{"id":57157,"date":"2020-08-30T23:25:43","date_gmt":"2020-08-31T02:25:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57157"},"modified":"2021-10-11T00:54:36","modified_gmt":"2021-10-11T03:54:36","slug":"entrevista-emerson-dindo-plataforma-diaspora-conecta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/08\/30\/entrevista-emerson-dindo-plataforma-diaspora-conecta\/","title":{"rendered":"Entrevista: Emerson Dindo (Plataforma Di\u00e1spora Conecta)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emerson Dindo, produtor de cinema e diretor executivo e idealizador do <a href=\"https:\/\/www.diasporaconecta.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Di\u00e1spora Conecta<\/a>, traz para essa importante iniciativa toda uma vasta experi\u00eancia como produtor e presen\u00e7a atuante no audiovisual baiano e brasileiro nos \u00faltimos anos. Tendo como meta a cria\u00e7\u00e3o de pontes para produtores e roteiristas negros e negras com o mercado do audiovisual, a plataforma Di\u00e1spora Conecta chega \u00e0 sua segunda edi\u00e7\u00e3o em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista para o Scream &amp; Yell, Emerson aborda diversos aspectos do Di\u00e1spora Conecta, uma plataforma de desenvolvimento de carreiras de profissionais negros do audiovisual brasileiro, salientando que ela &#8220;tem como perspectiva essa forma\u00e7\u00e3o, esse desenvolvimento de carreira de profissionais negros e negras no audiovisual, mas, tamb\u00e9m, para essas pessoas terem essa carreira como um horizonte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo, o produtor abordou toda sua trajet\u00f3ria no campo do audiovisual, salientando as dificuldades dentro de uma ind\u00fastria na qual a perseveran\u00e7a tem que ser constante, principalmente para algu\u00e9m fora de um \u00e2mbito de privil\u00e9gios. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Di\u00e1spora Conecta 2020\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yx_yGh1Yh4o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como todos os eventos culturais conscientes da necessidade do isolamento social para conter a pandemia, o Di\u00e1spora Lab Roteiro e Produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m modificou sua estrutura visando a seguran\u00e7a das pessoas interessadas em participar. Na fun\u00e7\u00e3o de diretor-executivo e idealizador da plataforma Di\u00e1spora Conecta, voc\u00ea poderia falar um pouco sobre os desafios apresentados nesse 2020 para a realiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nCom a pandemia, realizar o Di\u00e1spora Conecta esse ano foi um grande desafio por conta dessa mudan\u00e7a do presencial para o digital. Para n\u00f3s, \u00e9 muito caro esse espa\u00e7o presencial. No laborat\u00f3rio espec\u00edfico, criamos uma comunidade que permanece imersa durante uma semana, de modo que as pessoas, al\u00e9m de trabalhar os projetos, acabam compartilhando experi\u00eancias com os outros processos, com as outras pessoas. Mais do que isso, existe tamb\u00e9m um processo de transforma\u00e7\u00e3o interna a partir dessa rela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, migrar para os encontros remotos foi um processo que nos custou muito. Mas depois que migramos, percebemos algumas oportunidades que, talvez, s\u00f3 o digital traria de fato: essa possibilidade de conex\u00e3o com o mundo, que \u00e9 algo que temos explorado bastante agora. Outra coisa que tivemos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia foi perceber que todos os projetos ficaram represados. Quer\u00edamos entender um pouco do comportamento de como seria aqui no pa\u00eds, e, tamb\u00e9m, l\u00e1 fora. E nesse momento, por exemplo, a gente tem chamadas para seis ou sete laborat\u00f3rios distintos no Brasil. A maioria desses laborat\u00f3rios vai acontecer entre outubro e novembro. E eu estou falando de cinco a sete laborat\u00f3rios. Tem o Di\u00e1spora Lab, o <a href=\"https:\/\/brlab.com.br\/pb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BrLab<\/a>, o <a href=\"https:\/\/labnovashistorias.sescsp.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Novas Hist\u00f3rias<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www.flup.net.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flup<\/a> vai come\u00e7ar agora, tamb\u00e9m. O <a href=\"https:\/\/olhardecinema.com.br\/br\/atividades\/curitiba_lab\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Curitiba Lab<\/a> abriu inscri\u00e7\u00f5es; o <a href=\"https:\/\/www.docsp.com\/labs\/doclab\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">DocSP<\/a> acontece em novembro; o Panorama, aqui em Salvador, com o <a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/panorama-internacional\/panlab\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">PanLab<\/a>, acontece, tamb\u00e9m, em novembro. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem, nesse momento, todos os eventos e projetos que n\u00e3o puderam acontecer no primeiro semestre, mas v\u00e3o acontecer em outubro e novembro. E isso por que? Bom, at\u00e9 setembro a gente estar\u00e1 vivendo esse rescaldo (da pandemia) com o plat\u00f4 que chegou agora. Outubro poder\u00edamos imaginar como sendo um m\u00eas em que o pa\u00eds poderia estar mais tranquilo. Novembro \u00e9 um m\u00eas antes do \u00faltimo, e em dezembro a gente n\u00e3o faz mais quase nada. Foram dois meses que nos restaram. Nosso desafio, agora, \u00e9 tentar, diante desse cen\u00e1rio, criar um di\u00e1logo entre esses espa\u00e7os de modo que a gente n\u00e3o sombreei nenhuma dessas atividades. E que cada espa\u00e7o tenha o seu potencial de resist\u00eancia. Que consiga fazer o seu trabalho e que as pessoas participem. Que tenham a possibilidade de fazer imers\u00e3o que esses projetos precisam dentro do laborat\u00f3rio que, esse ano, precisa ser virtual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse ano, o <a href=\"https:\/\/www.diasporaconecta.com.br\/consultoras-lab-roteiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Di\u00e1spora Lab Roteiro<\/a>&nbsp;e o <a href=\"https:\/\/www.diasporaconecta.com.br\/consultoras-lab-producao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Di\u00e1spora Lab Produ\u00e7\u00e3o <\/a>trazem nas presen\u00e7as de Paula Gomes (diretora e roteirista do premiado \u201cJonas e o Circo Sem Lona\u201d) e Xenia Rivery (que atuou como coordenadora da C\u00e1tedra de Roteiro e do Servi\u00e7o Internacional de Consultorias da Escuela Internacional de Cine y TV, de San Antonio de los Ba\u00f1os, EICTV- Cuba), ambas como consultoras de roteiro. Nas consultorias de produ\u00e7\u00e3o, Tanya Valette, que foi a s\u00e9tima diretora da mesma Escuela Internacional de Cine y TV, al\u00e9m de Joelma Gonzaga, produtora com trabalhos constantes como os filmes dirigidos por Eryk Rocha, fecham um time excelente de profissionais. Como funcionou esse processo de sele\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAntes de mais nada, eu sou produtor. Por entender as barreiras, as dificuldades que a gente acaba enfrentando para desenvolver, para captar recursos para nossos projetos. Tamb\u00e9m sendo um produtor negro que n\u00e3o est\u00e1 no \u201cgrande eixo brasileiro\u201d, \u00e9 preciso encontrar caminhos e possibilidades para fazer com que esses nossos projetos aconte\u00e7am. Acredito no espa\u00e7o de laborat\u00f3rio como esse lugar. Onde voc\u00ea encontra uma consultora que vai estar com voc\u00ea \u201cparipassu\u201d. O laborat\u00f3rio \u00e9 uma semana muito intensa na qual voc\u00ea vai conseguir trabalhar determinadas coisas. Esse ano decidimos dilatar o laborat\u00f3rio para possibilitar que esses projetos amadure\u00e7am com o tempo que eles precisam. Pensando nessa estrutura, conclu\u00edmos que \u00e9 importante que a gente tenha pessoas parceiras e que entendam essa nossa metodologia, e que, al\u00e9m disso, consigam aportar a infraestrutura e a aten\u00e7\u00e3o que esses projetos e essas pessoas precisam. Paula e Xenia s\u00e3o parceiras do Di\u00e1spora desde o primeiro ano do laborat\u00f3rio. Antes mesmo do laborat\u00f3rio acontecer. O Leandro [Santos Rodrigues, diretor administrativo da plataforma Di\u00e1spora Conecta] fez uma forma\u00e7\u00e3o de roteiro em Cuba de tr\u00eas anos. A Xenia coordenava o curso de roteiro da escola de cinema de Cuba. Esse di\u00e1logo vem desde a\u00ed, de muito antes do laborat\u00f3rio acontecer. Paula \u00e9 uma pessoa que, al\u00e9m de uma amiga, \u00e9 uma produtora e diretora incr\u00edvel. Desde 2014 que n\u00f3s convers\u00e1vamos sobre esse projeto, de como eu queria participar de alguns laborat\u00f3rios para entender um pouco da din\u00e2mica. O que pensamos ao selecionar uma consultora? \u00c9 importante que essa pessoa tenha uma estrada, tenha experi\u00eancia na \u00e1rea, mas que tamb\u00e9m exista a generosidade para sentar com a pessoa que est\u00e1 do outro lado, de modo que essa partilha seja real e mais horizontal do que verticalizada. Porque, a\u00ed falando um pouco dessa experi\u00eancia de ter participado de laborat\u00f3rios, as pessoas, quando v\u00e3o para um espa\u00e7o como esse, os projetos j\u00e1 t\u00eam muito tempo de pensamento, de escrita, de dedica\u00e7\u00e3o. E \u00e9 um custo escrever um projeto, \u00e9 um custo escrever um roteiro. Voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 precisa de tempo, mas de recursos financeiros. Quando voc\u00ea chega a um espa\u00e7o de laborat\u00f3rio como esse, \u00e9 muito importante que essas profissionais tenham a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o, a m\u00e1xima generosidade, para fazer com que esses projetos aconte\u00e7am. Mas, tamb\u00e9m, \u00e9 muito importante dizer que elas precisam ser muito diretas, objetivas e reais. &#8220;Seu projeto precisa melhorar nisso, nisso e nisso.&#8221; &#8220;Sua personagem est\u00e1 com essa fragilidade porque esse ponto aqui voc\u00ea n\u00e3o resolveu.&#8221; \u00c9 um trabalho muito \u00edntimo, de muita min\u00facia, e que precisa al\u00e9m de um curr\u00edculo interessante da consultora, de muito apuro, muita dedica\u00e7\u00e3o, muita sensibilidade. Escolhemos quatro mulheres da Am\u00e9rica Latina porque a gente entendia, antes de mais nada, que elas t\u00eam esse um curr\u00edculo incr\u00edvel. E, al\u00e9m disso, que elas poderiam aportar muitas coisas para o projeto. Porque s\u00e3o pessoas em cujo trabalho acreditamos. S\u00e3o pessoas parceiras. Eu dialogo muito com a Paula e com a Xenia, consultoras de roteiro. A Tanya eu conheci mais recentemente, pelo interm\u00e9dio desta nossa rede di\u00e1logo. Eu e a Joelma estamos fazendo muita coisa juntos. Ent\u00e3o, isso acaba contando, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Di\u00e1spora Lab\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0mtUHRnTbKU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Di\u00e1spora Conecta deste ano traz atrativos para al\u00e9m das preciosas consultorias, como a possibilidade de sele\u00e7\u00e3o para projetos participarem do <a href=\"https:\/\/miradasdoc.com\/mdoc2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">MiradasDoc<\/a>, na Espanha, al\u00e9m do pr\u00eamio de R$ 10 mil para iniciar ou dar continuidade a produ\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea pode falar um pouco desses incentivos bem como do processo de consegui-los para a plataforma?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o pr\u00eamios que, para t\u00ea-los nessa edi\u00e7\u00e3o, fizemos uma movimenta\u00e7\u00e3o grande. Tivemos o aporte financeiro do Fundo de Cultura da Bahia e conseguimos articular parcerias com outras institui\u00e7\u00f5es. Mas temos um sufocamento no Brasil dos recursos p\u00fablicos para financiar projetos culturais, em especial, para o Cinema. Ent\u00e3o, isso nos afeta muito. Temos mobilizado para encontrar caminhos dentro e fora do Brasil para financiar a plataforma, e esse me parece um caminho estrat\u00e9gico. \u00c9 justamente nesse movimento de pensar formas sustent\u00e1veis que firmamos a parceria com o MiradasDoc, proporcionando a possibilidade de um projeto do Di\u00e1spora Lab participar do evento na Espanha, em Tenerife, no m\u00eas de fevereiro de 2021. Uma experi\u00eancia muito bacana que vai contribuir muito para o desenvolvimento do projeto. Eu estive l\u00e1 esse ano no m\u00eas de fevereiro como \u201cdecision maker\u201d, representando al\u00e9m da plataforma Di\u00e1spora Conecta, o Nordeste Lab e a Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mohamed Bamba &#8211; MIMB. Este \u00e9 um interc\u00e2mbio que consiste na cria\u00e7\u00e3o de um circuito de forma\u00e7\u00e3o entre outros laborat\u00f3rios. Nesta edi\u00e7\u00e3o, por exemplo, tem um projeto que vem de l\u00e1 para c\u00e1 e que vai participar do Di\u00e1spora Lab, chama-se \u201cA Bomb Of Pan Africa\u201d, digirido pela <a href=\"https:\/\/mubi.com\/pt\/cast\/eva-munyiri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eva Munyiri<\/a>, uma diretora queniana. Ainda que seja uma edi\u00e7\u00e3o cheia de desafios, n\u00f3s estamos nos articulando com outros espa\u00e7os e eventos dentro e fora do Brasil. Estamos bem felizes de levar um projeto de document\u00e1rio Di\u00e1spora Lab para participar do pitch Afrolatam, no MiradasDoc em 2021. Sem custos para o projeto selecionado, com todas as despesas cobertas, passagem a\u00e9rea e hospedagem. Esse \u00e9 o ano tamb\u00e9m da primeira edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Di\u00e1spora, que outorgar\u00e1 uma bolsa no valor de pr\u00eamio de R$ 10 mil para um dos projetos. \u00c9 um startmoney, porque, de fato, ele ajuda. \u00c9 um f\u00f4lego para quem est\u00e1 desenvolvendo ter grana para come\u00e7ar uma pesquisa filmada, para fazer pesquisa de acervo, enfim, para come\u00e7ar um trabalho ou dar continuidade ao de desenvolvimento do roteiro. Para a gente \u00e9 muito importante que o Di\u00e1spora Lab recepcione as narrativas que as pessoas querem apresentar. Se eles querem fazer um thriller, se querem fazer um filme policial, um filme de g\u00eanero, horror, terror, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, isso independe. Queremos narrar as nossas hist\u00f3rias, em qualquer formato, em qualquer g\u00eanero. O que importa para a gente \u00e9 que a pessoa tenha esse ambiente para produzir. N\u00f3s temos o compromisso de possibilitar que outras narrativas aconte\u00e7am. E isso de modo que possamos inserir e colocar o homem e a mulher negra na tela de uma outra perspectiva que n\u00e3o seja a hipersexualizada. Que n\u00e3o seja em situa\u00e7\u00e3o de subalternidade, que n\u00e3o seja o homem violento, ou uma crian\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de miserabilidade. Todos esses exerc\u00edcios temos feito dentro de uma plataforma que tem como perspectiva essa forma\u00e7\u00e3o, possibilitando o desenvolvimento de carreira de profissionais negros e negras no audiovisual. Mas tem, tamb\u00e9m como um horizonte, a cria\u00e7\u00e3o de pontes de colabora\u00e7\u00e3o entre a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica latino-americana e a africana. E uma coisa que a gente ainda n\u00e3o anunciou \u00e9 que nessa edi\u00e7\u00e3o teremos um di\u00e1logo mais pr\u00f3ximo com a Am\u00e9rica Latina e com o continente africano. Muito em breve divulgaremos a segunda etapa da programa\u00e7\u00e3o. Essas atividades ser\u00e3o divulgadas no m\u00eas de setembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de diretor executivo e idealizador do Di\u00e1spora Conecta, voc\u00ea tem uma experiente carreira como produtor, com trabalhos n\u00e3o somente na Bahia, como em outros estados. Voc\u00ea poderia trazer um pouco desse olhar dentro do mercado de produ\u00e7\u00e3o para profissionais negros e negras?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma pergunta muito pertinente porque ela acaba norteando muito do que a gente acredita dentro da plataforma. Voc\u00ea citou sobre essa ponte S\u00e3o Paulo e Bahia, e eu lembrei que fui fazer uma disciplina na USP, no ano passado. Conversando com uma colega, ela me pediu para escrever um texto sobre como \u00e9 ser um produtor negro no Brasil. E at\u00e9 hoje eu reflito sobre isso. E estou devendo esse texto para ela publicar. Acho que, antes de qualquer outra coisa, voc\u00ea vai ser tudo menos um produtor de cinema dentro desses moldes. Porque tem uma quest\u00e3o que eu acho importante falar que \u00e9 como um produtor \u00e9 lido no Brasil. Eu j\u00e1 vi coisas do tipo: &#8220;Diretor cria, produtor apaga fogo ou resolve problema.&#8221; Eu acho isso um discurso t\u00e3o complexo, t\u00e3o perigoso, t\u00e3o mesquinho. Depois de um tempo, eu fui entender que eu tenho um modelo de trabalho que n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com alguns modelos de trabalho que est\u00e3o dispon\u00edveis. Nesse sentido, eu tive que criar espa\u00e7os ou estruturas para que a gente pudesse trabalhar dentro de uma proposta que a gente acreditava. Onde a gente entende o papel de cada departamento. Da dire\u00e7\u00e3o, da produ\u00e7\u00e3o, da fotografia. Sabemos a obriga\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m entendemos que esses espa\u00e7os s\u00e3o complementares. N\u00e3o existe filme sem produtor; n\u00e3o existe filme sem roteirista, sem diretor, sem arte. Ent\u00e3o, eu percebi que faltava um pouco de respeito ali nessa rela\u00e7\u00e3o, e foi algo que come\u00e7ou a me incomodar bastante. Isso acaba norteando muito o nosso trabalho quando a gente pensa que, antes de qualquer outra coisa, quem est\u00e1 conosco tem de ser muito generoso nesse sentido. Tem que ter muito respeito. A comunica\u00e7\u00e3o tem que ser muito direta, muito aberta, de modo que a gente consiga se entender desde o in\u00edcio. N\u00f3s, da equipe da Di\u00e1spora Conecta, falamos muito claramente. N\u00e3o prometemos nada que n\u00e3o consigamos entregar. A gente se esfor\u00e7a muito. Isso acaba direcionando muito o trabalho dentro da Di\u00e1spora Conecta devido \u00e0 s\u00e9rie de coisas que s\u00e3o feitas. Voc\u00ea pega um produtor ou uma produtora que s\u00e3o negros, que est\u00e3o fora do eixo financeiro do Brasil. Colocam camadas sobre camadas, e essas carreiras acabam sendo podadas ou sufocadas por n\u00e3o encontrar espa\u00e7os para se produzir. A\u00ed voc\u00ea vai ter situa\u00e7\u00f5es onde o cara para quem voc\u00ea apresenta o projeto fala assim: &#8220;mas o que essa mulher tem de especial? Voc\u00ea vai fazer um filme sobre ela? Uma mulher comum&#8221; e isso e aquilo. E na verdade, o que est\u00e1 por tr\u00e1s, \u00e9 uma personagem que \u00e9 negra, \u00e9 uma hist\u00f3ria que se passa em uma comunidade. As hist\u00f3rias que nos rodeiam t\u00eam mais dificuldades de serem recebidas. Isso do ponto de vista da recep\u00e7\u00e3o em alguns espa\u00e7os. E por ter passado por situa\u00e7\u00f5es como essa, mas n\u00e3o somente isso, eu entendi que era muito importante criar uma espa\u00e7o onde pud\u00e9ssemos trabalhar nossas narrativas, os nossos m\u00e9todos de trabalhos, com pessoas que teriam a disponibilidade, o olhar e a generosidade de ouvir e apontar caminhos poss\u00edveis.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Di\u00e1spora Conecta\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ha9Fc51nh7U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a parceria com o MiradasDoc, como se concretizou? Como foi poder participar da edi\u00e7\u00e3o deste ano, antes da pandemia?<\/strong><br \/>\nNo come\u00e7o de 2020, eu fui para o o MiradasDoc, em Tenerife, Espanha, para participar do <a href=\"https:\/\/miradasdoc.com\/mdoc2020\/foro-coproduccion-africa-america-latina\/?lang=en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">F\u00f3rum de Coprodu\u00e7\u00e3o AFROLATAM<\/a>, que \u00e9 um f\u00f3rum de document\u00e1rios entre Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica. A proposta foi justamente conhecer um pouco desses espa\u00e7os, fazer contatos com outras pessoas e entender como os projetos da Di\u00e1spora Conecta, e tudo aquilo que a gente est\u00e1 pensando, conseguem dialogar em um circuito que a gente acredita. L\u00e1, conhecemos o representante do Festival de Durban, do <a href=\"https:\/\/alternativa.cccb.org\/2020\/ca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Alternativo de Barcelona<\/a>, por exemplo. Temos pensado muito nesse lugar. E n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil produzir dentro do modelo que a gente tem. E \u00e9 muito mais complexo quando se \u00e9 negro, quando se \u00e9 mulher, quando n\u00e3o se est\u00e1 dentro de um determinado eixo. Porque tem uma quest\u00e3o, o fator geopol\u00edtico, que \u00e9 uma coisa que acabamos n\u00e3o discutindo muito. Eu sou do interior da Bahia, de Feira de Santana. Ent\u00e3o, o que temos: se tudo acontece na capital, os centros de discuss\u00f5es est\u00e3o em Salvador, as secretarias est\u00e3o em Salvador, a informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 neste lugar, logo \u00e9 muito mais f\u00e1cil voc\u00ea se organizar perto da informa\u00e7\u00e3o, perto do recurso, do que estando distante dela. Esse \u00e9 um ponto que a gente discute pouco: geopol\u00edtica. De como estar perto da informa\u00e7\u00e3o faz total diferen\u00e7a para voc\u00ea ter a possibilidade de acessar ou n\u00e3o o recurso, de voc\u00ea poder ou n\u00e3o mover a sua m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m foi isso que me fez transitar por diversos espa\u00e7os, sair de Feira de Santana, vir para Salvador, depois ir para a Argentina, ir para a Espanha esse ano. Ano passado, passei esse per\u00edodo em S\u00e3o Paulo. Esse pequeno circuito foi importante para come\u00e7ar a entender como o mundo opera. De como estar pr\u00f3ximo da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante. De como criar repert\u00f3rio \u00e9 importante. E a\u00ed voc\u00ea me pergunta: &#8220;\u00e9 f\u00e1cil fazer isso?&#8221; Muito pelo contr\u00e1rio! Quando voc\u00ea vem de um local fora do centro, e voc\u00ea cruza ra\u00e7a, classe, sexualidade e todos esses marcadores, voc\u00ea vai pensar que muitas vezes voc\u00ea vai ter que pegar a sua pr\u00f3pria grana, a sua rescis\u00e3o de trabalho, aquele dinheiro economizado, e vai usar nisso, vai investir em voc\u00ea. Vai torcer para isso retornar um dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou essas experi\u00eancias pessoais relacionadas a precisar mudar de campo de atua\u00e7\u00e3o, de usar dinheiro de rescis\u00f5es para investir nesse novo horizonte . Como se deu essa sua entrada no campo da produ\u00e7\u00e3o de cinema?<\/strong><br \/>\nAntes de trabalhar como produtor, eu trabalhei em outras \u00e1reas, outra empresas. Minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em Administra\u00e7\u00e3o de Empresas. Eu venho deste lugar. De trabalhar na Agroind\u00fastria, na \u00c1rea de Servi\u00e7os. Todas as vezes em que precisei sair para fazer o que quer que seja, para poder estudar espanhol, para fazer interc\u00e2mbio, para poder ir para um outro pa\u00eds, foi com o dinheiro de rescis\u00e3o de trabalho. Peguei minha grana e fui de mochil\u00e3o. Eu pensava: &#8220;como \u00e9 que vou fazer mochil\u00e3o? Eu preciso ser estrat\u00e9gico. Eu n\u00e3o herdei. Eu acabei de sair de um trabalho. O que eu vou fazer? Farei um interc\u00e2mbio, vou aprender espanhol, vou ficar fluente nesse idioma, porque isso vai me dar oportunidade de acessar outros espa\u00e7os&#8221;. Tudo aconteceu muito nessa chave. De tirar a grana do bolso para apostar naquilo que se quer. Hoje, n\u00e3o. Hoje, depois desses anos, para mim, as coisas t\u00eam que fazer sentido. J\u00e1 faz uns tr\u00eas anos que eu decidi deliberadamente diminuir o volume de coisas, me recolher um pouco, analisar todas as informa\u00e7\u00f5es que eu tinha para entender e decidir para onde eu queria caminhar. Porque chegou o momento em que eu percebi que eu estava fazendo muita coisa, participando de muitas atividades, mas que, no final, isso estava me tirando muito o foco. Ent\u00e3o, voltar algumas casas, repensar, realinhar. Eu decidi voltar para a academia, fazer um mestrado, focar na minha empresa, nos meus projetos. Foi a\u00ed, neste ponto, a partir de muita reflex\u00e3o que eu decidi me recolher um pouco, repensar a minha empresa, cada passo, escrever as nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, os nossos projetos. E foi quando eles (os projetos) come\u00e7aram a caminhar. Foi uma s\u00e9rie de decis\u00f5es estrat\u00e9gicas que eu tive que tomar para fazer com que as coisas acontecessem. E uma dessas decis\u00f5es foi colocar a Di\u00e1spora Conecta de p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s a gradua\u00e7\u00e3o em Administra\u00e7\u00e3o que voc\u00ea decidiu seguir por outro caminho, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu entrei na gradua\u00e7\u00e3o em 2004 e sai em 2009. Comecei no cinema em 2012\/2013. Sou formado em administra\u00e7\u00e3o, mas tenho v\u00e1rios amigos do curso de economia. Ent\u00e3o, com esses amigos e amigas da economia muitas vezes a gente sa\u00eda de Feira de Santana para Cachoeira, para participar de toda programa\u00e7\u00e3o cultural da cidade. E em uma dessas vezes, fomos para o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/docachoeiradoc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cachoeira Doc<\/a>. Eu fui para o primeiro Cachoeira Doc. S\u00f3 n\u00e3o devo ter ido em um ou dois. De certa forma, o Cachoeira Doc me aproxima do cinema. Eu acho que nunca falei isso para Ana Rosa (Marques) e para Amaranta (Cesar, organizadoras do festival). Mas o Cachoeira Doc tem esse lugar. A cidade de Cachoeira tem esse lugar dentro da minha forma\u00e7\u00e3o. Feira de Santana, Tanquinho, Concei\u00e7\u00e3o da Feira, que s\u00e3o cidades onde a minha fam\u00edlia est\u00e1 ligada, porque minha m\u00e3e vem de Tanquinho, meu pai vem de Concei\u00e7\u00e3o da Feira, que \u00e9 perto de Cachoeira. Esse repert\u00f3rio \u00e9 formado desde ali. Me lembro tamb\u00e9m do projeto \u201cQuartas Baianas\u201d, que exibia filmes produzidos por realizadores\/as da Bahia. Foi em uma desses encontros que conheci o trabalho da Paula (Gomes), da Plano 3 Filmes meninos (Haroldo, Marco e Ernesto). Eu lembro desse dia at\u00e9 hoje, dos filmes \u201cMenino\u201d e \u201cPornographico\u201d. Era 2011. Tenho essa mem\u00f3ria que carrego comigo. Mas, como disse, eu formo em 2009. Antes de me formar, j\u00e1 trabalhava na \u00e1rea, em uma grande empresa agr\u00edcola aqui na Bahia. Trabalhei em unidades de beneficiamento em fazendas; trabalhei com revenda de piscina, com livraria&#8230; Ai, Oxal\u00e1, foi coisa que eu fiz nessa vida (risos). Enfim, at\u00e9 que decidi que eu n\u00e3o queria continuar na \u00e1rea porque sempre gostei da arte como um todo. Meu sonho era ser arquiteto, mas n\u00e3o tive condi\u00e7\u00f5es.na \u00e9poca Na Administra\u00e7\u00e3o de Empresas, j\u00e1 tinha o est\u00edmulo de uma tia, que havia estudado isso. Outra tia que j\u00e1 havia trabalhado no setor administrativo de um supermercado durante muito tempo. A veia empreendedora da minha fam\u00edlia paterna e materna me jogava para esse lugar. At\u00e9 que decidi que eu n\u00e3o queria mais fazer isso. Cachoeira me apresentou isso. Conheci o Leandro. E comecei o trabalho com cinema nesse lugar. Assistente de Produ\u00e7\u00e3o, diretor de Produ\u00e7\u00e3o, produtor executivo, e, agora, produtor no sentido de pensar a obra de maneira mais ampla. Pensar a equipe que vai trabalhar comigo. De poder pensar quest\u00f5es relacionadas ao roteiro, aos personagens, arco narrativo, estrutura, sentar e escrever sinopse, sentar e escrever logline, defender projeto. Enfim, eu acho que \u00e9 uma trajet\u00f3ria que ainda est\u00e1 acontecendo obviamente, mas que nos \u00faltimos tempos eu tenho cada vez mais me encontrado. Acho que depois de vinte, trinta projetos, voc\u00ea acaba se encontrando com mais nitidez. Eu acho que \u00e9 um pouco isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me de ter te conhecido em 2015, por ocasi\u00e3o do impactante curta \u201cSandrine\u201d, dirigido por Elen Linth e Leandro Santos Rodrigues, e roteiro tamb\u00e9m do Leandro Rodrigues, e com sua produ\u00e7\u00e3o. Na ocasi\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 vinha de uma estrada dentro do audiovisual. Poderia falar um pouco dessa trajet\u00f3ria j\u00e1 no campo da produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nO primeiro curta que eu produzi como diretor de Produ\u00e7\u00e3o foi no Rio de Janeiro para uma organiza\u00e7\u00e3o social chamada <a href=\"https:\/\/www.redesdamare.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Redes da Mar\u00e9<\/a>. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o muito conhecida n\u00e3o s\u00f3 no Rio, mas no Brasil. Ela faz um trabalho muito importante. Na \u00e9poca, eu sa\u00ed de S\u00e3o F\u00e9lix e fui fazer a Dire\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o desse filme no Rio. Fiquei l\u00e1 aproximadamente um m\u00eas trabalhando. Foi uma experi\u00eancia incr\u00edvel. Aprendi muito dentro do Complexo da Mar\u00e9, Alem\u00e3o, Zona Portu\u00e1ria, Icara\u00ed, Iraj\u00e1, Niter\u00f3i e Rio&#8230; Foi uma experi\u00eancia muito intensa. \u201cSandrine\u201d chega em 2015. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de 2014. Ele e \u201cMuros\u201d foram produzidos em 2014, e em 2015 a gente exibiu no Panorama. Naquele ano, a gente apresentou dois filmes: \u201cSandrine\u201d, uma fic\u00e7\u00e3o que narra a hist\u00f3ria de uma mulher trans que \u00e9 professora do ensino p\u00fablico e que tem um conflito com a m\u00e3e. E a gente tinha um outro document\u00e1rio ensa\u00edstico do Leandro Santos Rodrigues, que era um doc performance muito no campo para pensar a transsexualidade. Ent\u00e3o, \u201cSandrine\u201d chega um pouco depois. Foi uma leva de filmes, como \u201cM\u00e3e d&#8217;\u00c1gua\u201d, \u201cSandrine\u201d, \u201cMuros\u201d e \u201cEu, Travesti\u201d. Tamb\u00e9m vieram \u201cBoi na Linha\u201d, do Arthur Dias. Tamb\u00e9m outros dois filmes do Marcelo Matos Oliveira e do Wallace Nogueira. Algumas s\u00e9ries, e por a\u00ed vai. Fora todos os outros trabalhos de produ\u00e7\u00e3o local que a gente acaba fazendo tamb\u00e9m. E para produ\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais. Nesse processo de voc\u00ea se inserir nesses espa\u00e7os, eu acho que hoje, em 2020, depois de tanta discuss\u00e3o, de tanta batalha, de pautar tanta coisa, de trabalhos, de institui\u00e7\u00f5es importantes, eu acho que o mercado come\u00e7a a olhar para a produ\u00e7\u00e3o feita por realizadores negros com outra perspectiva. H\u00e1 20 anos, n\u00e3o era t\u00e3o simples. H\u00e1 at\u00e9 cinco anos, era uma quest\u00e3o muito complexa. Isso \u00e9 para dizer que esse avan\u00e7o do tempo vem trazendo tamb\u00e9m outros olhares sobre essas nossas produ\u00e7\u00f5es. Mais especificamente sobre as produ\u00e7\u00f5es negras, ainda que a gente entenda que, olhando para os dados da pr\u00f3pria Ancine, quem acaba dirigindo a maior parte dos filmes, quem acaba acessando a maior parte dos recursos, ainda \u00e9 um perfil muito&#8230; (pausa) muito desenhado. S\u00e3o homens, s\u00e3o dos grandes centros, s\u00e3o homens brancos. A\u00ed quando voc\u00ea vai olhar para as mulheres, as mulheres negras, elas ainda est\u00e3o em um outro patamar de acesso de recurso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sandrine - Teaser\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/277105560?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Plataforma Di\u00e1spora Conecta simboliza esse esfor\u00e7o diante de uma batalha constante pelo reconhecimento e por oportunidades iguais.<\/strong><br \/>\nA gente recebeu aqui na Plataforma a mensagem de uma mo\u00e7a de um estado do Brasil na qual ela falava que o grande sonho dela era ser produtora. Que ela trabalhava em uma produtora importante, mas em outro departamento, que n\u00e3o era de produ\u00e7\u00e3o. E que, por mais que ela expressasse o seu desejo, ningu\u00e9m percebia isso. O grande desejo dela era saber se a gente iria oferecer algum curso de produ\u00e7\u00e3o, porque o sonho da sua vida \u00e9 ser produtora. E como essa mensagem, recebemos outras tantas. Isso para dizer que existe uma pot\u00eancia cinematogr\u00e1fica muito grande, n\u00e3o s\u00f3 na Bahia, mas no Brasil como um todo, que muita vezes \u00e9 sufocada pelo fator da infraestrutura, do recurso, da materialidade, do racismo. Eu lembro que uma vez eu conversava com uma colega, e ela disse: \u201co prec\u00e1rio nunca pode ser uma senten\u00e7a.\u201d \u00c9 aquela coisa de: &#8220;voc\u00ea s\u00f3 vai produzir nessas condi\u00e7\u00f5es&#8221;. Eu acho que \u00e9 importante que a gente tenha a possibilidade de escolher produzir com tanto ou com tanto, com tais condi\u00e7\u00f5es ou com essa condi\u00e7\u00e3o, mas que nunca sejamos sentenciados a n\u00e3o produzir ou a produzir e criar na precariedade, com pouco recurso. O que fazemos \u00e9 trabalho. Gera emprego e renda. E a\u00ed eu te falo porque colocar a Plataforma de p\u00e9 e captar recurso \u00e9 um trabalho \u00e1rduo. Que muitas vezes, por voc\u00ea estar fora (mais uma vez, n\u00e9?) de alguns centros de discuss\u00f5es, e tamb\u00e9m por todos esses marcadores que eu te falei, o di\u00e1logo acontece em uma perspectiva muito verticalizada. O cara, ou a mulher, eles n\u00e3o v\u00e3o te olhar nos olhos. Eles v\u00e3o te olhar de cima para baixo. E a\u00ed esse exerc\u00edcio de voc\u00ea tentar equalizar esse olhar, esse di\u00e1logo, \u00e9 um exerc\u00edcio muito grande porque voc\u00ea tem que apresentar o seu projeto, falar o que voc\u00ea acredita, mostrar os n\u00fameros, e falar assim: &#8220;olha, eu tenho capacidade de realiza\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea colocar tanto, eu vou te entregar tanto.&#8221; E a\u00ed muitas vezes voc\u00ea n\u00e3o percebe essa barreira, essa dificuldade, com pessoas de outras caracter\u00edsticas, sabe? \u00c9 um trabalho herc\u00faleo colocar um projeto desse de p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou Feira de Santana como seu local de origem, bem como a necessidade de estar pr\u00f3ximo a centros de discuss\u00f5es para ter acesso a muitas pontes dentro do aspecto profissional da produ\u00e7\u00e3o cultural. Uma discuss\u00e3o importante aqui na Bahia nos \u00faltimos anos trata do aporte e incentivo financeiros para os diversos aspectos Culturais que todo o estado, e n\u00e3o apenas Salvador, pode oferecer como potencial gerador. H\u00e1 diversas discuss\u00f5es relacionadas a isso, oriundas de associa\u00e7\u00f5es e de pessoas que questionam v\u00e1rios aspectos dessa distribui\u00e7\u00e3o. Qual sua opini\u00e3o sobre essa necessidade de inclus\u00e3o da cultura fora do que apenas acontece na capital e centros metropolitanos?<\/strong><br \/>\nEu acho que a gente tem alguns caminhos. Nesse processo de reorganizar uma s\u00e9rie de coisas internas, eu me afastei de algumas atividades. Sabe quando voc\u00ea pega um pouco de dist\u00e2ncia para olhar tudo com mais nitidez? Esse processo eu fiz como uma atividade interna. Eu fiz uma imers\u00e3o para entender o que estava acontecendo para, a partir da\u00ed, saber como desenvolver em um cen\u00e1rio que tinha muita informa\u00e7\u00e3o. E informa\u00e7\u00e3o em excesso, al\u00e9m de causar ansiedade, ela tamb\u00e9m pode te distrair. Ent\u00e3o, para mim, foi muito importante essa an\u00e1lise. Mas eu percebi uma coisa quando eu discutia em alguns espa\u00e7os ainda. Para explicar, eu vou ter que voltar \u00e0quela quest\u00e3o geopol\u00edtica. A Bahia tem 417 munic\u00edpios. Se voc\u00ea analisa, por exemplo, como era pensado e distribu\u00eddo recursos para a Cultura na Bahia, e isso considerando Carnaval, S\u00e3o Jo\u00e3o, essas grandes festas, mais o que acontece para al\u00e9m disso ao longo do ano, existia uma concentra\u00e7\u00e3o muito grande de recursos em Salvador e regi\u00e3o metropolitana. Quando a gente em pensava em Cinema e em Audiovisual, os recursos acabavam concentrados aqui em Salvador e regi\u00e3o metropolitana, porque se l\u00ea ou tem-se a ideia de que, aqui, est\u00e3o todas as produtoras, todas as pessoas que s\u00e3o capazes de produzir, que tem capacidade de entrega, e por a\u00ed vai. Quando, na verdade, no interior do estado, nesses outros munic\u00edpios, tem muita gente produtiva, que cria, que faz, que tira do pr\u00f3prio bolso. Eu ou\u00e7o muito de amigos, inclusive pessoas pr\u00f3ximas, que quando v\u00e3o falar de Feira de Santana, v\u00e3o dizer que a cidade n\u00e3o tem nada, ou que \u00e9 uma cidade sem cultura, ou que \u00e9 uma cidade feia, bruta, que s\u00f3 tem empresas, e por a\u00ed vai. E a\u00ed voc\u00ea faz o exerc\u00edcio de dizer que, talvez, eles conhe\u00e7am uma Feira de Santana diferente da minha. Porque, \u00e0s vezes, o modelo ou par\u00e2metro que se tem de algo n\u00e3o necessariamente se aplica a outras experi\u00eancias. Se voc\u00ea vai a Feira de Santana e ao Mercado de Arte Popular, onde, h\u00e1 mais de 20 anos, Mestre Cl\u00e1udio <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/angoleirosdosertaobahia\/posts\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">faz uma roda de capoeira todos os s\u00e1bados<\/a>&#8230; Qui\u00e7\u00e1 seja a roda de capoeira mais antiga da Bahia em atividade \u2013 n\u00e3o posso afirmar. L\u00e1 em Feira de Santana, voc\u00ea tem o <a href=\"https:\/\/feirenses.com\/bando-anunciador-feira-de-santana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bando Anunciador<\/a> (N.E. Tradicional celebra\u00e7\u00e3o que acontece h\u00e1 mais de 100 anos na cidade e que anuncia a festa do Dia de Nossa Senhora Santana); voc\u00ea tem as festas nos distritos, voc\u00ea tem a <a href=\"https:\/\/atarde.uol.com.br\/bahia\/noticias\/1449206-caminhada-do-folclore-celebra-cultura-popular-em-feira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Caminhada do Folclore<\/a>. \u00c9 em Feira que \u00e9 realizado o principal festival de m\u00fasica alternativa do estado, o Feira Noise. Voc\u00ea tem a pr\u00f3pria micareta, que come\u00e7a l\u00e1 e se espalha pelo Brasil, voc\u00ea tem os blocos do samba de roda que existem em Feira de Santana. S\u00e3o tantas coisas que temos l\u00e1, que eu acho uma temeridade dizer isso. Mas eu estou te dizendo porque tem um discurso que, \u00e0s vezes, me preocupa. \u00c9 quando vai se falar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura, concentra\u00e7\u00e3o de renda, etc, que \u00e9 entender de que ponto a gente est\u00e1 partindo. Porque se pensar que a Bahia tem mais de 400 munic\u00edpios, e que mais da metade dos recursos ficam em Salvador, voc\u00ea tem um problema grande a\u00ed. \u00c9 uma quest\u00e3o que a gente precisa rever com mais cuidado. Por isso que eu falo que a quest\u00e3o geopol\u00edtica \u00e9 muito importante, porque, no frigir dos ovos, \u00e9 a soma de tudo isso que forma a nossa identidade. A Bahia n\u00e3o \u00e9 uma. A Bahia n\u00e3o \u00e9 Salvador. A Bahia \u00e9 formada por 416 munic\u00edpios e mais Salvador. Mas quando a gente fala da Bahia, falamos sempre dessa perspectiva. E, \u00e0s vezes, o que eu ou\u00e7o \u00e9 que os produtores do interior, principalmente, cobram isso. Cobram essa escuta do interior, cobram por a\u00e7\u00f5es no interior do estado. Eu lembro que o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nordestelab\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">NordesteLab<\/a>, uma vez, me chamou para fazer uma atividade em parceria com o Sebrae. Eu fui para Ilh\u00e9us para fazer uma atividade e um dos rapazes falou assim: &#8220;Eu mandei um projeto, mas n\u00e3o vou nem recorrer, pois sei que na verdade s\u00f3 quem vai ganhar \u00e9 o pessoal de Salvador.&#8221; \u00c9 preciso entender como essas quest\u00f5es refletem diretamente nas pol\u00edticas p\u00fablicas. E eu estou te falando tudo isso porque, \u00e0s vezes, \u00e9 preciso tomar cuidado sobre como essas mensagens ventilam entre n\u00f3s para que a gente n\u00e3o repita as mesmas coisas que condenamos de outros espa\u00e7os. Por exemplo, quando eu digo que o recurso financeiro fica em RJ e SP, que o centro de discuss\u00e3o brasileiro fica em RJ e SP, ent\u00e3o, eu n\u00e3o posso chegar na Bahia e aplicar o mesmo roteiro. E achar, por exemplo, que os outros munic\u00edpios n\u00e3o merecem ter uma reserva de mercado, uma cota do recurso, uma pol\u00edtica p\u00fablica descentralizada. Eu soube de algumas a\u00e7\u00f5es e audi\u00eancias p\u00fablicas que aconteceram. Inclusive participei de uma delas. Isso porque eu leio que no interior do estado n\u00e3o tem gente capacitada para fazer isso. E eu j\u00e1 ouvi pessoas falarem isso. Eu acho esse discurso muito perigoso, porque voc\u00ea repete a mesma coisa que se fala em outros lugares, sobre a reserva de 30% que a Ancine estabelece para a regi\u00e3o do CONNE &#8211; Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Temos que pensar isso como um processo muito mais complexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre o cen\u00e1rio de produ\u00e7\u00e3o baiana, seja de longas ou de curtas metragens, eu vejo nomes importantes de uma gera\u00e7\u00e3o nova de cineastas, como Ta\u00eds Amordivino e Vinicius Elizi\u00e1rio para citar dois apenas. No campo da produ\u00e7\u00e3o, voc\u00ea na Di\u00e1spora Conecta e na Produtora Port\u00e1til, o Marcos Alexandre, da Gran Ma\u00eetre Filmes, a Daiane Ros\u00e1rio, na Mostra Mohamed Bamba, s\u00e3o alguns que me vem \u00e0 mente como representantes. Esquecendo por um momento esse cen\u00e1rio devastador, sendo um pouco otimista, queria lhe perguntar acerca de nomes que voc\u00ea admira dentro dessa leva de cineastas.<\/strong><br \/>\nEu sou sempre otimista. \u00c9 um dos exerc\u00edcios que a gente faz dentro da Di\u00e1spora Conecta. Estamos em um processo de elaborar uma publica\u00e7\u00e3o que a gente est\u00e1 chamando de dossi\u00ea, mas que n\u00e3o \u00e9 dossi\u00ea (risos), enfim, mas vai ser hospedada dentro do site onde a gente aborda muito sobre isso. <a href=\"https:\/\/www.diasporaconecta.com.br\/conferencias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tem at\u00e9 um texto<\/a> l\u00e1 no qual perguntamos: &#8220;Que tipo de futuro \u00e9 poss\u00edvel quando o presente se despeda\u00e7a mais uma vez?&#8221; Como criar imagens de futuro, como criar outras experi\u00eancias onde a dor, a ren\u00fancia, n\u00e3o sejam uma condi\u00e7\u00e3o, ou uma realidade prim\u00e1ria para corpos negros e para narrativas negras? Ent\u00e3o, esse \u00e9 um exerc\u00edcio que a gente est\u00e1 fazendo agora. Eu convidei dois artistas queridos em suas \u00e1reas para me ajudar a pensar sobre isso. Estamos elaborando alguma coisa que queremos apresentar em meados de novembro justamente para pensarmos sobre que mundo queremos. Que real \u00e9 esse que a gente deseja onde viver e existir sejam possibilidades livres de tanta dor? Sobre cineastas e projetos recentes, eu gosto muito de &#8220;Motriz&#8221; (N.E. Filme de Ta\u00eds Amordivino). Foi um filme que me emocionou muito quando assisti. Eu o acho muito bonito. Outro filme que n\u00e3o \u00e9 baiano, mas eu vou citar, \u00e9 o &#8220;Chico&#8221;, dos Irm\u00e3os Carvalho. Foi um filme que mexeu muito comigo quando vi. Eu estava no Festival de Bras\u00edlia naquele ano. Foi o ano de &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;, de &#8220;Vazante&#8221;. Foi uma discuss\u00e3o muito bonita. Mas tamb\u00e9m tem pessoas que eu acompanho muito, assim, com um olhar de produtor, com um olhar de espectador. Um deles \u00e9 o Juan Rodrigues, de Alagoinhas. Ele \u00e9 egresso da UFRB e fez a Trilogia com &#8220;O Arco do Medo&#8221;, &#8220;Arco do Tempo&#8221; e &#8220;O Arco da Liberdade&#8221; (N.E. A trilogia dirigida por Juan Rodrigues foi batizada de &#8220;Trilogia da Bicha Preta&#8221;). Tem um rapaz que eu acompanho e que gosto muito do que ele faz \u00e9 o Marvin Pereira, l\u00e1 de Cachoeira. Eu o acho muito criativo. \u00c9 um cara que faz muita coisa, que realiza muita coisa. E que n\u00e3o tem medo: utiliza cromakey, produz videoclipe, produz document\u00e1rio, produz uma s\u00e9rie de coisas. Eu gosto muito do trabalho do Ulisses. A Juh Almeida, uma querida amiga, tem um trabalho muito bacana. Est\u00e1 em S\u00e3o Paulo agora, contratada por uma grande empresa de conte\u00fado chamada <a href=\"http:\/\/www.prodigo.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pr\u00f3digo Filmes<\/a>. Juh tem um trabalho incr\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 na fotografia est\u00e1tica, mas tamb\u00e9m na dire\u00e7\u00e3o de fotografia e na dire\u00e7\u00e3o de cinema. Ent\u00e3o, assim, eu sou muito otimista, de fato. Eu acho que tem muita gente produzindo. No mestrado, eu estudo narrativas em primeira pessoa. Esse \u00e9 um conflito que eu estou tendo agora. Principalmente, por trabalhar com pessoas que n\u00e3o t\u00eam uma recep\u00e7\u00e3o respeitosa de suas vozes. Estou fazendo um mestrado porque quando eu fui fazer \u201cKakawa\u201d, um filme que eu estou fazendo, eu ouvia muito assim: &#8220;mas, essa mulher, o que ela tem para te dizer? Ela n\u00e3o tem uma hist\u00f3ria interessante. Mais interessante que a hist\u00f3ria dela \u00e9 a da prima dela, que foi secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado da Bahia, ou do bisav\u00f4 dela que veio para c\u00e1 na d\u00e9cada de 1850, e foi escravizado&#8230;&#8221; S\u00f3 que a minha personagem \u00e9 uma personagem incr\u00edvel, assim: tem um vozeir\u00e3o. \u00c9 muito direta, muito objetiva. Com uma hist\u00f3ria de vida incr\u00edvel. Meu exerc\u00edcio, no mestrado, n\u00e3o \u00e9 provar para mim, se \u00e9 que eu precise provar algo, mas para os outros de que o que ela narra \u00e9 t\u00e3o potente, t\u00e3o potente, que merece virar um livro. E o exerc\u00edcio que eu estou fazendo no mestrado agora \u00e9 escrever sobre a vida dessa mulher. Ent\u00e3o, essas narrativas me interessam muito. Como criador, como produtor, nesse lugar que cada vez eu me identifico mais, que \u00e9 pensar a obra como um todo, que \u00e9 pensar a narrativa, que \u00e9 discutir roteiro, que \u00e9 discutir dire\u00e7\u00e3o de arte&#8230; Falando assim: &#8220;olha, para esse filme espec\u00edfico, talvez o melhor diretor seja esse. Para esse projeto espec\u00edfico, talvez o melhor roteirista seja esse&#8221;. Sabe? Ent\u00e3o, eu sou muito otimista. Eu acho que a Bahia sempre deu r\u00e9gua e compasso. Vai continuar dando. E essa n\u00e3o \u00e9 uma fala essencialista, purista. N\u00e3o \u00e9! Mas \u00e9 porque, de fato, a gente tem um p\u00f3lo criativo muito grande. E o que nos falta, na maioria das vezes, \u00e9 infraestrutura para que a gente aconte\u00e7a. Para que a gente n\u00e3o precise sair da Bahia, como sempre acontece, para come\u00e7ar uma carreira fora e voltar para a Bahia em outro patamar porque, aqui, n\u00e3o temos, \u00e0s vezes, infraestrutura. N\u00e3o estou sendo pessimista, e tamb\u00e9m n\u00e3o quero dizer que a gente n\u00e3o tem coisas bacanas. Muito pelo contr\u00e1rio! Mas eu acho que a gente precisa de um olhar um pouco mais estrat\u00e9gico para a pot\u00eancia da nossa Cultura e do nosso Cinema no estado, de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa migra\u00e7\u00e3o entre a continuidade da vida acad\u00eamica e o mestrado, juntamente a tocar para frente os v\u00e1rios projetos, tem funcionado bem?<\/strong><br \/>\nUma coisa que eu tenho tentado fazer, e por isso voltei para a academia, \u00e9 entender como essa investiga\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria universidade pode, de alguma forma, estar muito pr\u00f3xima do que a gente produz, como produtor, como criador, como artista, e como empreendedor de uma produtora de audiovisual. Cada vez mais, eu tenho percebido que isso \u00e9 poss\u00edvel. De como \u00e9 poss\u00edvel transladar essa experi\u00eancia do audiovisual para academia, da academia para o audiovisual, sem engessar nenhum dos processos. E uma coisa que a gente tem apostado muito dentro da produtora, na <a href=\"https:\/\/vimeo.com\/portatil\/about\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Port\u00e1til<\/a>, s\u00e3o essas colabora\u00e7\u00f5es em menor propor\u00e7\u00e3o. H\u00e1 vezes que funcionam melhor em grupos menores do que em grupos muito grandes, muito volumosos. Nossos processos e nossas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o menores. Nosso raio de atua\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 mais enxuto, mas com mais f\u00f4lego. Eu acho que foi uma coisa que a gente teve que aprender nesses \u00faltimos tr\u00eas anos. E \u00e9 uma coisa que a gente tem tentado levar para a plataforma, que, nesse modelo digital, tamb\u00e9m possibilitou isso. Ter uma programa\u00e7\u00e3o mais enxuta, mas com mais f\u00f4lego, e com a entrega um pouco mais densa, de modo que quem est\u00e1 participando das atividades tenha possibilidade de dizer: &#8220;eu sa\u00ed daqui e realmente consegui prender isso aqui na minha mem\u00f3ria.&#8221; \u00c0s vezes a gente vai participar de uma s\u00e9rie de atividades, e no final, pensa: &#8220;o que est\u00e1 faltando? N\u00e3o entendi&#8221;. Ent\u00e3o, \u00e9 fazer menos coisas, mas tentar possibilitar uma entrega mais densa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Futuros projetos?<\/strong><br \/>\nEstamos fazendo uma co-produ\u00e7\u00e3o agora entre Brasil \u2013 Mo\u00e7ambique &#8211; Espanha. \u00c9 um filme que se passa entre tr\u00eas pa\u00edses, Mo\u00e7ambique, Brasil e Portugal. O filme \u00e9 uma co-dire\u00e7\u00e3o entre <a href=\"https:\/\/mubi.com\/cast\/everlane-moraes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Everlane Moraes<\/a>, brasileira, e <a href=\"https:\/\/www.berlinale-talents.de\/bt\/talent\/lara-sousa\/profile\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lara Sousa<\/a>, mo\u00e7ambicana. A duas s\u00e3o tamb\u00e9m personagens e ao longo de alguns meses far\u00e3o uma viagem cruzada para pensar sobre as identidades de mulheres negras, na di\u00e1spora e na \u00c1frica, a partir de um di\u00e1rio de viagem audiovisual. Este \u00e9 um longa metragem de document\u00e1rio que pretendemos produzir em breve, mas que depende de capta\u00e7\u00e3o de recurso. Bem, acho que ainda vamos falar sobre isso, pois trata-se justamente dessa experi\u00eancia de produtor, de entender que, aqui, a gente pode realizar v\u00e1rias coisas, mas que o mundo \u00e9 vasto. Que tem produtoras muito parecidas com a energia que voc\u00ea vibra. E que \u00e9 poss\u00edvel produzir cinema com m\u00faltiplos bra\u00e7os e al\u00e9m dos processos que fazemos internamente, assim. Esta \u00e9 uma coprodu\u00e7\u00e3o entre a La Selva (Espanha), Mozik (Mo\u00e7ambique), Port\u00e1til (Brasil) e Laranjeiras Filmes (Brasil). O filme vai se chamar \u201cO Navio e o Mar\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eu, Travesti? - Teaser\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/277106158?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"M&amp;atilde;e D&#039;&amp;aacute;gua - Teaser\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/277097538?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Boi na Linha | curta-metragem (2015)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jvkl_g168Lo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Leandro Santos Rodrigues, 2014, Buenos Aires (AR).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Emerson aborda diversos aspectos do Di\u00e1spora Conecta, uma plataforma de desenvolvimento de carreiras de profissionais negros do audiovisual brasileiro.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/08\/30\/entrevista-emerson-dindo-plataforma-diaspora-conecta\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57159,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5343,4249],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57157"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57157"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57157\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62573,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57157\/revisions\/62573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}