{"id":55083,"date":"2020-03-19T13:17:03","date_gmt":"2020-03-19T16:17:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=55083"},"modified":"2020-12-22T22:01:29","modified_gmt":"2020-12-23T01:01:29","slug":"entrevista-andreas-kisser-sepultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/19\/entrevista-andreas-kisser-sepultura\/","title":{"rendered":"Entrevista: Andreas Kisser (Sepultura)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/paulo.pontes.376\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paulo Pontes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ineg\u00e1vel: o Sepultura \u00e9 a maior banda de heavy metal do Brasil. E mais, \u00e9 muito f\u00e1cil coloc\u00e1-la entre as maiores do mundo, por tudo aquilo que representou e ainda representa para a m\u00fasica pesada. D\u00favida? Ent\u00e3o ou\u00e7a \u201cQuadra\u201d, 15\u00ba trabalho de in\u00e9ditas da banda, lan\u00e7ado dia 7 de fevereiro de 2020 pela BMG, e surpreenda-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repleto de elementos novos na sonoridade do grupo, mas tamb\u00e9m com as nuances presentes em seus primeiros trabalhos, \u201cQuadra\u201d traz um Sepultura mais solto, coeso e entrosado. Todos os integrantes mostram uma evolu\u00e7\u00e3o incr\u00edvel para uma banda com mais de 35 anos de carreira: \u201cEstou tocando melhor do que nunca, eu me sinto melhor do que nunca como m\u00fasico, como profissional\u201d, declara o guitarrista Andreas Kisser, que nos atendeu por telefone para falar sobre o interessant\u00edssimo conceito por tr\u00e1s de \u201cQuadra\u201d e tamb\u00e9m sobre coronav\u00edrus, pol\u00edtica e a cultura no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andreas faz quest\u00e3o de salientar a import\u00e2ncia de um conceito, uma mensagem para guiar o trabalho de um artista: \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o tem uma mensagem, voc\u00ea n\u00e3o tem arte\u201d. E \u00e9 isso que ele faz com sua banda, transmite uma mensagem clara, objetiva e que gera o questionamento: \u201cPor que o ser humano \u00e9 do jeito que \u00e9, acredita em tudo o que acredita e defende ideias que, muitas vezes, n\u00e3o sabe nem de onde v\u00eam? Devemos jogar sempre com as regras que j\u00e1 nos s\u00e3o pr\u00e9 determinadas?\u201d. Fala, Andreas!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SEPULTURA - Isolation (OFFICIAL MUSIC VIDEO)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x2nZ3n8_e3k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A receptividade do \u201cQuadra\u201d foi extremamente positiva, tanto pela m\u00eddia quanto pelo p\u00fablico, poucos dias ap\u00f3s o lan\u00e7amento do disco. Praticamente de forma instant\u00e2nea. Voc\u00ea se lembra de outro lan\u00e7amento do Sepultura que obteve repercuss\u00e3o e resposta positiva assim t\u00e3o rapidamente? A que voc\u00ea atribui isso?<\/strong><br \/>\nCara, n\u00e3o lembro, velho! \u00c9 o que eu estava comentando aqui com todo mundo, que, realmente, nem com \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/top20nacional.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chaos A.D<\/a>\u201d (1993) ou \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/top20nacional.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Roots<\/a>\u201d (1996) foi uma coisa t\u00e3o forte, sabe? Talvez o \u201cChaos A.D\u201d, porque foi um disco lan\u00e7ado pela Epic, Sony Music nos Estados Unidos, ent\u00e3o foi um disco que conseguiu chegar em um p\u00fablico que at\u00e9 ent\u00e3o a gente n\u00e3o tinha contato com o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/02\/entrevista-max-cavalera-fala-sobre-o-album-arise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arise<\/a>\u201d (1991). Mas acho que foi a mesma coisa, porque, se voc\u00ea fizer um paralelo, o \u201cArise\u201d colocou o Sepultura no mapa e o \u201cChaos A.D\u201d veio e colocou o Sepultura no mapa realmente, como uma banda \u00fanica, diferente. E eu acho que o \u201cMachine Messiah\u201d (2017) foi o que fez o \u201cQuadra\u201d (2020) acontecer, pois ele foi muito bem recebido. Fizemos quase tr\u00eas anos de turn\u00ea, tocamos em grandes shows, desenvolvemos as ideias, colocamos viol\u00e3o no palco, enfim. O \u201cMachine Messiah\u201d realmente abriu portas novas para o Sepultura. Ent\u00e3o, musicalmente, muito veio do \u201cMachine\u201d, essa coisa de usar o thrash, essa coisa de disco em quatro partes, de usar elementos da hist\u00f3ria do Sepultura de uma maneira mais atual, mais moderna. L\u00f3gico que o conceito do \u201cQuadra\u201d, do n\u00famero quatro, essa vis\u00e3o, veio um pouco depois e ajudou a gente a formatar o disco do jeito que est\u00e1. Mas, realmente, o \u201cMachine Messiah\u201d foi o que possibilitou isso. Tanto \u00e9 que repetimos produtor, o Jens Bogren (Opeth, Dimmu Borgir, Arch Enemy, entre outros), fomos pra Su\u00e9cia, o mesmo est\u00fadio, o mesmo processo, porque sab\u00edamos que quer\u00edamos desenvolver mais do que fizemos no \u201cMachine Messiah\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea acha que d\u00e1 pra atribuir muito dessa receptividade \u00e0 internet, \u00e0 facilidade que as pessoas t\u00eam de acessar o disco?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, acho que n\u00e3o. Porque hoje tem internet, mas tem um milh\u00e3o de discos saindo por dia. Todo dia tem seis, oito, dez lan\u00e7amentos s\u00f3 no metal. Ent\u00e3o, realmente fica muito mais confuso. \u00c9 o disco mesmo, \u00e9 o boca a boca. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de voc\u00ea colocar em um site, ou fazer um v\u00eddeo, \u00e9 o cara: \u201coh, mano, voc\u00ea j\u00e1 escutou o disco novo do Sepultura?\u201d. Acabou, j\u00e1 foi feito, entendeu? \u00c9 um amigo que falou pra voc\u00ea, seu vizinho, seu irm\u00e3o, seu tio, sei l\u00e1. O cara fala: \u201cPuta, mano! Voc\u00ea ouviu o Sepultura novo? Caralho!\u201d. A\u00ed voc\u00ea vai l\u00e1 e ouve. Ent\u00e3o, acho que \u00e9 realmente o disco em si e a situa\u00e7\u00e3o, o momento, que fez a galera realmente fazer a pr\u00f3pria propaganda do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou das quatro partes; fale um pouco sobre o conceito e essa divis\u00e3o do disco.<\/strong><br \/>\nComecei a pesquisar um objetivo, um conceito pro disco, um ano, um ano e pouco antes de irmos para o est\u00fadio, que foi agosto do ano passado. Queria ter mais tempo. O \u201cMachine Messiah\u201d foi feito muito rapidamente, em pouco tempo, quatro, cinco meses a gente fez tudo. Ent\u00e3o, eu queria ter esse espa\u00e7o de escutar com mais calma, ter a certeza de que n\u00e3o ia ficar faltando nada. Comecei a fazer uma pesquisa e iniciei por n\u00fameros, numerologia, um assunto fascinante, principalmente por conta dos algoritmos, essa coisa da computa\u00e7\u00e3o, do que voc\u00ea v\u00ea na internet, do tipo de propaganda, o que voc\u00ea compra, escolhe, enfim. Comecei a\u00ed. E, fazendo essa pesquisa, eu achei esse livro chamado \u201cQuadrivium\u201d (no original: \u201cQuadrivium: The Four Classical Liberal Arts of Number, Geometry, Music, &amp; Cosmology\u201d), que fala das quatro artes liberais, que \u00e9 a m\u00fasica, cosmologia, geometria e matem\u00e1tica. Um livro fant\u00e1stico que trata desses aspectos e que todos eles t\u00eam uma coisa em comum, essa coisa do tempo, dos n\u00fameros, do espa\u00e7o, e da\u00ed veio o conceito da quadra, esse espa\u00e7o f\u00edsico delimitado por linhas, onde voc\u00ea tem um conjunto de regras em que acontece o jogo. E a vida, n\u00e9, o Brasil \u00e9 uma quadra. A gente tem regras onde a gente joga o jogo da vida, de acordo com essas regras. Cresci no Brasil, de fam\u00edlias europeias, tem um conjunto de regras que me foi dado atrav\u00e9s da escola, da religi\u00e3o, da cultura, do cinema, de livros. Se eu tivesse nascido na \u00c1frica do Sul teria outro conjunto de regras e estaria vendo o mundo de uma forma diferente. E ningu\u00e9m est\u00e1 errado. O ponto \u00e9 esse. Cada um \u00e9 v\u00edtima daquilo a que foi exposto, atrav\u00e9s da cultura, da informa\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a quadra vem com essa pergunta: \u201cPor que que voc\u00ea acredita em tudo o que voc\u00ea acredita? Por que voc\u00ea acha que isso \u00e9 a verdade absoluta, s\u00f3 porque voc\u00ea aprendeu numa certa escola ou leu num certo livro?\u201d. \u00c9 um ponto de vista, \u00e9 um ponto da realidade, mas n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta. Ideologias, comunismo, capitalismo, religi\u00e3o, enfim, tudo conceito criado pela cabe\u00e7a humana. E \u00e9 um acordo entre as pessoas. O dinheiro, por exemplo, \u00e9 um acordo. \u00c9 preciso pelo menos duas pessoas para acreditarem, acordarem, que um peda\u00e7o de papel tem um determinado valor. O dinheiro nada mais \u00e9 que isso, as pessoas acreditam em um conceito. Tanto \u00e9 que est\u00e3o falando agora que n\u00e3o pode usar dinheiro em papel. Ent\u00e3o \u201cQuadra\u201d fala disso: \u201cPor que voc\u00ea acredita no que voc\u00ea acredita?\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma pergunta que voc\u00ea faz para o seu vizinho, para o seu pai, \u00e9 pra voc\u00ea mesmo: \u201cPor que que eu sou assim? Por que que eu acredito nisso? Por que que uma coisa me irrita? Por que eu odeio certas coisas?\u201d Voc\u00ea n\u00e3o sabe nem de onde vem isso. \u201cAh, odeio o comunismo!\u201d. O que que \u00e9 isso? \u201cAh, odeio o capitalismo! Odeio n\u00e3o sei o que!\u201d. Acho que 80, 90% da informa\u00e7\u00e3o, de conceitos que temos na nossa cabe\u00e7a foram implantados atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, de experi\u00eancia pr\u00f3pria, de botar o p\u00e9 na \u00e1gua e sentir a \u00e1gua, ou o sol atingir a sua pele e voc\u00ea falar: \u201c\u00e9 quente\u201d, voc\u00ea n\u00e3o tem um livro ou uma igreja pra falar: \u201c\u00d3, o sol \u00e9 quente\u201d, n\u00e3o precisa disso, porque \u00e9 uma experi\u00eancia pr\u00f3pria. Um toque da realidade. O disco \u201cQuadra\u201d fala sobre isso e sobre esse questionamento: \u201cPor que voc\u00ea \u00e9 desse jeito e por que voc\u00ea defende um monte de ideia que voc\u00ea n\u00e3o sabe nem de onde veio?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso do Sepultura, o conceito do disco vem sempre antes das m\u00fasicas, das partes instrumentais?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 no Sepultura como em qualquer arte. Se voc\u00ea n\u00e3o tem um conceito, n\u00e3o tem nada. Vai ter s\u00f3 um monte de riff. Por exemplo, um cara quando vai pintar um quadro, ele vai colocar o qu\u00ea? s\u00f3 um monte de cor ali? At\u00e9 pode ser, mas esse \u00e9 um conceito tamb\u00e9m. Vou ter o conceito de n\u00e3o ter conceito. Jogar um monte de cor no quadro e ver o que acontece. A partir da\u00ed eu vou criar um conceito, uma express\u00e3o, uma consequ\u00eancia. Mas tudo tem um conceito. se n\u00e3o fica um monte de riff aleat\u00f3rio, que n\u00e3o tem dire\u00e7\u00e3o. Por que que uma m\u00fasica \u00e9 r\u00e1pida, por que ela \u00e9 pesada, por que tem viol\u00e3o, por que o vocal \u00e9 mel\u00f3dico? Voc\u00ea sempre tem um conceito. Tira a palavra \u201camor\u201d dos Beatles e acabou a banda! Voc\u00ea tem um conceito por tr\u00e1s de alguma coisa, uma mensagem. Se voc\u00ea n\u00e3o tem uma mensagem, voc\u00ea n\u00e3o tem arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, a ideia de dividir o disco em quatro partes bem claras, como, por exemplo, tr\u00eas m\u00fasicas mais thrash, tr\u00eas mais tribais, digamos assim, tr\u00eas mais t\u00e9cnicas e as \u00faltimas tr\u00eas mais mel\u00f3dicas, tamb\u00e9m foi pensada anteriormente, n\u00e3o foi uma divis\u00e3o que aconteceu ap\u00f3s as grava\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nEssa coisa da divis\u00e3o j\u00e1 estava desde o come\u00e7o. Foi a primeira vez que a gente fez um disco j\u00e1 sabendo a ordem. A gente j\u00e1 trabalhava, \u201c\u00f3, essa aqui \u00e9 a m\u00fasica tr\u00eas do lado dois. Essa aqui \u00e9 a m\u00fasica dois do lado um\u201d. Desde o come\u00e7o a gente sabia qual a caracter\u00edstica de cada m\u00fasica. Isso ajudou muito a montar o disco dessa forma: mais thrash, depois mais percussivo, depois um pouco prog e no final, ali, a coisa mais mel\u00f3dica. O conceito, desde o in\u00edcio, j\u00e1 direcionou tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Sepultura tem um hist\u00f3rico excelente de bateristas e, assim como j\u00e1 vem acontecendo em toda a carreira da banda, sempre que um novo integrante entra percebemos mudan\u00e7as na sonoridade, uma evolu\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o apenas com os bateristas, foi assim quando voc\u00ea entrou, quando o Derrick (Green) entrou tamb\u00e9m. Com a entrada do Eloy (Casagrande), especificamente, voc\u00ea acredita que a banda como um todo buscou um maior n\u00edvel de evolu\u00e7\u00e3o e possibilidades sonoras? D\u00e1 pra perceber uma pegada mais progressiva ap\u00f3s a entrada do Eloy?<\/strong><br \/>\nAcho que essa pegada progressiva a gente sempre teve, mano. Se voc\u00ea escuta o \u201cSchizophrenia\u201d (1987), por exemplo, \u00e9 quase um \u00e1lbum progressivo. A \u201cDesperate Cry\u201d (do \u201cArise\u201d), por exemplo. Sempre gostei muito de Yes, de King Crimson, de Pink Floyd, de Genesis. Principalmente Yes. As peas de viol\u00e3o do \u201cSchizophrenia\u201d, a (faixa) &#8220;The Abyss&#8221;, a pr\u00f3pria instrumental &#8220;Inquisition Symphony&#8221;, tem muito de Yes ali. Pode n\u00e3o parecer \u00f3bvio, mas tem. Coisas ali que sempre escutei e escuto at\u00e9 hoje. E essa possibilidade que o Eloy trouxe, de tocar do jeito que ele toca, obviamente abriu outras possibilidades. Estou tocando melhor do que nunca, eu me sinto melhor do que nunca como m\u00fasico, como profissional. O Paulo (Xisto) est\u00e1 tocando melhor do que nunca, o Derrick est\u00e1 no seu melhor momento, cantando como nunca. Ent\u00e3o n\u00f3s crescemos juntos. E o Eloy cresceu com a gente tamb\u00e9m. Ele nunca tinha feito nada parecido em nenhum outro projeto ou banda que ele passou antes. Porque, voc\u00ea comentou de toda a entrada de membros diferentes, quem entrou nessa banda mudou a banda. \u00c9 uma caracter\u00edstica nova. Eu n\u00e3o entrei na banda pra copiar o Jairo (Guedes), o Derrick n\u00e3o entrou na banda pra copiar o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/02\/entrevista-max-cavalera-fala-sobre-o-album-arise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Max<\/a> e o Jean e o Eloy n\u00e3o entraram pra copiar um ao outro ou o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/08\/entrevista-iggor-cavalera-fala-do-horrible-noise-do-petbrick\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Iggor<\/a>. Eles respeitam muito, eu sempre respeitei muito e o Derrick respeita muito. A gente faz as coisas antigas e representa isso como Sepultura, mas a liberdade e viver o presente \u00e9 fundamental. N\u00e3o adianta a gente trabalhar uma m\u00fasica querendo fazer a voz do Max, porque (ele) n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. \u00c9 pat\u00e9tico isso. Ent\u00e3o, quem est\u00e1 aqui agora? Ah, \u00e9 o Derrick. Quais s\u00e3o suas caracter\u00edsticas? Ah, s\u00e3o essas. Ent\u00e3o esses s\u00e3o os elementos, esses s\u00e3o os ingredientes que vamos fazer um bolo diferente agora. E n\u00e3o vai ficar escravo de uma ideia, de um conceito, que n\u00e3o existe mais. A gente est\u00e1 aqui hoje por causa disso, porque a gente vive o presente, mano. \u00c9 o que \u00e9 hoje. A gente respeita o passado, mas estamos aqui hoje. N\u00e3o adianta querer fazer o \u201cArise\u201d, porque o \u201cArise\u201d j\u00e1 foi feito. Aquilo foi feito, tem um contexto, tem a nossa idade, tudo, a pol\u00edtica, est\u00e1 tudo diferente. \u00c9 meio pat\u00e9tico julgar: \u201cAh, por que n\u00e3o fazem mais aquilo?\u201d Porque aquilo n\u00e3o existe mais, 1991, 1992 j\u00e1 passou. Eu queria ter 15 anos de novo, de vez em quando, sacou? Ent\u00e3o \u00e9 hoje. Hoje o que que a gente tem? \u00c9 isso! \u201cVamo\u201d em frente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais foram as maiores dificuldades pra gravar o \u201cQuadra\u201d? Teve alguma m\u00fasica mais complicada no est\u00fadio?<\/strong><br \/>\nAs dificuldades de sempre, as normais, sabe? As que fazem parte do jogo, de realmente se preparar, compor, pensar em letra, de estar pronto pra gravar um disco t\u00e3o dif\u00edcil de tocar. E a gente estava muito preparado. Como eu disse, o \u201cMachine Messiah\u201d preparou muito bem a gente pra fazer um disco como o \u201cQuadra\u201d. O \u201cMachine Messiah\u201d j\u00e1 foi dif\u00edcil de fazer, de gravar e a gente cresceu na turn\u00ea, colocando ele no palco. A gente desenvolveu e cresceu como banda. E o \u201cQuadra\u201d foi consequ\u00eancia disso. A gente estava muito bem preparado pra isso e tudo foi positivo pra ter esse equil\u00edbrio do bem e do mal, vamos dizer assim. Realmente, balancear tudo e fazer o que for melhor para o projeto. E realmente, trabalhamos muito unidos com o Jens, como banda pra que esse disco sa\u00edsse do jeito que saiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E eu vi voc\u00eas falando que dessa vez n\u00e3o foram utilizados samplers na grava\u00e7\u00e3o de bateria. Qual a import\u00e2ncia disso para voc\u00ea e a banda?<\/strong><br \/>\nIsso foi uma coisa do produtor, porque ele usou demais no \u201cMachine Messiah\u201d. A gente nunca quer usar isso, a gente sempre quer o mais real poss\u00edvel. Tanto \u00e9 que quando a gente vai pro est\u00fadio, a gente quer fazer como fazemos no palco, ao vivo. Se voc\u00ea escutar o \u201cMediator\u201d (\u201cThe Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart\u201d, de 2013), com o Ross Robinson (produtor), acho que nem tem samplers l\u00e1 tamb\u00e9m. \u00c9 outra coisa, um outro conceito. Tanto \u00e9 que o Jens chegou no \u201cQuadra\u201d e falou: \u201cEsse aqui estou muito mais relaxado, n\u00e3o vou fazer muita edi\u00e7\u00e3o, sem samplers na bateria. Vamos come\u00e7ar do zero. O que a gente fez de errado no \u2018Machine Messiah\u2019 n\u00e3o vamos repetir\u201d. Eu falei: \u201cP\u00f4, ainda bem que voc\u00ea \u2018abrasileirou\u2019 um pouco, saiu dessa coisa do sueco muito certinha e disciplinar\u201d. E ele finalmente percebeu que o Sepultura n\u00e3o \u00e9 isso. Se voc\u00ea escutar o \u201cMachine Messiah\u201d comparado com o \u201cQuadra\u201d, voc\u00ea sente que o \u201cQuadra\u201d \u00e9 um disco muito mais solto, mais concentrado em outras coisas a n\u00e3o ser naquela coisa sonora. Porque \u00e9 muito relativo. Em um dia voc\u00ea est\u00e1 no est\u00fadio e tem uma rela\u00e7\u00e3o com um som, no outro dia ele sai completamente diferente. Ent\u00e3o voc\u00ea tem que dar \u00eanfase \u00e0 performance, \u00e0quilo que est\u00e1 acontecendo no momento. Ent\u00e3o, o \u201cQuadra\u201d representa muito mais o que \u00e9 o Sepultura \u201csonoricamente\u201d, do que o \u201cMachine Messiah\u201d, e isso tem a ver com a conscientiza\u00e7\u00e3o do Jens, que realmente viu que o Sepultura n\u00e3o funciona bem daquela forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa \u201cAli\u201d \u00e9 uma homenagem a Muhammad Ali. Como Ali se encaixa no conceito de Quadra e por que escolheram esse personagem?<\/strong><br \/>\nCaralho, Muhammad Ali falou n\u00e3o pra \u201cquadra\u201d dele. Ele nasceu Cassius Clay&#8230; Tanto \u00e9 que a m\u00fasica \u00e9 dividida em tr\u00eas partes. Ela tem uma primeira parte, tem uma ponte, vai pra uma segunda parte completamente diferente, tem a mesma ponte e depois ela acaba de uma maneira diferente. Ent\u00e3o, a primeira parte representa o Cassius Clay, o bicampe\u00e3o ol\u00edmpico. A segunda parte \u00e9 d\u00e9cada de 60, um negro, nos Estados Unidos, que mudou o nome e religi\u00e3o e falou n\u00e3o pra guerra do Vietn\u00e3. Ele foi for\u00e7ado a seguir o conceito de uma quadra, um conjunto de regras: \u201cAh, voc\u00ea tem que defender&#8230; \u201c, e ele: \u201cMano, eu n\u00e3o vou pra guerra\u201d. Falou \u201cn\u00e3o, n\u00e3o vou\u201d. E a terceira parte \u00e9 quando ele tem a doen\u00e7a, o Parkinson. Nessa parte a gente tem a participa\u00e7\u00e3o do Babylons P, do Paulo Cyrino, que faz esse dub, esses sons extras, que meio que representam essa doen\u00e7a que vai tomando conta dele, e que no final ele t\u00e1 esl\u00e1 nas Olimp\u00edadas de 1992 segurando a tocha ol\u00edmpica, acendendo a pira ol\u00edmpica, apesar da doen\u00e7a, com um olhar fixo, forte, firme. Um cara sensacional! Voc\u00ea v\u00ea as entrevistas, ou ouve as entrevistas de Muhammad Ali, um cara l\u00facido, um cara que sabia, com argumentos de respeito, sem nunca xingar ningu\u00e9m, sem nunca falar palavr\u00e3o, falar dos conceitos dele e questionar um monte de coisa: \u201cAh, por que que o preto \u00e9 ruim e o branco \u00e9 sempre bom?\u201d. De crian\u00e7a ele j\u00e1 perguntava isso pra m\u00e3e dele: \u201cPor que tudo de ruim \u00e9 preto, negro, escuro?\u201d Ele j\u00e1 tinha esses questionamentos. E foi um g\u00eanio. \u00c9 um g\u00eanio. N\u00e3o s\u00f3 no esporte, mas principalmente como cidad\u00e3o, como ser humano. Questionar as regras: \u201cPor que que eu vou brigar l\u00e1 com um cara que eu nunca vi na vida? N\u00e3o faz sentido nenhum isso\u201d. Ele \u00e9 um cara que representa essa quebra da quadra, das leis, do que \u00e9 certo e o que \u00e9 errado, de como a gente \u00e9 obrigado a fazer coisas que n\u00e3o t\u00eam nenhum sentido. Ent\u00e3o o Muhammad Ali representa isso, o questionamento, o porqu\u00ea das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou do Paulo Cyrino, do Babylons P, como rolou a participa\u00e7\u00e3o dele fazendo o Dubstep na m\u00fasica? Voc\u00ea j\u00e1 conhecia o trabalho dele?<\/strong><br \/>\nConhecia atrav\u00e9s de amigos. J\u00e1 tinha passado alguns riffs que ele usou em umas m\u00fasicas do pr\u00f3prio projeto dele. Pintou essa oportunidade nessa faixa e chamei-o pra fazer. A gente nunca tinha trabalhado com um artista desse estilo, de dub, foi a primeira vez que fizemos algo parecido com o que ele faz. E deu muito certo, cara! Tem tudo a ver com o que a faixa fala e sonoricamente tamb\u00e9m foi fant\u00e1stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que voc\u00eas fizeram pela primeira vez foi colocar a participa\u00e7\u00e3o de uma mulher no vocal, a Emmily Barreto, do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/16\/tres-perguntas-far-from-alaska\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Far From Alaska<\/a>, participa do disco na faixa \u201cFear; Pain; Chaos; Suffering\u201d. E voc\u00ea a conheceu no programa Rock Est\u00fadio, do Jimmy e do China. E como rolou o convite depois? A m\u00fasica j\u00e1 foi feita pensando na participa\u00e7\u00e3o da Emmily? Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nFoi meio que no per\u00edodo da finaliza\u00e7\u00e3o da demo, e tinha essa m\u00fasica, estava meio no ar ainda, a gente ia trabalhar ela mais no est\u00fadio, principalmente a parte vocal, e pintou essa oportunidade. Foi o pr\u00f3prio China que falou: \u201c\u00d3, olha a Emmily a\u00ed, por que voc\u00eas n\u00e3o fazem um lance junto algum dia?\u201d. E eu falei, \u201cPode ser hoje\u201d (risos). Eu a chamei, e ela curtiu pra caralho. Mostrei a m\u00fasica, enfim, ela fez um trabalho fant\u00e1stico. Uma artista muito \u00fanica, uma express\u00e3o foda! E deu muito certo. Fiquei muito feliz de ter essa oportunidade de fazer junto com ela. E a m\u00fasica, porra, tem sido bem comentada. A galera realmente est\u00e1 escutando o disco inteiro, todas as nuances. E acho que \u00e9 um grande fechamento, que deixa portas abertas para o futuro do Sepultura, de ideias, conceitos e elementos para um pr\u00f3ximo disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o n\u00e3o foi uma faixa feita pensando na participa\u00e7\u00e3o da Emmily?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Mas eu tenho que dizer que a partir do momento que ela colocou o voz, a m\u00fasica se achou. A gente organizou a m\u00fasica de uma maneira completamente diferente quando a voz dela fez sentido na m\u00fasica. At\u00e9 jogamos alguns riffs fora e montamos a m\u00fasica com a dire\u00e7\u00e3o da voz que ela colocou e achamos a m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SEPULTURA - Means To An End (OFFICIAL MUSIC VIDEO)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TMLed7lL5CU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas lan\u00e7aram o clipe de \u201cMeans to an End\u201d, com produ\u00e7\u00e3o de Otavio Juliano e Luciana Ferraz, gravado em S\u00e3o Paulo e Jundia\u00ed. Como rolou a produ\u00e7\u00e3o do clipe? A banda deu as ideias, foi um trabalho conjunto?<\/strong><br \/>\nClaro, com certeza! \u00c9 uma conversa igual como fazemos com o produtor. Quando o diretor entra ele \u00e9 o quinto membro da banda. Obviamente que o conceito do disco \u00e9 importante. Acho que na \u201cMeans to an End\u201d a gente mostrou um pouco de tudo que tem no disco. O conceito da morte, a moeda, Judas, o quanto \u00e9 suficiente?, o cara vai l\u00e1 guardar e de tanto dinheiro que ele tem, foi sufocado pela pr\u00f3pria grana, enfim, limites, um monte de coisas que a gente fala no disco. E o Ot\u00e1vio trouxe essa refer\u00eancia do Ingmar Bergman, do \u201cO S\u00e9timo Selo\u201d (1959), esse jogo de xadrez com a morte e toda aquela sequ\u00eancia fant\u00e1stica. Foi muito inspirado nisso tamb\u00e9m, o conceito do disco e essa inspira\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. O lance do elevador, do \u201cAdvogado do Diabo\u201d (1998). Tem algumas refer\u00eancias do cinema, tamb\u00e9m, junto com essa coisa do conceito do disco, obviamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E no clipe aparece bastante a moeda que est\u00e1 na capa de Quadra, tamb\u00e9m. Qual \u00e9 o conceito por tr\u00e1s da capa e por que a moeda?<\/strong><br \/>\nFoi dif\u00edcil encontrar um \u00edcone que pudesse representar um ponto do conceito que a gente est\u00e1 falando. Chegamos \u00e0 conclus\u00e3o do dinheiro. A primeira regra fundamental de sobreviv\u00eancia nesse mundo. Sem dinheiro voc\u00ea n\u00e3o nasce e n\u00e3o morre, voc\u00ea n\u00e3o vive, n\u00e3o paga casa, n\u00e3o paga comida, n\u00e3o paga um visto, n\u00e3o paga um passaporte, n\u00e3o se movimenta, n\u00e3o faz nada sem dinheiro. E \u00e9 uma coisa completamente ilus\u00f3ria, uma ilus\u00e3o que as pessoas acreditam e colocam toda a energia em uma coisa que n\u00e3o existe. A moeda representa isso, esse primeiro ponto de escravid\u00e3o nosso, desde que a gente nasce at\u00e9 a gente morrer. E na moeda tem l\u00e1, como a gente chama, o senador, que \u00e9 a caveira com a coroa de louros, que representa um conjunto de regras, de leis, o que \u00e9 certo, o que \u00e9 errado, quem vai pra cadeia, quem n\u00e3o vai, qual \u00e9 o limite de cada um, enfim, e o mapa mundi, n\u00e9, meio que dividem as pessoas por ra\u00e7a, por cren\u00e7a, por credo, um monte de coisa, tamb\u00e9m, conceitos completamente ilus\u00f3rios, criados, imagin\u00e1rios. E as pessoas se matam por causa disso, por coisas que realmente s\u00e3o ilus\u00f5es. A gente mexe nisso, nesses conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando especificamente de uma faixa, a \u201cRaging Void\u201d, muitas pessoas t\u00eam comentado sobre o Mastodon ao ouvir essa m\u00fasica, que \u00e9 excelente, por sinal. Voc\u00ea busca inspira\u00e7\u00e3o nessas bandas mais contempor\u00e2neas, como \u00e9 o caso da citada? De onde surgiu a inspira\u00e7\u00e3o para essa faixa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o busco, mas conhe\u00e7o. Escuto muito pouca m\u00fasica. N\u00e3o sou um cara que fica com o headphone toda hora, no avi\u00e3o ou em qualquer lugar. Escuto o Spotify de consulta, quando tenho que tocar algum cover, vou l\u00e1 e escuto pra tirar a m\u00fasica. Gosto mais de passar tempo fazendo m\u00fasica, estudando. Estudo muito viol\u00e3o, gosto de ler tamb\u00e9m, pegar influ\u00eancia musical fora da m\u00fasica, num livro, imaginar uma situa\u00e7\u00e3o como uma trilha sonora de uma coisa muito \u00fanica, muito sua. Cada um tem uma imagina\u00e7\u00e3o. A gente pode ler o mesmo livro e ter possibilidades e situa\u00e7\u00f5es completamente diferentes. Acho isso muito mais criativo e instigante do que fazer uma m\u00fasica tipo Slayer, tipo U2 ou tipo seja l\u00e1 quem for, entendeu? Que tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido. Voc\u00ea nunca vai fazer igual, mas o ponto de partida \u00e9 sempre importante. E isso j\u00e1 \u00e9 um conceito. Se voc\u00ea n\u00e3o tem esse conceito, n\u00e3o vai fazer uma coisa que tem uma refer\u00eancia no seu parceiro. Voc\u00ea convence muito as pessoas pelas refer\u00eancias. \u201c\u00d3, isso aqui parece Rage Against the Machine\u201d, o cara fala, \u201cAh, do caralho! Ent\u00e3o \u2018vamo\u2019 em frente\u201d. Voc\u00ea fala: \u201cIsso aqui parece Luan Santana\u201d, \u201cPuta, meu, acho que n\u00e3o cabe no Sepultura\u201d. Ent\u00e3o, \u00e9 sempre uma refer\u00eancia, \u00e9 sempre um conceito. \u00c9 uma maneira de comunica\u00e7\u00e3o que temos em usar refer\u00eancias. Acho que na m\u00fasica, eu tento tirar o m\u00e1ximo dessa refer\u00eancia musical e buscar essa refer\u00eancia musical onde n\u00e3o tem m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda fechou contrato com a BMG. Fale um pouco da import\u00e2ncia desse contrato para a banda e para o metal nacional como um todo.<\/strong><br \/>\nPuta contrato! BMG aqui, Brasil, Am\u00e9rica do Sul fazendo um trabalho maravilhoso, com uma inten\u00e7\u00e3o e atitude que estavam faltando no mercado. Estou muito feliz de estar nessa casa, eles est\u00e3o fazendo um trabalho sensacional n\u00e3o s\u00f3 aqui no Brasil, mas na Am\u00e9rica Latina inteira. Eu j\u00e1 fui pro M\u00e9xico algumas semanas atr\u00e1s pra fazer promo\u00e7\u00e3o s\u00f3 por causa do \u201cQuadra\u201d, atrav\u00e9s da BMG. Aqui no Brasil, tamb\u00e9m, fazendo um trabalho sensacional. L\u00f3gico que a gente est\u00e1 passando por tudo isso, esse lance do coronav\u00edrus, tudo muito parado, mas muito feliz com essa parceria. Vai ser sensacional!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu ia at\u00e9 te perguntar sobre essa quest\u00e3o do coronav\u00edrus, porque, infelizmente, a pandemia acabou inviabilizando a atual turn\u00ea que voc\u00eas fariam pelos Estados Unidos. Essa pandemia acabou pegando todos de surpresa. O primeiro show da turn\u00ea seria j\u00e1 no dia 18, correto? E ter que cancelar assim, em cima da hora, \u00e9 complicado, pois toda uma log\u00edstica j\u00e1 havia sido planejada.<\/strong><br \/>\nA gente ia viajar hoje \u00e0 noite (a entrevista foi realizada segunda-feira, 16\/03), quarta-feira seria o primeiro show. Mas n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o que a gente quis tomar, n\u00e3o teve escolha. A gente depende de avi\u00e3o, aeroporto, tem um cara que estava vindo da Hungria pra fazer o som, e ele j\u00e1 estava proibido de entrar nos Estados Unidos, pelo menos por 30 dias. E a nossa tour n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica, ali\u00e1s, todas as turn\u00eas foram canceladas ou adiadas. Desde Pearl Jam at\u00e9 uma banda de hardcore. E tem que ser feito isso mesmo, porque, infelizmente, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que pode fugir do controle das pessoas, como na It\u00e1lia, uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia absurda. E o Brasil est\u00e1 indo nesse caminho (da It\u00e1lia). Infelizmente a gente tem aqui o que a gente tem: nossos l\u00edderes, se \u00e9 que pode chamar esse tipo de gente que est\u00e1 no governo de l\u00edder. S\u00f3 criando confus\u00e3o, criando desinforma\u00e7\u00e3o, numa arrog\u00e2ncia absurda. E \u00e9 um momento que a gente precisa de educa\u00e7\u00e3o de base, no sentido de saber se relacionar e se comunicar com as pessoas. Porque um presidente, ele \u00e9 um presidente de todos, n\u00e3o \u00e9 presidente de uma comunidade ideol\u00f3gica. \u00c9 um presidente de todos, do anci\u00e3o, dos homossexuais, dos negros, dos brancos, de todos. Ent\u00e3o a gente precisa botar os p\u00e9s no ch\u00e3o. A turn\u00ea vai dar preju\u00edzo? Sim! Mas se tivesse ido ia dar muito mais preju\u00edzo. A gente ia estar preso em um pa\u00eds sem poder voltar para o nosso pa\u00eds, ia estar em um monte de outras situa\u00e7\u00f5es e, consequentemente, ia gastar muito mais que isso. Sem contar a seguran\u00e7a da pr\u00f3pria banda, do crew e do p\u00fablico em geral. Ent\u00e3o, \u00e9 outro esquema, um outro mundo que a gente est\u00e1 vivendo hoje. E as consequ\u00eancias, sabe l\u00e1 quais v\u00e3o ser daqui pra frente, principalmente pro nosso business no entretenimento, da m\u00fasica, do teatro, do cinema, que depende muito de viagem, de loca\u00e7\u00e3o, de aeroporto, de tudo isso. Enfim, vamos ver o que vai acontecer. \u00c9 s\u00f3 falar pra popula\u00e7\u00e3o cair na real: fica em casa, d\u00e1 um tempo. Pra que correr? Vamos parar um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No ano passado o Sepultura fez muitos shows pelo Brasil. Ent\u00e3o, at\u00e9 por conta do coronav\u00edrus, fica uma inc\u00f3gnita aqui para shows da banda? E tamb\u00e9m a turn\u00ea pelos festivais europeus.<\/strong><br \/>\nIndependente do coronav\u00edrus, a gente j\u00e1 n\u00e3o ia tocar no Brasil esse ano, justamente pelo o que voc\u00ea falou, a gente tocou muito no Brasil nesses \u00faltimos tr\u00eas anos, desde a celebra\u00e7\u00e3o dos 30 anos. A inten\u00e7\u00e3o era, realmente, fazer o Brasil mais para o final do ano ou talvez s\u00f3 em 2021. Mas, como eu disse, as coisas mudaram drasticamente, ent\u00e3o a gente vai ver o que vai acontecer daqui pra frente. Mesmo nos festivais da Europa, vamos ver o que vai acontecer. Tem alguns meses a\u00ed at\u00e9 l\u00e1, junho, julho, esperamos que a coisa possa estar um pouco mais controlada e que a vida possa voltar ao normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tirando a crise mundial na sa\u00fade devido ao coronav\u00edrus, a gente vem sofrendo uma crise com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura no nosso pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 de hoje, mas vivemos uma grande crise no atual governo. Voc\u00ea sente isso?<\/strong><br \/>\nIndependente do governo, a cultura brasileira sempre viveu em crise. O Sepultura nunca teve nada do governo, de ajuda pra trazer equipamento, ou algum suporte pra fazer uma turn\u00ea, nada! Zero! Pelo contr\u00e1rio. Sempre, o heavy metal, independente da ideologia de esquerda ou direita, sempre foi visto com muito preconceito. As pessoas n\u00e3o entendem o heavy metal, elas t\u00eam medo de umas coisas que elas n\u00e3o entendem. Fobia daquilo que n\u00e3o sabem. O heavy metal \u00e9 um estilo pac\u00edfico, \u00e9 o estilo mais popular do mundo, um estilo de fam\u00edlia, um estilo onde o f\u00e3 gosta de comprar o produto oficial, ele n\u00e3o compra pirata. Ele mant\u00e9m a cena metal forte por isso, o dinheiro vai pra banda, vai pra gravadora, vai pro book manager, vai para os empres\u00e1rios, vai pra quem trabalha no processo. E o f\u00e3 ganha com isso, porque o sistema funciona dessa forma. O heavy metal aqui no Brasil sempre sofreu preconceito. Voc\u00ea v\u00ea na cultura, a m\u00fasica brasileira \u00e9 o qu\u00ea? \u201cCapoeira, samba e mulata\u201d. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. O Brasil tem reggae fant\u00e1stico, o Brasil tem blues fant\u00e1stico, o Brasil tem heavy metal fant\u00e1stico, Brasil tem o pop, tem o dub. Mano, olha esses brasileiros que est\u00e3o fazendo um monte de estilo de m\u00fasica e n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos pela cultura brasileira. E n\u00e3o \u00e9 de hoje, estou falando de sempre, desde que o Sepultura come\u00e7ou, em 1984, ou at\u00e9 antes. Sempre foi assim. O Brasil teve passeata contra a guitarra el\u00e9trica, em 1967, pra voc\u00ea ver o n\u00edvel de ideologia e conceitos de atraso cultural que esse pa\u00eds passa desde sempre. E a gente s\u00f3 t\u00e1 vivendo uma consequ\u00eancia dessa estupidez do brasileiro nesse aspecto. Hoje a gente tem o que a gente tem por isso. Botaram idiota atr\u00e1s de idiota no governo. A distribui\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rios sempre foi uma palha\u00e7ada pol\u00edtica, partid\u00e1ria, nunca t\u00e9cnica. Nunca de acordo com o que o Brasil precisa. Agora que est\u00e1 todo mundo reclamando? Sempre foi uma bosta! Sempre! A pol\u00edtica \u00e9 uma merda, um circo, e a gente est\u00e1 vivendo esse circo ainda hoje. O heavy metal sobrevive porque \u00e9 igual um atleta que sai da favela e vai ganhar medalha de ouro, da\u00ed, de repente, ele vira her\u00f3i, mas ele sempre foi um her\u00f3i. Sem apoio, sem educa\u00e7\u00e3o, nada, ele consegue fazer as coisas, porque o brasileiro \u00e9 foda. Tem brasileiro na Nasa, tem brasileiro nas mais altas partes da sociedade mundial, s\u00f3 n\u00e3o tem apoio no pr\u00f3prio pa\u00eds. E a gente est\u00e1 passando agora uma outra guerra ideol\u00f3gica imbecil, que s\u00f3 t\u00e1 atrasando o pa\u00eds de uma forma absurda. Retrocesso absurdo. Mas \u00e9 aquela hist\u00f3ria: o Brasil nunca foi um exemplo de cultura, porque nunca respeitou a pr\u00f3pria cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao \u201cQuadra\u201d, voc\u00ea acredita que seja o disco mais ambicioso, variado e complexo da carreira do Sepultura?<\/strong><br \/>\nSim! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nAh, s\u00f3 escutar, n\u00e9? Acho que s\u00e3o as caracter\u00edsticas. Acho que voc\u00ea mesmo t\u00e1 afirmando isso por aquilo que voc\u00ea ouviu, n\u00e3o s\u00f3 do disco em si, mas das pessoas. Acho que \u00e9 isso, fala por si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quer deixar algum recado final?<\/strong><br \/>\nEu queria deixar um recado de conscientiza\u00e7\u00e3o e responsabilidade. Pensar no outro, pelo menos uma vez. Fica em casa, lava as m\u00e3os, fa\u00e7a as coisas estritamente necess\u00e1rias. Respeite o pr\u00f3ximo. Respeite o idoso, o seu vizinho, o cara que trabalha com voc\u00ea. J\u00e1 que o governo, ningu\u00e9m d\u00e1 dire\u00e7\u00e3o nessa porra desse pa\u00eds, seja um cidad\u00e3o, seja um her\u00f3i da olimp\u00edada, por exemplo, fazendo o que voc\u00ea precisa fazer para o pa\u00eds. E espero que tudo volte o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e que a gente possa colocar o \u201cQuadra\u201d na estrada, porque a ansiedade s\u00f3 vai crescer, com certeza!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SEPULTURA - Last Time (OFFICIAL LYRIC VIDEO)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fJPuijhnXrA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Paulo Pontes \u00e9 colaborador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/whiplash.net\/autores\/paulopontes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Whiplash,&nbsp;<\/a>assina a&nbsp;<a href=\"http:\/\/lounge.obviousmag.org\/kontratak_kultural\/autor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kontratak Kultural<\/a>&nbsp;e escreve de rock, hard rock e metal no Scream &amp; Yell. \u00c9 autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo.php?fbid=2123311197759382&amp;set=a.356284934462026&amp;type=3&amp;theater\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A Arte de Narrar Vidas: hist\u00f3rias al\u00e9m dos biografados<\/a>\u201c. A foto que abre o texto \u00e9 de Marcos Hermes \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Max Cavalera: &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/02\/entrevista-max-cavalera-fala-sobre-o-album-arise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tenho 49 anos, mas a minha alma \u00e9 de 15 anos<\/a>&#8221; (risos)<br \/>\n&#8211; Iggor Cavalera: &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/08\/entrevista-iggor-cavalera-fala-do-horrible-noise-do-petbrick\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nunca foi hora de ficar em cima do muro. Principalmente nos dias de hoje<\/a>&#8221;<br \/>\n&#8211; Far From Alaska: &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/16\/tres-perguntas-far-from-alaska\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Voc\u00ea j\u00e1 percebeu que s\u00f3 gente velha diz que &#8216;o rock morreu&#8217;?<\/a>&#8220;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 ineg\u00e1vel: o Sepultura \u00e9 a maior banda de heavy metal do Brasil. E mais, \u00e9 muito f\u00e1cil coloc\u00e1-la entre as maiores do mundo, por tudo aquilo que representou e ainda representa para a m\u00fasica pesada. D\u00favida? Ent\u00e3o ou\u00e7a \u201cQuadra\u201d, 15\u00ba trabalho de in\u00e9ditas da banda, lan\u00e7ado dia 7 de fevereiro de 2020 pela BMG, e surpreenda-se.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/19\/entrevista-andreas-kisser-sepultura\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":65,"featured_media":59237,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[974],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55083"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/65"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55083"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55332,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55083\/revisions\/55332"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}