De fato, ela \u00e9, se voc\u00ea pensar dessa forma. Mas ela \u00e9 uma express\u00e3o t\u00e3o forte, t\u00e3o significativa da Cultura Brasileira, do nordestino, do nosso imagin\u00e1rio. Como projetamos no barro a nossa identidade, os nossos saberes, os nossos medos. S\u00e3o tantas hist\u00f3rias projetadas ali, que fazem parte de uma ideia de mem\u00f3ria, tamb\u00e9m. Quando falamos em arte visual, fomos buscar pulsar em caminhos diferentes de arte visual. Culin\u00e1ria e Literatura no mesmo sentido, neste buscar de pulsar. No Teatro, trouxemos o Z\u00e9 Celso. A s\u00e9rie buscou muito mais os neur\u00f4nios dessa mem\u00f3ria brasileira que a gente queria ativar. Quer\u00edamos falar de um Melodia em um pa\u00eds branco, onde o artista negro n\u00e3o era do jeito\/ lugar que se pensava para ele. Melodia transcendia tudo. Ele era can\u00e7\u00e3o. Uma Lia de Itamarac\u00e1, que \u00e9 do interior de Pernambuco. Traz a ciranda, uma coisa que os paulistas quando viram a primeira vez n\u00e3o entenderam. &#8220;O que \u00e9 isso? M\u00fasica de crian\u00e7a?&#8221;. Eles n\u00e3o entendiam porque as pessoas davam as m\u00e3os e giravam. Quer\u00edamos falar dessas coisas que est\u00e3o na nossa mem\u00f3ria, mas que precisam ser ativadas. O Severino Vitalino com suas pe\u00e7as que ganharam o mundo. De interesse, de pesquisa, de entendimento sobre identidade cultural. A segunda temporada foi aprovada agora. Nela, trabalharemos s\u00f3 com mulheres. Foi uma decis\u00e3o para a segunda temporada focar nessas mem\u00f3rias, tamb\u00e9m, mas agora querendo ativar outros neur\u00f4nios que buscam um imagin\u00e1rio brasileiro formado por mulheres. E a terceira temporada, tamb\u00e9m j\u00e1 aprovada, vai focar em artistas que trabalharam a afrobrasilidade, artistas negros e negras. Tr\u00eas temporadas nas quais queremos acionar neur\u00f4nios diferentes da mem\u00f3ria. Essa \u00e9 a ideia. Esses la\u00e7os neurais s\u00e3o as coisas mais fortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios de Lia de Itamarac\u00e1 e de Severino Vitalino, voc\u00ea tamb\u00e9m assina a dire\u00e7\u00e3o geral do projeto \u201cMem\u00f3rias do Brasil\u201d. Eu gostaria de lhe perguntar acerca do processo de dire\u00e7\u00e3o de cada cineasta respons\u00e1vel pelos epis\u00f3dios. Como funcionou essa jun\u00e7\u00e3o de diferentes maneiras de pesar o document\u00e1rio na s\u00e9rie?<\/strong><br \/>\nVania Lima: Temos uma estrutura simples. A gente n\u00e3o quis aprisionar o diretor em um caminho de formato. A (produtora) T\u00eamDend\u00ea tem muitos formatos. Mas esse n\u00e3o \u00e9 um projeto de formato. Esse \u00e9 um projeto onde cada diretor trouxe o seu olhar. Trouxe, tamb\u00e9m, o que escolhe mostrar e o que escolhe n\u00e3o revelar, que \u00e9 a hist\u00f3ria da mem\u00f3ria. Cada diretor prop\u00f4s a sua rela\u00e7\u00e3o com sua fonte. Temos o Rodrigo Luna, o Diogo Oliveira e a Walkiria Hamu, al\u00e9m de mim, cada um \u00e0 frente de uma quantidade de epis\u00f3dios. Na estrutura, combinamos que ter\u00edamos sempre esse artista em um movimento de atua\u00e7\u00e3o, de realiza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, por exemplo, o Nild\u00e3o volta aos muros de Salvador na fase em que ele protestava ali. Ele volta e faz um novo grafismo. Nessa constru\u00e7\u00e3o do que ele \u00e9 levado a escrever, a gente trabalha. O Severino Vitalino reconstitui uma pe\u00e7a nova que ele sempre teve vontade de fazer. Ele queria fazer uma pe\u00e7a, mas sempre trabalhou com o cat\u00e1logo do pai. Aqui, ele se arriscou a criar. Foi uma pe\u00e7a que ele sempre quis produzir, mas n\u00e3o queria mudar a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Eu disse: &#8220;Mas o senhor n\u00e3o vai colocar isso \u00e0 venda. Vai ser s\u00f3 para o projeto\u201d. Ele a chamou de &#8220;Pai dando conselho ao filho&#8221;. Eu achei t\u00e3o lindo, porque ele mesmo escreveu isso na pe\u00e7a. Ent\u00e3o, cada um tinha um movimento de a\u00e7\u00e3o. O Z\u00e9 Celso, por exemplo, escolheu pegar uma fotografia por d\u00e9cada da vida dele e dizer porque ele escolheu aquela fotografia. Era uma mem\u00f3ria em cima da proje\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O que \u00e9 bem a cara do Z\u00e9 Celso. Impregnar voc\u00ea de informa\u00e7\u00f5es, de coisas. Ele trouxe uma foto por d\u00e9cada da vida dele, e at\u00e9 brincou que ele tinha muitas fotos, pois ele tinha muitas d\u00e9cadas. J\u00e1 (a chef) Mara Salles preparou uma refei\u00e7\u00e3o para os colaboradores dela, para as pessoas que trabalham com ela todos os dias. Nesse movimento de a\u00e7\u00e3o \u00e9 que a gente constitui o pilar da s\u00e9rie. A \u00fanica coisa que n\u00f3s combinamos foi isso: Documentar enquanto esse artista, esse realizador est\u00e1 criando movimentos, a\u00ed constru\u00edmos o filme atrav\u00e9s de roteiros bem artesanais, com a ajuda do Tiago Pinho, dos diretores tamb\u00e9m. Nesse projeto outra escolha foi sempre trabalharmos com pessoas acima dos 60 anos. S\u00e3o os dois pilares de escolha. Para uma dire\u00e7\u00e3o geral, escolhemos quem a gente queria ativar na mem\u00f3ria, e, a seguir, fomos para a pr\u00e1tica trabalhando nesse sentido, de sempre eles estarem nesse movimento de a\u00e7\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o, de algo, de provoca\u00e7\u00e3o. A Lia Robatto est\u00e1 fazendo um v\u00eddeo dan\u00e7a, que era uma coisa que ela queria fazer e que n\u00e3o tinha feito ainda. Ela estava ali com o Luna elaborando aquele v\u00eddeo dan\u00e7a, cada um trabalhando em um movimento. Achamos importante colocar esses artistas n\u00e3o muito focados em uma estrat\u00e9gia \u201ctalkingheads\u201d em s\u00f3 falar sobre eles, porque existem informa\u00e7\u00f5es muito interessantes quando eles est\u00e3o trabalhando. O jeito de trabalhar, a forma de pensar, o que eles conectam, como ele atuam. E isso diz muito. Esse foi um encaminhamento que buscamos. Por exemplo, o Luiz Melodia fez uma escolha muito singela que era de voltar ao Est\u00e1cio e fazer uma m\u00fasica na quadra. \u00c9 nesse movimento de subir o morro e sentar na quadra que o epis\u00f3dio se constitui. Cada diretor trouxe uma linguagem muito pr\u00f3pria. O Luna trabalha em um document\u00e1rio mais direto, na capta\u00e7\u00e3o das coisas. Eu trabalho muito mais em uma constru\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o. Eu demoro muito mais. As coisas t\u00eam que acontecer na c\u00e2mera. Eu gosto de ver as coisas acontecerem, trabalhando em uma constru\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o, por isso o (a) fotografo (a) tem que ter uma sensibilidade que me acompanha, e a opera\u00e7\u00e3o toda tamb\u00e9m, gosto do sil\u00eancio no set, gosto da delicadeza de filmar em total entrega ao meu personagem, e isso requer da equipe concentra\u00e7\u00e3o extra no que acontece para a c\u00e2mera e ao redor da cena, por isso agrade\u00e7o demais Cl\u00e1udio Ant\u00f4nio, fotografo do projeto, pela paci\u00eancia, Adailson Silva, \u00e1udio direto, a equipe de produ\u00e7\u00e3o, que entenderam a proposta. Para mim as coisas t\u00eam que acontecer, por exemplo, o Severino levava duas horas para moldar a pe\u00e7a. Eu lembro que algu\u00e9m me perguntou: &#8220;N\u00f3s vamos ficar duas horas aqui? &#8211; Vamos!&#8221; (risos). Porque alguma coisa nessas duas horas pode ser muito significativa para o meu processo. J\u00e1 o Diogo \u00e9 diferente. Ele trabalha com uma impress\u00e3o dentro da realidade. O epis\u00f3dio do Melodia tem fuma\u00e7a, ele sai da \u00e1gua, faz m\u00e1gica&#8230; Ent\u00e3o, ele constr\u00f3i, dentro da documenta\u00e7\u00e3o que ele est\u00e1 fazendo, cenas. Cenas diferentes sobre a proposta do que est\u00e1 sendo feito ali. Cenas que te levam para outros caminhos. Que te levam para o que est\u00e1 fora do quadro. Esse tamb\u00e9m \u00e9 um jeito de documentar que o Diogo trouxe para o projeto. E a Wal \u00e9 uma jornalista de forma\u00e7\u00e3o, assim como eu e voc\u00ea. No caso dela, ela sempre trabalhou a \u00e1rea de Jornalismo. Jornalismo Documental, programas que trabalham com faces de variedade de Jornalismo. A busca dela foi muito mais dentro da ideia de quem s\u00e3o essas pessoas. As tr\u00eas perguntas primordias: De onde voc\u00ea vem? O que est\u00e1 fazendo aqui? Para onde voc\u00ea vai?. Ela trabalhou muito nessa sequ\u00eancia, que eu acho que \u00e9 a sequ\u00eancia mais forte do documentarista. Entender esse tr\u00edade. Wal trabalha muito isso nos personagens dela, que foram Milton Hatoum, a Mara Salles, Maria Alcina e o Z\u00e9 Celso. Cada diretor da s\u00e9rie trouxe uma forma de pensar o document\u00e1rio, de pensar o filme. E a s\u00e9rie \u00e9 isso. Ela tem como conjunto de unifica\u00e7\u00e3o esses artistas em atua\u00e7\u00e3o. Um conceito sobre mem\u00f3ria. Essa mem\u00f3ria que voc\u00ea escolhe revelar e a que escolhe n\u00e3o revelar. E essa busca por acionar neur\u00f4nios da mem\u00f3ria do pa\u00eds. Da mem\u00f3ria do Brasil atrav\u00e9s do eixo da Cultura.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57204\" aria-describedby=\"caption-attachment-57204\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57204 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lia-de-Itamaraca_Foto-Divulgacao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lia-de-Itamaraca_Foto-Divulgacao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lia-de-Itamaraca_Foto-Divulgacao-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57204\" class=\"wp-caption-text\"><em>Lia de Itamarac\u00e1 em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como funcionou no seu processo como diretora as abordagens junto a Severino Vitalino e a Lia de Itamarac\u00e1?<\/strong><br \/>\nVania Lima: Esse encontro com Vitalino foi totalmente diferente do encontro com Lia de Itamarac\u00e1. \u00c9 como voc\u00ea, por exemplo. Eu imagino que cada entrevista, cada encontro, se estabelece nesse contrato que a gente faz com a fonte na hora que estamos com ela, se estabelece muito particularmente. Mesmo todo mundo sabendo para onde o filme ia, depende de muitas coisas. Do dia, de como est\u00e1 aquela pessoa, da disponibilidade do corpo, da disponibilidade do esp\u00edrito. Imagino que voc\u00ea passe por isso, tamb\u00e9m, enquanto rep\u00f3rter. Tudo estava para ser bom, e foi ruim. Ou tudo estava para ser ruim, mas acaba sendo surpreendente. \u00c0s vezes acontece. Ent\u00e3o, com Severino, eu achei que ia ser muito dif\u00edcil. Porque ele era um homem de poucas palavras. Um homem muito mais da a\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o era verborr\u00e1gico. Ele n\u00e3o dizia, n\u00e3o explicava as coisas. Porque ele vivia as coisas. N\u00e3o teorizava. Ent\u00e3o eu s\u00f3 encontrei um jeito de contar a hist\u00f3ria dele que era acompanhar as viv\u00eancias. Buscamos outro caminho de narrar. Com ele, o caminho foi esse. Foi de muito observar, de muito esperar e acreditar no tempo dele. De vez em quando ele se revelava. No dia em que ele estava preparando o caf\u00e9 da manh\u00e3, ele se revelou. Eu nem perguntava. Ele j\u00e1 falava sozinho. Porque ele estava no ambiente dele, fazendo caf\u00e9, o que ele fazia todo dia de manh\u00e3. Ele falava com as plantas, voc\u00ea o via acontecendo. E no momento que a gente ligava as luzes, as c\u00e2meras, ele n\u00e3o falava. Ele ficava muito quieto. A gente tinha que esperar esse tempo. Nesse filme, isso acontece muito. Voc\u00ea v\u00ea que est\u00e1 ali, que est\u00e1 acontecendo alguma coisa. Apesar da montagem, obviamente, respeitar uma ideia de continuidade. A minha vontade era fazer um filme de uma hora e meia. Deixando essas coisas flu\u00edrem mais, deixando voc\u00ea entender mais esses processos. Mas, claro, eu tinha um compromisso de fazer 45 minutos. Mas ainda tenho muita vontade de voltar a mexer nessas imagens e construir um filme de uma hora e meia. Porque acho que essa vida do Severino merece. Essa forma de viver. E no filme tem muito disso. Ele cuidando das plantas, \u00e9 demais! Ele demora um tempo para falar com as plantas. E n\u00e3o \u00e9 qualquer \u00e1gua. Ele disse: &#8220;Eu n\u00e3o jogo \u00e1gua numa planta minha. Eu pego com a m\u00e3o, e com a minha m\u00e3o eu aguo ela&#8221; Aquilo para mim \u00e9 incr\u00edvel! Uma pessoa que n\u00e3o usa mangueira, porque acha que \u00e9 desrespeitoso com a planta do quintal dele. Ele tem que pegar com a m\u00e3o do balde e jogar a \u00e1gua pela sua m\u00e3o, aguando as plantas. Porque ele est\u00e1 dando a \u00e1gua a ela. Para conseguir entender isso, eu, que sou do interior, tamb\u00e9m, mas que j\u00e1 vivo h\u00e1 muitos anos em uma metr\u00f3pole, para eu conseguir entender isso, demorou um tempo. Tive que observar. Para conseguir entender o que significa essa frase, o que significa esse gesto, eu precisei esperar. Precisei esperar o tempo de acontecer essas coisas. Com Severino \u00e9 isso. \u00c9 respeitar esse tempo dele. Com Lia (de Itamarac\u00e1) j\u00e1 foi diferente. Ela j\u00e1 tinha outro movimento. Ela \u00e9 uma mulher muito forte. Teve muitas quest\u00f5es na sua vida de impacto, de ter que combater, de ter que sair desse lugar de opress\u00e3o. Ela trouxe propostas. Ela quis ir na praia. Disse: &#8220;Vamos na praia. Meu movimento \u00e9 no mar. Se a gente vai fazer uma ciranda, tem que ser na praia&#8221;. Ent\u00e3o, ela se coloca mais em fun\u00e7\u00e3o de trazer. Era outro movimento. Gosto muito de trabalhar com as c\u00e2meras ligadas o m\u00e1ximo de tempo. Algo j\u00e1 acordado, quando ecome\u00e7o a gravar eu aviso. Eu digo:&#8221;Olha, eu n\u00e3o vou parar de gravar, a gente vai conversar e viver isso aqui e vou tentar interromper o menos poss\u00edvel\u201d. Ent\u00e3o, sempre que posso, tenho uma segunda c\u00e2mera, como forma de recome\u00e7o de outro mapeamento. E quase sempre n\u00e3o paro de gravar por duas ou tr\u00eas horas. E somente quando a pessoa esquece do formato entrevista, \u00e9 que acontece. Como foi com Lia. Ela falou para o marido, em algum momento que a gente estava ali: &#8220;Voc\u00ea na minha vida \u00e9 um alumbramento&#8221;. E acho que ela n\u00e3o diria isso se eu perguntasse. Se eu tentasse dirigi-la para isso. Ela s\u00f3 disse porque a gente estava ali com eles, somente ali. &#8220;Voc\u00ea foi o meu alumbramento&#8221;, se referindo \u00e0quele momento em que percebeu que havia mais coisas na vida, que a presen\u00e7a dele trouxe para ela. Tive que esperar que isso viesse \u00e0 tona. Esse \u00e9 o meu processo. \u00c0s vezes em um filme de 45 minutos voc\u00ea perde um pouco. Gostaria de fazer filmes maiores (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_57202\" aria-describedby=\"caption-attachment-57202\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57202 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ciranda-de-Roda_Lia-de-Itamaraca_Divulg.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ciranda-de-Roda_Lia-de-Itamaraca_Divulg.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ciranda-de-Roda_Lia-de-Itamaraca_Divulg-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57202\" class=\"wp-caption-text\"><em>Lia de Itamarac\u00e1 em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou acerca dessa liberdade relacionada aos processos de cada cineastas respons\u00e1vel pelos epis\u00f3dios. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 montagem, houve algum direcionamento comum a cada epis\u00f3dio?<\/strong><br \/>\nVania Lima: A s\u00e9rie teve uma diretora de montagem, a Taguay Tayussy, que deu essa unidade. Uma pessoa maravilhosa que tem montado muitas coisas da T\u00eamDend\u00ea e da pr\u00f3pria empresa dela de montagem. Ela deu essa unidade \u00e0 s\u00e9rie. Contou com a ajuda do diretor de arte e motion Edivan Neves, um artista visual talentoso que, inclusive, acompanhou algumas externas pensando no quadro, na cor, nos elementos visuais integrados a obra. Na nossa estrat\u00e9gia, como est\u00e1vamos falando de mem\u00f3ria, resolvemos trabalhar com os acervos pessoais de cada um. Fotografias, v\u00eddeos, materiais da casa da pessoa, livros. No caso do Milton Hatoum, ele entra no lugar onde escreve e mostra os objetos no local, descrevendo-os. S\u00e3o coisas da mem\u00f3ria. E essas imagens, de vez em quando, invadem o v\u00eddeo. Assim como seus textos soltos impregnam a tela. Tem um estilo muito individualizado por cada personagem. Maria Alcina, por exemplo, trabalhou muito com materiais de acervo dela. Itens pessoais. Como tem a hist\u00f3ria com Fio Maravilha, que foi a m\u00fasica que ela defendeu no festival e ganhou uma notoriedade, tivemos que adquirir esses direitos para p\u00f4r a m\u00fasica no filme. Essa ideia altera o \u201ctalkinghead\u201d, trabalhando a montagem dos filmes, respeitando esses acessos de mem\u00f3ria. O que a gente pensou, e a Taguay, com ajuda do Edivan, trouxe, foi um pensamento assim: toda vez que esse artista vai nessa mem\u00f3ria cognitiva, emocional, ou at\u00e9 mesmo de algo que ele est\u00e1 acostumado a narrar, quando ele vai l\u00e1, n\u00f3s tamb\u00e9m vamos. E temos que encontrar meios para ir junto com ele. Quando ele vai para tr\u00e1s, vamos junto. Mas, tamb\u00e9m, quando ele vai para frente, vamos junto. Vou te dar um exemplo. No caso de Lia de Itamarac\u00e1, ela fala que tem vontade de ter esse memorial, que o memorial dela foi incendiado em algum momento. Ela quer fazer esse memorial das obras com os trabalhos dela. Ent\u00e3o, vamos para a frente com ela. Trazemos algu\u00e9m que diz porque o memorial \u00e9 importante. Trazemos algu\u00e9m que diz que existe, em Recife, uma forma de prestigiar esses artistas. O patrim\u00f4nio vivo. Que esses artistas recebem uma aten\u00e7\u00e3o governamental por lei. Eles t\u00eam esse acesso. Ent\u00e3o, assim,vamos para frente e para tr\u00e1s, atrav\u00e9s desses acervos, desses arquivos que encontramos. No caso de Lia Robatto, tem as fotografias. Ela teve uma pessoa que a fotografou por toda vida profissional. A vida dela foi sempre acompanhada por um grande fot\u00f3grafo, por outro artista (N.E. O arquiteto e fot\u00f3grafo Silvio Robatto). Ent\u00e3o, conseguimos recapitular um pouco nessa mem\u00f3ria. Os acervos entram assim. Tamb\u00e9m como uma ideia de narrativa. As pr\u00f3prias fotos, acervos, v\u00eddeos. Eles, sozinhos, s\u00e3o narrativa. Muitas vezes voc\u00ea s\u00f3 tem o acervo e uma trilha muito branda. Voc\u00ea come\u00e7a a compreender pela imagem, que n\u00e3o \u00e9 narrada. A foto\/ texto\/ captura de acervo sozinha j\u00e1 se conta. N\u00f3s trabalhamos esse projeto com Deivisson Alcantara, Meg Medeiros, Leandro Calixto e Aislan Delgado na montagem dos epis\u00f3dios. Na finaliza\u00e7\u00e3o, a <a href=\"http:\/\/www.griotfilmes.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Griot Filmes<\/a>&nbsp;trabalhou a cor do projeto. A dire\u00e7\u00e3o de montagem de Taguay Tayussy. Ela ajudou muito nesse sentido de dar unidade. Com Luna e os outros diretores, conversamos muito sobre os filmes. Os filmes vinham, a gente debatia, voltava para eles, e eles reviam. Com Luna foi mais tranquilo porque ele mora aqui em Salvador. Ent\u00e3o, ele ficou muito tempo na ilha de edi\u00e7\u00e3o. Foi e voltou quantas vezes quis. J\u00e1 Diogo e Walkiria, que moram em outros estados, tiveram mais trabalhos a dist\u00e2ncia. Eles vieram, montaram, foram, depois vieram mais uma vez. Eles vieram duas vezes para criar a montagem junto com a equipe. Como diretora geral da s\u00e9rie ajudei nesse di\u00e1logo entre eles. Tentei n\u00e3o interferir tanto no processo de negocia\u00e7\u00e3o, digamos assim, entre dire\u00e7\u00e3o e montagem. Porque \u00e9 um espa\u00e7o do diretor, gosto de entrar quando o corte est\u00e1 projetado e dialogo sobre ele. Nesse caso, que n\u00e3o era um formato r\u00edgido, era um formato mais aberto, havia espa\u00e7o de bastante negocia\u00e7\u00e3o. Foi bem flu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como documenta\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo e de pessoas de tamanha import\u00e2ncia para a Hist\u00f3ria da Cultura do Brasil, dos costumes de regi\u00f5es, e, principalmente, em um momento sombrio no qual tal hist\u00f3ria sofre uma tentativa de desvaloriza\u00e7\u00e3o, a s\u00e9rie cumpre sua ideia de registro e legado.<\/strong><br \/>\nVania Lima: Estou feliz. Espero que a s\u00e9rie tenha uma vida longa, seguido de outras temporadas. E de fato desta temporada tr\u00eas pessoas n\u00e3o est\u00e3o mais com a gente. O Severino Vitalino, o Luiz Melodia, e o Fernando Mello da Costa. Como testamento, fico muito tocada por essa s\u00e9rie. Todo criador tem um sonho. Todas as pessoas que criam, que sonham maior que o dinheiro, sonham mais do que ter uma casa de luxo, um carro de luxo, e sou uma dessas pessoas. Sou desse time, de pessoas que sonham outras coisas. Esse \u00e9 o meu sonho. De contar essas hist\u00f3rias. E eu estou vivendo e fico muito tocada com essa s\u00e9rie. Ela caminha junto com meu sonho. Al\u00e9m disso, \u00e9 bom saber que vai ter outra temporada na qual vamos falar s\u00f3 sobre mulheres. E na terceira, falaremos s\u00f3 sobre afrobrasilidade. Estou muito feliz dessas mem\u00f3rias estarem ganhando vida. Resistindo a tudo isso que a gente est\u00e1 vivendo hoje. Diante de todas essas viol\u00eancias contra a mem\u00f3ria que a gente est\u00e1 vivendo, a s\u00e9rie \u00e9 um al\u00edvio. Penso assim. Pelo menos, est\u00e1 funcionando assim com a gente. Reparadora. Essas narrativas elas n\u00e3o v\u00e3o existir se algu\u00e9m n\u00e3o se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o delas. N\u00e3o \u00e9 elas que est\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. Somos n\u00f3s que estamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>ENTREVISTA COM RODRIGO LUNA<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_57208\" aria-describedby=\"caption-attachment-57208\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57208 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Rodrigo-Luna-Lia-Robatto-e-o-DP-Claudio-Antonio-de-Jesus-na-cena-chave-citada.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Rodrigo-Luna-Lia-Robatto-e-o-DP-Claudio-Antonio-de-Jesus-na-cena-chave-citada.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Rodrigo-Luna-Lia-Robatto-e-o-DP-Claudio-Antonio-de-Jesus-na-cena-chave-citada-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57208\" class=\"wp-caption-text\"><em>Rodrigo Luna, Lia Robatto e o Cl\u00e1udio Ant\u00f4nio de Jesus em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rodrigo, no processo de capta\u00e7\u00e3o para um document\u00e1rio, o contato com a pessoa cuja vida o filme pretende registrar rende momentos \u00fanicos para os olhos atentos de um diretor. No epis\u00f3dio sobre Lia Robatto, um exemplo desses momentos \u00e9 o que o diretor de Fotografia &#8220;entra em cena&#8221; para pedir a ela uma orienta\u00e7\u00e3o quanto ao captar daquela performance dos bailarinos. Como foi perceber essa j\u00f3ia de momento para o trabalho?<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: Acho que esse \u00e9 o tipo de momento que mais gosto quando filmamos. Usamos uma GoPro neste momento. O diretor de Fotografia estava filmando com a c\u00e2mera principal do projeto, mas o produtor estava filmando com a GoPro. Falei pra ele: &#8220;Vai filmando a\u00ed que depois eu garimpo o que acontecer.&#8221; E da\u00ed aconteceu essa cena que eu acho que \u00e9 a ess\u00eancia do trabalho no audiovisual, na realidade. Essa hora espec\u00edfica que voc\u00ea citou foi uma que funcionou bastante porque o assistente de dire\u00e7\u00e3o, Jorge (Ba\u00eda), estava filmando com a GoPro o ensaio. E da\u00ed ele capta esse momento em que o diretor de Fotografia, o Cl\u00e1udio (Ant\u00f4nio de Jesus), questiona a Lia. Ent\u00e3o, ali, na verdade, senti que eu estava documentando esse processo de cria\u00e7\u00e3o mesmo. Acho que n\u00e3o tem quest\u00e3o de vaidade, pois, para mim, o audiovisual \u00e9 coletivo, mesmo. Eu estava vendo um diretor de fotografia falando com a Lia. Era isso que estava sendo registrado ali. E, como voc\u00ea falou, \u00e9 um puta achado, mesmo. \u00c9 tanto que falei: &#8220;Velho, botei voc\u00ea aqui e tenho certeza que voc\u00ea n\u00e3o vai me pedir para tirar&#8221;. (risos) Tem essa coisa dele gostar de ficar atr\u00e1s das c\u00e2meras, t\u00e1 ligado? Mas ele mesmo, quando viu, percebeu que n\u00e3o tinha como pedir para eu tirar aquele trecho. Porque o momento \u00e9 especial mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como funcionou o processo de cria\u00e7\u00e3o dentro da proposta geral da s\u00e9rie? E como a sua maneira de construir document\u00e1rios se adaptou a isso?<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: Em todo o epis\u00f3dio \u00e9 proposto um &#8220;desafio&#8221; para cada artista. Porque a ideia da Vania Lima, que idealizou o projeto, era que a gente visse os artistas em a\u00e7\u00e3o. Isso foi uma coisa que achei massa. Para cada um foi criado um desafio que tivesse a ver com ele. E com a Lia Robatto foi esse processo de fazer essa videodan\u00e7a. Uma coisa que ela j\u00e1 queria, mas nunca tinha feito. Da\u00ed ela falou que topou o projeto porque tinha essa parte de fazer uma videodan\u00e7a, que foi o que mais a animou a participar. E da\u00ed um coisa que fiz foi tentar\u2026 (pausa) A\u00ed tem a ver com o meu processo mesmo de como acho que fa\u00e7o document\u00e1rio, que \u00e9 tentar rodar o m\u00e1ximo para depois garimpar. Acho que faz parte do document\u00e1rio voc\u00ea&#8230; (pausa) tentar se afastar para ver. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 exatamente se afastar&#8230; Mas \u00e9 voc\u00ea ficar atento. Tem que estar atento a tudo o que est\u00e1 sendo feito, porque muita coisa interessante acontece. E sempre acho que, \u00e0s vezes, a gente acaba perdendo algumas coisas. A gente n\u00e3o consegue filmar tudo que acontece. Paula (Lice) e Ronei (Jorge), com quem eu fiz &#8220;Jessy&#8221; e o &#8220;Rid\u00edculos&#8221;, a gente sempre fala que tem o filme do Ronei (risos). Que o Ronei acha que deveria estar filmando todas as reuni\u00f5es de planejamento (risos). E diversas vezes aconteceram coisas que a gente viu, e, se tivessem sido filmadas, teria sido incr\u00edvel. Mas acho que quando voc\u00ea est\u00e1 fazendo um projeto, voc\u00ea tem que estar atento. Ainda mais esse tipo de projeto, que eu estava lidando com artistas. Algo muito foda! S\u00e3o artistas muito incr\u00edveis nas \u00e1reas em que eles atuam. Ent\u00e3o, h\u00e1 essa necessidade de ficar ligado para captar esses pequenos momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Verdade. \u00c9 na capta\u00e7\u00e3o constante dos momentos junto \u00e0 pessoa que se documenta que voc\u00ea encontrar\u00e1 essa constru\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: Sim, eu acho. \u00c9 uma coisa que converso com bastante gente. Voc\u00ea pode fazer um document\u00e1rio super encenado, super decupado, coisa e tal. Mas acho que eu n\u00e3o consigo, na verdade. Preciso deixar fluir para depois ver o que reuni e garimpar o que a gente captou. \u00c9 o m\u00e9todo que eu uso, que aprendi a usar, e que me sinto confort\u00e1vel em fazer.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57210\" aria-describedby=\"caption-attachment-57210\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57210 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-de-Abreu.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-de-Abreu.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-de-Abreu-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57210\" class=\"wp-caption-text\"><em>Tuz\u00e9 de Abreu em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa capta\u00e7\u00e3o que voc\u00ea falou, essa estrutura \u201ctalkinghead\u201d \u00e9 algo que, quando sabendo utilizar, pode funcionar bem. Vide os filmes de Eduardo Coutinho, que construiu sua carreira em entrevistas assim, com personagens incr\u00edveis. Nos outros epis\u00f3dios que voc\u00ea dirigiu, voc\u00ea pode ilustrar um pouco desse processo e da busca por outras estruturas?<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: O epis\u00f3dio do Tuz\u00e9 eu gosto bastante. Isso porque chamei uma banda, a Tropical Selvagem, uma banda que \u00e9 com o Ronei Jorge e o Jo\u00e3o Meirelles, para tocar junto com ele. \u00c9 uma parada bem eletr\u00f4nica que eles fazem. Esse seria o desafio. Mas da\u00ed, quando cheguei para o ensaio, eles estavam conversando, o Tuz\u00e9, o Ronei e o Jo\u00e3o. Era um papo incr\u00edvel. Uma conversa de m\u00fasicos que se conhecem, um papo de pessoas que se gostam, trocando uma ideia. E nisso a gente estava montando ainda a estrutura no est\u00fadio, onde a gente ia filmar esse ensaio. E na hora de come\u00e7ar, tentei puxar aquela coisa, mas n\u00e3o consegui ser o Coutinho. O Coutinho conseguia. Mas deles eu n\u00e3o consegui extrair exatamente aquela conversa sobre cria\u00e7\u00e3o, sobre o que eles iam fazer dentro daquela coisa eletr\u00f4nica improvisada. S\u00f3 que, da\u00ed, o que tenho deles \u00e9, de fato, o improviso acontecendo, o que achei genial. Eles inventam v\u00e1rias m\u00fasicas, v\u00e1rias coisas. Foi essa coisa de ficar observando, para depois ir recortando trechos, momentos interessantes. Teve esse ensaio e depois eles fizeram uma apresenta\u00e7\u00e3o no (Teatro) Gamboa, com um p\u00fablico pequeno, mas que foi bem legal. Foi bem style.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57211\" aria-describedby=\"caption-attachment-57211\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57211 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-Ronei-Jorge-Joao-Meirelles.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-Ronei-Jorge-Joao-Meirelles.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Tuze-Ronei-Jorge-Joao-Meirelles-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57211\" class=\"wp-caption-text\"><em>Tuz\u00e9 de Abreu, Jo\u00e3o Meirelles e Ronei Jorge em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No epis\u00f3dio com o cartunista Nild\u00e3o, houve alguma ideia de usar anima\u00e7\u00f5es para ilustrar o processo de cria\u00e7\u00e3o dele?<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: N\u00e3o fui t\u00e3o radical, n\u00e3o. Fui bem careta nesse aspecto. Porque eu achava que o legal era mostrar mesmo as paradas que ele tinha feito. Eu conhecia algumas, mas muitas eu n\u00e3o conhecia. E achei que era importante mostrar esses trabalhos dele, que conseguem ilustrar bem o pensamento dele. Isso achei importante de fazer. Acho que n\u00e3o tem muita firula n\u00e3o. Mas acho que tem muito a ver com o da Lia Robatto, porque, no dela, eu tive acesso \u00e0s fotos tiradas pelo seu marido (N.E. O arquiteto e fot\u00f3grafo, Silvio Robatto). E \u00e9 muito bonito de ver. Aquelas fotos s\u00e3o a uni\u00e3o de dois artistas incr\u00edveis. E ele a fotografou durante toda a vida deles juntos. Tinha esse olhar de algu\u00e9m que era apaixonado n\u00e3o s\u00f3 pela pessoa, mas pela arte dessa pessoa. Tamb\u00e9m achei que era importante ter essas fotos no m\u00e1ximo em tela cheia. E, quanto mais tivesse, mais bacana ia ser. Uma coisa que acho massa \u00e9 a mem\u00f3ria dela. Ela falando desses acontecimentos, dessas montagens, e a gente vendo esse olhar que \u00e9 do marido dela, que \u00e9 muito bonito, \u00e9 muito forte. Acho que d\u00e1 muito vida. Da\u00ed, o do Nild\u00e3o foi bem nessa pegada. A gente vai povoando o epis\u00f3dio com a arte dele mesmo aparecendo. E tem uma anima\u00e7\u00e3ozinha, mas \u00e9 algo bem simples. S\u00f3 para n\u00e3o ficar parado, na tela cheia. Mas, por mim seria parado mesmo, tela cheia, t\u00e1 ligado? (risos) Porque acho que o importante do projeto era isso mesmo. A gente ouvir essas pessoas relembrando a carreira delas, a mem\u00f3ria delas, e de outras pessoas que somam para chegar a essa trajet\u00f3ria. Mais para a gente ver esse pensamento e como ele acontece. Como \u00e9 que a Lia agia, trabalhava? Como era esse trabalho dela? Porque isso \u00e9 algo que a gente nunca vai ver. O acesso que a gente vai ter \u00e9 por essa foto ou algumas filmagens. Mas quando ela estava l\u00e1 no TCA (Teatro Castro Alves) ainda incendiado, saca? Tipo, ainda fechado para o p\u00fablico, e ela fazendo a parada pelo backstage. Isso \u00e9 algo que eu queria ter visto. Ent\u00e3o, eu queria tentar ao m\u00e1ximo chegar nesse alcance. E isso em todos. Como \u00e9 que eram as picha\u00e7\u00f5es do Nild\u00e3o na \u00e9poca em que ele come\u00e7ou a fazer picha\u00e7\u00e3o, saca? Como \u00e9 que era o Ger\u00f4nimo no come\u00e7o l\u00e1 com o &#8220;Eu Sou Neg\u00e3o&#8221;? Ele chegando para lan\u00e7ar essa m\u00fasica na r\u00e1dio? \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tive, porque eu n\u00e3o estava l\u00e1. Mas eu queria evocar essa mem\u00f3ria de volta. Foi algo assim que tentei alcan\u00e7ar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57207\" aria-describedby=\"caption-attachment-57207\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57207 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Nildao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Nildao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Nildao-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57207\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nild\u00e3o em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 personalidade de cada um, voc\u00ea teve dificuldades em conseguir adentrar e fluir nas conversas com esses artistas<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: N\u00e3o, n\u00e3o tive. Porque todos eles foram muito sol\u00edcitos no fazer. E o que eu tentei fazer com todos foi meio ter essa conversa. Essa troca de ideias. Tanto com eles quanto com as outras fontes que a gente conversava. Tentar deixar menos entrevistas e mais uma conversa. E s\u00e3o artistas de personalidades diferentes. O Ger\u00f4nimo \u00e9 mais esculhambado, no melhor sentido dessa palavra. Acho que esculhambado \u00e9 a melhor forma de falar mesmo. Uma coisa que admiro nele \u00e9 essa coisa de falar mesmo, ser verborr\u00e1gico e n\u00e3o ter papas na l\u00edngua. E ele conta a sua hist\u00f3ria com muita propriedade. Ent\u00e3o, era massa. O epis\u00f3dio dele n\u00f3s filmamos na Ilha de Santo Antonio dos Pobres, que foi onde ele nasceu. Foi massa porque n\u00f3s passamos na rua onde ele cresceu. Ele se sentindo em casa e contando essa hist\u00f3ria dele. E bem daquele jeit\u00e3o dele. O Nild\u00e3o era o mais t\u00edmido de todos. Mas at\u00e9 rolou de a gente trocar essa ideia e chegar mesmo em momentos bacanas. O Tuz\u00e9 \u00e9 uma figura. Um cara que admiro bastante. Acho que o maior rol\u00ea pra mim foi poder trocar uma ideia com essas pessoas que eu j\u00e1 admirava. Que eu j\u00e1 conhecia e os achava massa nas suas \u00e1reas. E tive que estud\u00e1-los, \u00f3bvio. E voc\u00ea estudando voc\u00ea come\u00e7a a descobrir um monte de coisas que voc\u00ea n\u00e3o estava ligado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57203\" aria-describedby=\"caption-attachment-57203\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57203 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Geronimo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Geronimo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Geronimo-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57203\" class=\"wp-caption-text\"><em>Ger\u00f4nimo em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 outro momento do epis\u00f3dio com a Lia Robatto em que ela relembra uma ocasi\u00e3o em que, durante um processo de aquecimento, uma de suas alunas em um projeto social disse que j\u00e1 estava aquecida, pois passara a manh\u00e3 inteira carregando baldes d&#8217;\u00e1gua, uma vez que o bairro onde morava n\u00e3o tinha saneamento. Esse \u00e9 um outro ponto incr\u00edvel nesse processo de se conseguir captar momentos em um document\u00e1rio.<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: E \u00e9 bem forte esse momento. A Lia tem esse lado social dela, esse lado de educa\u00e7\u00e3o, saca? Esse ponto que voc\u00ea citou dessa menina que carregava baldes d&#8217;\u00e1gua na cabe\u00e7a aconteceu na Escola Modelo Anysio Teixeira. Ela implantou o curso de arte e de dan\u00e7a na escola modelo. Ela tem essa vis\u00e3o. Sabe que ela \u00e9 uma artista que tem privil\u00e9gios que aquelas pessoas n\u00e3o tinham. E isso a tocou muito. Tanto que, depois, ela vai para o <a href=\"http:\/\/www.projetoaxe.org\/brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto Ax\u00e9<\/a>. E depois ela faz a <a href=\"http:\/\/www.fundacaocultural.ba.gov.br\/modules\/conteudo\/conteudo.php?conteudo=10520\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Escola da FUNCEB de Dan\u00e7a<\/a>. Ela tem essa vis\u00e3o de como a arte em geral, a dela \u00e9 a Dan\u00e7a, mas ela tem essa vis\u00e3o da arte como um todo. Como a arte tem esse papel transformador, mesmo. Pode ser uma coisa de transformar um indiv\u00edduo e a sociedade em que ele vive. Da\u00ed essa hist\u00f3ria dela \u00e9 bem foda, mesmo. \u00c9 bem para pensar todos os privil\u00e9gios que a gente tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A s\u00e9rie &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221; cumpre um papel fundamental de registro dessa Hist\u00f3ria Cultural em um momento de apagamento.<\/strong><br \/>\nRodrigo Luna: A gente est\u00e1 vivendo esse momento em que essa mem\u00f3ria est\u00e1 sendo atacada em todas as frentes. N\u00e3o s\u00f3 da arte, como da Hist\u00f3ria mesmo. \u00c9 importante essa preserva\u00e7\u00e3o. A escolha de curadoria \u00e9 muito boa porque s\u00e3o v\u00e1rias \u00e1reas diferentes. Mas s\u00e3o pessoas que t\u00eam um pensamento muito forte sobre, n\u00e3o s\u00f3 a arte, mas com a vida como um todo. A vida e a sociedade. E acho que elas mereciam ter mais esse registro. \u00c9 um dos registros que ajuda a contar essas hist\u00f3rias. E essas s\u00e3o hist\u00f3rias do que \u00e9 ser artista no Brasil. Todos passaram por algum contexto de problemas na ditadura, por exemplo. E est\u00e3o at\u00e9 hoje vivendo da arte, vivendo de fazer o que \u00e9 caro para eles. E com os todos os b\u00f4nus e \u00f4nus disso. De voc\u00ea ser um artista nesse pa\u00eds nesse momento. E acho que s\u00e3o \u00f3timos exemplos, assim, todos. De pessoas que viveram a arte diretamente. E que conseguiram deixar uma marca. N\u00e3o acho que \u00e9 uma vis\u00e3o definitiva de cada um, porque \u00e9 imposs\u00edvel fazer uma vis\u00e3o definitiva de um artista assim. Mas acho que \u00e9 um bom recorte dessa mem\u00f3ria contada por eles. E isso \u00e9 o que eu acho mais bacana. Eles t\u00eam um espa\u00e7o deles, para contarem a hist\u00f3ria deles. Porque \u00e9 legal pensar essas reflex\u00f5es revisitando esses lugares, essas mem\u00f3rias, essas pessoas e obras. E pensando nisso hoje, depois que eles viveram tudo. Hoje eles conseguem refletir o que eles fizeram e entendem a import\u00e2ncia disso. Acho que o grande barato da s\u00e9rie \u00e9 isso. N\u00f3s estarmos do lado deles enquanto eles est\u00e3o fazendo essa reflex\u00e3o. Esse \u00e9 o grande barato mesmo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_57209\" aria-describedby=\"caption-attachment-57209\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-57209 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Severino-Vitalino.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Severino-Vitalino.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Severino-Vitalino-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57209\" class=\"wp-caption-text\"><\/em> <em>Severino Vitalino em cena de &#8220;Mem\u00f3rias do Brasil&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cMem\u00f3rias do Brasil\u201d, s\u00e9rie em 13 epis\u00f3dios exibida sexta e domingo no Canal Arte 1, celebra trajet\u00f3rias de Lia de Itamarac\u00e1, Severino Vitalino, Tuz\u00e9 de Abreu, Lia Robatto, Ger\u00f4nimo, Nild\u00e3o, Luiz Melodia, Gerson King Combo, Maria Alcina, Mara Salles, Z\u00e9 Celso, Milton Hatoum e Fernando Mello. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/04\/entrevista-vania-lima-e-rodrigo-luna-falam-sobre-a-serie-memorias-do-brasil\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57206,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,36,3],"tags":[4738,4731,4734,4733,4728,393,4735,2206,4737,4730,4729,4732,4736],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57201"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57201"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57225,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57201\/revisions\/57225"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}