{"id":56486,"date":"2020-06-23T10:19:06","date_gmt":"2020-06-23T13:19:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56486"},"modified":"2023-04-26T02:38:36","modified_gmt":"2023-04-26T05:38:36","slug":"guilherme-arantes-relembra-como-produziu-perdidos-na-selva-da-gang-90","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/23\/guilherme-arantes-relembra-como-produziu-perdidos-na-selva-da-gang-90\/","title":{"rendered":"Guilherme Arantes conta como produziu &#8220;Perdidos na Selva&#8221;, da Gang 90"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nota do editor: Texto publicado por Guilherme Arantes em seu <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/GuilhermeArantesOficial\/posts\/3075471815869187?__xts__%5B0%5D=68.ARDG9zTXWZSgsMcUZAZ5WPwO6rKdmF4V2DMa9e6635nkU_6NDzbyop4CwrN5ytLTguNaZF96-qu9LOxoAk5Ag6oYICnBwvlAv3xVmMMJatqOt4-rRNoUOp3EFT-nnYzrjFjEywzkFNAUvew6utPFdToX9GYgEgSyNww4KYktLRsjySj691bOGlux4gJRWl_Kv4xaLF5fXwjP4eee7BYFXG_kj0M-NT0Uj-w3w5TUHslUIEHMjzJynT9xqQcZ0lhuQ8iI_hmNqz7h6LoConoToV13Yx4fE5L6TsHO8Fjqwap7dgtrQ_HC8xBEm8OFhB3UtdU3n_0FNNw4hr9tHZTl4g&amp;__tn__=-R\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook oficial<\/a> e liberado pelo autor para publica\u00e7\u00e3o no Scream &amp; Yell. &#8220;Perdidos na Selva&#8221;, primeiro compacto da Gang 90, produzido por Guilherme Arantes na hist\u00f3ria que ele conta abaixo, foi lan\u00e7ada como single no segundo semestre de 1981 &#8211; o clipe da can\u00e7\u00e3o foi apresentado oficialmente no programa Fant\u00e1stico de 2 de agosto de 1981. Em 1983, a Gang 90 lan\u00e7ou seu primeiro disco cheio, &#8220;Essa tal de Gang 90 e as Absurdettes&#8221; (desbravado na s\u00e9rie &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/12\/livro-a-colecao-o-livro-do-disco-resgata-essa-tal-de-gang-90-absurdettes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Livro do Disco<\/a>&#8220;), que conta com uma segunda vers\u00e3o da m\u00fasica, bastante diferente do single original.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-56489\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang901.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang901.jpg 495w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang901-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang901-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 495px) 100vw, 495px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/coisapop\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Arantes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes me deparo com uma cita\u00e7\u00e3o da musica \u201cPerdidos na Selva\u201d, e fico espantado com a desinforma\u00e7\u00e3o generalizada do que \u00e9, realmente, aquela joia \u201ccult\u201d do \u201cpop\u201d brasileiro. J\u00e1 vi muitas publica\u00e7\u00f5es na \u201crede\u201d creditando at\u00e9 mesmo a autoria ao Bar\u00e3o Vermelho, levando a crer que \u00e9 uma m\u00fasica do genial amigo Roberto Frejat, quando na verdade o Bar\u00e3o regravou magistralmente a can\u00e7\u00e3o (no \u00e1lbum \u201cPuro \u00caxtase\u201d, de 1998) originalmente gravada pela Gang 90 e Absurdettes (e lan\u00e7ada como compacto em 1981). Mas basta dar um &#8220;google&#8221; para ver que nem a Gang 90 aparece mais (nos cr\u00e9ditos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolvi ent\u00e3o contar as aventuras, o que realmente aconteceu, a sequencia extraordin\u00e1ria que levou a que esse hit inaugural dos Anos 80 se tornasse um cl\u00e1ssico fundamental do Brasil Moderno, e qual parte me cabe nessa historia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 na verdade um marco indel\u00e9vel na minha trajet\u00f3ria. Esse momento m\u00e1gico me abriu todos os caminhos po\u00e9ticos e comportamentais para que eu desse uma guinada espetacular na carreira: gratid\u00e3o eterna a uma linda amizade po\u00e9tica que me ensinou a destravar a minha liberdade .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viva J\u00falio Barroso, viva o trabalho criativo coletivo, que envolveu mais pessoas do que se possa imaginar. J\u00falio era um jornalista, DJ, um gerador inesgot\u00e1vel de conte\u00fado, e pertencia a uma gera\u00e7\u00e3o de jornalistas e artistas, uma turma muito \u00e0 frente do seu tempo, amigos que o ajudaram naquele momento de formula\u00e7\u00e3o de um movimento: Gang 90 foi, na verdade, um movimento est\u00e9tico. Foi uma curti\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pessoas muito criativas, como Okky de Souza, Denise Barroso, Antonio Carlos Miguel, Katy Pinto, Tavinho Paes, Nelson Motta, Leonardo Netto. Eu, na verdade, entrei para resolver a parada, ensaiar a banda, pr\u00e9-produzir, e principalmente dar acabamento e viabilizar no est\u00fadio: para isso \u00e9 que eu fui chamado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E adorei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora eu seja muito grato, e d\u00ea total valor \u00e0 minha arte de tocar instrumento, sou gen\u00e9rica e miseravelmente citado na categoria \u201cm\u00fasicos que participaram da grava\u00e7\u00e3o\u201d (nota do editor: no relan\u00e7amento da can\u00e7\u00e3o em CD na s\u00e9rie \u201c<a href=\"https:\/\/lista.mercadolivre.com.br\/musica\/musica\/cd-arquivo-warner-apresenta-singles-volume-2-novo-lacrado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arquivos Warner \u2013 Singles \u2013 Volume 2<\/a>\u201d em 2001, Guilherme \u00e9 creditado como \u201cteclados, arranjo, dire\u00e7\u00e3o musical e back vocal\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, isso \u00e9 mais do que uma mentira, \u00e9 uma sacanagem inconsciente de pura inveja, a tal \u201cinveja santa\u201d de tantas pessoas que gostariam de ter estado ali, e fazer tudo que fiz&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fiz acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse papel secund\u00e1rio \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o vergonhosa, proposital e despeitada da parte de alguns formadores de opini\u00e3o que se dedicaram a resenhar o pop rock brasileiro, publicando livros sobre esse incr\u00edvel movimento, e no af\u00e3 de dar o just\u00edssimo destaque \u00e0 genialidade seminal do meu parceiro J\u00falio Barroso, um revolucion\u00e1rio, n\u00e3o por acaso &#8220;jornalista&#8221; brilhante e colega de reda\u00e7\u00f5es de toda aquela (\u00f3tima) gera\u00e7\u00e3o da inteligentzia vanguardista do final dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde sempre louvarei a realidade, de que J\u00falio Barroso \u00e9 o autor, evidentemente, de 70% da letra, autor da ideia libert\u00e1ria da banda, um poeta transformador e \u201cfigura\u00e7a\u201d obrigat\u00f3ria da cena riqu\u00edssima que se projetaria fulminante na abertura da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saboreio e compartilho meu quinh\u00e3o nessa obra prima, at\u00e9 porque lembrar os detalhes e poder contar essas perip\u00e9cias \u00e9 motivo de muita alegria e de orgulho n\u00e3o s\u00f3 pra mim, mas para todos da \u201cbanda\u201d, inclusive os posteriores que se agregaram a esse movimento. A Gang 90 \u00e9 nossa !<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 muito minha tamb\u00e9m, sempre ser\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1979 e 1980 eu havia gravado dois discos sob produ\u00e7\u00e3o do Liminha, para a Warner do (Andr\u00e9) Midani, e a gravadora nos tratava muito diferenciadamente. Midani era um gentleman, um big boss afetivo e muito influente com sua cultura e incompar\u00e1vel \u201cmondanit\u00e9\u201d&#8230; Muito acertadamente hospedando os artistas em Ipanema, na Prudente de Morais, altura da Rua Farme de Amoedo, em pleno Posto 9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu costumava (\u201cmorar\u201d) naquelas areias escaldantes (basta ver as fotos da \u00e9poca&#8230; kkk&#8230; eu paulist\u00e3o transformado em um quase surfista, invejoso, pois jamais subi numa prancha na vida, s\u00f3 jacar\u00e9, o caipir\u00e3o) indo muito \u00e0 praia, Ipanema, Arpoador, que lindo aquele Rio de 1980. Encontrar Marina Lima, Dadi da Cor do Som, as Fren\u00e9ticas Leiloca e Lidoca, e muitos amigos inesquec\u00edveis como Paulette, Lauro Corona, e o meio art\u00edstico inteiro. Quem viveu Posto 9, Farme, no final dos anos 70, pode dizer que viveu boa parte desta vida !<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quem \u00e9 que morava bem ali na Vieira Souto com Farme? Era o Barros\u00e3o, querido pai de duas figuras delirantes, o J\u00falio e a Denise Barroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00falio conheci ali mesmo, na areia, pisando as ondinhas do quebra-mar. Era um cara muito delirante e vulc\u00e2nico, com ideias mirabolantes que borbotavam em mirabol\u00e2ncias estratosf\u00e9ricas de sua verve culta que misturava Mallarm\u00e9 com Kerouac. Isso me lembro que foi assim, de cara, sem ningu\u00e9m pra me apresentar, fui abordado por ele. E me assustei, talvez eu fosse todo met\u00f3dico e \u201ccertinho\u201d, a primeira impress\u00e3o diante daquele J\u00falio Barroso (que eu nem sabia muito bem quem era) foi querer dist\u00e2ncia. Ele me parecia parecido com outros \u201cdoid\u00f5es\u201d daquele per\u00edodo, um estilo que estava t\u00e3o na moda, Dami\u00e3o Experien\u00e7a, Guilherme Lamounier, Serguei, um final de fase do Rock, contracultura era um alicerce, mas eu era mais contido, mais encucado e com s\u00e9rias cr\u00edticas ao lado porra-louca e sujismundo dos velhos festivais de rock. S\u00f3 que J\u00falio era literalmente um passo al\u00e9m, e me acendeu uma l\u00e2mpada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o demorou muito para que, no final de 1980, Leonardo Netto ligasse pra S\u00e3o Paulo para me convidar pra fazer a dire\u00e7\u00e3o musical da Gang 90, que o Nelsinho Motta estava lan\u00e7ando pelo seu selo independente &#8220;Hot&#8221;, distribu\u00eddo pela Warner. Leo sempre foi um amig\u00e3o querido, diretor de Marketing na WEA, e eu era frequentador da sua casa na Rua Santa Leoc\u00e1dia, em Copacabana, ent\u00e3o t\u00ednhamos muita afinidade, e me senti atra\u00eddo pela ideia. Me convenceu a topar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu passava por um per\u00edodo de revis\u00e3o geral da minha est\u00e9tica, os meus discos roqueiros com Liminha na WEA n\u00e3o tinham tido o resultado que se esperava, o pretensioso \u201cCora\u00e7\u00e3o Paulista\u201d (1980) havia \u201cflopado\u201d sem sucesso, e eu j\u00e1 estava recebendo cart\u00e3o azul na WEA: n\u00e3o iriam renovar. Ferrado, eu estava aberto a \u201cexperimentar\u201d. Primeiro degrau para o \u00eaxito. Paradoxalmente frente ao meu desastre, eu tinha acabado de emplacar \u201cAprendendo a Jogar\u201d na voz da Elis, um hit espetacular mostrando o caminho da simplicidade, da brincadeira, e estava preparando um repertorio mais pop e mais radiof\u00f4nico \u2013 as FMs estavam explodindo no \u201cdial\u201d, e eu precisava \u201cme virar\u201d pra n\u00e3o desaparecer de cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo alugado uma casinha na Rua Caramur\u00fa, perto da Esta\u00e7\u00e3o Casa da Arvore do rec\u00e9m-inaugurado Metr\u00f4 de SP, eu vivia um novo momento, pois sa\u00eda de casa de manh\u00e3 para \u201ctrabalhar\u201d&#8230; de Metr\u00f4, e tudo me parecia novo, com mais liberdade do que em casa (Marietta era beb\u00ea, tinha nascido em maio, e eu precisava de \u201cares\u201d novos). Agora eu tinha um \u201clocal de ensaio\u201d que seria precioso para compor um monte de hits como \u201cO Melhor vai Come\u00e7ar\u201d, \u201cDeixa Chover\u201d, \u201cPlaneta Agua\u201d, \u201cPedacinhos\u201d&#8230; S\u00f3 lembro que por causa desses \u201cdetalhes\u201d, eu era feliz. Eu estava usando intensivamente um \u201ckit\u201d de instrumentos que foi muito importante pra mim. O piano Yamaha CP 70, combinado com um flanger Mutron, o meu velho Minimoog com c\u00e2mera de eco Echoplex Maestro, uma mesinha Tapco de 6 canais com reverber de mola embutido (que eu havia comprado de segunda m\u00e3o de uma banda de SP, o Grupo Fragata do Ronaldo Pascoa), um microfone Shure SM 59 , rec\u00e9m-comprado junto \u2013 num aben\u00e7oado s\u00e1bado que fui \u00e0 Leimar na Rua Bandeirantes \u2013 com um item que seria decisivo naquele momento para compor os hits: uma bateria eletr\u00f4nica Electro Harmonix DRM16 , um stompbox precar\u00edssimo, muito \u201cdisco\u201d, muito eletr\u00f4nico, mas que apesar das limita\u00e7\u00f5es, me ajudaria a colocar ritmo nas minhas musicas. Eu tinha um par de caixas Lando enormes funcionando como monitores e estava compondo compulsivamente, tentando salvar a minha carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De grana, eu estava arruinado. Sem sucesso e sem shows, tive inclusive que vender uma bateria Ludwig azulzinha, que eu tinha ali guardada, mas n\u00e3o tinha banda para usar, e acabei a vendendo para o Eduardo Lemos da Transassom por 2.000 d\u00f3lares para pagar os alugu\u00e9is atrasados de minha casa na Rua Juarac\u00ea, Vila Mariana, alugu\u00e9is que estavam vencidos h\u00e1 4 meses e eu estava sendo despejado, com a Marcia e a Marietta&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal eu sabia: aquela bateria, 3 meses depois, com o estouro de \u201cDeixa Chover\u201d, eu alugaria pelos mesmos 2.000 POR SHOW!!! \u00c9 a vida! Eu jamais poderia imaginar que eu estava a 3 meses de me tornar o numero 1 no Brasil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o nesse meio tempo resolvi aceitar a empreitada de dirigir a Gang 90.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De cara, com a letra do J\u00falio Barroso na m\u00e3o, fui dedilhando uma levada com a bateria eletr\u00f4nica e o Piano CP 70 com seus graves poderosos, bem \u00e0 la Billy Joel, com um riff que remetia ao \u201cCora\u00e7\u00e3o Paulista\u201d que eu tinha lan\u00e7ado no primeiro semestre de 80, s\u00f3 que a batida, com a DRM16, estava na onda da Rita Lee com Roberto, de \u201cChega Mais\u201d, de \u201cCorre, Corre, Corre\u201d. Eu estava no caminho certo, porque estava divertido. Eu era muito resistente ao \u201cbumbo reto\u201d da onda \u201cDISCO\u201d que dominava a cena mundial, e, claro, a cena brasileira. Isso j\u00e1 havia rendido, no passado, muitos debates com o meu produtor e diretor art\u00edstico Liminha, nas nossas sess\u00f5es de est\u00fadio recentes, e eu tinha uma \u201cvergonha\u201d da batida reta \u2013 teimoso, fazia o meu pr\u00f3prio processo de composi\u00e7\u00e3o ficar engessado no preconceito. Com a chegada da stompbox r\u00edtmica, por\u00e9m, eu agora ficava me deliciando em ter aquele \u201cdrive\u201d r\u00edtmico nas m\u00e3os, com as teclas mais graves do CP70 fazendo linhas de baixos em oitavas, na verdade eu estava me reinventando, oxigenando meu som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPerdidos na Selva\u201d seria uma OPORTUNIDADE DE MERGULHAR SEM NENHUM PUDOR NAQUELA BATIDA, porque n\u00e3o seria um produto do Guilherme Arantes para o Guilherme Arantes, era uma experi\u00eancia especialmente encomendada para uma banda \u201cfabricada\u201d, e o descompromisso era total. Deitei e rolei propondo aquele \u201cdrive Disco Inferno\u201d modernoso e \u201ccomercial\u201d. Sem querer, s\u00f3 de brincadeira, eu estava \u201cinventando o Pop\u201d. Aquela introdu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com toques de progressivo no trinado agudo do piano e poderosos acordes heavy metal fazendo o suspense incendi\u00e1rio realmente se tornaria um marco no Pop Rock e fulminava o publico instantaneamente. Lembrava Silvester, lembrava grandes hits de pista. Eu queria impressionar J\u00falio, a turma do J\u00falio, o Nelsinho, e toda a \u201cinteligentzia\u201d da cr\u00edtica musical ali representada, e principalmente a Warner que estava me dispensando, ent\u00e3o estava tentando dar o melhor de mim .<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gang 90 &amp; Absurdettes - Perdidos na Selva | Guilherme Arantes \/ Julio Barroso\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D1Up3lTCZ-g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande problema de \u201cPerdidos na Selva\u201d era a FALTA DE UM REFR\u00c3O. N\u00e3o existe hit sem refr\u00e3o. Para resolver logo aquele impasse, compus m\u00fasica e letra do trecho \u201cEu e minha gata rolando na relva \/ rolava de tudo \/ num covil de piratas pirados \/ perdidos na selva!!!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00falio adorou, Nelsinho e toda a turma aclamou: \u00e9 hit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse refr\u00e3o se tornaria o maior sucesso da banda, at\u00e9 hoje. Outros m\u00fasicos, mais tarde, imprimiram suas compet\u00eancias, suas marcas, como por exemplo o Herman Torres, guitarrista, que fez \u201cNosso Louco Amor\u201d, que viabilizou a Gang 90 em outro grande sucesso da banda, dois anos depois. E Herman, na Hist\u00f3ria Oficial que \u00e9 contada, tamb\u00e9m foi reduzido \u00e0 categoria de \u201cm\u00fasicos que participaram\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando a \u201cPerdidos na Selva\u201d, foram ent\u00e3o iniciados os ensaios com aquele bando de malucos: o J\u00falio, feliz da vida porque agora o sonho virava realidade, e a m\u00fasica tinha agregado agora um refr\u00e3o explosivo \u2013 o aroma do sucesso estava no ar, uma euforia s\u00f3 . Os m\u00fasicos, excelentes, eram o Gigante Brazil (bateria) um velho amigo das batalhas contraculturais do circuito Bexiga\/Morro dos Ingleses, um baterista mortal, tribal, um rel\u00f3gio! Puxa que saudade, como eu adorava o Gigante!! E mais duas novidades pra mim, o Wander Taffo (guitarra) e o Celso Vechione, do Made in Brazil (baixo), m\u00fasicos que haviam sido escolhidos num crit\u00e9rio de \u201cecletismo\u201d total \u2013 a ideia era formarmos uma esp\u00e9cie de \u201ccover\u201d do \u201cKid Criole and the Coconuts\u201d \u2013 essa concep\u00e7\u00e3o J\u00falio trazia na raiz da ideia, era coisa que havia sido concebida ainda em Nova York, em suas temporadas de DJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu ajudei tamb\u00e9m a formatar o restante do repert\u00f3rio, todo ele genial, concebido por J\u00falio. Tinha um pouco de tudo naquele caldeir\u00e3o. O sopro po\u00e9tico delirante de J\u00falio entrou como uma aragem, um vento revolucion\u00e1rio no meu espa\u00e7o criativo particular, e me senti abrigado numa turma nova, uma sensa\u00e7\u00e3o de completa renova\u00e7\u00e3o. Pra mim, algo mais: eu estava brilhando do lado de dentro da imprensa especializada mais moderna, e J\u00falio adorava as musicas que eu estava fazendo na \u00e9poca, como \u201cTodo M\u00eas de Maio\u201d \u2013 era um incentivo importante numa hora crucial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vocalistas havia a genial holandesa Alice Vermeullen \u2013 mais tarde rebatizada artisticamente como Alice Pink Pank, na \u00e9poca ainda \u201cpaquera\u201d do J\u00falio, rec\u00e9m-chegada ao Brasil \u2013, a Denise Barroso, sua irm\u00e3, uma pessoa muito querida e afetiva, poetisa, engra\u00e7ad\u00edssima, casada na \u00e9poca e vivendo com Okky de Souza (meu amigo jornalista e j\u00e1 parceiro de letras, que na \u00e9poca frequentava a minha casa), a Luiza Maria, que era discotec\u00e1ria junto com J\u00falio Barroso e Dom Pepe nas casas de Nelson Motta, e para completar as \u201cAbsurdettes\u201d, a Mae East, Maria Elisa Pinheiro, uma cantora muito criativa e artista de vanguarda, que na \u00e9poca estava namorando o Nelsinho Motta. Nelsinho havia inaugurado num shopping da Av. Faria Lima uma discoteca \u201ccult\u201d, a \u201cPaulic\u00e9ia Desvairada\u201d e ali a Gang 90 teria seu palco de estreia e de resid\u00eancia, j\u00e1 que J\u00falio e Luiza comandavam as pickups.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grava\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: devidamente ensaiados os m\u00fasicos, era uma curti\u00e7\u00e3o total, j\u00e1 que a combina\u00e7\u00e3o com Gigante Brazil e com a guitarra fulminante de Wander Taffo rendia um \u201cdrive\u201d inacredit\u00e1vel com o meu piano. Estava inventado o Pop dos anos 80. Fomos ent\u00e3o para o Est\u00fadio na Rua Bocaina 72, o Nosso Est\u00fadio, um point importante da m\u00fasica brasileira, e numa \u00fanica sess\u00e3o, uma tarde e uma noite, gravamos, sob o comando do saudoso amigo Marcus Vinicius, o legend\u00e1rio \u201cVinic\u00e3o\u201d, as bases, vocais e mixamos \u201cPerdidos na Selva\u201d para ser o lado \u201cA\u201d e \u201cLilik Lam\u00ea\u201d, o Lado \u201cB\u201d do compacto. Claro que, sob todos os aspectos, todos confiavam plenamente no meu taco, eu era o produtor, arranjador, fazendo milagres, com grande alegria, porque afinal era \u201cs\u00f3\u201d uma brincadeira. \u201cPerdidos na Selva\u201d, uma parceria leg\u00edtima e inesquec\u00edvel de J\u00falio Barroso comigo, teve a minha voz \u00e0 frente, porque simplesmente ningu\u00e9m da Gang 90 ou Absurdettes ainda sabia mesmo cantar, exceto, \u00e9 bem verdade, a Alice, pois era a mais descolada musicalmente, afinada e refinada com suas influ\u00eancias europeias. Mais tarde, ela mostraria seus talentos. Naquela circunst\u00e2ncia, algu\u00e9m teria que tomar a frente e liderar o coro. Na mixagem, Marcus Vinicius exagerou na minha voz e acabou ficando puro Guilherme Arantes com umas notas de Gang 90!!! Al\u00e9m do arranjo, do piano, fiz aqueles chiqu\u00e9rrimos \u201cMinimoogs\u201d ao estilo de Gary Numan (que eu ouvia muito naqueles meses, junto com Warren Zevon, The Cars, David Edmonds e outros&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 \u201cLilik Lam\u00ea\u201d teve a voz de Denise, um pouco titubeante, mas t\u00e3o verdadeira \u2013 justamente porque n\u00e3o era cobra-criada, era espont\u00e2nea, uma m\u00fasica linda de Siouxie and Banshees (&#8220;Christine&#8221;), can\u00e7\u00e3o de John Severin, bem p\u00f3s-punk , com letra de J\u00falio com Katy Pinto e A.C. Miguel.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gang 90 -  Lilik Lam\u00ea (CHRISTINE, Siouxsie &amp; the banshees)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jVoDDrivYGg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a inscri\u00e7\u00e3o de \u201cPerdidos na Selva\u201d no Festival MPB Shell-81, eu fui obrigado a escolher uma can\u00e7\u00e3o para prosseguir no festival, j\u00e1 que \u201cPlaneta Agua\u201d estava inscrita e tamb\u00e9m foi selecionada. Guto Gra\u00e7a Mello, diretor do Festival, me ligou para resolvermos como ficaria resolvido esse impasse, pra eu n\u00e3o ser desclassificado ao descumprir o regulamento. Ora, para mim, n\u00e3o tinha problema algum abrir m\u00e3o da parceria com J\u00falio, para efeito daquela circunstancia do Festival, j\u00e1 que a qutoria, assumida no Copyright da Editora, poderia ser revista mais tarde \u2013 J\u00falio era como um irm\u00e3o para a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era como um irm\u00e3o para todos n\u00f3s, todos os que conviveram com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De minha parte, sei que foi reciproco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o houve tempo (J\u00falio faleceu precocemente aos 30 anos em Julho de 1984) e nem motiva\u00e7\u00e3o da minha parte. para modificar os cr\u00e9ditos daquele Copyright editorial. Ficaria como um presente para J\u00falio, por tudo que ele nos deu de inspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a hist\u00f3ria verdadeira de \u201cPerdidos na Selva\u201d, que eu gostaria que nunca mais fosse esquecida. E nem reduzida a uma mera \u201cparticipa\u00e7\u00e3o de m\u00fasico\u201d numa ficha t\u00e9cnica de um Compacto Simples transformado em raridade de colecionador.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-56488\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang90.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"747\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang90.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang90-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/gang90-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/10\/guilheme-arantes-e-a-amnesia-do-pop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Arantes e a Amn\u00e9sia do Pop<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/22\/entrevista-guilherme-arantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Entrevista: Guilherme Arantes (2017)<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/04\/guilherme-arantes-e-o-sentido-da-vida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Arantes e o Sentido da Vida<\/a><br \/>\n&#8211; Guilherme Arantes: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/guilhermearantes.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hoje sou exatamente o que sonhei ser<\/a>&#8221; (2006)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Guilherme Arantes escreveu um longo e delicioso texto em que resgata mem\u00f3rias da virada dos anos 70 para os 80, quando produziu, em 1981, o primeiro compacto da Gang 90, tendo Wander Taffo na guitarra, Celso Vechione, do Made in Brazil, no baixo, Gigante Brazil na bateria e as Absurdettes nos vocais. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/23\/guilherme-arantes-relembra-como-produziu-perdidos-na-selva-da-gang-90\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":56490,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4125,102],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56486"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56486"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56486\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74263,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56486\/revisions\/74263"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}