{"id":55408,"date":"2003-09-01T23:17:08","date_gmt":"2003-09-02T02:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=55408"},"modified":"2020-04-14T23:20:11","modified_gmt":"2020-04-15T02:20:11","slug":"cinema-o-homem-do-ano-adaptacao-de-o-matador-de-patricia-melo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2003\/09\/01\/cinema-o-homem-do-ano-adaptacao-de-o-matador-de-patricia-melo\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;O Homem do Ano&#8221;, adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;O Matador&#8221;, de Patr\u00edcia Melo"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-55409 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/homemdoano2.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/homemdoano2.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/homemdoano2-214x300.jpg 214w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Conhe\u00e7a M\u00e1iquel. Conhe\u00e7a a filosofia de vida de M\u00e1iquel. Observe M\u00e1iquel transformar-se em her\u00f3i. Perceba como uma dor de dentes pode mudar uma vida. Acompanhe a trajet\u00f3ria de M\u00e1iquel, seus amores, seus sofrimentos, suas indecis\u00f5es, suas boas inten\u00e7\u00f5es e as atitudes violentas que acaba de tomar. Impressione-se com a brilhante carreira de M\u00e1iquel, seus amigos, sua ascens\u00e3o, seu poder. Sobretudo, trate de entender M\u00e1iquel (se conseguir): ele pode estar ao seu lado neste momento&#8221;.<\/em> Patr\u00edcia Melo, &#8220;O Matador&#8221;, 1995<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada melhor do que usar a chamada da contracapa do livro para apresentar &#8220;O Homem do Ano&#8221;, adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Jos\u00e9 Henrique Fonseca para o texto violento de Patr\u00edcia Melo chamado &#8220;O Matador&#8221;. Primeiro, porque tudo que est\u00e1 neste par\u00e1grafo explica (e muito) o que est\u00e1 por vir. Segundo, porque \u00e9 a pr\u00f3pria autora falando. Terceiro, porque dor de dentes \u00e9 muito foda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como livro, &#8220;O Matador&#8221; \u00e9 urgente. \u00c9 daqueles que voc\u00ea pega a noite antes de dormir e s\u00f3 desiste com o sol raiando. Para contar toda epopeia de seu personagem principal, Patr\u00edcia usa de influ\u00eancias pop e de cita\u00e7\u00f5es (diretas e indiretas) de seu mestre particular, Rubem Fonseca. Personagens do livro deste participam da hist\u00f3ria de Patr\u00edcia. Nada mais oportuno, ent\u00e3o, que o pr\u00f3prio Rubem Fonseca (pai do diretor, alias) assuma o roteiro do filme. A cobra d\u00e1 uma volta e morde o pr\u00f3prio rabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se como livro &#8220;O Matador&#8221; honra o estilo, como filme, &#8220;O Homem do Ano&#8221; surge como uma das grandes produ\u00e7\u00f5es nacionais de 2003. A facilidade de transpor o texto das p\u00e1ginas para tela conta a favor, muito pelo fato de Patr\u00edcia ter trabalhado com TV e cinema antes de se aventurar nas letras. O texto contado em primeira pessoa tamb\u00e9m \u00e9 uma vantagem, principalmente se um grande ator agarrar o papel. Bingo: Murilo Ben\u00edcio est\u00e1 excelente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do discurso inicial em off voc\u00ea ter\u00e1, ao menos, noventa minutos de brilhantismo. Ir\u00e1 perceber em poucos minutos como um Z\u00e9 Ningu\u00e9m pode se transformar em \u00eddolo da comunidade, um cara respeitado at\u00e9 por policiais, o homem do ano. A rapidez das passagens coloca &#8220;O Homem do Ano&#8221; lado a lado com &#8220;Cidade de Deus&#8221;, como filmes coirm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, porque &#8220;Cidade de Deus&#8221; traz aos olhos do p\u00fablico o que todo mundo sabe, mas pouca gente v\u00ea. Seus personagens s\u00e3o gente real (at\u00e9 demais) que poucos de n\u00f3s tem acesso. J\u00e1 o M\u00e1iquel pode ser qualquer um. Olhe ao lado, ele pode estar te olhando. Sim. M\u00e1iquel \u00e9 o que se pode chamar de \u2018loser\u2019, perdedor, aquele cara que n\u00e3o sabe nem porque est\u00e1 vivo. A trajet\u00f3ria de M\u00e1iquel, por\u00e9m, mostra o qu\u00e3o as coisas s\u00e3o desordenadas nesse pa\u00eds tropical chamado Brasil. Sacode, levanta a poeira e d\u00e1 a volta por cima, lembra a m\u00fasica. Como fazer isso \u00e9 a grande quest\u00e3o e M\u00e1iquel teve a resposta atirada em seu colo como uma bala de 9mm.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o de acompanhar a trajet\u00f3ria do personagem \u00e9 a mesma de assistir a &#8220;Cidade de Deus&#8221;. Voc\u00ea acha engra\u00e7ado algumas cenas, mas, conforme o tempo passa, aquilo assusta e apavora. O riso nervoso reina. N\u00e3o \u00e0 toa, o filme poderia se chamar &#8220;Tempo de Viol\u00eancia&#8221;, se os produtores nacionais j\u00e1 n\u00e3o tivessem dado a obra m\u00e1xima de Quentin Tarantino, &#8220;Pulp Fiction&#8221;, este nome. Ali\u00e1s, &#8220;Tempo de Viol\u00eancia&#8221; \u00e9 elogiado em &#8220;O Homem do Ano&#8221;. Numa passagem x, voc\u00ea perceber\u00e1 a rever\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito da virtude cinematogr\u00e1fica da obra vem do fato da escritora Patr\u00edcia Melo ter se aprofundado nos personagens a ponto de entrevistar assassinos e traficantes antes de escrever o livro. A verossimilhan\u00e7a \u00e9 inatac\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, nem tudo \u00e9 perfeito (ao contr\u00e1rio de &#8220;Cidade de Deus&#8221;, excelente em sua totalidade). Do momento em que se v\u00ea no espelho, de cabelos loiros, pintados para pagar uma aposta com o primo, at\u00e9 a hora em que recebe um pr\u00eamio por seus feitos, &#8220;O Homem do Ano&#8221; \u00e9 sensacional. Repleto de ironias, o filme transborda passagens bacanas. Mas da\u00ed em diante, a tens\u00e3o parece diminuir e o filme se perde por uns minutos, no exato momento em que o personagem come\u00e7a a enfrentar seus maiores dramas. Chega a parecer que na \u00e2nsia por encurtar o filme (que tem, no cinema, 111 minutos), a dire\u00e7\u00e3o tenha podado cenas vitais para a sequ\u00eancia final da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse defeito n\u00e3o diminui a genialidade dos primeiros noventa minutos, mas impede de classificar o filme como perfeito, afinal, o gostinho de &#8220;ficou faltando alguma coisa&#8221; \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, &#8220;O Homem do Ano&#8221; vale por muita coisa. Ao menos para voc\u00ea perceber o quanto um porquinho pode ser legal, que Coca-Cola sem gelo \u00e9 cool e que um detalhe, um acaso ou uma aposta podem mudar uma vida. Ao menos para que voc\u00ea conhe\u00e7a Patr\u00edcia Melo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. Mais um pouco de &#8220;Cidade de Deus&#8221;: num certo trecho, o narrador fot\u00f3grafo Buscap\u00e9 diz, sobre a imagem da &#8216;linha de montagem&#8217; do tr\u00e1fico, que se o mesmo fosse legalizado, Z\u00e9 Pequeno seria o homem do ano. N\u00e3o precisava tanto&#8230; \ud83d\ude42<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O homem do ano - Trailer oficial\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jl7DJGTsNWY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Muito da virtude cinematogr\u00e1fica da obra vem do fato da escritora Patr\u00edcia Melo ter se aprofundado nos personagens a ponto de entrevistar assassinos e traficantes antes de escrever o livro. 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