{"id":56374,"date":"2020-06-14T14:01:41","date_gmt":"2020-06-14T17:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56374"},"modified":"2020-07-29T01:17:52","modified_gmt":"2020-07-29T04:17:52","slug":"entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/","title":{"rendered":"Entrevista: A Cr\u00edtica de cinema por Adolfo Gomes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/adolfo-gomes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Adolfo Gomes<\/a> tem em sua presen\u00e7a no audiovisual baiano, na fun\u00e7\u00e3o de cineclubista, programador e cr\u00edtico cinema, uma identidade pessoal que se mescla com o esfor\u00e7o herc\u00faleo de se valorizar o patrim\u00f4nio cinematogr\u00e1fico do nosso Estado. Trabalhou durante 13 anos como programador da Sala Walter da Silveira (local onde faz muita falta na fun\u00e7\u00e3o), ajudando a construir, na sala que leva o nome do mais conhecido cineclubista da Bahia, a oportunidade para diversos cin\u00e9filos e cr\u00edticos em forma\u00e7\u00e3o (eu, um deles) de mergulhar em filmografias completas, movimentos cinematogr\u00e1ficos e escolas do pensamento cr\u00edtico da s\u00e9tima arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cria\u00e7\u00e3o do Cineclube Walter da Silveira, que levou \u00e0 frente na gest\u00e3o de Bertrand Duarte na Diretoria de Audiovisual da FUNCEB, diversos encontros entre cin\u00e9filos, realizadores e cr\u00edticos foram realizados, permitindo alimentar a proposta pioneira na Bahia que o ic\u00f4nico Walter da Silveira lan\u00e7ou na segunda metade do s\u00e9culo XX. Membro da <a href=\"https:\/\/abraccine.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema<\/a>, Adolfo \u00e9 um dos autores presentes em tr\u00eas dos livros lan\u00e7ados pela associa\u00e7\u00e3o (&#8220;<a href=\"https:\/\/www.editoraletramento.com.br\/produto\/curta-brasileiro-100-filmes-essenciais-387\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Curta Brasileiro \u2013 100 Filmes Essenciais<\/a>&#8220;, &#8220;<a href=\"https:\/\/grupoeditorialletramento.com\/shop\/documentario-brasileiro-100-filmes-essenciais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Document\u00e1rio Brasileiro \u2013 100 Filmes Essenciais<\/a>&#8221; e &#8220;<a href=\"https:\/\/grupoeditorialletramento.com\/shop\/pre-venda-100-melhores-filmes-brasileiros-frete-gratis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">100 Melhores Filmes Brasileiros<\/a>&#8220;) com reuni\u00f5es de escritos que refletem o pensamento cr\u00edtico cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Adolfo aprofunda suas impress\u00f5es do olhar de cinema em tempos fugazes como os atuais, quando a frui\u00e7\u00e3o na s\u00e9tima arte vem se perdendo diante da pressa na absor\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria de conte\u00fados do audiovisual. \u201cN\u00e3o podemos esquecer que a cr\u00edtica de cinema, quase sempre, \u00e9 uma atividade complementar aos filmes (&#8230;). Por isso, talvez o mais importante seja indagar sobre o que esperamos do cinema nos dias de hoje\u201d, provoca Adolfo. Confira o papo!<\/p>\n<figure id=\"attachment_56382\" aria-describedby=\"caption-attachment-56382\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56382 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/DOCUMENT\u00c1RIO-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/DOCUMENT\u00c1RIO-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/DOCUMENT\u00c1RIO-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56382\" class=\"wp-caption-text\"><em>Adolfo Gomes escreve dp document\u00e1rio &#8220;Arraial de Cabo&#8221; (1959), de M\u00e1rio Carneiro e Paulo C\u00e9sar Saraceni\u00a0<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A cr\u00edtica de cinema feita hoje, dentro de uma fugacidade na absor\u00e7\u00e3o de conte\u00fados liberados em streaming e na pressa que a internet imp\u00f5e na an\u00e1lise de filmes e s\u00e9ries, possui um esfor\u00e7o imenso em sua meta de se estabelecer como um meio de reflex\u00e3o que escape ao simples banal. Qual a sua opini\u00e3o acerca do processo da escrita cr\u00edtica dentro dessa realidade atual?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o podemos esquecer que a cr\u00edtica de cinema, quase sempre, \u00e9 uma atividade complementar aos filmes, \u00e0 frui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia audiovisual do espectador, enquanto tamb\u00e9m leitor, criador, consumidor e sujeito de um olhar. Por isso, talvez o mais importante seja indagar sobre o que esperamos do cinema nos dias de hoje. Ao meu ver, isso precede qualquer debate. Assim, como \u201cfazer filmes\u201d tornou-se algo relativamente acess\u00edvel e banal; escrever sobre filmes, por consequ\u00eancia, reflete algo dessa natureza instant\u00e2nea do registro audiovisual, que tende a ser mais fugaz, descart\u00e1vel do que perene e reflexiva. Antes, quando se filmava uma cena, era preciso esperar at\u00e9 que, num laborat\u00f3rio, fosse \u201crevelada\u201d aquela imagem, a din\u00e2mica da encena\u00e7\u00e3o pretendida dependia dessa conting\u00eancia t\u00e9cnica-temporal. At\u00e9 o foco, essa busca pela nitidez da realidade, era um processo espec\u00edfico que demandava alguma dose de expectativa \u2013 o foquista era uma esp\u00e9cie de \u201cvidente\u201d materialista, calculava as dist\u00e2ncias e a profundidade de campo, por exemplo, com certo grau de abstra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe mais hoje. O mundo agora \u00e9 mais vis\u00edvel e concreto neste sentido. Vemos as coisas, via de regra, em tempo real. Portanto, o fazer cinematogr\u00e1fico atual j\u00e1 n\u00e3o lida mais com o tempo da filmagem, da narrativa, da economia da produ\u00e7\u00e3o do mesmo jeito. O intervalo que havia entre a capta\u00e7\u00e3o da imagem e sua impress\u00e3o em pel\u00edcula foi abolido pela capta\u00e7\u00e3o digital. \u00c9 semelhante ao que acontece com a cr\u00edtica. Escreve-se e publica-se da mesma forma acelerada. O que quero dizer com essas analogias, \u00e9 que esse ritmo vertiginoso se traduz, na minha opini\u00e3o, numa certa frivolidade do olhar, ao mero tomar partido, o posicionar-se, apressadamente favor\u00e1vel ou contr\u00e1rio, em detrimento da problematiza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es apresentadas por uma determinada obra audiovisual. Se um filme \u00e9, face uma an\u00e1lise cr\u00edtica, bom ou ruim, isso deve resultar de um percurso reflexivo, argumentativo e at\u00e9 hist\u00f3rico, e n\u00e3o pronunciado como uma senten\u00e7a. Assim, \u00e9 uma quest\u00e3o da sensibilidade contempor\u00e2nea. Um cineasta n\u00e3o precisa necessariamente \u2013 no contexto em que vivemos \u2013 de uma c\u00e2mera 35mm ou da mais moderna tecnologia de capta\u00e7\u00e3o digital para expressar suas ideias, sua po\u00e9tica pessoal. Um grande filme pode ser feito com celular, como uma bela cr\u00edtica pode ser veiculada num vlog, canal de Youtube ou at\u00e9 no Twitter. A etapa que precede e justifica tudo isso, \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de um olhar cr\u00edtico, da elabora\u00e7\u00e3o de um pensamento claro, criativo, honesto e \u2013 se poss\u00edvel \u2013 dial\u00e9tico. O cinema \u00e9, acima de tudo agora, uma arte das incertezas e da fluidez. Cabe pensar um pouco mais sobre o dispositivo audiovisual \u2013 seu alcance, possibilidades e fragilidades \u2013 do que simplesmente na sua consequ\u00eancia, o filme. Acho que uma pergunta pertinente que se pode fazer hoje diante de uma obra audiovisual \u00e9: no que esse filme reverbera ou desconstr\u00f3i uma ideia de cinema? Ou antes, que ideia traz esse filme para o cinema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Geraldo Sarno me falou exatamente acerca desse processo de capta\u00e7\u00e3o, quando, ainda em seus filmes iniciais, era preciso esperar voltar do sert\u00e3o \u00e0 capital para revelar o negativo e poder assistir. Ele me disse que, quando filmou \u201cCoronel Delmiro Gouveia\u201d (1978), o diretor de fotografia Lauro Escorel o chamou para ver as imagens prontas, mas Sarno preferiu n\u00e3o ver para que n\u00e3o tivesse dificuldades com as pr\u00f3ximas imagens captadas. Preferia ter acesso a elas apenas na montagem. Esse tipo de aprofundamento, a necessidade de um tempo de frui\u00e7\u00e3o e absor\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se faz necess\u00e1rio na escrita cr\u00edtica. Neste aspecto, para voc\u00ea, esse processo de constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica se aproxima da constru\u00e7\u00e3o textual cr\u00edtica?<\/strong><br \/>\nPode parecer demasiado condescendente com a cr\u00edtica situ\u00e1-la no mesmo patamar da realiza\u00e7\u00e3o. No entanto, penso que a constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica, sobretudo atualmente, implica resolver ou se impor demandas cr\u00edticas e textuais. A produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-cr\u00edtica e, ao mesmo tempo, o imagin\u00e1rio f\u00edlmico consolidado fazem com que j\u00e1 n\u00e3o haja mais inocentes. \u00c9 dif\u00edcil tanto para um cr\u00edtico, quanto para um realizador, delimitar as influ\u00eancias, o impacto e a import\u00e2ncia que filmes, po\u00e9ticas e leituras pr\u00e9-existentes t\u00eam no processo criativo contempor\u00e2neo. Com praticamente tudo ao nosso alcance, h\u00e1 o grande desafio de evitar a mera colagem, o rearranjo do que j\u00e1 foi feito, a revisita persistente. N\u00e3o \u00e9 uma ren\u00fancia \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o ou uma impossibilidade de se alcan\u00e7ar algo original. Trata-se de uma constata\u00e7\u00e3o: A maioria das realiza\u00e7\u00f5es e das cr\u00edticas atuais \u00e9 excessivamente descritiva. Ent\u00e3o, percebo uma converg\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o. Isso sim, infelizmente, equaliza as duas fun\u00e7\u00f5es de uma maneira geral. No entanto, existem rupturas nos filmes e nos escritos sobre cinema. Quer dizer: espa\u00e7os de transgress\u00e3o. Para ilustrar isso, tomemos como exemplo um filme da natureza de \u201cO Rei do Caga\u00e7o\u201d (1977), de Edgard Navarro. A cena inicial, o registro do ato de defecar, subverte a l\u00f3gica descritiva. \u00c9 uma imagem t\u00e3o end\u00f3gena, magmal, que \u00e9 nova, parece nunca vista antes. Navarro transforma um gesto fisiol\u00f3gico em outra coisa, numa paisagem lunar. \u00c9 como se fossemos os primeiros a pisar na lua ou a presenciar tal passo. Em s\u00edntese, o filme demanda da cr\u00edtica imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso, quando se faz uma cr\u00edtica de cinema ou um filme, oferecer algo de si. E uma das coisas mais pessoais e transgressivas que podemos conceber, neste sentido, ainda \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_56380\" aria-describedby=\"caption-attachment-56380\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56380 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/100-MELHORES-FILMES-BRASILEIROS-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/100-MELHORES-FILMES-BRASILEIROS-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/100-MELHORES-FILMES-BRASILEIROS-1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56380\" class=\"wp-caption-text\"><em>Adolfo Gomes escreve sobre o filme &#8220;A Idade da Terra&#8221; (1980), de Glauber Rocha<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste aspecto de compara\u00e7\u00e3o entre a linguagem da escrita cr\u00edtica e a linguagem cinematogr\u00e1fica, s\u00e3o not\u00f3rios os exemplos de profissionais da cr\u00edtica que se tornaram ex\u00edmios cineastas. Esse apuro no olhar dentro da an\u00e1lise textual reflete de que maneira no olhar do fazer cinematogr\u00e1fico?<\/strong><br \/>\nCerta vez, o cineasta alem\u00e3o Werner Herzog declarou prescindir da hist\u00f3ria do cinema, pois as imagens que buscava nos seus filmes n\u00e3o t\u00eam paralelo, nem derivam do que j\u00e1 havia sido visto e filmado. Entendo o que ele quis dizer e n\u00e3o me parece, ainda hoje, nem exagerado, nem presun\u00e7oso da parte dele. No Brasil, tivemos o Jos\u00e9 Mojica Marins, o Ozualdo Candeias e, em certo sentido, o Glauber Rocha que tamb\u00e9m poderiam reivindicar prescindir da hist\u00f3ria do cinema. A utopia deles \u00e9 t\u00e3o frondosa que isso soa poss\u00edvel, seus filmes tornam cr\u00edvel o sonho de uma autonomia criativa e hist\u00f3rica dessas propor\u00e7\u00f5es, remontam uma linha direta com uma express\u00e3o ancestral. \u00c9 claro que existem outros realizadores assim, de exce\u00e7\u00e3o. Mas para todos os demais, a hist\u00f3ria do cinema \u00e9 imprescind\u00edvel, igualmente o olhar cr\u00edtico. Desde a consolida\u00e7\u00e3o do cinema moderno nos anos 1950 que a fronteira entre o pensador, te\u00f3rico, cr\u00edtico e realizador \u00e9 sistematicamente superada pela autoconsci\u00eancia do dispositivo cinematogr\u00e1fico. O cinema n\u00e3o \u00e9 mais pura e simplesmente um ve\u00edculo narrativo, mas uma linguagem em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um instigante texto da te\u00f3rica e cr\u00edtica de cinema estadunidense, Kristin Thompson, chamado \u201c<a href=\"http:\/\/www.davidbordwell.net\/blog\/2011\/03\/18\/pleased-to-meet-you-whats-the-greatest-movie-ever-made\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pleased to meet you. What\u2019s the Greatest Movie Ever Made<\/a>\u201d, no qual ela fala acerca das perguntas que recebe sobre suas prefer\u00eancias em filmes e o desinteresse instant\u00e2neo quando tais t\u00edtulos n\u00e3o s\u00e3o conhecidos pelo questionador. Neste aspecto da capacidade do profissional da cr\u00edtica levar \u00e0 audi\u00eancia um norte no que se refere ao aprofundamento na Hist\u00f3ria do cinema, qual sua opini\u00e3o no que se refere a import\u00e2ncia da profiss\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOutrora, o cr\u00edtico era uma esp\u00e9cie de cart\u00f3grafo que percorria o territ\u00f3rio do cinema descobrindo e documentando suas paisagens (os cineastas, movimentos est\u00e9ticos e revolu\u00e7\u00f5es culturais) com a autoridade de um desbravador. Toda uma gera\u00e7\u00e3o de cin\u00e9filos, como a minha, buscava o primeiro contato com realizadores e filmes \u2013 na altura, praticamente inacess\u00edveis \u2013 atrav\u00e9s dos escritos, das cr\u00edticas. Claro, havia ainda a import\u00e2ncia de legitima\u00e7\u00e3o art\u00edstica do cinema que emergia da reflex\u00e3o est\u00e9tica elaborada nos textos. Tais inst\u00e2ncias da cr\u00edtica desapareceram, foram incorporadas pelo mercado cultural como uma etapa de quase merchadising e divulga\u00e7\u00e3o. A grande contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da atualidade n\u00e3o est\u00e1 mais em revelar ou tutelar a arte f\u00edlmica, mas em tentar organiz\u00e1-la em meio ao caos de oferta por meio da curadoria, da proposi\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es e de links entre filmes e propostas criativas. H\u00e1 quem diga que o espec\u00edfico cinematogr\u00e1fico \u00e9 a montagem. Diria que o que define a cr\u00edtica no momento \u00e9 a economia de recursos: ver menos filmes, ver filmes de maneira mais certeira e rigorosa e por mais vezes. Na contram\u00e3o da quantidade, da opul\u00eancia, um certo franciscanismo curatorial.<\/p>\n<figure id=\"attachment_56381\" aria-describedby=\"caption-attachment-56381\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56381 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/CURTA-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/CURTA-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/CURTA-BRASILEIRO-100-FILMES-ESSENCIAIS-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56381\" class=\"wp-caption-text\"><em>Adolfo Gomes escreve do curta &#8220;Um Dia na Rampa&#8221; (1960), de Luiz Paulino dos Santos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem vasta experi\u00eancia como curador e programador de sala de cinema. Em como tais experi\u00eancias refletiram no aprimoramento de sua constru\u00e7\u00e3o textual como cr\u00edtico?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho m\u00e9todo, nem sequer uma estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o textual. Sempre procurei desenvolver um olhar cr\u00edtico a partir de uma indaga\u00e7\u00e3o central e pessoal\u00edssima: o que \u00e9 o cinema para mim? Minha resposta sempre foi mais existencial do que est\u00e9tica. Reconhe\u00e7o: esse \u00e9 apenas um dos paradoxos da minha rela\u00e7\u00e3o com os filmes. Como se trata, sobretudo, de uma rela\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia (preciso do cinema para existir), minha aproxima\u00e7\u00e3o com o of\u00edcio da programa\u00e7\u00e3o e da curadoria foi natural. Para obter as c\u00f3pias e ver os filmes, precisava de argumentos e justificativas, do contr\u00e1rio n\u00e3o seria poss\u00edvel exibi-los, acess\u00e1-los. Eram outros tempos. Os filmes tinham presen\u00e7a f\u00edsica, peso, di\u00e2metro e demandavam a experi\u00eancia coletiva da proje\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que via esses filmes, ampliava meu olhar, me aproximava das pessoas e queria compartilhar com elas outras obras. Assim, minha cinefilia foi sendo moldada criticamente e se retroalimentando das curadorias que fazia. Mais do que um cr\u00edtico, sempre fui um cineclubista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do processo estil\u00edstico de escrita, fugindo de estruturas que seguem formatos engessados, que tentam esgotar todas as propostas de reflex\u00e3o oferecidas pela obra, muitas vezes o(a) profissional da cr\u00edtica se esquece de focar em um contexto espec\u00edfico da obra e o tempo sobre o qual ela busca refletir. Para voc\u00ea, qual a fun\u00e7\u00e3o da escrita cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica como fator de reflex\u00e3o social e pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\nPara quem n\u00e3o faz muita distin\u00e7\u00e3o entre cinema e vida, como eu, \u00e9 algo incontorn\u00e1vel, uma quest\u00e3o de cidadania. Sempre tive uma rela\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia com a arte e com os filmes em particular. N\u00e3o existe o mundo do Godard e a sociedade, por exemplo. \u00c9, para mim, uma coisa s\u00f3. Portanto, sinto o Godard como um pai, um mentor. Sempre encarei como um ato pol\u00edtico ver um filme, escrever sobre ele \u2013 em \u00faltima an\u00e1lise o cinema \u00e9 tamb\u00e9m um meio de inser\u00e7\u00e3o social, de esperan\u00e7a, de constru\u00e7\u00e3o de utopias. Quando escrevo, quero me lembrar disso, da dimens\u00e3o pol\u00edtica e existencial inerentes \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o social. A escrita, qualquer escrita, n\u00e3o deixa de ser um testemunho hist\u00f3rico para n\u00f3s mesmos e para os outros. \u00c9 a for\u00e7a dela: captar uma emo\u00e7\u00e3o e traduzi-la em palavras, num discurso. Por si s\u00f3, mais do que uma fun\u00e7\u00e3o, \u00e9 um instrumento de reflex\u00e3o ampla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em conversa com o cr\u00edtico franc\u00eas Jean-Michel Frodon, lhe perguntei acerca da proposta de an\u00e1lise cr\u00edtica sem a necessidade de se esgotar todas as discuss\u00f5es e nuances oferecidas pela obra. Ele concordou dizendo que, muitas vezes, o norte para a constru\u00e7\u00e3o do texto cr\u00edtico pode estar na localiza\u00e7\u00e3o de um aspecto do filme e o discorrer sobre tal ponto de reflex\u00e3o. Durante a constru\u00e7\u00e3o, outras possibilidades surgir\u00e3o. \u00c9 o meu caso, em muitos processos de imers\u00e3o cr\u00edtica. O seu processo de escrita segue caminho semelhante?<\/strong><br \/>\nO meu processo de escrita \u00e9 mais para o medi\u00fanico. Meu ponto de partida sempre \u00e9 uma ideia. Escrevo para esclarec\u00ea-la e fazer vir \u00e0 tona um sentimento, uma impress\u00e3o concreta e objetiva. Talvez n\u00e3o seja um cr\u00edtico, simplesmente busco ter um olhar cr\u00edtico. Quando escrevo nunca quero esclarecer um filme, explic\u00e1-lo ou circunscrev\u00ea-lo. Escrevo para descobrir o efeito do filme sobre mim, sobre o cinema. Estou em busca daquela ideia que ele, o filme, faz despertar em mim. Parto do filme, n\u00e3o me direciono a ele. Sei que parece bastante esot\u00e9rico, mas, \u00e0s vezes, me surpreendo com o que escrevo. Como o cinema, \u00e9 um mist\u00e9rio para mim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-56376\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Adolfo-Gomes-Foto-de-Paula-Sampaio.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1014\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Adolfo-Gomes-Foto-de-Paula-Sampaio.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Adolfo-Gomes-Foto-de-Paula-Sampaio-222x300.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Conhe\u00e7a Rodrigo Salem, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/07\/04\/rodrigo-salem-um-jornalista-em-la\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um jornalista brasileiro em Los Angeles<\/a><br \/>\n&#8211; Christian Petermann: &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/27\/entrevista-christian-petermann\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O personagem LGBT ocupa um espa\u00e7o pequeno no nosso cinema<\/a>&#8220;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nessa entrevista ao Scream &#038; Yell, Adolfo aprofunda suas impress\u00f5es do olhar de cinema em tempos fugazes como os atuais, quando a frui\u00e7\u00e3o na s\u00e9tima arte vem se perdendo diante da pressa na absor\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria de conte\u00fados do audiovisual.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":56375,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56374"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56374"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56389,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56374\/revisions\/56389"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}