{"id":57169,"date":"2020-09-01T15:07:24","date_gmt":"2020-09-01T18:07:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57169"},"modified":"2020-10-01T00:46:17","modified_gmt":"2020-10-01T03:46:17","slug":"faixa-a-faixa-nada-tem-sido-facil-tampouco-impossivel-valcian-calixto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/01\/faixa-a-faixa-nada-tem-sido-facil-tampouco-impossivel-valcian-calixto\/","title":{"rendered":"Faixa a faixa: &#8220;Nada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel&#8221;, Valci\u00e3n Calixto"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>introdu\u00e7\u00e3o por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inquieto artista piauiense Valci\u00e3n Calixto <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/06\/08\/entrevista-valcian-calixto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">surgiu no cen\u00e1rio musical em 2016<\/a> coordenando as a\u00e7\u00f5es do coletivo art\u00edstico local Gera\u00e7\u00e3o TrisTherezina e colocando nas ruas seu primeiro disco, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/4JeZYnyHOvpUzKomt72IFy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Foda!<\/a>\u201d (2016). Passados quatro anos, Valci\u00e3n apresenta seu segundo disco, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1KwIVKoh8s5x1dc6fdtnWF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel<\/a>\u201d (2020), frase\/t\u00edtulo que o m\u00fasico tem como mantra para a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste novo \u00e1lbum, Valci\u00e3n Calixto segue mantendo viva a cultura do ax\u00e9 e estabelecendo o di\u00e1logo com as religi\u00f5es de matrizes africanas, mas com um olhar ainda mais pluralizado. As participa\u00e7\u00f5es de Julia Barth (vocalista d\u2019Os Replicantes), Jotaerre, Jeza da Pedra e Juliana D. Passos s\u00e3o resultados destas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No faixa a faixa abaixo, feito exclusivamente para o Scream &amp; Yell, Valci\u00e3n esmi\u00fa\u00e7a \u201cNada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel\u201d, trazendo \u00e0 tona n\u00e3o s\u00f3 o processo de composi\u00e7\u00e3o de cada uma das faixas como tamb\u00e9m revelando inspira\u00e7\u00f5es que o conduziram at\u00e9 o resultado final.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Valci\u00e3n Calixto - 3R1K0N4 (Lyric V\u00eddeo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLWnUe2GkmsE4mNWWgo0vsbLc3hCalg1nD\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) 3R1K0N4<\/strong><br \/>\nL\u00ea-se Ericona, que \u00e9 a maneira carinhosa pela qual os familiares tratam a Eryka, minha companheira. A can\u00e7\u00e3o surgiu pronta, a letra veio na minha cabe\u00e7a de uma maneira assim quase que autom\u00e1tica. Vinha um verso, vinha a melodia, a harmonia, a cad\u00eancia. Tudo muito leve, pra cima, dan\u00e7ante, humorado. Tal qual diversas outras can\u00e7\u00f5es, essa surgiu ap\u00f3s uma das muitas conversas com a Eryka: \u201cTudo que a gente fala vira can\u00e7\u00e3o\u201d. Numa madrugada convers\u00e1vamos sobre o quanto muitas pessoas se deixam ficar ref\u00e9m de outras porque em algum momento foram ajudadas, at\u00e9 que percebem que quem as ajudou s\u00e3o ruins para outras pessoas e como t\u00eam ali uma d\u00edvida de gratid\u00e3o, n\u00e3o conseguem se afastar, n\u00e3o conseguem se desvencilhar, n\u00e3o conseguem questionar, a isso a Eryka resumiu e batizou de \u2018Gratid\u00e3o T\u00f3xica\u2019. \u00c9 o que aparece no refr\u00e3o: \u201cAquela tua frase massa sobre gratid\u00e3o\u201d (risos). Ent\u00e3o eu trouxe esse nosso aprendizado em conjunto para abrir o disco, come\u00e7ar o disco com uma homenagem \u00e0 pr\u00f3pria Eryka tamb\u00e9m, com quem tenho aprendido muito sobre mim e tantas outras coisas da vida em nossas viv\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) Nunca Fomos T\u00e3o Adultos<\/strong><br \/>\n\u00c9 a m\u00fasica que resume o termo \u201cAx\u00e9 Punk\u201d. \u00c9 o meu melhor exemplo. Eu consegui aliar a percussividade e as violeiras da swingueira nas batidas de rock. \u00c9 o casamento perfeito, quem conhece desses dois mundos vai identificar os elementos de cada ritmo ali presentes. O timbre dos instrumentos. E trouxe esse vocal rasgado na m\u00fasica inteira, que a gente quase n\u00e3o v\u00ea em swingueira, com drive, tanto meu quanto da Julia Barth (Os Replicantes). Eu fico aqui falando, acabo me empolgando porque curti muito mesmo o resultado dessa faixa. \u00c9 talvez a can\u00e7\u00e3o mais antiga do disco, foi composta ainda no come\u00e7o do relacionamento com a Eryka, talvez por volta de 2014. Aqui e acol\u00e1 a gente se estressava um com o outro, n\u00e3o conseguia acertar o passo, ansiosos, cobrando muito do outro, sem no\u00e7\u00e3o da exata responsabilidade que \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um casamento, responsabilidade afetiva, cuidado m\u00fatuo, coisa que fomos aprendendo e construindo juntos. Assim, essas duas primeiras faixas do disco mostram dois momentos distintos do nosso relacionamento. Ingenuidade e alguma maturidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) Sem Tempo, Irm\u00e3o (Interl\u00fadio I)<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 puro prazer. Ano passado eu comecei a gravar as m\u00fasicas do \u201cNada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel\u201d no Calist\u00fadio, meu est\u00fadio, e sempre que conclu\u00eda um arranjo, enviava para meu irm\u00e3o mais velho, que toca bateria comigo, o Marciano Calixto. Na \u00e9poca ele estava passando uma temporada com o pai e eu pedia para mostrar as m\u00fasicas pro pai. S\u00f3 que nosso pai quase n\u00e3o para em casa, por isso que tem esses \u00e1udios do Marciano dizendo: \u201cEle n\u00e3o tem tempo, n\u00e3o t\u00e1 aqui\u201d (risos). Da\u00ed eu falei pra ele que ia fazer uma m\u00fasica com aqueles \u00e1udios todos, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=vwmXOMr-1Rs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tipo essa aqui<\/a> e ele duvidou (risos). Eu me senti desafiado (risos) e comecei a editar os \u00e1udios, cortar, acertar o tom. O resultado \u00e9 o do disco. A\u00ed tem uma coisa super positiva, aquilo que era uma cobran\u00e7a dos filhos, a gente sempre reclamou que o pai nunca tem tempo para as coisas, t\u00e1 sempre muito ocupado, hoje a gente d\u00e1 risada dessa hist\u00f3ria ouvindo esse interl\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) Faz Tanto Tempo<\/strong><br \/>\nAcho que sobre a l\u00edrica de \u201cFaz Tanto Tempo\u201d eu n\u00e3o tenho muito o que acrescentar, a letra ao mesmo passo que tem ali um jogo de palavras no refr\u00e3o, uma circularidade, uma grada\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito direta. Toca no que um dia foi ferida para mostrar que cicatrizou e que se cicatrizou, n\u00e3o tem por que cutucar novamente. Faz uso de an\u00e1foras, sinestesia, recursos estil\u00edsticos para refor\u00e7ar uma ideia e fala de um eu-l\u00edrico que de repente se sentiu pressionado por algu\u00e9m que perdeu tanto o timing, que quando se d\u00e1 conta de que vacilou, busca se desculpar, por\u00e9m a pessoa superou sozinha a dor do vacilo alheio, se emancipou, se empoderou, foi seu pr\u00f3prio apoio, seu pr\u00f3prio ombro amigo e j\u00e1 n\u00e3o tem mais necessidade de aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o carece mais do afeto de quem tantas vezes se negou a dar, pois at\u00e9 j\u00e1 a perdoou. Perdoou antes mesmo que a pessoa se desse conta do vacilo que cometeu. A vida tem dessas coisas, \u00e0s vezes, no alto da nossa arrog\u00e2ncia, acreditamos n\u00e3o sei como ou por que, que sempre vamos ter quem queremos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o eterna. Quando v\u00ea, j\u00e1 foi. \u201cSe voc\u00ea ficou mal com o mal que me fez, hoje estou bem\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Valci\u00e3n Calixto - Deus \u00c9 Bom (O Tempo Todo) feat Jotaerre (WebClipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/alnJa6caD8Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) Deus \u00c9 Bom (O Tempo Todo)<\/strong><br \/>\n\u00c9 curiosa a constru\u00e7\u00e3o dessa m\u00fasica porque eu criei a melodia e usei essa frase que \u00e9 conhecida da comunidade evang\u00e9lica norte-americana, em especial, com o bord\u00e3o \u2018God is Good (All The Time)\u2019, mas s\u00f3 depois vim conhecer o filme \u201cDeus N\u00e3o Est\u00e1 Morto\u201d (2014), de Harold Cronk, no qual a frase \u00e9 inicialmente citada. Quem me apresentou o filme foi o Guilherme Filho, baixista que toca comigo. Eu conhecia a frase de texto de internet, rede social. De repente come\u00e7ou a me soar mel\u00f3dica at\u00e9 que a m\u00fasica come\u00e7ou a sair. Eu tinha duas estrofes e as melodias prontas, essa e a da F\u00e9 de J\u00f3, a\u00ed durante um ensaio o Marciano disse que estava achando a m\u00fasica muito curta e a gente precisava aumentar (hahaha). Ent\u00e3o ficamos ali tocando, tocando, tentando alguns outros versos e toda a banda me ajudou. Nos cr\u00e9ditos dessa faixa eu cito o nome de todos, Vitor Manoel, Ronnyel Seed, Guilherme Filho e Marciano Calixto como co-parceiros. Tem ainda aquele trocadilho no final: \u201cDeus \u00e9 bom o tempo todo\/ O tempo todo Deus \u00e9 bom\/ Deus \u00e9 bom o tempo todo\/ TODO Deus \u00e9 bom\u201d, onde a aus\u00eancia de algumas palavras cria um novo sentido para o verso final e amplia o alcance de Deus, englobando todas as correntes espirituais conhecidas no mundo, o que tamb\u00e9m se evidencia pelas imagens que o Agostinho Torres usou na constru\u00e7\u00e3o do clipe que lan\u00e7amos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tamb\u00e9m subverti (por uma boa causa) o Salmo 23 da b\u00edblia (O Senhor \u00e9 meu Pastor) ao cruzar e trocar a palavra \u2018Senhor\u2019 por \u2018Oxal\u00e1\u2019, ou seja, \u00e9 o Candombl\u00e9 dentro do Cristianismo e vice-versa, pois eu defendo que todas as religi\u00f5es, todos os credos, todas as f\u00e9s s\u00e3o importantes e necess\u00e1rias, que a intoler\u00e2ncia religiosa n\u00e3o constr\u00f3i nada positivo para a sociedade, s\u00f3 violenta, mata e apaga pessoas, cultos e hist\u00f3rias. E eu sei o que \u00e9 isso, sou Umbandista e acompanho, muito triste, o que os \u2018traficantes de Jesus\u2019 t\u00eam feito no Rio de Janeiro, por exemplo. Fiquei chocado em como uma m\u00e3e em Ara\u00e7atuba, S\u00e3o Paulo, perdeu a guarda da filha de 12 anos por t\u00ea-la iniciado nos rituais do Candombl\u00e9. Detalhe, perdeu a guarda da filha com apoio do Estado, que \u00e9 laico, o que \u00e9 pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente vive num pa\u00eds onde na hora que a crian\u00e7a nasce j\u00e1 recebe o batismo crist\u00e3o e ningu\u00e9m diz nada, nunca uma m\u00e3e perdeu a guarda duma filha por batiz\u00e1-la logo ap\u00f3s o nascimento, sendo que o batismo tamb\u00e9m \u00e9 uma inicia\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 um compromisso com a religi\u00e3o. Sendo assim, ent\u00e3o por que a crian\u00e7a quando \u00e9 para ser crist\u00e3 pode ser batizada na hora que nasce e outra n\u00e3o pode ser candomblecista aos 12 anos de idade por vontade pr\u00f3pria? Consegue perceber o tamanho do problema que \u00e9 o preconceito, o racismo, a intoler\u00e2ncia religiosa e as coisas que essas tr\u00eas ferramentas causam como a separa\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia, uma separa\u00e7\u00e3o violenta ainda mais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o essa faixa tem essa miss\u00e3o de reunir no v\u00eddeo, nos versos, todos os credos, sem distin\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma m\u00fasica para aproximar, para estreitar la\u00e7os, para todo mundo curtir, dan\u00e7ar, pular abra\u00e7ado mesmo. Foi pra isso que eu convidei o Jotaerre, pois quando o assunto \u00e9 meter dan\u00e7a, ele e a guitarra dele embrazam no Chora Violla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se voc\u00ea perceber, o disco vem se dividindo em blocos, as duas primeiras faixas trazem duas faces de um relacionamento amoroso. As seguintes formam A Trilogia do Tempo: uma brinca com a falta de tempo, outra mostra que o tempo ajuda a superar o passado e a terceira diz a quem tem f\u00e9 e a quem n\u00e3o tem que Orix\u00e1 \u00e9 bom tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) Deus Nos Livra<\/strong><br \/>\nComecei a escrever essa letra para uma parceria com o Z\u00e9 Bigode, guitarrista do Rio de Janeiro, mas por diversos motivos acabou n\u00e3o acontecendo. Acho que eu s\u00f3 tinha tr\u00eas versos do refr\u00e3o e deixei eles l\u00e1 guardados um bom tempo. Quando comecei a gravar o disco, que estava montando a tracklist, lembrei dos versos que tinha enviado ao Bigode e comecei a tentar cantar, buscando uma melodia. Foi assim que muito naturalmente ela me veio como um funk, eu cantava e sentia a pulsa\u00e7\u00e3o, a batida, a marca\u00e7\u00e3o do funk. A melodia me chamava pro funk e eu n\u00e3o podia fugir disso. Ent\u00e3o peguei pra ouvir muito mais funk, estudando mesmo, observando as composi\u00e7\u00f5es, nuances. Deu tudo certo e eu adotei o refr\u00e3o dessa m\u00fasica como estilo de vida, uma ora\u00e7\u00e3o para qualquer hora do dia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Valci\u00e3n Calixto part. Jeza da Pedra - Nya Akoma | Webclipe\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nSlqm0A2jkU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) Nya Akoma<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente se chamava \u201cMantra\u201d. At\u00e9 que numa noite tive um sonho e ouvi a palavra \u201cAkoma\u201d. Fui pesquisar e conheci os Adinkras, escrita pictogr\u00e1fica dos antigos ganenses, os akan. S\u00e3o express\u00f5es carregadas de imagens, simbolismos e mensagens importantes para a transmiss\u00e3o de valores de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o na \u00c1frica, sendo o Sankofa, o mais conhecido, talvez, no Ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o n\u00f3s temos aqui um retorno \u00e0 m\u00e3e \u00c0frica, o in\u00edcio de uma imers\u00e3o nos saberes ancestrais, o auto entendimento afrodiasp\u00f3rico, o afrocentrismo presente. E quando o negro come\u00e7a a \u201c<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/file\/d\/0B7cRDv6fYLjEc1JwWm03LTRXVzg\/edit?fbclid=IwAR0wg_oVXEK4_WPQqO_nGDvcO9h16EoflVTC_kCLz8BxsfI1NSti2dZfPkE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tornar-Se Negro<\/a>\u201d, como dizia a Neusa Santos, ele come\u00e7a a curar muitos de seus traumas que o mundo ocidental lhe causou e causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica fala disso, algu\u00e9m que n\u00e3o vai mais repetir um estilo de vida que causa ansiedade, que \u00e9 \u00e0 base de cobran\u00e7a, de competi\u00e7\u00e3o, fala de algu\u00e9m que n\u00e3o vai mais se permitir adoecer por conta dessas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tem os diversos loops, uma das guitarras casada com o baixo, a repeti\u00e7\u00e3o das melodias e do verso \u201cEu N\u00e3o Vou Mais\u201d com poucas altera\u00e7\u00f5es evocando a ideia de circularidade africana, da aldeia, da roda de capoeira, da roda de samba, do prato e faca com a inten\u00e7\u00e3o de criar uma atmosfera, um ambiente de algu\u00e9m que quer, de fato, internalizar, que n\u00e3o vai mais [fazer algo] e n\u00e3o vai mesmo e que a \u00fanica maneira de isso acontecer \u00e9 repetir para si at\u00e9 a exaust\u00e3o, expurgar a doen\u00e7a pelo cansa\u00e7o, pela fadiga at\u00e9 a explos\u00e3o final que \u00e9 quando entra o Jeza da Pedra lindamente com aquele timbre dele de um grave aveludado falando da tristeza que \u00e9 ter um jovem negro morto a cada 23 minutos e pedindo que o Brasil deixe em paz sua sexualidade no pa\u00eds que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) Korey Wise, Eu Te Amo (Interl\u00fadio II)<\/strong><br \/>\n\u00c9 um spoken word, uma manifesta\u00e7\u00e3o onde o canal de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a oralidade e a atitude. O curioso desse estilo \u00e9 que cada texto vai ganhando novos sentidos sempre que uma pessoa diferente o interpreta, pois cada uma vai dar entona\u00e7\u00f5es diferentes, conforme suas pr\u00f3prias perspectivas na hora de recitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa faixa \u00e9 uma sauda\u00e7\u00e3o aos meus mais recentes aprendizados na vida e uma forma de compartilh\u00e1-los, pois \u201cConhecimento \u00e9 Amor compartilhado\u201d; ela tamb\u00e9m justifica o disco, mostra que, apesar das limita\u00e7\u00f5es eu consegui finaliz\u00e1-lo. Explica o porqu\u00ea da frase que d\u00e1 t\u00edtulo ao \u00e1lbum; resgata o caso do Cinco do Central Park, atrav\u00e9s da cita\u00e7\u00e3o ao Korey Wise, que eu conheci na s\u00e9rie da Netflix, \u201cOlhos Que Condenam\u201d, da Ava DuVernay; antecipa a faixa seguinte quando cito a preta velha vov\u00f3 Maria Conga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso vai se desenhando em cima de um sample do \u201cBoa Voz\u201d, capoeirista conhecido por sua voz bel\u00edssima e marcante e cl\u00e1ssicos pontos de capoeira. Acho que \u00e9 a faixa do \u00e1lbum com mais refer\u00eancia expl\u00edcita e eu, muito provavelmente ainda devo estar esquecendo alguma aqui nesse texto. Essa \u00e9 a faixa preferida do Jeza tamb\u00e9m, claro depois da que ele canta comigo (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09) Ensinamentos da Preta Velha Vov\u00f3 Maria Conga<\/strong><br \/>\nEssa faixa eu tenho um carinho muito grande por ela. O refr\u00e3o foi a espiritualidade quem me deu durante uma consulta com a entidade. No dia seguinte, eu fiquei com a conversa na cabe\u00e7a e comecei a tentar sair do refr\u00e3o, assim come\u00e7ou um fluxo natural, os versos foram chegando, chegando e quando fui ver tinha a m\u00fasica pronta e j\u00e1 havia me decidido que seria um xote, naquele momento eu identificava o xote como uma sonoridade que os pretos velhos gostariam de ouvir. Escrevendo e relembrando agora parece que estou revendo o momento em que ia escrevendo os versos no papel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim o fiz. Somente quase um ano depois de ter feito a m\u00fasica que eu conheci a hist\u00f3ria de Maria Conga, que foi sequestrada da \u00c1frica ainda crian\u00e7a e trazida para o Brasil, onde foi separada de sua fam\u00edlia: \u201cse a vida embrutece a gente, na inf\u00e2ncia nos quebram por dentro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu me dei conta, ao conhecer a hist\u00f3ria de v\u00f3 Maria Conga, que a m\u00fasica que eu tinha escrito um ano antes, tamb\u00e9m contava a vida dela, senti um baque, uma emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei explicar, mas muito forte, fiquei ouvindo a m\u00fasica mixada e lembrando desse meu percurso dentro da Umbanda, pois pesquisar a hist\u00f3ria das entidades \u00e9 conhecer mais do pr\u00f3prio Brasil, \u00e9 conhecer como meus antepassados, meus ancestrais viveram, onde encontravam for\u00e7as para seguir em frente e lutar por liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00f3 Maria Conga ganhou a liberdade com mais de 30 anos e a partir dali fez um pacto consigo mesmo de lutar pela liberdade dos seus irm\u00e3os, foi assim que ela ajudou a fundar diversos quilombos no Rio de Janeiro, incluindo o que hoje leva o nome dela. Ter contato com a hist\u00f3ria de vida de v\u00f3 Maria Conga me abriu os olhos para entender que a pior fase vivida pelos meus irm\u00e3os j\u00e1 passou e que eu n\u00e3o devo esmorecer, n\u00e3o devo perder tempo reclamando da minha vida, mas sim buscar melhorar tudo que me for poss\u00edvel, dentro das minhas condi\u00e7\u00f5es, ao meu redor. Assim farei por mim e pelos meus. E \u00e9 por isso que esse disco existe, para trazer for\u00e7a e luz aos meus irm\u00e3os e irm\u00e3s de todo mundo. Adorei as almas. Sarav\u00e1 pra vov\u00f3 Maria Conga!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) Nada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel<\/strong><br \/>\nSe n\u00e3o me engano, desde 2014 que eu criei essa frase e venho fazendo dela um guia na minha vida, meu norte, um mantra tamb\u00e9m. \u201cIsso passa\u201d era o mantra que o Chico Xavier recebeu de seu mentor Emmanuel, n\u00e9, pois bem, alguma entidade que me acompanha deve ter me soprado isso no ouvido. Inclusive, anos depois durante meus estudos sobre Umbanda, encontrei praticamente essa frase em um livro psicografado pelo Rubens Saraceni, escritor umbandista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tem outras curiosidades tamb\u00e9m. Em 2017 comecei a rascunhar os versos dessa m\u00fasica e de l\u00e1 para c\u00e1 foram sendo melhorados, inclusive, uma semana antes de fechar e finalizar o disco, faltava colocar apenas a voz nesta m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tinha sido gravada em C (d\u00f3 maior) e o tom ficou muito baixo pra mim, eu n\u00e3o conseguia atingir os graves que ela pedia de t\u00e3o baixo que o tom estava pra mim. Ent\u00e3o o Elimar (mix\/master) e o pai sugeriram subir dois tons e me deram tr\u00eas dias para regravar os instrumentos. Eu trouxe o projeto da m\u00fasica pra casa e aproveitei para mudar umas coisas no arranjo que eu ainda n\u00e3o estava satisfeito. Acabou que a m\u00fasica ganhou a \u00faltima estrofe que n\u00e3o tinha antes e aquele arranjo do final com o solo de dois compassos do teclado. Foi assim que fiz meu amigo Agostinho chorar pela primeira e a segunda vez que ele ouviu a faixa finalizada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-57171\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/valcian2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/valcian2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/valcian2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/valcian2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O inquieto artista piauiense Valci\u00e3n Calixto surgiu no cen\u00e1rio musical em 2016 coordenando as a\u00e7\u00f5es do coletivo art\u00edstico local Gera\u00e7\u00e3o TrisTherezina e agora apresenta seu segundo disco, \u201cNada Tem Sido F\u00e1cil Tampouco Imposs\u00edvel\u201d (2020), frase\/t\u00edtulo que o m\u00fasico tem como mantra para a vida.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/01\/faixa-a-faixa-nada-tem-sido-facil-tampouco-impossivel-valcian-calixto\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":57170,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1871],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57169"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57169"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57173,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57169\/revisions\/57173"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}