{"id":56654,"date":"2020-07-07T03:35:35","date_gmt":"2020-07-07T06:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56654"},"modified":"2023-12-11T15:11:46","modified_gmt":"2023-12-11T18:11:46","slug":"especial-ringo-starr-80-anos-por-charles-gavin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-charles-gavin\/","title":{"rendered":"Especial: Ringo Starr 80 anos, por Charles Gavin"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor muitas vezes, na inf\u00e2ncia, os m\u00e9dicos disseram a minha m\u00e3e que eu ia morrer. Continuo aqui.\u201d Com essa frase, Richard Starkey, universalmente conhecido como Ringo Starr, abre sua participa\u00e7\u00e3o no document\u00e1rio Anthology, lan\u00e7ado em 1995, quando ele tinha 55 anos de idade e, junto com Paul McCartney e George Harrison (e John Lennon em falas de arquivo), rememorou a hist\u00f3ria da banda que ajudou a consolidar como a mais importante do s\u00e9culo XX. Hoje, Ringo chega aos 80 e, sim, continua por aqui e tocando sua bateria. Ainda bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com aquela maneira at\u00e9 ent\u00e3o incomum de segurar as baquetas, diferente do chamado \u201ctraditional grip\u201d oriundo do Jazz, Ringo revolucionou a m\u00fasica quando, diante de uma audi\u00eancia de mais de 70 milh\u00f5es de pessoas, tocou bateria em 9 de fevereiro de 1964, no Ed Sullivan Show, em Nova York, durante a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos. Em uma met\u00e1fora perfeita, John Bryant, not\u00f3rio baterista da banda de Ray Charles, afirmou que, ali, \u201cRingo mostrou ao mundo que a for\u00e7a era necess\u00e1ria para colocar \u00eanfase no \u2018rock\u2019 (rocha) de Rock and Roll. Ent\u00e3o, ele segurou as baquetas como se fossem martelos e se empenhou para construir as funda\u00e7\u00f5es do Rock\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisador musical e apresentador do programa \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tLuzTt0V928\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Som do Vinil<\/a>\u2019 (Canal Brasil), Charles Gavin segurou as baquetas nos Tit\u00e3s por 25 anos, e destaca o marco divisor que Ringo representou desde aquela lend\u00e1ria apresenta\u00e7\u00e3o no Ed Sullivan Show. \u201cA partir daquele momento, o baterista ocupou um espa\u00e7o. Ringo trouxe n\u00e3o s\u00f3 a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atr\u00e1s, por raz\u00f5es \u00f3bvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presen\u00e7a do baterista para o lugar do protagonista. Em p\u00e9 de igualdade com os outros. Eu nunca vi ningu\u00e9m dizer que o John era mais importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma, tinham o seu espa\u00e7o, o seu papel a cumprir\u201d, aponta Gavin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No decorrer de 13 discos lan\u00e7ados entre 1963 e 1970, a marca experimental e precursora de Ringo ajudou a moldar a unicidade dos Beatles. Diante de talentos t\u00e3o impares quando Lennon, McCartney e Harrison, o baterista soube dar consist\u00eancia \u00e0s cria\u00e7\u00f5es deles, tornando o som da banda algo distante de atitudes individualistas, vaidosas ou eg\u00f3latras. Charles Gavin aponta essa personalidade t\u00e9cnica do beatle em faixas centrais. \u201cEm \u2018Something\u2019, Ringo traz coisas que cumprem o papel de sua bateria em uma balada. Ele usa o sil\u00eancio. Em \u2018Come Together\u2019, ele faz o mesmo. Ele usa a pausa. No refr\u00e3o, ele toca s\u00f3 o bumbo. Hoje n\u00e3o se usa muito essa t\u00e9cnica. Mas se voc\u00ea observar algumas das grandes m\u00fasicas dos Beatles, a parte da bateria \u00e9 muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte r\u00edtmica. Sabia n\u00e3o ser espalhafatoso\u201d, pontua Gavin, entre v\u00e1rias outras coisas na conversa abaixo!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>LEIA TAMB\u00c9M -&gt; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-joao-barone\/\">ESPECIAL: RINGO STARR 80 ANOS, POR JO\u00c3O BARONE<\/a><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_56646\" aria-describedby=\"caption-attachment-56646\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56646 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/charlesgavin.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/charlesgavin.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/charlesgavin-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56646\" class=\"wp-caption-text\"><em>Charles Gavin, apresentador do programa O Som do Vinil e ex-baterista dos Tit\u00e3s<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na trajet\u00f3ria dos Beatles, Ringo Starr, na fun\u00e7\u00e3o de baterista, foi precursor em diversos momentos. O destaque, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito para um baterista, dado a ele na ic\u00f4nica apresenta\u00e7\u00e3o no Ed Sullivan Show, em fevereiro de 1964, \u00e9 um exemplo disso. Acerca desse momento, quais suas impress\u00f5es tamb\u00e9m como baterista?<\/strong><br \/>\nEssa apresenta\u00e7\u00e3o do Ed Sullivan \u00e9, de fato, hist\u00f3rica e emblem\u00e1tica. Porque, primeiro, eles est\u00e3o tocando ao vivo em um programa de televis\u00e3o com audi\u00eancia recorde. E havia uma monitora\u00e7\u00e3o bem deficiente. O que revela como os Beatles eram excelentes m\u00fasicos, grandes artistas. Porque, tocar para televis\u00e3o, com monitora\u00e7\u00e3o deficiente, cantar afinad\u00edssimo e tocar t\u00e3o sincronizado, t\u00e3o amarrado uns aos outros da forma como fizeram, era dif\u00edcil. Basta lembrar das condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da \u00e9poca, dos anos 1960, que eram incompar\u00e1veis com as condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 da d\u00e9cada seguinte. Chamo aten\u00e7\u00e3o para isso porque \u00e9 muito importante contextualizar essas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. No caso do Ringo, ele est\u00e1 ali em uma plataforma, tocando a bateria. Eu gostaria de saber o que ele estava ouvindo ali, daquele lugar de onde ele estava naquele take que ficou famoso ou nessa apresenta\u00e7\u00e3o toda. O que ele estava ouvindo em rela\u00e7\u00e3o aos outros instrumentos, em rela\u00e7\u00e3o ao George, o Paul e ao John. O que ele estava ouvindo do que eles estavam cantando e tocando para ele tocar t\u00e3o bem naquela situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode at\u00e9 falar: &#8220;Ah, mas \u00e9 a TV norte americana&#8221;. Mas as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para a m\u00fasica pop nessa \u00e9poca, ainda nos anos 1960, com apresenta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o, apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo e em grandes festivais eram muito dif\u00edceis para fazer uma m\u00fasica na condu\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do Rock and Roll. Uma m\u00fasica potente, entendeu? Muito tight, pra usar um termo que a gente fala muito nas grava\u00e7\u00f5es no sentido de consist\u00eancia. Uma consist\u00eancia r\u00edtmica e harm\u00f4nica. Essa performance no Ed Sullivan \u00e9 emblem\u00e1tica por isso. Nunca depois, a televis\u00e3o, pelo que eu me lembre, nunca agiu mais assim. Tem uma hora em que uma c\u00e2mera d\u00e1 um close no Ringo, e vai chegando perto dele. O que achei genial \u00e9 que a mixagem da TV respeitou o movimento da c\u00e2mera e aumenta o volume da bateria na mixagem. Ent\u00e3o, voc\u00ea o ouve muito bem ali. Com o instrumento \u00e0 frente dos outros. Eu achei genial isso. Nunca ningu\u00e9m mais na TV fez isso. Quando a c\u00e2mera se aproxima de algu\u00e9m, a mixagem continua do jeito que est\u00e1 acontecendo. Ningu\u00e9m muda. Mas a TV americana fez isso. Deu destaque ao som da bateria do Ringo. Deu um destaque absurdo ali para ele. E voc\u00ea ouve perfeitamente o som da bateria que saia dele, entendeu? O som extraordin\u00e1rio daquele instrumento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Beatles - Twist &amp; Shout - Performed Live On The Ed Sullivan Show 2\/23\/64\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/b-VAxGJdJeQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse protagonismo dele como baterista nesse momento t\u00e3o crucial para os Beatles, que foi a marca de uma audi\u00eancia gigantesca nos Estados Unidos naquela primeira visita foi algo que, de cara, j\u00e1 colocou esse como um dos seus legados.<\/strong><br \/>\nSim. Isso \u00e9 ocupar um espa\u00e7o de protagonista dentro de uma institui\u00e7\u00e3o que estava ganhando espa\u00e7o na cultura pop, que \u00e9 a banda, n\u00e9? Ele ocupou um espa\u00e7o e n\u00e3o trouxe s\u00f3 a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atr\u00e1s, por raz\u00f5es \u00f3bvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presen\u00e7a do baterista para o lugar do protagonista. Em p\u00e9 de igualdade com os outros, entendeu? Porque eu, desde que me entendo por gente, nunca vi ningu\u00e9m dizer que o John era mais importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma, tinham o seu espa\u00e7o, o seu papel a cumprir. No caso do legado dele, ele trouxe a figura do baterista para a frente, a import\u00e2ncia do baterista para a frente. Ele destacou o que o baterista pensa, que tipo de m\u00fasico ele \u00e9, qual a personalidade dele. Trouxe isso para a visibilidade do p\u00fablico, e trouxe um instrumento, tamb\u00e9m. Provavelmente, os Beatles deviam receber royallites pela venda de baixos, guitarras e baterias depois que eles apareceram no universo pop (risos). Porque, veja bem, ele com aquela bateria Ludwig, ele popularizou a marca, quantas baterias Ludwig foram vendidas? Quantas pessoas no mundo quiseram e se atiraram ao estudo da bateria depois que viram o Ringo Starr tocar no Ed Sullivan? Ou nas outras oportunidades da televis\u00e3o, enfim, enquanto eles se apresentaram em televis\u00e3o antes deles se retirarem dos palcos e da m\u00eddia e se concentrarem no trabalho de est\u00fadio?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Beatles - I Want To Hold Your Hand - Performed Live On The Ed Sullivan Show 2\/9\/64\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jenWdylTtzs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Verdade. Essa apari\u00e7\u00e3o do Ringo no Ed Sullivan ajudou a popularizar o instrumento bateria entre os jovens, bem como a marca Ludwig. Lembro de ter lido, de fato, acerca desse aumento de vendas por conta daquela apresenta\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea observa essa influ\u00eancia que a t\u00e9cnica de Ringo trouxe para o Rock naquele momento?<\/strong><br \/>\nA bateria \u00e9 um instrumento norte-americano. E, sim, Ringo popularizou muito a Ludwig, uma das f\u00e1bricas pioneiras de baterias. Ele popularizou tanto no mundo que as pessoas realmente come\u00e7aram a comprar essa bateria. E ele at\u00e9 conseguiu, por conta disso, patroc\u00ednio dessa marca para outros m\u00fasicos brit\u00e2nicos. Por exemplo, se n\u00e3o me engano, Ginger Baker (Cream \/ Blind Faith) e John Bonham (Led Zeppelin) conseguiram patroc\u00ednio na Ludwig por causa do Ringo Starr. Ent\u00e3o, cara, ele traz uma coisa muito interessante nesses anos de Beatles que mudou a maneira de tocar Rock a partir dali. \u00c9 uma coisa simples, que todo baterista de Rock faz hoje. Acho que qualquer pessoa que se liga no assunto, n\u00e3o necessariamente sendo m\u00fasico, vai entender. Ele come\u00e7ou a tocar com um hi-hat&#8230; Chamo de hi-hat, aqui no Rio outros chamam de contratempo; em S\u00e3o Paulo chamam de chimbal; a\u00ed na Bahia n\u00e3o sei como chamam esses dois pratos que a gente usa controlando com o p\u00e9 esquerdo, se voc\u00ea for destro. Eu chamo de hi-hat, que \u00e9 como os norte-americanos chamam. Foram eles que inventaram, e prefiro chamar do jeito que eles batizaram. Hi-Hat. Ringo come\u00e7ou a tocar com um hi-hat aberto. Isso muda tudo, cara. Isso muda o ritmo da m\u00fasica. Isso muda a assinatura r\u00edtmica da can\u00e7\u00e3o. Isso muda o som da bateria. Ent\u00e3o, ele foi, que eu saiba, o primeiro cara do rock que apareceu tocando desse jeito. Al\u00e9m de ser um m\u00fasico de t\u00e9cnica \u00fanica, ele teve essa inova\u00e7\u00e3o no instrumento. Ent\u00e3o, isso mudou bastante. Hoje, eu diria para voc\u00ea que quase todas as bandas de rock passam por essa quest\u00e3o do baterista, de tocar com o hi-hat aberto. Isso muda muito o papel da bateria. E ele tinha um componente que acho que vale a pena a gente falar tamb\u00e9m. O Ringo, assim como os outros tr\u00eas Beatles, os Stones, The Who, Eric Clapton, John Mayall &amp; The Bluesbreakers, Faces, Kinks, todas as bandas dos anos 1960 do rock brit\u00e2nico, sem exce\u00e7\u00e3o, todos beberam na mesma fonte: a m\u00fasica negra norte-americana, que \u00e9 o Blues, o Rhythm and Blues e o Soul. Todas as bandas beberam nos g\u00eaneros de matrizes afro-americanas. Por isso, o Ringo, embora seja um baterista ingl\u00eas, ele tem um swingue. Acho que essa foi uma das grandes caracter\u00edsticas dele nos Beatles: swingue. N\u00e3o tem outra palavra melhor do que essa.(Ele tinha) Um swingue na bateria muito \u00e0 frente da sua \u00e9poca. Grande parte dos bateristas bons da Gr\u00e3 Bretanha e dos Estados Unidos n\u00e3o tinham esse swingue, entendeu? O molejo que ele tinha. Essa coisa r\u00edtmica que \u00e9 t\u00edpica de pa\u00edses que t\u00eam negros na sua forma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o nosso caso e \u00e9 o caso dos Estados Unidos. A gente tem muito swingue. Nossa m\u00fasica, ela balan\u00e7a muito. A m\u00fasica norte-americana, tamb\u00e9m. Swingue, balan\u00e7o. E o Ringo Starr tinha isso sendo ingl\u00eas, o que era espantoso. Os ingleses s\u00e3o todos durinhos, n\u00e9? S\u00e3o meios marciais. Assim como os alem\u00e3es. Os europeus de uma forma geral, sabe? Agora, essa negritude norte-americana e brasileira, isso \u00e9 uma coisa da gente. O Ringo, de alguma forma, absorveu isso. Ian Paice (Deep Purple), tamb\u00e9m. Voc\u00ea ouve o Ian Paice tocar, voc\u00ea fala, &#8220;bom, esse cara nasceu nos Estados Unidos. Esse cara tocou Jazz, tocou em big bands&#8221;. John Bonham! Cara, a mesma coisa! O cara swinga, tem balan\u00e7o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ludwig Beatles Drum Kit - Vintage Find\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6NCyvrjz8Qs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse protagonismo no destaque dado a Ringo chama a aten\u00e7\u00e3o, de fato. Principalmente quando lembramos de exemplos relacionados \u00e0s Jazz Bands, que tinham todos os seus m\u00fasicos com o mesmo n\u00edvel de import\u00e2ncia nos grupos. No Rock and Roll, a pouca apari\u00e7\u00e3o dada a caras como D.J. Fontana, baterista do Elvis, \u00e9 o que me vem \u00e0 mente antes de Ringo.<\/strong><br \/>\nVerdade. Ringo, no universo pop, foi o primeiro baterista que, de fato, disputou espa\u00e7o com as figuras que ficam sempre ali na frente. O universo pop foi todo erguido, constru\u00eddo, em cima desse contexto de uma pessoa, ou no m\u00e1ximo tr\u00eas, ali na frente, at\u00e9 ent\u00e3o. O que n\u00e3o era assim. O universo do Jazz n\u00e3o funcionava dessa forma. No Jazz, os bateristas podiam ser l\u00edderes das suas pr\u00f3prias bandas. Embora a bateria estivesse l\u00e1 atr\u00e1s, eles eram os protagonistas. Mas, na m\u00fasica pop, n\u00e3o. Embora n\u00f3s tiv\u00e9ssemos grandes bateristas tocando m\u00fasica pop e gravando, ele era sempre um sideman. Uma figura de segunda import\u00e2ncia. Um m\u00fasico que voc\u00ea n\u00e3o necessariamente precisa ver ou precisa ser filmado. Acho que Ringo tem esse protagonismo todo dentro do Beatles primeiro porque os Beatles consagraram, tamb\u00e9m, uma outra figura, uma outra institui\u00e7\u00e3o pop: a banda. Muitas bandas existiam antes disso. No principio dos anos 1960, temos nomes fortes na m\u00fasica norte americana, no Rock and Roll, no Soul, no Jazz, no Country e por a\u00ed vai. Mas na Inglaterra, o que a gente tinha? A gente n\u00e3o tinha nada na Inglaterra, vamos combinar. Nos anos 1950, a m\u00fasica pop na Inglaterra era uma esp\u00e9cie de nada. Estava ali sendo encubada pela m\u00fasica black norte-americana. Os Beatles trouxeram, ali, in\u00fameras contribui\u00e7\u00f5es para a cultura pop. E essa que proporcionou ao Ringo vir pra frente, deixar de ser coadjuvante, vem com eles. Com os Beatles. &#8220;N\u00f3s somos uma banda. Aqui, todas as pessoas s\u00e3o importantes. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o cantor. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquele que \u00e9 o porta-voz da banda&#8221;. Ent\u00e3o, ele teve esse espa\u00e7o para vir pra frente e acho que ele teve espa\u00e7o n\u00e3o apenas pela personalidade que ele tinha. Um cara muito carism\u00e1tico e muito divertido. Muito ir\u00f4nico como o bom ingl\u00eas quer. Um humor \u00e1cido nas respostas, nas brincadeiras, nas caretas, nas tiradas corporais. Mas ele era um m\u00fasico extraordin\u00e1rio, levando em considera\u00e7\u00e3o o que era a bateria nessa \u00e9poca. Foi um dos primeiros bateristas de rock a lan\u00e7ar alguns princ\u00edpios da bateria do Rock and Roll dentro disso, desse momento antol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A partir de suas inova\u00e7\u00f5es, desde o come\u00e7o com os Beatles at\u00e9 o \u00faltimo disco da banda, a marca de Ringo na cria\u00e7\u00e3o de maneiras surpreendentes na cria\u00e7\u00e3o de arranjos j\u00e1 refletia esse balan\u00e7o que voc\u00ea citou. Para voc\u00ea, como baterista, quais s\u00e3o os mais marcantes?<\/strong><br \/>\nEle era um cara muito inteligente. N\u00e3o apenas como um personagem da m\u00fasica pop, mas como m\u00fasico. Ele \u00e9 um exemplo de baterista al\u00e9m de muito talentoso, muito inteligente. Solu\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que ele encontrou para boa parte das can\u00e7\u00f5es que os Beatles gravaram, eram solu\u00e7\u00f5es de bateria muito \u00e0 frente da \u00e9poca. Uma m\u00fasica que eu acho interessante? Todo mundo cita \u201cCome Together\u201d, n\u00e9? Aquela bateria estranha que \u00e9 o s\u00edmbolo da genialidade do Ringo at\u00e9 hoje. Mas tem outra m\u00fasica em que acho a bateria surpreendente, uma m\u00fasica do George Harrison, \u201cSomething\u201d. Uma das grandes baladas dos Beatles. Se voc\u00ea escutar nela a bateria do Ringo, ela \u00e9 surpreendente. Porque ele faz coisas nessa m\u00fasica, uma balada, que cumprem o papel de sua bateria em uma balada. Ele cumpre bem esse papel. Mas no refr\u00e3o, em alguns momentos, ele subverte o que seria o normal. Ele subverte o convencional de uma balada, e toca um refr\u00e3o de outro jeito. Isso de uma maneira que nenhum baterista faria. Se me jogassem na m\u00e3o uma balada para tocar, eu jamais pensaria naquilo (risos). \u201cSomething\u201d tem uma coisa genial tamb\u00e9m que \u00e9 algo que poucos bateristas sabem explorar, e que o Ringo sabia explorar muito bem (John Bonham tamb\u00e9m sabia): a hora em que o baterista n\u00e3o deve tocar. \u00c9 o sil\u00eancio, a pausa. Isso, cara, isso \u00e9 uma ci\u00eancia \u00e0 parte. &#8220;Aqui, eu n\u00e3o vou tocar nenhuma nota e nenhuma pe\u00e7a da bateria.&#8221; Porque essa pausa, ela \u00e9 ritmo tamb\u00e9m. Faz parte do ritmo. Ent\u00e3o, o Ringo, em \u201cSomething\u201d, de alguma forma, ele usa um pouco esse racioc\u00ednio, entendeu? Da pausa. De n\u00e3o tocar uma pe\u00e7a naquele momento, quando todos os bateristas tocariam. Com uma bateria completa, ele, no refr\u00e3o, ele sai da caixa. Ele vai tocar, se n\u00e3o me engano, s\u00f3 no hi-hat. \u00c9 um cara muito inovador. A intelig\u00eancia que estou tentando explicar aqui, que \u00e9 muito dif\u00edcil, que \u00e9 muito complexa, \u00e9 nesse sentido. Dessas inova\u00e7\u00f5es que o cara est\u00e1 buscando. E essa \u00e9 outra que ele dominava muito bem. Que \u00e9 a pausa, o sil\u00eancio. Sempre procurando solu\u00e7\u00f5es para o instrumento diferentes do que, at\u00e9 ent\u00e3o, a m\u00fasica pop propunha. Um m\u00fasico extraordin\u00e1rio, cara. Extraordin\u00e1rio! Acho que, dessa turma dos anos 1960, n\u00f3s temos bateristas extraordin\u00e1rios. E ele, sem d\u00favida nenhuma, \u00e9 um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea cita \u201cSomething\u201d e \u201cCome Together\u201d, s\u00f3 me vem \u00e0 mente aquele espelhar exato do baixo de Paul com a bateria de Ringo. Algo incr\u00edvel, principalmente pelo fato de que ele opta, em \u201cCome Together\u201d, por usar muito do sil\u00eancio.<\/strong><br \/>\nAgora a gente tem que abrir outra aba nessa discuss\u00e3o. Ringo tem ao seu lado um dos maiores baixistas da hist\u00f3ria, que \u00e9 o Paul. As linhas de baixo do Paul, fico at\u00e9 arrepiado quando falo, s\u00e3o extraordin\u00e1rias. Ent\u00e3o, assim, a gente sabe. Se voc\u00ea tem um m\u00fasico extraordin\u00e1rio tocando do seu lado, isso te leva a solu\u00e7\u00f5es criativas, solu\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m pensaria. Ali \u00e9 um processo dial\u00e9tico. Voc\u00ea bota um baixista como Paul do lado do Ringo Starr, um motiva o outro que motiva o um, e juntos eles v\u00e3o achando coisas ao longo da discografia dos Beatles que outras bandas n\u00e3o fizeram igual. Eu adoro os Stones, mas os Stones s\u00e3o uma banda diferente. Uma banda de Rock and Roll b\u00e1sico, basicamente de Rhythm and Blues que experimentou e inovou muito menos do que os Beatles. Os Beatles s\u00e3o inovadores. \u00c9 uma banda experimental. At\u00e9 o \u00faltimo disco eles seguiram inventando coisas. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea, por exemplo, nessa parte do \u201cCome Together\u201d que voc\u00ea citou, ele para de tocar. V\u00e1rias m\u00fasicas, v\u00e1rias levadas dos Beatles, t\u00eam s\u00f3 bumbo. Ele popularizou isso. Hoje n\u00e3o se usa muito essa t\u00e9cnica. Mas se voc\u00ea v\u00ea algumas das grandes m\u00fasicas dos Beatles, a parte da bateria \u00e9 muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte r\u00edtmica. Alguns trechos de faixas do Beatles, como esse de \u201cCome Together\u201d, n\u00e3o t\u00eam caixa. Bumbo, tambor, n\u00e3o tem aquela batida, aquela levada, como os Stones. Estou fazendo esse paralelo s\u00f3 para a gente se entender melhor. Charlie Watts sempre tinha uma levada. Seja a m\u00fasica de um jeito ou seja de outro. Sempre tem aquela levada bumbo, caixa e hi-hat. Uma levada basicamente de Rock. Ou extra\u00edda do Blues. O Ringo n\u00e3o. Ele tem essas informa\u00e7\u00f5es de m\u00fasica norte-americana, mas, assim, quando ele tira uma m\u00e3o e usa s\u00f3 a m\u00e3o direita, ele j\u00e1 abriu uma outra possibilidade para o instrumento. N\u00e3o usar uma m\u00e3o. Usar s\u00f3 a m\u00e3o direita e o bumbo. N\u00e3o usar a m\u00e3o esquerda. Ele fez isso em v\u00e1rias m\u00fasicas, se voc\u00ea for ver bem. O pr\u00f3prio \u201cSgt. Peppers\u201d! Esse disco \u00e9 fant\u00e1stico! Em v\u00e1rias m\u00fasicas, a bateria opta por solu\u00e7\u00f5es muito simples. Algo que as pessoas confundem com um baterista normal, um baterista mediano. Sobre essa ideia comum e limitada do Ringo, lembro que vi um dos maiores absurdos em uma entrevista do J\u00f4 Soares. O J\u00f4 \u00e9 um cara que eu respeito muito, mas nessa entrevista que aconteceu h\u00e1 muitos anos, ele conversou com uma banda cover dos Beatles muito conhecida em S\u00e3o Paulo. E ali, na entrevista, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hZZNDxUj6RQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">os caras falando dos Beatles<\/a>, de cada beatle. Nesse quarteto, cada um era um beatle. E o J\u00f4 Soares teve a coragem de lan\u00e7ar essa an\u00e1lise que muita gente tem de achar que o Ringo era um baterista mediano, de que ele n\u00e3o estava \u00e0 altura dos outros tr\u00eas beatles. E isso \u00e9 um erro que eu j\u00e1 vi acontecer muito vindo de pessoas que n\u00e3o entendem. Quem fala isso \u00e9 porque n\u00e3o entendeu. Quem afirmou e afirma isso, que o Ringo n\u00e3o estava \u00e0 altura do Paul, do George e do John, \u00e9 porque n\u00e3o entendeu. Muito pelo contr\u00e1rio. \u00c9 \u00f3bvio que ele estava \u00e0 altura deles. A fun\u00e7\u00e3o da bateria dentro das can\u00e7\u00f5es dos Beatles, ele entendeu melhor do que qualquer um de n\u00f3s entenderia. E dentro disso existe a simplicidade. Fazer o que a can\u00e7\u00e3o precisa. Fazer o que o arranjo precisa. N\u00e3o dar nenhuma nota a mais. Ele \u00e9 um baterista que entendeu t\u00e3o bem o papel do instrumento na m\u00fasica pop que nunca deu uma nota a mais no arranjo. Todos os outros deram. Inclusive, o John Bonham, que \u00e9 um monstro! Eu s\u00f3 estou aqui porque ouvi o \u201cLed Zeppelin IV\u201d quando tinha 14 anos. At\u00e9 o John Bonham, em alguns momentos, tem excessos. Algo que \u00e9 absolutamente normal nas artes. &#8220;Ah, passei aqui. Inv\u00e9s de X notas, Y notas. Mas, tudo bem.&#8221; Agora, o Ringo, n\u00e3o! Eu n\u00e3o consigo olhar na discografia dos Beatles um momento que eu possa falar aqui que ele tocou demais. &#8220;Essa virada n\u00e3o precisa. Essa batida tem um bumbo a mais.&#8221; Muito pelo contr\u00e1rio. Ele sempre optou por algumas solu\u00e7\u00f5es mais simples, mas que funcionavam como uma luva. Como uma pe\u00e7a que encaixa ali dentro do mecanismo de cada can\u00e7\u00e3o dos Beatles. Eu acho que esse \u00e9 mais um atributo dele, cara. De nunca ter dado uma nota a mais, al\u00e9m desses outros que a gente falou aqui. Tem mais gente. Ah, at\u00e9 o baterista do Pink Floyd, Nick Mason, que eu acho um monstro. Ele \u00e9 o grande disc\u00edpulo para mim do Ringo Starr. \u00c9 um baterista que usa o sil\u00eancio. \u00c9 um baterista que nunca deu notas ali que n\u00e3o deveriam ter sido tocadas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Beatles - Something\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UelDrZ1aFeY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 not\u00f3rio o modo como Ringo adentra no Rock and Roll inovando at\u00e9 mesmo o modo como as baquetas eram manejadas, usando um jeito diferente de segur\u00e1-las. Era algo diferente do chamado \u2018traditional grip\u2019, oriundo dos bateristas de Jazz e Blues. Lembro de um texto do John Bryant, baterista do Ray Charles, no qual ele usa uma bela met\u00e1fora ao falar do poder existente naquela maneira que Ringo tinha de seguras as baquetas: &#8220;<a href=\"http:\/\/forums.audioreview.com\/rave-recordings\/13-reasons-give-ringo-some-respect-3726.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Como martelos, construindo as funda\u00e7\u00f5es para a m\u00fasica do Rock<\/a>&#8220;.<\/strong><br \/>\n\u00c9 interessante isso. Ringo vem com um approach, uma abordagem de tocar bateria bastante moderna para aquela \u00e9poca. \u00c9 preciso que as pessoas saibam que a bateria, como eu disse, \u00e9 um instrumento inventado nos Estados Unidos. As bandas de Jazz que saiam pela rua nas festas de New Orleans. J\u00e1 existia, claro, as bandas marciais, isso era normal. Essas bandas marciais j\u00e1 existiam na m\u00fasica de New Orleans, que \u00e9 onde o Jazz nasce. E ali, cada m\u00fasico, cada percussionista, era respons\u00e1vel por uma pe\u00e7a da bateria. Um cara tocava caixa, um cara tocava prato, outro cara tocava tambor, outro cara tocava um tambor maior, que se chama \u2018boom\u2019. Ent\u00e3o, mais ou menos quatro caras, cinco caras, para fazer esse papel, a parte r\u00edtmica dessas bandas de Jazz que saiam em New Orleans, no final do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpio do s\u00e9culo XX. Ent\u00e3o, \u00e9 um instrumento norte-americano. Ele vem carregado de toda uma carga cultural norte-americana. Quando isso passou para a bateria, quando inventaram a bateria, percebe-se que \u00e9 nada mais nada menos que juntar todos esses instrumentos em um s\u00f3. A bateria \u00e9 uma uni\u00e3o de instrumentos. Diferentemente dos outros que existem, a bateria \u00e9 uma reuni\u00e3o de v\u00e1rios instrumentos em um s\u00f3. E isso trouxe para ela esse h\u00e1bito de tocar que chama \u2018traditional grip\u2019. Se o cara tiver a pr\u00e1tica na m\u00e3o esquerda, a bateria fica cruzada na m\u00e3o. E na m\u00e3o direita, a baqueta \u00e9 quase que uma extens\u00e3o do bra\u00e7o. D\u00e1 pra voc\u00ea visualizar bem essa figura. N\u00e3o por acaso, isso vem das bandas marciais, do ex\u00e9rcito, porque os caras tocavam caixa nos campos de batalha, ou nos quart\u00e9is. Quando voc\u00ea estava marchando com a caixa em cima, voc\u00ea tinha que tocar desse jeito, porque, do outro jeito, era dif\u00edcil. Com a baqueta na m\u00e3o esquerda e a da m\u00e3o direita, era dif\u00edcil tocar. N\u00e3o d\u00e1. Sei porque j\u00e1 toquei em banda marcial, e, de fato, n\u00e3o d\u00e1. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que apoiar a caixa na barriga, ela fica inclinada. A m\u00e3o esquerda fica com esse \u2018traditional grip\u2019. A baqueta cruza m\u00e3o. E a outra baqueta \u00e9 uma extens\u00e3o do bra\u00e7o. Assim est\u00e1 formado o quadro. N\u00e3o sei se Ringo foi o pioneiro nesse uso da baqueta daquele modo. N\u00e3o d\u00e1 pra saber se ele foi o primeiro que falou: &#8220;Pera\u00ea! Eu vou tocar bateria de outro jeito. Eu vou usar baqueta na m\u00e3o esquerda exatamente da forma como eu uso a baqueta na m\u00e3o direita&#8221;. N\u00e3o sou historiador para afirmar quem foi o primeiro cara que fez isso na hist\u00f3ria. Seja como for, ele foi o primeiro cara que popularizou essa forma de tocar bateria. Eu j\u00e1 vi algumas apresenta\u00e7\u00f5es na internet, por exemplo, coisas b\u00e1rbaras, na TV norte americana, de bandas como Bill Haley &amp; His Comets. O baterista do Bill Haley tocava desse jeito, como os jazzistas tocavam. O baterista do Elvis tamb\u00e9m tocava assim. Os bateristas, enfim, tocavam do jeito como a bateria foi projetada. O jeito padr\u00e3o. Ringo foi o primeiro que popularizou essa pegada. E vou te dizer: faz muita diferen\u00e7a no instrumento tocar com essa m\u00e3o esquerda. \u00c9 a m\u00e3o da caixa. Caixa, bumbo e hi-hat. Essas tr\u00eas pe\u00e7as principais da bateria. \u00c9 a\u00ed que o baterista tem que se concentrar. A fun\u00e7\u00e3o da bateria \u00e9 essa. Independentemente do g\u00eanero. O que vem depois \u00e9 outro papo. Mas basicamente essas s\u00e3o as tr\u00eas pe\u00e7as. E acho que isso que o Ringo fez de tocar essa m\u00e3o esquerda na caixa desse jeito, volto a dizer, a baqueta como extens\u00e3o da m\u00e3o direita, isso faz muita diferen\u00e7a no som do instrumento. Voc\u00ea tem muito mais for\u00e7a tocando desse jeito. Com a m\u00e3o esquerda com a baqueta dessa forma. Muito mais for\u00e7a na caixa. No Ed Sullivan \u00e9 not\u00f3rio isso. O som da bateria do Ringo, como \u00e9 que ela soa ali. Ele toca com for\u00e7a, mas toca com t\u00e9cnica, toca com swingue. Toca com muita destreza de quem ouviu m\u00fasica negra norte americana. E toca com for\u00e7a, cara. D\u00e1 pra voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o bem clara do volume que saia do instrumento dele. Da massa sonora que saia. E acho que ele popularizou isso. Essa forma de tocar bateria. Assim, com for\u00e7a. Com muita for\u00e7a, entendeu? \u00c9 claro que se voc\u00ea comparar o Ringo, hoje, com outros bateristas, at\u00e9 parece que ele \u00e9 um batera leve, que ele n\u00e3o bate tanto. Mas, vamos colocar no contexto da \u00e9poca. Ele vem antes de todos os outros caras que a gente citou aqui. De Rock e de Jazz, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 de uma simplicidade que rima exatamente com a genialidade. Em uma \u00e9poca anterior aos bateristas que se destacavam por imensos solos, Ringo tem em seu legado essa maneira de tocar que rima com menos extravag\u00e2ncia e mais virtuosismo.<\/strong><br \/>\nSim. Esse approach que ele teve no instrumento, essa busca de solu\u00e7\u00f5es dentro de um ritmo simples que \u00e9 rock, foi algo muito marcante. O Rock \u00e9 um ritmo simples. Dos mais simples que existe pra voc\u00ea tocar, vamos combinar, n\u00e9? Quando um garoto come\u00e7a a tocar bateria, n\u00e3o por acaso, um dos primeiros ritmos que ele vai tocar na bateria \u00e9 Rock. Porque \u00e9 muito f\u00e1cil de tocar. \u00c9 muito intuitivo, entendeu? Samba \u00e9 muito mais dif\u00edcil. Maracatu \u00e9 mais dif\u00edcil ainda. Xote, Jazz, qualquer outro g\u00eanero que voc\u00ea toque na bateria \u00e9 mais dif\u00edcil que Rock. Ent\u00e3o, dentro de um g\u00eanero, a princ\u00edpio, simples de tocar, o Ringo sempre buscou solu\u00e7\u00f5es diferentes. Na discografia dos Beatles, voc\u00ea v\u00ea v\u00e1rios arranjos de bateria que entraram para a Hist\u00f3ria. Falei de \u201cCome Together\u201d e \u201cSomething\u201d, mas na pr\u00f3pria \u201cSgt. Peppers\u201d, a bateria dele \u00e9 sensacional. E tantas outras, at\u00e9 mesmo no come\u00e7o, quando os Beatles eram aquela coisa totalmente Rock and Roll, ou banda de R&amp;B. Como o John Lennon gostava de dizer, eles eram uma banda de Rhythm and Blues no come\u00e7o. Mesmo dentro dessas possibilidades, Ringo era um cara criativo. E outra coisa: os Beatles t\u00eam toda aquela energia de banda Rock dos anos 1960. Banda de garagem! Ent\u00e3o, ali, tem uma diferen\u00e7a marcante em rela\u00e7\u00e3o aos anos 1950. Nos anos 1950, o Rock est\u00e1 muito ligado \u00e0s ra\u00edzes norte-americanas, que s\u00e3o Jazz, Country, Blues, Rhythm and Blues. E os bateristas, de certa forma, migraram. V\u00e1rios bateristas dessas \u00e1reas migraram. Por exemplo, no show da apresenta\u00e7\u00e3o de Washington, quando Ringo, daquela forma surpreendente, ajuda a girar o palco da bateria, tem ele cantando \u201cI Wanna Be Your Man\u201d, que \u00e9 simplesmente genial. \u00c9 dif\u00edcil para ele cantar e tocar daquele jeito. Cara, essa faixa, para mim, \u00e9 basicamente um proto Punk Rock. Ali tem tudo que o Punk Rock seria 10 anos depois. A gente est\u00e1 falando de 1964, 1965. E o Punk Rock \u00e9 de 1976, 1977. Ent\u00e3o, 10 anos depois, foram aplicar aquela forma de tocar que o Ringo usava l\u00e1 no comecinho dos Beatles. Essa coisa de Rock de garagem. Ringo, numa \u00e1rvore geneal\u00f3gica, eu colocaria, com maior tranquilidade ali no come\u00e7o. No tronco dessa \u00e1rvore geneal\u00f3gica que vai l\u00e1 pra cima. Mas ele e Charlie Watts est\u00e3o ali nesse p\u00e9 de igualdade. Charlie Watts toca que nem os jazzistas tocam. Ele, por exemplo, n\u00e3o conseguiu fazer o que o Ringo fez na m\u00e3o esquerda. O Charlie Watts tem aquele jeito de tocar dos jazzistas. E \u00e9 um puta batera! Agora, em termos de diversifica\u00e7\u00e3o do instrumento, de inven\u00e7\u00e3o de levadas, de frases musicais, ou de outras solu\u00e7\u00f5es para a m\u00fasica, at\u00e9 quando n\u00e3o tocar, Ringo \u00e9 Ringo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"World&#039;s Great Drummers Salute Ringo Starr\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wJTjjAXDZSY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ver voc\u00ea falar de \u201cI Wanna Be Your Man\u201d como um proto Punk Rock me faz lembrar de \u201cHelter Skelter\u201d e \u201cRevolution\u201d como embri\u00f5es do Hard Rock e do Heavy Metal.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea citou duas grava\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas dos Beatles. Eu citei \u201cI Wanna be Your Man\u201d, que foi gravada pelos Stones primeiramente, depois pelos Beatles. A m\u00fasica \u00e9 dos Beatles e \u00e9 cantada pelo Ringo como uma esp\u00e9cie de proto punk. Como outras dos Beatles. Mas especialmente essa, porque ela \u00e9 r\u00e1pida. Ela \u00e9 curta. E aquela bateria \u00e9 uma bateria de punk rock. J\u00e1 \u00e9. Todas essas outras bandas que viriam 10 anos depois, Buzzcocks, Ramones, The Jam, tudo isso j\u00e1 estava ali nessa faixa, pequenininha. Acho que tem quase dois minutos, ali no \u201cWith The Beatles\u201d (1963). Essa \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o que est\u00e1 relacionada com essa vertente do Rock and Roll. \u00c9 o punk rock. Agora, \u201cHelter Skelter\u201d \u00e9 Heavy Metal. Quem inventou o Heavy Metal? Para mim, Black Sabbath. O Heavy Metal como a gente conhece hoje, quem colocou as cartas na mesa, as bases para ser e se desenvolver, foi o Black Sabbath. Por\u00e9m, o Hard Rock, que \u00e9 uma outra vertente prima\/irm\u00e3 do Heavy Metal, para mim quem colocou os templates foi o Cream. Ginger Baker, Eric Clapton e Jack Bruce. Estes a\u00ed. Ent\u00e3o, Hard Rock, Cream misturado com Led Zeppelin fizeram mais ou menos o que a gente chama de Hard Rock, hoje. E o Black Sabbath o que a gente chama de Heavy Metal, hoje. Esses termos n\u00e3o existiam. Agora, \u201cHelter Skelter\u201d \u00e9 antes de tudo isso que eu estou falando. O primeiro disco do Black Sabbath \u00e9 de 1969. O Deep Purple vem antes. O \u201cLed Zeppelin I\u201d \u00e9 de 1969. Cara, o \u201c\u00c1lbum Branco\u201d \u00e9 de 1968. Agora, compara \u201cHelter Skelter\u201d com o primeiro do Led Zeppelin. \u201cHelter Skelter\u201d \u00e9 muito mais pesado. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9? Olha o riff de guitarra do George Harrison e do John Lennon naquela grava\u00e7\u00e3o. Aquele riff fant\u00e1stico! Cara, se aquilo n\u00e3o for a primeira grava\u00e7\u00e3o que a gente pode linkar com o Heavy Metal, eu n\u00e3o tenho outra para colocar no lugar. Essa grava\u00e7\u00e3o, do jeito com distor\u00e7\u00e3o, com aquela bateria desde o come\u00e7o, com aquela letra&#8230; O tamanho dela! Aquilo, para mim, assim, \u00e9 a alvorada do Heavy Metal. O nascer do Heavy Metal. Est\u00e1 nascendo no horizonte um novo g\u00eanero de m\u00fasica. N\u00e3o tem nome ainda, porque ningu\u00e9m conhece. Est\u00e1 nessa faixa, \u201cHelter Skelter\u201d, entendeu? E depois viria algumas coisas mais tradicionais, como \u201cGet Back\u201d ou como \u201cRevolution\u201d. Tem coisas ali que s\u00f3 iriam acontecer anos depois, mas, assim, voc\u00ea lan\u00e7a a semente. O solo \u00e9 f\u00e9rtil. Voc\u00ea lan\u00e7a algumas sementes. A\u00ed vem todas essas bandas brit\u00e2nicas important\u00edssimas e que v\u00e3o dar os caminhos da m\u00fasica pop a partir dali. A partir de outros m\u00fasicos que vieram depois do Ringo, como Ginger Baker, Bill Ward, John Bonham, Ian Paice, Phil Collins, bateristas extraordin\u00e1rios. E tem outra coisa que \u00e9 importante salientar em rela\u00e7\u00e3o ao Beatles: n\u00e3o haveria Rock Progressivo se n\u00e3o fossem os Beatles. Ponto final! N\u00e3o existiria nem Yes, nem Genesis e nem Pink Floyd, que eu n\u00e3o considero uma banda de rock progressivo porque o Pink Floyd \u00e9 o g\u00eanero Pink Floyd. Mas, se n\u00e3o fosse pelos Beatles, n\u00e3o haveria Pink Floyd, uma das bandas que eu mais adoro. \u201cA Day in the Life\u201d, para mim, \u00e9 o nascimento do Rock Progressivo. Mais uma coisa que os Beatles colocaram: as bases do Rock Progressivo. A banda tocando com uma orquestra, a experimenta\u00e7\u00e3o, a colagem, os desdobramentos. N\u00e3o haveria o Rock Progressivo que eu ouvi. E olha que tudo que \u00e9 poss\u00edvel ouvir de Rock Progressivo, na minha vida, eu ouvi. Chapava com Yes. Ouvi Yes pra caramba na minha vida. Emerson, Lake &amp; Palmer, tamb\u00e9m. Que n\u00e3o d\u00e1 pra chamar de progressivo, mas, enfim. Mais uma coisa que os Beatles, incluindo o Ringo, foram respons\u00e1veis, entendeu? O nascimento do Rock Progressivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1, nesse texto do Jack Bryant que eu citei, outro momento marcante que \u00e9 quando ele fala sobre o tempo exato do Ringo nos v\u00e1rios takes. Isso permitia ao George Martin, diante dos diversos takes de uma mesma can\u00e7\u00e3o, montar a melhor vers\u00e3o da mesma. E em todas essas, o tempo de Ringo era exato. E isso em um per\u00edodo no qual o metr\u00f4nomo n\u00e3o era t\u00e3o usado como hoje, sua vers\u00e3o eletr\u00f4nica ainda n\u00e3o existia e as grava\u00e7\u00f5es via computador n\u00e3o estavam no horizonte.<\/strong><br \/>\n\u00c9 verdade. Voc\u00ea n\u00e3o tinha essa exig\u00eancia de precis\u00e3o naquele momento. A necessidade de ter um metr\u00f4nomo tocando o tempo todo, at\u00e9 mesmo porque a tecnologia n\u00e3o permitia isso. J\u00e1 hoje, permite. E a partir dos anos 1970 e 1980, come\u00e7aram a usar o metr\u00f4nomo com muita regularidade. Hoje, \u00e9 um standard. Hoje, todas as grava\u00e7\u00f5es, todos os discos que eu conhe\u00e7o s\u00e3o feitos com metr\u00f4nomo. Mas naquele momento dos anos 1960, um baterista como Ringo, que tinha tanta consist\u00eancia de tempo, e isso \u00e9 algo incr\u00edvel, ele tocava sempre com muita precis\u00e3o, que voc\u00ea podia pegar peda\u00e7os de outro takes e fazer ali uma mixagem usando partes de outros instrumentos em cima de uma bateria que pertencia a outra grava\u00e7\u00e3o, a outro take. Eles faziam esses ping pongs no Abbey Road com duas ou tr\u00eas m\u00e1quinas. As m\u00e1quinas tinham quatro canais na \u00e9poca. Ent\u00e3o, esse processo de grava\u00e7\u00e3o \u00e9 muito interessante. J\u00e1 estudei. Ele, de fato, era tecnicamente t\u00e3o incr\u00edvel, que al\u00e9m de tudo que falamos, tinha essa consist\u00eancia exata de tempo, de timing. Algo extraordin\u00e1rio. Nas m\u00fasicas dos Beatles, o andamento n\u00e3o fica lento e nem acelera. \u00c9 aquele pitch preciso o tempo todo. \u00c9 impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Carisma \u00e9 algo muito percept\u00edvel em Ringo. Desde o come\u00e7o dos Beatles, era percept\u00edvel sua sinergia, sua linguagem corporal, seu sorriso constante enquanto tocava. E isso contribuiu muito para o alcance de sua influ\u00eancia, tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nSim, verdade. Nas grava\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos dos Beatles ao vivo, ele transmite essa felicidade, algo que foi muito importante, tamb\u00e9m, porque a felicidade \u00e9 uma grande verdade do instrumento. Os produtores com quem trabalhei na minha vida, e um dele \u00e9 o Jack Endino, sempre destacavam isso. Endino \u00e9 um cara que trabalhou com Nirvana, com Soundgarden, essas bandas de Seattle dos anos 1990. Ele falava, quando chegava a minha vez de gravar, ali no est\u00fadio com os Tit\u00e3s: &#8220;Vai l\u00e1, cara. Senta \u00e0 bateria e se diverte.&#8221; Porque bateria \u00e9 sobre isso. Bateria \u00e9 sobre se divertir. E, de fato, isso tem tudo a ver com o Ringo Starr. Outros bateristas se divertem tocando, mas n\u00e3o transmitiam isso visualmente. Transmitiam de outra forma. O Ringo tocando era de uma alegria, cara. Parecia uma escola de samba. Estou dizendo isso do ponto de vista do astral. Voc\u00ea v\u00ea as pessoas desfilando na avenida, tocando, est\u00e1 todo mundo sorrindo, porque aquilo \u00e9 uma alegria. Uma batucada de uma escola de samba \u00e9 uma alegria. O Ringo, de certa forma, se comportava desse jeito nos shows dos Beatles. Era tamanha a felicidade dele, de tocar um instrumento e ele ter a liberdade art\u00edstica de tocar do jeito que ele queria. Isso \u00e9 uma coisa interessante, tamb\u00e9m. N\u00e3o se tem not\u00edcia, nunca li nenhum artigo, ningu\u00e9m dizendo que as pessoas iam ali e falavam: &#8220;Ringo, toque dessa forma.&#8221; Muito pelo contr\u00e1rio. Ele entrou para os Beatles pelo baterista que ele \u00e9. Pela contribui\u00e7\u00e3o que ele poderia dar. Ent\u00e3o, ele tocava do jeito dele. Do jeito como ele queria. Claro que tem aquela felicidade toda. Nas imagens de arquivo do \u201cBeatles Anthology\u2019 percebe-se isso tanto no Ed Sullivan quanto no show do Shea Stadium. As condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas daquele show s\u00e3o terr\u00edveis. Ningu\u00e9m se ouve. Mesmo ali, voc\u00ea v\u00ea que tem uma hora que ele est\u00e1 curtindo. Que ele est\u00e1 sorrindo. E acho que isso vem da personalidade dele. Curioso que ele \u00e9 canceriano. Canceriano at\u00edpico. Porque os cancerianos t\u00eam uma tend\u00eancia a serem introvertidos. Eu sou um deles. Voc\u00ea \u00e9 reservado, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 dado a fazer muita palha\u00e7ada. O Ringo Starr sempre foi um cara extrovertido, pra fora. Esse \u00e9 um tra\u00e7o da personalidade dele, absolutamente positivista, otimista. Isso, de certa forma, resultou nesse jeito de tocar bateria. Tenho pensado nisso nesses dias. Ontem (dia 25\/06\/2020) fiz uma live com o baterista do Sepultura, o El\u00f3i Casagrande, que est\u00e1 com 29 anos. E foi uma live muito interessante porque, pesquisando sobre o \u00faltimo disco do Sepultura, o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/19\/entrevista-andreas-kisser-sepultura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Quadra<\/a>\u201d, vi que eles produziram com um sueco (N.E. O produtor Jens Bogren) e gravaram na Su\u00e9cia. E esse produtor sueco \u00e9 um cara que tem \u00f3timas frases. E no making off, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Jmf30NvNm0Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que est\u00e1 no YouTube do Sepultura<\/a>, ele fala uma frase excelente: &#8220;Alguma coisa na personalidade do El\u00f3i Casagrande faz ele tocar bateria daquele jeito. Daquela forma singular e \u00fanica de tocar.&#8221; E fiquei com essa quest\u00e3o na cabe\u00e7a. Da personalidade. Como a personalidade de cada um de n\u00f3s faz voc\u00ea tocar de um jeito que \u00e9 s\u00f3 seu. Como \u00e9 que a personalidade de uma pessoa, como ela influencia na resultante art\u00edstica. Fiz essa pergunta para o El\u00f3i: &#8220;O produtor colocou isso para voc\u00ea, te disse isso. Alguma coisa na sua personalidade faz voc\u00ea tocar bateria dessa forma com essa agressividade, com essa forma brutal de tocar bateria\u201d. Ali\u00e1s, essa \u00e9 a onda do Sepultura. Mas, por outro lado, ele \u00e9 uma pessoa doce. Uma pessoa do bem. Um cara de bom cora\u00e7\u00e3o. Uma pessoa f\u00e1cil, de um di\u00e1logo f\u00e1cil, de uma conversa f\u00e1cil. Ent\u00e3o, alguma coisa na personalidade do cara o faz querer estudar tanto. Ele estuda pra caramba. E tocar bateria daquela forma que \u00e9 um absurdo. Ele \u00e9 um dos maiores bateristas de rock da atualidade. Nesse segmento do metal, ele \u00e9 um dos bateristas top no mundo. Sem d\u00favida nenhuma. Ent\u00e3o, acho que essa coloca\u00e7\u00e3o desse produtor sueco vem bem a calhar aqui, porque, sim, tra\u00e7os de personalidade do Ringo Starr resultaram naquela forma de tocar bateria. Que \u00e9 s\u00f3 dele. Voc\u00ea pode at\u00e9 tentar imitar, mas aquela bateria dos Beatles, e, veja s\u00f3, isso \u00e9 uma coisa interessante de a gente dizer aqui: o Ringo Starr \u00e9 um artista muito interessante at\u00e9 mesmo depois que os Beatles se separaram. Ele fez v\u00e1rios \u00e1lbuns solos geniais. Esse ultimo, do ano passado, o \u201cWhat&#8217;s my Name?\u201d, \u00e9 um disco fant\u00e1stico. Disca\u00e7o! Depois do Beatles ele passa a ser um artista um pouco diferente. Um cara que canta, parte autoral, parte interpretes. Que faz turn\u00eas, que faz discos muito interessantes. Continua sendo um cara muito ir\u00f4nico, muito divertido. Mas o m\u00fasico que ele foi com os Beatles, ali \u00e9 o apogeu dele. Sem d\u00favida nenhuma. \u00d3bvio. Mas por que? Pela qu\u00edmica desses quatro caras. Isso tamb\u00e9m \u00e9 importante. Esses outros tr\u00eas t\u00eam participa\u00e7\u00e3o na bateria dele. Na forma de arranjar, de tocar junto, de compor. \u00c9 claro que aquele \u00e9 um trabalho de grupo. N\u00e3o \u00e9 um trabalho isolado. A bateria dele tamb\u00e9m tem a ver com os outros tr\u00eas. \u00c9 importante dizer isso. Muita gente pode ficar desapontada, mas \u00e9 verdade, entendeu? E eu acho que isso acontece com bandas que s\u00e3o relevantes. Posso fazer milhares de discos daqui pra frente. Discos solo ou com banda, ou seja l\u00e1 o que for, mas eu acho muito dif\u00edcil que eu consiga superar o que fiz com os Tit\u00e3s. Acho muito dif\u00edcil. Posso at\u00e9 tocar coisas t\u00e9cnicas mais complicadas, mais estranhas, mas, assim, o trabalho que eu fiz com os Tit\u00e3s, resultante de um trabalho coletivo, de uma cria\u00e7\u00e3o coletiva, eu dificilmente vou superar na minha vida. Eu j\u00e1 sei isso. Eu tenho plena consci\u00eancia disso. N\u00e3o vou superar. Vai ser muito dif\u00edcil. E tudo bem, tamb\u00e9m. A mesma coisa aconteceu com o Ringo Starr, de certa forma.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Beatles - Eight Days A Week\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kle2xHhRHg4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na trajet\u00f3ria dos Beatles, vimos uma cumplicidade e amizade entre quatro pessoas evoluir desde a fase adolescente at\u00e9 a vida adulta, quando outras prioridades surgiram na vida daqueles quatro rapazes que se tornaram homens dentro do estrelato, que constitu\u00edram fam\u00edlias dentro daquela vida. E a banda acabou por limit\u00e1-los tanto artisticamente quanto em suas vidas pessoais. Como voc\u00ea avalia esse final dos Beatles ap\u00f3s terem constru\u00eddo tantos pilares na m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nEsse \u00e9 o perigo de uma banda. Banda \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica. M\u00e1gica. Mas ela tamb\u00e9m \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que pode te limitar, pode te privar de outras coisas que voc\u00ea est\u00e1 precisando. Por isso as bandas acabam. Por isso as pessoas saem de suas bandas. Isso acontece. Mesmo nos Beatles, com quatro caras geniais, com tanta coisa, cada um com seu trabalho crescendo. As disputas de espa\u00e7o. George Harrison, por exemplo. \u00c9 importante dizer que o \u00e1lbum solo de um beatle que mais vendeu at\u00e9 hoje \u00e9 o \u00e1lbum do George Harrison, quando ele saiu da banda. O \u201cAll Thing Must Pass\u201d \u00e9 o \u00e1lbum de um ex-beatle que mais vendeu at\u00e9 hoje. Ele nunca foi superado. O cara tinha composi\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas que n\u00e3o entraram na banda. \u00c9 \u00f3bvio que um cara desse fica infeliz, enfrentando um momento de limita\u00e7\u00e3o. Ele quer colocar o seu material para dentro da banda e o resto n\u00e3o deixa. Tem essas elei\u00e7\u00f5es. As bandas t\u00eam comportamentos pol\u00edticos dentro dos seus modos de operar. Isso \u00e9 normal. Toda banda tem sua pol\u00edtica interna. Tem momentos assim que levam a coisas muito boas, e tem momentos de frustra\u00e7\u00e3o. E as bandas acabam por conta disso. Ou algumas acabam, mas n\u00e3o querem acabar e prosseguem. Tem isso, tamb\u00e9m. O cara j\u00e1 acabou, mas prossegue mesmo assim, e fica ali e vai at\u00e9 o final da vida. \u00c9 legitimo, tamb\u00e9m. O que se vai fazer. Mas veja a carreira solo do George Harrison. Ela \u00e9 fant\u00e1stica. Ela s\u00f3 \u00e9 equipar\u00e1vel \u00e0 carreira solo do Paul McCartney. O Paul fez discos incr\u00edveis solo. Continua fazendo. E o George Harrison tamb\u00e9m. Para mim, a carreira solo do John Lennon n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa quanto a do Paul e a do George. E a carreira do Ringo \u00e9 legal, tamb\u00e9m. \u00c9 relevante. Mas, artisticamente, em termos de ideias novas, o Paul e o George foram muito mais \u00e0 frente. N\u00e3o \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o, uma competi\u00e7\u00e3o. Enquanto esses quatros estiveram juntos ali e sintonizados, eles produziram uma mudan\u00e7a cultural. N\u00e3o foi s\u00f3 na m\u00fasica, foi uma mudan\u00e7a cultural no planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar do desgaste como banda, como parceiros musicais e profissionais de longa data, voc\u00ea consegue, em um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o, colocar os Beatles em atividade durante a d\u00e9cada de 1970?<\/strong><br \/>\nAcho que seria um cen\u00e1rio dif\u00edcil para os Beatles, porque a verborragia instrumental era uma esp\u00e9cie de padr\u00e3o. Os Beatles nunca foram de verborragia instrumental. De excesso. Muito pelo contr\u00e1rio. \u00c9 uma banda que sabia usar o sil\u00eancio, o n\u00e3o tocar, de forma muito inteligente. Eles eram muito inteligentes e elegantes. Mas quando vira os anos 1960 para os anos 1970, a m\u00fasica pop se transforma. N\u00e3o sei a explica\u00e7\u00e3o para isso ainda. E venho pensando isso h\u00e1 algum tempo. A m\u00fasica pop, o rock especialmente, ele \u00e9 tomado por uma verborragia, por um excesso de notas, de est\u00e9tica, que \u00e9 um pouco cansativo, tamb\u00e9m. Se voc\u00ea pegar essas \u2018Jam Sessions\u2019 do Cream, cada m\u00fasica durava 15, 20 minutos. E de improviso. Aquilo voc\u00ea precisava estar dopado para suportar aquilo, concorda? (risos) Ou voc\u00ea fumava um, ou voc\u00ea tomava, sei l\u00e1, um \u00e1cido, e fica curtindo ali. O Santana tamb\u00e9m embarcou nessa. Ali no final dos anos 1960, come\u00e7o dos anos 1970, a m\u00fasica estava um pouco nessa onda, desses excessos, improvisa\u00e7\u00f5es. Muita coisa vinha do Jazz. Todos esses m\u00fasicos ouviam Jazz e tentaram trazer esses procedimentos, essa forma de trazer a m\u00fasica para dentro do Rock daquele momento. E isso n\u00e3o tem nada a ver com o Rock Progressivo, t\u00e1? Rock Progressivo \u00e9 outra hist\u00f3ria. Tudo bem no Rock Progressivo as faixas terem 18, 20 minutos. Porque \u00e9 uma faixa com v\u00e1rias m\u00fasicas dentro. \u00c9 outra forma de ver. Estou falando desses excessos de bandas dos anos 1970 como o Cream, ou at\u00e9 o Deep Purple. O Deep Purple \u00e9 uma esp\u00e9cie de Cream nos discos ao vivo. As m\u00fasicas tinham 10, 15 minutos Um lado do \u201cMade in Japan\u201d, do Deep Purple, tem duas m\u00fasicas. 12 minutos cada m\u00fasica, de improvisos, de solos. Os m\u00fasicos do Deep Purples se prestavam a fazer isso porque eles tinham talento para tanto. \u00c9 preciso reconhecer isso. Mas acho que seria um quadro muito dif\u00edcil para os Beatles sobreviverem dentro dessa est\u00e9tica, de experimenta\u00e7\u00e3o. Acho que os Stones conseguiram isso porque os Stones estavam ligados a uma coisa mais cl\u00e1ssica da m\u00fasica, que \u00e9 o Blues. Ent\u00e3o, de certa forma, os Stones passaram batido com aquele som que n\u00e3o mudou tanto ao longo da d\u00e9cada de 1970. Algumas mudan\u00e7as vieram, mas os Stones dos anos 1960 t\u00eam aquela energia t\u00edpica dos anos 1960. Nos anos 1970, o andamento baixa um pouco devido \u00e0 maconha, \u00e0s drogas, as m\u00fasicas t\u00eam um andamento mais baixo. N\u00e3o t\u00eam aquela urg\u00eancia dos anos 1960. A mesma coisa acontece com The Who, que tamb\u00e9m improvisava muito. Acho que seria um espa\u00e7o dif\u00edcil dos Beatles diante dessa coisa que se estabeleceu em fun\u00e7\u00e3o disso. Eu, quando comecei a tocar bateria, ouvi muito cara l\u00e1 em S\u00e3o Paulo dizer o seguinte: &#8220;Ah, bandas que s\u00e3o relevantes para a nossa gera\u00e7\u00e3o.&#8221; Eram essas bandas do Rock brit\u00e2nico que a gente citou aqui. Black Sabbath, Led Zeppelin, Genesis, Jethro Tull, Deep Purple, Bad Company, Emerson, Lake &amp; Palmer, Yes, e por a\u00ed vai. Bandas relevantes. E muita gente dizia: &#8220;Mas, pera\u00ea, e Beatles? Stones?&#8221;. E eles: &#8220;Ah, esses caras n\u00e3o s\u00e3o t\u00e2o bons. N\u00e3o tocam nada. N\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bons m\u00fasicos. Voc\u00ea v\u00ea esses caras tocando em um telhado. Um neg\u00f3cio meio amador. Parece uma coisa meio de col\u00e9gio aquilo ali.&#8221; Ent\u00e3o, de certa forma, \u00e9 uma coisa geracional. Muita gente da minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o entendeu o que os Beatles eram por conta desse tipo de an\u00e1lise, desse tipo de olhar. &#8220;Ah, o que importa pra mim? O que importa \u00e9 um cara que toca pra caramba, que sola muito, que tecnicamente \u00e9 um monstro.&#8221; Que \u00e9 o que acontece com todas essas bandas que eu citei aqui. Grandes m\u00fasicos, com capacidade de improvisar e solar. Seria um quadro dif\u00edcil para os Beatles. Tanto \u00e9 que, durante muito tempo, n\u00e3o se falou da relev\u00e2ncia dos Beatles da maneira como a gente fala hoje. N\u00e3o que eles tenham sido esquecidos, mas eu me lembro de, nos anos 1980, a gente n\u00e3o falava tanto sobre Beatles. A gente n\u00e3o falava sobre eles do jeito que falamos e reconhecemos hoje. Os Beatles s\u00e3o incr\u00edveis, mas ningu\u00e9m ficava falando muito ou refletindo muito. \u00c9 uma coisa geracional, tamb\u00e9m. Caracter\u00edsticas culturais daquele momento. A m\u00fasica pop foi indo para um lado de excessos. De verborragia. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que a d\u00e9cada de 1970 \u00e9 a d\u00e9cada do Jazz-Rock, \u00e9 a d\u00e9cada do Hard Rock, \u00e9 a d\u00e9cada desses g\u00eaneros, vertentes e bandas que t\u00eam um exagero absurdo. Isso tamb\u00e9m tece um tempo. Hoje n\u00e3o se faz mais m\u00fasica de cinco minutos na m\u00fasica pop. \u00c9 raro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Realmente. \u00c9 dif\u00edcil pensar neles ainda juntos, tocando ao vivo, entrando em turn\u00ea, dentro de um contexto musical como foram os anos 1970.<\/strong><br \/>\nA gente n\u00e3o pode ignorar as mudan\u00e7as culturais. A m\u00fasica, ela responde \u00e0s mudan\u00e7as culturais da nossa \u00e9poca, da que a gente est\u00e1 vivendo. A m\u00fasica \u00e9 o grande or\u00e1culo da humanidade. Tudo que acontece na humanidade, politicamente, economicamente, socialmente, culturalmente, reflete na m\u00fasica popular. Quer queira, quer n\u00e3o queira. N\u00e3o tem como negar. Ent\u00e3o, se os Beatles t\u00eam uma m\u00fasica t\u00e3o relevante nos anos 1960, chegam ao final deles e acabam, podemos entender que eles acabam antes de esgotarem suas possibilidades, concorda? Provavelmente, eles, juntos, poderiam ainda produzir muita coisa boa. Mas n\u00e3o optaram por isso. Acabaram por ali. Algumas bandas acabaram antes do que a gente achava que elas deveriam acabar. E entraram para a Hist\u00f3ria. Porque, no meu entender, na minha avalia\u00e7\u00e3o, quando uma banda muito importante para a Hist\u00f3ria da M\u00fasica faz discos importantes, relevantes, e por anos, de alguma forma, tentam continuar, gera um desgaste. Ela continua gravando, e continua ali, e as pessoas t\u00eam certa m\u00e1 vontade com isso, \u00e0s vezes. Acham que ela deveria ter parado em determinado momento. No caso dos Beatles, o fato de todos os discos deles serem bons e importantes, fez tamb\u00e9m com que eles ficassem nessa posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o singular. Se a gente parar pra pensar, olha s\u00f3, um exemplo: Police tem cinco discos. Depois a banda se separa. \u00c9 uma banda que eu adoro. A banda se separa, o Sting segue a carreira dele, o Stewart Copeland a dele e o Andy Summers a dele. Agora, o Sting \u00e9 um baita compositor, obviamente. Mas, pra mim, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que nos shows ele tem que tocar as m\u00fasicas que fez com o Police, cara. Ele tem que tocar! E s\u00e3o as melhores. Depois do Police, ele fez grandes can\u00e7\u00f5es, mas nada pra mim supera o Police. E por a\u00ed vai. Ent\u00e3o, essa entidade banda, voltando para o assunto, ela \u00e9 uma entidade muito poderosa quando tem a sinergia que voc\u00ea citou. A qu\u00edmica, a sintonia intelectual. Isso \u00e9 important\u00edssimo em uma banda. Quando a banda tem esses atributos e os m\u00fasicos ali s\u00e3o grandes artistas, tem tudo pra dar certo. Normalmente, d\u00e1. Mas, vamos simular um quadro aqui. Se viessem os Beatles tocando nos anos 1970, com as mudan\u00e7as culturais dos anos 1970. Esse excesso de informa\u00e7\u00e3o, que eu chamei de verborragia instrumental, improvisos, solos longu\u00edssimos, muita viagem. As drogas tamb\u00e9m haviam mudado. Imagina os Beatles entrando em um festival de Rock. Imagina esse quadro. Festival de Rock nos anos 1970. Tivemos v\u00e1rios na Calif\u00f3rnia. Vem John, Paul, George e Ringo tocando ao vivo do jeito que tocavam. E depois vem uma daquelas trocentas bandas norte americanas que faziam barulho pra caramba. MC5, por exemplo. Uma banda barulhenta, pesad\u00edssima, perto dos Beatles. Acho que diriam: &#8220;bom, os Beatles perto do MC5 n\u00e3o s\u00e3o nada. S\u00e3o uns gatinhos bem comportados, ali, perto de um tigre&#8221;. A m\u00fasica foi mudando, os tra\u00e7os v\u00e3o se modificando. Como \u00e9 que os Beatles iam lidar com isso? A gente n\u00e3o sabe. A gente est\u00e1 aqui especulando. Mas que seria dif\u00edcil pegar os Beatles e colocar do lado Emerson, Lake &amp; Palmer, por exemplo, uma das bandas que mais explorou esse exagero, n\u00e9? Nos shows do Emerson, Lake &amp; Palmer, as m\u00fasicas tinham 20 minutos. Eu adoro! Mas, assim, s\u00f3 naquela \u00e9poca que isso seria poss\u00edvel. As pessoas ficavam ali ouvindo aquela m\u00fasica instrumental. Keith Emerson solando durante 20 minutos. Quem ia aguentar isso hoje? Ningu\u00e9m tem mais paci\u00eancia. Ent\u00e3o, como \u00e9 que os Beatles se sairiam diante de um quadro como esse? Um festival que tinha, ali, vamos supor: 1974. O que teria? Emerson, Lake &amp; Palmer, Yes, MC5, Deep Purple e Beatles. Cara, bandas que ao vivo arrasavam. Tocavam muito bem. Eram muito agressivas. Os Beatles, at\u00e9 onde eu sei, eram uma banda que tinha muita energia, mas tinha uma coisa mais delicada, entendeu? N\u00e3o t\u00e3o brutal quanto tinha MC5, ou Led Zeppelin, cujas apresenta\u00e7\u00f5es eram explosivas. Ou ent\u00e3o, Stooges, com Iggy Pop. Cara, os shows do Stooges acabavam em pancadaria porque o Iggy Pop mergulhava na plateia e as pessoas saiam ali, curtindo, se esbofeteando, e depois estava tudo certo, entendeu? Diziam que os shows do Iggy Pop, durante os Stooges e depois, eram shows perigos\u00edssimos. Voc\u00ea podia levar um pedestal de microfone no meio da cabe\u00e7a se voc\u00ea estivesse perto dele (risos). Os Beatles n\u00e3o fariam isso. Todas essas coisas que se tornaram comuns no Rock and Roll, ou em todo universo do Rock anda Roll, que se comercializou bastante&#8230; Veja o Kiss, por exemplo. O Kiss \u00e9 final de 1973, come\u00e7o de 1974. Eles v\u00eam com explos\u00e3o, maquiagem. Aquelas roupas. Eu adoro aquilo. Mas, assim, vamos combinar, aquela praia n\u00e3o tinha nada a ver com John Lennon. John Lennon era um cara politizado. Um cara lutando pela paz. O Paul McCartney \u00e9 um cara cabe\u00e7a. O George Harrison, um cara espiritualizado. Fez v\u00e1rias viagens para a \u00cdndia. Um cara que estudou bastante a m\u00fasica indiana. Um cara que tinha uma forma\u00e7\u00e3o religiosa, de filosofia oriental profunda. Era uma pessoa especializada. Olha o \u201cAll Things Must Pass\u201d o disco que \u00e9. Ent\u00e3o, digamos, essa ala do Rock que depois vai dar no Heavy Metal, no Hard Rock, no Punk Rock, n\u00e3o tinha muito a ver com os Beatles, se voc\u00ea parar pra pensar. Com as pessoas que eles eram. Ent\u00e3o, ia ser um quadro dif\u00edcil, acho, no cen\u00e1rio. Eles poderiam continuar s\u00f3 em est\u00fadio. E isso seria uma outra hist\u00f3ria. Isso a gente n\u00e3o sabe. Mas, se fosse ao vivo, a coisa ia ser meio dif\u00edcil para eles. Mas poderiam prosseguir s\u00f3 gravando. Como seria a sobreviv\u00eancia dos Beatles em um cen\u00e1rio dos anos 1970? Seria muito mais f\u00e1cil se eles prosseguissem gravando e permanecendo apenas como uma banda de est\u00fadio. Uma banda que n\u00e3o se apresentasse ao vivo. Porque, se fosse para se apresentar ao vivo, eles iam ter que lidar com essas novas regras do show business. E para eles, para uma banda como eles, ia ser muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Genius Of Ringo Starr\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZDY-YeNTcE4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ideia do projeto \u201cGet Back\u201d, de 1969, era que eles pudessem voltar a se apresentar ao vivo. Mas acabou n\u00e3o vingando. Tornou-se o \u00e1lbum \u201cLet it Be\u201d, e o show no telhado se tornou um expurgo para banda at\u00e9 entrarem em est\u00fadio para gravar \u201cAbbey Road\u201d. Imagin\u00e1-los seguindo gravando, mesmo com suas carreiras solo em paralelo, \u00e9 um exerc\u00edcio curioso. Mas todas as mudan\u00e7as que voc\u00ea citou nos anos 1970 seriam, realmente, um entrave para os quatro.<\/strong><br \/>\nSim. Basta ver o show business o que virou depois a partir dali. Olha s\u00f3, por exemplo, eu adoro o Genesis. E adoro o Peter Gabriel. O Genesis \u00e9 consequ\u00eancia dos Beatles, assim como Yes e o Pink Floyd. Essas tr\u00eas bandas s\u00e3o consequ\u00eancias dos Beatles diretamente. At\u00e9 o Black Sabbath. Ozzy Osbourne fala isso. &#8220;Eu s\u00f3 entrei nessa da m\u00fasica por conta dos Beatles. \u00c9 a banda mais importante para mim, E sempre vai ser.&#8221; O Peter Gabriel, tamb\u00e9m. As m\u00fasicas dos Genesis eram aquela coisa meio pastoral da Inglaterra. Uma coisa meio rural, que ningu\u00e9m mais fazia. Mas era uma coisa, do ponto de vista do espet\u00e1culo, meio mon\u00f3tona. Eles sentiam uma monotonia e as pessoas precisavam de mais coisas em termos c\u00eanicos. E o Peter Gabriel inventa as fantasias. Inventa maquiagem. Inventa coisas assim que v\u00e3o transformando o show do Genesis em uma outra experi\u00eancia. Vai ficando uma coisa cada vez mais teatral. Ent\u00e3o, veja voc\u00ea, uma banda que \u00e9 consequ\u00eancia dos Beatles, que \u00e9 o Genesis, dentro das novas regras do show business dos anos 1970, vai tendo que se transformar numa outra coisa. E o Peter Gabriel fez isso sozinho, porque os outros s\u00f3 queriam tocar. N\u00e3o queriam nem ficar de p\u00e9. Queriam ficar sentados, tocando. Todos os outros quatro, que eram g\u00eanios, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, eu acho que do ponto de vista do show business, de fato, seria um quadro desafiador para os Beatles, sem d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda assim, \u00e9 impressionante ver como os quatro, sozinhos, conseguiram se adaptar bem pelos anos seguintes. Paul McCartney principalmente, com uma carreira solo que j\u00e1 se estende por 50 anos. George, apesar de recluso e n\u00e3o muito chegado aos shows ao vivo, lan\u00e7ou discos fundamentais.<\/strong><br \/>\nMas, veja voc\u00ea, o George Harrison, um cara recluso, explode com o \u201cAll Things Must Pass\u201d (1970). O John Lennon vira um ativista, vai morar em Nova York. Trava uma luta contra o governo norte americano. Porque ele defendia posi\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es que iam totalmente de encontro ao partido republicano norte americano. Ele era um cara execrado pelos republicanos, pelas ideias que ele defendeu. John Lennon era um cara muito \u00e0 frente de sua \u00e9poca, politicamente falando. Um artista fant\u00e1stico e um grande ativista dos direitos humanos, das causas pela paz. Por outro lado, Paul McCartney fez a banda Wings e sobreviveu muito bem nos anos 1970. Era um dos grandes shows dos anos 1970. Fez \u00f3timos discos. Ent\u00e3o, Paul, g\u00eanio que \u00e9, acho que ele, sim, conseguiu passar bem pelos anos 1970. Ele conseguiu passar por cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s os Beatles. Mas ele sempre teve bandas muito boas. Os shows do Paul sempre foram bons. \u00c9 isso que eu estou te falando. Porque, assim, para voc\u00ea sobreviver no meio, a n\u00e3o ser que voc\u00ea queira ser um artista de est\u00fadio, precisa se reinventar. A partir dos anos 1970, o show ao vivo passou a ser uma coisa muito importante na vida de um artista. Eu me criei dentro dessa mentalidade. Eu sou um cara que adorava e adoro discos ao vivo. Ent\u00e3o, na minha adolesc\u00eancia, a gente esperava pelos lan\u00e7amentos. \u201cQuando vamos ter o pr\u00f3ximo disco ao vivo do Deep Purple? Quando vamos ter o disco ao vivo do Rainbow? Quando vamos ter o disco ao vivo do Kansas?\u201d Kansas \u00e9 uma banda que eu adorava. Uma banda meio prog, meio hard norte americana. Ent\u00e3o, essas bandas todas tinham que ir pro est\u00e1dio. E o Paul sempre teve uma banda ao vivo muito boa, que era o Wings. Bons m\u00fasicos. E ele \u00e9 um cara que, ao vivo, aprendeu muito bem como fazer bons shows. Shows grandes, na verdade, Grandes turn\u00eas. O Paul tem um disco ao vivo, um \u00e1lbum duplo, chamado \u201cWings Over America\u201d (1976). Uma turn\u00ea imensa que ele fez nos Estados Unidos. O Paul sempre teve a carreira com grandes m\u00fasicas ao vivo. Ele sempre foi muito inteligente. A carreira solo dele sempre teve grandes m\u00fasicas. Algumas delas altamente radiof\u00f4nicas. Ele sempre teve sucesso em r\u00e1dio. Isso foi fundamental. Coisa que o John Lennon n\u00e3o conseguiu exatamente tanto quanto o Paul. Da\u00ed vem aquela m\u00fasica \u201cHow Do You Sleep?\u201d, chamando o Paul de um sujeito vendido ao sucesso. Eu discordo dessa vis\u00e3o do John Lennon. Mas, tudo bem. John Lennon era um cara assim, mesmo. Em certos momentos era um cara radical. Mas o Paul foi um cara que entendeu isso muito mais do que os outros tr\u00eas. A equa\u00e7\u00e3o show, disco e sucesso de r\u00e1dio. Ele entendeu essa equa\u00e7\u00e3o e a usou muito bem. Muito mais do que os outros tr\u00eas. Ele sobreviveu aos anos 1970, 80 e 90 e chegou ao presente em perfeita forma. O Paul est\u00e1 com 78 anos. Gil fez 78 anos, tamb\u00e9m, Tem um v\u00eddeo que est\u00e1 circulando na internet com todos cantando \u201cAndar com F\u00e9\u201d. Termina com o Stevie Wonder cantando parab\u00e9ns pra voc\u00ea. Emocionante. Todos os amigos pr\u00f3ximos ao Gil. Que coisa incr\u00edvel esse v\u00eddeo. Caetano faz 78 esse ano. Essa gera\u00e7\u00e3o que a gente est\u00e1 falando aqui h\u00e1 horas. Essa gera\u00e7\u00e3o mudou a m\u00fasica pop. A gente tem que ser muito grato a todos eles. Gil, Caetano, Chico, Milton, os Beatles, Eric Clapton, um pouco mais novo. A gera\u00e7\u00e3o dos anos 1940 \u00e9 foda. Marcos Valle, Edu Lobo, Bob Dylan. Eles mudaram o mundo. Agora est\u00e3o todos com 78, 79. \u00c9 meio aflitivo isso. A gente aqui s\u00f3 olhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou discos pilares dos Beatles no decorrer desse papo. Conseguiria eleger o seu preferido?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito dif\u00edcil eleger. Essas efem\u00e9rides que t\u00eam acontecido nos \u00e1lbuns dos Beatles recentemente, por exemplo. Lan\u00e7amentos de material novo. S\u00e3o relan\u00e7amentos fant\u00e1sticos. Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil escolher um \u00e1lbum dos Beatles. Algo que seja mais relevante. Voc\u00ea pode escolher aquele que em algum momento te bate mais. Mas, quando, h\u00e1 tr\u00eas anos, houve a reedi\u00e7\u00e3o do \u201cSgt. Peppers\u201d, de 1967, remixada pelo filho do George Martin, o Gilles Martin, veio muito material na imprensa. Eu li bastante sobre o quadro cultural da \u00e9poca. Hoje, posso colocar o \u201cSgt. Peppers\u201d (como o meu favorito). Amanh\u00e3 pode ser outro. Mas quando ouvi o \u201cSgt. Peppers\u201d nessa outra vers\u00e3o de 2017 foi incr\u00edvel. N\u00e3o s\u00f3 a vers\u00e3o do \u201cSgt. Peppers\u201d refeita pelo Gilles Martin, com todo o trabalho de remixagem primoroso dele. Mas, dentro disso, no lan\u00e7amento desse disco, quando eu comprei nessa edi\u00e7\u00e3o comemorativa, eu lembro que eu alcancei uma entrevista do Paul McCartney na revista inglesa Mojo. Para mim, \u00e9 a melhor revista de m\u00fasica do mundo. Sempre foi. E tem uma Mojo do \u201cSgt Peppers\u201d com uma entrevista do Paul McCartney. Ele falando do processo. A remixagem passou por ele, que aprovou esse novo trabalho. Ele falou sobre o formato stereo, que os Beatles n\u00e3o acreditavam nesse formato. Quando ele surgiu no mercado, na Inglaterra, as pessoas n\u00e3o acreditavam que esse formato ia vingar. Ent\u00e3o, os Beatles se concentravam na mixagem mono. As mixagens stereo eram mais para o mercado norte americano, pois, na Europa, as pessoas ouviam os discos em mono, ainda. E e o Paul falou que, durante muitos anos, ele sempre preferiu as mixagens mono dos Beatles em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mixagens stereo. E que essa mixagem do \u201cSgt. Peppers\u201d era uma que ele havia gostado e achava que se equiparava \u00e0 mixagem mono. Cara, quando ele falou isso nessa entrevista, eu me dei conta de que, durante grande parte da minha vida, depois que eu comecei me interessar por m\u00fasica em outro n\u00edvel, eu sempre tinha ouvido Beatles em stereo. E depois de ler o Paul McCartney falado isso, eu falei, caramba! O que sempre importou para a banda eram as mixagens mono. Que s\u00e3o completamente diferentes. Eu pedi emprestado um box mono, que eu n\u00e3o tinha, dos Beatles, e fui ouvir tudo de novo. Dessa vez, em mono. Inclusive o \u201cSgt. Peppers\u201d, obviamente, n\u00e9? Cara, e sinceramente, achei que Beatles em mono era muito mais legal que Beatles em stereo (risos). Paul McCartney tinha raz\u00e3o. Aquela concentra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Aquela massa sonora traduzida no formato mono era, e acho at\u00e9 hoje, muito melhor do que o formato stereo. E dentro desse contexto, o \u201cSgt. Peppers\u201d brotou ainda mais como uma obra absolutamente revolucion\u00e1ria. Dentro desse formato que \u00e9 o mono. Como \u00e9 que algu\u00e9m pode fazer um disco daquele jeito ainda no formato mono? Um formato que era muito dif\u00edcil de voc\u00ea mixar. Essa entrevista do Paul McCartney foi decisiva para mim, porque, com ela, eu recuperei os Beatles em mono. Coisa que eu n\u00e3o tinha parado para pensar ainda. Isso foi em 2017, cara. Agora, praticamente. Eu n\u00e3o consigo encontrar um \u00e1lbum mais importante para a cultura pop do que esse. E olha que tem outros. Eu n\u00e3o toco bateria por conta dos Beatles, como j\u00e1 te falei. Eu toco bateria por conta do Led Zeppelin. Mas, agora, depois de muito tempo, maduro, muito tempo ouvindo tudo, digo que n\u00e3o h\u00e1 um \u00e1lbum mais relevante para a cultura pop que o \u201cSgt. Peppers\u201d. Nem o \u201cPet Sounds\u201d (dos Beach Boys), que \u00e9 um puta disco. Um \u00e1lbum extraordin\u00e1rio. Mas n\u00e3o d\u00e1 para o \u201cSgt. Peppers\u201d. N\u00e3o chega a ser t\u00e3o relevante culturalmente. N\u00e3o chega at\u00e9 o disco dos Beatles. Ent\u00e3o, tentando responder a sua pergunta mais uma vez de forma quilom\u00e9trica (risos), eu ficaria com o \u201cSgt. Peppers\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sgt Pepper&#039;s Lonely Hearts Club Band\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL65eY6eS8rRz25y0p_Li96bhD8Fhaztgg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e com o Scream &amp; Yell desde 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>LEIA TAMB\u00c9M -&gt; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-joao-barone\/\">ESPECIAL: RINGO STARR 80 ANOS, POR JO\u00c3O BARONE<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA partir do Ed Sullivan Show, o baterista ocupou um espa\u00e7o. Ringo trouxe n\u00e3o s\u00f3 a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atr\u00e1s. Deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presen\u00e7a do baterista para o lugar do protagonista&#8221;, opina Charles Gavin nos 80 anos de Ringo Starr.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-charles-gavin\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":56648,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2229,4274,1521,381],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56654"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78555,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56654\/revisions\/78555"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56648"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}