{"id":56111,"date":"2020-05-17T13:00:06","date_gmt":"2020-05-17T16:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56111"},"modified":"2020-06-30T01:03:46","modified_gmt":"2020-06-30T04:03:46","slug":"documentario-adriana-yanez-e-luciana-temer-falam-sobre-um-crime-entre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/17\/documentario-adriana-yanez-e-luciana-temer-falam-sobre-um-crime-entre-nos\/","title":{"rendered":"Document\u00e1rio: Adriana Ya\u00f1ez  e Luciana Temer  falam sobre \u201cUm Crime Entre N\u00f3s\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevistas por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica apontam que, a cada hora, no Brasil, quatro meninas de at\u00e9 13 anos s\u00e3o estupradas. Al\u00e9m disso, segundo estudo do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a maioria das vitimas de abuso sexual tem at\u00e9 cinco anos de idade. Um estudo trazido pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica concluiu que 82% das vitimas de estupro s\u00e3o do sexo feminino, sendo a maioria delas negras e jovens, e que, segundo relat\u00f3rio de atividades da Childhood Pela Prote\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia, surgem, a cada ano, 500 mil casos de explora\u00e7\u00e3o sexual infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de tais fatos e estat\u00edsticas, a urg\u00eancia de uma obra como \u201cUm Crime Entre N\u00f3s\u201d (2020), e o necess\u00e1rio alcance da mesma para o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas, \u00e9 algo priorit\u00e1rio. Mas para al\u00e9m dos n\u00fameros e frieza das porcentagens e estudos citados, o que o filme dirigido por Adriana Ya\u00f1ez traz ao seu p\u00fablico \u00e9 humanidade. Prioritariamente humanidade, mas, tamb\u00e9m, afeto e empatia para as crian\u00e7as traumatizadas e que, por consequ\u00eancia, se tornam adultos para sempre marcados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Scream &amp; Yell conversou com a cineasta Adriana Ya\u00f1ez e com a diretora do Instituto Liberta, a professora Luciana Temer, sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, bem como sobre as a\u00e7\u00f5es do Instituto na luta contra o abuso e explora\u00e7\u00e3o sexual infantil no Brasil. Adriana trabalha h\u00e1 mais de 10 anos com document\u00e1rios, como diretora e roteirista. Luciana \u00e9 advogada e professora da PUC-SP e da Uninove, \u00e9 presidente do Instituto Liberta; foi secret\u00e1ria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado de S\u00e3o Paulo (2001-2002, gest\u00e3o Alckmin) e secret\u00e1ria municipal de Assist\u00eancia e Desenvolvimento Social de S\u00e3o Paulo (2013-2016, gest\u00e3o Haddad).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Um Crime Entre N\u00f3s | Trailer legendas em portugu\u00eas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ctE5Nck-C98?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trazer um tema de tamanha urg\u00eancia para o espectador em um document\u00e1rio \u00e9 algo bastante desafiador no aspecto da capacidade de transmitir ao p\u00fablico tal urg\u00eancia. Seu filme consegue isso de maneira pontual ao mesclar, junto ao peso dos depoimentos das v\u00edtimas, as falas com as anima\u00e7\u00f5es que ilustram, sem cair no \u00f3bvio ou no gratuito, aquelas situa\u00e7\u00f5es monstruosas para a audi\u00eancia. Algo que traz um poder imenso de reflex\u00e3o ao filme. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre esse processo de cria\u00e7\u00e3o relacionando a narra\u00e7\u00e3o em off, com os depoimentos e a anima\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAdriana Ya\u00f1ez \u2013 As entrevistas com as pessoas da rede de prote\u00e7\u00e3o oferecem um panorama muito profundo da quest\u00e3o e olhares muito sens\u00edveis \u00e0s hist\u00f3rias das v\u00edtimas. Mas acredito que as hist\u00f3rias individuais, as experi\u00eancias vividas com todas as suas particularidades, nos fazem nos aproximar de qualquer tema de uma outra maneira. \u00c9 como melhor podemos compreender a dor, o al\u00edvio, o medo, o desamparo. Conecta com a nossa humanidade. Pedir \u00e0 uma crian\u00e7a v\u00edtima de viol\u00eancia que sexual pra que conte a pr\u00f3pria hist\u00f3ria para ser gravada \u00e9 algo inconceb\u00edvel, por melhores que sejam as inten\u00e7\u00f5es. Gravar\u00edamos a hist\u00f3ria, ter\u00edamos o controle sobre ela e a crian\u00e7a continuaria no mesmo lugar, talvez mais fragilizada, por ter revivido a experi\u00eancia ao cont\u00e1-la e ainda imaginar que sua hist\u00f3ria seria exposta sem que ela entendesse muito bem como. A partir desses pensamentos, acessamos um n\u00famero enorme de relatos de meninas e meninos atrav\u00e9s de conversas com v\u00edtimas que hoje s\u00e3o adultas, conversas com pessoas da rede de atendimento e publica\u00e7\u00f5es. Eu quis manter o discurso em primeira pessoa na maior parte para preservar a subjetividade de cada universo particular. Com a escolha dos relatos, come\u00e7amos a rabiscar tra\u00e7os para dar forma \u00e0 essas narrativas. Assim surgiram as anima\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da mesma forma, as leituras das cartas no final t\u00eam um grande poder no que se refere \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o daquelas v\u00edtimas, dando um rosto \u00e0queles n\u00fameros e estat\u00edsticas, dando-lhe vozes. A fala de Ana, que ao final conta sua trajet\u00f3ria traum\u00e1tica p\u00f3s abusos infantis que a marcaram at\u00e9 a vida adulta, permite a audi\u00eancia ter essa maior proximidade com ela e, por consequ\u00eancia, com aquelas pessoas, uma maior empatia por elas. A sua aproxima\u00e7\u00e3o com Ana e com outras v\u00edtimas de abusos se deu seguindo algum processo espec\u00edfico de planejamento? Voc\u00ea poderia falar um pouco desse aspecto do filme?<\/strong><br \/>\nAdriana Ya\u00f1ez \u2013 Senti durante o processo que o filme abriu uma fresta de escuta que escancara o sil\u00eancio e invisibilidade a que se destina a maioria das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Pra al\u00e9m da pesquisa, de conversas, entrevistas e leituras, fui procurada e ouvi muitas hist\u00f3rias espontaneamente. Cheguei a passar horas da madrugada com a cozinheira do hotel em que est\u00e1vamos hospedados quando ela soube o que aquela equipe estava fazendo em Recife. Ela precisava contar sua hist\u00f3ria. Da mesma forma, Ana era uma das pessoas que estava passando na rua e convidamos pra entrevistar. Nesse espa\u00e7o, n\u00e3o perguntei a ningu\u00e9m sobre hist\u00f3rias pessoais de viol\u00eancia, mas ela viu nessa conversa uma oportunidade pra falar algo que n\u00e3o tinha falado a ningu\u00e9m a vida inteira. Acredito que ela precisava tornar vis\u00edvel o que foi desacreditado e invisibilisado ao longo de todos esses anos. A presen\u00e7a da c\u00e2mera \u00e0s vezes desperta isso. Procuro acolher com muito respeito e responsabilidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_56112\" aria-describedby=\"caption-attachment-56112\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56112 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Adriana-Ya\u00f1ez.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Adriana-Ya\u00f1ez.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Adriana-Ya\u00f1ez-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56112\" class=\"wp-caption-text\"><em>A cineasta Adriana Ya\u00f1ez<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo ap\u00f3s a fala de Ana, uma pessoa j\u00e1 adulta e com uma trajet\u00f3ria de vida traum\u00e1tica que poderia ter sido evitada caso sua inf\u00e2ncia tivesse sido diferente, voc\u00ea corta para a imprescind\u00edvel abordagem da necessidade de se falar de sexualidade nas escolas, para crian\u00e7as. Com os recentes ataques pol\u00edticos relacionando o uso de m\u00e9todos pedag\u00f3gicos como ferramentas visando resultados eleitorais, como foi feito o planejamento dessa abordagem essencial tanto para o filme como para a resolu\u00e7\u00e3o de um problema social que precisa, sim, ser trabalhado desde a inf\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nAdriana Ya\u00f1ez \u2013 A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma chave fundamental para o combate \u00e0 viol\u00eancia sexual infantil. A escola se mostrou, em todas as pesquisas, o principal espa\u00e7o de den\u00fancia e encaminhamento desses casos. Falar de sexualidade com crian\u00e7as \u00e9 dar ferramentas de autoprote\u00e7\u00e3o pra que ela conhe\u00e7a o pr\u00f3prio corpo, os limites que deve colocar para as outras pessoas, o que n\u00e3o deve aceitar e como pedir ajuda caso esteja sentindo algo errado. A falta de informa\u00e7\u00e3o e a falta de aten\u00e7\u00e3o no comportamento das crian\u00e7as faz com que muitas delas sejam violentadas durante muitos anos sem que nenhum outro adulto saiba. Outro ponto elementar \u00e9 o papel da educa\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o do pensamento machista, racista e mis\u00f3gino que rege nossa cultura. Desde muito cedo, \u00e9 preciso que as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, a hist\u00f3ria, a cidadania e o respeito sejam trabalhados com as crian\u00e7as, despertando questionamentos e consci\u00eancia para pensar e fazer diferente. S\u00e3o conte\u00fados t\u00e3o importantes quanto portugu\u00eas e matem\u00e1tica, sem os quais n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel transformar as desigualdades e viol\u00eancias estruturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por\u00e9m, tal desesperan\u00e7a n\u00e3o significa de maneira nenhuma um conformismo, saliento. A fala da soci\u00f3loga e terapeuta Adriana Ara\u00fajo, inclusive, define de maneira precisa essa quest\u00e3o atrelada ao n\u00e3o conformismo, quando ela coloca em xeque a sociedade machista &#8220;na qual o homem pode fazer tudo; o homem branco e rico pode fazer tudo ainda mais e a mulher \u00e9 sempre submissa e a mulher negra e pobre ainda mais&#8221;. A for\u00e7a dos depoimentos \u00e9 um ponto imenso no seu filme. Na constru\u00e7\u00e3o do discurso e argumentos na montagem, como voc\u00ea seguiu esse norte para alcan\u00e7ar a efici\u00eancia do resultado final na conscientiza\u00e7\u00e3o e urg\u00eancia da mensagem existente no document\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nAdriana Ya\u00f1ez \u2013 Nosso processo de constru\u00e7\u00e3o do filme partiu da escuta de mais de 50 pessoas que trabalham na rede de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia sexual infantil. A cada nova pessoa e organiza\u00e7\u00e3o que voc\u00ea escuta, mais se aproxima da complexidade do tema em um pa\u00eds t\u00e3o grande e t\u00e3o desigual. Entrevistamos pessoas de conhecimento e sabedoria preciosos, uma delas \u00e9 a Mana (Adriana Ara\u00fajo), que lidera o trabalho do Coletivo Mulher Vida em Olinda e est\u00e1 h\u00e1 anos na linha de frente atendendo v\u00edtimas de viol\u00eancia. Ela tem um olhar verdadeiramente humano e ao mesmo tempo an\u00e1lises muito l\u00facidas dos problemas estruturais que s\u00e3o causas e consequ\u00eancias desse ciclo de viol\u00eancia no Brasil. Muitas entrevistas duraram mais de 3 horas, fora todas as conversas off c\u00e2mera. Fizemos um esfor\u00e7o grande na montagem para colocar essas pessoas e ideias em di\u00e1logo, abordando com seriedade os diferentes \u00e2ngulos para a constru\u00e7\u00e3o de uma reflex\u00e3o que pudesse se aproximar da complexidade que o tema pede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa constru\u00e7\u00e3o narrativa, inclusive, de trazer \u00e0 tona as opini\u00f5es retr\u00f3gradas e prejudiciais daquelas pessoas, encontra um impacto imenso quando, na leitura das cartas, muitos dos entrevistados que traziam falas in\u00f3spitas de culpar a mulher pelos crimes que elas sofreram s\u00e3o confrontadas por suas pr\u00f3prias consci\u00eancias. Voc\u00ea pode falar acerca dessa op\u00e7\u00e3o e como o resultados se deu de maneira exata no que se refere ao reflexo, tamb\u00e9m, que o longa poder\u00e1 alcan\u00e7ar em muitos(as) espectadores(as) que v\u00e3o assistir ao filme?<\/strong><br \/>\nAdriana Ya\u00f1ez \u2013 As leituras das cartas oferecem um contraste ao discurso naturalizado de constante culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas de viol\u00eancia. Acho que estamos muito acostumados a reproduzir discursos prontos, gritar nossas opini\u00f5es e ouvir cada vez menos. A leitura dos relatos \u00e9 um convite de pausa e reflex\u00e3o. \u201cSer\u00e1 que se voc\u00ea parar pra ouvir\/ler algu\u00e9m que viveu algo diferente de voc\u00ea, seria poss\u00edvel olhar de um outro \u00e2ngulo? Reconsiderar suas certezas e ideias?\u201d. Nesse sentido, o filme oferece v\u00e1rios convites ao espectador, oportunidades de rever e refletir sobre aquela velha opini\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme \u201cUm Crime Entre N\u00f3s\u201d apresenta dados impactantes acerca dos \u00edndices relacionados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e abuso sexual de crian\u00e7as e adolescentes. Como foi a prepara\u00e7\u00e3o dessa estrutura do document\u00e1rio e a import\u00e2ncia de levar isso ao espectador?<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 \u00c9 um desafio gigante, porque a tem\u00e1tica \u00e9 muito dif\u00edcil. Discutimos muito sobre isso. Quais eram os caminhos para a estrutura\u00e7\u00e3o desse document\u00e1rio? Ele foi constru\u00eddo para ser um instrumento. A gente quer sensibilizar as pessoas sobre essa tem\u00e1tica. A miss\u00e3o do Instituto Liberta \u00e9 fazer o Brasil falar sobre esse assunto, criar uma empatia das pessoas com essa situa\u00e7\u00e3o e entender a dimens\u00e3o desse problema, que \u00e9 um problema grav\u00edssimo, seri\u00edssimo. A viol\u00eancia sexual n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia sexual \u00e9 uma regra no cotidiano do nosso pa\u00eds. Temos que apontar a gravidade disso e ao mesmo tempo apontar o que n\u00f3s acreditamos ser um caminho, que \u00e9 o caminho da educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por onde caminha o document\u00e1rio. Pelas boas pr\u00e1ticas. Levar esses processos de discuss\u00e3o \u00e0s escolas, que \u00e9 o que pode salvar nossa sociedade no final das contas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_56114\" aria-describedby=\"caption-attachment-56114\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-56114 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/lucianatemer.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/lucianatemer.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/lucianatemer-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56114\" class=\"wp-caption-text\"><em>A advogada e professora da PUC-SP e da Uninove Luciana Temer<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E um dos pontos que o filme aborda de maneira precisa \u00e9 o fato de que os casos de abuso e viol\u00eancia sexual envolvendo crian\u00e7as e adolescentes tornam-se , tamb\u00e9m, casos de feminic\u00eddio, que, no Brasil, possuem \u00edndices alarmantes. E isso se relaciona muito com os traumas que essas jovens t\u00eam e que carregam para sempre na vida adulta.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 A crian\u00e7a e o adolescente t\u00eam que ter direito ao desenvolvimento integral. Inclusive, o desenvolvimento sexual. O desenvolvimento sexual tem que ser saud\u00e1vel, tem que ser sadio. Essa sexualiza\u00e7\u00e3o precoce, que&#8230;(pausa). E, veja, aqui n\u00e3o tem nenhuma conota\u00e7\u00e3o moral. Ningu\u00e9m aqui est\u00e1 falando de moralismo. A quest\u00e3o est\u00e1 na naturaliza\u00e7\u00e3o. E na verdade, eu acho que isso tem menos a ver com a quest\u00e3o da sexualiza\u00e7\u00e3o, e mais com a quest\u00e3o do machismo, da objetifica\u00e7\u00e3o do corpo da mulher, que independe da idade que ela tem. Essa conota\u00e7\u00e3o&#8230;(suspiro) de que a mulher \u00e9 um objeto a servir o homem. Isso \u00e9 uma mentalidade muito machista e que est\u00e1 enraizada na nossa sociedade. Lembro de uma pessoa que viu o document\u00e1rio perguntou por que falamos de dados de mortes de mulheres. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 um filme de crian\u00e7a, de adolescente?&#8221;, ela perguntou. Quando voc\u00ea olha para esse contexto machista, ele tem a ver com feminic\u00eddio. A taxa de feminic\u00eddio tem tudo a ver com o fato de como a mulher \u00e9 vista na sociedade. A crian\u00e7a j\u00e1 \u00e9 vista dessa forma. Sexualizada, como propriedade do homem, e isso \u00e9 algo que vai se construindo ao longo de todas as idades. Desde a menina at\u00e9 a adolescente, a jovem e a mulher. Eu acho que o que \u00e9 muito feliz no document\u00e1rio \u00e9 que a gente sai de uma ideia macro, que \u00e9 essa de ser uma quest\u00e3o de g\u00eanero. Porque a viol\u00eancia sexual no Brasil, l\u00f3gico, abrange meninas e meninos, mas a caracter\u00edstica ainda \u00e9 muito relacionada \u00e0s meninas vitimas. Desde essa situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia contra a mulher em geral at\u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa normatiza\u00e7\u00e3o da sociedade perante os casos de explora\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que o filme, inclusive, pontua muito bem nas entrevistas com populares.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 S\u00e3o duas as grandes viol\u00eancias que o document\u00e1rio coloca em evid\u00eancia. O estupro de vulner\u00e1vel, que as pessoas conhecem como uma situa\u00e7\u00e3o de abuso, popularmente conhecido como abuso, e a situa\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes. Ent\u00e3o, na verdade, voc\u00ea vai at\u00e9 chegar na explora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o foco do Instituto Liberta. Quando voc\u00ea chega na situa\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, o que fica muito claro \u00e9 que o Brasil n\u00e3o liga para a situa\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o. Quando o Luciano Huck conversa com os populares l\u00e1 em Manaus, ele fala: \u201cmas ningu\u00e9m chama o conselho tutelar? Ningu\u00e9m chama a pol\u00edcia?\u201d E as pessoas fazem aquela cara de &#8220;n\u00e3o, j\u00e1 virou paisagem&#8221;. Nesse momento, tem uma pessoa que fala: &#8220;\u00e9, t\u00e1 errado. Mas j\u00e1 virou paisagem&#8221;. \u00c9 essa ideia de que j\u00e1 virou paisagem, em especial a explora\u00e7\u00e3o, que o filme quer mudar. E eu gosto de fazer essa diferencia\u00e7\u00e3o, porque a verdade \u00e9 que o abuso, ele gera indigna\u00e7\u00e3o social. Quando uma menina \u00e9 abusada aos cinco, seis anos de idade, isso gera indigna\u00e7\u00e3o nas pessoas. Agora, quando essa mesma menina \u00e9 explorada sexualmente, o que voc\u00ea escuta? &#8220;Ela \u00e9 uma sem vergonha. Ela est\u00e1 l\u00e1 porque ela quer. Ela gosta de dinheiro&#8221;. Essas s\u00e3o as falas que a gente escuta no document\u00e1rio. Ent\u00e3o, essa naturaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes no Brasil, \u00e9 algo que a agente tem que olhar com muita seriedade. \u00c9 fruto deste contexto machista, patriarcal e de objetifica\u00e7\u00e3o do corpo da mulher. Eu acho que tentamos. Porque se a gente n\u00e3o chegar \u00e0 raiz, a gente n\u00e3o vai resolver. Tem que chegar \u00e0 raiz do problema para entender qual \u00e9 esse problema. E, a partir da\u00ed, o que a gente quer? Queremos a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes para tirar meninas e meninos dessa situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. E uma coisa que a gente tenta muito desmistificar tamb\u00e9m \u00e9 o seguinte: aqui no sudeste, em especial, quando voc\u00ea fala de explora\u00e7\u00e3o sexual, as pessoas falam para mim: &#8220;ah, sei \u00e9 horr\u00edvel. Ali no norte, nordeste, o turista que vem&#8230;&#8221; E a\u00ed eu fa\u00e7o muita quest\u00e3o de explicar para as pessoas que este \u00e9 um recorte importante dentro da explora\u00e7\u00e3o sexual, mas a explora\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 muito mais do que isso. Porque explora\u00e7\u00e3o sexual acontece bem aqui no centro da cidade de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o \u00e9 verdade que a explora\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 uma coisa somente do norte e nordeste, e do estrangeiro que vem para c\u00e1 em busca de turismo sexual. A verdade \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente naturalizada no Brasil inteiro. O que muda \u00e9 o pre\u00e7o da menina e quem est\u00e1 pagando. Mas verdade \u00e9 que n\u00f3s temos essa situa\u00e7\u00e3o naturalizada em todo o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Algo que, pessoalmente, me incomoda muito \u00e9 a a\u00e7\u00e3o religiosa como elemento moralizador e, muitas vezes, hip\u00f3crita, criando mais obst\u00e1culos do que pontes na conscientiza\u00e7\u00e3o social quanto a necessidade de informar acerca de t\u00e3o urgente assunto. Principalmente nas escolas.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 Primeiro que a gente est\u00e1 falando de um assunto tabu. Sexo \u00e9 um assunto tabu. Ainda \u00e9. Da\u00ed quando voc\u00ea pega a quest\u00e3o religiosa, voc\u00ea tem v\u00e1rios enfoques das diferentes religi\u00f5es. Mas, normalmente, \u00e9 um enfoque moralizador. H\u00e1 muitas igrejas que s\u00e3o de vanguarda e focam mais nessas quest\u00f5es, mas, como regra, voc\u00ea tem a quest\u00e3o religiosa \u00e0s vezes incidindo de forma perversa, restringindo a possibilidade de falar com franqueza e abertura sobre essa tem\u00e1tica. Isso \u00e9 muito ruim, logicamente. Muito ruim porque a gente defende no Instituto Liberta que falar sobre sexualidade \u00e9 o ponto mais importante para a gente ajudar na preven\u00e7\u00e3o. Mais do que apenas repress\u00e3o. E essas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o averiguadas e, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o punidas no Brasil adequadamente. E isso porque existe esse tabu, esse sil\u00eancio, ou no caso que voc\u00ea est\u00e1 me trazendo, n\u00e3o existe sil\u00eancio nenhum, est\u00e1 escancarada a quest\u00e3o. Mas, por alguma raz\u00e3o, a justi\u00e7a n\u00e3o consegue chegar em uma puni\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o h\u00e1 empenho suficiente, por exemplo. Muitas vezes, h\u00e1 uma naturaliza\u00e7\u00e3o dessas viol\u00eancias. Uma relativiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia. Lembro de que tivemos uma situa\u00e7\u00e3o de alguns anos atr\u00e1s onde um fazendeiro de 79 anos teve uma rela\u00e7\u00e3o com duas meninas, uma de 13 e outra de 15 anos. E ele acabou sendo absorvido porque as meninas eram prostitutas conhecidas na cidade. Esse \u00e9 o termo usado na decis\u00e3o judicial. Ent\u00e3o, voc\u00ea imagina um tribunal que diz que uma menina de treze anos \u00e9 uma prostituta conhecida na cidade, e, portanto, o cara n\u00e3o teria praticado um crime. \u00c9 um grande absurdo! Esse conceito social que marginaliza essas meninas ao inv\u00e9s de enxerg\u00e1-las como vitimas. Voltando para a quest\u00e3o religiosa, eu acho que a religi\u00e3o tem um papel muito importante na sociedade. E ela \u00e9 um instrumento muito poderoso que, se bem utilizado, pode ser muito interessante. O que eu mais tenho preocupa\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 dos riscos que corremos de retrocessos a falar sobre sexualidade nas escolas. Hoje, n\u00f3s temos um risco real de uma tentativa de cerceamento dessa possibilidade. E isso seria um grande retrocesso. Porque eu acho que a gente nem falava o suficiente ainda. A gente teria que falar mais e melhor nas escolas sobre essa tem\u00e1tica. E talvez mais cedo. Porque tem uma l\u00f3gica absurda de que voc\u00ea tem que falar sobre sexualidade com meninas de 14, 15 anos. E meninos, tamb\u00e9m. E eu sempre digo: \u00e9 bom que ele\/ela j\u00e1 v\u00e3o com o filho no colo assistir \u00e0 aula. Porque falar de sexualidade com uma menina de 15 anos \u00e9 piada. Hoje em dia, as pessoas come\u00e7am a vida sexual muito cedo. E nisso n\u00e3o vai nenhum julgamento moral. A quest\u00e3o \u00e9: a menina, desde que consciente e consentidamente, ela pode come\u00e7ar a vida sexual quando ela quiser. Mas tem que ser com consci\u00eancia e consentimento. E isso n\u00e3o acontece nos casos de viol\u00eancia nem de explora\u00e7\u00e3o. Precisamos trabalhar com mais honestidade essa quest\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, com franqueza e liberdade. E o espa\u00e7o para fazer isso, no nosso entender, \u00e9 nas escolas. A preocupa\u00e7\u00e3o que eu vejo \u00e9 um movimento conservador que, sim, tem rela\u00e7\u00e3o com as igrejas, um movimento conservador que busca cercear a discuss\u00e3o da sexualidade nas escolas. Esse \u00e9 o maior risco que a gente tem hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 tr\u00e1gico que, muitas vezes, a religi\u00e3o seja utilizada como obst\u00e1culo para esse trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 Sem o discurso moral, porque \u00e9 muito complicado a gente falar de qualquer quest\u00e3o ligada \u00e0 sexualidade, hoje, sem que voc\u00ea n\u00e3o seja acusado de estar incentivando crian\u00e7as a terem rela\u00e7\u00e3o precocemente, ou, muitas vezes ao contr\u00e1rio, voc\u00ea ser acusada de conservadorismo e captada por um discurso conservador que n\u00e3o \u00e9 o nosso de forma nenhuma. Ao falar desse assunto, tem gente que xinga a gente. Chama a gente de conservador. E, ao contr\u00e1rio, tamb\u00e9m tem gente que diz que a gente est\u00e1 querendo liberar todo mundo. E n\u00e3o \u00e9 uma coisa nem outra. O que a gente entende \u00e9: precisa haver uma consci\u00eancia. E a consci\u00eancia vem com educa\u00e7\u00e3o, com instru\u00e7\u00e3o, com discuss\u00e3o. Temos que empoderar meninos e meninas para entender o que \u00e9 viol\u00eancia sexual. N\u00f3s enxergamos, hoje, que tem muitos jovens submetidos voluntariamente a uma grande viol\u00eancia sexual. Por exemplo, n\u00f3s fizemos um trabalho com jovens de seis escolas p\u00fablicas, aqui em S\u00e3o Paulo. Na capital e no interior. Um trabalho de oito meses. Com um grupo de 30 jovens em cada escola falando sobre o que \u00e9 viol\u00eancia e o que a viol\u00eancia sexual para eles. E foi incr\u00edvel o trabalho. Porque os jovens est\u00e3o se dando conta do n\u00edvel de viol\u00eancia ao qual eles est\u00e3o submetidos sem perceber. E isso \u00e9 muito transformador. Agora, como \u00e9 que a gente faz isso? Com di\u00e1logo. Com discuss\u00e3o. Com conversa sobre masculinidade, sobre feminismo, comportamentos sociais. N\u00e3o \u00e9 com cerceamento. Nem religioso, nem moral. Com respeito entre as pessoas. Respeito aos direitos. Direitos no sentido mais amplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme traz essa reflex\u00e3o muito forte acerca da ideia de \u201cse tornar paisagem\u201d, de banalizar algo que \u00e9 muito s\u00e9rio. Ao final, a sensa\u00e7\u00e3o que ficou em mim foi de pessimismo em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 Existe uma invers\u00e3o. A nossa luta tem que ser visando uma mudan\u00e7a cultural brasileira. E que pregue o respeito igualit\u00e1rio entre homens e mulheres. Entre os seres humanos. L\u00f3gico, estamos falando de toda uma dimens\u00e3o. E eu sou professora de Direito Constitucional. Tenho uma milit\u00e2ncia nos direitos humanos h\u00e1 muito tempo. Quando voc\u00ea fala de ser feminista ou n\u00e3o ser feminista, voc\u00ea est\u00e1 falando, na verdade, de uma situa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria e que diz respeito \u00e0 dignidade das pessoas. Isso independe de sexo, g\u00eanero, ra\u00e7a. Tem que ser um pressuposto de respeito das pessoas pelas pessoas. Independente de qualquer outra caracter\u00edstica. Eu estou falando de uma coisa muito ampla, mas \u00e9 claro que isso vai rebater na importante quest\u00e3o dentro desse quadro que \u00e9 quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes. A explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes est\u00e1 baseada dentro de uma l\u00f3gica de desrespeito. Desrespeito pelo outro. E, veja bem, a nossa sociedade resolveu dizer que fazer sexo com uma crian\u00e7a at\u00e9 14 anos \u00e9 crime pun\u00edvel com at\u00e9 15 anos de pris\u00e3o. Estupro de vulner\u00e1vel. E resolveu dizer que fazer sexo com um(a) adolescente entre 14 e 18 anos em troca de algo, ou seja, com pagamento, que \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 crime com pena de ate 10 anos de cadeia. A gente tem uma lei. E o que \u00e9 uma lei? A lei \u00e9 um consenso social. A nossa sociedade brasileira decidiu dizer que isso \u00e9 crime. E isso \u00e9 crime! Est\u00e1 no c\u00f3digo penal. Ora, como \u00e9 que isso \u00e9 crime no c\u00f3digo penal e existe esse n\u00edvel de naturaliza\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica? E a\u00ed a gente tem que fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre o abuso e a explora\u00e7\u00e3o. Porque o abuso ele n\u00e3o \u00e9 punido muitas vezes porque as crian\u00e7as s\u00e3o muito pequenas, \u00e0s vezes n\u00e3o conseguem configurar a viol\u00eancia. \u00c0s vezes as viola\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o intra-familiares que ficam no sigilo e ningu\u00e9m fica sabendo. A crian\u00e7a tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, n\u00e3o tem consci\u00eancia do que est\u00e1 acontecendo com ela. Mas o fato \u00e9: a sociedade tem algum olho sobre a viol\u00eancia sexual reconhecida como abuso. E gera uma indigna\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea olha para a explora\u00e7\u00e3o, a vitima, para a sociedade, \u00e9 uma prostituta. E n\u00e3o importa se ela tem apenas 13 anos. A sociedade n\u00e3o olha com empatia. Ela marginaliza esta menina, este menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00e7\u00f5es sociais e de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 Um dado importante e que aparece no document\u00e1rio, tamb\u00e9m: o Liberta encomendou do Datafolha em 2018 uma pesquisa para entender como \u00e9 que a sociedade enxergava a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes. E um dos resultados importantes que a gente teve foi de que, mesmo que a maioria das pessoas, quase a totalidade, sabia que \u00e9 crime pagar para fazer sexo com uma crian\u00e7a de 10, 15, 16 anos de idade. Mas dentro do universo de pessoas que viram ou sabem de uma situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o de abuso, mas de explora\u00e7\u00e3o sexual, s\u00f3 24% denunciam. E por que s\u00f3 24% denunciam? Porque n\u00e3o tem import\u00e2ncia para a sociedade a explora\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o tem. Agora, a explora\u00e7\u00e3o sexual, al\u00e9m de ser uma grande viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, ela tem custos sociais gigantes. Que n\u00e3o s\u00e3o computados por essa sociedade. Porque essa menina, primeiro, vai sair da escola. 18% da evas\u00e3o escolar no Brasil \u00e9 de meninas que t\u00eam gravidez na adolesc\u00eancia. Tem o envolvimento com \u00e1lcool e drogas, porque a quest\u00e3o do tr\u00e1fico est\u00e1 muito ligada com a explora\u00e7\u00e3o sexual. E voc\u00ea tem meninas que v\u00e3o tendo filhos e esses filhos v\u00e3o entrando nesse ciclo perverso. S\u00e3o meninas que v\u00e3o ficando submetidas a isso e que v\u00e3o ser as adultas que, no futuro, ser\u00e3o vitimas de feminicidio. Porque elas saem das escolas, n\u00e3o se capacitam, ficam na depend\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o sexual ou elas v\u00e3o arrumar um homem para tomas conta delas e v\u00e3o ficar submetidas a essa viol\u00eancia. \u00c9 um problema gigante. Um problema social gigante. E a gente precisa acordar para isso. O document\u00e1rio tem esse objetivo. Fazer o Brasil falar desse assunto. \u00c9 importante falar sobre esse assunto porque isso s\u00f3 muda com pol\u00edticas p\u00fablicas. A gente est\u00e1 falando de mudar uma consci\u00eancia, mas estamos falando, tamb\u00e9m, de for\u00e7ar pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas. A pol\u00edtica p\u00fablica s\u00f3 se constr\u00f3i a partir de press\u00e3o social. Press\u00e3o social s\u00f3 acontece com algo que incomoda a sociedade. Quando \u00e9 que a quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher passou a ser pensada como pol\u00edtica p\u00fablica? E a\u00ed, sim, no Bolsa Fam\u00edlia, no Minha Casa Minha Vida, as coisas s\u00e3o colocadas no nome da mulher. Por que? Porque come\u00e7ou um movimento social h\u00e1 mais de 30 anos que impulsionou esse desconforto social. E esse desconforto social gera uma press\u00e3o no governo e o governo come\u00e7a a pensar em construir pol\u00edticas p\u00fablicas. Enquanto viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o for um desconforto social, n\u00e3o se vai pensar em pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes para se acabar com isso. \u00c9 simples assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curiosamente, durante o filme, eu me peguei pensando (e me identificando e me censurando por pensar assim) em Travis, protagonista de &#8220;Taxi Driver&#8221;, do Martin Scorsese.<\/strong><br \/>\nLuciana Temer \u2013 Outro dia, eu vi uma charge em que o menino perguntava para o pai: \u201cpai, se os bons matarem todas as pessoas m\u00e1s, s\u00f3 v\u00e3o ficar os bons?\u201d E o pai respondeu: \u201cN\u00e3o. S\u00f3 v\u00e3o ficar os assassinos\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-56113\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Cartaz_UCEN_ArteFinal_02.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1096\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Cartaz_UCEN_ArteFinal_02.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Cartaz_UCEN_ArteFinal_02-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds no ranking mundial dos casos de explora\u00e7\u00e3o sexual infantil. Passando por universos reais e virtuais, o document\u00e1rio &#8220;Um Crime Entre N\u00f3s&#8221; \u00e9 um olhar ousado e provocativo para a luta pelo fim da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/17\/documentario-adriana-yanez-e-luciana-temer-falam-sobre-um-crime-entre-nos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":56115,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56111"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56111"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56433,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56111\/revisions\/56433"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56115"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}