{"id":56356,"date":"2020-06-12T00:30:41","date_gmt":"2020-06-12T03:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56356"},"modified":"2020-07-09T00:47:53","modified_gmt":"2020-07-09T03:47:53","slug":"entrevista-ze-manoel-e-uma-historia-antiga-que-sempre-se-repete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/12\/entrevista-ze-manoel-e-uma-historia-antiga-que-sempre-se-repete\/","title":{"rendered":"Entrevista: Z\u00e9 Manoel e uma hist\u00f3ria antiga que sempre se repete"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor, cantor e pianista pernambucano Z\u00e9 Manoel \u00e9 um daqueles nomes que se deve acompanhar sempre com aten\u00e7\u00e3o: sua poesia, seu canto e seu olhar sobre o mundo funcionam como um respiro de beleza em meio ao caos. Z\u00e9 possui dois discos autorais \u2013 \u201cZ\u00e9 Manoel\u201d, de 2012, e \u201cCan\u00e7\u00e3o e Sil\u00eancio\u201d, de 2015 \u2013 e um songbook chamado \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/13\/musica-delirio-de-um-romance-a-ceu-aberto-ze-manoel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Del\u00edrio de um Romance a C\u00e9u Aberto<\/a>\u201d, que re\u00fane vozes como N\u00e1 Ozzetti, Faf\u00e1 de Bel\u00e9m e Ju\u00e7ara Mar\u00e7al em belas reinterpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ano, Z\u00e9 Manoel retorna com seu terceiro disco de in\u00e9ditas, a ser lan\u00e7ado nos pr\u00f3ximos meses pela gravadora Joia Moderna, em um trabalho que contar\u00e1 com a participa\u00e7\u00e3o de nomes como Luedji Luna e Bell Pu\u00e3. O primeiro lan\u00e7amento dessa nova fase \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u201cHist\u00f3ria Antiga\u201d, uma esp\u00e9cie de cr\u00f4nica sobre a viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra. De olhar delicado, a faixa apresenta um personagem que canta de um futuro ut\u00f3pico, numa fagulha de esperan\u00e7a. \u00c9 can\u00e7\u00e3o que deve ser ouvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fala mansa e t\u00edmida, Z\u00e9 tamb\u00e9m est\u00e1 presente nos cr\u00e9ditos de discos importantes dos \u00faltimos anos, como o recente <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/07\/musica-adriana-calcanhotto-transformou-a-quarentena-no-disco-so\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cS\u00f3\u201d, de Adriana Calcanhotto<\/a>, e em <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/16\/ao-vivo-fase-sombria-do-pais-ecoa-em-grande-show-e-disco-de-fafa-de-belem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cHumana\u201d, de Faf\u00e1 de Bel\u00e9m<\/a> &#8211; Z\u00e9 Manoel tamb\u00e9m participa do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/12\/download-tributo-ao-skank\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tributo ao Skank<\/a> lan\u00e7ado pelo Selo Scream &amp; Yell. Sua qualidade de transitar entre in\u00fameras cenas e de conversar com artistas de diferentes gera\u00e7\u00f5es s\u00f3 refor\u00e7a a sua import\u00e2ncia e a sua for\u00e7a enquanto um artista de nosso tempo. Para entender o que move Z\u00e9 Manoel e para saber mais sobre a constru\u00e7\u00e3o do novo disco, conversamos com o artista de forma virtual. Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Z\u00e9 Manoel - Hist\u00f3ria Antiga (Lyric V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V3Iw92T04eU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra come\u00e7ar, eu pergunto como voc\u00ea est\u00e1 nesse tempo de quarentena, em meio a tantas quest\u00f5es que est\u00e3o florescendo nesse momento?<\/strong><br \/>\nTem sido dif\u00edcil a princ\u00edpio para todo mundo, mais para umas pessoas do que para outras. Comecei a quarentena em S\u00e3o Paulo, passei um m\u00eas, e vim pra Recife at\u00e9 ter uma no\u00e7\u00e3o melhor do que ir\u00e1 acontecer, pra poder voltar pra S\u00e3o Paulo. Estou h\u00e1 dois meses aqui em Recife, mais pr\u00f3ximo de minha fam\u00edlia, e tamb\u00e9m est\u00e1 dif\u00edcil, assim como S\u00e3o Paulo. Tenho acompanhado atrav\u00e9s de conversas com amigos que, principalmente dentro da comunidade preta, ind\u00edgena e perif\u00e9rica, al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o com a pandemia em si, h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o com a manuten\u00e7\u00e3o da vida, da nossa sa\u00fade mental inclusive, porque s\u00e3o ataques di\u00e1rios de todos os lados e tem sido dif\u00edcil lidar com essa chuva de acontecimentos, de viol\u00eancia contra o povo preto e ind\u00edgena. E olha que a gente est\u00e1 discutindo a viol\u00eancia contra o povo preto, se voc\u00ea pegar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, \u00e9 sub discutido, s\u00e3o pessoas que est\u00e3o bem por elas mesmas, sem nenhum tipo de apoio dentro do sistema pol\u00edtico que governa o Brasil hoje em dia, que politicamente nunca foi muito bom para as comunidades ind\u00edgenas, num cen\u00e1rio de n\u00e3o existirem pol\u00edticas voltadas para eles, mas sim pol\u00edticas voltadas para a matan\u00e7a deles. \u00c9 at\u00e9 engra\u00e7ado assim isso de falar \u201celes\u201d, se referir aos \u00edndios como \u201celes\u201d, n\u00f3s tamb\u00e9m somos, n\u00e9? Tem uma fala que ouvi de uma amiga que diz que todo mundo no Brasil \u00e9 ind\u00edgena, a n\u00e3o ser quem tem acho que duas gera\u00e7\u00f5es vindas da Europa ou de outro pa\u00eds, mas fora isso todo mundo tem sangue ind\u00edgena e essa ideia nossa de que enxergar a pessoa ind\u00edgena como os outros \u00e9 um grande equ\u00edvoco. Mas enfim, \u00e9 isso, tem sido dif\u00edcil mesmo e as pessoas e os amigos com quem converso est\u00e3o todos nessa de cuidar da pr\u00f3pria sa\u00fade mental, porque \u00e9 uma outra forma de adoecer e tem muita gente adoecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Esse primeiro single que voc\u00ea est\u00e1 lan\u00e7ando fala sobre essa viol\u00eancia do Estado contra as popula\u00e7\u00f5es negras. Eu queria que voc\u00ea me contasse um pouco sobre a composi\u00e7\u00e3o, porque quando eu ouvi, apesar de muito triste, eu achei muito bela, pois ela se constr\u00f3i de uma perspectiva de futuro, de um novo futuro.<\/b><br \/>\nSim. Fiz essa m\u00fasica no ano passado (2019). Ela \u00e9 uma cr\u00f4nica exatamente desse ano, mas que tamb\u00e9m pode ser de qualquer ano: 2019, 2020, 1800 e tanto, \u00e9 assim, \u00e9 uma hist\u00f3ria que h\u00e1 muitos anos \u00e9 a mesma. Por isso o nome da m\u00fasica \u00e9 \u201cHist\u00f3ria Antiga\u201d, pois \u00e9 uma hist\u00f3ria muito antiga que se repete. Na verdade, ela n\u00e3o tinha essa segunda parte, em que falo que estou contando essa hist\u00f3ria do futuro, isto \u00e9, que estou no futuro contando uma hist\u00f3ria do passado, e esse passado \u00e9 exatamente o que a gente est\u00e1 vivendo agora. Essa ideia de que a gente vive num mundo moderno \u00e9 uma grande inven\u00e7\u00e3o, uma grande mentira, porque n\u00e3o tem nada de moderno, a forma como a sociedade \u00e9 constru\u00edda \u00e9 muito antiga, muito inadequada para a nossa realidade. Ent\u00e3o estou contando essa hist\u00f3ria l\u00e1 do futuro dizendo o quanto isso \u00e9 inadmiss\u00edvel, como tudo isso \u00e9 uma coisa muito inadequada. Na parte final falo exatamente desse lugar que \u00e9 a utopia, um lugar regido por Xang\u00f4 onde n\u00e3o h\u00e1 esse tipo de injusti\u00e7a, esse tipo de viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o preta. Eu n\u00e3o queria que essa m\u00fasica fosse uma mensagem de desesperan\u00e7a. Pensei: \u201ceu preciso finalizar de outro jeito, pois n\u00e3o quero ser portador da desesperan\u00e7a\u201d, afinal de contas, se a gente perde a esperan\u00e7a de que isso possa mudar, tudo deixa de fazer sentido. E \u00e9 engra\u00e7ado falar, por exemplo, que tem tudo a ver lan\u00e7ar ela agora, s\u00f3 que tem tudo a ver lan\u00e7ar ela em qualquer momento, porque a todo o momento essas viol\u00eancias est\u00e3o acontecendo. Ent\u00e3o, no momento que eu lan\u00e7ar eu vou estar falando do momento atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00ea que veio do Nordeste para S\u00e3o Paulo, que j\u00e1 est\u00e1 trabalhando aqui h\u00e1 alguns anos, qual \u00e9 a sua experi\u00eancia de mudar de uma outra realidade para uma cidade que a gente sabe que ainda \u00e9 muito in\u00f3spita e agressiva; muitas vezes a Luedji Luna, por exemplo, fala da viv\u00eancia dela de chegar em S\u00e3o Paulo e se sentir numa cidade que tenta apagar as popula\u00e7\u00f5es pretas de diferentes formas.<\/strong><br \/>\nExatamente. Eu tive essa experi\u00eancia duas vezes. A primeira foi quando eu sa\u00ed de Petrolina \u2013 que \u00e9 a minha cidade no interior de Pernambuco \u2013 e fui pra Recife. E foi a primeira vez que eu entendi uma sociedade&#8230; n\u00e3o que Petrolina seja uma para\u00edso, muito pelo contr\u00e1rio, Petrolina reproduz a sociedade como qualquer cidade do interior, mas talvez como s\u00e3o cidades muito mesti\u00e7as por causa das migra\u00e7\u00f5es \u2013 no caso de Pernambuco e de Petrolina, a migra\u00e7\u00e3o dos fugitivos holandeses que foram pessoas brancas, a\u00ed temos as pessoas negras que fugiram dos sistemas de escraviza\u00e7\u00e3o, bem como os ind\u00edgenas, que j\u00e1 estavam l\u00e1, ent\u00e3o virou aquela miscel\u00e2nea pra dentro do Brasil, que \u00e9 de onde eu venho. Em Petrolina essas coisas n\u00e3o eram t\u00e3o evidentes. Quando eu vim pra Recife comecei a perceber um pouco mais essa estrutura da sociedade racista, ficou um pouco mais evidente pra mim, essas divis\u00f5es, aqui tem as fam\u00edlias holandeses, as fam\u00edlias portuguesas, as periferias pretas, ind\u00edgenas, comecei a entender melhor. Quando fui a S\u00e3o Paulo, j\u00e1 entendi outra estrutura, s\u00f3 que eu j\u00e1 vinha dessa experi\u00eancia de Recife, ent\u00e3o eu estava muito mais dentro de uma comunidade onde eu me sentia acolhido, uma comunidade preta de artistas e tal. No geral, S\u00e3o Paulo me acolheu muito bem. Eu j\u00e1 cheguei a S\u00e3o Paulo morando na casa de X\u00eania Fran\u00e7a \u2013 morei quatro meses l\u00e1 \u2013, ent\u00e3o, talvez eu n\u00e3o tenha sentido esse desamparo. Por exemplo, hoje moro do lado do Aparelha Luzia [centro cultural e quilombo urbano de S\u00e3o Paulo], e quando estou mais ou menos, vou l\u00e1 e encontro um monte de amigos, ent\u00e3o tenho esses ref\u00fagios em S\u00e3o Paulo e isso me ajuda muito a n\u00e3o me sentir sozinho, a entender que tem muita gente no mesmo rol\u00ea e muita gente que est\u00e1 fazendo muitas coisas importantes. Tem tanta gente incr\u00edvel fazendo coisa incr\u00edvel nesse momento que isso serve como um alento, saber que esse mundo existe apesar dele n\u00e3o ser retratado em lugar algum praticamente. Esse mundo existe e existe muito forte; como existe em Salvador j\u00e1 h\u00e1 muito tempo essas organiza\u00e7\u00f5es do Il\u00ea Aiy\u00ea, essas organiza\u00e7\u00f5es das pessoas entenderem muito mais sobre a sua realidade. Isso sempre existiu, s\u00f3 que n\u00e3o foi retratado, ent\u00e3o ocupar esse lugar de certa forma me fortalece. Mas de fato, isso n\u00e3o tira esse sentimento de n\u00e3o-pertencimento que muitas vezes a gente em S\u00e3o Paulo sente na cidade. E em S\u00e3o Paulo, o racismo e os preconceitos s\u00e3o muito mais claros, \u00e9 a diferen\u00e7a que achei para Recife, ent\u00e3o lidar com isso de forma mais clara tamb\u00e9m me ajudou a lidar melhor, pois quando a coisa \u00e9 mais expl\u00edcita e voc\u00ea consegue perceber, \u00e9 at\u00e9 mais f\u00e1cil de voc\u00ea se defender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou dessa rede de amigos e isso \u00e9 uma quest\u00e3o forte tamb\u00e9m no seu trabalho: voc\u00ea trabalha muito ao lado de amigos, de colegas da sua gera\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem muita troca. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia para voc\u00ea de estar no entorno dos seus pares e de produzir e criar junto com eles?<\/strong><br \/>\nPois \u00e9, sempre foi assim na minha carreira. Acho que isso d\u00e1 muito sentido ao que eu fa\u00e7o, \u00e9 um dos motivos que me alegra em \u00e2mbitos diferentes. Agora, em S\u00e3o Paulo, por exemplo, tem Luedji [Luna] no meu disco; tem Bell Pu\u00e3 que \u00e9 uma poetisa maravilhosa aqui de Recife, que venceu o Slam BR [Campeonato Brasileiro de Poesia Falada] uns tr\u00eas anos atr\u00e1s; tem Stephane San Juan, que \u00e9 meu amigo m\u00fasico e tocou comigo durante muito tempo; tem Luis\u00e3o Pereira que est\u00e1 produzindo e \u00e9 de Salvador. Ent\u00e3o, estar produzindo e estar ao lado de amigos e de profissionais incr\u00edveis, que admiro, me d\u00e1 respaldo a criar e otimizar o que estou fazendo, \u00e9 uma forma de trabalhar que nunca quero deixar de lado. Acredito que isso d\u00e1 mais sentido ao que estou fazendo e deixa tudo mais poderoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre o seu \u00faltimo disco e o pr\u00f3ximo lan\u00e7amento tem um intervalo de cinco anos de trabalhos de in\u00e9ditas. Nesse meio tempo teve o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/13\/musica-delirio-de-um-romance-a-ceu-aberto-ze-manoel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Del\u00edrio de um Romance a C\u00e9u Aberto<\/a>\u201d, mas n\u00e3o teve um disco inteiro de in\u00e9ditas, ent\u00e3o esse \u00e9 um trabalho que voc\u00ea est\u00e1 produzindo h\u00e1 bastante tempo?<\/strong><br \/>\nExatamente, e estou muito ansioso para lan\u00e7ar esse disco. Comecei a gravar j\u00e1 tem um tempo, era para eu ter lan\u00e7ado ano passado, a gente teve v\u00e1rios contratempos. Esse \u00e9 um disco que estou fazendo por conta pr\u00f3pria, eu tinha escrito em editais por dois anos seguidos, nunca fui aprovado; ent\u00e3o decidi que ou eu fazia esse disco ou ficaria esperando por editais e ele nunca ia sair. Inclusive Z\u00e9 Pedro, da [gravadora] Joia Moderna, me chamou ano passado para nos encontrarmos e disse \u201cZ\u00e9, voc\u00ea precisa fazer esse disco\u201d, e me deu uma for\u00e7a. A partir disso aquela ideia que j\u00e1 estava \u201cpreciso fazer, preciso fazer\u201d, eu tirei do papel e comecei de fato a organizar tudo, foi muito importante esse empurr\u00e3ozinho do Z\u00e9 Pedro para eu come\u00e7ar a fazer. E agora estou muito ansioso de lan\u00e7ar, justamente porque faz tempo que quero lan\u00e7ar coisas novas. Isso tudo claro, considerando que foi uma alegria muito, muito grande o \u201cDel\u00edrio de um Romance a C\u00e9u Aberto\u201d, tanto o CD quanto o DVD. Esse trabalho foi a minha porta de entrada em S\u00e3o Paulo, foi a partir dali que eu abri uma nova rede de amigos e contatos na cidade, de pessoas que admiro muito. \u00c9 um projeto extremamente importante para mim. Mas ao mesmo tempo eu vinha caminhando com essa ansiedade e vontade de lan\u00e7ar coisas novas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea acha que nesse caminho voc\u00ea j\u00e1 mudou muito esteticamente tamb\u00e9m? Pois s\u00e3o cinco anos sem lan\u00e7ar disco, voc\u00ea viveu muita coisa nesse meio tempo.<\/strong><br \/>\nMuita coisa. Acho que mudou, por exemplo, se voc\u00ea pegar o primeiro disco, eu estou falando muito da natureza, do Rio S\u00e3o Francisco, era a minha vida l\u00e1, era o que eu estava com vontade de falar. Quando vim para o Recife eu j\u00e1 estou falando muito mais do mar, refletindo muito a minha vida em Recife no \u201cCan\u00e7\u00e3o e Sil\u00eancio\u201d. E esse novo reflete muito a minha vida em S\u00e3o Paulo e com o que lido diariamente. N\u00e3o lido com natureza, tanto que nesse disco acho que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma m\u00fasica com refer\u00eancia \u00e0 natureza e nem nada; estou lidando com quest\u00f5es muito mais pr\u00e1ticas da cidade em si, coisas que lido todos os dias. Ent\u00e3o, uma m\u00fasica como \u201cHist\u00f3ria Antiga\u201d, estou falando sobre a viol\u00eancia contra o povo preto, em outra eu j\u00e1 estou falando sobre o amor preto, em outra sobre as desilus\u00f5es. N\u00e3o conseguiria fazer um disco agora falando sobre o amor e a flor, porque n\u00e3o faz sentido pra mim falar amenidades nesse momento em que a gente \u00e9 atacado por todos os lados e a gente precisa sobreviver, e ao mesmo tempo ressignificar a nossa resist\u00eancia. O meu jeito de fazer e a minha linguagem, isso n\u00e3o vai mudar tanto, mas os assuntos realmente mudaram, quero falar coisas atuais, n\u00e3o quero ficar divagando nesse momento sobre assuntos que posso falar em qualquer outro momento da minha carreira. N\u00e3o quero perder esse momento atual de falar sobre o que estou sentindo e vivendo agora, do que eu estou vendo ao meu redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea lan\u00e7ou tamb\u00e9m &#8220;Isso N\u00e3o \u00e9 um Poema&#8221;,\u00a0 single em parceria com a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/08\/07\/entrevista-dulce-quental-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dulce Quental<\/a>, que fala sobre esse momento de quarentena e essa experi\u00eancia pela qual estamos passando. Queria que voc\u00ea falasse um pouco sobre esse lan\u00e7amento tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nPois \u00e9, Dulce me mandou essa letra, eu achei lind\u00edssima. Eu e Dulce sempre nos falamos e essa m\u00fasica surgiu de uma conversa. Ela vem me cobrando uma parceria h\u00e1 muito tempo, pois h\u00e1 tempos que eu n\u00e3o fazia nada com ela. S\u00f3 que fiquei naquela d\u00favida se eu lan\u00e7ava essa m\u00fasica agora ou n\u00e3o, porque preciso lan\u00e7ar algo do meu disco novo e existe de certa forma essa expectativa pelo que vou lan\u00e7ar depois de tanto tempo, s\u00f3 que a m\u00fasica tinha de certa forma uma urg\u00eancia. \u00c9 uma m\u00fasica que fizemos muito para mandar uma mensagem do tipo \u201cdepois disso tudo vai vir algo muito legal, vamos tentar nos manter vivos, tentar nos manter saud\u00e1veis mentalmente para poder viver o que vai vir depois\u201d. \u00c9 uma mensagem bem otimista. De todo modo, eu fiquei um pouco numa crisezinha, porque por uma lado \u00e9 uma mensagem que quero passar, mas n\u00e3o sei se \u00e9 muito bem o que eu acredito, porque n\u00e3o sei se realmente vai ficar tudo melhor depois, mas acho que \u00e9 uma mensagem importante para a gente ouvir agora, porque se a gente parar de acreditar que n\u00e3o vai ser melhor depois, vai ficar ainda mais dif\u00edcil. Ent\u00e3o foi \u00f3timo, porque amo a amiga e a parceira Dulce, adoro as letras dela, ent\u00e3o foi bem legal ter lan\u00e7ado isso agora e foi at\u00e9 uma esp\u00e9cie de esquenta para os novos lan\u00e7amentos, porque, de certa forma, as duas novas faixas falam de assuntos pr\u00f3ximos, s\u00f3 que de diferentes perspectivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como tem sido a produ\u00e7\u00e3o do novo disco? Voc\u00ea j\u00e1 estava produzindo antes desse momento de quarentena, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 tinha v\u00e1rias coisas dele prontas?<\/strong><br \/>\nO disco est\u00e1 praticamente pronto, a gente est\u00e1 fazendo os \u00faltimos ajustes. Aqui em Recife eu at\u00e9 regravei alguns pianos, algumas vozes. Tem um arranjo agora sendo gravado no Rio. E estou aguardando o arranjo do Letieres Leites que vai ser gravado na pr\u00f3xima semana. Ent\u00e3o meio que \u00faltimos ajustes. A bateria j\u00e1 tinha sido gravada, foi a primeira coisa que a gente gravou em Nova York \u2013 o Sthepane gravou as baterias e o baixo l\u00e1 e me mandou. Depois mandei pra Luiz\u00e3o, ele come\u00e7ou a gravar as guitarras e um monte de coisas em Salvador. E agora a gente est\u00e1 nessa parte final dos arranjos, j\u00e1 est\u00e1 bem pr\u00f3ximo de terminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente falou muito do seu trabalho solo, mas voc\u00ea tamb\u00e9m trabalhou muito ao lado de outros artistas. Recentemente saiu o disco \u201cS\u00f3\u201d, de Adriana Calcanhotto, em que voc\u00ea toca piano; assim como voc\u00ea acompanhou muitos outros nomes, voc\u00ea n\u00e3o para de trabalhar.<\/strong><br \/>\nSim, e \u00e9 at\u00e9 uma coisa muito boa, pois quando estourou a pandemia eu fiquei assim: \u201cMeu deus, e agora o meu trabalho? Como \u00e9 que eu vou me manter?\u201d E ent\u00e3o surgiu essa grava\u00e7\u00e3o para o disco de Adriana, que amo demais. Ali\u00e1s, \u00e9 um disco muito lindo produzido por ela com o Arthur [Nogueira] e os meninos de Bel\u00e9m e foi uma grande alegria participar. Ano passado circulei o ano inteiro com Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, no \u201cHumana\u201d, e foi inclusive algo que foi muito importante para mim circular \u2013 \u00e9 um disco que amo tamb\u00e9m. Amei demais trabalhar com a Faf\u00e1 e os meninos da banda, o Jo\u00e3o, o Richard e o Allen. E foi uma experi\u00eancia maravilhosa, pois eu estava at\u00e9 com saudade disso, porque comecei a minha carreira como m\u00fasico, eu acompanhei muitos artistas antes de decidir cantar e ter o meu trabalho. Tenho muito mais tempo de carreira, ali\u00e1s, como m\u00fasico, do que a pessoa que est\u00e1 ali na frente do palco, ent\u00e3o me realizei muito com Faf\u00e1. Faf\u00e1 \u00e9 maravilhosa, um show lindo com dire\u00e7\u00e3o de Paulo Borges. Foi uma alegria muito grande de fazer parte de dois discos e projetos importantes, espero que venham mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Isto N\u00e3o \u00c9 Um Poema (Z\u00e9 Manoel\/Dulce Quental)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-JA6HVeaqQo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Z\u00e9 Manoel - Tanto (Cover Skank - DVD Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UrW4M2CPVA4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Z\u00e9 Manoel e Ju\u00e7ara Mar\u00e7al - \u00c1gua Doce (DVD Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0EVhOYWIkXc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monkeybuzz.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nesse ano, Z\u00e9 Manoel retorna com seu terceiro disco de in\u00e9ditas, a ser lan\u00e7ado nos pr\u00f3ximos meses. O primeiro single dessa nova fase \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u201cHist\u00f3ria Antiga\u201d, uma esp\u00e9cie de cr\u00f4nica sobre a viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra. De olhar delicado, a faixa apresenta um personagem que canta de um futuro ut\u00f3pico, numa fagulha de esperan\u00e7a.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/12\/entrevista-ze-manoel-e-uma-historia-antiga-que-sempre-se-repete\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":56357,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1689],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56356"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56356"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56356\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56358,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56356\/revisions\/56358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}