{"id":5654,"date":"2010-08-21T08:50:48","date_gmt":"2010-08-21T11:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5654"},"modified":"2023-08-12T01:06:18","modified_gmt":"2023-08-12T04:06:18","slug":"cd-revanche-fresno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/21\/cd-revanche-fresno\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Revanche&#8221; flagra uma Fresno em vergonha de arriscar nem pregui\u00e7a de tentar evoluir"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 segredo pra ningu\u00e9m que nos \u00faltimos dez anos \u2013 pra n\u00e3o dizer quinze ou vinte \u2013 a Internet mudou a maneira como a m\u00fasica \u00e9 produzida. Mais do que isso, a web se tornou um grande ambiente de divulga\u00e7\u00e3o para muitos artistas. Entretanto, se avaliarmos com aten\u00e7\u00e3o, conquistar o sucesso entre os internautas \u00e9 apenas conquistar um determinado nicho, composto geralmente por jovens de classe m\u00e9dia. O \u201ct\u00e3o-falado-e-sonhado\u201d sucesso de p\u00fablico, com crian\u00e7as e velhinhos de todas as cores, credos e sal\u00e1rios cantando pelas ruas os refr\u00f5es de uma banda, \u00e9 um passo \u2013 longo \u2013 que vai um pouco al\u00e9m dos arquivos mp3 e das r\u00e1dios especializadas. O Fresno, talvez o melhor exemplo brasileiro que soube aproveitar o espa\u00e7o virtual para trazer os holofotes para si mesmo, agora procura superar esse novo desafio \u2013 e tamb\u00e9m o preconceito de muitos ouvintes \u2013 em seu novo disco, &#8220;Revanche&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de tudo, cabe explicar ao leitor a superlativa frase do par\u00e1grafo acima contando a hist\u00f3ria da banda ga\u00facha. Formado em 1999, em Porto Alegre, por Lucas Silveira (vocal e guitarra), Gustavo Mantovani (guitarra), Rodrigo Tavares (baixo) e Bell Ruschell (bateria), o conjunto lan\u00e7ou tr\u00eas discos independentes &#8211; hoje raros, sendo que alguns chegam a custar rid\u00edculos R$150 em sebos especializados &#8211; que juntos venderam 20 mil c\u00f3pias apenas no boca a boca do p\u00fablico via internet, utilizando-se de sites como o TramaVirtual, o fotolog.com e at\u00e9 mesmo o orkut. Em 2008, ap\u00f3s assinar com o selo Arsenal, do &#8220;produtor musical&#8221; Rick Bonadio, procuraram de alguma maneira flertar com o pop &#8211; mas sem grandes resultados &#8211; no disco &#8220;Reden\u00e7\u00e3o&#8221;. O que aconteceu foi na verdade que eles se tornaram quase unanimidade para o p\u00fablico alvo que j\u00e1 tinham conquistado, sendo um dos grandes baluartes do que se convencionou chamar de emo \u2013 um estilo que tem muitos f\u00e3s ardorosos, mas tamb\u00e9m tem detratores convictos na mesma propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o maior obst\u00e1culo que o Fresno tenha que superar nessa nova batalha a fim de conquistar o mundo, desde o seu irm\u00e3o de 5 anos, at\u00e9 o seu av\u00f4, passando pela sua empregada e pelo seu colega de trabalho com s\u00edndrome de underground, \u00e9 o preconceito. \u00c9 bem poss\u00edvel que ao ler o nome \u201cFresno\u201d no primeiro par\u00e1grafo, voc\u00ea tenha feito uma cara feia e pensado: \u201cvou ler s\u00f3 pra poder discordar do que o cara vai falar\u201d. Queira ou n\u00e3o queira, eles ainda s\u00e3o os mesmos caras respons\u00e1veis por p\u00e9rolas do movimento chor\u00e3o &#8211; como &#8220;Cada po\u00e7a dessa rua tem um pouco das minhas l\u00e1grimas&#8221; e &#8220;Cantando, e mais do que isso gritando, e \u00e0s vezes at\u00e9 confessando que eu n\u00e3o sei amar&#8221; &#8211; e ficaram estigmatizados por isso. E n\u00e3o d\u00e1 pra negar que uma das grandes for\u00e7as &#8211; ou defeitos, dependendo do ouvinte &#8211; do Fresno s\u00e3o as narrativas confessionais de Lucas Silveira, algu\u00e9m que parece que j\u00e1 sentiu na pele as palavras que canta. Mas \u00e9 uma faca de dois gumes, porque o que ao mesmo tempo pode servir de fator de identifica\u00e7\u00e3o pode soar brega, for\u00e7ado ou simplesmente uma vers\u00e3o com guitarras do choror\u00f4 das m\u00fasicas sertanejas dos anos 90.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76393\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/revanche2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/revanche2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/revanche2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Revanche&#8221;, esse estilo de poesia est\u00e1 inegavelmente presente, porque ele faz parte do DNA fresniano &#8211; e \u00e9 claro que isso pode afastar quem se arrisca a ouvir a banda pela primeira vez. Mas uma mudan\u00e7a sens\u00edvel, e que pode melhorar esse aspecto da banda, \u00e9 que, em uma mesma can\u00e7\u00e3o ele pode vir impregnado tamb\u00e9m de um lado vingativo. \u00c9 o caso de &#8220;Die L\u00fcge&#8221; (&#8220;a mentira&#8221;, em alem\u00e3o), que se inicia com algo do calibre de &#8220;Te dei meu sangue pra voc\u00ea pintar a parede da sala de estar&#8221; e chega ao refr\u00e3o com sangue nos olhos: &#8220;Que cara voc\u00ea vai fazer quando a sua casa desabar?&#8221;; ou da faixa-t\u00edtulo, onde Lucas canta com voz vigorosa: &#8220;N\u00e3o estou morto, apenas fui ferido\/Quero viver muito mais\/Al\u00e9m do que voc\u00ea programou&#8221;. Ainda vale comentar a maior presen\u00e7a de baladas que cantam amores felizes, uma evolu\u00e7\u00e3o para artistas que s\u00e3o acusados de serem &#8220;suicidas de butique&#8221;. &#8220;Nesse Lugar&#8221;, que \u00e9 o exemplo mais bem acabado dessa id\u00e9ia, \u00e9 uma m\u00fasica que n\u00e3o tem vergonha de dizer algo como &#8220;Nesse lugar o que eu mais quero \u00e9 ficar pra sempre aqui com voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No aspecto da m\u00fasica &#8211; e n\u00e3o s\u00f3 da tem\u00e1tica &#8211; o preconceito tamb\u00e9m pode atrapalhar, ou melhor, ainda, assustar. Para algu\u00e9m n\u00e3o acostumado com o universo do rock, os primeiros trabalhos da banda podem soar &#8220;barulhentos&#8221; ou &#8220;sujos&#8221; demais, afugentando o ouvinte em potencial que pode at\u00e9 se identificar com o que as letras da banda querem dizer, mas \u00e9 incapaz de suportar guitarras em alto volume. E reduz o potencial radiof\u00f4nico das m\u00fasicas ali presentes &#8211; um hardcore \u00e0 moda da Calif\u00f3rnia poderia tocar numa r\u00e1dio jovem, como a 89 FM, mas dificilmente ultrapassaria a fronteira para a Tupi FM ou para a Eldorado. &#8220;Revanche&#8221; \u00e9 muito bem resolvido nesse aspecto, por dois fatores: o primeiro \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o redonda de Rick Bonadio, capaz de limpar arestas das faixas mais barulhentas &#8211; brincando muitas vezes com sintetizadores, \u00e0 moda do rock-anos-00 &#8211; e deix\u00e1-las palat\u00e1veis, sem a sujeira caracter\u00edstica do rock independente. O segundo &#8211; e o mais importante &#8211; \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o musical do conjunto, por terem iniciado a produ\u00e7\u00e3o de baladas capazes de fazer um est\u00e1dio &#8211; veja bem, um est\u00e1dio &#8211; inteiro cantar junto com os celulares e os isqueiros acesos. \u00c9 o que facilmente pode acontecer na bonita &#8220;Can\u00e7\u00e3o da Noite (Todo Mundo Precisa de Algu\u00e9m)&#8221; &#8211; cujo apelido antes das grava\u00e7\u00f5es era &#8220;Radio Ga Ga&#8221;, tal a influ\u00eancia de Queen nela &#8211; ou na condu\u00e7\u00e3o que lembra Smashing Pumpkins de &#8220;Porto Alegre&#8221;. Ou ainda na nost\u00e1lgica &#8220;Quando Crescer&#8221; e na melanc\u00f3lica &#8220;N\u00e3o Leve a Mal&#8221;. De certa maneira, s\u00e3o hits prontos para conquistar as paradas do Brasil inteiro &#8211; e n\u00e3o apenas nos grandes centros urbanos, como \u00e9 o caso de hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que eles n\u00e3o s\u00e3o a oitava maravilha do mundo &#8211; est\u00e3o longe disso, pra falar a verdade. A banda ainda tem suas limita\u00e7\u00f5es: embora o disco seja muito bem tocado e produzido, falta um pouco de originalidade quanto a certas progress\u00f5es de acordes, e at\u00e9 mesmo um pouco de apela\u00e7\u00e3o nesse uso, como o cl\u00e1ssico come\u00e7o de m\u00fasica com piano-e-voz esperando a explos\u00e3o da bateria no refr\u00e3o; as letras melhoraram muito do come\u00e7o da banda para c\u00e1, s\u00e3o interessantes e bonitas, mas ainda falta bastante para eles chegarem a um n\u00edvel que seria considerado como genial ou algo do tipo. A m\u00fasica de hoje ainda n\u00e3o chegou a um patamar no qual uma frase como &#8220;Eu vasculho as caixas do meu tempo tentando achar um dia a mais pra viver com voc\u00ea&#8221; pode ser aceita como obra-prima. \u00c9, pelo sim, pelo n\u00e3o, mais uma receita de como agradar o p\u00fablico adolescente. Citando uma frase cl\u00e1ssica do filme &#8220;Quase Famosos&#8221;, \u00e9 &#8220;um olhar cr\u00edtico sobre uma banda mediana na dura caminhada para o estrelato&#8221; &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 dem\u00e9rito nenhum, diga-se de passagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande for\u00e7a de &#8220;Revanche&#8221;, mais do que as mudan\u00e7as nas letras ou nas melodias, \u00e9 mostrar uma banda que n\u00e3o teve vergonha de arriscar um pouco, nem pregui\u00e7a de tentar evoluir, enquanto poderia ficar na manuten\u00e7\u00e3o do som e do estilo de vida. \u00c9 poss\u00edvel que o que foi feito aqui seja suficiente para lotar est\u00e1dios no pa\u00eds inteiro e &#8220;ultrapassar a barreira das AM, FM e dos elevador (sic)&#8221; porque n\u00e3o \u00e9 um trabalho ruim, \u00e9 honesto e competente. Mas, para quem deseja estar no pante\u00e3o pop, no fict\u00edcio &#8220;Grande Livro da Hist\u00f3ria do Rock&#8221;, ainda se trata de uma longa jornada. O que fica para os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos \u00e9 se o Fresno vai ter realmente for\u00e7as para caminhar tudo isso ou se &#8220;Revanche&#8221; \u00e9 apenas um pequeno passo dado nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Revanche\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_n-Nq8m5i_n_4ALUP9JiLP1isEaP8DaF6E\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\nTalvez o maior obst\u00e1culo que o Fresno tenha que superar nessa nova batalha a fim de conquistar o mundo \u00e9 o preconceito.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/21\/cd-revanche-fresno\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":76392,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1052],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5654"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76394,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5654\/revisions\/76394"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}