{"id":56497,"date":"2020-06-24T00:02:23","date_gmt":"2020-06-24T03:02:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56497"},"modified":"2020-07-22T01:05:48","modified_gmt":"2020-07-22T04:05:48","slug":"entrevista-beto-so-resgata-cancoes-do-indie-nacional-anos-2000","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/24\/entrevista-beto-so-resgata-cancoes-do-indie-nacional-anos-2000\/","title":{"rendered":"Entrevista: Beto S\u00f3 resgata can\u00e7\u00f5es do indie nacional anos 2000"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A p\u00e1gina de Beto S\u00f3 no Facebook <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Beto-S%C3%B3-246911905348154\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tem 345 curtidas<\/a>, seu perfil no Spotify <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/5R8xSTAhlCLY3IJl1nMymf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">acusa 233 ouvintes mensais<\/a>. E isso diz absolutamente nada sobre sua m\u00fasica, seu trabalho ou mesmo seu espa\u00e7o no que chamar\u00edamos de \u201cunderground\u201d (algu\u00e9m ainda chama assim?). Tempos estranhos esses em que os (poucos) textos sobre m\u00fasica est\u00e3o mais preocupados em divulgar dados de marketing do que falar sobre as composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sobre composi\u00e7\u00f5es que Beto S\u00f3 fala nessa entrevista \u2013 as pr\u00f3prias e as alheias, sendo que essas \u00faltimas s\u00e3o o cerne de seu \u00faltimo registro fonogr\u00e1fico, o primeiro em nove anos. \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/70FfxlXepbLKn9YEVnPa1r\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pra Toda Superquadra Ouvir<\/a>\u201d (2020) \u00e9 um disco de vers\u00f5es de can\u00e7\u00f5es escolhidas entre o repert\u00f3rio de bandas de rock independentes do in\u00edcio do ano 2000. Can\u00e7\u00f5es de Violins (\u201cManobrista de Homens\u201d), Superguidis (\u201cO Banana\u201d), Su\u00edte Super Luxo (\u201cSegundo Grau\u201d), Lestics (\u201cVelho\u201d), Los Porongas (\u201cEnquanto Uns Dormem\u201d) e Superquadra (\u201cSa\u00edda Sul\u201d), que emprestou de um de seus versos o t\u00edtulo para o \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, \u00e9 a \u201cParte 1\u201d do disco que ganha lan\u00e7amento nesse outono pand\u00eamico. O \u201cprojeto\u201d (por assim dizer) desse disco nasceu em 2014, e a inten\u00e7\u00e3o era t\u00ea-lo lan\u00e7ado exatamente naquele ano. Por\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 o \u00e1lbum n\u00e3o saiu como Beto S\u00f3 deixou a m\u00fasica praticamente de lado para concentrar-se nas quest\u00f5es que Humberto Rezende precisava resolver, entre elas lidar com o luto pelo falecimento de seu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse meio tempo, tr\u00eas singles do \u00e1lbum deram as caras no Soundcloud (\u201cSa\u00edda Sul\u201d, \u201cO Banana\u201d e \u201cSegundo Grau\u201d), e fora espor\u00e1dicas colabora\u00e7\u00f5es em projetos do selo Scream &amp; Yell (gravando faixas para os \u00e1lbuns \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/17\/download-somos-todos-latinos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Somos Todos Latinos<\/a>\u201d, de 2015, e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/15\/download-gratuito-ouca-e-baixe-faixa-seis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faixa Seis<\/a>\u201d, de 2017), n\u00e3o se ouviu falar de Beto S\u00f3 nem do prometido \u201cdisco de vers\u00f5es\u201d. Por\u00e9m, quem assistiu a apresenta\u00e7\u00e3o de Beto com sua banda <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/18\/balancao-festival-el-mapa-de-todos-2014\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">na edi\u00e7\u00e3o de 2014 do festival El Mapa de Todos<\/a> (Porto Alegre \u2013 RS) n\u00e3o conseguia tirar da cabe\u00e7a as can\u00e7\u00f5es e ficava esperando pelo \u00e1lbum ser conclu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse momento chegou, e Beto tamb\u00e9m fala sobre ele aqui nessa entrevista, realizada em uma agradabil\u00edssima conversa telef\u00f4nica. Fala, ainda, sobre a decis\u00e3o de fracionar o \u00e1lbum em duas partes, sobre a gera\u00e7\u00e3o que inspirou esse disco e sobre muitas outras coisas que, sinceramente, o f\u00e3 de m\u00fasica faria muito bem em ler. Especialmente o f\u00e3 que se define como roqueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verve de Beto para a conversa aberta \u00e9 t\u00e3o merecedora de aten\u00e7\u00e3o quanto sua poesia. E esse disco revela um Beto melodista e arranjador que mesmo seus (poucos) f\u00e3s n\u00e3o conheciam. E embora o pr\u00f3prio discorde do termo, aparece aqui um Beto S\u00f3 int\u00e9rprete, capaz de dar novos significados ou mesmo apropriar-se de can\u00e7\u00f5es excelentes que, infelizmente, bem pouca gente ouviu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum foi gravado com parceiros de longa data, como seu irm\u00e3o Oscar Junior (\u201cJu\u201d), o baixista Tharsis Campos, o baterista F\u00e1bio Costa e o violoncelista Ata\u00edde Matos, entre outros. Houve, ainda, participa\u00e7\u00f5es especiais: a cantora Karla Testa canta em \u201cManobrista de Homens\u201d e o duo DeltaFoxx faz os sintetizadores e efeitos em \u201cSa\u00edda Sul\u201d. \u201cTodo mundo de Bras\u00edlia\u201d, enfatiza Beto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pra Toda Superquadra Ouvir (Parte 1)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lHpDZ1gaGMSfpctdyMg0Uo7eio3vIeJ14\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea come\u00e7ou a prepara\u00e7\u00e3o de \u201cPra Toda Superquadra Ouvir\u201d em 2014. Chegou a lan\u00e7ar tr\u00eas can\u00e7\u00f5es, mas depois houve um longo hiato, e s\u00f3 neste ano retomou. Por que rolou esse longu\u00edssimo intervalo?<\/strong><br \/>\nFoi um misto de um pouco da minha personalidade e um pouco da coisa de ser [um artista] independente, de n\u00e3o ter uma carreira profissional na m\u00fasica e ter mil outros compromissos no meu trabalho, al\u00e9m das coisas que foram acontecendo mesmo no percurso. A ideia era que o disco sa\u00edsse pouco tempo depois do show do El Mapa, mas o produtor que estava fazendo (Fernando Brasil, do Phonopop) acabou se envolvendo em outro projeto, e depois se mudou de Bras\u00edlia. Ficamos com boa parte do disco gravado, mas em todas as can\u00e7\u00f5es faltavam uma coisa ou outra. Em paralelo, comecei a trabalhar demais, e ainda estava lidando com a morte do meu pai (em janeiro de 2015). Isso foi deixando o disco meio parado, e no fim parei de me dedicar \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente teve uma breve conversa em 2016 quando te perguntei sobre uma poss\u00edvel conclus\u00e3o do disco e voc\u00ea me disse que tinha desistido de tocar.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o me lembro de ter falado dessa forma, mas me lembro de ter tido a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o deveria trabalhar mais com a m\u00fasica, e me dedicar mais ao jornalismo. Peguei um trabalho novo, mais desafiador, e achei que n\u00e3o era capaz, que precisaria me dedicar mais. N\u00e3o foi um per\u00edodo muito feliz. Em paralelo, comecei a escrever cr\u00f4nicas, e parte do meu lado criativo estava indo para esses textos que sa\u00edam (e ainda saem) no Correio Braziliense. Mas no come\u00e7o do ano me deu vontade de retomar a m\u00fasica: voltei a tocar viol\u00e3o, a compor, fui revisitar meu pr\u00f3prio trabalho \u2013 at\u00e9 ouvir novamente meus discos mesmo. Tem um lance que&#8230; Depois que a banda <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/betoso\/sets\/beto-so-e-os-solitarios-incriveis-disco-rejeitado-2003\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Os Solit\u00e1rios Incr\u00edveis<\/a>, da qual eu fazia parte, acabou, dei in\u00edcio \u00e0 minha carreira solo e encasquetei que iria fazer cinco discos. Era meta. E s\u00f3 tinha tr\u00eas (risos). A\u00ed comecei a ouvir os singles j\u00e1 lan\u00e7ados, fui vendo como estavam as outras faixas, e tr\u00eas delas estavam bem pr\u00f3ximas da conclus\u00e3o, s\u00f3 faltavam guitarras e voz. Chamei meu irm\u00e3o Ju, que sempre toca comigo, e decidimos finalizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por isso o lan\u00e7amento em duas partes?<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m. Mas esse lan\u00e7amento de um \u00e1lbum menor \u00e9 a cara do streaming. Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um artista com uma base muito grande de f\u00e3s, o disco com mais faixas tende a se perder. E combinava para o momento: o nome do disco j\u00e1 estava escolhido, a foto da Joana Fran\u00e7a para a capa tamb\u00e9m, e achei que tinha a ver com esse momento de todo mundo preso nos apartamentos das superquadras (risos). Aqui em Bras\u00edlia est\u00e1 tendo um movimento de alguns artistas irem pra superquadra e tocar para as pessoas do bloco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a segunda parte vai ser como voc\u00ea tinha planejado l\u00e1 no come\u00e7o, ou v\u00e3o entrar coisas novas?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 estava compondo de novo, com vontade de trabalhar com m\u00fasica, quando voc\u00ea me chamou pra gravar uma faixa para um tributo do selo Scream &amp; Yell a uma banda dessa \u00e9poca (nota: que ser\u00e1 lan\u00e7ado ainda esse ano, se a pandemia deixar), e com isso j\u00e1 tenho mais uma m\u00fasica pronta para a parte 2 (risos). Essa n\u00e3o estava no projeto original e vai entrar. T\u00f4 pensando tamb\u00e9m em incluir como bonus track a vers\u00e3o que fiz pro El Mat\u00f3 a Un Policia Motorizado (\u201cM\u00e1s o Menos Bien\u201d, presente no \u00e1lbum \u201cSomos Todos Latinos\u201d, tamb\u00e9m do selo Scream &amp; Yell e organizado e produzido pelo autor deste texto). De resto, \u00e9 aquele repert\u00f3rio mesmo: a parte 2 vai ter Volver, Stereoscope, Disco Alto, Proto e Watson.<\/p>\n<figure id=\"attachment_56502\" aria-describedby=\"caption-attachment-56502\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56502 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/paratodasuperquadra.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/paratodasuperquadra.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/paratodasuperquadra-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/paratodasuperquadra-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56502\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa de &#8220;Para Toda Superquadra Ouvir&#8221;, de Beto S\u00f3<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que me chama aten\u00e7\u00e3o no repert\u00f3rio escolhido \u00e9 o quanto algumas faixas s\u00e3o diferentes do universo l\u00edrico que voc\u00ea trabalha. \u201cO Banana\u201d e \u201cSegundo Grau\u201d, por exemplo, tem um tipo de humor que n\u00e3o aparece nas suas composi\u00e7\u00f5es (definidas no Scream &amp; Yell em 2008 como &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/04\/16\/500-toques-jupiter-maca-aerocirco-e-beto-so\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">baladas cortantes que batem forte no peito, no rosto, nos pulsos<\/a>&#8220;). Fico pensando se voc\u00ea as escolheu por um desafio de int\u00e9rprete ou justamente por serem diferentes do que voc\u00ea faz mesmo.<\/strong><br \/>\n(Hesita) Quando vejo algu\u00e9m fazendo uma coisa que eu n\u00e3o conseguiria fazer, fico muito de cara, me sinto at\u00e9, como dizer, com certo complexo, a ponto de dizer a mim mesmo: \u201ccaramba, eu nunca ia conseguir fazer isso\u201d. Essas m\u00fasicas todas [do repert\u00f3rio do disco] eu adoro, e eu n\u00e3o ia conseguir faz\u00ea-las. S\u00e3o letras muito boas, que eu n\u00e3o conseguiria fazer. Quando comecei solo, ali por 2008, eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o de disputa com outros artistas, de competi\u00e7\u00e3o mesmo. Era muito ruim, porque eu n\u00e3o conseguia reconhecer que eles eram bons, porque isso significaria que sou ruim (muitos risos). O que mais chega para mim em uma can\u00e7\u00e3o s\u00e3o as letras. Sei que n\u00e3o sou um grande cantor, n\u00e3o sou um grande instrumentista, sempre preciso de algu\u00e9m para ajudar a compor, mas sempre tive certa vaidade quanto \u00e0 letra, que \u00e9 algo que acho que fa\u00e7o bem. Quando fui tendo uma maturidade, entendendo o que seria minha carreira, a coisa da competi\u00e7\u00e3o foi sumindo e pude apreciar e admirar bandas que estavam na mesma atividade que eu e que faziam coisas que eu n\u00e3o conseguiria fazer. Eu nunca faria uma como a do Diogo [Soares] do Los Porongas (\u201cEnquanto Uns Dormem\u201d) ou como a dos Violins (\u201cManobrista de Homens\u201d). Essa at\u00e9 tem coisas pelas quais j\u00e1 passei, pois n\u00e3o sou religioso e, vivendo em um pa\u00eds majoritariamente cat\u00f3lico, me sinto oprimido pela religi\u00e3o, s\u00f3 que eu nunca faria uma letra como a de \u201cManobrista de Homens\u201d. Quando fiz, saiu muito diferente. Minha \u201cManobrista de Homens\u201d \u00e9 \u201cVivendo no Escuro\u201d (do disco \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/12\/cinco-perguntas-para-beto-so\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ferro Velho de Boas Inten\u00e7\u00f5es<\/a>\u201d, de 2011), que \u00e9 mais sutil. O Beto Cupertino (do Violins) foi mais ousado, ele fala \u201cque se foda\u201d, e eu n\u00e3o diria desse jeito (risos). Eu sempre fui muito impactado por esses letristas todos, e a escolha do repert\u00f3rio passa pelas letras. Depois vem a minha capacidade de fazer vers\u00f5es pertinentes para essas can\u00e7\u00f5es. Agora, \u00e9 curioso, teve gente que ouviu e jurava que tinha letras ali que eram minhas, como \u201cVelho\u201d (original dos Lestics) e \u201cManobrista de Homens\u201d. Acho que \u00e9 por conta do arranjo. O que eu fiz foi&#8230; Vi uma entrevista, n\u00e3o sei se do Johnny Cash ou do Rick Rubin, mas um dos dois disse que o Cash ficou tocando ad nauseaum as m\u00fasicas que entraram nos discos da s\u00e9rie \u201cAmerican\u201d at\u00e9 que elas se tornassem dele. E eu comecei a fazer isso, tanto que fui deixando de seguir os originais, em \u201cSegundo Grau\u201d tem at\u00e9 um errinho de verso. Pensei que se tinha dado certo pro Johnny Cash, talvez eu pudesse tentar e funcionasse para mim (risos). Fiquei tocando essas m\u00fasicas durante um ano antes do show que voc\u00ea viu. Acho que isso pode dar a sensa\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o m\u00fasicas minhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E agora que o disco, ou pelo menos metade dele, est\u00e1 lan\u00e7ado, onde ele se encaixa no esquema cl\u00e1ssico da m\u00fasica? Voc\u00ea pretende fazer show, quando isso voltar a ser poss\u00edvel?<\/strong><br \/>\nA pandemia, nesse aspecto, at\u00e9 me ajudou um pouco, porque n\u00e3o tenho a obriga\u00e7\u00e3o de dar um show (risos). Se fosse lan\u00e7ar agora ia ter que ir atr\u00e1s de lan\u00e7ar, show e tal O fato \u00e9 que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/09\/28\/beto-so-frank-jorge-e-nina-becker\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sempre gostei de dar show<\/a>, sempre achei muito bom, mas comecei a ficar um pouco cansado. Sempre fui o faz-tudo, que vai atr\u00e1s, faz o contato, re\u00fane os m\u00fasicos, fica prestando aten\u00e7\u00e3o nos detalhes. Sou eu que tenho que saber que o m\u00fasico tal \u00e9 desorganizado e n\u00e3o tem amplificador e vou acabar tendo que correr atr\u00e1s do amp para ele, sei quem \u00e9 o m\u00fasico que atrasa e que vou precisar ficar em cima dele para n\u00e3o atrapalhar o funcionamento das coisas em um festival, sempre fui essa cara que fica gerenciando as coisas. Acho que virei artista-solo porque cansei de fazer isso pra uma banda. Porque se \u00e9 banda, todo mundo tem que fazer, ne? Mas sempre tem o cara que n\u00e3o faz nada e ainda se acha no direito de falar, dar ordem. Me cansei disso e virei Beto S\u00f3 (risos). Mas n\u00e3o quis ser artista solo do tipo que fala pra banda o que ela deve tocar. Quero a banda que participa, gosto disso. \u201cSegundo Grau\u201d, por exemplo, saiu meio jazz\u00edstica porque isso foi uma ideia que o Tharsis (Campos, baixista) deu, e que encontrou respaldo numa levada que o F\u00e1bio (Costa, baterista) trouxe. Perguntei pro Ju o que ele achava, ele curtiu e a coisa foi seguindo. Eu realmente gosto disso, foi a coisa do show que foi me dando o cansa\u00e7o. Passei a fazer show s\u00f3 quando era bom o esquema, quando eu sabia que teria um bom som, quando era uma oportunidade imperd\u00edvel ou confort\u00e1vel, s\u00f3 que eu n\u00e3o sou a Ivete Sangalo, que \u00e9 algu\u00e9m para quem as pessoas imploram por um show. Sou bem o contr\u00e1rio (risos). Assim, quando eu via que ia dar um pouquinho mais de trabalho, j\u00e1 n\u00e3o ia atr\u00e1s. Veio esse neg\u00f3cio da pandemia e tirou o show do meu escopo de preocupa\u00e7\u00e3o. Mas tenho vontade, muita gente me fala que o show do Rio Grande do Sul foi um grande show, e eu queria fazer esse repert\u00f3rio ao vivo de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E olhando com a perspectiva do tempo, como voc\u00ea v\u00ea essa gera\u00e7\u00e3o que voc\u00ea retrata no disco? A gente tem o rock dos anos 80 e 90 bem documentados \u2013 t\u00e3o bem quanto poss\u00edvel num pa\u00eds pobre de documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica quanto o Brasil. Mas essa gera\u00e7\u00e3o tem poucas an\u00e1lises, poucos registros mais profundos.<\/strong><br \/>\n\u00c9 exatamente isso. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o mal documentada. Mas \u00e9 riqu\u00edssima, riqu\u00edssima. A ideia do disco surgiu at\u00e9 como um manifesto, eu acho, da riqueza que foram os anos 2000 para a m\u00fasica jovem brasileira. A quantidade de can\u00e7\u00f5es boas mesmo que foram feitas nessa \u00e9poca \u00e9 impressionante. Voc\u00ea pode pegar discos que n\u00e3o s\u00e3o totalmente bons, porque \u00e9 dif\u00edcil ter 12 m\u00fasicas boas de uma leva s\u00f3, mas tanta gente fez tanta m\u00fasica boa e juntou um repert\u00f3rio t\u00e3o rico e t\u00e3o bom que fico de cara que seja mal documentado. E acho que esse per\u00edodo precisa ser revisitado, porque foram produzidas e gravadas grandes can\u00e7\u00f5es. A gente acreditava que a internet ia permitir falar com nosso p\u00fablico de forma direta, sem gravadora e sem jab\u00e1. A gente achava que dava para conquistar o p\u00fablico sem fazer concess\u00f5es para fora do que a gente achava que deveria fazer. Isso resultou em bandas que n\u00e3o foram pra frente no sentido cl\u00e1ssico, ningu\u00e9m virou uma banda do porte de um Skank, um Raimundos&#8230; Mas at\u00e9 teve, n\u00e9? Teve uma Mallu Magalh\u00e3es, a gente pode colocar o Los Hermanos a\u00ed tamb\u00e9m. Em termos de qualidade, acho que a gera\u00e7\u00e3o 2000 n\u00e3o deixa nada a dever aos anos 80. Algu\u00e9m pode falar: \u201cme mostra ent\u00e3o a Legi\u00e3o Urbana dessa gera\u00e7\u00e3o, a Plebe Rude dessa gera\u00e7\u00e3o\u201d. As grandes bandas foram impulsionadas por gravadoras, tinham um caminho diferente para chegar a mais pessoas, ent\u00e3o nesse sentido pode n\u00e3o ter existido uma Legi\u00e3o Urbana desse per\u00edodo. Mas pra mim o primeiro disco da Suite Super Luxo \u00e9 melhor que o segundo da Plebe Rude (\u201cNunca Fomos T\u00e3o Brasileiros\u201d). Pega o primeiro disco do Superguidis, n\u00e3o acho que fica devendo ao \u201cCabe\u00e7a Dinossauro\u201d (dos Tit\u00e3s). \u201cAh, mas &#8216;Cabe\u00e7a Dinossauro&#8217; \u00e9 um cl\u00e1ssico\u201d. \u00c9 cl\u00e1ssico porque, nos anos 80, a m\u00fasica que tocava na Transam\u00e9rica era rock, a m\u00fasica que tocava nas novelas era rock. Se o Superguidis tivesse sido lan\u00e7ado no contexto da \u00e9poca, \u201cMalevolosidade\u201d n\u00e3o seria um grande hit? Eles eram \u00f3timos, viajaram pra caramba, eram supercarism\u00e1ticos, o Andrio (Maquenzi, vocalista) era bonito pra caralho. Fico com pena das pessoas que n\u00e3o conhecem a banda. Mas acho que a gente foi a base pra essa gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a\u00ed, onde n\u00e3o existe tanta fronteira entre o independente e o mainstream. Hoje voc\u00ea tem o Francisco El Hombre dando entrevista para r\u00e1dio grande na programa\u00e7\u00e3o do meio da tarde, tocando para muita gente em v\u00e1rias cidades, e isso sem estar no mainstream massivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou no rock, acho que vale perguntar o que \u00e9 o rock hoje para voc\u00ea. \u00c9 um g\u00eanero que perdeu a capacidade de se comunicar com o jovem, \u00e9 uma m\u00fasica de nicho para determinado p\u00fablico de classe m\u00e9dia alta, \u00e9 uma sonoridade ultrapassada?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma boa pergunta. Eu n\u00e3o tenho certeza do que \u00e9 o rock hoje, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma pergunta que me aflige. N\u00e3o sou uma pessoa do \u201csalve o rock, ele est\u00e1 amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o acho que o mundo precisa do rock, mas sempre o ter\u00e1. Ouvi essa menina, a Flaira Ferro, ela tem um maracatu bem nervoso, no qual ela fala \u201cuma cidade triste \u00e9 mais f\u00e1cil de ser manipulada\u201d (da can\u00e7\u00e3o \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=H3jv4Vlh844\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rev\u00f3lver<\/a>\u201d). Ok, n\u00e3o \u00e9 rock aquilo, mas aquela energia me satisfaz. Agora, a coisa da classe m\u00e9dia alta da sua pergunta me chama aten\u00e7\u00e3o&#8230; Acho que uma li\u00e7\u00e3o social que os anos 2000 deixaram pra mim foi que a expans\u00e3o da internet permitiu ver melhor o pa\u00eds. A gente viu a internet ficando mais r\u00e1pida, as m\u00fasicas em streaming surgindo, a cena roqueira tocando, a gente tinha ent\u00e3o uma vis\u00e3o classe m\u00e9dia alta do pa\u00eds ao achar que a gente ia se comunicar com o povo brasileiro (risos). Mas quando voc\u00ea v\u00ea o que a internet trouxe, se d\u00e1 conta que n\u00e3o tinha nada a ver com o que est\u00e1vamos fazendo. Fiquei fascinado quando vi o passinho, que veio das favelas do Rio e que os meninos que dan\u00e7avam viraram estrelas pelo Youtube, foram dando show para as comunidades deles. E a gente achando que ia civilizar o pa\u00eds com essa m\u00fasica que n\u00e3o diz nada para as pessoas que est\u00e3o vivendo uma realidade distante da nossa. Acho que o rock tem mesmo uma coisa classe m\u00e9dia, e isso n\u00e3o \u00e9 bom nem ruim. Dizer que \u00e9 ruim seria um julgamento moral. Havia um pouco de ignor\u00e2ncia e arrog\u00e2ncia nessa ideia de que o rock \u00e9 superior, e \u00e9 s\u00f3 outro estilo, outra forma de se expressar que pode fazer mais sentido para uns e para outros n\u00e3o. Acho que sempre vai ter gente para quem o rock vai ter a forma, a energia, a distor\u00e7\u00e3o, vai ter a pressa e e urg\u00eancia que a pessoa precisa para se expressar, e parte do p\u00fablico vai ter isso como algo que quer e precisa receber, mas a gente n\u00e3o precisa ficar achando que a falta de aten\u00e7\u00e3o para o rock significa que o mundo est\u00e1 pior.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Festival El Mapa de Todos - Beto So? - Ao Vivo Bruno Kiefer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qhN9h-bvGqQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beto S\u00f3 - Mas o Menos Bien (#SomosTodosLatinos)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pDCnVjMZzsY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beto S\u00f3 e Frank Jorge - Toca Brasil\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kGNJ8XhWNKw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beto S\u00f3 - Meus olhos\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/t_eOET0-fws?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Refr\u00e3o - Beto S\u00f3 (21\/10\/12)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EUS58yuXZtE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A gera\u00e7\u00e3o anos 2000 \u00e9 muito mal documentada. Mas \u00e9 riqu\u00edssima, riqu\u00edssima. A ideia do disco surgiu at\u00e9 como um manifesto, eu acho, da riqueza que foram os anos 2000 para a m\u00fasica jovem brasileira&#8221;, comenta Beto S\u00f3 em uma entrevista em que ele fala sobre o que o motivou resgatar can\u00e7\u00f5es de Violins, Lestics, Superguidis, entre outros.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/24\/entrevista-beto-so-resgata-cancoes-do-indie-nacional-anos-2000\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":56501,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1703],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56497"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56497"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56506,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56497\/revisions\/56506"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56501"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}