{"id":5661,"date":"2010-08-21T09:05:21","date_gmt":"2010-08-21T12:05:21","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5661"},"modified":"2023-03-29T00:39:38","modified_gmt":"2023-03-29T03:39:38","slug":"uma-solidao-ruidosa-bohumil-hrabal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/21\/uma-solidao-ruidosa-bohumil-hrabal\/","title":{"rendered":"Uma Solid\u00e3o Ruidosa, Bohumil Hrabal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-5662\" title=\"solidao_ruidosa\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/solidao_ruidosa.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Jonas Lopes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A expans\u00e3o do mercado editorial para tradu\u00e7\u00f5es em l\u00edngua menos comuns e mesmo o espa\u00e7o para a divulga\u00e7\u00e3o de escritores pouco conhecidos de idiomas tradicionais n\u00e3o para de render bons frutos aos leitores brasileiros, ainda que em ritmo de conta-gotas. Entre os autores dessas duas vertentes editados no pa\u00eds nesta \u00faltima d\u00e9cada, sobretudo da Europa Central e do leste do continente, e que praticam a escrita em algum momento do s\u00e9culo passado, est\u00e3o o polon\u00eas Witold Gombrowicz, o austr\u00edaco Joseph Roth, os h\u00fangaros Gyula Kr\u00fady, S\u00e1ndor M\u00e1rai e Imre Kert\u00e9sz, o checo Karel ?apek, os russos Nikolai Leskov e Leonid Ts\u00edpkin e o alem\u00e3o Ernst J\u00fcnger \u2013 incompreensivelmente, o su\u00ed\u00e7o Robert Walser, o polon\u00eas Bruno Schulz e o austr\u00edaco Hermann Broch andam esquecidos; alguns, como o h\u00fangaro P\u00e9ter N\u00e1das, ainda aguardam a primeira chance. Outro nome favorecido por esse movimento positivo \u00e9 o checo\u00a0 Bohumil Hrabal (1914-1997). Depois de publicar por aqui o romance &#8220;Eu Servi o Rei da Inglaterra&#8221;, a Companhia das Letras lan\u00e7ou h\u00e1 pouco tempo a primorosa novela &#8220;Uma Solid\u00e3o Ruidosa&#8221;, datada de 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hrabal povoa suas obras com figuras que podemos considerar varia\u00e7\u00f5es c\u00f4micas das cria\u00e7\u00f5es de Robert Walser. Ou seja, protagonistas nascidos para perder e fracassar, que de certa forma t\u00eam orgulho disso. S\u00f3 que enquanto Walser manipula os sentimentos dos personagens com o intuito de torn\u00e1-los misantr\u00f3picos e pouco soci\u00e1veis, Hrabal aposta na falta de senso de rid\u00edculo. O que o su\u00ed\u00e7o tem de ironia blas\u00e9 (e humor, sim, mas bem peculiar), o checo tem de gargalhada franca e picaresca. O her\u00f3i de Uma solid\u00e3o ruidosa \u00e9 Hant&#8217;a. H\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas ele, a servi\u00e7o do regime comunista, compacta papel em uma prensa jur\u00e1ssica num por\u00e3o \u2013 livros proibidos e considerados subversivos pelo governo. S\u00f3 que nem tudo \u00e9 jogado na m\u00e1quina; Hant&#8217;a guarda consigo uma parte dos livros para ler enquanto entorna litros de cerveja. Assim, converte-se em uma mente iluminada para as humanidades, um admirador de Kant, Goethe (\u201caquele prolongamento da Gr\u00e9cia antiga\u201d), S\u00f3crates, Nietzsche, Novalis e, em especial, S\u00eaneca, al\u00e9m de admirar reprodu\u00e7\u00f5es de mestres da pintura \u2013 Rembrandt, Brueghel, Van Gogh.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo em que alimenta essa erudi\u00e7\u00e3o \u00e9bria, sua \u201csolid\u00e3o densamente povoada\u201d, Hant&#8217;a, vers\u00e3o idiota do homem sem qualidades de Musil, tra\u00e7a uma cronologia mental da trajet\u00f3ria humana, erros e acertos, festejos e guerras. Bebe cerveja e antev\u00ea o futuro trancado com os ratos num por\u00e3o imundo enquanto tenta se ilustrar e cumprir algum papel na hist\u00f3ria: \u201ctudo o que vejo neste mundo se move para tr\u00e1s e para a frente ao mesmo tempo, como um fole de ferreiro (&#8230;) \u00e9 isso que faz o mundo girar\u201d. O hil\u00e1rio compactador arremessa pap\u00e9is e livros na prensa e, com isso, elimina fatos hist\u00f3ricos, ou, ao decidir salvar este ou aquele documento, transforma fic\u00e7\u00f5es em fatos e vice-versa. Pois quem deveria manejar o rumo dos acontecimentos deveria ser o indiv\u00edduo, parece gritar Hant&#8217;a, oprimido pela ditadura socialista (todo regime totalit\u00e1rio come\u00e7a eliminando qualquer sinal intelectual, de pensamento e lucidez) e seu af\u00e3 coletivista. Hrabal emoldura os lamentos nada lacrimosos e os disparos desencantados do narrador em frases quilom\u00e9tricas (Milan Kundera chegou a definir sua imagina\u00e7\u00e3o como barroca; o mesmo vale para a prosa, de corpo arcaico e alma modernista), como se cada f\u00f4lego tomado, cada senten\u00e7a encadeada, cada fluxo de consci\u00eancia perpetrado, fosse uma nova impreca\u00e7\u00e3o, um drible desconcertante no horror e na censura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<br \/>\nJonas Lopes \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/gymnopedies.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gymnopedies<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Bohumil_Hrabal_Wall_Prague_Liben_CZ.JPG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5670 aligncenter\" title=\"habrau\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/habrau.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p>Muro Habrau, em Praga, no bairro em que o escritor passou toda sua vida na Rep\u00fablica Tcheca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Jonas Lopes\nO escritor checo povoa suas hist\u00f3rias com protagonistas nascidos para perder e fracassar, que t\u00eam certo orgulho disso. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/21\/uma-solidao-ruidosa-bohumil-hrabal\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":122,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5661"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/122"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5661"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73606,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5661\/revisions\/73606"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}