{"id":56217,"date":"2020-05-28T01:14:09","date_gmt":"2020-05-28T04:14:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56217"},"modified":"2020-06-25T00:50:35","modified_gmt":"2020-06-25T03:50:35","slug":"entrevista-a-multiartista-jup-do-bairro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/28\/entrevista-a-multiartista-jup-do-bairro\/","title":{"rendered":"Entrevista: a multiartista Jup do Bairro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Multiartista, Jup do Bairro encontrou na arte um ve\u00edculo para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo e a investiga\u00e7\u00e3o de si mesma. Nascida no Cap\u00e3o Redondo, periferia de S\u00e3o Paulo, Jup se jogou nas artes de forma autodidata, atuando como educadora, palestrante, styling, atriz, cantora, performer, produtora de eventos e apresentadora, colocando em primeiro plano quest\u00f5es que atravessam seu corpo de travesti, preta, gorda e perif\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCorpo Sem Ju\u00edzo\u201d (2020) \u00e9 o nome de seu primeiro EP solo, que ainda n\u00e3o tem data oficial de lan\u00e7amento. Antes disso, ela tem lan\u00e7ado alguns singles que apresentam suas explora\u00e7\u00f5es entre o rap, o pop e a m\u00fasica eletr\u00f4nica. Anteriormente, Jup trabalhou de diferentes formas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/07\/no-combativo-ccsp-linn-da-quebrada-se-despede-de-pajuba-mirando-o-futuro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ao lado de Linn da Quebrada<\/a>, em projetos como o disco \u201cPajub\u00e1\u201d (2017), o programa \u201cTransMiss\u00e3o\u201d, no Canal Brasil, e o filme \u201cBixa Travesty\u201d (2019), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman \u2013 premiado com o Teddy Award de melhor document\u00e1rio no Festival de Berlim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais recente lan\u00e7amento de Jup do Bairro \u00e9 o single \u201cAll You Need Is Love\u201d, ao lado de Linn da Quebrada e de Rico Dalasam, que veio acompanhado de um clipe gravado \u00e0 dist\u00e2ncia e finalizado em 3D. Foi de forma digital tamb\u00e9m que conversamos com Jup, em uma chamada via WhatsApp, na qual falamos sobre a carreira da artista, mais especialmente sobre as complexidades de se pensar a arte em tempos de isolamento. Jup do Bairro traz reflex\u00f5es fortes em um papo longo que tensiona as propuls\u00f5es da arte p\u00f3s-pandemia e as complexidades de ser artista em um per\u00edodo t\u00e3o ca\u00f3tico. Confira a entrevista na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jup do Bairro, Rico Dalasam &amp; Linn da Quebrada - ALL YOU NEED IS LOVE (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8pCX3Cvk2-4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar, gostaria de saber como voc\u00ea tem se sentido, como t\u00eam sido esses dias de quarentena?<\/strong><br \/>\nO que tenho divido com todas as pessoas que tenho tido contanto, est\u00e1 sendo uma experi\u00eancia muito louca, muito intensa, uma montanha-russa de sentimentos. Acho que o estar bem, o \u201cbom dia\u201d que a gente deseja a priori quando vai conversar com algu\u00e9m, j\u00e1 se desgastou, pois me vejo em um est\u00e1gio muito mais ok do que bem. Tenho feito exerc\u00edcios de tentar controlar o bombardeamento de informa\u00e7\u00f5es, tentar dar uma peneirada, mas tamb\u00e9m estou buscando n\u00e3o me alienar, porque \u00e9 importante a gente saber o que est\u00e1 acontecendo, sentir tudo isso. Acredito que tudo isso tem causado, em quem tem informa\u00e7\u00f5es, ansiedade, tristeza, uma dor e um medo profundo. E, sinceramente, acho que tudo bem sentir isso, pois acho que significa que a gente se comove com essas vidas, se comove com essas dores. Acredito que \u00e9 importante a gente sentir a plenitude de todos os nossos sentimentos, inclusive esses que de certa forma nos doem, nos pegam enquanto raiz. Entendendo tamb\u00e9m que a pandemia no Brasil nada mais \u00e9 que um ataque genocida de execu\u00e7\u00e3o de corpos, principalmente de corpos marginais, corpos pretos, da periferia, e tudo isso tem me do\u00eddo muito, muito. Ent\u00e3o estou num high-low muito grande, justamente por estar produzindo o meu disco tamb\u00e9m, ter que mexer em algoritmos da internet, postando v\u00eddeos e tal, e \u00e0s vezes n\u00e3o estou bem, n\u00e3o consigo nem me olhar no espelho, n\u00e3o consigo nem fazer uma chamada de v\u00eddeo, e a gente precisa meio que estar preparado para isso, mas estou entendendo meus limites, estou entendendo o que o meu corpo pode fazer nesse momento para que eu n\u00e3o cobre para al\u00e9m do que posso entregar. Para que todo esse tempo, esse momento que estamos vivendo n\u00e3o vire uma cobran\u00e7a de algo que eu n\u00e3o possa entregar. Ent\u00e3o \u00e9 muito importante a gente estar em sinceridade com n\u00f3s mesmos para que a gente possa entender o que a gente pode fazer e executar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como tudo isso impactou no seu trabalho? Voc\u00ea j\u00e1 estava num processo longo de cria\u00e7\u00e3o desse disco, nesse sentido, como esse momento impactou nessa produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nBom, fiz uma campanha de financiamento coletivo pro meu primeiro \u00e1lbum solo, no ano passado, onde l\u00e1 atr\u00e1s tive que de alguma forma ir reinventando a estrutura junto com a minha equipe, justamente pelo fato de que fiz uma campanha de financiamento, de capital, onde se estava tendo uma crise econ\u00f4mica muito grande, principalmente de quando a gente fala de acesso a cultura, lazer, onde a gente teve maiores rompimentos. A preocupa\u00e7\u00e3o foi instaurada dentro do \u00e2mbito cultural, ent\u00e3o a gente j\u00e1 viu esse problemas l\u00e1 atr\u00e1s e \u00e9 meio desesperador, porque quando se fala de dinheiro, de n\u00e3o possibilidade de capital, n\u00e3o h\u00e1 muito o que se fazer a n\u00e3o ser pensar em estrat\u00e9gias mirabolantes. E foi o que fiz: eu tinha toda uma estrat\u00e9gia de narrativa, que levantei junto com a minha equipe, e da\u00ed vi que n\u00e3o era o bastante. Ent\u00e3o tive que reinventar, colocar elementos que achei interessantes de serem falados, fiz v\u00eddeos com apelo humor\u00edstico, pol\u00edtico, tentando abranger o m\u00e1ximo de p\u00fablico. Numa conscientiza\u00e7\u00e3o do quanto a gente \u00e9 respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de novos imagin\u00e1rios, de financiar novos artistas, porque \u00e0s vezes a galera fica numa repeti\u00e7\u00e3o, falando que s\u00e3o sempre os mesmos artistas, mas a gente tem que saber que n\u00f3s somos respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o desses imagin\u00e1rios: que arte estamos consumindo? Que tipo de corpos a gente est\u00e1 colocando enquanto protagonistas? E da\u00ed lancei essa bomba de responsabilidade em massa, do qu\u00e3o \u00e9 importante a gente ter a consci\u00eancia de como somos respons\u00e1veis por esses imagin\u00e1rios. Fui fazendo essa campanha, acabei batendo a meta com muito sufoco, nos dois \u00faltimos minutos do segundo tempo. Mas j\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o de como gastar esse dinheiro, a gente teve o primeiro atrito que \u00e9 o qu\u00e3o o audiovisual no Brasil \u00e9 caro, como \u00e9 caro produzir, principalmente material de qualidade, ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a penar j\u00e1 da\u00ed. E fomos tentando encontrar maneiras de executar isso, pois quase metade do dinheiro vai pras recompensas do que a gente oferecia, como CD, vinil, camiseta e outros brindes, e a outra parte do dinheiro seria para a produ\u00e7\u00e3o dessa ideia megaloman\u00edaca de fazer um EP visual. E uma coisa que a Badsista falou uma vez e que levo muito comigo \u00e9 que os corpos marginais, esses corpos resistentes e sobreviventes da arte, possuem uma esp\u00e9cie de chip tecnol\u00f3gico de readapt\u00e7\u00e3o ao caos. A gente consegue ter uma adapta\u00e7\u00e3o ao caos muito grande, justamente pela vontade e criatividade de fazer, porque, no meu caso, sou uma artista do tempo, n\u00e3o s\u00f3 porque carrego comigo as minhas mem\u00f3rias, as pessoas que passaram pela minha vida, minha ancestralidade, mas tamb\u00e9m como me adapto ao tempo, ao agora, pois falo sobre o agora, eu sou uma artista que tenta registrar a minha gera\u00e7\u00e3o, as dores e as del\u00edcias que permeiam meu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse seu EP tamb\u00e9m foi constru\u00eddo atrav\u00e9s das suas viv\u00eancias, pois ele n\u00e3o \u00e9 um trabalho novo, \u00e9 um trabalho de constru\u00e7\u00e3o que demandou muitos anos, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. Na verdade, a primeira m\u00fasica que lancei no ano passado, \u201cCorpo Sem Ju\u00edzo\u201d, eu escrevi quando eu tinha 13 anos, era uma poesia e eu nem imaginava cantar. Eu fazia parte de um grupo de punks e anarquistas no col\u00e9gio, eles que me apresentaram o fanzine. Antes inclusive de eu ter quest\u00f5es de identidade de g\u00eanero e tudo mais, eu j\u00e1 estava escrevendo como uma forma de externar meus pensamentos, como se pudesse me automedicar mentalmente. Foi passando o tempo e essa minha escrita foi virando m\u00fasica e eu fui com tudo. Ent\u00e3o tem coisas nesse EP que fazem mais de 10 anos que e tenho e que hoje me sinto confort\u00e1vel de executar. Muita letra que eu tamb\u00e9m abri m\u00e3o, porque hoje j\u00e1 sinto que sou outra pessoa, tenho outras necessidades do que falar. Fui caminhando com o tempo e o tempo pede outras urg\u00eancias, outras perguntas, outras respostas, ent\u00e3o tudo isso veio caminhando comigo at\u00e9 hoje, at\u00e9 eu me sentir segura e acho que \u00e9 isso que \u00e9 \u201cCorpo Sem Ju\u00edzo\u201d, \u00e9 isso que quero entregar enquanto presente a essa gera\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o artes que s\u00f3 eu poderia executar. Acredito que a arte, quando foge desse lugar \u00fanica e exclusivamente de produto, \u00e9 algo muito individual, partindo de indiv\u00edduos que conseguem contar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e fazer com que pessoas se reconhe\u00e7am a partir disso. Ent\u00e3o \u00e9 um trabalho muito lindo e muito honesto, e inclusive \u00e9 um trabalho que, quando me pego mais pra baixo, ou\u00e7o e parece que me d\u00e1 uma inje\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo, porque s\u00e3o coisas que preciso ouvir, eu falo sobre esse momento, parece que toda minha vida e toda minha trajet\u00f3ria eu estava me preparando para esse momento. Ent\u00e3o \u00e9 um disco que fala muito sobre esse p\u00f3s-apocalipse, sobre esse andar nos escombros, de coisas que a gente j\u00e1 via acontecendo e me parece que hoje a gente tem sofrido mais com isso. Gosto de relacionar esse medo de cont\u00e1gio atual com o mesmo medo que a popula\u00e7\u00e3o preta sofre, que a popula\u00e7\u00e3o trans sofre em sair de casa. Medo de sofrer alguma opress\u00e3o violenta. Muitos casos que tenho ouvido falar na regi\u00e3o \u00e9 quanto as revistas policiais, os enquadros, em que os policiais pedem para jovens pretos tirarem a m\u00e1scara para que haja o reconhecimento. Ent\u00e3o o quanto tamb\u00e9m essas m\u00e1scaras na popula\u00e7\u00e3o preta s\u00e3o como um estranhamento pro estado, o quanto a gente est\u00e1 numa margem que justamente diz para onde esse genoc\u00eddio \u00e9 direcionado. No come\u00e7o da pandemia, principalmente em S\u00e3o Paulo, que teve a maior ascens\u00e3o de casos, a gente podia ver que os lugares com mais pessoas contaminadas eram as zonas mais nobres e regi\u00f5es centrais; e hoje a gente consegue ver que isso se expandiu ainda mais para a periferia, onde est\u00e3o nesse momento as pessoas mais contaminadas e os maiores n\u00fameros de mortes pela Covid-19. \u00c9 um exemplo muito transparente de como os acessos, as informa\u00e7\u00f5es chegam. Porque a gente fica \u201cai t\u00e1 rolando pancad\u00e3o, t\u00e1 rolando galera na feira e tudo mais\u201d, mas \u00e9 porque essas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o chegam com o devido peso nas quebradas. \u00c9 como colocar as elei\u00e7\u00f5es: \u201cai, como a gente fez uma campanha t\u00e3o grande #elen\u00e3o, #elen\u00e3o\u201d, mas a gente n\u00e3o se preocupou com as pessoas que \u201cele sim\u201d, ent\u00e3o essas informa\u00e7\u00f5es v\u00e3o chegando de forma deturpada. As pessoas n\u00e3o tem acesso a di\u00e1logos pol\u00edticos, elas s\u00e3o ensinadas a n\u00e3o pensar politicamente, inclusive, para que se tenha maior controle de massa e por isso que muitas vezes a gente n\u00e3o consegue ter um di\u00e1logo t\u00e3o direto com a popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 a que mais sofre, que sofre diretamente com todas essas press\u00f5es e ataques de isen\u00e7\u00e3o, de uma lavada de m\u00e3os do governo, de certa desist\u00eancia dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea entende que a arte \u2013 e a m\u00fasica \u2013 \u00e9 uma forma de avan\u00e7ar esses di\u00e1logos e de colocar essas pessoas dentro do di\u00e1logo, para que n\u00e3o seja uma conversa unilateral?<\/strong><br \/>\nCom certeza. A arte em suas in\u00fameras possibilidades \u00e9 o \u00fanico feito poss\u00edvel p\u00f3s-apocal\u00edptico, s\u00f3 a arte pode salvar. A arte acabou me salvando, ela me fez acessar lugares que eu n\u00e3o imaginava \u2013 tanto lugares da minha cabe\u00e7a quanto geograficamente falando. \u00c9 uma associa\u00e7\u00e3o que a gente v\u00ea inclusive com a gera\u00e7\u00e3o mais nova do que eu. Eu tinha feito alguns trabalhos anteriores na F\u00e1brica de Cultura do Cap\u00e3o Redondo, que \u00e9 uma das ONGs mais importantes das periferias de S\u00e3o Paulo, e \u00e9 um trabalho extremamente importante e potente para a socializa\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rio para jovens e adolescentes, porque quando a gente come\u00e7a a criar possibilidades, a galera come\u00e7a a se ver em um outro papel, ent\u00e3o eles veem crian\u00e7as com uma puta estrutura de som podendo gravar, mesmo que de brincadeira, mesmo que sem vontade \u2013 pois ainda h\u00e1 essa resist\u00eancia na periferia de que se colocar enquanto artista \u00e9 se colocar como vagabundo, de quem n\u00e3o quer nada com nada \u2013 ent\u00e3o quando vai de forma despretensiosa, isso j\u00e1 cria imagin\u00e1rio para uma crian\u00e7a ou um adolescente, pois voc\u00ea d\u00e1 possibilidades de um instrumento, de canto, de pintura, quaisquer que sejam outras plataformas art\u00edsticas. Acredito que isso pode salvar, porque a arte faz com que a gente invente, ent\u00e3o a gente consegue pensar para al\u00e9m das nossas viv\u00eancias, a gente pode escrever novas viv\u00eancias, sejam elas ver\u00eddicas ou fict\u00edcias. Isso faz com que a gente aproxime ainda mais outras pessoas que se reconhe\u00e7am em nossos pap\u00e9is, em nossos recortes, mas que tamb\u00e9m conscientizem uma outra massa, com outras possibilidades. Ent\u00e3o eu, sinceramente, acho que a arte em si ela precisa ser descolonizada para que a gente consiga ter mais acessos e possa expandir ainda mais essa possibilidade enquanto mercado e vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando um pouco sobre a sua carreira, voc\u00ea trabalhou muito tempo ao lado da Linn da Quebrada, voc\u00ea est\u00e1 presente no disco dela, o \u201cPajub\u00e1\u201d, e tamb\u00e9m ao lado dela no programa \u201cTransMiss\u00e3o\u201d, do Canal Brasil. Em que momento voc\u00ea decidiu que era a hora de falar como Jup do Bairro, lan\u00e7ar seu disco e colocar a sua voz tamb\u00e9m em primeiro plano?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 tenho um trabalho com a m\u00fasica muito antigo, e quando conhe\u00e7o a Linn, eu j\u00e1 tinha um ber\u00e7o criado no rap, j\u00e1 vinha trabalhando. E passei por um momento de muito desentendimento meu com as pessoas com quem eu trabalhava, onde acabei perdendo o disco que eu ia lan\u00e7ar l\u00e1 atr\u00e1s com um produtor e isso acabou me fragilizando muito. Falei pra mim mesma: \u201cVou dar uma pausa na m\u00fasica, vou focar em outras coisas, focar em perfomance, em outros projetos, porque isso j\u00e1 est\u00e1 me deixando muito mal\u201d. E nesse mesmo tempo, a Linn j\u00e1 estava come\u00e7ando a escrever algumas coisas, que sempre achei muito bom, eu falava \u201cnossa, isso \u00e9 m\u00fasica, voc\u00ea precisa colocar pra fora\u201d, e ela foi alimentando essa vontade musical. Quando ela foi fazer o seu primeiro show, que foi no Graja\u00fa, no Periferia Trans, ela anunciou uma \u00faltima m\u00fasica, e eu estava fazendo uma perfomance nesse mesmo dia, com uma roupa que eu acabei fazendo de lixo \u2013 e demorei semanas pra fazer \u2013, e tirei com tudo essa roupa e subi no palco com ela de calcinha, porque eu queria participar daquele momento de alguma forma, e acabei performando com ela. No mesmo dia, ela tinha um outro show, na PopPorn, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, e ela falou: \u201cFoi muito diferente quando est\u00e1vamos juntas e tudo mais, acho que a gente tem muita pot\u00eancia juntas, o que voc\u00ea acha de ir pro show da PopPorn comigo?\u201d. E falei: \u201cVou super\u201d. E me lembro que o cach\u00ea era super baixo, tipo uns 100 reais, a gente dividiu, 50 pra cada e foi quando a gente come\u00e7ou a trabalhar juntas e desde ent\u00e3o estamos a\u00ed fazendo essa trajet\u00f3ria. Com o passar do tempo fui entendendo, e foi ficando cada vez mais n\u00edtido, que o nosso trabalho \u00e9 extremamente singular, porque uma coisa \u00e9 o que a Linn da Quebrada faz e outra coisa \u00e9 o que a Jup do Bairro faz e outra coisa \u00e9 o que n\u00f3s fazemos juntas. Fui sentindo a necessidade de colocar esses meus outros planos, minhas outras escritas de outra maneira. E acredito tamb\u00e9m que quando a gente tem esse governo repressor, que faz com que a gente se sinta mais atrasada, acho que nos impulsiona tamb\u00e9m, pois acredito que o presente e o passado caminham juntos. Quando a gente est\u00e1 avan\u00e7ando demais, o passado tamb\u00e9m avan\u00e7a por medo de perder seus acessos, seus privil\u00e9gios, ent\u00e3o me senti t\u00e3o fortificada e \u2013 assim como outras artistas tamb\u00e9m se sentiram \u2013 a impulsionar seus trabalhos para ir contra esse sistema opressor, porque acredito que (esse desgoverno) faz com que a gente crie mais for\u00e7a, crie mais raiva e raiva \u00e9 sempre um combust\u00edvel para o motor do avan\u00e7o, para que a gente consiga lutar ainda mais pelos nossos direitos e, principalmente, olhar ainda mais para tr\u00e1s e ver quem veio antes da gente e que n\u00e3o faz sentido nenhum esses direitos serem rebaixados por conta de tanta luta e de tanto sangue que foi escorrido. Acredito que foi o tempo que fez com que eu alavancasse e falasse \u201cesse \u00e9 o momento de retomar a minha carreira e colocar para fora o que tenho para dizer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E at\u00e9 o momento j\u00e1 foram tr\u00eas singles, como est\u00e1 o seu cronograma daqui pra frente: como voc\u00ea tem visto as coisas nesse momento?<\/strong><br \/>\nAgora vou lan\u00e7ar o meu EP, mas n\u00e3o tenho data ainda, estou estudando. Junto com esse lan\u00e7amento de \u201cAll You Need Is Love\u201d saiu a primeira parte do filme visual, mas mudei totalmente os planos, agora estou tendo que readequ\u00e1-los seguindo as ordens da OMS de isolamento social, ent\u00e3o vai se tornar uma outra coisa, que tamb\u00e9m estou estudando, estou vendo como vai ficar. Mas vou lan\u00e7ar esse EP que \u00e9 foda, que, sinceramente, \u00e9 muito lindo, que todo mundo que mostro fica bem emocionado \u2013 eu tamb\u00e9m fico muito emocionada com esse trabalho. E tem convidados que fazem muito parte da minha vida: s\u00e3o quatro feats, j\u00e1 apresentei dois, que s\u00e3o Rico Dalasam e Linn da Quebrada, e tamb\u00e9m tem faixas com a Deize Tigrona e o Mulambo. Foi um desafio muito generoso, pois quis colocar essas pessoas que fazem parte da minha vida, da minha trajet\u00f3ria, mas em outro lugar, acho que vai surpreender o p\u00fablico com essas participa\u00e7\u00f5es. E chamo eles de \u201cmeus quatro cavaleiros do apocalipse\u201d, por que eu realmente sinto o poder, a dedica\u00e7\u00e3o que eles tiveram em estar nesse trabalho comigo, o que \u00e9 muito honesto e muito verdadeiro. Acredito que essas faixas t\u00eam pot\u00eancias transformadoras de fato e v\u00e3o pra al\u00e9m da m\u00fasica, podem ser uma esp\u00e9cie de medicamento fortalecedor para esse momento que a gente t\u00e1 passando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O clipe de \u201cAll You Need Is Love\u201d, com a Linn da Quebrada e o Rico Dalasam, foi todo gravado digitalmente. Como foi a produ\u00e7\u00e3o desse v\u00eddeo: cada um gravou sua parte em casa?<\/strong><br \/>\nEsse primeiro v\u00eddeo foi sob dire\u00e7\u00e3o do Rodrigo de Carvalho, que \u00e9 um artista incr\u00edvel com quem j\u00e1 fazia muito tempo que eu queria trabalhar. E foi muito louco, porque antes, l\u00e1 no come\u00e7o quando eu estava arquitetando esse trabalho de \u201cCorpo Sem Ju\u00edzo\u201d, eu j\u00e1 queria que fosse em 3D! Com o tempo fui criando um roteiro e tal, onde eu queria executar um trabalho f\u00edsico, que n\u00e3o foi poss\u00edvel executar por causa da pandemia. Ent\u00e3o foi quando retomei e falei \u201cvamos voltar pra nossa ideia anterior de fazer em 3D\u201d, e foi um lugar muito novo, porque apesar de ser em 3D, essa foi uma dire\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, por isso teve muito frio na barriga. O Rodrigo ficou falando da casa dele como a gente deveria se posicionar, fazer fotos e tudo mais, mas foi uma experi\u00eancia bem divertida . E foi todo feito em casa, ent\u00e3o a Linn gravou na casa dela, assim como o Rico na casa dele, e o Rodrigo teve esse trabalho genial de juntar tudo isso que a gente produziu e transformar nesse clipe.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jup do Bairro - Corpo Sem Ju\u00edzo prod. BADSISTA (\u00c1udio Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6il3RlZSlgM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jup do Bairro - SOU EU prod. BADSISTA (\u00c1udio Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H5wypKJjhRM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BAD DO BAIRRO - VOU TE F****\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RxoCTk1aIEE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monkeybuzz.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Multiartista, Jup do Bairro encontrou na arte um ve\u00edculo para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo e a investiga\u00e7\u00e3o de si mesma. Aqui ela fala sobre a carreira e as complexidades de se pensar a arte em tempos de isolamento. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/28\/entrevista-a-multiartista-jup-do-bairro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":56218,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4461,1868],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56217"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56217"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56219,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56217\/revisions\/56219"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}