{"id":54861,"date":"2020-02-26T13:43:41","date_gmt":"2020-02-26T16:43:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=54861"},"modified":"2020-03-30T21:29:28","modified_gmt":"2020-03-31T00:29:28","slug":"entrevista-karola-nunes-minha-arte-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/02\/26\/entrevista-karola-nunes-minha-arte-e-politica\/","title":{"rendered":"Entrevista &#8211; Karola Nunes: &#8220;Minha arte \u00e9 pol\u00edtica&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/rafael.p.donadio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rafael Donadio<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s 15 anos de carreira profissional, a cantora, instrumentista e compositora mato-grossense <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/karola.nunes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Karola Nunes<\/a> lan\u00e7ou, em abril do ano passado, o primeiro disco cheio: \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8e45XxcV7gA&amp;list=PLX1xpkqDR-FkOXi8JFoBvUEkujAiwt7zc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Somos Som<\/a>\u201d (2019). O projeto come\u00e7ou em 2015, quando Karola passou a apresentar suas composi\u00e7\u00f5es na Mostra Sesc de M\u00fasica. Predominantemente autoral, o \u00e1lbum contempla oito faixas de autoria de Karola, al\u00e9m de \u201cC\u00b4est la Vie\u201d, de autoria do guitarrista Augusto Krebs, e \u201cChorar\u201d de Pacha Ana. Juntos esses compositores integram a nova narrativa da m\u00fasica autoral mato-grossense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSomos Som\u201d foi gravado em uma conex\u00e3o entre Cuiab\u00e1 (MT) e S\u00e3o Paulo (SP) e tem a produ\u00e7\u00e3o assinada por Gustavo Ruiz. A liga\u00e7\u00e3o entre os dois estados est\u00e1 refletida tamb\u00e9m nos artistas convidados. De S\u00e3o Paulo: Curumin, o instrumentista Almicar Rodrigues, a atriz Mariela Lamberti e Victor Rice, que tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela mixagem. Do Mato Grosso: a rapper Pacha Ana e a viola de cocho gravada por Habel Dy Anjos. A masteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 do requisitado Felipe Tichauer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito influenciada pela \u201cNova MPB\u201d, Karola investe forte em uma obra pol\u00edtica, onde reivindica, como mulher, negra e homossexual, um lugar de exist\u00eancia das minorias. \u201cEnquanto est\u00e3o tentando nos censurar, a voz do coletivo est\u00e1 falando. N\u00f3s, artistas do movimento negro, do movimento gay, estamos falando. E tem gente para ouvir. Por mais que essa galera n\u00e3o queira aceitar, essa voz est\u00e1 saindo\u201d, explica a mato-grossense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ilustrar ainda mais esses discursos, a cantora e um coletivo de aproximadamente 20 pessoas lan\u00e7ou em fevereiro o clipe de \u201cT\u00e1 Vendo Seu Mo\u00e7o?\u201d, uma das 10 can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum. O videoclipe, produzido de forma independente, traz a marca dos produtores, cineastas, roteiristas, maquiadores, figurinistas e todos os profissionais art\u00edsticos independentes de Cuiab\u00e1 (MT), al\u00e9m de realizar e se manifestar sobre a inclus\u00e3o de minorias no cen\u00e1rio cultural do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram mais de 15 horas de grava\u00e7\u00e3o, em apenas um dia, para colocar em pr\u00e1tica o que o roteirista e diretor Pedro Brites j\u00e1 criava e recriava h\u00e1 sete meses. Com a dire\u00e7\u00e3o assinada tamb\u00e9m pela cineasta Juliana Seg\u00f3via, o clipe desenvolve uma narrativa corporal que preenche e acrescenta ainda mais significado \u00e0 letra da can\u00e7\u00e3o. A coreografia criada por Filipe Vinhas \u00e9 apresentada por tr\u00eas dan\u00e7arinos: o pr\u00f3prio Filipe, Lupita Amorim e Geovane Rodrigues. No entrela\u00e7o da m\u00fasica com a dan\u00e7a dos tr\u00eas protagonistas, o videoclipe carrega a discuss\u00e3o sobre a diversidade de corpo, g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversamos com Karola sobre a produ\u00e7\u00e3o do clipe e do disco, o come\u00e7o de carreira, o trabalho com Gustavo Ruiz, o trabalho com o coletivo e algumas coisas mais. Confira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Karola Nunes - T\u00e1 Vendo Seu Mo\u00e7o? (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Z0FN76s-SNU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSomos Som\u201d \u00e9 o primeiro disco cheio da sua carreira. Como foi o processo de produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s o gravamos em duas etapas. A primeira foi em maio de 2018, que foi quando recebemos o Gustavo (Ruiz) em Cuiab\u00e1 (MT), e passamos enfurnados uma semana no est\u00fadio, das 9h at\u00e9 21h, gravando a banda. A gente tinha alguns pr\u00e9-arranjos das can\u00e7\u00f5es, mas algumas coisas mudaram quando o Gustavo chegou, ouviu e deu alguns pitacos. Ensaiamos num domingo, com ele, e na segunda entramos em est\u00fadio e fomos at\u00e9 s\u00e1bado. O Gustavo levou as m\u00fasicas para S\u00e3o Paulo (SP), deu uma decupada, e em setembro eu fui para l\u00e1 para gravar voz. Ele fez alguns overdubs, chamou alguns m\u00fasicos de l\u00e1, para gravar instrumentos que a gente n\u00e3o tinha na banda. Eu achei muito massa o respeito do Gustavo pela nossa sonoridade. Ele poderia muito bem ter me chamado para S\u00e3o Paulo, montado uma banda l\u00e1 e gravado. Mas ele achou importante a gente preservar a sonoridade da minha banda. Achei massa essa disponibilidade dele em ouvir a gente, saber enxergar a particularidade dos m\u00fasicos daqui, que s\u00e3o m\u00fasicos que est\u00e3o fora do eixo, que tem muita experi\u00eancia em est\u00fadio, principalmente com grava\u00e7\u00f5es em discos sertanejos, que tem muito por aqui. Foi massa essa disposi\u00e7\u00e3o dele e foi massa para os m\u00fasicos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a escolha do Gustavo Ruiz para produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDesde sempre, quando eu pensava em gravar algum projeto maior, eu tinha a inten\u00e7\u00e3o de gravar com algu\u00e9m do eixo. Nessa escolha de poss\u00edveis produtores, a Larissa, minha companheira, sugeriu o Gustavo, porque a gente \u00e9 muito f\u00e3 do trabalho dele com a Tulipa e outros trampos. \u00c9 um cara que tem muita sensibilidade com timbres e, para mim, timbre \u00e9 o segredo da parada. Curto muito os timbres que ele trabalha, que ele escolhe. Acho que a escolha foi super acertada, porque ele \u00e9 um cara muito querido, foi super atencioso e respeitoso no processo. Inclusive, por eu ter bastante refer\u00eancia do reggae, ele teve a sensibilidade de dizer que ele n\u00e3o tinha tanto conhecimento com aquela \u00e1rea, mas sabia quem poderia ajudar, que foi o Victor Rice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E as participa\u00e7\u00f5es, como foram escolhidas?<\/strong><br \/>\nO Curumin foi uma sugest\u00e3o do Gustavo. A gente estava no est\u00fadio gravando \u201cChorar\u201d e ele perguntou se eu curtia o trampo do Curumin. Falei que era uma das refer\u00eancias que eu tinha. Ele achou que essa m\u00fasica tinha muito a ver com ele e perguntou se poderia apresentar a m\u00fasica a ele. E rolou. J\u00e1 a Pacha \u00e9 uma parceirona minha, que \u00e9 a compositora da faixa \u201cChorar\u201d, e \u00e9 uma mina muito foda que est\u00e1 desenvolvendo um trampo muito foda aqui no estado, em rela\u00e7\u00e3o ao rap. Ela acabou de lan\u00e7ar o primeiro CD de uma rapper mulher do Mato Grosso. Ela tamb\u00e9m tem batalhado bastante pela cena e achei que seria legal ela somar em alguma das faixas, para realmente a gente fortalecer essa ideia das mulheres que est\u00e3o produzindo aqui no estado. O Victor (Rice) participou como baixista em duas faixas. Foi bem natural, ele chegou ao est\u00fadio para pegar os bounces da m\u00fasica e demonstrou interesse no que a gente estava gravando, e acabou gravando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Atualmente, quais artistas te influenciam na produ\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOu\u00e7o muito a galera da Nova MPB, C\u00e9u, Anelis Assump\u00e7\u00e3o, Curumin, Tulipa Ruiz. Basicamente, o que tenho mais ouvido \u00e9 isso. Sempre fui muito ouvinte de MPB, ouvia muito Marisa Monte. Em 2007, quando me mudei para Florian\u00f3polis, tive muito acesso ao reggae, ent\u00e3o me influenciou bastante tamb\u00e9m. Mas foi l\u00e1 que eu conheci essas novas artistas, e me apaixonei, foi uma descoberta: n\u00e3o preciso compor desse jeito para ser MPB. Eu sinto muito isso dessa Nova MPB, n\u00e3o tem r\u00f3tulo. A galera bebe de v\u00e1rias fontes e essa mistureba acaba virando a Nova MPB. Eu comecei a ouvir muito isso e acabou me influenciando na maneira de compor e na liberdade de fazer um reggae, uma balada, uma coisa mais pop, e tudo isso est\u00e1 dentro desse balaio da nova MPB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mato Grosso \u00e9 muito conhecido pela m\u00fasica sertaneja. Como \u00e9 a cena de m\u00fasica brasileira e da \u201cNova MPB\u201d por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nAqui realmente a gente \u00e9 esmagado pelo mercado sertanejo, mas existe um desejo da galera daqui, da galera das artes e tal, de ser reconhecido por outras formas. Ent\u00e3o, por mais que o sertanejo seja esmagador, ele \u00e9 esmagador no mainstream. Existem baladas espec\u00edficas para sertanejo e tal. Isso foi um ponto muito forte para eu investir no trampo autoral. O primeiro show que eu fiz lotou, deu lota\u00e7\u00e3o no Teatro do Sesc. Ent\u00e3o tive a percep\u00e7\u00e3o de que tinha gente querendo ouvir o que eu tinha para dizer. Isso me deu um g\u00e1s muito grande para continuar tocando minhas m\u00fasicas e come\u00e7ar a encarar o trampo autoral como carro chefe. A galera est\u00e1 a fim de ver e saber o que est\u00e1 sendo produzido fora desse mercado mainstream. Esse circuito da MPB e do reggae \u00e9 um circuito um pouco menor aqui, mas que a galera consome. Sempre bato na tecla de que sei que n\u00e3o vou ser uma artista que o Mato Grosso vai consumir, porque para isso acontecer eu vou precisar acabar com uma cultura de anos daqui. Consegui ter um destaque estadual, porque participei de um concurso que \u00e9 da filiada da Globo. \u00c9 como se fosse um The Voice regional (o Programa Novos Talentos, TV Centro Am\u00e9rica). Fui para cantar minhas m\u00fasicas e mostrar para o mato-grossense que existia uma cantora que compunha e tal. A gente j\u00e1 estava com o CD engatado, ent\u00e3o era uma maneira de tentar mostrar para o interior do Mato Grosso que existia uma compositora. Os outros concorrentes cantaram cover e eu fui com m\u00fasica autoral. Acabei ganhando o programa e isso me deu um destaque bem legal na m\u00eddia estadual. Tem muita gente que me ouve no interior por conta dessa janela que teve nesse programa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Das 10 faixas do \u00e1lbum, oito s\u00e3o suas. Tendo 15 anos de carreira profissional, queria saber se as m\u00fasicas s\u00e3o novas, criadas para o disco, ou de outras \u00e9pocas tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nTem composi\u00e7\u00f5es antigas, como \u201cA Pressa\u201d, que eu compus em 2007, e acho que a m\u00fasica mais recente foi \u201cSomos Som\u201d. Eu tinha o nome do CD, \u201cSomos Som\u201d, mas n\u00e3o tinha o nome da can\u00e7\u00e3o que levava esse nome. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es de 2007 at\u00e9 2017, 10 anos de can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea come\u00e7ou a carreira pensando em ser artista de barzinho, interpretando can\u00e7\u00f5es de outros m\u00fasicos, mas hoje voc\u00ea canta suas pr\u00f3prias m\u00fasicas. Quando isso mudou? Como foi?<\/strong><br \/>\nComecei muito cedo tocando na noite em Rondon\u00f3polis (MT), minha cidade natal. Desde crian\u00e7a eu achava muito bonito m\u00fasico de barzinho. Com 15\/16 anos eu tocava na noite e conheci uns amigos e fizemos uma banda. Essa banda j\u00e1 fazia um trampo autoral. Quando a gente montou a banda, que tamb\u00e9m era uma banda para tocar em barzinho, um dos m\u00fasicos compunha e a gente chegou a lan\u00e7ar um CD demo, em 2005. Foi assim que eu descobri que era massa cantar m\u00fasicas pr\u00f3prias. Esse CD chegou a ter tr\u00eas can\u00e7\u00f5es minhas, mas n\u00e3o era uma bandeira que eu levantava sozinha. Em 2007, a gente mudou para Florian\u00f3polis (SC), mas a banda acabou em 2008. Em 2009 eu vim para Cuiab\u00e1 sem ter essa quest\u00e3o de mostrar meu som. Eu compunha, mas n\u00e3o tocava minhas can\u00e7\u00f5es. A chave deu uma mudada quando eu fui convidada por alguns amigos do teatro. Eu fazia sonoplastia para algumas pe\u00e7as teatrais daqui de Cuiab\u00e1 (MT) e em um ensaio a galera perguntou se eu compunha, eu mostrei, eles curtiram e me propuseram fazer uma pe\u00e7a de teatro com as minhas m\u00fasicas e os poemas e textos de uma escritora aqui do Mato Grosso, com interpreta\u00e7\u00e3o deles. Minha estreia como compositora foi no teatro. No ano seguinte, fui chamada para participar de um projeto do Sesc que chamava Estreia, em que compositores tem a chance de subir no palco e cantar suas composi\u00e7\u00f5es pela primeira vez. Isso foi em 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se auto denomina \u201ccompositora autobiogr\u00e1fica\u201d, ou seja, que escreve sobre voc\u00ea mesma. Quando comp\u00f4s a m\u00fasica \u201cT\u00e1 Vendo Seu Mo\u00e7o?\u201d, estava falando sobre o qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica \u00e9 uma tentativa de di\u00e1logo que n\u00e3o sai disso. \u00c9 esse lance do \u201cfaria\u201d, \u201cteria\u201d. \u00c9 um desejo de falar, \u201ctenho muito para te mostrar, mas enquanto voc\u00ea n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o vou conseguir te falar isso\u201d. Quando cheguei a Cuiab\u00e1 e comecei a me envolver com a galera da m\u00fasica, da faculdade, essa m\u00fasica expressa, meio que inconsciente, essa quest\u00e3o de eu ter vergonha das minhas can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o mostrava para a galera. Achava que a galera daqui compunha bem pra caramba, j\u00e1 tinha um movimento de compositores em Cuiab\u00e1, de alto n\u00edvel, ent\u00e3o eu tinha vergonha. Apesar de eu ter o que dizer, eu tinha vergonha do que eu tinha para falar. Inconscientemente, acho que eu coloquei isso nessa can\u00e7\u00e3o, porque acho que foi uma das primeiras que compus em Cuiab\u00e1. \u00c9 essa coisa: \u201cEu tenho muito para dizer, mas se voc\u00ea n\u00e3o quiser ouvir eu n\u00e3o vou ficar for\u00e7ando, n\u00e3o vou ficar insistindo\u201d. Compus ela em 2013 e acabou que quando gravei em S\u00e3o Paulo, foi exatamente no dia daquela manifesta\u00e7\u00e3o do \u201cEle N\u00e3o\u201d, em setembro. Foi ent\u00e3o que entrou o poema da Mariela (Lamberti). Eu voltei da manifesta\u00e7\u00e3o com muita vontade de tornar essa m\u00fasica um discurso pol\u00edtico, porque eu sentia justamente que era necess\u00e1rio ter um posicionamento enquanto artista naquele momento. A gente passa por um momento que a galera n\u00e3o entende que arte \u00e9 pol\u00edtica. Isso casou muito bem com o discurso do clipe, essa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, porque esse momento que a gente est\u00e1 passando agora, essas diretrizes de n\u00e3o incentivar a arte LGBTQI+ \u00e9 esse lance: os artistas gays t\u00eam muito para dizer tamb\u00e9m, se a galera n\u00e3o quiser ouvir, vai perder, mas a gente vai continuar falando, resistindo, produzindo. Esse mon\u00f3logo que eu citava em 2013 \u00e9 muito presente hoje em dia. A comunidade gay resistindo e produzindo cada vez mais, independente se a galera quer ver ou ouvir, mas a gente est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em rela\u00e7\u00e3o a essa mensagem da m\u00fasica, o que o clipe acrescenta?<\/strong><br \/>\nO clipe evidencia o discurso pol\u00edtico do meu trampo. Tem gente que v\u00ea e acha que \u00e9 simplesmente mais uma m\u00fasica de amor, quando na verdade n\u00e3o \u00e9. E a\u00ed a gente coloca artistas gays, negros e uma cita\u00e7\u00e3o direta ao \u201cele n\u00e3o\u201d, para cair a ficha de quem ainda n\u00e3o caiu. Eu sou uma artista que me exponho muito nas redes sociais, principalmente na \u00e9poca da campanha, da elei\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas que pensavam diferente me falavam que eu devia s\u00f3 fazer m\u00fasica e n\u00e3o palpitar politicamente. Eu achava que eu me expressava politicamente pela minha m\u00fasica, mas naquele momento eu entendi que tem gente que n\u00e3o entende. Ent\u00e3o, \u00e9 como se fosse uma mensagem direta: estou aqui levantando uma bandeira e entendam de uma vez por todas que minha arte \u00e9 pol\u00edtica. Acho que a gente conseguiu ilustrar isso com o clipe. Encontramos bastante dificuldade em conseguir patroc\u00ednio e apoio, pelas marcas n\u00e3o quererem vincular com esse tipo de tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como surgiu a ideia do clipe, dessa narrativa corporal com as dan\u00e7arines?<\/strong><br \/>\nPela pegada eletr\u00f4nica da m\u00fasica, eu pensava muito em ter uma tem\u00e1tica de dan\u00e7a, algu\u00e9m dan\u00e7ando. A princ\u00edpio eu tinha sugerido s\u00f3 o Filipe (Vinhas), que \u00e9 o core\u00f3grafo, e passei isso para o Pedro (Brites) e para a Juliana (Seg\u00f3via), os diretores. Quando a galera come\u00e7ou a destrinchar a letra, eles sugeriram a Lupita (Amorim), por ser uma mulher trans, e em seguida veio a ideia de colocar o Geovane (Rodrigues), com esse corpo fora do padr\u00e3o est\u00e9tico que a gente vive. A princ\u00edpio era s\u00f3 um v\u00eddeo de dan\u00e7a e o Pedro foi criando o roteiro e essas possibilidades e houve a necessidade de colocar mais gente. Eu n\u00e3o participaria do clipe, falei que n\u00e3o queria participar, mas com a constru\u00e7\u00e3o do roteiro eles acharam que precisaria da minha presen\u00e7a para amarrar a narrativa. Eu como mulher, simbolizando o matriarcado, como se estivesse validando o discurso corporal dos dan\u00e7arines.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a produ\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o com esse coletivo de aproximadamente 20 pessoas?<\/strong><br \/>\nA gente tinha o n\u00facleo duro, que era eu, a Larissa Sossai, Juliana Seg\u00f3via e o Pedro Brites. O Pedro que fez todos os convites da equipe, de todo mundo envolvido, mas a gente ia autorizando. Eu estava mais presente nessa coisa do roteiro e como filmar\u00edamos. A Lari ficou no corre junto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. A Ju conversando mais com o pessoal da dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica e fotogr\u00e1fica. Mas no dia da grava\u00e7\u00e3o, como todo mundo estava l\u00e1, todo mundo ajudou na hora de montar o clipe, o cen\u00e1rio. Todo mundo com a m\u00e3o na massa, cortando fitinha, arrumando os detalhes. A gente trouxe uma ideia que vem da produ\u00e7\u00e3o musical, em que todo mundo d\u00e1 pitaco em tudo, ent\u00e3o todos foram ajudando. O trabalho foi coletivo do in\u00edcio ao fim. Foi um trampo de muito aprendizado para todo mundo, acho que deu uma pontinha de esperan\u00e7a nessa coisa da coletividade, de todo mundo se doar realmente pelo produto final.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Pressa (ao vivo) - Karola Nunes\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hcHhRVvadtk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Somos Som - Karola Nunes\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLX1xpkqDR-FkOXi8JFoBvUEkujAiwt7zc\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Karola Nunes - Making of do \u00e1lbum Somos Som\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7VriedE7VFw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Rafael Donadio (Facebook:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/rafael.p.donadio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">rafael.p.donadio<\/a>) \u00e9 jornalista maringaense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ap\u00f3s 15 anos de carreira profissional, a cantora, instrumentista e compositora mato-grossense Karola Nunes lan\u00e7ou o primeiro disco cheio, \u201cSomos Som\u201d, produzido por Gustavo Ruiz e afiado em sua mensagem pol\u00edtica. 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