{"id":56323,"date":"2020-06-08T00:04:21","date_gmt":"2020-06-08T03:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56323"},"modified":"2020-07-05T23:12:02","modified_gmt":"2020-07-06T02:12:02","slug":"entrevista-em-portugal-luiz-gabriel-lopes-grava-o-ep-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/08\/entrevista-em-portugal-luiz-gabriel-lopes-grava-o-ep-presente\/","title":{"rendered":"Entrevista: em Portugal, Luiz Gabriel Lopes grava o EP \u201cPresente\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da pouca idade (34 anos), a carreira do cantautor <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/luiz-gabriel-lopes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiz Gabriel Lopes<\/a> tem ares de veterana: ele fez parte do coletivo mineiro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/graveola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Graveola<\/a> por uma d\u00e9cada como tamb\u00e9m tem uma prol\u00edfica carreira solo composta por tr\u00eas \u00e1lbuns de est\u00fadio mais dois com o trio <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2014\/10\/20\/prata-da-casa-19-tiao-dua\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ti\u00e3o Du\u00e1<\/a>. N\u00e3o obstante ainda dedica suas aten\u00e7\u00f5es ao combo Rosa Neon e tem parcerias s\u00f3lidas com <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/20\/entrevista-teago-oliveira-fala-sobre-boa-sorte-seu-primeiro-disco-solo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teago Oliveira<\/a>, Chico C\u00e9sar, Ava Rocha, Romulo Fr\u00f3es e Samuel Rosa, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, Luiz est\u00e1 em Portugal, num autoex\u00edlio motivado por uma turn\u00ea local que n\u00e3o se concretizou devido a pandemia, e de l\u00e1 lan\u00e7ou em maio passado o EP &#8220;<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/3SziD5Z2skKqvr2wobYG2e\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Presente<\/a>&#8221; (2020), lan\u00e7ado pelo selo Pequeno Imprevisto, um trabalho que traz quatro faixas em que o m\u00fasico explora o formato voz e viol\u00e3o com letras que fazem uma ode a saudade em tempos de distanciamento social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Luiz Gabriel Lopes fala sobre o que tem feito para superar o per\u00edodo de confinamento, as diferen\u00e7as entre o p\u00fablico brasileiro e o portugu\u00eas, o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o do EP, a carga de otimismo de suas composi\u00e7\u00f5es, a arte e a politiza\u00e7\u00e3o, o legado deixado por <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/01\/zona-para-respiradores-um-role-por-1975\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Moraes Moreira<\/a>, o caos brasileiro na era Bolsonaro, a cena musical belo-horizontina e a sua exposi\u00e7\u00e3o a n\u00edvel nacional, o mercado da m\u00fasica na contemporaneidade e muito mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PRESENTE - ep completo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/16uo9MJFpnY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiramente como voc\u00ea est\u00e1? O que tem feito para superar o confinamento e a pandemia?<\/strong><br \/>\nT\u00f4 bem, felizmente num contexto massa, seguro. Vim pra Portugal no in\u00edcio de mar\u00e7o pra uma turn\u00ea pela Europa que afinal acabou n\u00e3o acontecendo&#8230; Eu faria concertos aqui, e tamb\u00e9m na It\u00e1lia, Holanda e Alemanha, mas a\u00ed apertou a coisa do Covid, foi sendo tudo cancelado, e eu fiquei. Por sorte, Portugal \u00e9 um pa\u00eds onde tenho constru\u00eddo rela\u00e7\u00f5es muito bonitas j\u00e1 h\u00e1 uns bons anos, passado temporadas por aqui, criando e fortalecendo trocas e interc\u00e2mbios art\u00edsticos&#8230; Portanto n\u00e3o me \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o estranha, pelo contr\u00e1rio. \u00c9 um privil\u00e9gio imenso estar seguro e com boas condi\u00e7\u00f5es materiais, num momento em que tanta gente est\u00e1 sofrendo com necessidades b\u00e1sicas. Ent\u00e3o tem essa sensa\u00e7\u00e3o muito particular, de estar num contexto t\u00e3o privilegiado, em contraste com o caos pol\u00edtico que o Brasil atravessa nesse momento, desgovernado por uma mil\u00edcia assassina e mentirosa, em plena pandemia. Da\u00ed meu desafio tem sido esse: administrar o sofrimento a dist\u00e2ncia, a saudade das pessoas queridas, a frita\u00e7\u00e3o do notici\u00e1rio, as mil bads que se descortinam todos os dias nesse filme de terror que virou a pol\u00edtica no nosso pa\u00eds, sem deixar, no entanto, de viver o momento presente, sem perder a vitalidade e a alegria. Tentar encontrar maneiras de estar pleno e forte pra poder contribuir de alguma forma com a oxigena\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dessa travessia, com aquilo que posso oferecer de melhor, que \u00e9 a minha m\u00fasica e a minha sensibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 havia excursionado por estas bandas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/21\/mobilidade-saudavel-graveola-em-lisboa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desde os tempos de Graveola<\/a>. H\u00e1 alguma diferen\u00e7a no que tange a receptividade do p\u00fablico brasileiro e o da\u00ed?<\/strong><br \/>\nUma das coisas que me encantou desde o in\u00edcio, no contato com o p\u00fablico portugu\u00eas, \u00e9 a qualidade da sua capacidade de escuta. Percebo que h\u00e1 uma predisposi\u00e7\u00e3o, constru\u00edda historicamente, ao ritual do mergulho atento nos sons e nas palavras. Uma presen\u00e7a inteira investida no ato de ouvir, muito especial. Da\u00ed \u00e9 todo um mundo que se abre: a maneira como reparam em detalhes das letras, das rimas, das imagens de cada can\u00e7\u00e3o, demonstra uma generosidade incr\u00edvel, uma entrega mesmo com a jornada de cada can\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito gratificante. Em contraponto, sinto que no Brasil, apesar da imensa riqueza da tradi\u00e7\u00e3o da nossa m\u00fasica popular, talvez pelas fragilidades do pr\u00f3prio circuito, dos modelos de consumo de m\u00fasica, existem v\u00e1rios obst\u00e1culos a essa qualidade de escuta. N\u00e3o que n\u00e3o haja, mas definitivamente \u00e9 algo que precisa ser desenvolvido num noutro n\u00edvel. Talvez seja nossa natureza tropical, que nos leva a uma postura majoritariamente expansiva e portanto mais corporal, menos interior, na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. O que tamb\u00e9m \u00e9 super rico e potente, nos abriu in\u00fameras portas criativas muito singulares. Mas, de fato, sinto que o desenvolvimento dessa outra capacidade, de experimentar um tes\u00e3o mais contemplativo e silencioso pelas coisas, \u00e9 um aprendizado importante. Principalmente nesse momento, onde a polariza\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico fez com que as pessoas perdessem quase por completo a capacidade de escutar umas \u00e0s outras. E o que \u00e9 pior, h\u00e1 muitos que se orgulham disso. Ent\u00e3o eu realmente tenho sentido que uma arte que de alguma forma nos proponha mergulhos interiores mais profundos, que nos convide a acessar a imensid\u00e3o do sil\u00eancio que mora em cada um de n\u00f3s, poder\u00e1 ser muito ben\u00e9fica pra nos ajudar a enxergar outros modelos de futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O EP &#8220;Presente&#8221; \u00e9 composto por quatro cartas musicadas em ode a saudade em tempos de distanciamento social. Como foi o processo de composi\u00e7\u00e3o \/ grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nQuando comecei a visualizar a ideia do EP, fui pesquisar meu pr\u00f3prio repert\u00f3rio e percebi um campo de conex\u00e3o entre essas quatro can\u00e7\u00f5es. Duas delas (&#8220;Lembrete&#8221; e &#8220;Recome\u00e7aria&#8221;) j\u00e1 existiam e tinham grava\u00e7\u00f5es anteriores, mas nenhuma grava\u00e7\u00e3o minha ainda. Uma delas, a primeira (&#8220;Minha Irm\u00e3&#8221;), tinha acabado de nascer, mesmo como uma carta familiar, de conte\u00fado extremamente pessoal, mas que carregava em si uma s\u00edntese do sentimento que eu queria semear durante esse momento: a f\u00e9 na travessia, a cren\u00e7a na nossa capacidade infinita de reinven\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o. A \u00faltima (&#8220;Amigo&#8221;) \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o da minha fam\u00edlia, escrita pela minha tia pro meu pai, uma carta de saudade tamb\u00e9m, de outros tempos. Ent\u00e3o tudo acaba sendo tamb\u00e9m um recado tamb\u00e9m pra mim mesmo, de n\u00e3o esmorecimento, de entender meu papel no mundo e honr\u00e1-lo, ser grato e fazer vibrar esse sentimento atrav\u00e9s da minha m\u00fasica. A coisa de fazer tudo voz e viol\u00e3o foi uma decis\u00e3o t\u00e9cnico-log\u00edstica, mas tamb\u00e9m est\u00e9tica. Porque foi tudo gravado na sala de casa, sem grandes aparatos de produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tinha que ser simples. Por outro lado, eu tinha vontade de lan\u00e7ar algo nesse formato j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo, muita gente que me conheceu nessa roupagem me pedia sempre, mas n\u00e3o tinha rolado ainda por mil quest\u00f5es. Ent\u00e3o foi um encontro muito prop\u00edcio, da motiva\u00e7\u00e3o com a oportunidade, e nasceu dessa forma. Vejo esse encontro da voz e do viol\u00e3o como uma tecnologia muito potente, ancestral e futurista, capaz de aproximar, aconchegar, embalar. \u00c9 um lance muito direto. Por fim, tive ainda a alegria de contar com a parceria da galera do Pequeno Imprevisto pra mixar e masterizar o som, e lan\u00e7ar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-56325\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/luizgabriellopes2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/luizgabriellopes2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/luizgabriellopes2-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Suas can\u00e7\u00f5es de modo geral trazem uma certa carga de otimismo quanto a vida e ao cotidiano, apesar das dificuldades. Em tempos nefastos e de tantas mudan\u00e7as como os nossos \u00e9 ainda poss\u00edvel ver beleza na vida?<\/strong><br \/>\nAcho que se a gente perde a capacidade de ver beleza na vida a gente est\u00e1 morto. Ou melhor, a gente est\u00e1 fudido. Mas sim, \u00e9 algo realmente desafiador, nesses tempos bizarros que estamos vivendo, o Brasil nas m\u00e3os dessa corja de assassinos, uma pandemia mundial colocando todo mundo frente a frente com seus maiores fantasmas, arreganhando o abismo das desigualdades de quem pode e quem n\u00e3o pode ficar em casa&#8230; Ent\u00e3o me parece que \u00e9 justamente num momento como esses em que a alegria e a beleza se tornam gestos pol\u00edticos ainda mais potentes e necess\u00e1rios. \u00c9 um aprendizado que tem chegado muito pra mim pela escuta dos povos ind\u00edgenas. Uma galera que est\u00e1 h\u00e1 cinco s\u00e9culos em guerra, lutando contra a invas\u00e3o das suas terras de origem e ainda assim conservam a alegria como um bem espiritual, sagrado; n\u00e3o perdem nunca a capacidade de cantar e dan\u00e7ar e ritualizar a maravilha e o mist\u00e9rio da exist\u00eancia. A arte \u00e9 uma das grandes teias que pode nos manter conectados aos saberes dos nossos ancestrais, e cultivar as luzes desse caminho me parece uma responsabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda abordando o lado compositor, a pol\u00edtica j\u00e1 se fez presente em muitas de suas can\u00e7\u00f5es, onde se manifesta acerca das dores do mundo. Qual a import\u00e2ncia de manter uma arte politizada na contemporaneidade?<\/strong><br \/>\nSinto que, num passado recente, j\u00e1 tive mais &#8220;vontade de dizer&#8221; coisas, de soar relevante, de &#8220;mostrar o caminho&#8221; sobre alguma coisa. Com o tempo, fui sentindo que o despertar de cada um, e mesmo das grandes encruzilhadas pol\u00edticas e sociais, vai bem mais pelo trabalho de encontrar as perguntas certas do que escolher respostas f\u00e1ceis. Ningu\u00e9m tem a verdade sobre nada, e quase sempre esse tipo de discurso supostamente politizado tem alto potencial de r\u00e1pida obsolesc\u00eancia. Vivemos numa \u00e9poca onde a cultura do endeusamento e do cancelamento \u2013 principalmente de artistas e pessoas p\u00fablicas \u2013 s\u00e3o os term\u00f4metros de funcionamento di\u00e1rio das redes de comunica\u00e7\u00e3o. Tudo passa muito r\u00e1pido, o excesso de informa\u00e7\u00e3o atropela qualquer possibilidade de aprofundamento. Nesse sentido, me parece importante escapar a essa tend\u00eancia de anula\u00e7\u00e3o das singularidades, refor\u00e7ar o ponto de vista oposto. N\u00e3o sou nem quero ser l\u00edder nem guru de ningu\u00e9m, sou apenas um compositor tentando balancear na minha obra o insight e a d\u00favida, a inspira\u00e7\u00e3o e a descren\u00e7a, o medo e a f\u00e9. Ent\u00e3o, hoje, estou mais numa de que tudo o que tenho \u00e9 minha experi\u00eancia, minha vis\u00e3o, minha sensibilidade. Parcial e \u00fanica, singular e conformada por todos os meus defeitos e traumas, meus privil\u00e9gios e frustra\u00e7\u00f5es. A capacidade de criar a partir disso, de alimentar o universo com can\u00e7\u00f5es que de alguma forma sejam \u00fateis, pra povoar as mem\u00f3rias e viv\u00eancias das pessoas, \u00e9 uma miss\u00e3o que abracei com muito gosto e da qual muito me orgulho. E mais do que nomear as mil faces da estupidez humana, pessoalmente hoje me alinho mais com a proposta de reverberar territ\u00f3rios de sensibilidade e esperan\u00e7a, que possam estimular o horizonte imenso do nosso potencial criativo e m\u00e1gico, que possam nutrir, numa dimens\u00e3o bem funcional. Como diz aquela can\u00e7\u00e3o dos Mulheres Negras, &#8220;m\u00fasica serve pra isso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que Moraes Moreira \u00e9 uma das suas fontes de inspira\u00e7\u00e3o. Recentemente a sua morte causou bastante como\u00e7\u00e3o nacional. Qual \u00e9 o principal legado deixado por ele?<\/strong><br \/>\nMoraes \u00e9 um gigante. Um monstro sagrado da linhagem baiana, que fermentou em seu caldeir\u00e3o uma MPB muito pr\u00f3pria, bebendo no samba, na bossa-nova, na chula, no rock. \u00c9 uma s\u00edntese muito potente que ele faz, a maneira como articula a inventividade no viol\u00e3o, a malandragem e a leveza como int\u00e9rprete, o talento de compositor com muita bagagem e arrojo nas formas. Uma capacidade maestra de driblar o \u00f3bvio, mas sempre tocando aquele terreno do que \u00e9 tamb\u00e9m profundamente familiar, afetivo&#8230; futebol-arte. Curto muito tamb\u00e9m a capacidade de jogar em time que ele tem, a coisa do Novos Baianos \u00e9 um lance que ainda est\u00e1 pra acontecer algo parecido na nossa can\u00e7\u00e3o popular. A pot\u00eancia e a harmonia daquela constela\u00e7\u00e3o, minha nossa, \u00e9 um absurdo. E sim, sem d\u00favida a m\u00fasica dele segue presente tamb\u00e9m naquilo que fa\u00e7o, de v\u00e1rias formas, e tamb\u00e9m em muitos dos meus contempor\u00e2neos. Daquelas coisas que a gente s\u00f3 pode honrar e agradecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No mesmo per\u00edodo em que Moraes nos deixou o p\u00fablico brasileiro lamentou a morte do compositor <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/07\/as-30-musicas-mais-tocadas-de-aldir-blanc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Aldir Blanc<\/a> e do escritor Rubem Fonseca. Se por um lado o falecimento de ambos rendeu homenagens diversas, por parte do governo e da ex-secret\u00e1ria de Cultura e sua equipe, nenhuma nota p\u00fablica de pesar foi emitida, em mais uma clara amostra de como este governo desdenha a classe art\u00edstica neste pa\u00eds. Em suas redes sociais voc\u00ea tem levantado opini\u00f5es acerca do Brasil contempor\u00e2neo contr\u00e1rias ao governo Bolsonaro. Como m\u00fasico como voc\u00ea v\u00ea este momento? E qual a melhor forma de encarar esta adversidade?<\/strong><br \/>\nQuando n\u00e3o estou prestes a vomitar diante do notici\u00e1rio, meu desafio tem sido tentar encarar esse tsunami de lama que se abateu sobre nosso pa\u00eds como um portal, atrav\u00e9s do qual vamos precisar recriar algum horizonte poss\u00edvel nos pr\u00f3ximos anos. Pela transforma\u00e7\u00e3o de velhos h\u00e1bitos e cren\u00e7as, pelo desenvolvimento de uma consci\u00eancia mais refinada e complexa das coisas, do mundo que nos cerca, das nossas escolhas e suas reverbera\u00e7\u00f5es. Eu acho que muitas coisas nos trouxeram at\u00e9 aqui, e precisamos assumir nossa responsabilidade enquanto povo, nas fraturas que cultivamos entre n\u00f3s ao longo de todos esses anos, nos abismos que tanto se aprofundaram, dificultando a comunica\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias camadas da sociedade, que foram se isolando e criando seus pr\u00f3prios mitos, suas pr\u00f3prias verdades. Isso tudo num mundo tomado pela terra sem lei que \u00e9 a internet, que agrava ainda mais essa profunda crise dos saberes, das legitimidades, dos pap\u00e9is de media\u00e7\u00e3o. Sinto que o buraco \u00e9 bem fundo mesmo, \u00e9 um adoecimento ps\u00edquico, emocional, espiritual, de uma parcela grande da popula\u00e7\u00e3o, que se apegou \u00e0 imagem de um &#8220;Messias&#8221; como a uma causa, um time de futebol. Tem a ver com uma disputa muito infantil, num certo aspecto, que \u00e9 essa vontade de &#8220;ganhar o debate&#8221;, ao inv\u00e9s de construir algo comum atrav\u00e9s da soma de vis\u00f5es. O Bolsonaro e seu cl\u00e3 de ratos n\u00e3o s\u00e3o mais que os sanguessugas que estavam ali dispon\u00edveis e receberam a bomba no colo, no momento certo. Mas se a gente n\u00e3o resolver a base dessa merda, saem eles, entram outros, talvez um pouquinho menos toscos e mais maquiados de bons-mo\u00e7os, mas nada muda. Ent\u00e3o tem um desafio imenso a\u00ed, que \u00e9 o de reestabelecer um trabalho de forma\u00e7\u00e3o, criar maneiras de fomentar a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como algo de base nas comunidades, nas fam\u00edlias, nas escolas, em todos os ambientes onde isso seja poss\u00edvel. Que as informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o venham apenas atrav\u00e9s de memes e correntes de whatsapp, porque a gente sabe que tem que ir mais fundo. \u00c9 todo um processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 tive a grata oportunidade de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/20\/entrevista-teago-oliveira-fala-sobre-boa-sorte-seu-primeiro-disco-solo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrevistar o Teago Oliveira (Maglore)<\/a> e ele sempre elogia as parcerias que voc\u00eas realizaram. Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nTeago \u00e9 um artista precioso, sou f\u00e3. J\u00e1 era f\u00e3 da Maglore, a gente chegou a dividir uns palcos com o Graveola, t\u00ednhamos amigos em comum. Da\u00ed quando morei uns tempos em S\u00e3o Paulo a gente se aproximou mais, acabamos escrevendo algumas can\u00e7\u00f5es. \u00c9 sempre um processo interessante, a gente tem uma complementaridade massa. Estamos sempre cozinhando alguma ideia em fogo lento. Ele t\u00e1 com uma letra minha agora, vamos ver se em breve sai m\u00fasica nova (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Atualmente para al\u00e9m da carreira solo voc\u00ea divide as suas aten\u00e7\u00f5es com a Rosa Neon. Como \u00e9 fazer parte do grupo? E ainda: quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as entre trabalhar em formato solo ou coletiva?<\/strong><br \/>\nO Rosa Neon \u00e9 um acontecimento meio imprevisto nas vidas de todos n\u00f3s, um encontro muito potente que virou banda e virou disco e criou toda uma hist\u00f3ria massa. Pra mim tem sido uma pesquisa incr\u00edvel, um puta aprendizado, estar perto de artistas t\u00e3o talentosos e criar coisas a partir de uma proposta mais diretamente ligada \u00e0 m\u00fasica pop, \u00e0 cultura dos videoclipes, um outro rol\u00ea. \u00c9 tamb\u00e9m um exerc\u00edcio interessante de metamorfose, mergulhar nesses universos por onde eu ainda n\u00e3o tinha andado tanto, trazer minha bagagem e absorver outras refer\u00eancias tamb\u00e9m. Como um outro heter\u00f4nimo meu, que ativo quando estou naquele espa\u00e7o, uma expans\u00e3o dos meus pr\u00f3prios modos de ser na arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Somos conterr\u00e2neos de BH e vejo na cidade uma cena riqu\u00edssima cultural que segue a crescer, mas que certa forma precisa e merece se expandir a n\u00edvel nacional. Por que voc\u00ea acha que isso n\u00e3o acontece?<\/strong><br \/>\nAcho que depois do aparecimento do Djonga a galera finalmente come\u00e7ou a entender que BH e Minas Gerais como um todo tem um cen\u00e1rio foda e mega diverso, e interconectado, o que \u00e9 ainda mais interessante. O lance da cidade n\u00e3o ser t\u00e3o grande faz com que as trocas sejam mais pr\u00f3ximas, as cenas estejam em di\u00e1logo e se influenciem mutuamente de um jeito muito especial. Claro que ainda existe essa geopol\u00edtica do eixo Rio-SP como um espa\u00e7o de legitima\u00e7\u00e3o institucional, a imprensa &#8220;nacional&#8221; que supostamente \u00e9 a que est\u00e1 nesses lugares, as grandes institui\u00e7\u00f5es de cultura, essa coisa do artista ter que ir morar nessas cidades, basicamente pra ser visto nos rol\u00eas e portanto poder &#8220;existir&#8221; dentro do circuito. Mas cada vez menos isso me parece fazer sentido, porque de alguma maneira acaba por promover uma anula\u00e7\u00e3o das singularidades de cada cena, uma necessidade de adequa\u00e7\u00e3o a um &#8220;status quo&#8221; anacr\u00f4nico e insuficiente, que \u00e9 justamente aquilo do que a arte e o artista deveria querer fugir. E vale lembrar que o territ\u00f3rio da internet \u00e9 muito vasto, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil pesquisar um pouco e descobrir que h\u00e1 um milh\u00e3o de pa\u00edses maravilhosos dentro do Brasil, cada um com um sabor muito particular, outros sotaques, outros jeitos de fazer. BH \u00e9 uma express\u00e3o disso, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. O Brasil \u00e9 imenso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que tudo ainda \u00e9 muito novo, mas a pandemia impactou diretamente o mercado dos shows \/ espet\u00e1culos de modo geral. Ent\u00e3o a pergunta \u00e9: qual o futuro da m\u00fasica? Estaria nas lives a salva\u00e7\u00e3o dos artistas que tem como ganha p\u00e3o as apresenta\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nEu acho que tem uma discuss\u00e3o importante que \u00e9 sobre a disponibilidade gratuita de conte\u00fado como uma esp\u00e9cie de regra silenciosa do mundo virtual. O excesso de coisa que a gente produz e d\u00e1 de gra\u00e7a porque foi assim que o mercado quis, foram as regras do jogo que nos foram impostas nessa grande &#8220;primeira fase&#8221; da internet. E avaliar como isso muitas vezes cultiva um comportamento passivo no p\u00fablico, que n\u00e3o \u00e9 convidado a se responsabilizar, a participar da viabiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhos que consome, porque nunca ningu\u00e9m quer levantar esse debate. Eu me lembro de, na \u00e9poca do myspace, uns amigos mais velhos da m\u00fasica virem me perguntar &#8220;mas ser\u00e1 que \u00e9 legal mesmo colocar tudo online de gra\u00e7a&#8221;? E eu era o jovenzinho que achava essa discuss\u00e3o reacion\u00e1ria (risos). Mas sim, acho que foi importante naquele momento, criou-se um espa\u00e7o interessante, mais plural, a gente entendeu que tinha muita produ\u00e7\u00e3o, muita diversidade. Mas talvez tenha chegado a hora de voltar nessa prosa, complexificar a vis\u00e3o, entender isso no horizonte desse 2020 nebuloso e do que vir\u00e1 a seguir. Discutir a monetiza\u00e7\u00e3o das plataformas de streaming, que \u00e9 desenhada pra render muito pros artistas que j\u00e1 s\u00e3o muito grandes e pouco ou quase nada pros artistas de pequeno e m\u00e9dio porte. Entender e rediscutir a import\u00e2ncia desses artistas de pequeno e m\u00e9dio porte no ecossistema do consumo de m\u00fasica, tamb\u00e9m me parece importante. Como seria o mundo se s\u00f3 houvesse a arte mainstream? O p\u00fablico sentiria falta ou nem ligaria? S\u00e3o muitas perguntas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Oriente - Gilberto Gil (Luiz Gabriel Lopes version)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DG0QiZD3-7Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"saudade do que a gente n\u00e3o viveu - luiz gabriel lopes + marina sena\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BwczLYQ_csk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luiz Gabriel Lopes - Apologia :: ao vivo no Teatro Bradesco (BH)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iEwQQIXAUZ8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luiz Gabriel Lopes - Maquin\u00e1rio @ Circo Voador\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2Rhit8YXACY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Luiz Gabriel Lopes fala sobre o que tem feito para superar o per\u00edodo de confinamento, as diferen\u00e7as entre o p\u00fablico brasileiro e o portugu\u00eas, o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o do EP &#8220;Presente&#8221;, a carga de otimismo de suas composi\u00e7\u00f5es, a arte e a politiza\u00e7\u00e3o, e muito mais. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/08\/entrevista-em-portugal-luiz-gabriel-lopes-grava-o-ep-presente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":56324,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2444],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56323"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56323"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56323\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56326,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56323\/revisions\/56326"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}