{"id":5556,"date":"2010-08-12T18:33:29","date_gmt":"2010-08-12T21:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5556"},"modified":"2023-03-29T00:39:30","modified_gmt":"2023-03-29T03:39:30","slug":"a-realidade-do-artista-mark-rothko","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/12\/a-realidade-do-artista-mark-rothko\/","title":{"rendered":"A Realidade do Artista, Mark Rothko"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5594\" title=\"mark_rothko\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/mark_rothko.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Jonas Lopes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foram poucos os artistas que resolveram se arriscar na escrita para explicar sua produ\u00e7\u00e3o ou teorizar sobre arte de um modo geral, de Leonardo da Vinci e Michelangelo a Wassily Kandinsky, Paul Klee e Henri Matisse, passando por aqueles que registraram ideias em di\u00e1rios (caso de Delacroix) e na correspond\u00eancia pessoal (C\u00e9zanne, Van Gogh). Um dos que atingiram o resultado mais pertinente foi Mark Rothko, famoso pelas telas abstratas de forte apelo espiritual, com poucas formas e impactantes pelo uso de sutis varia\u00e7\u00f5es crom\u00e1ticas. Rothko \u00e9 o autor do precioso ensaio &#8220;A realidade do artista&#8221;, ainda in\u00e9dito no Brasil (acordem, editoras), por\u00e9m lan\u00e7ado em Portugal pela Cotovia. O livro, na verdade, n\u00e3o chegou a ser completado. Ele foi escrito no in\u00edcio de carreira de Rothko, acredita-se que entre 1940 e 1941, e apenas depois de seu suic\u00eddio, em 1970, acabou descoberto pela fam\u00edlia. Organizados pelo filho do pintor, Christopher Rothko, o manuscrito foi enfim publicado em 2004. V\u00e1rios temas ligados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e aquilo que a envolve \u2013 suas fun\u00e7\u00f5es, a defini\u00e7\u00e3o de belo, a rela\u00e7\u00e3o entre \u201cconte\u00fado e assunto\u201d etc. \u2013 ganham uma leitura filos\u00f3fica nos escritos (Rothko era um devotado leitor de Kierkegaard e Nietzsche).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o o contexto em que &#8220;A realidade do artista&#8221; foi elaborado. Na virada da d\u00e9cada de 30 para a de 40, o russo criado nos Estados Unidos, j\u00e1 com quase quarenta anos, deprimido e empregado no WPA (Works Progress Administration, programa de est\u00edmulo trabalhista do governo Roosevelt), n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o havia alcan\u00e7ado \u00eaxito com suas pinturas da \u00e9poca \u2013 obras sem personalidade, uma combina\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica de surrealismo, p\u00f3s-impressionismo c\u00e9zanneano, expressionismo tardio e psican\u00e1lise \u2013 como ainda buscava uma identidade pessoal coerente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es est\u00e9ticas e metaf\u00edsicas que mantinha ent\u00e3o. Tais infort\u00fanios se refletem no tom amargurado de certas passagens do texto, especialmente nos primeiros cap\u00edtulos. Rothko lamenta que os artistas sejam vistos pelo p\u00fablico como figuras ing\u00eanuas e romantizadas, criativas no sofrimento, escravas dos caprichos e do \u201ccar\u00e1ter irracional da inspira\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente, o rancor n\u00e3o chega a contaminar a prosa do pintor, e a maioria de suas reflex\u00f5es acerca da rela\u00e7\u00e3o entre o artista e o p\u00fablico \u00e9 apreci\u00e1vel. O erro fatal do artista no ato de cria\u00e7\u00e3o, a seu ver, \u00e9 preocupar-se com o gosto do p\u00fablico e os anseios das institui\u00e7\u00f5es, como governo e religi\u00e3o. N\u00e3o apenas os artistas med\u00edocres. De acordo com Rothko, \u201cquase todas as sociedades do passado insistiram que suas particulares concep\u00e7\u00f5es de verdade e moral fossem representadas pelos artistas\u201d, inclusive, ele cita, alguns nus de Michelangelo, cobertos por \u201ccuecas e panos convenientes\u201d. A diferen\u00e7a \u00e9 que h\u00e1 alguns s\u00e9culos o artista n\u00e3o tinha muitas sa\u00eddas; era seguir as &#8220;concep\u00e7\u00f5es de verdade e moral&#8221; ou correr o risco de ser impedido de realizar seu trabalho, quando n\u00e3o acabar executado ou exilado, enquanto hoje pode virar as costas para o mercado e &#8220;morrer de fome&#8221; (ou ser ignorado). Pelo menos hoje h\u00e1 uma escolha poss\u00edvel, ainda que n\u00e3o t\u00e3o vantajosa&#8230; Quando outorga verdades incontest\u00e1veis sobre a arte, certa parcela do p\u00fablico (ou cr\u00edticos, marchands, colecionadores, o termo aqui abarca diversas categorias) apenas manifesta os preconceitos de seu tempo. Ao tachar uma produ\u00e7\u00e3o de, digamos, decadente, os censores exprimem menos um processo pl\u00e1stico do que uma conota\u00e7\u00e3o moral. Convenhamos, como observa Rothko, \u201cainda que jamais se conteste a autoridade do m\u00e9dico (&#8230;) toda a gente se cr\u00ea bom juiz e \u00e1rbitro capaz de julgar o que uma obra de arte deve ser e como deve ser feita\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o conflituosa entre o artista e sua \u00e9poca permeia tamb\u00e9m outra ideia de Mark Rothko, a de que noutros tempos, os mais antigos, havia uma uniformidade reconhec\u00edvel de estilo entre artistas de seu tempo, j\u00e1 que o conte\u00fado de uma obra \u00e9 escolhido de acordo com uma experi\u00eancia geral, socializada. \u201cQuando consideramos a arte dos eg\u00edpcios, dos gregos, dos ass\u00edrios e dos hindus\u201d, anota, \u201c\u00e9 dif\u00edcil encontrar caracter\u00edsticas distintivas entre duas obras oriundas de qualquer uma destas tradi\u00e7\u00f5es, mesmo sabendo que foram executadas por artistas diferentes\u201d. A mudan\u00e7a come\u00e7a a se dar com os gregos hel\u00eanicos, que j\u00e1 se permitiam uma individualidade in\u00e9dita na Antiguidade, e \u00e9 estabelecida de vez no Renascimento. Se os antigos tinham os deuses como mitos, a partir dos renascentistas, fascinados pelo questionamento do ser, o mito passa, lentamente, a tornar-se o homem, \u201co ve\u00edculo mais adequado para mostrar a unidade entre o subjetivo e o objetivo\u201d (que o digam, muito mais tarde, holandeses como Vermeer, para quem o homem, em sua poesia do mundano, surge como a figura plenamente divinizada). Em outras palavras, o homem \u00e9, naquele momento, um s\u00edmbolo ideal de representa\u00e7\u00e3o. O Renascimento, contudo, \u00e9, para Rothko, \u201ca morte da f\u00e9, a morte da unidade e a morte do mito\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Livre de uma unidade filos\u00f3fica incontorn\u00e1vel, o artista moderno (e tamb\u00e9m o contempor\u00e2neo) \u2013 e aqui falo tanto dos artistas visuais como dos escritores, compositores, cineastas, dramaturgos e tantos outros \u2013 precisa lidar com a influ\u00eancia da religi\u00e3o, da ci\u00eancia, da pol\u00edtica, da sociologia, da psicologia, para n\u00e3o dizer da fragmenta\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e do ego. As possibilidades de representa\u00e7\u00e3o se multiplicam e renovam, torna-se poss\u00edvel o surgimento de um Joyce, um Schoenberg, um Beckett. E, no caso das artes visuais, da abstra\u00e7\u00e3o, o caminho dos artistas modernos para investigar sensa\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e o subjetivismo t\u00e3o em voga no s\u00e9culo XX. Os criadores perpetuam, ao mergulhar na an\u00e1lise da sua concep\u00e7\u00e3o de real, a substitui\u00e7\u00e3o do naturalismo que mimetiza a realidade pela express\u00e3o de sentimentos intang\u00edveis, um mito que n\u00e3o pode ser explicado atrav\u00e9s de conceitos objetivos e definitivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grandeza de &#8220;A realidade do artista&#8221; est\u00e1 no modo como o ainda tateante Rothko conseguiu, ao entregar-se ao estudo de conceitos gerais sobre filosofia da arte, encontrar o t\u00e3o sonhado rumo que vinha tentando implantar \u00e0 pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Na segunda metade dos anos 40, o pintor descobre enfim o estilo que explicita as ideias proclamadas neste pequeno livro: umas poucas \u00e1reas horizontais completando uma tela vertical, com cores que se contrastam ou, em muitos casos, que se combinam &#8211; tamanha consci\u00eancia sobre o pr\u00f3prio dom\u00ednio t\u00e9cnico e processo criativo s\u00f3 pode ser encontrada em pouqu\u00edssimos casos, como os dos magn\u00edficos e tardios pref\u00e1cios de Henry James e Joseph Conrad. Nas duas d\u00e9cadas seguintes, Rothko ignorou a onda avassaladora do expressionismo abstrato e virulento de Pollock e dedicou-se a reproduzir esse (brilhante) estilo de falsa simplicidade, alternando somente cores e tons. Muitos o chamaram de limitado. Como Morandi, em suas garrafas, Albers, em seus quadrados, ou at\u00e9 nosso Volpi, nas bandeirinhas, a concep\u00e7\u00e3o de real para Rothko era a representa\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, a exig\u00eancia de que o espectador estimule a concentra\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o, e experimente, medite e vivencie essas pinturas impregnadas de espiritualidade, deixe-se envolver pela puls\u00e3o das cores (algo que Rothko sempre sentia ao admirar os vermelhos veementes de O est\u00fadio vermelho, de Matisse, no MoMA). Ele defendia que as telas fossem vistas em conjunto, para enfatizar o contraste acentuado entre os vermelhos carregados de luminosidade, s\u00edmbolos de vida, e as obras tomadas pelo negrume da morte, sobretudo em suas Pinturas negras, marcadas pela depress\u00e3o que o levaria \u00e0 morte (algumas delas est\u00e3o atualmente exibidas na National Gallery de Washington).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ironia: o artista que pregava o div\u00f3rcio entre o esp\u00edrito criador e o gosto do p\u00fablico, que atordoou espectadores ao radicalizar sua abstra\u00e7\u00e3o, hoje rende milh\u00f5es em leil\u00f5es, atrai filas para museus e galerias e, acima de tudo, influencia, com sua sensorial e aguda concep\u00e7\u00e3o de real, at\u00e9 alguns talentosos pintores brasileiros, como Paulo Pasta, Marco Giannotti e Eduardo Sued.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<br \/>\nJonas Lopes \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/gymnopedies.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gymnopedies<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5595 aligncenter\" title=\"rothk_self\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/rothk_self.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"756\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/rothk_self.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/rothk_self-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8220;Self-Portrait&#8221;, 1936, Mark Rothko<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Jonas Lopes\nN\u00e3o foram poucos os artistas que resolveram se arriscar na escrita para explicar sua produ\u00e7\u00e3o ou teorizar&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/12\/a-realidade-do-artista-mark-rothko\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":122,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/122"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5556"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73607,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5556\/revisions\/73607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}