{"id":5567,"date":"2010-08-11T20:05:47","date_gmt":"2010-08-11T23:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5567"},"modified":"2010-10-27T16:14:48","modified_gmt":"2010-10-27T19:14:48","slug":"entrevista-iuri-freiberger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/11\/entrevista-iuri-freiberger\/","title":{"rendered":"Entrevista: Iuri Freiberger"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5568 aligncenter\" title=\"iuri3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri3-300x211.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<br \/>\n<\/a>Fotos: Arquivo Pessoal<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos meses, o Scream &amp; Yell tem batido forte em alguns pontos do cen\u00e1rio independente nacional, o que n\u00e3o quer dizer que o site seja contra a cena independente, mas sim que estamos tateando caminhos para que essa cena cres\u00e7a com personalidade e for\u00e7a para conquistar mais e mais adeptos. Passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a de gente que pensa errado a m\u00fasica brasileira n\u00e3o vai levar o cen\u00e1rio a lugar nenhum. E, acredite, queremos que esse cen\u00e1rio chegue a algum lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quinze, vinte anos atr\u00e1s, quando se pensava em cen\u00e1rio independente, o sonho para o futuro era de que se criasse uma rede ao redor das bandas possibilitando o surgimento de profissionais que poderiam sobreviver do cen\u00e1rio sem precisar subir ao palco, gente como fot\u00f3grafos, designers, roadies, assessores de imprensa, t\u00e9cnicos de som e produtores. Vinte anos se passaram, e as coisas melhoraram muito, mas ainda h\u00e1 muito a caminhar, principalmente no territ\u00f3rio do som em shows e discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja poss\u00edvel contar nos dedos de uma m\u00e3o os grandes produtores que surgiram nos \u00faltimos anos, mas um deles, Iuri Freiberger, tem lugar garantido e de destaque. Foram mais de 40 discos produzidos desde seu debute oficial nos bot\u00f5es com \u201cCarteira Nacional de Apaixonado\u201d, de Frank Jorge, em 2000. De l\u00e1 pra c\u00e1, Iuri produziu Walverdes (\u201cAnticontrole\u201d, 2001, e outros), Violins (\u201cGrandes Infi\u00e9is\u201d, 2005), MQN (\u201cBad Ass Rock and Roll\u201d, 2007) e, agora, o novo disco do Cabaret, \u201cA Paix\u00e3o segundo Cabaret\u201d (2010\/2011), al\u00e9m de manter com Pedro Ver\u00edssimo uma das grandes bandas ga\u00fachas dos anos 00, a Tom Bloch (que lan\u00e7ou em 2008 o bel\u00edssimo \u201c2\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito, a Tom Bloch est\u00e1 hibernando \u2013 \u201cA qualquer hora resolvemos fazer um disco, de uma maneira, com um foco ou jeito, e esse ser\u00e1 nosso objetivo como banda\u201d \u2013 mas Iuri n\u00e3o. Vivendo em Recife desde o ano passado, ele segue n\u00e3o s\u00f3 produzindo, mas lecionando em faculdade de m\u00fasica tamb\u00e9m (com a miss\u00e3o de transferir tudo que aprendeu) e montando um est\u00fadio na cidade \u201ccom capacidade pra registrar \u00e1udio e v\u00eddeo em alta qualidade\u201d, conta Iuri, um cara que tamb\u00e9m est\u00e1 tateando caminhos (com v\u00e1rios acertos) para a m\u00fasica brasileira. E que j\u00e1 saiu na Caras (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bate papo abaixo \u00e9 um registro de uma semana de troca de e-mails (talvez mais). Na pauta, produ\u00e7\u00e3o musical no Brasil (\u201cM\u00fasica hoje pode ser bem mais sincera\u201d, diz ele), o som dos shows no Pa\u00eds (\u201cOs produtores de eventos subestimam a capacidade de percep\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d) e palpites sobre o futuro da m\u00fasica, a volta do vinil e a remasteriza\u00e7\u00e3o de discos antigos. \u201cAcho bom relembrar que m\u00fasica \u00e9 mais do que matem\u00e1tica. Ainda assobio \u201cVassourinhas\u201d quando passo em Olinda no carnaval\u201d. Com voc\u00eas, mestre Iuri Freiberger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 quanto tempo voc\u00ea est\u00e1 morando em Recife? O que te levou para ai?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 vai um ano morando oficialmente, em julho. A hist\u00f3ria come\u00e7ou em 2007 quando vim gravar o AMP, e come\u00e7amos a fazer o est\u00fadio Casona. Era a casa que eles ensaiavam, e por fim resolvemos come\u00e7ar a desenvolver a id\u00e9ia de fazer um est\u00fadio com capacidade pra registrar \u00e1udio e v\u00eddeo em alta qualidade. Finalmente ele esta ficando pronto, e alguns dos meus projetos j\u00e1 est\u00e3o prontos pra come\u00e7ar por l\u00e1. A decis\u00e3o da vinda foi uma combina\u00e7\u00e3o de fatores: o est\u00fadio andando, a faculdade de produ\u00e7\u00e3o musical me convidando pra dar aula (onde hoje sou um dos professores da \u00e1rea t\u00e9cnica do curso e presto consultorias pra institui\u00e7\u00e3o em outras \u00e1reas), a Tom Bloch estar completando 10 anos e eu querendo dar uma reciclada no que eu tava fazendo como m\u00fasico e produtor, e a pretens\u00e3o de tentar transferir conhecimento, que foi algo imensamente novo pra mim, como profissional. Nisso tudo, varias coisas rolando e projetos seguem crescendo aqui, que tem uma abertura imensa para id\u00e9ias e diferentes vis\u00f5es em m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 estere\u00f3tipo, mas vamos l\u00e1: como \u00e9 para um cara vindo de uma cidade com influ\u00eancias t\u00e3o roqueiras quanto Porto Alegre (h\u00e1 muitas outras sonoridades em PoA, mas parece que o rock, e principalmente os Stones, bateram forte na cidade) chegar em um cidade cuja percuss\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo musical? Ok, voc\u00ea \u00e9 baterista (risos)&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois ent\u00e3o: minha hist\u00f3ria como musico \u00e9 bem diversificada. Comecei tocando viol\u00e3o e bateria. Estudei bateria por muitos anos, muita coisa diferente, com um dos bateristas que veio a ser considerado referencia aqui no pa\u00eds, Kiko Freitas, hoje baterista do Jo\u00e3o Bosco (j\u00e1 faz tempo n\u00e9) e que circula o mundo com muita gente bacana. Fui o primeiro aluno dele, mas nunca fui o cara que mais desenvolveu. Acho que o que sei sobre bateria veio desse per\u00edodo. Foi excelente para entender muita coisa de m\u00fasica, e me mostrar o que eu queria como m\u00fasico. Nas cordas, estudei um ano de viol\u00e3o cl\u00e1ssico, e depois fui pra escola da sinf\u00f4nica, pra aprender o geral de m\u00fasica. Pouco tempo tamb\u00e9m. Tudo bem que ouvi muito rock, mas minha escola principal, como baterista, foi m\u00fasica negra. Minhas primeiras bandas eram de rock, influ\u00eancia desde novo. Minha primeira mem\u00f3ria com musica, provavelmente quatro anos de idade, era colocando a colet\u00e2nea azul dos Beatles. O disco estava quebrado, e s\u00f3 tocava uma m\u00fasica, no fim do vinil: &#8220;Ob-La-Di, Ob-La-Da&#8221;, que muita gente n\u00e3o gosta, mas acho uma musica excelente para crian\u00e7as. O lance de m\u00fasica negra tem um p\u00e9 nas coisas brasileiras. Principalmente Jorge Ben e Tim Maia. Isso tamb\u00e9m gra\u00e7as aos meus amigos da Ultramen, Julio e Pedro. Inicio dos 90 era maluco: grunge, metal, progressivo, Chili Peppers, FNM, indie, Bob Marley, a gente pegava esse caldeir\u00e3o musical e mexia com nossa influ\u00eancia em PoA. Somava as coisas brasileiras, principalmente porque todo mundo tocava em banda cover, e ent\u00e3o o que era legal a gente estava tocando. Foi bem nesse momento que voltaram a voga os dois mestres, e entrei para uma banda em que eles eram o mote, junto com Ed Motta: Black Master, com esse time: Julio e Tonho, gtr e voz da Ultramen, Frank Jorge nos teclados, Flavio Passos no baixo, o dono da banda at\u00e9 hoje, e eu na bateria. De vez em quando t\u00ednhamos percuss\u00e3o e sopros pra rechear o bolo. Esse momento do pa\u00eds, do que alguns chamaram de crossover, onde tudo foi misturado em tudo que \u00e9 lugar, acho de extrema riqueza musical, coisa que nos dias de hoje n\u00e3o percebo, mesmo com internet e tudo mais. O povo faz cada vez menos, ou pelo menos do mesmo jeito. E como baterista, nada mais bacana do que regrar o jeito de tocar com funk, samba e soul, onde o baterista \u00e9 a base, e toca como um metr\u00f4nomo. Aprendi apanhando feio, branquelo e alem\u00e3o, mas acho hoje que sai direitinho! Com o rock sempre por perto, a mistura teve esse foco: m\u00fasica de festa, de baile, pra dan\u00e7ar e animar, com musica visceral. Acho que \u00e9 a primeira vez que junto essas pe\u00e7as, mas foi por a\u00ed que me puxou pra entender sobre minhas origens at\u00e9 mesmo como produtor. E por fim, mesmo que n\u00e3o pare\u00e7a, Tom Bloch \u00e9 a mistura de tudo isso: black music, que o Pedro \u00e9 super influenciado, rock indie, can\u00e7\u00e3o e o p\u00e9 nos 80, de onde crescemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea tem contabilizado quantos discos j\u00e1 produziu? Como foi o come\u00e7o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, sempre. Oficialmente come\u00e7ou com o \u201cCarteira Nacional de Apaixonado\u201d, do Frank Jorge. Ele tava querendo colocar umas batidas eletr\u00f4nicas no disco, que foi o primeiro solo dele. E foi uma doidera, porque n\u00e3o era s\u00f3 isso, ele queria uns conceitos diferentes. Conseguimos misturar jovem guarda com Pato Fu e m\u00fasica cubana. Foram \u00f3timos momentos em 2000. A hist\u00f3ria come\u00e7a um tanto antes, desde o in\u00edcio dos Walverdes, em 92, 93. Sempre gravei o que eles faziam, entrei na banda tocando, bem no principio, e sa\u00ed pra gravar. Foi o grande aprendizado, desde as fitas cassete at\u00e9 o digital. Depois do CNA, foi um disco atr\u00e1s do outro. Em 10 anos, contabilizei o disco n\u00famero 42 como produ\u00e7\u00e3o agora em mar\u00e7o, e mais uns 30 e poucos fazendo alguma coisa, entre mixagem, p\u00f3s produ\u00e7\u00e3o, masteriza\u00e7\u00e3o, etc. No momento, estamos preparando alguns especiais aqui com artistas locais, j\u00e1 focando em v\u00eddeo tamb\u00e9m. E sempre seguem os discos das bandas. O Cabaret acabou de ser masterizado no Abbey Road, e alguns outros est\u00e3o no caminho. Um que devo colocar a m\u00e3o at\u00e9 mesmo na parte art\u00edstica ser\u00e1 o disco do Henrique Neves, que era vocalista do Brinde, de Salvador. Vamos gravar tudo aqui na Casona, eu tocando v\u00e1rios instrumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5569 aligncenter\" title=\"iuri4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri4.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri4.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri4-300x210.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco novo do Cabaret foi masterizado em Abbey Road? Conta melhor essa hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Julio Porto tamb\u00e9m produz muita coisa, e por fim foi embora pra Londres. L\u00e1, foi masterizar o novo da Pata de Elefante, e abriu esse caminho pras pessoas pr\u00f3ximas a ele no est\u00fadio. Ali\u00e1s, hoje em dia ele est\u00e1 fazendo essa ponte por l\u00e1, e o pr\u00f3prio est\u00fadio tem m\u00f3dulos online para masteriza\u00e7\u00e3o. Claro que a gente poderia fazer no Brasil, tamb\u00e9m ter\u00edamos resultados \u00f3timos, como tenho obtido h\u00e1 anos com os grandes masterizadores do pa\u00eds, mas al\u00e9m do resultado sonoro, dos ouvidos diferentes dos nossos, tem mais. O Cabaret, por ser a banda do nosso amigo Marvio, \u00e9 uma banda pretensiosa. Ou seja, se junta a mim, nesse n\u00edvel de pretens\u00e3o: fazer com que o que \u00e9 importante para o resultado sonoro e art\u00edstico, a gente prime pela mesma sensa\u00e7\u00e3o, de excel\u00eancia. Por isso o trabalho minucioso, por isso o tempo e envolvimento pra chegar ao resultado. As decis\u00f5es vieram em fun\u00e7\u00e3o disso. Assim como a Toca do Bandido (foto acima) como grande est\u00fadio para o registro sonoro e produ\u00e7\u00e3o. Assim como a participa\u00e7\u00e3o do Ney (Matogrosso) numa m\u00fasica feita para ele, pensando nele. Assim como a grande eloq\u00fc\u00eancia do texto e do cunho conceitual que Marvio e eu discutimos, e por fim, a finaliza\u00e7\u00e3o na meca da m\u00fasica pop rock mundial, na origem do que hoje vivemos a partir da sua hist\u00f3ria. Acho que assim se explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tom Bloch de f\u00e9rias ent\u00e3o? E o Cabaret, voc\u00ea est\u00e1 tocando tamb\u00e9m com o M\u00e1rvio? As guitarras do disco novo est\u00e3o fodas!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois sim, estamos (Tom Bloch) nesse gap, entre o que cada um queria pra sua vida, e o que podemos ir fazendo. Acho que chegaremos a um ponto, que nos dias de hoje, pode ser bem poss\u00edvel, que \u00e9 ser uma banda de projetos. Ou seja, a qualquer hora resolvemos fazer um disco, de uma maneira, com um foco ou jeito, e esse ser\u00e1 nosso objetivo como banda. Se tocar ou n\u00e3o, se lan\u00e7ar no mercado ou n\u00e3o, talvez n\u00e3o fa\u00e7a tanta diferen\u00e7a. \u00c9 o que tenho sentido em rela\u00e7\u00e3o ao nosso futuro. Com o Cabaret, em principio, n\u00e3o (toco), mas talvez fa\u00e7a algum show ou outro completando o time. A id\u00e9ia \u00e9 dar algum suporte, mas acho que eles sempre correram bem sozinhos. Talvez, daqui um tempo, eu fa\u00e7a um disco com o M\u00e1rvio, dele, mas s\u00e3o meras conversas no Lamas, que ainda n\u00e3o tivemos mais como continuar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dos discos que voc\u00ea produziu, qual o que voc\u00ea acredita que conseguiu o melhor som?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha, \u00e9 estranho chegar nesse ponto: depende do momento, da \u00e9poca. Acho que o \u201cTom Bloch 2\u201d \u00e9 excelente, mas o \u201cVolume 3\u201d do Frank \u00e9 excelente (tamb\u00e9m), mesmo n\u00e3o tendo sido produzido diretamente por mim, mas chegamos juntos no som, eu e Rafael (Ramos). O \u201cPlayback\u201d dos Walverdes \u00e9 uma lenha inacredit\u00e1vel. O Cabaret agora foi de um esmero sem precedentes, de quatro vers\u00f5es de mixagens at\u00e9 chegar onde eu queria com o disco. O MQN tamb\u00e9m foi muito bacana pra \u00e9poca, v\u00e1rios pontos e vis\u00f5es diferentes para cada um. Esses dias tava ouvindo a demo que fiz da minha banda de soul music, de PoA, em 99, gravada no quarto do tecladista, e soa lindo. Acho que depende muito do momento, da combina\u00e7\u00e3o de fatores. Uma \u00e9poca eu dizia que tinha sorte com o som, porque juntavam v\u00e1rios fatores positivos, mesmo em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Enquanto a m\u00e9dia dos discos do in\u00edcio dos 90 era bem fraca em produ\u00e7\u00e3o, e de algumas demos, no mundo independente, eu tive a chance de trabalhar com os mais diversos artistas e tirar o caldo de cada um deles. Um disco que \u00e9 maluco, mas me soa super bem pra proposta \u00e9 o do Mechanics, mesmo sendo gravado de maneira tosca e esquisita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, eu n\u00e3o me prendo muito ao som que eu tenho como refer\u00eancia, e sim com a compreens\u00e3o do que \u00e9 melhor praquele momento e condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro, hoje, tecnicamente, estou muito mais exigente. N\u00e3o \u00e9 a toa que os \u00faltimos trabalhos vem de capta\u00e7\u00f5es em grandes est\u00fadios e com finaliza\u00e7\u00f5es em outros de grande qualidade. E \u00e9 por isso que a Casona est\u00e1 seguindo esse caminho, de excel\u00eancia em produ\u00e7\u00e3o sonora, e em muito breve, audiovisual. Por exemplo, com o Cabaret: Marvio e eu come\u00e7amos a conversa sobre o disco um ano antes de entrar em est\u00fadio pra gravar. Pensamos nas possibilidades, objetivos, o que ele queria com a banda, como a banda estaria naquele momento. Muita \u00e1gua passou por baixo da ponte desde os primeiros ensaios at\u00e9 chegar na masteriza\u00e7\u00e3o. Mas creio que chegamos a um n\u00edvel de trabalho que comparativamente, n\u00e3o deixa a desejar a nenhum disco feito fora do Brasil, e com qualidade que n\u00e3o \u00e9 costume ser ouvido nas produ\u00e7\u00f5es realizadas por aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entrevistei o pessoal da Walverdes uns anos atr\u00e1s, e eles definiam &#8220;Anticontrole&#8221; como um divisor de \u00e1guas para a banda. O Mini disse: &#8220;O m\u00e9rito da qualidade do \u201cAnticontrole\u201d \u00e9 todo do Iuri. Porque tamb\u00e9m foi gravado sem as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas ideais, mas o Iuri se esmerou na produ\u00e7\u00e3o&#8221;. Particularmente acho um disco sensacional. E que banda de soul music \u00e9 essa que voc\u00ea teve?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mini \u00e9 o cara respons\u00e1vel pela minha entrada na m\u00fasica, pra valer. Se ele julga algum m\u00e9rito do meu esfor\u00e7o, o m\u00e9rito \u00e9 dele. A gente tem uma rela\u00e7\u00e3o de amizade que transcende a coisa da m\u00fasica, pode ser acaso, mas desde que nos conhecemos a afinidade em rela\u00e7\u00e3o ao que quer\u00edamos pra vida foi bastante parecida, mesmo por caminhos bastante diferentes. Tenho ele como uma pessoa referencial, por conseguir viver em coisas completamente amb\u00edguas, como publicidade, rock e budismo, al\u00e9m de escrever muito e ser um cara influenciador de muita gente que ele tem por perto. A banda de soul music veio daquela coisa da faculdade: a gente l\u00e1, estudando comunica\u00e7\u00e3o, vendo o caldeir\u00e3o fervendo das influ\u00eancias musicais, ouvindo Pixies e James Brown. Ent\u00e3o veio o filme \u201cThe Commitments\u201d. Bateu forte em dois amigos da PUC, e um deles fazia a UFRGS tamb\u00e9m. Naquelas de estar na faculdade pela m\u00fasica, apareceu ali mais uma chance de tocar, fui conferir com meus amigos que estavam entrando. No primeiro ensaio, com um repertorio tirado do filme, saquei que aquele conjunto funcionaria muito bem. Ent\u00e3o nos mexemos pesado para evoluir e formar um grupo naquele estilo, claro, tocando as m\u00fasicas que tamb\u00e9m fez a banda no filme se formar. E me esforcei muito na produ\u00e7\u00e3o executiva, pra fazer a banda andar e se tornar uma banda com trabalho duro, como o nome diz. Chama-se The Hard Working Band (foto abaixo na revista Caras). Resumo: fizemos uns 400 shows em cinco anos de banda que participei, alguns para muita gente, coisa de 40 mil, 100 mil pessoas, fizemos shows com grandes bandas pop como Paralamas, Tit\u00e3s. Gravamos um CD ao vivo com os covers classicos de soul music, que na \u00e9poca vendeu umas 40 mil copias, e segue vendendo at\u00e9 hoje. Sa\u00ed da banda em 2000, quando eles resolveram apostar num repertorio em portugu\u00eas e tamb\u00e9m pr\u00f3prio, e seguem firmes e fortes at\u00e9 hoje, com mais alguns discos gravados, inclusive com orquestra. Os vocalistas, quatro, sempre foram de grande excel\u00eancia, e hoje tem carreiras pr\u00f3prias e vasta experi\u00eancia no universo pop brasileiro. Ou seja, tem muita Motown e Stax aqui nessas veias.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5570 aligncenter\" title=\"iuri_caras\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri_caras.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a produ\u00e7\u00e3o musical no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que desde que eu comecei a hist\u00f3ria toda evoluiu radicalmente: os produtores a gente contava nos dedos, principalmente aqueles que de alguma forma eram atrelados as gravadoras, que estavam no Rio e SP. Acho que tivemos uma separa\u00e7\u00e3o, bastante relevante nos 80, principalmente porque o custo das produ\u00e7\u00f5es diminuiu consideravelmente, e isso tornou poss\u00edvel a forma\u00e7\u00e3o do mercado independente. Nos 90, tivemos o boom do digital, que barateou todo o processo e trouxe pra perto os recursos antes poss\u00edveis s\u00f3 para gente com muita grana. Acho que s\u00f3 a partir da\u00ed \u00e9 que o mundo se nivelou, em produ\u00e7\u00e3o, porque muita gente sem id\u00e9ia do que existia tecnicamente para produ\u00e7\u00e3o teve acesso aos recursos. Eu mesmo comecei a busca pelas sonoridades que eu curtia, mas n\u00e3o tinha informa\u00e7\u00e3o, os profissionais em Porto Alegre detinham e n\u00e3o transferiam, era algo para poucos e defendido ferrenhamente. Foi um momento duro, porque eles perceberam que iam perder a exclusividade do conhecimento, e alguns cabe\u00e7a-dura como eu insistiram em aprender. Ouvi muitos &#8220;n\u00e3o d\u00e1 pra ser feito&#8221;. Acho que isso que me fez tornar-me produtor: se isso existe em um disco que gosto, porque n\u00e3o pode ser feito???<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia eu quis o som da caixa do John Boham, algo impens\u00e1vel no mundo de quem gravava. Ouvi v\u00e1rios n\u00e3os de quem era o grande, em PoA, na \u00e1rea de \u00e1udio. Algu\u00e9m que quiser conferir, tem alguns dos meus discos com o som bem parecido, pois consegui chegar onde eu queria. O mais pr\u00f3ximo \u00e9 o disco de Evandro Demari, \u201cSerendip\u201d, em que toquei bateria e foi gravado no est\u00fadio YB, em SP, por Gustavo Lenza, em 2000. S\u00f3 para ter no\u00e7\u00e3o: em 97, quando faz\u00edamos as demos para mandar pras casas de shows no sul, um CD gravado pelo grande engenheiro de \u00e1udio em PoA, que era o \u00fanico que tinha um gravador, custava 70 reais. Isso sem nada, somente um CD virgem copiado. E era luxo, porque at\u00e9 ent\u00e3o o que o normal eram as fitas demo. A partir da pirataria de softwares e plugins, e a internet, um vasto campo se abriu. Todo mundo come\u00e7ou a poder experimentar o que eram os recursos fechados para os grandes est\u00fadios, e seus resultados, mesmo ainda p\u00edfios em sonoridades. O que antes era somente de quem tinha dinheiro suficiente para bancar a produ\u00e7\u00e3o, agora tinha virado o investimento nos seus home studios. Foi nesse momento, pra mim, que o Brasil come\u00e7ou a entender o que poderia ser feito com produ\u00e7\u00e3o musical, de verdade, em rela\u00e7\u00e3o ao que poucos entendiam e o faziam muito bem. Sou e sempre fui muito f\u00e3 do Liminha, do Tom Capone, de alguns dos discos seminais do (Carlos Eduardo) Miranda, dos discos do Chico Buarque, dos Mutantes, e at\u00e9 eu conseguir ter o equipamento b\u00e1sico para testar algumas coisas, isso tudo que eles faziam me soava como mito, inalcan\u00e7\u00e1vel. Hoje fico feliz de discutir com uma turma de 15 alunos que estou formando, em n\u00edvel superior, e todos entendem da mesma maneira o que eu aprendi na marra, tem no\u00e7\u00f5es gerais de produ\u00e7\u00e3o, tem equipamento, tem capacidade de discernir entre o que foi feito e o que existe nos dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que na produ\u00e7\u00e3o brasileira atual, depois de termos nos desprendido dos impedimentos t\u00e9cnicos, podemos soar como qualquer grande artista internacional, ou como desejarmos. Em geral, acho que estamos muito bem, s\u00f3 acho que o universo pop e popular n\u00e3o explora as possibilidades, porque existe ainda um medo do que foi estabelecido pelo mercado fonogr\u00e1fico e pelas r\u00e1dios, desde os anos 80. Ainda se tem muito medo de n\u00e3o errar, de ter que &#8220;tocar na r\u00e1dio&#8221;, de soar como algum artista original que somos f\u00e3s, ou de ainda agradar a massa e os detentores de algum m\u00edsero poder na m\u00eddia. Talvez em geral as pessoas n\u00e3o se lembrem, mas no ano que vem ser\u00e1 o d\u00e9cimo aniversario do \u201cBloco do Eu Sozinho\u201d, dos Los Hermanos, e esse disco estourou em vendas sem tocar na radio, somente pela divulga\u00e7\u00e3o pela internet, e a banda se tornou refer\u00eancia para uma gera\u00e7\u00e3o inteira de f\u00e3s. E a produ\u00e7\u00e3o do disco n\u00e3o comportava nenhum padr\u00e3o que existia naquele momento no mercado brasileiro, tanto que a gravadora pediu pra outros produtores remixarem antes de lan\u00e7\u00e1-lo, para ficar mais f\u00e1cil ao que eles julgavam para o ouvido do &#8220;p\u00fablico&#8221; da banda, que conhecia \u201cAnna Julia\u201d, somente. Ledo engano. Hoje, um dos grandes sucessos em termos de alcance de p\u00fablico \u00e9 o tecnobrega, de Bel\u00e9m. E a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 super simples, super f\u00e1cil de ser manipulada em um PC, com softwares como o Fruitloops, que qualquer menino de 10 anos j\u00e1 sabe utilizar pra fazer m\u00fasica. E \u00e9 um sucesso consider\u00e1vel pelo mundo, com repercuss\u00e3o at\u00e9 mesmo em ve\u00edculos como o New York Times. Ou seja, m\u00fasica hoje pode ser bem mais sincera, acho que mais pr\u00f3xima do que \u00e9 sua origem, sem depender do poder de decis\u00e3o que algumas pessoas detiveram durante d\u00e9cadas no pa\u00eds e no mundo. Quem ainda n\u00e3o o faz \u00e9 porque tem medo do futuro ou de que seu burro coma as amarras e algu\u00e9m monte nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">O Wado se amarra nos pancad\u00f5es cariocas, e vejo nessa paix\u00e3o dele exatamente isso que voc\u00ea diz: m\u00fasica sincera. Mas \u00e0 parte a sinceridade, para onde voc\u00ea acha que a m\u00fasica est\u00e1 caminhando?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honestamente, pra mim s\u00e3o dois lados bem claros: de quem percebe que o mundo mudou e tem clareza a esse respeito, e de quem est\u00e1 preso a modelos de 40, 50 anos atr\u00e1s. Os presos s\u00e3o reprodutores, est\u00e3o sempre atr\u00e1s do que foi feito. Pra mim \u00e9 a m\u00fasica da classe m\u00e9dia e alta, de quem toca o que foi influenciado por outros, de quem curte reproduzir seus \u00eddolos. De quem foi criado sob a m\u00eddia, sob as revolu\u00e7\u00f5es culturais, mas tomou dela a parte exterior, de imagem, de resultado para sua constru\u00e7\u00e3o de personalidade. \u00c9 a m\u00fasica dos personagens. Eu vivo meio nesse mercado, e tenho consci\u00eancia disso. \u00c9 a m\u00fasica em que muito do que \u00e9 feito \u00e9 baseado no que tem que ser mostrado pros outros, pra satisfa\u00e7\u00e3o do ego, em geral e resumidamente. Por isso creio que minhas mudan\u00e7as estejam relacionadas com a mudan\u00e7a de foco em rela\u00e7\u00e3o ao que quero e espero da m\u00fasica. Talvez minhas grandes pretens\u00f5es tenham ficado no Cabaret, por fim, isso eu comentei com o Marvio. Pedro talvez tenha entendido, tamb\u00e9m. Agora, parece que estou mais em paz pra fazer o que n\u00e3o espero resultado. Algu\u00e9m pensa nisso, hoje em dia? Por outro lado, acho que atingimos a liberdade total de recursos. Ningu\u00e9m est\u00e1 mais preso a condicionamentos para fazer m\u00fasica, vide o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e ao acesso. Ent\u00e3o, se o tecnobrega atinge o mundo, \u00e9 porque eles s\u00e3o sinceros. N\u00e3o foi a gravadora, a m\u00eddia, o jornalista com interesse que o fez. Eles j\u00e1 estavam l\u00e1, s\u00f3 restou ao mundo conhec\u00ea-los. Mesmo que tenham interesses, pretens\u00f5es, resultados, o fator transforma\u00e7\u00e3o nesse caso \u00e9 mais forte. Acho que nesse n\u00edvel, a m\u00fasica \u00e9 mais sincera. \u00c9 como o futebol, pela paix\u00e3o. Estraga quando as corpora\u00e7\u00f5es tomam conta. Mas at\u00e9 l\u00e1, existe muita coisa legal que acontece, muita troca com o mundo. Acho que estamos caminhando pra isso, pra quem poderia ser um artista com propriedade, hoje n\u00e3o teria mais os impedimentos que muitos tiveram. S\u00f3 creio que infelizmente estamos baseados nos dois problemas que, pra mim, estragam a m\u00fasica: resultado e t\u00e9cnica. Sei que fiz muito pra entender dos dois, e lidei muito com isso (e ainda vou continuar lidando), mas a sinceridade as vezes n\u00e3o vem a tona se esses dois fatores entram na frente. N\u00e3o julgo quem gravar uma m\u00fasica, j\u00e1 fazer MySpace, tirar foto, fazer clipe, fazer projeto pra Funcultura, querer tocar em festivais, querer lan\u00e7ar discos ou online, aparecer na tev\u00ea, dar entrevistas, fazer tourn\u00e9es mundiais em que interessa o nome da cidade e pa\u00eds, e n\u00e3o pra quantas pessoas se toca, n\u00e3o seja nada mais do que resultado, nenhum m\u00e9rito se tem em aproximar do que j\u00e1 foi feito para atingir metas de quem teve o mesmo caminho, e tirar onda com isso tudo, achando-se importante e relevante para a m\u00fasica. Pois n\u00e3o o \u00e9, mesmo. Talvez, por algum motivo, possa impressionar as pessoas, possa iludir sobre o resultado, possa passar sentimentos positivos. S\u00f3 que n\u00e3o canto uma m\u00fasica recente h\u00e1 tempos. N\u00e3o me fica na cabe\u00e7a melodias de discos novos, h\u00e1 anos. Ano passado, Radiohead. Ontem, s\u00f3 Chico Buarque. Continuo ouvindo aqui na mem\u00f3ria coisas do passado, \u00e0s vezes distante. Algumas perdidas, algumas can\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 bem pouco pra quando se tinham discos com todas as m\u00fasicas cant\u00e1veis, ou m\u00fasicas compostas h\u00e1 s\u00e9culos que ainda mexem profundamente com alguma coisa que n\u00e3o temos compreens\u00e3o. Em \u00e9pocas de discuss\u00f5es acirradas por aqui, acho bom relembrar que m\u00fasica \u00e9 mais do que matem\u00e1tica, e isso que estamos vivendo: formulas t\u00e9cnicas, de produ\u00e7\u00e3o executiva, de resultados, de falsos m\u00e9ritos. Ainda assobio \u201cVassourinhas\u201d quando passo em Olinda no carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5571 aligncenter\" title=\"iuri1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que o som dos shows no Brasil \u00e9, na maioria das vezes, t\u00e3o sofr\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha, acredito que pelo mesmo problema de aparatos t\u00e9cnicos, e conhecimento em rela\u00e7\u00e3o aos resultados. Pela minha experi\u00eancia, mal faz cinco anos que as equipes de som conseguiram ter acesso aos mesmos recursos que os estrangeiros, na sua totalidade. Da mesma maneira, a internet ajudou a nivelar o mundo todo nesse aspecto. Por exemplo, no festival GigRock, que eu fazia em Porto Alegre, durante duas edi\u00e7\u00f5es eu tive acesso, para mixar o PA dos shows, de uma mesa Digico, utilizada pelo U2 na tour que fizeram pela America do Sul. E as caixas do sistema eram francesas. Ent\u00e3o consegui mixar os shows de 23, 24 bandas com a qualidade de equipamentos de qualquer festival europeu. Claro que minha experi\u00eancia \u00e9 bem menor em rela\u00e7\u00e3o ao que esses profissionais j\u00e1 acumulam h\u00e1 d\u00e9cadas, mas felizmente ningu\u00e9m ficou prejudicado pelo som nos seus 30 minutos de show. S\u00f3 continuo achando que em geral os produtores de eventos subestimam a capacidade de percep\u00e7\u00e3o das pessoas no pa\u00eds. Principalmente em casas noturnas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a gente entrar num lugar, pagando um valor consider\u00e1vel de ingresso, e o som da banda, que se esmera tanto para conseguir se fazer presente naquele lugar, seja deplor\u00e1vel. \u00c0s vezes bandas fazem tours pelo pa\u00eds, de 20, 30 shows no mercado independente, e o dono da casa tem um sistema que n\u00e3o comporta defini\u00e7\u00e3o sonora nem pra banda se ouvir e nem pra plat\u00e9ia compreender o que \u00e9 tocado. Acho isso uma mentalidade ultrapassada e que est\u00e1 come\u00e7ando a desmoronar, pois j\u00e1 temos percebido que pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico, que reduziu o tamanho dos sistemas e aumentou suas potencias, e pela informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da internet, muitos lugares j\u00e1 est\u00e3o mais conscientes nesses quesitos. Al\u00e9m, de claro, ter cuidados com a ac\u00fastica dos ambientes e de cuidar dos funcion\u00e1rios, com protetores auriculares. Mas creio que somente uma renova\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de produtores de eventos vai fazer com que essa atitude relaxada mude em rela\u00e7\u00e3o aos artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea agora, na fun\u00e7\u00e3o de professor, est\u00e1 bastante envolvido com essa renova\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muitas faculdades de produ\u00e7\u00e3o musical no Brasil? Se algu\u00e9m quiser entrar na \u00e1rea, descobrir o mundo da produ\u00e7\u00e3o musical, o que voc\u00ea recomendaria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho sentido que, pra mim, isso se tornou uma certa miss\u00e3o: transferir esse conhecimento que adquiri sem muita clareza, pois achava que eram necessidades mesmo. Fui perceber o alcance do que descobri h\u00e1 pouco tempo, quando entendi sobre o que eu podia dar aula. Honestamente, acho que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio algu\u00e9m fazer uma faculdade para se tornar h\u00e1bil nessas \u00e1reas. A quase totalidade das pessoas que trabalham por aqui n\u00e3o fizeram nenhum curso. Os que tinham cursos os fizeram fora do pa\u00eds (mas isso \u00e9 raro, e por vezes muito bom). E creio que o universo t\u00e9cnico traz impeditivos pra quem cria. Mas tenho percebido uma coisa, principalmente, que \u00e9 aquela quest\u00e3o do meio, da conviv\u00eancia, da troca de informa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia. Pra mim, cursando comunica\u00e7\u00e3o foi que abriu o universo do trabalho com m\u00fasica, a rela\u00e7\u00e3o com o meio que produzia m\u00fasica e clareou muitos aspectos relevantes em rela\u00e7\u00e3o ao senso cr\u00edtico e sobre os conceitos de onde a m\u00fasica vem. Ent\u00e3o creio que, se algu\u00e9m entra na faculdade para se tornar produtor, contando somente com o curso, existe um problema grande, talvez uma falta de no\u00e7\u00e3o sobre o caminho. Mas estar numa faculdade em que todo mundo troca informa\u00e7\u00f5es diariamente, que tem professores h\u00e1beis e com experi\u00eancia de mercado, \u00e9 extremamente v\u00e1lido. No nosso curso, percebo que se formar\u00e3o especialistas em v\u00e1rias \u00e1reas, com conhecimento em muitas, mas atualmente principalmente em alguma delas. Na primeira turma, que se forma agora, temos produtores executivos, jornalistas da \u00e1rea, produtores musicais renomados, m\u00fasicos, t\u00e9cnicos para sonoriza\u00e7\u00e3o, gente de banda (\u00e9 claro!!!), gente que trabalha com cinema, anima\u00e7\u00e3o, tem muitos focos diferentes. Ou seja, parece que a consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao que se pode fazer na \u00e1rea \u00e9 um dos pontos mais relevantes pro curso, que parece ter uma nomenclatura bem menos abrangente que isso tudo. Mas cursos t\u00e9cnicos, tenho muito medo! O que ou\u00e7o falar \u00e9 que \u00e9 ensinado: \u00e9 assim que se faz!!! Normalmente eu digo: olha, fiz assim, outros fazem assado, mas tem mil maneiras, n\u00e3o tem f\u00f3rmula, n\u00e3o tem regra a n\u00e3o ser detalhes de c\u00e1lculos sobre freq\u00fc\u00eancia, que \u00e9 matem\u00e1tica mesmo. O que vem, al\u00e9m disso, s\u00e3o meros instrumentos para se obter resultados sonoros e estil\u00edsticos, \u00e9 como penso. As decis\u00f5es cabem \u00e0 capacidade de percep\u00e7\u00e3o de cada um, e os caminhos que se queiram trilhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea essa volta (timida ainda) do vinil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois acho que ser\u00e1 nosso objeto de consumo, pra quem ama m\u00fasica. \u00c9 o duradouro, com espa\u00e7o, com romantismo pelo objeto, pelo som, pela hist\u00f3ria. Pra quem n\u00e3o viveu isso, talvez n\u00e3o fa\u00e7a a m\u00ednima diferen\u00e7a, mas pra quem consumiu m\u00fasica no per\u00edodo pr\u00e9 internet, acho que ainda move cora\u00e7\u00f5es. E a parte relacionada com a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito bacana, tem muito mais charme que espa\u00e7os virtuais e capas de CD, muitas vezes menores que os p\u00f4steres que se tornavam os encartes dos vinis nos 80, al\u00e9m da qualidade atualmente ainda ser superior ao que existia na sua era. Fico achando um grande ponto de re-evolu\u00e7\u00e3o pra quem gosta de m\u00fasica, voltar a origem do produto e renov\u00e1-lo pra nossa era. Mas pro mercado ainda vai demorar a entender, ainda mais no pa\u00eds dos carrinhos de som que andam pelas praias e periferias do pa\u00eds vendendo CDs e DVDs rec\u00e9m lan\u00e7ados por 4 reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitos discos cl\u00e1ssicos est\u00e3o sendo remasterizados. A discografia dos Beatles e, agora, o &#8220;Exile&#8221;, dos Stones s\u00e3o dois exemplos recentes. Voc\u00ea chega a ser purista ao ponto de achar que n\u00e3o \u00e9 preciso mexer naquele trabalho j\u00e1 feito? Ou aprova o Mick Jagger remixar mais uma vez o &#8220;Exile&#8221;? Me parece que estamos diante de um novo disco&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que acho n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o do voltar atr\u00e1s, e sim porque n\u00e3o temos mais o que lan\u00e7ar, em larga escala. Bandas com essa envergadura est\u00e3o praticamente extintas, e poucos artistas v\u00e3o falar pra tantas gera\u00e7\u00f5es como os seminais da era pop. Continuo achando que \u00e9 mera extens\u00e3o do que existiu, pra gerar mais lucros, enquanto a velha ind\u00fastria sucumbe com as \u00faltimas gotas de soro que tem no tubo, antes que ele esvazie. E mexer, depois de tanto tempo, em grandes obras, talvez seja mexer com mortos, n\u00e3o sei se isso \u00e9 bom ou ruim, honestamente, mas procuro n\u00e3o me envolver tanto. N\u00e3o creio que se Picasso ou Dali estivessem vivos iriam querer retocar algum quadro porque n\u00e3o acharam a cor ideal no momento. Talvez quando resolvessem escanear at\u00e9 o fariam, mas \u00e9 uma d\u00favida que n\u00e3o teremos respostas. Ainda prefiro pegar o vinil do \u201cThe Dark Side Of The Moon\u201d e ouvir a voz final do LP que sumiu na vers\u00e3o remasters em CD, que por sinal, est\u00e1 emprestada pro Mini faz quase 10 anos e ainda n\u00e3o peguei de volta!!!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5572 aligncenter\" title=\"iuri2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"742\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/iuri2-244x300.jpg 244w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201c2?, Tom Bloch, um disco sensacional, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/02\/27\/o-segundo-album-da-tom-bloch\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista com a Walverdes em S\u00e3o Paulo, 2005, por Marcelo Costa (<a href=\" http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/walverdes_playback.htm\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista com Wado em S\u00e3o Paulo, 2009 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/03\/entrevista-wado\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221;, do Violins: antipopular, bem gravado e genial (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/violins_infieis.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Procura-se t\u00e9cnico de som&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2010\/06\/28\/coluna-de-segunda-procura-se-tecnico-de-som\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nNa pauta, produ\u00e7\u00e3o musical no Brasil, o som dos shows no Pa\u00eds, Tom Bloch e palpites sobre o futuro da m\u00fasica e a volta do vinil.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/11\/entrevista-iuri-freiberger\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5567"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5567"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5567\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6241,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5567\/revisions\/6241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}