{"id":56075,"date":"2020-05-13T01:12:40","date_gmt":"2020-05-13T04:12:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=56075"},"modified":"2020-08-14T00:02:23","modified_gmt":"2020-08-14T03:02:23","slug":"entrevista-baianasystem-o-artista-e-um-ser-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/13\/entrevista-baianasystem-o-artista-e-um-ser-politico\/","title":{"rendered":"Entrevista &#8211; BaianaSystem: &#8220;O artista \u00e9 um ser pol\u00edtico&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgido em 2009 em Salvador, o BaianaSystem construiu num curto espa\u00e7o de tempo uma carreira extremamente s\u00f3lida, colhendo elogios de p\u00fablico e cr\u00edtica mundo \u00e0 fora. Com tr\u00eas discos de est\u00fadio na bagagem, o grupo consegue, de maneira \u00edmpar, manter uma rela\u00e7\u00e3o bastante pr\u00f3xima em termos qualidade entre o que \u00e9 feito em est\u00fadio e o que apresentado no palco. Quem j\u00e1 teve a oportunidade de ver \/ ouvir a banda solo ou em algum festival por a\u00ed sabe do que estou falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu disco de est\u00fadio mais recente, o elogiado \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/195RDcBkD9dUqWBO75eCgQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Futuro N\u00e3o Demora<\/a>\u201d, foi eleito o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/04\/18\/os-melhores-de-2019-do-scream-yell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">4\u00ba melhor disco nacional de 2019<\/a> na lista Scream &amp; Yell e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/06\/os-100-melhores-discos-dos-anos-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">31\u00ba na vota\u00e7\u00e3o dos melhores da d\u00e9cada<\/a> \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/6ArV7cwxuSK0B6Gh1Hn5EI?si=rGFXHSXzQviRt3jzlgGSEQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Duas Cidades<\/a>\u201d, o disco na anterior, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/06\/os-100-melhores-discos-dos-anos-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ficou em terceiro<\/a>! Lan\u00e7ado em 2019, em \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d a banda segue mantendo em voga suas marcas mais latentes: o discurso pol\u00edtico em ode das dores do mundo (em especial da Am\u00e9rica Latina) alinhado a um caldeir\u00e3o multicultural de sonoridades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da quarentena, a banda lan\u00e7ou recentemente dois trabalhos: \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/0hUkhejPtLw2RS6L2Hjtne?si=DawcY0-3QDGk169cU0H-pg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Futuro Dub<\/a>\u201d, disco de releituras dub\u00edsticas de \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d (feito em parceria com o veterano Buguinha) e um registro ao vivo da apresenta\u00e7\u00e3o realizada em novembro do ano passado <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2HOtF9wjRgFuKefeTJkG4O?si=woFzmblVRM20VRhwPgsTpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ao lado de Gilberto Gil<\/a>, em Salvador, que acabou tamb\u00e9m gerando <a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/devassa-encontros-tropicais\/t\/rBdrkdYWTw\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um belo document\u00e1rio <\/a>&#8211; isso sem contar o n\u00e3o oficial &#8220;BaianaSystem Ao Vivo no Navio Pirata Furdun\u00e7o 2020&#8221;, feito por um f\u00e3 e dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.mediafire.com\/folder\/jyquklae4e72h\/BaianaSystem_Ao_Vivo_no_Navio_Pirata_Furdun%C3%A7o_2020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">via mediafire<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista concedida no in\u00edcio de abril, Beto Barreto, guitarrista e co-fundador do Baiana, falou com o Scream &amp; Yell sobre a cultura dos festivais, parcerias (Manu Chao, Pitty), a verve pol\u00edtica do grupo e o papel da rate politizada, a influ\u00eancia que a Bahia exerce no fazer musical do grupo, o produtor Daniel Ganjaman, a import\u00e2ncia das apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo, a m\u00fasica em tempo de Corona V\u00edrus e muito mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BaianaSystem - Sulamericano e (Magnata - RussoPassaPusso) (Ao Vivo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8A48hdaXuIc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes da Covid-19, o BaianaSystem vinha figurando em diversos lineups de festivais, com p\u00fablicos dos mais variados poss\u00edveis. Levar a m\u00fasica e a mensagem da banda para onde as portas abrirem \u00e9 uma das bandeiras que voc\u00eas acham que todo artista que se preze precisa levantar?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Mas n\u00e3o necessariamente entendo como uma bandeira, e sim como um movimento natural, de umas das etapas desse bra\u00e7o que, no caso do Baiana, \u00e9 uma coisa que constr\u00f3i muito para nossa arte. \u00c9 essa rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, a qual estamos sendo castrados nesse momento. As pessoas ouvem os discos de v\u00e1rias formas, mas essa coisa daquela m\u00fasica chegando ao p\u00fablico (no show) e de como aquilo \u00e9 recebido naquele lugar, as diferen\u00e7as de um lugar para o outro, os feedbacks que voc\u00ea tem de um lugar para o outro&#8230; Isso \u00e9 o que constr\u00f3i a gente como artista. Voc\u00ea consegue entender a diferen\u00e7a como a m\u00fasica \u00e9 recebida igualmente, mas pode variar de lugar para lugar. At\u00e9 mesmo fora do Brasil. Acho que isso \u00e9 uma necessidade dessa constru\u00e7\u00e3o. Como diz aquela frase: \u201co artista vai onde o povo est\u00e1\u201d. A gente se acostumou a ouvir isso sempre, mas \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o para pensar na import\u00e2ncia disso. No caso dos festivais, mais especificamente, eles tem permitido aos artistas circularem de maneira muito maior do que fazer o deslocamento s\u00f3 de um show sozinhos. \u00c0s vezes \u00e9 muito dif\u00edcil para um artista, do nada, tirar um show, sei l\u00e1, em BH. Porque tem toda uma coisa que envolve a log\u00edstica de um evento que dificulta. No caso do festival, al\u00e9m dele centralizar, voc\u00ea tem uma curadoria, tem a intera\u00e7\u00e3o com os artistas. Estar num festival, tocando com outras bandas, torna a experi\u00eancia ainda mais real. Da\u00ed vem a necessidade de estar tocando para diferentes p\u00fablicos e entender como a nossa arte circula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;acredito que muitas das parcerias que o BaianaSystem (BNeg\u00e3o, Pitty, Edgar&#8230;) realizou nasceram deste tr\u00e2nsito&#8230;<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m. Na sua ess\u00eancia, o Baiana sempre teve isso, desde o in\u00edcio. Voc\u00ea v\u00ea o nosso primeiro disco, tem muitas participa\u00e7\u00f5es, e de uma maneira abrangente. Seja na produ\u00e7\u00e3o, ou com um instrumentista, ou algum outro grupo ou artista. At\u00e9 mesmo por termos como refer\u00eancia o Soundsystem, a gente acaba por convidar v\u00e1rias pessoas para tocar, cantar em cima daquela estrutura b\u00e1sica, daquela c\u00e9lula. O Baiana vem disso e dessa experi\u00eancia ao vivo. Mas, naturalmente, essa circula\u00e7\u00e3o faz com que tenhamos outros encontros. A gente sempre pensa muito no que a m\u00fasica est\u00e1 pedindo, seja nos discos ou nas participa\u00e7\u00f5es que fazemos: \u201cAh, isso \u00e9 a cara do Curumin\u201d. E acontece. Sempre s\u00e3o pessoas, artistas, que a gente tem uma rela\u00e7\u00e3o, seja circulando, produzindo ou compondo junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tom pol\u00edtico sempre marcou presen\u00e7a em tudo o que o BaianaSystem faz, seja em disco ou no palco. Qual a import\u00e2ncia de se manifestar em tempos como os nossos, de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, onde o discurso fascista tem ganhado corpo e palanque?<\/strong><br \/>\n\u00c9 essencial. Porque o artista \u00e9 um ser pol\u00edtico, essencialmente. Sua arte se posiciona. A gente v\u00ea isso cada vez mais, de pensar a pol\u00edtica num sentido mais abrangente do que somente no sentido eleitoral \/ partid\u00e1rio, e sim para al\u00e9m desta dicotomia que voc\u00ea fala, indo para algo mais amplo como ser um cidad\u00e3o que cada um \u00e9, pensando nas v\u00e1rias quest\u00f5es que s\u00e3o levantadas, os posicionamentos que s\u00e3o tomados no dia a dia. Chegamos ao \u00e1pice quando percebemos a situa\u00e7\u00e3o em que estamos vivendo, numa dualidade exposta, escancarada. \u00c9 nesse ponto que voc\u00ea v\u00ea como cada um enxerga a vida, como cada um pensa o mundo que est\u00e1 construindo. No nosso caso, a gente pensa muito como a nossa arte influencia nesse mundo, como ela colabora para isso. Isso \u00e9 pol\u00edtica, essencialmente. Ent\u00e3o naturalmente as letras que surgem, o tipo de som que a gente faz, tem a ver com tudo isso que a gente estava falando dos shows e dos festivais, do que a gente tem de feedback do que falamos e ouvimos das pessoas. Tudo isso \u00e9 um exerc\u00edcio pol\u00edtico. Quando as coisas surgem naturalmente \u00e9 como se voc\u00ea precisasse falar aquilo. E \u00e0s vezes o falar aparece de v\u00e1rias formas: est\u00e1 na arte visual, no posicionamento que adotamos em determinado momento, o que permite com que as pessoas come\u00e7rm a entender: \u201cAh t\u00e1 o Baiana \u00e9 assim\u201d ou \u201cA Na\u00e7\u00e3o Zumbi \u00e9 assim\u201d, ou qualquer outro artista. Esse lugar em que voc\u00ea \u00e9 colocado passa por sua m\u00fasica e por seu posicionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco &#8220;O Futuro N\u00e3o Demora&#8221; tem alcan\u00e7ado \u00f3tima repercuss\u00e3o de p\u00fablico e cr\u00edtica. A que voc\u00ea acredita que se deva tamanha recep\u00e7\u00e3o positiva?<\/strong><br \/>\n\u00c0s vezes, de dentro \u00e9 um pouco dif\u00edcil de ter uma percep\u00e7\u00e3o ampla. Mas acredito que s\u00e3o muitos fatores. \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d foi pensado como um \u00e1lbum, como uma obra, fruto de uma pesquisa. Ele era meio que um rebote do que aconteceu com o \u201cDuas Cidades\u201d, que era um disco muito explosivo, urbano, que nos tornou mais conhecidos no Brasil. Ent\u00e3o decidimos voltar para a Ilha de Itaparica (Bahia), fizemos uma pesquisa sobre a nossa ancestralidade, trabalhamos com muitos outros ritmos, que est\u00e3o ali colocados de uma maneira muito org\u00e2nica, pensando como eles contribu\u00edram para nossa forma\u00e7\u00e3o. O disco conta uma hist\u00f3ria dividida em dois lados, o A e o B, que era uma coisa bem diferente da cultura dos singles e do imediatismo de hoje. Quer\u00edamos essa volta para um \u00e1lbum que conte uma hist\u00f3ria. Junto a isso tem esse lance da circula\u00e7\u00e3o que falamos. A gente viajou muito com esse disco. Ent\u00e3o ele come\u00e7ou a ficar vivo e come\u00e7amos a ver que essa comunica\u00e7\u00e3o estava chegando \u00e0s pessoas. E tamb\u00e9m tem o discurso pol\u00edtico presente no disco, em m\u00fasicas como \u201cSul-americano\u201d, \u201cSalve\u201d e outras coisas que est\u00e3o ali colocados como algo tradicionalmente do Baiana. Essa circula\u00e7\u00e3o rendeu a turn\u00ea \u201cSul-americano Show\u201d onde falamos sobre a Am\u00e9rica do Sul, do entendimento como latino, da compreens\u00e3o das nossas ra\u00edzes. Esses pontos foram se juntando e renderam um Grammy Latino, o que foi uma surpresa pra gente, mas fez todo sentido devido a toda latinidade presente no disco. Todos esses fatores juntos fizeram com que esse disco tivesse um entendimento maior por parte do p\u00fablico e da cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa \u201cSul-americano\u201d, inclusive, me remeteu a lembran\u00e7a de uma mat\u00e9ria do El Pais que, recentemente, li sobre o Manu Chao e fiquei curioso: como se deu esta aproxima\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFoi natural. \u201cSul-americano\u201d j\u00e1 tinha aquela cara latina. E sentimos a necessidade de ter algo falado na l\u00edngua espanhola, que fizesse essa conex\u00e3o. Naturalmente havia essa refer\u00eancia do Manu Chao, de toda aquela hist\u00f3ria ali do \u201cClandestino\u201d (1998), da cena dos anos 90 que foi uma refer\u00eancia pra gente, associada ao beat e a levada da Bahia. A gente foi construindo a faixa, mas sempre pensando nas liga\u00e7\u00f5es, nessa coisa de sempre ter participa\u00e7\u00e3o de pessoas que pudessem contribuir. Manu Chao tamb\u00e9m tem as refer\u00eancias de Soundsystem, essa coisa do viajante que ele amarrou bem e a gente pensou que a faixa teria tudo a ver com ele. Sem contar que tem tamb\u00e9m o lance do discurso pol\u00edtico bem forte. Pensamos: quem sabe? Russo (Passapusso) at\u00e9 brincava da gente tentar chegar nele. Da\u00ed cruzamos com algumas pessoas que o conheciam e mandamos a faixa para ele ouvir. Ele ouviu, gostou pra caramba e na hora entendeu e decidiu participar. Tanto que quando ele veio, gravou o \u201cSe\u00f1or.Matanza\u201d, que \u00e9 uma coisa que ele j\u00e1 tinha gravado trechos at\u00e9 com o Mano Negra. E ele veio com o \u201cSe\u00f1or.Matanza\u201d porque ele entendeu que a gente estava falando do sul-americano desta forma, de um discurso pol\u00edtico, da posi\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina. E isto fez todo sentido pro disco quando casamos toda a quest\u00e3o da latinidade, da ancestralidade, de guerra pol\u00edtica que tem rolado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Bahia tem mantido a m\u00e1xima de ser celeiro de algumas das melhores produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de ontem e de hoje. Qual a influ\u00eancia que o estado exerce no seu fazer art\u00edstico?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o totalmente direta. Muitas vezes acham que a gente est\u00e1 morando em S\u00e3o Paulo ou no Rio, por um movimento natural que vem acontecendo com muitos artistas baianos, desde sempre. Inclusive com uma galera contempor\u00e2nea nossa. Mas talvez se a gente estive morando em S\u00e3o Paulo, o nosso som n\u00e3o estivesse como est\u00e1. A gente n\u00e3o iria conseguir fazer o \u201cDuas Cidades\u201d ou \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d, em S\u00e3o Paulo \u2013 \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d foi feito na Ilha de Itaparica, olhando para Salvador. A gente esteve l\u00e1 algumas vezes e fomos entender a import\u00e2ncia da Ilha pro Brasil, conversamos com amigos que escrevem e pesquisam sobre isso. O que a gente sente de Salvador \u00e9 que \u00e9 ela pulsante nesse sentido. \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d \u00e9 um disco percussivo que aparece ainda mais nesse disco. Ganja (Daniel Ganjaman), que \u00e9 o produtor dos dois discos, conseguiu traduzir isso. Ele j\u00e1 falou pra gente algumas vezes sobre como o nosso som j\u00e1 chega pronto, com uma cara, um sabor e ele consegue traduzir algo que \u00e9 t\u00e3o org\u00e2nico de uma maneira que a gente nem percebe. No caso de \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d, as coisas foram muito mais prontas do que no do \u201cDuas Cidades\u201d, devido a essa pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o que foi feita toda aqui. Ent\u00e3o tem uma linguagem embrion\u00e1ria dos beats que a gente faz de forma conjunta do baixo, da percuss\u00e3o e com o eletr\u00f4nico que se fosse feito em outro lugar n\u00e3o sairia desse jeito. Porque a cidade faz isso com a gente. Isso \u00e9 uma coisa natural de todos. Por isso, n\u00f3s n\u00e3o temos nenhuma vontade de sair daqui. Sem contar que o fato da gente estar circulando tanto, passar por tantos lugares e voltar para Salvador, isso d\u00e1 um sentido muito forte para a nossa m\u00fasica. Temos ido muito para Minas, S\u00e3o Paulo, Rio e vamos no meio do ano para fora, fazer os festivais, mas quando a gente fala de Salvador isso faz mais sentido para gente. \u00c9 determinante estar aqui, est\u00e1 na nossa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em Daniel Ganjaman, ele tem se firmado como produtor vital\u00edcio da banda. Quais as contribui\u00e7\u00f5es ele trouxe para o som de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nA gente j\u00e1 conhecia o trabalho dele, sabia suas refer\u00eancias e tudo o que ele tinha feito. Sabia da rela\u00e7\u00e3o dele com o reggae, com o eletr\u00f4nico, com o beat, com a programa\u00e7\u00e3o. Conhec\u00edamos o trabalho dele com o Otto, Instituto, Criolo&#8230; E ele conseguiu entender como o Baiana \u00e9: uma colagem de coisas e as coisas v\u00e3o se ressignificando, e uma m\u00fasica vai virando outra, sabe? \u00c9 uma \u201cTerapia\u201d que vira \u201cPlaysom\u201d. Uma \u201cBarra Avenida 1\u201d que vira \u201cBarra Avenida 2\u201d porque a gente come\u00e7a a tocar e no ao vivo a gente vai tocando coisas em cima. Dai vem o beat, daqui a pouco tem uma frase de guitarra ou outra que coisa que conduz para outra coisa&#8230; Muitas vezes a gente tinha 3, 4. 5 coisas dentro da mesma coisa (risos). E o Ganja conseguiu perceber isso, arrumar, colocar o som numa linguagem que as pessoas conseguissem entender, organizando o nosso caos criativo. Ao mesmo tempo, ele tem uma leitura muito boa dos elementos do Baiana. Ele j\u00e1 nos conhece muito de perto. Durante o processo do \u201cDuas Cidades\u201d, a gente ficou com ele um m\u00eas num s\u00edtio em S\u00e3o Paulo, convivendo, tocando. A gente j\u00e1 tinha o rascunho do disco todo pronto, mas estava tudo muito amarrado \u00e1s pr\u00e9-produ\u00e7\u00f5es. Ele viu como a gente compunha, como a guitarra influencia na voz do Russo, como aquilo iria ser transposto para a ideia de beat. \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d foi bem mais f\u00e1cil porque chegamos com a coisa bem mais pronta. Isso tudo sem contar o refinamento do Ganja para sons, timbres, para colocar no primeiro plano o que \u00e9 importante. Na sequencia fizemos o single \u201cMi\u00e7anga\u201d, que ainda tem um pouco da \u00e1urea do \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d e ele produziu, pois j\u00e1 nos entende de cara. E, al\u00e9m disso, temos uma aproxima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de entendimento de mundo, que \u00e9 muito importante para nos entendermos. Seria muito dif\u00edcil ter um produtor que n\u00e3o tivesse um pensamento pr\u00f3ximo ao nosso. Ele sabe do que a gente est\u00e1 falando de pol\u00edtica, de ancestralidade, das emo\u00e7\u00f5es que falamos atrav\u00e9s das palavras. Essa aproxima\u00e7\u00e3o de pensamento pol\u00edtico \/ est\u00e9tico faz com que a gente tenha uma forte liga\u00e7\u00e3o com o Ganja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente assisti a uma apresenta\u00e7\u00e3o de voc\u00eas no festival Sensacional (em BH) e \u00e9 impressionante como voc\u00eas conseguem casar o som a uma est\u00e9tica visual. O p\u00fablico, por sua vez, responde de maneira visceral durante todo o show. De fato \u00e9 no palco que a banda se sente mais a vontade?<\/strong><br \/>\nA gente se sente muito a vontade no palco. \u00c9 como no pensamento do lance do Soundsystem, onde voc\u00ea prop\u00f5e uma base e a partir dali voc\u00ea vai tocando, criando e o p\u00fablico vai reagindo. \u00c9 uma festa poder tocar ao ar livre, no carnaval, no Pelourinho aberto, de fazer festivais. Isso vai nos alimentando. A gente vai amadurecendo e descobrindo como tocar. O Baiana ainda est\u00e1 se descobrindo como uma banda de est\u00fadio, no sentido do que a gente tem conseguido produzir \/ comunicar. Como nos lance dos singles que lan\u00e7amos recentemente (&#8220;Corrida El\u00e9trica&#8221;, &#8220;Cabe\u00e7a de Papel&#8221; e &#8220;Mi\u00e7anga&#8221;). Foram coisas que constru\u00edmos no est\u00fadio e j\u00e1 sairam prontas para o ao vivo, que era algo que antes n\u00e3o acontecia tanto, pois a gente ia experimentando e fazia o inverso. Ainda assim, no palco sentimos que conseguimos nos comunicar de maneira muito mais ampla e sensorial. O visual colabora muito desde o in\u00edcio. Filipe Cartaxo, que \u00e9 quem faz tudo do Baiana, \u00e9 um membro da banda. Ele est\u00e1 desde a origem. Cada coisa que a banda faz passa pela dire\u00e7\u00e3o de arte dele, do entendimento de como aquilo se comunica. N\u00e3o adianta Russo fazer uma letra foda e eu fazer uma guitarra que as pessoas gostem e se identifiquem. Quando voc\u00ea coloca no palco e junta com a mensagem que ele est\u00e1 ajudando a contar, que foi constru\u00edda a partir de como ele entendeu, isso soma demais nessa experi\u00eancia ao vivo. Agora a gente est\u00e1 sentido falta disso. T\u00e3o cedo a gente vai fazer show. Fomos cortados ali do carnaval, ap\u00f3s o \u00e1pice da explos\u00e3o. E a\u00ed como a gente vai lidar com essas sensa\u00e7\u00f5es que a gente gosta de propor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando nisso, a banda tradicionalmente se apresenta no carnaval de Salvador. Qual o significado que estas apresenta\u00e7\u00f5es de rua, em casa, com milhares de pessoas t\u00eam para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\n\u00c9 incr\u00edvel. Muito! A gente fez depois no Carnaval de rua de S\u00e3o Paulo. Foi o terceiro ano que tocamos l\u00e1. Tem diferen\u00e7as, l\u00f3gico, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/06\/a-consolidacao-do-pos-axe-salvador-tem-carnaval-mais-diversificado-dos-ultimos-anos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">de como funciona o Carnaval de Salvador<\/a>. Mas a gente v\u00ea o crescimento absurdo de cidades como BH. E quase tocamos a\u00ed esse ano! Fizemos no Rio, que j\u00e1 tem essa rela\u00e7\u00e3o estabelecida com o carnaval, que era algo restrito ao samb\u00f3dromo, mas nos \u00faltimos anos o carnaval de rua cresceu demais. Tocamos em Fortaleza esse ano no meio do carnaval. A gente sente: quando \u00e9 na rua, pra muita gente, n\u00f3s lidamos com tudo isso de maneira muito real. \u00c9 uma experi\u00eancia social que est\u00e1 acontecendo ali. Porque, \u00e1s vezes, voc\u00ea n\u00e3o tem o recorte de quando \u00e9 um show, do p\u00fablico que pode comprar o ingresso, ou que vai para aquele espec\u00edfico festival. Na rua voc\u00ea coloca todo mundo. Isso d\u00e1 uma for\u00e7a muito grande para essa experi\u00eancia. \u00c9 maior do que um show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De maneira pontual, o Baiana levantou a bandeira para a liberdade de Lula, participando inclusive do Festival Lula Livre. Para voc\u00ea, qual o principal impacto que a liberdade do ex-presidente tem na sociedade?<\/strong><br \/>\nEu acho que o Lula Livre, e muitos outros s\u00edmbolos que estamos tendo nos \u00faltimos tempos, v\u00eam do lance da pol\u00edtica estar muito mais forte. Ela tem sido abordada sob v\u00e1rios aspectos e com posicionamentos muito fortes, gerando o que est\u00e1 acontecendo hoje com a presen\u00e7a deste pensamento retr\u00f3gado, fascista, agressivo, com inten\u00e7\u00e3o de atacar o outro. E isso acontece a n\u00edvel mundial. Aqui vem acontecendo desde a \u00e9poca do impeachment (da ex-presidente Dilma), onde a gente tamb\u00e9m se posicionou. Isso acabou por gerar uma hist\u00f3ria no carnaval da Bahia em fizemos o \u201cFora Temer\u201d na frente da TV. Viralizou e as pessoas come\u00e7aram a entender (qual \u00e9 a do Baiana). Mas depois acabou por ser banalizado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230; na \u00e9poca me lembro bem desta banaliza\u00e7\u00e3o onde muitos artistas e o p\u00fablico se posicionaram desta maneira, mas pouco agiram para mudar o cen\u00e1rio&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente! Quando falamos isso artisticamente sabemos que vai ter uma repercuss\u00e3o, as pessoas postam, muitos pol\u00edticos repostam, porque foi no meio do Carnaval. S\u00f3 que come\u00e7aram a nos associar com a banda do Fora Temer (risos). Hoje, se voc\u00ea fala mal do Bolsonaro, voc\u00ea \u00e9 tido com petista. \u00c9 restritivo. No caso do Lula n\u00e3o tinha nada a ver com defender o PT. Era uma coisa sobre defender uma liberdade que tinha sido tolhida de uma forma escrota. A gente entendia que tinha muita coisa em jogo. Que era uma elei\u00e7\u00e3o que estava em jogo e que acabou por colocar o Bolsonaro. O fato de Lula estar preso tinha um objetivo claro, independente de qualquer coisa que se discuta, do que fez com que as pessoas tivessem avers\u00e3o ao PT e fizessem com todos ficassem no limite do \u00e9 isso ou aquilo. A situa\u00e7\u00e3o do Lula tinha a ver com algo muito mais universal. Tinha a ver com esses ataques que sofremos de maneira muito maior, com o fato dos caras prenderem uma pessoa para colocar algu\u00e9m que, sab\u00edamos, eles queriam. Aquilo tinha um peso. A gente sentia isso fortemente quando convers\u00e1vamos com as pessoas. Hoje estamos entre as trevas e o entendimento de que a gente precisa se olhar. A sa\u00fade de um \u00e9 de todos. Ficou explicito o que era \u00f3bvio. A liberdade de um tem a ver com a liberdade de todo mundo. A educa\u00e7\u00e3o de um tem a ver com a educa\u00e7\u00e3o de todo mundo. E quando a gente tem que se posicionar, precisa se posicionar de fato&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;isso levanta uma quest\u00e3o ligada \u00e0 arte. Muitos acham que ela n\u00e3o deve ser politizada, e ser somente entretenimento. De fato, h\u00e1 espa\u00e7o para isso, mas n\u00e3o quer dizer que ela tenha que ser s\u00f3 isso&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente. Na verdade, todos os grandes artistas que temos como refer\u00eancias foram, de alguma forma, politizados. Porque o cara n\u00e3o pode ignorar o que est\u00e1 acontecendo. Aconteceu com os Beatles, que s\u00e3o uma refer\u00eancia pop. Desde quando os caras come\u00e7aram a falar do que estava rolando at\u00e9 chegar na morte do Lennon, que foi algo pol\u00edtico. Aconteceu tamb\u00e9m com Bob Marley. Todos os grandes movimentos passam por isso. A m\u00fasica \u00e9 muito mais ampla do que simplesmente chegar, tocar, e fazer um show. Ela abrange algo comportamental. Os artistas que estavam nos EUA na \u00e9poca da Guerra Fria n\u00e3o tinham como n\u00e3o falar daquilo. \u00c9 poss\u00edvel fazer uma m\u00fasica de amor no meio disso tudo? L\u00f3gico que sim. Mas n\u00e3o vai ser s\u00f3 isso. E voc\u00ea vai entender quem \u00e9 aquela pessoa a partir disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando a quest\u00e3o das parcerias, voc\u00ea disse anteriormente que a escolha se d\u00e1 no momento da produ\u00e7\u00e3o onde voc\u00eas definem quem poderia se encaixar aqui&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 tipo isso. \u00c0s vezes a pr\u00f3pria m\u00fasica nos leva a isso. O encontro vai surgindo, n\u00e3o acontece do nada, n\u00e3o tem isso. O pr\u00f3prio lance com a Pitty. Ela \u00e9 daqui (de Salvador). A conhe\u00e7o h\u00e1 bastante tempo, mas nunca tive uma aproxima\u00e7\u00e3o art\u00edstica com ela, mesmo a conhecendo. No caso dela foi o inverso. Ela tinha me ligado. A gente tinha feito um show juntos aqui num festival, o \u201cRock in Concha\u201d. O que \u00e9 louco tamb\u00e9m, o BaianaSystem num festival de rock, porque quando tocamos fora a gente toca em festivais de reggae, de m\u00fasica \u00e9tnica. Ela assistiu ao nosso show e depois comentou comigo como ela tinha gostado de ver como a gente tinha toda uma rela\u00e7\u00e3o com elementos regionais. E a partir da\u00ed ela comentou que estava fazendo um disco em que voltava o olhar para as coisas da Bahia, que foi o \u00faltimo disco dela (\u201cMatriz\u201d, 2019) onde trabalhou com percuss\u00e3o, tem a participa\u00e7\u00e3o de Lazzo (Matumbi) e da Larissa (Luz), e come\u00e7amos a compor juntos, naturalmente, e a m\u00fasica (\u201cRoda\u201d) foi se encaminhando at\u00e9 o resultado final.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pitty e BaianaSystem - Roda (Ao Vivo) Jo\u00e3o Rock\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vglKJ5QMu8g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea comentou, &#8220;Corrida El\u00e9trica&#8221;, &#8220;Cabe\u00e7a de Papel&#8221; e &#8220;Mi\u00e7anga&#8221; foram alguns dos singles lan\u00e7ados recentemente. Somado a isso saiu uma vers\u00e3o dub para o \u00e1lbum \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d. Isso acaba por mostrar que o grupo segue ativo nos bastidores! Ali\u00e1s, como se deu esse processo de cria\u00e7\u00e3o de deste disco?<\/strong><br \/>\nEsse \u00e1lbum de dub foi lan\u00e7ado como uma forma de manter este lado sensorial que prezamos. Porque o dub \u00e9 isso. A gente est\u00e1 vivendo um momento de priva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, de contato. O dub parte disto. Ele tira os elementos do original e come\u00e7a a brincar com isso. Voc\u00ea s\u00f3 ouve o baixo, ou s\u00f3 o baixo e a percuss\u00e3o, ou a guitarra e a voz. E isso independente de voc\u00ea conhecer aquilo tradicionalmente ou n\u00e3o. A pessoa pode at\u00e9 n\u00e3o conhecer o disco (\u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d) e ouvir s\u00f3 o dub, mas ela v\u00ea ali a necessidade de agu\u00e7ar os sentidos. Buguinha (co-autor das releituras) faz isso h\u00e1 anos e tem toda uma est\u00e9tica, uma forma de pensar a m\u00fasica, que se relaciona a tudo que j\u00e1 falamos da quest\u00e3o da estar ali no est\u00fadio brincando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;n\u00e3o sei como se deu a sua rela\u00e7\u00e3o com o dub, mas para mim, a primeira vez que ouvi falar do g\u00eanero foi com os Beastie Boys, fase \u201cHello Nasty\u201d, quando eles convidaram o Lee \u201cScratch\u201d Perry para participar de uma faixa&#8230;<\/strong><br \/>\nO dub, na verdade, serviu de base para quase toda a cultura pop atual. O hip hop veio disso, o dubstep tamb\u00e9m&#8230; O dub trouxe essa possibilidade de isolar o beat, e surgiam 10 caras cantando em cima daquele neg\u00f3cio, rimando. O que eu acho incr\u00edvel no dub \u00e9 que ele faz voc\u00ea perceber algo que n\u00e3o costumava ouvir numa m\u00fasica, que poderia ter passado despercebido, e a\u00ed de repente duas melodias do teclado conduzem a m\u00fasica. Isso, de certa forma, \u00e9 um pouco do que a gente est\u00e1 vivendo agora: de ver algo sob v\u00e1rias vis\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitas pessoas est\u00e3o dizendo que esses tempos de Covid-19 tem sido de grande reflex\u00e3o em v\u00e1rias esferas da sociedade. Como voc\u00ea tem visto este momento? E ainda: a classe art\u00edstica, nesse sentido, tem sofrido arduamente devido a impossibilidade de realizar apresenta\u00e7\u00f5es que, geralmente, \u00e9 a principal fonte de renda para a maioria. As lives tem surgido com uma alternativa para os artistas manterem contato com o p\u00fablico, mas acredito que esta n\u00e3o seja a solu\u00e7\u00e3o definitiva. Qual seria a alternativa para esse per\u00edodo?<\/strong><br \/>\nLive, no nosso caso, \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Porque primeiro ter\u00edamos que juntar todo mundo. Tem gente que faz isso sozinho muito bem, como o Curumin, porque ele canta bem e geralmente coloca uma base no MPC, e d\u00e1 certo. Isso falando de algu\u00e9m perto da gente. Mas no caso do Baiana \u00e9 muito dif\u00edcil. A gente ainda precisa entender como nos comunicar e ao mesmo tempo vamos aprendendo tudo isso junto. Voc\u00ea estava falando da classe art\u00edstica aqui no Brasil, mas a gente j\u00e1 vinha vivendo isso. Bolsonaro bateu de frente com a gente e acabou nos perseguindo. Outro dia conversava com Carlos Renn\u00f3 (poeta \/ escritor) e ele j\u00e1 estava sentindo isso na pele devido aos cortes e ao lance do (antigo) Minist\u00e9rio da Cultura (hoje uma Secretaria). Agora (com a Covid-19) tudo isso foi levado ao \u00e1pice com o fato dos artistas n\u00e3o poderem mais circular. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais restritiva e est\u00e1 todo mundo tendo que se reinventar. As pessoas acham que o fato de estarmos em casa nos permitir\u00e1 produzir pra caramba, mas n\u00e3o \u00e9 sempre assim. \u00c9 um momento de muita reflex\u00e3o de como estamos e como vamos sair dessa. As pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es humanas ser\u00e3o alteradas. \u00c9 um momento de muito aprendizado. Agora est\u00e1 todo mundo fazendo Live e acredito que da\u00ed surja coisas, formatos, maneiras de produzir e divulgar, que ser\u00e3o exercitadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Socialmente voc\u00ea acha que sairemos dessa situa\u00e7\u00e3o da mesma forma ou iremos para outro caminho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tem como ser da mesma forma. De uma maneira geral eu espero e acredito, como otimista que sou, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que as pessoas n\u00e3o aprendam com tudo isso. N\u00e3o d\u00e1 para ser mais como era. N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor, se vai ser melhor ou pior, pois ningu\u00e9m sabe dizer. Mas acho que j\u00e1 ser\u00e1 diferente. Pensando da gera\u00e7\u00e3o dos meus pais at\u00e9 hoje, acho que ningu\u00e9m imaginou que viver\u00edamos uma situa\u00e7\u00e3o como essa. \u00c9 um corte muito dr\u00e1stico. Acredito na evolu\u00e7\u00e3o da humanidade, que vai desde o planeta estar respirando mais, devido \u00e0 aus\u00eancia do homem estar fazendo com que coisas aconte\u00e7am de outra maneira. As rela\u00e7\u00f5es sociais mudaram e estamos buscando entender a economia, compreender esta reinven\u00e7\u00e3o do que pode ser presencial ou n\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es do mundo do trabalho. \u00c9 um novo caminho. Todos v\u00e3o voltar tentando entender e a gente, como artista, vai buscar entender como as coisas ir\u00e3o acontecer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FUTURO DUB - @Baiana System + Buguinha Dub\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TDg164HEtiI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gilberto Gil e BaianaSystem - Emori\u00f4\/Dia da Ca\u00e7a (Encontros Tropicais - Ao Vivo em Salvador)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tsYS9IWrAKI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BaianaSystem - Lucro\/Colar de Mi\u00e7anga (Ao Vivo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9zhky99TPZg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em entrevista concedida no in\u00edcio de abril, Beto Barreto, guitarrista e co-fundador do Baiana, falou sobre a cultura dos festivais, parcerias (Manu Chao, Pitty, Ganjaman), a verve pol\u00edtica do grupo, a influ\u00eancia que a Bahia exerce noo grupo, e o mundo p\u00f3s Covid-19!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/13\/entrevista-baianasystem-o-artista-e-um-ser-politico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":56076,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1127,4249],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56075"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56075"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57012,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56075\/revisions\/57012"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}