{"id":57147,"date":"2020-08-28T01:53:28","date_gmt":"2020-08-28T04:53:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=57147"},"modified":"2020-09-24T23:38:37","modified_gmt":"2020-09-25T02:38:37","slug":"entrevista-carla-villa-lobos-e-mc-jess-no-festival-de-cinema-lgbti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/08\/28\/entrevista-carla-villa-lobos-e-mc-jess-no-festival-de-cinema-lgbti\/","title":{"rendered":"Entrevista: Carla Villa-Lobos e \u201cMC Jess\u201d no Festival de Cinema LGBTI"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada em Audiovisual pela UFRJ, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/anacarlavillalobos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carla Villa-Lobos<\/a> tem sete anos de experi\u00eancia como assistente de dire\u00e7\u00e3o em s\u00e9ries de TV, longas e curtas-metragens. Dirigiu dois curtas-metragens que perpassam as tem\u00e1ticas &#8220;ser mulher e LGBT+ na sociedade&#8221;. O primeiro, &#8220;Mercadoria&#8221; (2017), foi selecionado para mais de 50 mostras e festivais brasileiros e internacionais. O segundo curta-metragem \u00e9 &#8220;MC Jess\u201d (2018), selecionado para a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Cinema LGBTI (<a href=\"https:\/\/www.votelgbt.org\/flix\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.votelgbt.org\/flix<\/a>), que come\u00e7a na sexta-feira (28) e vai at\u00e9 domingo (30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta vez, o Festival Internacional de Cinema LGBTI <a href=\"https:\/\/www.votelgbt.org\/flix\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ser\u00e1 inteiramente online e gratuito pela plataforma LGBTFLIX<\/a>, que j\u00e1 re\u00fane 250 filmes de tem\u00e1tica LGBT+. Neste ano, 14 filmes de diversos pa\u00edses comp\u00f5e a mostra passando por temas diversos, como intersexualidade, transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, cultura drag, velhice entre os LGBTs, vidas na periferia e visibilidade l\u00e9sbica. A curadoria da Mostra trouxe um leque de obras importantes do Brasil e de outros pa\u00edses. Curtas e longas metragens que abordam quest\u00f5es densas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixam de trazer leveza e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carla Villa-Lobos traz para seus dois curtas metragens uma eficiente mescla entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o que permite ao espectador adentrar em narrativas que buscam discutir importantes quest\u00f5es sociais relacionadas a mulheres em situa\u00e7\u00e3o de risco, al\u00e9m de refletir acerca de conflitos enfrentados por pessoas LGBTI perseguidas por sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. No primeiro, \u201cMercadoria\u201d (que voc\u00ea pode assistir no final do texto), o foco est\u00e1 na realidade \u00e1spera da prostitui\u00e7\u00e3o. No segundo, \u201cMC Jess\u201d, que ser\u00e1 exibido no festival, essa aspereza oriunda do real cede espa\u00e7o para um pouco de poesia, versos proferidos com a seguran\u00e7a de quem sabe o que viveu e quais s\u00e3o as cicatrizes que teimam em permanecer entreabertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No sentido de reflex\u00e3o de uma sociedade menos opressora e calcada em uma hipocrisia religiosa, familiar e moralista, um dos mais impactantes e esperan\u00e7osos trabalhos selecionados pela curadoria do \u00e9 justamente \u201cMC Jess\u2019\u2019. Para Carla Villa-Lobos, essa quest\u00e3o da fam\u00edlia &#8220;\u00e9 uma coisa muito intr\u00ednseca \u00e0 viv\u00eancia LGBT. A fase inicial da aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 um ponto muito marcante, e que vai dizer muito que individuo essa pessoa ir\u00e1 se tornar. Se ela estiver bem com a fam\u00edlia, ela vai viver a sexualidade dela de uma forma. Se a fam\u00edlia j\u00e1 n\u00e3o lida bem com isso, vai ser outra experi\u00eancia. Eu quis trazer ao filme esse lugar da fam\u00edlia tamb\u00e9m para pensarmos sobre isso. Sobre essa menina que saiu de casa porque o pai n\u00e3o conseguia lidar&#8221;, explica a diretora e roteirista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na figura de uma poetisa e performer vivida pela rapper Carol Dall Farra, que sobrevive como vendedora ambulante em trens do Rio de Janeiro, mas se realiza na leitura de suas inspiradas rimas e cad\u00eancias po\u00e9ticas, \u201cMC Jess\u2019\u2019 traz essa reflex\u00e3o citada dentro uma possibilidade de otimismo para a realidade de quem, al\u00e9m de sofrer preconceito familiar por ser l\u00e9sbica, precisa ultrapassar as barreiras sociais e econ\u00f4micas de sua exist\u00eancia como pessoa negra e vinda da periferia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Enquanto realizadora LGBT, o que eu tenho percebido muito nas mostras \u00e9 justamente a gente estar falando tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00f3 das personagens LGBTs, mas, tamb\u00e9m, das outras intersec\u00e7\u00f5es que essas pessoas t\u00eam&#8221;, explica Carla acerca da import\u00e2ncia do Festival Internacional de Cinema LGBT. Sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o de \u201cMC Jess\u201d, Carla conversou com o Scream &amp; Yell. Confira o papo abaixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer MC JESS (Brasil, 2018)\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/331237496?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 palp\u00e1vel uma naturalidade de Carol Dall Farra, rapper e poetisa, dentro do personagem da protagonista de \u201cMC Jess\u201d. \u00c0 \u00e9poca, esse era o primeiro trabalho dela como atriz. Como se deu essa aproxima\u00e7\u00e3o sua com ela e o convite para atuar, mesmo n\u00e3o sendo atriz profissional?<\/strong><br \/>\nEm 2017, que foi quando comecei a pensar sobre o filme e constru\u00ed-lo, era um ano que estava tendo um boom muito grande das apresenta\u00e7\u00f5es de Slam, que s\u00e3o essas poesias que geralmente acontecem em espa\u00e7os p\u00fablicos. Ou quando n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os p\u00fablicos, s\u00e3o locais fechados, mas os eventos s\u00e3o abertos para todos que quiserem declamar as suas poesias autorais. Nesse ano, eu estava frequentando esses eventos por um interesse mais pessoal. Eu gostava muito de acompanhar a cena cultural que estava rolando no Rio de Janeiro. Fui percebendo que a presen\u00e7a feminina, principalmente de mulheres negras, eram muito forte nesses eventos. Eram espa\u00e7os em que elas estavam se sentindo muito confort\u00e1veis em contar experi\u00eancias pr\u00f3prias. E aquilo foi me tocando muito. Fui querendo fazer alguma coisa que n\u00e3o s\u00f3 documentasse, mas que tamb\u00e9m, de alguma forma, colocasse outras experi\u00eancias que me atravessam junto nesse filme. Eu sempre quis trazer um pouco aos filmes que fa\u00e7o quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sexualidade das mulheres. E eu percebia, tamb\u00e9m, que existiam poucos filmes onde a protagonista era l\u00e9sbica. L\u00e9sbica e negra, ent\u00e3o, eu n\u00e3o via nos festivais de cinema. Fui pesquisando esses eventos, acompanhando algumas poetas, e a Carol foi uma dessas que descobri. Foi atrav\u00e9s de uma amiga que me recomendou um v\u00eddeo da Carol. Ela tinha declamado esse v\u00eddeo no &#8220;Slam das Minas&#8221;, que \u00e9 um coletivo do Rio de Janeiro, mas que tem em outros lugares do Brasil, tamb\u00e9m. Assisti ao v\u00eddeo dela, e, logo de cara, achei muito impactante e falei: &#8220;Caramba, tenho que conhecer essa menina&#8221;. Eu j\u00e1 tinha a ideia do filme na cabe\u00e7a, mas n\u00e3o tinha estruturado um roteiro, s\u00f3 que eu j\u00e1 sabia que eu queria essa protagonista jovem, negra, l\u00e9sbica, e queria que o filme se passasse no territ\u00f3rio da Favela da Mar\u00e9, que, durante a minha adolesc\u00eancia, frequentei muito porque meus amigos moravam l\u00e1, e eu morava ali perto. Ent\u00e3o, tinha essa rela\u00e7\u00e3o pessoal para mim, tamb\u00e9m, do territ\u00f3rio da periferia do Rio de Janeiro. A\u00ed fui conhecer a Carol, a gente conversou, e ela me contou v\u00e1rias coisas da vida dela que se relacionavam com um pouco do que eu queria contar no filme. Eu tamb\u00e9m queria trazer um pouco da sexualidade em rela\u00e7\u00e3o com a religi\u00e3o, porque foi uma percep\u00e7\u00e3o durante a minha juventude, de ter v\u00e1rios amigos que frequentavam grupos jovens de igreja e que foram afastados quando se entenderam enquanto dissidentes nas orienta\u00e7\u00f5es sexuais. Ent\u00e3o, muitas coisas que j\u00e1 estavam no meu imagin\u00e1rio e que eu queria trazer no filme batiam com a viv\u00eancia da Carol Dall Farra. Ent\u00e3o, a convidei. Ela nunca tinha atuado, mas como ela \u00e9 poetisa e performer, tinha um interesse art\u00edstico de experimenta\u00e7\u00e3o. Ela topou, e a gente come\u00e7ou a construir juntas. Levei um primeiro roteiro e ela adicionou coisas delas. Por exemplo, a poesia final foi ela quem ajudou na constru\u00e7\u00e3o. Outras situa\u00e7\u00f5es que eu perguntava como a gente poderia tra\u00e7ar e tal. Teve esse processo de ensaios que foi muito rico para as cenas. Mas o filme, eu o descrevo como fic\u00e7\u00e3o. Porque, ali, n\u00e3o \u00e9 a Carol. \u00c9 realmente a Jess, que tem muitas intersec\u00e7\u00f5es e muitos cruzamentos com a vida da Carol. Mas n\u00e3o \u00e9 baseado na vida dela. Mas foi uma escolha, realmente, trazer uma atriz que tivesse passado por coisas semelhantes. Que fosse poetisa, que tivesse vindo de periferia. Eu queria trazer essa confus\u00e3o de linguagem. O que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 documental, eu queria causar um pouco isso. E eu achava que a atriz poderia me ajudar com isso. A atriz tendo uma experi\u00eancia e essas viv\u00eancias, quanto, tamb\u00e9m, na linguagem da c\u00e2mera, da arte, e na escolha de colocar depoimentos que a\u00ed s\u00e3o partes documentais, mesmo. Depoimentos de meninas que tamb\u00e9m est\u00e3o na cena do Slam. E trazem na poesia quest\u00f5es pessoas, quest\u00f5es de sexualidade, quest\u00f5es de ra\u00e7a e de classe social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O desenvolvimento dessa proposta hibrida na inser\u00e7\u00e3o de depoimentos reais junto com a fic\u00e7\u00e3o na vida da protagonista se apresentou como na escrita do roteiro?<\/strong><br \/>\nQuando escrevi o roteiro, queria j\u00e1 trazer essa mistura de document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o justamente para tentar atingir uma linguagem meio hibrida. No meu filme anterior (\u201cMercadoria\u201d, de 2017) tento brincar um pouco com isso, tamb\u00e9m. Misturar umas entrevistas e uma parte ficcional. S\u00f3 que, l\u00e1, as entrevistas n\u00e3o eram documentais. Eram ficcionais. Forjando algo real. Gosto muito de fazer isso do pr\u00f3prio cinema. A pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o tem coisa de realidade ali e o pr\u00f3prio documental tem coisas de fic\u00e7\u00e3o. A parte das entrevistas, eu quis fazer como pesquisa para o roteiro, para me ajudar a chegar a uma veracidade da realidade da Jess. Eu tinha pensado em inserir aquelas entrevistas nos cr\u00e9ditos, relacionando \u00e0 viv\u00eancia da Jess, e falando que existem muitas Jess por a\u00ed. As entrevistas viriam assim no final. Mas, no processo de montagem, eu fui sentindo uma necessidade de experimentar mais do que colocar \u00e0 parte. Eu fiquei sentindo que poderia ser interessante realmente quebrar com uma linearidade que estava da hist\u00f3ria, e trazer esses momentos. At\u00e9 trazer um certo estranhamento ao p\u00fablico, deles ficarem se perguntando: &#8220;Ent\u00e3o, espera, tudo \u00e9 document\u00e1rio? Ou n\u00e3o?&#8221; Eu achei que, trazendo as entrevistas para o meio do filme, conseguiria causar esse deslocamento do que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o ainda mais, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 uma qu\u00edmica muito boa entre Carol Dal Farra e os atores com quem ela contracena no filme, principalmente os outros vendedores no trem. Como foi esse trabalho de sele\u00e7\u00e3o e oficinas?<\/strong><br \/>\nEles s\u00e3o atores da Mar\u00e9, que foi onde a gente filmou a casa da Jess, ela andando pela rua. O plano de fundo da hist\u00f3ria \u00e9 o Complexo da Mar\u00e9, que \u00e9 um complexo de favelas aqui do Rio de Janeiro. Os atores s\u00e3o de cursos de teatro que acontecem l\u00e1, onde fiz as sele\u00e7\u00f5es. Esses dois atores, o Christian Santos e o Vinicius Alves, eram de cursos diferentes da Mar\u00e9. Fizemos alguns ensaios l\u00e1 no museu da Mar\u00e9 com a Carol e o Christian. O processo foi n\u00e3o de fazer a cena que estava ali no roteiro, mas eu vinha com algumas situa\u00e7\u00f5es ilustrativas. Por exemplo, eu dizia para eles: &#8220;Voc\u00eas est\u00e3o esperando o trem chegar, e a\u00ed precisam correr porque est\u00e1 tendo batida de fiscal&#8221;. A\u00ed eles tinha que simular, fazer uma simula\u00e7\u00e3o de toda essa situa\u00e7\u00e3o. Foram algumas coisas que n\u00e3o estavam no roteiro, mas que era um processo que eu achava mais interessante. Para a fala n\u00e3o ficar muito marcada, eu queria que eles tentassem experimentar coisas que poderiam acontecer naquele ambiente de trabalho deles. Assim, eles teriam uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. Por serem todos jovens, teve uma identifica\u00e7\u00e3o forte entre eles. Essa qu\u00edmica rolou muito por isso. Claro que os ensaios ajudaram bastante, mas acho que foi muito tamb\u00e9m da disponibilidade deles com o filme. Estavam todos querendo participar e construir. Eu acho que veio disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro que a Carol, por ser poetisa, por ter essas experi\u00eancias em p\u00fablico no Slam, j\u00e1 possui uma desenvoltura. Mas houve alguma trava nas cenas gravadas dentro do trem?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o t\u00ednhamos ensaiado dentro do trem. Fomos direto para gravar. Porque, n\u00e3o sei nem se posso dizer isso (risos), mas a gente n\u00e3o tinha autoriza\u00e7\u00e3o para gravar nos vag\u00f5es. Ent\u00e3o, a gente teve que fazer no dia. Fomos gravar no trem e fizemos. Mas acho que, justamente por ter toda essa presen\u00e7a de palco, ela j\u00e1 tinha uma naturalidade. Ela ganhou um Slam, ent\u00e3o, foram v\u00e1rias etapas que ela participou se apresentando. E fazia shows, tamb\u00e9m. Ela tamb\u00e9m \u00e9 rapper. Ent\u00e3o, tem uma coisa de dominar os espa\u00e7os, sabe? Eu n\u00e3o tive muita dificuldade de dire\u00e7\u00e3o com ela ali. A minha quest\u00e3o no trem era mais com outras coisas que podiam surgir. Ter que lidar com outras pessoas que estavam l\u00e1, e n\u00e3o eram da equipe, e n\u00e3o eram do filme. Mas, com ela, correu tudo tranquilamente. Ela resolvia as coisas muito no primeiro ou no segundo take. Foi muito prazeroso para mim trabalhar com ela, porque eu sentia que n\u00e3o era ela ali. Eu via que ela soube se diferenciar da Jess. Mas, ao mesmo tempo, tinha muito dela ali. Porque toda a experi\u00eancia dela foi importante para construir a personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os atores que interpretaram a fam\u00edlia dela tamb\u00e9m s\u00e3o da Mar\u00e9?<\/strong><br \/>\nA ideia era que todos os atores fossem de l\u00e1. Mas, infelizmente, a gente n\u00e3o conseguiu, nos testes, ter nenhuma participa\u00e7\u00e3o de pessoas mais velhas, com mais de vinte anos de idade. Acho que a pessoa mais velha que apareceu no teste tinha vinte anos. Ent\u00e3o, tivemos que procurar por fora. Como eu ia j\u00e1 ia ter um trabalho de prepara\u00e7\u00e3o de elenco com uma atriz n\u00e3o profissional, que era a protagonista do filme, eu queria me cercar de atores ou de pessoas que estudassem teatro. Mesmo que ainda n\u00e3o se considerassem profissionais, mas que, pelo menos, tivessem esse interesse para os outros pap\u00e9is. Como eu n\u00e3o conseguia pessoas mais velhas na Mar\u00e9 que estivessem fazendo teatro, tive que optar por indica\u00e7\u00e3o de amigos e de pessoas que tinham participado de outros trabalhos comigo. Foi o caso do ator que interpretou o pai, o Altair Rodrigues. Eu j\u00e1 tinha feito um trabalho com ele em uma webs\u00e9rie. E a atriz que faz a m\u00e3e, a Fernanda Dias, tinha participado de um curta de um amigo, o &#8220;Pele Suja Minha Carne&#8221;, que \u00e9 um curta LGBT, tamb\u00e9m. E eu tinha esses dois atores e a crian\u00e7a, a Anna Vieira, que \u00e9 da Mar\u00e9. Eu a encontrei em um curso de teatro da Mar\u00e9. Assisti a uma pe\u00e7a de um grupo chamado \u2018Entre Lugares\u2019, de l\u00e1, que tem atores incr\u00edveis. Eu a vi e a achei perfeita para o papel. Ela estava na idade que a gente precisava, e era uma \u00f3tima atriz. Foi uma experi\u00eancia \u00f3tima. Ela conheceu a fam\u00edlia, que se reuniu duas vezes para um almo\u00e7o. Fizemos coisas que n\u00e3o fossem muito ensaiadas, mas que j\u00e1 tivessem essa viv\u00eancia de n\u00facleo familiar, e foi \u00f3timo. Deu tudo certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse desenvolvimento daquele n\u00facleo familiar, a gente observa muito do falso moralismo religioso em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de sexualidade e dogmas proibitivos. O personagem do pai, com aquela atitude de isolar a filha que \u00e9 l\u00e9sbica, enquanto prega uma ideia religiosa de moralidade, traz essa pertinente reflex\u00e3o ao filme.<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 uma coisa muito intr\u00ednseca a viv\u00eancia LGBT \u00e0 quest\u00e3o da fam\u00edlia. A fase inicial da aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 um ponto muito marcante, e que vai dizer muito o que individuo, o que essa pessoa vai se tornar. Se ela estiver bem com a fam\u00edlia, ela vai viver a sexualidade dela de uma forma. Se a fam\u00edlia n\u00e3o lida muito bem com isso, vai ser outra experi\u00eancia. Ent\u00e3o, eu quis trazer esse lugar da fam\u00edlia, tamb\u00e9m, para a gente pensar sobre isso. Sobre essa menina que saiu de casa porque o pai n\u00e3o conseguia lidar. N\u00e3o est\u00e1 totalmente dito, mas voc\u00ea entende que a m\u00e3e est\u00e1 nesse lugar de prote\u00e7\u00e3o da filha, enquanto o pai n\u00e3o est\u00e1. Voc\u00ea j\u00e1 entende que tem alguma cis\u00e3o naquela rela\u00e7\u00e3o. Eu acho que a igreja, enfim, \u00e9 totalmente relacionada com essa hipocrisia do que \u00e9 uma fam\u00edlia. Algo que vem sendo fundamentado por esse catolicismo, ou melhor, por esse cristianismo (o catolicismo j\u00e1 perdeu a for\u00e7a no Brasil) que vem dizendo todos os moldes do que \u00e9 uma fam\u00edlia, como a sociedade tem que viver, fazendo com que as pessoas vivam a partir da culpa em tudo. N\u00e3o s\u00f3 a quest\u00e3o da sexualidade, mas a culpa est\u00e1 em todas as nossas a\u00e7\u00f5es. Tudo o que a gente faz \u00e9 pautado nesses moldes tradicionais e crist\u00e3os. A religi\u00e3o est\u00e1, infelizmente, t\u00e3o dentro da sociedade que a gente n\u00e3o consegue n\u00e3o perceber. E quando os indiv\u00edduos desviam das normas que s\u00e3o estabelecidas, que, enfim, s\u00e3o impostas sobre a gente, quando os indiv\u00edduos tentam sair um pouco disso, tem esse rompimento com essa ideia de fam\u00edlia tradicional. A\u00ed surgem coisas como o &#8220;kit gay&#8221;, que fortalece uma onda conservadora que avan\u00e7ou muito no Brasil nos \u00faltimos anos. Acredito que sejam coisas que surjam justamente em &#8220;resposta&#8221; a uma presen\u00e7a maior na m\u00eddia e na sociedade de pessoas que desviam dessa &#8220;norma&#8221; colocada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Festival Internacional de Cinema LGBT traz uma curadoria que, dentro da tem\u00e1tica, aborda aspectos bastante variados. A sele\u00e7\u00e3o de &#8220;MC Jess&#8221; dentro de uma gama vasta de temas foi uma escolha bem feliz.<\/strong><br \/>\nAchei super interessante essa curadoria que traz os filmes brasileiros e de outros lugares e n\u00e3o os separam em sess\u00f5es com filmes nacionais e outras com os internacionais. \u00c9 interessante ter esse contraste entre os filmes. Outra coisa: enquanto realizadora LGBT, o que tenho percebido muito nas mostras \u00e9 justamente a gente estar falando n\u00e3o s\u00f3 dos personagens LGBTs, mas, tamb\u00e9m, das outras intersec\u00e7\u00f5es que essas pessoas t\u00eam. N\u00e3o d\u00e1 mais s\u00f3 para a gente falar de uma personagem LGBT e n\u00e3o trazer para debate, tamb\u00e9m, quest\u00f5es de ra\u00e7a, de classe, de padr\u00f5es, de heteronormatividade. Porque s\u00e3o outras experi\u00eancias para as pessoas LGBTs negras, para as pessoas LGBTs em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, existe uma grande pluralidade de experi\u00eancias. Enfim, para tamb\u00e9m a gente debater viv\u00eancias que fogem um pouco das experi\u00eancias s\u00f3 dos autores. E, claro, \u00e9 importante que cada vez mais as pessoas LGBTs produzam seus filmes. Acho muito importante que essa exibi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional LGBTI esteja sendo atrav\u00e9s de uma plataforma online, e os filmes sejam disponibilizados gratuitamente online. Isso d\u00e1 mais acesso para outras pessoas assistirem, se inspirarem e, tamb\u00e9m, produzirem seus pr\u00f3prios filmes, seus pr\u00f3prios produtos audiovisuais. \u00c9 interessante, ainda, ter essa oportunidade de assistir a filmes que n\u00e3o estavam chegando aqui. Porque alguns filmes LGBTs internacionais chegam nos festivais, mas o p\u00fablico do festival presencial \u00e9 um p\u00fablico geralmente restrito. Geralmente s\u00e3o pessoas que trabalham com cultura, com cinema e tem o h\u00e1bito de ir a festivais de cinema. E com o festival trazendo essa possibilidade de assistir aos filmes online, o alcance \u00e9 maior e a gente consegue conhecer mais das experi\u00eancias das pessoas LGBTs que moram em outros lugares.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SLAM DAS MINAS RJ - FINAL 2017 - Carol Dall Farras\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DbQXy_jcCXE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Curta-metragem sobre o primeiro programa sexual de uma prostituta \/ MERCADORIA\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QnVHlo3dGrw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Formada em Audiovisual pela UFRJ, Carla Villa-Lobos tem seu segundo curta-metragem, &#8220;MC Jess\u201d (2018), selecionado para a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Cinema LGBTI, e fala sobre seu filme aqui.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/08\/28\/entrevista-carla-villa-lobos-e-mc-jess-no-festival-de-cinema-lgbti\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":57149,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57147"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57147"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57154,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57147\/revisions\/57154"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}