{"id":54711,"date":"2020-02-03T16:11:50","date_gmt":"2020-02-03T19:11:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=54711"},"modified":"2021-09-15T01:33:42","modified_gmt":"2021-09-15T04:33:42","slug":"entrevista-bruno-capelas-fala-sobre-o-castelo-ra-tim-bum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/02\/03\/entrevista-bruno-capelas-fala-sobre-o-castelo-ra-tim-bum\/","title":{"rendered":"Entrevista: Bruno Capelas fala sobre o Castelo R\u00e1-Tim-Bum"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a> pode ser apresentado de m\u00faltiplas formas: \u00e9 editor de tecnologia e inova\u00e7\u00e3o no Estado de S. Paulo e colunista de tecnologia na R\u00e1dio Eldorado; \u00e9 colaborador do Scream &amp; Yell desde 2010, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/bruno-capelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">escrevendo aqui sobre literatura, cinema e festivais de m\u00fasica pelo mundo<\/a>; al\u00e9m disso tudo, Capelas \u00e9 um apaixonado pelo \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d e pela hist\u00f3ria da programa\u00e7\u00e3o infantil da TV Cultura. \u00c9 esse \u00faltimo detalhe que o levou ao lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Raios-trov%C3%B5es-hist%C3%B3ria-fen%C3%B4meno-R%C3%A1-Tim-Bum\/dp\/8532311385\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Raios e Trov\u00f5es \u2013 A hist\u00f3ria do fen\u00f4meno Castelo R\u00e1-Tim-Bum<\/a>\u201d, editado pela Summues Editorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno cresceu vendo horas e horas de programa\u00e7\u00e3o da TV Cultura e esses programas t\u00eam um bocado de culpa pelo que ele se tornou: um jornalista criativo, curioso pelo mundo e de fala instigante e inteligente. Com seu trabalho de conclus\u00e3o da faculdade de Jornalismo na USP, Capelas come\u00e7ou sua pesquisa sobre o \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d, programa infantil da Cultura que foi ao ar originalmente de 1994 a 1997. Depois de in\u00fameras vers\u00f5es, a pesquisa se transformou em livro e ganhou as prateleiras no final de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De leitura cativante, \u201cRaios e Trov\u00f5es\u201d constr\u00f3i um interessante panorama sobre a hist\u00f3ria da TV Cultura e a produ\u00e7\u00e3o audiovisual infanto-juvenil enquanto encanta os antigos f\u00e3s da s\u00e9rie televisiva com in\u00fameras curiosidades. Com mais de 30 entrevistas, passando desde o elenco de atores at\u00e9 personagens desconhecidos que constru\u00edram o \u201cCastelo\u201d, Capelas faz um importante trabalho de mem\u00f3ria e de resgate de uma parte fundamental da TV brasileira nos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender mais das motiva\u00e7\u00f5es e do trabalho de pesquisa de Capelas, batemos um longo papo com o jornalista onde falamos sobre o \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d, a TV brasileira, o conte\u00fado infantil na era da internet e muitos outros t\u00f3picos que voc\u00ea confere na \u00edntegra abaixo (l\u00e1 no final do texto, o jornalista indica seu epis\u00f3dio favorito em v\u00eddeo, o &#8220;Tchau, n\u00e3o, at\u00e9 amanh\u00e3!).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-54712\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Raios_e_Trovoes_3D.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Raios_e_Trovoes_3D.png 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Raios_e_Trovoes_3D-246x300.png 246w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar, eu queria entender a import\u00e2ncia do \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d para voc\u00ea.<\/strong><br \/>\nEu nasci em 92, costumo dizer em entrevistas que sou mais novo que o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/10\/05\/nevermind-e-ainda-hoje-um-disco-atual-e-sensacional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nevermind<\/a>\u201d [Nirvana, 1991], para n\u00e3o ficar chato. Por que as pessoas me chamam de novinho e ficam se sentindo velhas, ent\u00e3o eu s\u00f3 falo que eu sou mais novo que o \u201cNevermind\u201d. E eu cresci com o \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d, parte do que a gente chama de Gera\u00e7\u00e3o Cultura: \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d, \u201cMundo da Lua\u201d, \u201cX-Tudo\u201d, \u201cGlub Glub\u201d, \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d, v\u00e1rios desses programas fizeram parte da minha inf\u00e2ncia, eu ficava na escolinha o dia inteiro, ent\u00e3o quando eu chegava eu ficava na frente da TV at\u00e9 a hora de jantar e o \u201cCastelo\u201d faz parte disso. Aprendi a ler e escrever com o \u201cCastelo\u201d. E mesmo coisas de poesia que eu lembro, como Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, isso tudo eu vi no \u201cCastelo\u201d. \u00c9 um programa que sempre esteve l\u00e1, sempre fez parte da minha forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 engra\u00e7ado que, recuperando na pesquisa, eu achei as fotos de uma noite de lan\u00e7amento dos livros do \u201cCastelo\u201d, em 1995 \u2013 que \u00e9 o primeiro evento que o pessoal considera que sentiu que o \u201cCastelo\u201d era de fato um sucesso \u2013 e eu estou ali como crian\u00e7a, tem fotos nesse evento de macac\u00e3ozinho, de roupinha de crian\u00e7a, pedindo aut\u00f3grafo. Eu nem tinha no\u00e7\u00e3o do que era pedir um aut\u00f3grafo ou gostar de alguma coisa, mas eu j\u00e1 estava ali. E a\u00ed quando fiquei mais velho, fui fazer jornalismo, e eu precisava de um tema para o TCC. E precisava ser uma coisa que eu gostasse muito. Voc\u00ea j\u00e1 viveu isso de ficar debru\u00e7ado numa mat\u00e9ria duas semanas e j\u00e1 n\u00e3o querer mais saber daquele assunto, tirar uma entrevista longa, tipo de uma hora, \u00e0s vezes voc\u00ea fica duas, tr\u00eas semanas e voc\u00ea n\u00e3o quer mais saber daquilo, ent\u00e3o imagina tirar 20, 30 entrevistas para um trabalho final. Ent\u00e3o eu precisava de uma coisa que fosse muito minha. Eu cheguei a pensar em fazer uma biografia do Pato Fu, pensei em fazer alguma coisa sobre o Jorge Furtado, que s\u00e3o duas coisas que eu gosto muito, tem muito a ver com a minha adolesc\u00eancia. Mas a\u00ed eu estava vendo TV com a minha irm\u00e3 em casa um dia, normalmente eu pegava o controle dela e roubava \u2013 minha irm\u00e3 \u00e9 dez anos mais nova \u2013 e estava passando o \u201cCastelo\u201d e a gente ficou vendo. Me lembro de olhar e pensar \u201ccara, o \u2018Castelo\u2019!\u201d, fiquei vendo e pensando \u201ceu gosto disso, por que eu gosto disso?\u201d, coisa de adulto ainda ficar vendo. E aquilo me chamou a aten\u00e7\u00e3o e pensei: \u201cvamos atr\u00e1s de um livro do \u2018Castelo\u2019, quero entender como o programa foi feito\u201d e disso eu percebi que n\u00e3o tinha nenhum livro falando do \u201cCastelo\u201d. A ideia de ser um livro comercial j\u00e1 vinha desde o come\u00e7o do TCC, mas era a ideia de \u201cpreciso me formar, fazer um trabalho legal e se der certo, pode virar um livro no futuro\u201d e a partir disso eu comecei as entrevistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foram mais de 30 entrevistas nesse processo todo, pelos mais diversos meios, como foi encontrar todas essas pessoas, j\u00e1 que parte do elenco nem atua mais, por exemplo?<\/strong><br \/>\nFoi um processo bem curioso e eu dei v\u00e1rias sortes no caminho. A primeira \u00e9 que duas veteranas minhas, a Livia Furtado e a Maria Carolina Gon\u00e7alves, tinham feito um document\u00e1rio muito legal sobre o \u201cCastelo\u201d, um ou dois anos antes de mim na ECA (Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo), chamado \u201cPor dentro do castelo\u201d. Elas tinham a ficha corrida dos entrevistados, com os contatos, ent\u00e3o quase todo mundo que eu achei foi por causa delas, foi um presente que ganhei. E depois disso teve a exposi\u00e7\u00e3o do MIS e eu dei a sorte de fazer meu trabalho nos 20 anos do \u201cCastelo\u201d, calhou de no meio da elabora\u00e7\u00e3o eu descobrir que teria a exposi\u00e7\u00e3o do MIS. E nessa exposi\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o s\u00f3 encontrava as pessoas, mas eu tamb\u00e9m tive uma profundidade maior, al\u00e9m de uma disposi\u00e7\u00e3o das pessoas para falar sobre isso, por que o \u201cCastelo\u201d foi um programa que deu muito certo, mas que tamb\u00e9m marcou muitas pessoas, e at\u00e9 de uma forma ruim. H\u00e1 pessoas que n\u00e3o gostam tanto de falar sobre o \u201cCastelo\u201d ou outras falam \u201cp\u00f4, eu fiz tanto trabalho, fiz novela na Globo, fiz s\u00e9rie na Record, fiz filme, mas as pessoas s\u00f3 falam disso\u201d. Eu tinha um certo receio, mas encontrei as pessoas em um momento bom, em um momento em que elas estavam celebrando e isso deixou o trabalho com uma carga afetiva interessante. Mas tem algumas pessoas que foi at\u00e9 curioso de eu encontrar, por exemplo, nenhum trabalho do \u201cCastelo\u201d foi atr\u00e1s dos produtos que o programa gerou depois, como CD, video-game, livro; ent\u00e3o eu fui atr\u00e1s da Lilian Schwartz \u2013 que hoje virou uma celebridade, por causa dos livros que ela escreveu, mas na \u00e9poca ela era a dona da Companhia das Letrinhas e uma baita acad\u00eamica, super conhecida, agora ela ganhou um peso \u2013 e foi ela quem fez a cole\u00e7\u00e3o de livros do \u201cCastelo\u201d. Eu fui atr\u00e1s dos programadores da Tectoy que fizeram um jogo do \u201cCastelo\u201d para Master System, fui atr\u00e1s do Andr\u00e9 Sturm, que era o respons\u00e1vel pela exposi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o fui al\u00e9m do n\u00facleo duro do pr\u00f3prio \u201cCastelo\u201d, al\u00e9m das pessoas que participaram da Cultura, mas tamb\u00e9m pra entender pessoas que fizeram do programa um fen\u00f4meno de m\u00eddia, por assim dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea tamb\u00e9m faz um pr\u00e9-\u201cCastelo\u201d: voc\u00ea faz um caminho da pr\u00f3pria TV Cultura e de todo o universo infantil da emissora antes do \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d.<\/strong><br \/>\nSim, isso \u00e9 uma coisa que aprendi lendo um monte de livros de m\u00fasica. Tem um livro que eu adoro, que \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Brock-rock-brasileiro-dos-anos\/dp\/8573266007\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brock: o Rock Brasileiro dos Anos 80<\/a>\u201d, do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/08\/01\/arthur-dapieve-entrevista-arthur-dapieve\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arthur Dapieve<\/a>, em que ele conta a hist\u00f3ria de bandas importantes da d\u00e9cada, como Blitz, Tit\u00e3s, Ultraje, RPM, Paralamas, mas para ele contar essa hist\u00f3ria, ele precisa retroceder. Ele precisa ir l\u00e1 e falar do rock dos anos 70, de Rita Lee, Raul, ele fala da banda Vimana, que \u00e9 super emblem\u00e1tica, por que a forma\u00e7\u00e3o era Lulu Santos, Ritchie e Lob\u00e3o, s\u00f3 que \u00e9 uma banda que n\u00e3o fez sucesso. E muito inspirado nisso, eu pensei que tinha que ir atr\u00e1s do que aconteceu antes, porque h\u00e1 v\u00e1rios programas infantis da Cultura, mas tem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da emissora: o que \u00e9 uma TV p\u00fablica? A Cultura n\u00e3o \u00e9 uma TV privada, n\u00e3o visa s\u00f3 ganhar dinheiro, mas ela n\u00e3o \u00e9 uma TV estatal, que est\u00e1 a servi\u00e7o do governo, ela tem esse modelo todo espec\u00edfico. E eu percebi no come\u00e7o da pesquisa que era isso que fazia da Cultura muito diferente, por isso que as coisas davam certo na emissora de alguma forma, que \u00e9 um modelo de uma TV paga com dinheiro do estado, ou seja, paga com recurso do contribuinte, mas feita para o contribuinte e que n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o do estado e do interesse pol\u00edtico e sim do p\u00fablico, isso foi algo super importante para construir a trajet\u00f3ria do programa. Como \u00e9 que a Cultura tinha dinheiro para tocar isso num momento em que o Brasil estava em crise? O \u201cCastelo\u201d foi feito entre 1992 e 1994, que \u00e9 o auge da hiperinfla\u00e7\u00e3o, o \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d foi lan\u00e7ado um pouco depois do confisco do Collor. E isso \u00e9 uma coisa importante, que eu tentei cruzar o que estava acontecendo na Cultura com o que estava acontecendo na sociedade. E calhei de achar a figura do Roberto Muylaert, que \u00e9 pai da Anna Muylaert \u2013 hoje em dia a gente conhece mais ela do que ele \u2013 e que \u00e9 um cara que \u00e9 super importante porque ele pensa essa gest\u00e3o da TV p\u00fablica, ele vai buscar apoio nas empresas. Ele \u00e9 o cara que fez Bienal, trouxe a Marina Abramovi? para a Bienal Internacional de Arte de SP nos anos 80, fez o festival de jazz, trouxe B.B. King, Peter Tosh, Etta James, uma s\u00e9rie de artistas importantes. E ele assume a Cultura e fala: \u201cA gente precisa dar um jeito na emissora\u201d, ela tinha passado por um inc\u00eandio uns meses antes, \u201cpreciso reconstruir isso aqui e como a gente faz? Vamos buscar apoio? Do governo? Do governo, mas tamb\u00e9m da iniciativa privada\u201d. E isso \u00e9 o que faz a Cultura ter certa independ\u00eancia do governo da \u00e9poca e tamb\u00e9m conseguir bancar alguns projetos: o \u201cR\u00e1-Tim-Bum trazer o Fernando Meirelles e o Marcelo Tas, que eram dois caras que tinham feito um baita sucesso na Gazeta; fazer \u201cMundo da Lua\u201d com os atores da Globo, como [Antonio] Fagundes, [Gianfrancesco] Guarnieri, Lucinha Lins, tem muitos atores incr\u00edveis ali e depois ainda fazer o \u201cCastelo\u201d, que \u00e9 uma super produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro tem uma linha em que voc\u00ea constr\u00f3i esse arco. Isso foi algo que veio do trabalho de conclus\u00e3o, depois voc\u00ea manteve no livro? Podemos dizer que era meio que a sua linha de pesquisa, tentar entender por que isso foi um sucesso e depois por que isso decai?<\/strong><br \/>\nNo TCC, a pesquisa tinha uma coisa muito mais reta do que entender por que foi um sucesso, mas a ideia era apenas contar essas coisas em ordem cronol\u00f3gica, tinha ali uma introdu\u00e7\u00e3ozinho, que era uma gracinha e ele parte da funda\u00e7\u00e3o da Cultura at\u00e9 os dias de hoje, a\u00ed quando ele vai virar livro \u2013 e foi uma das coisas que demorou para fazer sentido \u2013 \u00e9 que n\u00e3o podia ser assim, isso ficava muito acad\u00eamico, muito correto, e me deu trabalho achar uma estrutura que prendesse o leitor: por que estamos falando disso? Qual \u00e9 a hist\u00f3ria? \u00c9 achar n\u00e3o s\u00f3 a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m uma certa linha dram\u00e1tica. Ent\u00e3o come\u00e7o com a exposi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 algo mais recente, que as pessoas lembram das filas, lembram das not\u00edcias, volto para falar do inc\u00eandio da Cultura e \u00e9 a partir do inc\u00eandio que eu conto a hist\u00f3ria da reconstru\u00e7\u00e3o da Cultura para desembocar j\u00e1 no terceiro ou quarto cap\u00edtulo em como o \u201cCastelo\u201d vira \u201cCastelo\u201d. Demora, pois tem uma hist\u00f3ria para explicar que o \u201cCastelo\u201d \u00e9 resultado de v\u00e1rios programas que a Cultura fez ao longo desse per\u00edodo e antes at\u00e9. A Cultura fez o \u201cVila S\u00e9samo\u201d nos anos 70 e que muitas pessoas que fizeram o \u201cCastelo\u201d viram. Ent\u00e3o era necess\u00e1rio explicar tudo isso para que fizesse sentido. At\u00e9 por que era uma grade de programa\u00e7\u00e3o: vinha \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d, \u201cMundo da Lua\u201d, \u201cGlub Glub\u201d, \u201cX-Tudo\u201d e depois vinha o \u201cCastelo\u201d, quando o programa estreou. Ent\u00e3o tinha que explicar esse arcabou\u00e7o, pois n\u00e3o dava pra tratar o programa como um fen\u00f4meno isolado, por que ele n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<figure id=\"attachment_54713\" aria-describedby=\"caption-attachment-54713\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-54713 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/raios2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"779\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/raios2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/raios2-289x300.jpg 289w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-54713\" class=\"wp-caption-text\"><em>O TCC e o livro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 curioso que no livro h\u00e1 um caminho que passa por praticamente toda a televis\u00e3o infantil dessa fase, por que depois ele vai acabar no \u201cDisney Cruj\u201d (SBT) e nessas coisas todas que tamb\u00e9m s\u00e3o frutos do \u201cCastelo\u201d.<\/strong><br \/>\nNo TCC, na pesquisa inicial, tinha at\u00e9 mais coisas, tinha mais destaque, por exemplo, para as coisas que passavam na Cultura, mas n\u00e3o eram originalmente da emissora, como \u201cBeakman\u201d, \u201cOs Anjinhos\u201d, \u201cDoug\u201d, que eram compradas quase todas da Nickelodeon; \u201cAnos incr\u00edveis\u201d, que n\u00e3o era TV infantil, mas estava ali pr\u00f3ximo, tinha destaque para \u201cUm Menino Maluquinho\u201d, que \u00e9 um programa sensacional da TVE, feito pela Anna Muylaert nos anos 2000. Mas essas cita\u00e7\u00f5es acabaram sendo cortadas por falta de espa\u00e7o, pois pensei \u201co que \u00e9 o foco da narrativa? O \u2018Castelo\u2019 e as pessoas do \u2018Castelo\u2019\u201d, porque \u00e9 isso, voc\u00ea precisa dar uma trajet\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o, as pessoas aprenderam a fazer TV infantil \u2013 e acho que o \u201cCastelo\u201d \u00e9 o produto mais bem acabado dessa sequ\u00eancia \u2013 fazendo, \u00e9 como fazer jornalismo: eu brinco que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/bruno-capelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fazer anos e anos de reportagens pro Scream &amp; Yell me ensinou a fazer entrevista<\/a>, que me permitiu escrever esse livro, porque voc\u00ea conseguia passar uma hora, uma hora e meia, duas horas com os entrevistados, perguntando \u201cme explica isso, me conta essa hist\u00f3ria\u201d e depois brincar e decupar e reunir. Ent\u00e3o tem esse arco, tem que passar por tudo e \u00e0s vezes de uma forma at\u00e9 n\u00e3o cronol\u00f3gica, mas de uma forma l\u00f3gica. Tem um cap\u00edtulo dedicado aos bonecos, uma parte super importante do \u201cCastelo\u201d, e eles aparecem muito forte no \u201cBambalal\u00e3o\u201d e depois s\u00e3o retomados no \u201cCastelo\u201d \u2013 tem alguns apari\u00e7\u00f5es ali no \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d, mas \u00e9 pouco. Eles s\u00e3o super importantes para o \u201cCastelo\u201d e est\u00e3o ali no \u201cBambalal\u00e3o\u201d, e eu n\u00e3o falei do \u201cBambalal\u00e3o\u201d no come\u00e7o do livro, pra poder peg\u00e1-lo no meio \u2013 achar toda essa estrutura a\u00ed foi o trabalho dos \u00faltimos tr\u00eas, quatro anos. O livro tem o que eu chamo de quatro vers\u00f5es, a que foi publicada \u00e9 a vers\u00e3o \u201cQuatro e meio &#8211; uma nova esperan\u00e7a\u201d depois dos cortes do George Lucas, porque foram 4 vers\u00f5es diferentes: a primeira do TCC, depois tiveram duas que estavam tentando chegar nesse meio do caminho, mas ainda eram meio atrapalhadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas mesmo assim voc\u00ea tem personagens muito interessantes. Nesse cap\u00edtulo dos bonecos, por exemplo, tem uma constru\u00e7\u00e3o do personagem de como ele se formou dentro da Cultura como trabalhador daquele universo que ele desconhecia antes.<\/strong><br \/>\nEu estava falando com o meu pai sobre o livro e a gente chegou numa defini\u00e7\u00e3o que \u00e9: a gente pensa no \u201cCastelo\u201d e uma coisa que eu sempre pensei muito \u00e9 que a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 do Cao Hamburguer e do Flavio de Souza; depois a Anna Muylaert entra pra completar os roteiros. E quando se fala no \u201cCastelo\u201d pensa-se muito nesses tr\u00eas nomes e muito nos atores que fizeram parte daquilo, eventualmente um ou outro respons\u00e1vel t\u00e9cnico. E o \u201dCastelo\u201d \u00e9 muito mais do que isso, porque \u00e9 um programa que tem tantas partes que n\u00e3o dava pra concentrar a produ\u00e7\u00e3o. Todos os quadros, por exemplo, tem roteiristas independentes, forma\u00e7\u00f5es independentes, coordenados por Cao, Flavio e Anna, mas s\u00e3o independentes e logo que eu percebi isso pensei que a hist\u00f3ria n\u00e3o poderia se resumir ao trio, ao n\u00facleo duro ou a gest\u00e3o da Cultura, ela tinha que falar dos oper\u00e1rios: tem que falar do bonequeiro, que \u00e9 o cara que vai ficar uma hora todo torto esperando a grava\u00e7\u00e3o de uma cena pra falar tr\u00eas frases, \u00e0s vezes. Tem que funcionar assim, tem que contar a hist\u00f3ria desses caras, porque no fim das contas, as pessoas lembram de v\u00e1rias partes. Durante a pesquisa, por exemplo, eu descobri que a \u00e1rvore n\u00e3o era um plano do Cao, foi uma coisa que o S\u00edlvio Galv\u00e3o criou, e ele \u00e9 um personagem super importante no livro. \u00c9 um cara que \u00e9 autodidata, que estudou sozinho, aprendeu sozinho a fazer maquete, foi trabalhar com visual e fez uma \u00e1rvore inteira sozinho e falou: \u201c\u00d3, t\u00e1 pronta aqui a \u00e1rvore, vamos usar a \u00e1rvore para colocar essa cobra aqui dentro\u201d e \u00e9 um elemento super marcante da s\u00e9rie. O J\u00e9sus Seda, o cara que confecciona todos os bonecos, fala um neg\u00f3cio muito bonito que \u00e9 \u201ceu s\u00f3 crio o boneco, o boneco s\u00f3 ganha vida quando vai l\u00e1 o bonequeiro botar a m\u00e3o e brincar\u201d e \u00e9 um cara super importante, porque ele cria o visual da Celeste, do Mau, do Porteiro. Era importante contar a hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 das pessoas que todo mundo conhece, mas tamb\u00e9m de quem estava ali nos bastidores. S\u00e3o 250 pessoas, ent\u00e3o faltou muita gente para falar, mas a gente tentou dar conta do m\u00e1ximo poss\u00edvel. Eu acho que \u00e9 um trabalho coletivo, TV \u00e9 um trabalho de muitas pessoas, n\u00e3o \u00e9 um cara pegando uma c\u00e2mera e fazendo sozinho. E \u00e0s vezes a gente se resume, especialmente no jornalismo cultural, em falar s\u00f3 dos protagonistas e esquecer os oper\u00e1rios.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mau e Godofredo - Castelo R\u00e1-Tim-Bum\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/J34Kpm44m2M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho que o livro cumpre esse papel. Fiquei muito surpreso com a quantidade de pessoas envolvidas, o tamanho dos cen\u00e1rios, o tamanho das coisas, a produ\u00e7\u00e3o que foi despendida para fazer aquilo, para mim \u00e9 meio surreal que eles fizeram tudo aquilo, pois os outros programas da cultura s\u00e3o t\u00e3o pequenos, t\u00e3o simples.<\/strong><br \/>\n\u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d n\u00e3o \u00e9 um programa simples, ele \u00e9 um programa t\u00e3o complexo quanto o \u201cCastelo\u201d, em termos de produ\u00e7\u00e3o. \u201cMundo da Lua\u201d \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea analisar at\u00e9 em termos de or\u00e7amento, o or\u00e7amento do \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d \u00e9 maior que o do \u201cMundo da Lua\u201d, que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, precisava botar gente pra filmar ali. O \u201cGlub Glub\u201d \u00e9 um programa barat\u00edssimo, simples, basicamente voc\u00ea tem um chroma key e duas pessoas interagindo e chamando desenho \u2013 o custo \u00e9 comprar desenho. Mas se voc\u00ea analisar voc\u00ea se pergunta: \u00e9 uma super produ\u00e7\u00e3o? Tem muito dinheiro? Tem, mas tamb\u00e9m tem um improviso ferrado, porque \u00e9 um dinheiro pra fazer um programa que tem um cen\u00e1rio gigantesco, adiciona a\u00ed o cen\u00e1rio de todos os quadros, tem di\u00e1rias fora, tem muito formato: boneco, anima\u00e7\u00e3o, n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, fic\u00e7\u00e3o, reportagem, tem os indiozinhos, que \u00e9 uma filmagem super complicada, que \u00e9 filmar no meio do mato, como \u00e9 que voc\u00ea sonoriza isso? \u00c9 muito complicado. \u00c9 um programa que tem uma complexidade doida. E \u00e9 muito legal quantas pessoas envolvidas falam uma das outras, \u201csem fulano tinha dado errado\u201d. O Fl\u00e1vio de Souza deixa o programa no meio pra fazer uma novela no SBT, uma proposta irrecus\u00e1vel, pela grana e pelo que era, e a Anna Muylaert assume o papel ali e o Cao fala que \u201cse n\u00e3o fosse a Anna, tinha dado merda\u201d, mas \u00e9 uma coisa que muita gente diz \u201cse n\u00e3o fosse fulano teria dado merda\u201d, pra mim ainda \u00e9 absurdo olhar e falar: esses caras botaram esse programa de p\u00e9 em dois anos, do final de 1992 ao final de 1994, estava tudo feito, mas eu tamb\u00e9m sou suspeito para falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu fiquei chocado com os figurinos, por exemplo. A internet adora os figurinos do \u201cCastelo\u201d e as pessoas gostam de fazer piadas \u201cah, os figurinos parecem roupas de clubber em festa de techno de S\u00e3o Paulo\u201d, ent\u00e3o ver a Angela Dip contando como era usar aquele figurino, ou mesmo os figurinos da Morgana, que eram cheios de camadas, voc\u00ea fica chocado com o quanto era surreal.<\/strong><br \/>\nEra surreal, e era surreal porque tem uma elabora\u00e7\u00e3o de figurino que \u00e9 ferrada e era um supl\u00edcio usar aquilo tudo. A Angela Dip, por exemplo, ficava mais de hora para se montar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, o figurino do Etevaldo que ele n\u00e3o podia fazer nada.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o podia nem segurar um copo d\u2019\u00e1gua, algu\u00e9m tinha que dar \u00e1gua na boca dele, ent\u00e3o \u00e9 um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o e de muita refer\u00eancia do Carlos Eduardo Gardin, que \u00e9 outro desses oper\u00e1rios, por assim dizer, do \u201cCastelo\u201d. Se voc\u00ea olhar o programa, voc\u00ea nem sabe, eu fui descobrir isso fazendo o livro: o \u201cCastelo\u201d estava botando Grace Jones para a crian\u00e7a brasileira, Paco Rabanne e Thierry Mugler, botando refer\u00eancias de alta costura.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Etevaldo - Castelo R\u00e1-Tim-Bum\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GfXVnmpxCAs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Coisas do Gaud\u00ed.<\/strong><br \/>\nSim, os cen\u00e1rios do <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/?s=Gaudi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gaud\u00ed<\/a>, o que \u00e9 muito louco. Eu estava pensando nisso esses dias: o \u201cCastelo\u201d me estragou, porque a gente vai ficar velho e estudar a arte contempor\u00e2nea e fala \u201cn\u00e3o, porque a poesia do Manuel Bandeira chocou a sociedade, as pinturas do Dal\u00ed e os pr\u00e9dios do Gaud\u00ed chocaram a sociedade\u201d, e essas foram algumas das primeiras coisas que eu vejo quando eu sou crian\u00e7a, ent\u00e3o o mundo pra mim tem que ser um pouco maluco assim, n\u00e3o pode ser normal, n\u00e3o pode ser quadradinho, retinho, o \u201cCastelo\u201d me estragou. Mas \u00e9 parte da teoria, uma das grandes for\u00e7as do \u201cCastelo\u201d e um dos diferenciais contra os outros programas da Cultura, que \u00e9 a teoria do construtivismo do Jean Piaget, tem uma base pedag\u00f3gica ali que \u00e9: voc\u00ea quer ensinar alguma coisa pra crian\u00e7a? Ensina, s\u00f3 que bota no contexto que ela entende. Quer colocar um castelo com uma cara de Gaud\u00ed, faz, s\u00f3 que bota num contexto que a crian\u00e7a vai entender que as pessoas que moram ali s\u00e3o um bando de bruxos e por isso a casa faz sentido. Quer mostrar poesia? Mostra, mas bota uma poesia do trem de ferro do Manuel Bandeira, junto com uma anima\u00e7\u00e3o de um trenzinho que faz sentido para a crian\u00e7a. Tinha Paulo Leminski no \u201cCastelo\u201d, eu, por exemplo, fui ler Leminski mesmo com mais de 20 anos para poder entender o que esse cara estava falando, s\u00f3 que estava ali para a crian\u00e7a, e crian\u00e7a \u00e9 um bicho muito mais inteligente que a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez um dos grandes sucessos do \u201cCastelo\u201d seja n\u00e3o subestimar as crian\u00e7as.<\/strong><br \/>\nExato, \u00e9 dar a informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma coisa que penso muito sobre como lidar com o jornalismo; \u00e0s vezes penso \u201cah eu vou colocar tal coisa no meu texto, quem pegar pegou, quem n\u00e3o pegar n\u00e3o pegou\u201d, mas \u00e9 mais importante voc\u00ea oferecer do que voc\u00ea censurar. Melhor voc\u00ea criar e falar \u201cn\u00e3o, vamos colocar isso a disposi\u00e7\u00e3o e quem pegar a refer\u00eancia vai seguir em frente e vai se divertir e vai evoluir, do que o contr\u00e1rio\u201d. Acho que \u00e9 uma beleza do \u201cCastelo\u201d, pois t\u00eam epis\u00f3dios inteiros sobre o Leonardo da Vinci. Voc\u00ea est\u00e1 falando para crian\u00e7as de 4, 5 anos que Leonardo da Vinci pintou a Monalisa e fez um primeiro modelo de helic\u00f3ptero da humanidade, \u00e9 muito bonito como o \u201cCastelo\u201d faz tudo isso. E, querendo ou n\u00e3o, isso \u00e9 cultura geral, que \u00e9 uma das grandes fun\u00e7\u00f5es que a TV tem (ou tinha naquela \u00e9poca), coisas que a escola \u00e0s vezes n\u00e3o pode dar. Os programas da Cultura eram pensados como esse apoio pedag\u00f3gico, mas que n\u00e3o era chato, que n\u00e3o era \u201cum mais um \u00e9 igual a dois\u201d, \u00e9 divertido, \u00e9 aquele epis\u00f3dio da \u201cmatem\u00e1quina\u201d, que \u00e9 uma m\u00e1quina em que voc\u00ea multiplica pessoas e que voc\u00ea entende matem\u00e1tica de um jeito muito f\u00e1cil: as quatro opera\u00e7\u00f5es est\u00e3o ali, voc\u00ea fica multiplicando as pessoas e d\u00e1 pra entender. Tem uma beleza de n\u00e3o subestimar a crian\u00e7a. \u00c0s vezes olho a programa\u00e7\u00e3o infantil de hoje e acho muito bem feita, muito bem produzida, acho que os programas de hoje n\u00e3o subestimam e d\u00e3o coisas legais para as crian\u00e7as, mas n\u00e3o no mesmo tamanho, na mesma carga que o \u201cCastelo\u201d fazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tamb\u00e9m acho que era outro cen\u00e1rio de produzir coisas para as crian\u00e7as, pois hoje em dia qualquer coisa que voc\u00ea vai produzir voc\u00ea concorre com a \u201cGalinha Pintadinha\u201d, que \u00e9 muito b\u00e1sico.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea est\u00e1 competindo n\u00e3o s\u00f3 com a \u201cGalinha Pintadinha\u201d, mas voc\u00ea est\u00e1 competindo com toda a tecnologia. A gente j\u00e1 discute a quantidade de informa\u00e7\u00e3o que recebemos, agora pensa pra crian\u00e7a? Parte do que \u00e9 legal de voc\u00ea ser crian\u00e7a \u2013 pelo menos do que me lembro de ser legal \u2013 \u00e9 que eu estava entendiado, n\u00e3o sabia o que fazer com o meu tempo j\u00e1 que eu n\u00e3o tinha obriga\u00e7\u00e3o nenhuma, a\u00ed eu tinha que inventar brincadeiras, e parte dessas brincadeiras depois eu olho e falo \u201cnossa, isso \u00e9 muito coisa de jornalista, puta que pariu\u201d. Lembro que eu tinha um joguinho de futebol e eu n\u00e3o s\u00f3 brincava de jogar futebol, eu narrava a partida, ent\u00e3o era a brincadeira que nascia do t\u00e9dio. E hoje voc\u00ea n\u00e3o fica entediado, como adulto \u00e9 muito dif\u00edcil ficar entediado, o meu t\u00e9dio \u00e9 nessa de n\u00e3o querer receber informa\u00e7\u00f5es, e a crian\u00e7a hoje tem isso, ela tem n\u00e3o s\u00f3 a TV aberta, mas tem a TV paga, o videogame, a internet, tem o YouTube, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/07\/02\/existe-vida-inteligente-na-secao-infantil-da-netflix\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a Netflix<\/a>, uma s\u00e9rie de op\u00e7\u00f5es. Falo um pouco disso no livro de que um dos motivos por que o \u201cCastelo\u201d desse t\u00e3o certo \u00e9 porque ele foi um fen\u00f4meno de massa: a crian\u00e7a rica e de classe m\u00e9dia assistia \u2013 n\u00e3o vou dizer que a crian\u00e7a pobre, porque a crian\u00e7a pobre mesmo n\u00e3o tinha nem televis\u00e3o ou talvez a Cultura n\u00e3o chegasse na casa dela, como chegava raramente em outros lugares mais distantes de S\u00e3o pPaulo \u2013 aprendi essa com voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, a Cultura s\u00f3 chegou na minha casa (no Sul) quase nos anos 2000, na minha cidade algumas coisas da Cultura eram transmitidas pela TVE-RS, s\u00f3 que mesmo assim era muito dif\u00edcil de se sintonizar, ent\u00e3o alguns bairros n\u00e3o sintonizavam a TVE. Eu s\u00f3 tive acesso a esses canais quando a minha m\u00e3e comprou uma antena parab\u00f3lica, ent\u00e3o eu tive contato com a TV Cultura, Futura e outras coisas assim, ent\u00e3o j\u00e1 era bem mais pra frente.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea tinha o que, uns 8 ou 9 anos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que 7 anos.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o ainda est\u00e1 na idade do \u201cCastelo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, acompanhei o \u201cCastelo\u201d, o \u201cMundo da Lua\u201d, essas coisas, mas acredito que o \u201cCastelo\u201d talvez n\u00e3o tenha sido a coisa que mais impactou. O \u201cMundo da Lua\u201d eu assisti todos de saber de cor.<\/strong><br \/>\nAcho que isso pode ter a ver com a idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, pois eu j\u00e1 estava um pouco mais velho.<\/strong><br \/>\n\u00c9 engra\u00e7ado que teve uma hora que eu pensei em fazer um trabalho sobre o \u201cMundo da Lua\u201d, mas \u00e9 porque mais velho, adulto, o programa \u00e9 mais \u00f3bvio: \u00e9 uma s\u00e9rie. \u00c9 uma s\u00e9rie de fam\u00edlia, uma sitcom muito tradicional, \u00e9 tipo \u201cUma Grande fam\u00edlia\u201d s\u00f3 que mais focada na crian\u00e7a. Mas depois olhei e falei n\u00e3o, \u00e9 o \u201cCastelo\u201d que me pegava mais, pra mim \u00e9 o \u201cCastelo\u201d que sempre esteve l\u00e1 e eu nunca tive que pensar que ele existia. Mas voltando a quest\u00e3o dos meios, o \u201cCastelo\u201d surge num momento em que crian\u00e7a rica e crian\u00e7as que tinham acesso a Cultura \u2013 em SP poderiam at\u00e9 ser crian\u00e7as pobres \u2013 estavam vendo a mesma coisa. Me lembro de chegar na creche e comentar do que eu tinha visto ontem, eu era de classe m\u00e9dia, classe m\u00e9dia alta, mas assim, crian\u00e7as que eram de classe m\u00e9dia baixa tamb\u00e9m falavam do \u201cCastelo\u201d, as brincadeiras estavam ali. Logo depois disso voc\u00ea j\u00e1 tem a TV paga e a crian\u00e7a de classe m\u00e9dia ou alta j\u00e1 escapa pra ela, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 falando de outra coisa. Voc\u00ea depois disso j\u00e1 tem a internet e a \u201cGalinha Pintadinha\u201d \u00e9 um divisor de \u00e1guas. E hoje o streaming pega as coisas que est\u00e3o na TV paga e na TV aberta, mas passa de outro jeito, \u00e9 muito louco porque a crian\u00e7a hoje n\u00e3o entende o que \u00e9 um comercial, n\u00e3o entende o que \u00e9 ter que esperar o programa. Quando eu era crian\u00e7a tinha uma fita de v\u00eddeo que basicamente era um dia de grade de programa\u00e7\u00e3o da Cultura gravado, ent\u00e3o quando era feriado ou eu ia viajar para um lugar que n\u00e3o tinha TV, eu levava essa fita comigo para caso eu quisesse ver os programas, eu os tinha, mas a crian\u00e7a de hoje n\u00e3o entende que voc\u00ea tem que esperar at\u00e9 determinado hor\u00e1rio para passar \u2013 \u00e9 s\u00f3 entrar na Netflix e assistir. E isso gera uma baita diferen\u00e7a em como as coisas s\u00e3o recebidas. Pode ser um fen\u00f4meno popular? Pode, at\u00e9 maior, se parar para analisar a \u201cPeppa Pig\u201d \u00e9 muito grande, assim como a \u201cGalinha Pintadinha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A \u201cPeppa Pig\u201d era muito grande, considerando que voc\u00ea pensa que ela era da TV paga, ent\u00e3o teoricamente alguns anos atr\u00e1s ela n\u00e3o atingiria o mesmo p\u00fablico que atingiu.<\/strong><br \/>\nAcho que os fen\u00f4menos podem at\u00e9 ser maiores, os n\u00fameros da \u201cGalinha Pintadinha\u201d s\u00e3o assustadores, a quantidade de seguidores, de visualiza\u00e7\u00f5es e inscritos que tem o canal, s\u00f3 que \u00e9 feito de forma diferente, porque voc\u00ea precisa ter internet. Hoje at\u00e9 parece simples porque em qualquer celular voc\u00ea bota um plano de dados e consegue baixar para ficar offline, mas isso \u00e9 coisa de dois, tr\u00eas anos. Quando eu comecei o trabalho do \u201cCastelo\u201d, n\u00e3o tinha isso, esse mundo n\u00e3o existia e isso \u00e9 muito diferente do que \u00e9 botar uma TV, botar uma antena. E n\u00e3o \u00e9 uma TV que voc\u00ea vai comprar para ver o \u201cCastelo\u201d, \u00e9 pra ver a novela e o jogo de futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 curioso que \u2013 talvez por essa quest\u00e3o de reprisar tanto na Cultura \u2013 as crian\u00e7as continuam tendo acesso a isso, porque, por exemplo, o meu sobrinho assiste ao \u201cCastelo\u201d, agora n\u00e3o tanto por que os reprises diminu\u00edram, mas ele ainda assiste muito o \u201cCocoric\u00f3\u201d, que reprisou bastante. E ele assiste v\u00e1rias coisas, o \u201cQuintal da Cultura\u201d, por exemplo, ele sabe fazer as coisinhas que eles ensinam.<\/strong><br \/>\nE \u00e9 algo muito bonito que a Cultura ainda mantenha isso, porque isso \u00e9 uma outra coisa interessante. Quando o \u201cCastelo\u201d foi exibido quase toda a TV tinha uma programa\u00e7\u00e3o infantil. Eu lembro que tinham peda\u00e7os do meu dia que eu saia da Cultura e ia pro SBT ver Hanna-Barbera, ver \u201cFlinstons\u201d, \u201cJetsons\u201d, que s\u00e3o desenhos incr\u00edveis. A Globo tinha a \u201cTV Globinho\u201d, o \u201cBambulu\u00e1\u201d, a Record tinha \u201cPokem\u00f3n\u201d, a Manchete tinha um monte de animes, \u201cCavaleiros do Zod\u00edaco\u201d, \u201cSuper Campe\u00f5es\u201d, quase todas as TVs tinham alguma coisa para crian\u00e7a; e hoje n\u00e3o tem. Parte disso por conta da proibi\u00e7\u00e3o de fazer publicidade para crian\u00e7a? Sim e est\u00e1 muito certo. Muitas pessoas perguntam: voc\u00ea acha ruim que seja proibido? Eu falo n\u00e3o, n\u00e3o acho, crian\u00e7a n\u00e3o tem idade para entender o que \u00e9 publicidade \u2013 adulto \u00e0s vezes n\u00e3o tem idade para entender o que \u00e9 publicidade, ent\u00e3o imagina uma crian\u00e7a, ent\u00e3o est\u00e1 cert\u00edssimo. S\u00f3 que voc\u00ea tem um efeito colateral ferrado que \u00e9 \u201cah, beleza n\u00e3o vou fazer propaganda pra crian\u00e7a? Ent\u00e3o n\u00e3o vou passar programa pra crian\u00e7a, n\u00e3o vou gastar produzindo\u201d, porque \u00e9 dif\u00edcil. O programa mais b\u00e1sico pra crian\u00e7a \u00e9 mais dif\u00edcil do que voc\u00ea fazer um programa para adulto, porque se voc\u00ea parar para pensar, um talk show \u00e9 a estrutura mais b\u00e1sica que tem, \u00e9 tipo dois caras falando na frente de uma c\u00e2mera, claro, tem produ\u00e7\u00e3o, est\u00fadio, mas \u00e9 b\u00e1sico. Programa de crian\u00e7a voc\u00ea n\u00e3o consegue entret\u00ea-la apenas com duas pessoas falando, tendo uma conversa igual a que a gente est\u00e1 tendo aqui. Ent\u00e3o isso \u00e9 super, super importante, a ideia de que o \u201cCastelo\u201d est\u00e1 numa \u00e9poca em que tinha programa\u00e7\u00e3o infantil e hoje n\u00e3o tem. A Cultura resiste com quest\u00f5es de or\u00e7amento super complicadas e tudo mais, mas continua produzindo e reprisando e tentando importar e trazer conte\u00fado \u2013 a pr\u00f3pria \u201cPeppa Pig\u201d passa na Cultura, mas \u00e9 super curioso pensar nisso. Tem gente que pergunta: \u201cvoc\u00ea acha ruim que passe Peppa Pig na Cultura?\u201d. Eu falo \u201colha, eu fico triste que a Cultura n\u00e3o consiga produzir mais o que ela produzia, mas eu n\u00e3o acho ruim\u201d, a \u201cPeppa Pig\u201d \u00e9 um baita desenho, super educativo, acho muito legal aquela coisa da estrutura familiar da Peppa Pig, ele \u00e9 um desenho feminista e \u00e9 muito legal que isso aconte\u00e7a. Assim como o \u201cCastelo\u201d, se voc\u00ea parar pra pensar, ele n\u00e3o chega a ser feminista, porque a Morgana est\u00e1 sempre no castelo e o tio Victor \u00e9 que sai pra trabalhar, mas ele tem uma coisa muito bonita que \u00e9 de uma fam\u00edlia n\u00e3o tradicional, assim ele consegue modelar diferentes formatos de fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 o pai e a m\u00e3e como era em o \u201cMundo da Lua\u201d, \u00e9 uma fam\u00edlia que contempla quem tem s\u00f3 o pai ou s\u00f3 a m\u00e3e ou \u00e9 criada pelo av\u00f3, pelo tio, est\u00e1 tudo ali contemplado, que \u00e9 uma coisa que eles roubaram da Disney. O Tio Patinhas e o Donald e os sobrinhos, mas que eu acho super interessante, porque \u00e9 uma discuss\u00e3o que tinha pouco na \u00e9poca.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Hist\u00f3ria do Macarr\u00e3o | Morgana e Adelaide\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BMProjGBkp4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho interessante que est\u00e1 no livro que eles tinham de escolher a personagem feminina e est\u00e1 no roteiro que ela \u00e9 n\u00e3o-branca, que ela precisaria ser negra ou asi\u00e1tica e isso j\u00e1 \u00e9 uma coisa muito avan\u00e7ada, considerando que todas as apresentadoras infantis na \u00e9poca eram brancas e loiras.<\/strong><br \/>\nEsse pensamento de representatividade est\u00e1 sempre ali com o \u201cCastelo\u201d, tanto que nos coadjuvantes era pensado para ter um \u00edndio, mas eles n\u00e3o conseguiram achar uma maneira de ter um \u00edndio, porque estava dif\u00edcil escalar um ator, ent\u00e3o eles criaram o quadro dos curumins. Era importante ter personagens masculinas e femininas de diferentes idades, de diferentes jeitos, \u00e9 engra\u00e7ado porque \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que faz todo sentido com a \u00e9poca, mas que hoje faz o programa parecer muito contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, porque depois do \u201cCastelo\u201d a gente v\u00ea que muitos programas da Cultura sempre tem personagens mais diversos, tanto que at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s havia uma imagem de que programas educativos t\u00eam negros, ind\u00edgenas, porque eles tinham uma diversidade maior. E antes do \u201cCastelo\u201d os programas n\u00e3o tem tanta diversidade, \u00e9 como se fosse um novo marco que eles colocam.<\/strong><br \/>\nSim. E isso tamb\u00e9m vem dessa estrutura pedag\u00f3gica, por que aconteceu o seguinte, acho que \u00e9 super importante falar, o \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d foi feito ainda muito no campo tradicional pedag\u00f3gico da Cultura, a emissora tinha um departamento pedag\u00f3gico pr\u00f3prio, e quando o \u201cCastelo\u201d vai ser feito, a Beth Carmona, que era a diretora de programa\u00e7\u00e3o olha e fala \u201ca gente precisa modernizar isso, n\u00e3o d\u00e1 para ser do mesmo jeito\u201d. E ela convida uma pedagoga que \u00e9 a Z\u00e9lia Cavalcanti, da Escola da Vila (que \u00e9 uma escola super conceituada de S\u00e3o Paulo nesse aspecto) pra pensar como \u00e9 que deve ser um programa infantil. A Z\u00e9lia escreve uma grande an\u00e1lise do \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d dizendo \u201colha, isso aqui funciona bem, isso aqui n\u00e3o funciona t\u00e3o bem, isso \u00e9 legal, isso n\u00e3o \u00e9\u201d, e v\u00e1rias coisas que s\u00e3o inovadoras no \u201cCastelo\u201d vem desse pensamento: a estrutura de fam\u00edlia, a estrutura de voc\u00ea trabalhar diferentes formatos, o respeito a intelig\u00eancia da crian\u00e7a. A Z\u00e9lia \u00e9 outro coadjuvante super necess\u00e1rio para o \u201cCastelo\u201d ser o que \u00e9 e \u00e9 engra\u00e7ado pensar nisso, pois \u00e9 um programa ainda feito numa estrutura tradicional, n\u00e3o \u00e9 um grupo independente, ainda que seja um programa feito por gente que estava fazendo arte independente em S\u00e3o Paulo nos anos 80, e o programa se fortalece a partir dessas experi\u00eancias. Por exemplo, o \u201cCastelo\u201d n\u00e3o se preocupa em falar sobre representatividade LGBT, mas voc\u00ea consegue olhar e entender coisas ali que fazem parte desse universo, fazem sentido, v\u00e1rios que est\u00e3o ali, tem um espectro, n\u00e3o sei, talvez voc\u00ea diga melhor do que eu, talvez eu esteja roubando lugar de fala \u2013 voc\u00ea olha e tem uma identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se faz sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz sentido, pois h\u00e1 personagens que n\u00e3o representam aspectos de g\u00eanero muito espec\u00edficos, eles est\u00e3o sempre em determinados limbos e isso para a crian\u00e7a pode ser interessante para ela entender que n\u00e3o existem coisas 100% de menino e 100% de menina, isso fica muito mais amplo e mais simples para a crian\u00e7a.<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o \u00e9 uma coisa que o \u201cCastelo\u201d faz declaradamente e nem avan\u00e7a nisso, at\u00e9 por que tem v\u00e1rios epis\u00f3dios que ainda falam dessa coisa de menino e de menina, da Biba n\u00e3o brigar com os meninos e tudo mais, de ter coisas de divis\u00e3o por g\u00eanero ali nos personagens, mas olhando assim, eu acho que a Caipora e o Etevaldo s\u00e3o dois personagens muito \u00f3bvios nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, os personagens secund\u00e1rios s\u00e3o bem fora desse espectro de g\u00eanero e as crian\u00e7as entendem eles sendo diferentes.<\/strong><br \/>\nO Etevaldo e a Caipora s\u00e3o muito isso. E \u00e9 muito legal voc\u00ea pensar, por exemplo, que a Celeste \u00e9 feita por um homem, as pessoas ficam super surpresas com isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Patadas da Celeste | Lista Listilha Listosa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gQKZ3iGENfw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Celeste, por exemplo, \u00e9 100% cultura LGBT, por que ela \u00e9 perfeita!<\/strong><br \/>\n\u00c9 at\u00e9 engra\u00e7ado isso, as pessoas me perguntam: qual seu personagem favorito? E eu sempre escolho personagens que tem muito a ver com a minha figura: o nerd h\u00e9tero. Meus personagens favoritos: Pedro e Gato Pintado, totalmente \u201cboring\u201d se formos olhar por alguns aspectos. O que \u00e9 o Gato Pintado? Ele est\u00e1 dentro da biblioteca lendo poesia, ele \u00e9 muito travadinho, mas \u00e9 um pouco de quem eu acho que eu sou tamb\u00e9m. \u00c0s vezes eu penso que podia achar um personagem mais legal para responder nessa hora, podia falar que eu gosto, sei l\u00e1, do Etevaldo e do Bong\u00f4. N\u00e3o adianta, o meu personagem \u00e9 o Pedro, que \u00e9 super nerd e o Gato Pintando, que \u00e9 super nerd, eles s\u00e3o quase a mesma persona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode ser por isso tamb\u00e9m que eu sempre escolheria a Pen\u00e9lope, eu gosto dela.<\/strong><br \/>\nQue \u00e9 uma grande personagem. E \u00e9 muito engra\u00e7ado, fazendo jornalismo voc\u00ea sempre tem aquela primeira aula super chata que rola quase sempre, que o professor quer conhecer a turma e pergunta \u201cpor que voc\u00ea veio fazer jornalismo?\u201d e, s\u00e9rio, eu j\u00e1 ouvi v\u00e1rias vezes de mulheres que estudavam comigo \u201ceu resolvi estudar jornalismo por causa da Pen\u00e9lope\u201d, eu olho e falo \u201cseri\u00e3o?\u201d, eu acho engra\u00e7ado, mas \u00e9 muito legal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Esc\u00e2ndalos da Pen\u00e9lope | Lista Listilha Listosa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Aj2sfJIAKa4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 que a Pen\u00e9lope, teoricamente, era meio vil\u00e3.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea acha que ela era vil\u00e3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho que de certo modo: ela aparecia e atrapalhava, mas tamb\u00e9m ensinava, e eu gostava do fato de ela ser d\u00fabia e nunca saber o que esper\u00e1vamos dela. E quando ach\u00e1vamos que ela ia fazer algo ruim, ela ajudava.<\/strong><br \/>\nNunca tinha analisado por esse aspecto que ela \u00e9 uma vil\u00e3. Acho que ela n\u00e3o \u00e9 uma vil\u00e3, mas eu acho que ela \u00e9 um personagem muito que t\u00e1 ali, funciona. O vil\u00e3o, vil\u00e3o mesmo, \u00e9 o Doutor Abobrinha, ponto. E o Mau tem um pouco de vil\u00e3o, mas eu acho um vil\u00e3o t\u00e3o fofo. Mas a Pen\u00e9lope eu nunca tinha pensado por esse ponto, ela \u00e9 meio contradit\u00f3ria, meio atrapalhada. Ela traz o caos, eu acho que \u00e9 um pouco disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem uma coisa de eles terem essa coisa de a m\u00eddia ser sempre meio d\u00fabia: ser\u00e1 que ela est\u00e1 ali pra ajudar?<\/strong><br \/>\nAparecer no jornal \u00e9 legal ou n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 sempre um meio termo.<\/strong><br \/>\nE acho que isso \u00e9 super interessante olhando pelo ponto de vista de hoje quando a gente pensa em fake news, desinforma\u00e7\u00e3o, toda hora essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que surge no dia a dia da profiss\u00e3o. Eu sempre falo que o problema n\u00e3o \u00e9 a fake news, a informa\u00e7\u00e3o, redes sociais, algoritmos, nada, o problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o tiveram ou n\u00e3o entenderam um neg\u00f3cio chamado contrato de leitura. Contrato de leitura \u00e9 voc\u00ea entender que o que voc\u00ea est\u00e1 lendo foi escrito por outro humano e que aquilo \u00e9 parcial ou imparcial e tem raz\u00f5es para ter determinado direcionamento; a partir do momento em que voc\u00ea entende isso e afirma esse contrato voc\u00ea vai entender as limita\u00e7\u00f5es de cada texto. Tem muita gente que fala do narrador n\u00e3o-confi\u00e1vel na literatura, o contrato de leitura \u00e9 voc\u00ea entender que \u00e0s vezes o narrador n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel, em certos aspectos. No jornalismo e na n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, e acho que o \u201cCastelo\u201d faz isso super bem de uma forma super madura para a crian\u00e7a que nem entende direito o que \u00e9 a m\u00eddia. Como se dissesse assim \u201cdesconfia, tenta entender o que est\u00e1 acontecendo, mas desconfia um pouquinho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse cen\u00e1rio todo \u00e9 curioso quando a gente pensa que ontem saiu o resultado do <a href=\"https:\/\/guiadoestudante.abril.com.br\/atualidades\/entenda-o-pisa-avaliacao-mundial-de-educacao-e-o-resultado-do-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00edndice PISA<\/a> e que apenas 2% dos adolescentes de 15 anos conseguem ler algo, entender algo, analisar aquilo e fazer conex\u00f5es a partir disso. S\u00e3o dados bem assustadores, pois a maioria deles consegue ler, at\u00e9 entende determinadas informa\u00e7\u00f5es, mas eles n\u00e3o conseguem avan\u00e7ar naquilo.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 muito maluco, esse mesmo \u00edndice mostra a disparidade social que existe no Brasil: as escolas de elite superam o desempenho da Finl\u00e2ndia, enquanto escolas pobres ficam atr\u00e1s do Peru, sabe, o que a gente est\u00e1 fazendo de errado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas isso tamb\u00e9m \u00e9 curioso: em alguns n\u00edveis eles superam esses pa\u00edses ricos, mas, por exemplo, no n\u00edvel de leitura e compreens\u00e3o, alguns pa\u00edses como a China superam as escolas de elite do Brasil. \u00c9 um cen\u00e1rio em que muitas vezes o adolescente consegue fazer c\u00e1lculos ou consegue entender de ci\u00eancia, mas ele n\u00e3o consegue ler um texto e discernir se aquilo \u00e9 um fato ou uma opini\u00e3o, por exemplo.<\/strong><br \/>\nO que \u00e9 algo super maluco que a gente tem debates enormes no jornalismo sobre isso: esse texto \u00e9 uma an\u00e1lise ou esse texto \u00e9 uma reportagem? J\u00e1 vivi situa\u00e7\u00f5es dentro da reda\u00e7\u00e3o que s\u00e3o sobre isso, as pessoas n\u00e3o est\u00e3o entendendo que isso \u00e9 uma an\u00e1lise, come\u00e7am a xingar, ou n\u00e3o entendem que isso aqui \u00e9 a opini\u00e3o de um colunista e n\u00e3o de uma reportagem. Caralho, algo que para a gente que trabalha com isso \u00e9 b\u00e1sico. Quem est\u00e1 escrevendo? Ahhh, agora eu entendi. \u00c9 louco isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 meio que a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas tem hoje em dia com a cr\u00edtica de qualquer forma, elas ficam com uma rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre tipo: \u201cah, est\u00e1 tudo errado porque eu n\u00e3o concordo com isso que voc\u00ea escreveu\u201d.<\/strong><br \/>\nFazer cr\u00edtica \u00e9 dif\u00edcil, fazer cr\u00edtica bem feita \u00e9 muito dif\u00edcil e \u00e9 algo que eu tenho ansiado no livro e tem rolado aos poucos, mas por enquanto s\u00f3 positivas. E assim, ningu\u00e9m quer ouvir cr\u00edtica, ningu\u00e9m quer falar \u201cporra, errou, fez merda, est\u00e1 errado\u201d, mas por outro lado eu fico curioso para saber o que v\u00e3o achar de errado no livro, porque \u00e9 importante. A palavra cr\u00edtica \u00e9 isso, voc\u00ea quebrar, a raiz est\u00e1 em quebrar, atacar, fazer uma cr\u00edtica construtiva \u00e9 quase como negar a palavra cr\u00edtica e eu tenho pensado nisso: eu quero ler cr\u00edticas do meu livro, mas que des\u00e7am a porrada \u2013 n\u00e3o fa\u00e7am isso de forma leviana, pelo amor de deus, mas pra eu entender onde eu errei, pois isso pra mim faz a maturidade. E isso \u00e9 uma forma muito madura de lidar com a cr\u00edtica, a cr\u00edtica \u00e9 uma maneira de voc\u00ea evoluir. \u00c9 engra\u00e7ado, as pessoas n\u00e3o entendem muito bem essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acredito que \u00e0s vezes as pessoas n\u00e3o entendem uma rela\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica como um contexto de fazer uma an\u00e1lise de linkar aquilo dentro de outros espa\u00e7os, por exemplo, muitas pessoas pensam que cr\u00edtica \u00e9 apenas dizer \u201cisso \u00e9 bom\u201d e \u201cisso \u00e9 ruim\u201d, n\u00e3o necessariamente aquilo \u00e9 100% bom ou 100% ruim, voc\u00ea entende que aquilo tem qualidades, tem defeitos e aquilo tem uma import\u00e2ncia X dentro de um cen\u00e1rio.<\/strong><br \/>\nE \u00e0s vezes \u00e9 engra\u00e7ado, pois eu j\u00e1 me deparei com isso, voc\u00ea tem cr\u00edticas falando bem de alguma coisa, mas aquilo \u00e9 importante para o contexto cultural. Eu vou criar uma pol\u00eamica agora: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/02\/cinema-bacurau-de-kleber-mendonca-filho-e-juliano-dornelles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eu n\u00e3o gostei de \u201cBacurau\u201d<\/a> [Kleber Mendon\u00e7a Filho e Juliano Dornelles, 2019], por que eu acho que tem v\u00e1rios buracos ali, v\u00e1rias quest\u00f5es de roteiro que n\u00e3o s\u00e3o contempladas, j\u00e1 li entrevistas, j\u00e1 li teorias, mas pra mim n\u00e3o funciona, \u00e9 falho em alguns aspectos, e eu seria totalmente capaz de escrever uma cr\u00edtica falando porque \u201cBacurau\u201d \u00e9 um filme extremamente necess\u00e1rio para os tempos que a gente est\u00e1 vivendo, em v\u00e1rios aspectos, e isso parece contradit\u00f3rio, mas n\u00e3o \u00e9, por que \u00e9 justamente essa din\u00e2mica de voc\u00ea lidar com a cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, eu assisti \u201cBacurau\u201d, eu gosto do filme, mesmo entendendo os problemas que est\u00e3o ali, porque nesse momento em que estamos o filme \u00e9 t\u00e3o cat\u00e1rtico que eu penso que se ele tivesse sido lan\u00e7ado antes da elei\u00e7\u00e3o de 2018, eu tenho certeza que ele n\u00e3o teria o mesmo efeito que teve em mim agora, por exemplo.<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o. Uma das coisas que eu n\u00e3o gosto \u00e9 que ele n\u00e3o me gerou um efeito cat\u00e1rtico t\u00e3o forte quanto ele gerou em outras pessoas, eu estava esperando \u2013 t\u00e1, eu estou entendendo o que est\u00e1 se passando e eu vim me preparando ao longo do filme para ter essa catarse, mas ela n\u00e3o pegou. \u00c9 curioso e \u00e9 uma das coisas que eu fico pensando, porque eu ainda fico travado e acho interessante esse cen\u00e1rio de voc\u00ea deixar a d\u00favida: \u201colha, eu n\u00e3o gostei do filme, mas eu seria capaz de falar bem dele\u201d, isso \u00e9 muito mais instigante do que ver um filme que voc\u00ea fala \u201cp\u00f4, legal, gostei, bacana\u201d, vi duas horas, me diverti e n\u00e3o est\u00e1 me fazendo pensar, como sei l\u00e1, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/19\/cinema-yesterday-oferece-leveza-conforto-amor-e-grandes-cancoes-num-momento-fragil-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cYesterday\u201d [Danny Boyle, 2019]<\/a>, que eu adorei, como f\u00e3 de Beatles eu adorei, mas eu olho e falo \u201clegal, uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica fofinha que tem v\u00e1rios problemas de execu\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios problemas de machismo, de concep\u00e7\u00e3o de mundo, mas que eu ri, me diverti e at\u00e9 chorei em algum momento\u201d, mas eu sei que eu vou falar muito mais de \u201cBacurau\u201d do que de \u201cYesterday\u201d. No final das contas, \u00e9 importante que as coisas sejam criticadas, mas n\u00e3o pode ser na chave do fale bem ou fale mal, \u00e9 preciso apresentar argumentos que justifiquem por que aquilo est\u00e1 bem adequado ao contexto da sociedade de hoje ou n\u00e3o, eu acho que esse \u00e9 o grande ponto de uma cr\u00edtica. Eu gosto muito de uma coisa que o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/07\/01\/entrevista-ricardo-alexandre-fala-de-espiritualidade-articulismo-e-musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ricardo Alexandre<\/a> fala: que ele ao inv\u00e9s de sair do \u00e9 bom ou \u00e9 ruim, ele criou uma chave que \u00e9 passou das minhas expectativas ou me decepcionou, por que a\u00ed fica uma coisa totalmente pessoal e as pessoas come\u00e7am a entender do que ele estava falando &#8211; s\u00f3 que pode chegar uma hora tamb\u00e9m que isso se torna algo super repetitivo e umbiguista, eu acho legal como exerc\u00edcio, mas \u00e0s vezes fazer isso sempre tamb\u00e9m d\u00e1 errado, \u00e9 preciso olhar para o contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao livro, para mim, que n\u00e3o tenho o \u201cCastelo\u201d como algo 100% nost\u00e1lgico &#8211; como eu falei, n\u00e3o era a s\u00e9rie que eu mais amava da TV Cultura &#8211; o livro funciona comigo porque ele traz esse panorama muito amplo e me envolveu porque traz muitas quest\u00f5es sobre a pr\u00f3pria TV Cultura. Hoje em dia eu assisto a TV Cultura e fico assim \u201cok, essa n\u00e3o \u00e9 a TV Cultura que eu cresci vendo, o que est\u00e1 acontecendo agora, o que vai ser da emissora depois?\u201d, eu acho que o livro abre caminho para outras discuss\u00f5es.<\/strong><br \/>\nFoi uma coisa que eu tentei fazer ao longo do trabalho, que eu tentava satisfazer a minha necessidade, a minha curiosidade de entender por que aquilo era legal, por que aquilo deu certo, eu percebi que eu tinha que explicar isso pra todo mundo, para qualquer leitor e n\u00e3o s\u00f3 pra quem, especificamente, viveu aquela \u00e9poca. Isso \u00e9 uma coisa que o Alvaro Petersen, que faz a Celeste e o Godofredo, me elogiou e eu levo como uma medalhinha no meu casaco, \u201cvoc\u00ea fez o livro de uma forma complexa\u201d, o livro n\u00e3o \u00e9 um almanaque. Eu queria envolver num contexto que n\u00e3o fosse s\u00f3 um livro que eu lan\u00e7asse e se alimentasse da nostalgia, mas tamb\u00e9m que algu\u00e9m daqui h\u00e1 50 anos que queira entender como era a TV feita para crian\u00e7as, a produ\u00e7\u00e3o audiovisual \u2013 a gente est\u00e1 falando de TV porque \u00e9 perto, a gente n\u00e3o sabe o que vai ser daqui a 50 anos \u2013 se algu\u00e9m conseguisse entender isso como um documento. Parte disso eu vou me gabar e mod\u00e9stia \u00e0s favas, pois est\u00e1 ligado ao meu trabalho como rep\u00f3rter de tecnologia, num jornal tradicional: minha fun\u00e7\u00e3o todo dia \u00e9 pegar alguma coisa nova, que as pessoas n\u00e3o entendem e explicar porque aquilo \u00e9 importante e o que voc\u00ea deveria saber. A pergunta \u00e9 sempre porque eu deveria me importar que tem um novo celular ou que tem um novo processador e a mesma raiz est\u00e1 nisso: por que eu deveria me importar que este programa \u00e9 importante, por que ele faz sentido, por que ele \u00e9 um produto da \u00e9poca e por que ele mostra coisas sobre aquela gera\u00e7\u00e3o, aquela \u00e9poca, aquela tv, aquele contexto que precisam ser lembrados. Um dos livros que eu li que me ajudou muito a pensar o que deveria ser o meu livro \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Como-Star-Wars-conquistou-universo\/dp\/8576572796?tag=lomadee_amazon8396-20&amp;ascsubtag=226536407842z176z1580756190992&amp;lmdsid=909936407842-176-1580756190992\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Como Star Wars conquistou o universo<\/a>\u201d, do Chris Taylor, um tijol\u00e3o que fala porque Star Wars \u00e9 um fen\u00f4meno, n\u00e3o fala s\u00f3 do George Lucas ou do Harisson Ford, mas ele vai atr\u00e1s dos f\u00e3s, ele fala das pessoas que mantiveram vivas o Star Wars num per\u00edodo de 15, 20 anos em que n\u00e3o teve nenhum filme. E foi um trabalho super importante para entender o seguinte: quer entender por que Star Wars \u00e9 relevante? P\u00e1! T\u00e1 aqui o tijol\u00e3o. Meu livro n\u00e3o \u00e9 um tijol\u00e3o, n\u00e3o tem esse f\u00f4lego de 500 p\u00e1ginas de texto, mas a ideia era isso: voc\u00ea ama o \u201cCastelo\u201d? Voc\u00ea viveu o \u201cCastelo\u201d? Quer saber por que ele \u00e9 legal? Que entender curiosidades? Aqui est\u00e1 um livro pra voc\u00ea. Mas se voc\u00ea \u00e9 um cara que \u00e9 um pesquisador de m\u00eddia, se voc\u00ea quiser entender uma \u00e9poca, a partir de um produto cultural, que \u00e9 algo que eu acho que \u00e9 cada vez mais importante, est\u00e1 aqui um livro pra voc\u00ea tamb\u00e9m, mas de uma forma que uma coisa n\u00e3o atrapalhasse a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E eu entendo que o livro funciona para qualquer pessoa interessada na TV brasileira, mas tamb\u00e9m para pessoas interessadas em todos esses artistas independentes que est\u00e3o relacionados ao Castelo, desde esses cineastas que depois se tornam cineastas de renome at\u00e9 esses m\u00fasicos que voc\u00ea v\u00ea na ficha t\u00e9cnica do programa, pois tem um monte de m\u00fasico independente envolvido no meio dessa produ\u00e7\u00e3o e voc\u00ea fica assim \u201cnossa, todas essas pessoas estavam l\u00e1?\u201d.<\/strong><br \/>\nEstavam l\u00e1! Eu tive essa experi\u00eancia essa semana, eu estava na reda\u00e7\u00e3o conversando com gente da equipe falando \u201cah, o \u2018Castelo\u2019, um programa de crian\u00e7a\u201d, ent\u00e3o \u00e9 um programa de crian\u00e7a, mas tem um monte de gente ferrada ali atr\u00e1s. O Fernando Meirelles eu boto na conta pelo \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d. Se voc\u00ea analisar, nos \u00faltimos 15 anos, alguns dos melhores filmes sa\u00edram de gente que estava ali na Cultura, \u00e9 o \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/cidadededeus.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cidade de Deus<\/a>\u201d, \u00e9 o \u201cDom\u00e9sticas\u201d, o \u201cQue Horas Ela Volta?\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/08\/tres-filmes-esperando-acordada-cafe-society-mae-so-ha-uma\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">M\u00e3e S\u00f3 H\u00e1 Uma\u201d<\/a>, \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/04\/30\/tres-filmes-camila-raul-e-xingu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Xingu<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/cinemadois\/oanoquemeuspais.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Ano em Que Meus Pais Sa\u00edram de F\u00e9rias<\/a>\u201d. O Cao Hamburguer, depois do \u201cCastelo\u201d, ganhou 2 Emmys fazendo \u201cMalha\u00e7\u00e3o\u201d, que na \u00e9poca do \u201cCastelo\u201d, era uma coisa quase f\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E era isso at\u00e9 uns 2 anos antes do Cao assumir a temporada dele, porque ele mudou de uma forma gigantesca.<\/strong><br \/>\nSim, ele muda de uma forma maluca e ganha um Emmy. Pr\u00eamio \u00e9 reconhecimento? Claro que \u00e9, deve s\u00f3 se bastar no reconhecimento? N\u00e3o, se n\u00e3o a gente n\u00e3o estaria aqui at\u00e9 hoje xingando que \u201cGoodfellas\u201d n\u00e3o ganhou o Oscar de melhor filme e o ganhador foi\u201d Conduzindo Miss Daisy\u201d e repetindo o erro de novo com \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/09\/oscar-2019-faca-a-sua-aposta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Green Book<\/a>\u201d, mas \u00e9 um forma de entender algumas coisas. Al\u00e9m disso, voc\u00ea olha pra m\u00fasica independente e para a m\u00fasica do \u201cCastelo\u201d e \u00e9 assim: olha o Grupo Rumo, t\u00e1 ali, t\u00e1 obvio; roteiro do \u201cCastelo\u201d, Fernando Bonassi; Marcelo Tas \u00e9 um personagem \u2013 cr\u00edticas \u00e0 parte da atua\u00e7\u00e3o dele nos \u00faltimos anos e \u00e9 uma coisa que eu deixo muito sutil no ap\u00eandice do livro \u2013 \u00e9 um personagem que voc\u00ea n\u00e3o pode deixar de fora da cultura brasileira dos \u00faltimos 30 anos, seja pelos programas infantis, seja pelo \u201cCQC\u201d, seja pelo que ele faz como entrevistador, seja pelo Ernesto Varella, um personagem inescap\u00e1vel da televis\u00e3o brasileira. Os atores todos, hoje a gente olha e fala \u201ccaramba!\u201d, naquela \u00e9poca era gente do teatro de S\u00e3o Paulo que estava ali conversando e colaborando. \u00c9 meio assustador o que era, porque \u00e9 uma tempestade perfeita, eu at\u00e9 me perdi [risos].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No final das contas, como foi transformar em livro e lan\u00e7ar por uma editora, todo esse processo, pois tamb\u00e9m tem uma parte pr\u00e1tica em que lan\u00e7ar um livro no Brasil n\u00e3o \u00e9 uma coisa simples.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 uma coisa simples mesmo e foi uma coisa com a qual eu quis ser bastante cuidadoso, eu queria muito o lan\u00e7amento por uma editora, porque eu sentia que era necess\u00e1rio para dar um apoio de distribui\u00e7\u00e3o, de divulga\u00e7\u00e3o. Acho incr\u00edvel o trabalho que pessoas fazem com crowndfunding, sou f\u00e3 de muita gente que fez isso, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bento.araujo.315\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bento Ara\u00fajo do \u201cPoeira Zine\u201d<\/a>, por exemplo, o trabalho que ele fez com o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/01\/03\/tres-livros-peter-hook-leonard-cohen-e-lsd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lindo Sonho Delirante<\/a>\u201d, que \u00e9 uma s\u00e9rie de livros perpassando pela hist\u00f3ria da m\u00fasica louca brasileira \u00e9 incr\u00edvel, mas eu percebi que eu n\u00e3o queria um crowndfunding. At\u00e9 porque eu precisava ter o aval de uma editora para que essa ideia de servir para v\u00e1rios p\u00fablicos fizesse sentido, de passar pelo filtro de algu\u00e9m, algum observador externo que n\u00e3o olhou para o trabalho tipo \u201cah, \u00e9 um amigo meu que est\u00e1 lendo\u201d. Eu precisava de uma coisa profissional e foi algo que foi de certo modo demorado de ouvir v\u00e1rios n\u00e3os, at\u00e9 me deparar com um sim, e eu fico super feliz que o livro tenha se encaixado no que a Summus faz, que \u00e9 muito legal, que \u00e9 uma linha de livros sobre comunica\u00e7\u00e3o. Um dos livros da Summus que eu adoro \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Campe%C3%A3o-Audi%C3%AAncia-Uma-Autobiografia\/dp\/8532310354?tag=lomadee_amazon8396-20&amp;ascsubtag=226536407842z176z1580756005751&amp;lmdsid=057536407842-176-1580756005751\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Campe\u00e3o de Audi\u00eancia<\/a>\u201d, que conta a hist\u00f3ria do Walter Clark, um importante profissional da TV. De novo, a gente tende a pensar a TV como uma coisa menor, e isso que eu estava falando, a quantidade de envolvidos no \u201cCastelo\u201d parece \u201cah, \u00e9 um programa infantil de TV\u201d, mas se voc\u00ea come\u00e7a a olhar quem est\u00e1 ali, \u00e9 cool de olhar: Fernando Meirelles, Cao Hamburguer, Marcelo Tas e tal, mas voc\u00ea tende a diminuir a TV como obra de arte pelo car\u00e1ter at\u00e9 popular, em alguns aspectos popularesco disso, mas \u00e9 importante registrar, faz parte da nossa cultura. Eu fico feliz de ver outros livros de TV saindo, ver o livro sobre \u201cRoque Santeiro\u201d, que conta todo o processo de produ\u00e7\u00e3o da novela, que \u00e9 uma novela super necess\u00e1ria para entender a ditadura e a abertura pol\u00edtica no Brasil. Nesse sentido, eu fico curioso para ver outros trabalhos surgindo. Eu fico enchendo o saco toda a vez que eu vejo um TCC legal de um amigo meu, eu falo assim \u201cvamos lan\u00e7ar? O que eu posso fazer pra te ajudar a lan\u00e7ar\u201d. Minha ex-estagi\u00e1ria no Estad\u00e3o, por exemplo, est\u00e1 fazendo um trabalho sobre S\u00edlvio Santos, em que ela n\u00e3o parte do S\u00edlvio em si, mas do p\u00fablico para entender todas as contradi\u00e7\u00f5es que tem a figura dele e eu falo \u201ceu quero esse livro publicado o quanto antes\u201d e fico dando maior for\u00e7a. Se voc\u00ea parar para analisar tem um trabalho bruto de TCCs sendo feitos no Brasil inteiro e de estudantes de jornalismo que podem contribuir pra caralho para a gente ter mais livros, mais conte\u00fado, mais acesso, seja de formato comercial ou seja em creative commons. Eu vejo TCCs inscr\u00edveis e falo isso aqui precisa virar livro, isso aqui precisa chegar na m\u00e3o das pessoas, n\u00e3o ficar s\u00f3 pegando poeira como um xerox mal impresso \u00e0s pressas por que voc\u00ea precisa se formar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ep. 1 | Tchau, n\u00e3o! At\u00e9 amanh\u00e3!\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j-uldPC8iTg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Um livro sobre o Castelo R\u00e1-Tim-Bum e o filme-fen\u00f4meno &quot;A Tabacaria&quot; est\u00e3o no ESQUEMA NOVO de hoje.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vAjIf4-WHeg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/plugins\/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fradioeldorado%2Fvideos%2F1292192987651116%2F&amp;show_text=0&amp;width=560\" width=\"750\" height=\"422\" style=\"border:none;overflow:hidden\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" allowtransparency=\"true\" allowfullscreen=\"true\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o&nbsp;<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monkeybuzz.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Colaborador do Scream &#038; Yell e editor de tecnologia e inova\u00e7\u00e3o no Estado de S. Paulo, Bruno Capelas est\u00e1 lan\u00e7ando seu primeiro livro, \u201cRaios e Trov\u00f5es \u2013 A hist\u00f3ria do fen\u00f4meno Castelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d, e conta nessa conversa como o programa lhe conquistou e como foi transformar essa paix\u00e3o em livro. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/02\/03\/entrevista-bruno-capelas-fala-sobre-o-castelo-ra-tim-bum\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":54714,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,36,9],"tags":[4193],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54711"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54711"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54720,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54711\/revisions\/54720"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}