{"id":54864,"date":"2020-02-27T00:35:12","date_gmt":"2020-02-27T03:35:12","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=54864"},"modified":"2022-05-02T23:30:31","modified_gmt":"2022-05-03T02:30:31","slug":"para-entender-b-52s","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/02\/27\/para-entender-b-52s\/","title":{"rendered":"Para entender: B-52s"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto (readaptado e) publicado originalmente no (finado) site Showlivre<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 nenhuma efem\u00e9ride especial para recordar dos B-52s hoje, em pleno 2020. Mas talvez n\u00e3o exista tempo melhor para rememor\u00e1-los que agora. Afinal, trata-se de uma banda que conseguiu fazer muito por uma causa, sem transformar a dita \u201ccausa\u201d no \u00fanico eixo da sua exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. E ainda fez \u00f3tima m\u00fasica no processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os B-52s (ou, at\u00e9 2008, B-52\u2019s, com ap\u00f3strofo) eram um quinteto que nasceu em meio a uma bebedeira em um bar. Os irm\u00e3os Cindy e Ricky Wilson, mais os amigos Fred Schneider, Kate Pierson e Keith Strickland, tomaram v\u00e1rias em um restaurante chin\u00eas em Athens (no Estado da Ge\u00f3rgia, EUA, a mesma cidade que deu ao mundo o R.E.M.), come\u00e7aram uma jam ali mesmo, viram que dava liga e decidiram montar uma banda. 13 anos depois, seriam um dos maiores nomes do pop mundial, cometendo v\u00e1rios bons discos ao longo do caminho. Entre idas e vindas, a banda faz shows at\u00e9 hoje, e nem mesmo a idade (Kate, a mais velha, completar\u00e1 72 em abril deste ano) os impede de seguir em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os B-52s foram um dos primeiros \u00edcones queer da hist\u00f3ria da m\u00fasica pop. Sua sexualidade amb\u00edgua, o visual espalhafatoso (perucas coloridas, vestidos e palet\u00f3s que pareciam sa\u00eddos de um desenho animado, o bigodinho e as camisas de Fred Schneider) e as performances estridentes e dan\u00e7antes chamavam aten\u00e7\u00e3o, tanto quanto sua m\u00fasica veloz, minimalista e dan\u00e7ante. As letras tinham um humor malandro, que podia apontar a falsifica\u00e7\u00e3o de dinheiro como a melhor maneira de sair da crise (\u201cLegal Tender\u201d), distopias realistas demais (\u201cChannel Z\u201d), trepar num ref\u00fagio de estrada (\u201cLove Shack\u201d) ou at\u00e9 sobre festas psicod\u00e9licas em companhia da vida marinha (\u201cRock Lobster\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora n\u00e3o trouxessem nenhuma refer\u00eancia homoafetiva direta, foram imediatamente adotados pelas comunidades LGBT do hemisf\u00e9rio ocidental. Para se ter uma ideia, o ativista gay Aaron Fricke batizou sua autobiografia de \u201cReflections of a Rock Lobster\u201d, em refer\u00eancia ao primeiro sucesso da banda. No livro, Fricke conta que tomou coragem para se assumir homossexual ainda no ensino m\u00e9dio, em plena era Reagan, gra\u00e7as \u00e0 m\u00fasica dos B-52s. E Gus Van Sant n\u00e3o batizou seu emblem\u00e1tico filme \u201cGarotos de Programa\u201d, que consagrou River Phoenix, em refer\u00eancia a uma can\u00e7\u00e3o dos georgianos por acaso (o t\u00edtulo original \u00e9 \u201cMy Own Private Idaho\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma trag\u00e9dia viria a refor\u00e7ar essa associa\u00e7\u00e3o: Ricky Wilson, guitarrista e ent\u00e3o principal compositor do grupo, faleceu em 1985 por complica\u00e7\u00f5es decorrentes da AIDS, at\u00e9 ent\u00e3o tratada por parte da sociedade como \u201cuma doen\u00e7a de gays\u201d. Wilson era o \u00fanico que tornava p\u00fablica sua homossexualidade, e a banda falou abertamente sobre a doen\u00e7a nos anos que se seguiram ao seu falecimento. Se a comunidade LGBT j\u00e1 se identificava, passaram a ter neles vozes seguras, sem meias-palavras, sobre uma doen\u00e7a que gerava muito preconceito e ideias equivocadas. Schneider e Strickland se assumiriam gays na d\u00e9cada de 90, e Kate levaria ainda alguns anos para tornar p\u00fablica sua bissexualidade (Cindy \u00e9 hetero). Mas os B-52s j\u00e1 tinham \u201crepresentatividade\u201d desde sempre.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-54865\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/b522.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/b522.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/b522-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/b522-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNingu\u00e9m nos perguntava se \u00e9ramos gays at\u00e9 1992\u201d, declarou Keith Strickland ao site Pitchfork, que ap\u00f3s a morte de Ricky assumiu o posto de principal compositor. \u201cEra quase subversivo que n\u00e3o fal\u00e1ssemos a respeito. Est\u00e1vamos apenas tentando ser n\u00f3s mesmos. Ser gay era apenas uma parte disso. \u00c9 bem isso o que quer\u00edamos que o mundo fosse, sabe? Voc\u00ea s\u00f3 vive sua vida e a orienta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 apenas uma parte dela. Acho que era, tipo, mais revolucion\u00e1rio por causa disso. As pessoas ou se ligavam a n\u00f3s nesse n\u00edvel ou simplesmente n\u00e3o se ligavam. Algumas pessoas sacavam, outras n\u00e3o, mas n\u00f3s certamente nunca tentamos esconder. Nossa m\u00fasica e nossa imagem meio que falavam por si \u2013 essa era a afirma\u00e7\u00e3o. Est\u00e1vamos dizendo que era OK ser diferente simplesmente vivendo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa \u00e9poca de tantos discursos, discuss\u00f5es agressivas sobre quem tem \u201clugar de fala\u201d e m\u00fasicos que calcam na \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d toda a sua sustenta\u00e7\u00e3o, vale muito a pena reexaminar a carreira do B-52s, uma banda que usava a atra\u00e7\u00e3o em vez do choque, que cooptava pela alegria e n\u00e3o pela exclus\u00e3o. E mais que tudo, que fazia arte \u2013 suas can\u00e7\u00f5es eram, sim, pop acess\u00edvel, mas impressionantes a ponto de seguirem vigentes h\u00e1 d\u00e9cadas, influenciarem muita gente (o movimento riot grrrl, R.E.M., Deerhunter, The Gossip, Scissor Sisters, boa parte da \u201cnew wave\u201d brasileira e at\u00e9 do pop japon\u00eas), a terem angariado f\u00e3s como John Lennon (que elogiou a banda em sua \u00faltima entrevista), Nile Rodgers (que viria a coproduzir os \u00e1lbuns \u201cCosmic Thing\u201d e \u201cGood Stuff\u201d, respectivamente de 1989 e 1992), Frank Zappa e William Burroughs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode argumentar que o Queen tamb\u00e9m se encaixava nesse perfil \u2013 e estaria parcialmente certo, j\u00e1 que Freddie Mercury tamb\u00e9m inspirou muita gente mais por seus atos e seu modo de vida que pelo discurso. Mas o Queen enquanto banda n\u00e3o se encaixava nisso: por mais que fossem m\u00fasicos not\u00e1veis e excelentes compositores, Roger Taylos, John Deacon e Brian May eram ofuscados pela persona gigante de seu frontman. Por isso a ousadia de definir o B-52s como a maior banda queer da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papo aqui n\u00e3o \u00e9 especificamente sobre a quest\u00e3o LGBT \u2013 poderia ser sobre direitos humanos, quest\u00f5es ambientais, pol\u00edticas p\u00fablicas, entre tantos outros. O interessante \u00e9 notar qu\u00e3o grande foi o impacto dos B-52s, e ver que isso foi conseguido sem transformar seu modo de vida em ferramenta mercadol\u00f3gica ou discurso de exclus\u00e3o. No total, s\u00e3o sete discos de est\u00fadio (os seis primeiros entre 1979 e 1992, e o s\u00e9timo, \u201cFunplex\u201d, de 2008), quase 30 singles e tr\u00eas \u00e1lbuns ao vivo (sem contar um quarto disco ao vivo, que surgiu como b\u00f4nus na reedi\u00e7\u00e3o de 30 anos de \u201cCosmic Thing\u201d). Abaixo, cinco can\u00e7\u00f5es para entender a banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cRock Lobster\u201d, do \u00e1lbum \u201cThe B-52&#8217;s\u201d (1978\/1979)<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tem jeito: o primeiro sucesso da banda n\u00e3o pode ficar de fora, em vers\u00e3o ao vivo para aumentar a farra. Tem tudo: a guitarra de cinco cordas de Ricky, as interven\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de percuss\u00e3o e teclado e o pulso veloz da bateria. Foi a faixa que pirou a cabe\u00e7a de John Lennon.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The B-52&#039;s - Rock Lobster (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/n4QSYx4wVQg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cHero Worship\u201d, do \u00e1lbum \u201cThe B-52&#8217;s\u201d (1979)<\/strong><br \/>\nAs riot grrls pira: de Sleater-Kinney a Babes In Toyland, passando por Bikini Kill e at\u00e9 a \u00c9rika Martins, todo o rock de guitarras dos anos 80 e 90 que tinha uma mulher \u00e0 frente bebeu nessa fonte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The B-52&#039;s - Hero Worship\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AE8xl_YZqX8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cLegal Tender\u201d, do \u00e1lbum \u201cWhammy!\u201d (1983)<\/strong><br \/>\nMaior sucesso da banda no Brasil, que via a banda como o nome maior da \u201cniu\u00e8ive\u201d (nossa leitura da new wave). A banda j\u00e1 come\u00e7ava a incorporar programa\u00e7\u00f5es e mudar de leve seu som, mas a cara de pau das letras permanecia intacta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The B-52&#039;s - Legal Tender (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mBRr_TqLDf4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cLove Shack\u201d, do \u00e1lbum \u201cCosmic Thing\u201d (1989)<\/strong><br \/>\n\u201cRoam\u201d pode ser a melhor faixa do estourado \u00e1lbum \u201cCosmic Thing\u201d, mas \u201cLove Shack\u201d ainda \u00e9 a can\u00e7\u00e3o-emblema dos B-52s para o mundo, e comprova que Keith Strickland tinha dominado muito bem o estilo de composi\u00e7\u00e3o do finado amigo Ricky Wilson.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The B-52&#039;s - Love Shack (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9SOryJvTAGs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cGood Stuff\u201d, do \u00e1lbum \u201cGood Stuff\u201d (1992)<\/strong><br \/>\nNo \u00fanico disco gravado como trio (Cindy tinha decidido dar um tempo), a banda experimentou um pouco mais que o normal, e n\u00e3o acertou em todas. Mas esse funk multi\u00e9tnico e super pop \u00e9 um acerto gigante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The B-52&#039;s - Good Stuff (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xqfL6_6qEJY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Numa \u00e9poca de tantos discursos, discuss\u00f5es agressivas sobre quem tem \u201clugar de fala\u201d e m\u00fasicos que calcam na \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d toda a sua sustenta\u00e7\u00e3o, vale muito a pena reexaminar a carreira do B-52s, uma banda que usava a atra\u00e7\u00e3o em vez do choque, que cooptava pela alegria e n\u00e3o pela exclus\u00e3o. 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