{"id":53923,"date":"2019-12-05T11:32:14","date_gmt":"2019-12-05T14:32:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53923"},"modified":"2020-02-13T00:01:46","modified_gmt":"2020-02-13T03:01:46","slug":"entrevistas-gustavo-galvao-lee-ranaldo-e-ayla-gresta-ainda-temos-a-imensidao-da-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/12\/05\/entrevistas-gustavo-galvao-lee-ranaldo-e-ayla-gresta-ainda-temos-a-imensidao-da-noite\/","title":{"rendered":"Entrevistas: Gustavo Galv\u00e3o, Lee Ranaldo e Ayla Gresta (&#8220;Ainda Temos a Imensid\u00e3o da Noite&#8221;)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevistas por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite n\u00e3o serve s\u00f3 para se entorpecer de Netflix, se deprimir no Instagram ou sofrer de ins\u00f4nia com a vacuidade do Facebook ou a hostilidade do Twitter, acredita o cineasta brasiliense Gustavo Galv\u00e3o. Tampouco a noite \u00e9 s\u00f3 para dormir em um sil\u00eancio relegado aos poucos que podem pagar car\u00edssimo pela moradia for\u00e7osamente silenciosa que \u00e9 reservada aos que t\u00eam dinheiro e sonham com uma vizinhan\u00e7a de \u201ciguais\u201d nas quais podem tranquilamente ignorar os vizinhos. A noite, defende o diretor, foi feita para criar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, essa \u00e9 a \u201ctese\u201d de \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/AindaTemosaImensidaodaNoite\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ainda Temos a Imensid\u00e3o da Noite<\/a>\u201d (2019), produ\u00e7\u00e3o germano-brasileira nascida de um projeto que teve in\u00edcio em 2011 e que s\u00f3 encontrou seu lan\u00e7amento nas salas de cinema em 5 de dezembro de 2019. \u00c9 um filme com n\u00e3o-atores sobre m\u00fasicos, sobre cidades e sobre a arte. E tamb\u00e9m sobre como temos desperdi\u00e7ado e vilipendiado esses tr\u00eas entes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pel\u00edcula, Karen (Ayla Gresta) \u00e9 uma designer de classe m\u00e9dia baixa residente no Gama, uma das cidades mais remotas do Distrito Federal. Como quase todos os seus concidad\u00e3os, ela depende do Plano Piloto de Bras\u00edlia para trabalhar, e ali convive com um c\u00edrculo de pessoas t\u00e3o plenas de privil\u00e9gios que nenhuma delas, nem mesmo seu namorado Artur (Gustavo Halfeld), se d\u00e1 conta da realidade que ela vive e dos problemas estruturais que ela enfrenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esses s\u00e3o os aspectos, digamos, mundanos de sua exist\u00eancia, porque Karen, ao contr\u00e1rio da enorme maioria das pessoas de sua idade, sabe precisamente o que quer: fazer m\u00fasica. A jovem tem uma banda, a Animal Interior, na qual canta e toca trompete. A quest\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o faz a menor ideia de como transformar isso em seu meio de vida, e para sobreviver (e ajudar a fam\u00edlia a fazer o mesmo), vive dependendo das migalhas do dinheiro sujo que enche as contas banc\u00e1rias dos \u201cempreendedores\u201d do Plano Piloto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as mentiras do Plano e as ilus\u00f5es propagadas pela sua turma \u2013 aquele del\u00edrio terceiro-mundista de que a Europa \u00e9 uma terra onde correm leite, mel e oportunidades para m\u00fasicos \u2013 Karen acaba deixando Bras\u00edlia para ir, com os \u00faltimos recursos que lhe restam, \u00e0 Alemanha. E a partir da\u00ed, quanto menos se falar do filme, melhor (mas esteja avisado que as entrevistas ap\u00f3s o fim desse texto ter\u00e3o spoilers).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que \u201cAinda Temos a Imensid\u00e3o da Noite\u201d venha cheio de reviravoltas mirabolantes. Longe disso. \u00c9 um filme at\u00e9 lento, se compararmos com a velocidade que a maioria das produ\u00e7\u00f5es recentes costumam ter. Mas Karen e aqueles que cruzam seu caminho nessa jornada para fora de Bras\u00edlia se deparar\u00e3o, de forma expl\u00edcita ou sutil, com suas pr\u00f3prias fraquezas e com (muitas) desilus\u00f5es. Em dado momento, o filme \u2013 que tem momentos not\u00e1veis de leveza e at\u00e9 breves acenos ao humor \u2013 fica denso e triste. Tudo isso, por\u00e9m, \u00e9 para propor a quest\u00e3o, que em maior ou menor profundidade todos vivemos: o que resta de n\u00f3s quando n\u00e3o h\u00e1 mais como mentir para si mesmo?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Teaser: \u201cAinda Temos a Imensid\u00e3o da Noite\u201d (05\/12 nos cinemas)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uqPVUFpsZwk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme de Galv\u00e3o entrega isso a partir da m\u00fasica, mas o espectador pode encontrar uma experi\u00eancia an\u00e1loga \u00e0 sua, mesmo que jamais tenha segurado um instrumento musical. A m\u00fasica conduz toda a jornada da personagem com uma pung\u00eancia not\u00e1vel. Todos os int\u00e9rpretes dos integrantes da Animal Interior s\u00e3o instrumentistas: al\u00e9m de Ayla Gresta e Gustavo Halfeld (da YPU banda que nasceu durante as filmagens, assim como o casamento dos dois), completam a forma\u00e7\u00e3o a baixista Vanessa Gusm\u00e3o (Der Baum) e o baterista H\u00e9lio Miranda (Rios Voadores, Judas e outras agremia\u00e7\u00f5es brasilienses). As can\u00e7\u00f5es foram compostas por Munha da 7 e Nicolau Andrade e foram arranjadas pelos pr\u00f3prios atores, que ensaiaram at\u00e9 se apropriarem das can\u00e7\u00f5es. O registro delas em est\u00fadio foi feito por ningu\u00e9m menos que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/09\/entrevista-lee-ranaldo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lee Ranaldo<\/a> (precisa apresentar?), que tamb\u00e9m colaborou nos arranjos. O resultado \u00e9 algumas das melhores can\u00e7\u00f5es brasileiras de 2019. S\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme n\u00e3o \u00e9 irrepreens\u00edvel: o uso de n\u00e3o-atores funcionou muito a favor da m\u00fasica, mas nem sempre da interpreta\u00e7\u00e3o. Ainda que bem preparados, fica evidente a inexperi\u00eancia quando contracenam com atores mais tarimbados, como Marat Descartes e Fernando Teixeira (que entrega muito em uma atua\u00e7\u00e3o praticamente muda). Alguns (poucos) di\u00e1logos soam engessados. E Galv\u00e3o filma Ayla Gresta como musa, mas, embora sua constru\u00e7\u00e3o da Karen seja sempre cativante e realmente poderosa em certos momentos (especialmente o ter\u00e7o berlinense), nem sempre ela est\u00e1 \u00e0 altura das pretens\u00f5es do diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso, por\u00e9m, tira de \u201cAinda Temos a Imensid\u00e3o da Noite\u201d sua for\u00e7a. Se tanto, entrega mais for\u00e7a. Porque, como na melhor m\u00fasica, n\u00e3o s\u00e3o as arestas polidas que fazem de Karen uma personagem marcante e que nos encantam em sua trajet\u00f3ria. S\u00e3o justamente as falhas e o conflito com elas que fazem toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme ainda conta com uma divertida e bem-vinda participa\u00e7\u00e3o de Clemente Nascimento (Inocentes, Plebe Rude), e breves apari\u00e7\u00f5es de outras bandas de Bras\u00edlia. Ao contr\u00e1rio de muitos filmes apoiados em bandas, essas cenas n\u00e3o s\u00e3o gratuitas: mais que \u201cmostrar bandas\u201d, usam as can\u00e7\u00f5es e a cria\u00e7\u00e3o musical para ajudar a compor a hist\u00f3ria a ser contada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tudo isso, \u201cAinda Temos a Imensid\u00e3o da Noite\u201d \u00e9 um filme especial, uma pequena f\u00e1bula urbana sobre arte, cidades e pessoas encontrando seu espa\u00e7o em um mundo cada vez mais consumista e gentrificado. Assista \u2013 no cinema, de prefer\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 para valorizar toda a edi\u00e7\u00e3o de som, mas principalmente porque a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a porra da tela do seu computador.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ainda Temos a Imensid\u00e3o da Noite | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aV6Sns4MJUs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ENTREVISTAS<\/strong><br \/>\nDurante a pr\u00e9-estreia do filme em S\u00e3o Paulo, em meados de novembro de 2019, o Scream &amp; Yell sentou-se no anexo do Espa\u00e7o Ita\u00fa de Cinema com o diretor Gustavo Galv\u00e3o, o m\u00fasico Lee Ranaldo e a atriz Ayla Gresta para conversar sobre o filme. As conversas foram longas e proveitosas, e abaixo seguem-se os melhores trechos delas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53924\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/gustavogalvao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/gustavogalvao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/gustavogalvao-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO GALV\u00c3O<\/strong><br \/>\n<strong>Seu filme \u00e9 sobre m\u00fasicos ou sobre a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nPor que n\u00e3o os dois? (sorri)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um pode existir sem o outro, no sentido que h\u00e1, por exemplo, a experi\u00eancia do ouvinte.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma perguntai interessante.. Uma das melhores que ouvi (risos). Eu sempre quis fazer um filme sobre m\u00fasicos. Eu os admiro muito. Eu n\u00e3o toco, mas j\u00e1 fui vocalista de banda punk em \u00e9pocas de estudante e desde essa \u00e9poca fico de cara com quem tira som de instrumentos. O que me fascina \u00e9 como algu\u00e9m tira um som que te emociona, de onde vem isso e o que \u00e9 preciso para atingir esse som. O processo com a banda\u2026 Pra mim, foi uma realiza\u00e7\u00e3o por si s\u00f3! Ver as m\u00fasicas nascerem\u2026 Rolaram uns momentos muito engra\u00e7ados de a equipe t\u00e9cnica do filme vir falar comigo durante o processo, e eu n\u00e3o deixar falar: \u201cPera\u00ed que eu t\u00f4 fazendo o filme agora tamb\u00e9m\u201d (risos). Ver as m\u00fasicas nascerem\u2026 Eu amo cinema, \u00e9 minha vida, mas ele \u00e9 muito duro \u00e0s vezes, \u00e9 pesado \u00e0s vezes, \u00e9 caro. Eu admiro essa liberdade na m\u00fasica, o momento da cria\u00e7\u00e3o total. \u201cAh, a m\u00fasica vai ter 37 minutos\u2026\u201d Foda-se! N\u00e3o tem ningu\u00e9m dizendo que n\u00e3o pode. \u201cA m\u00fasica vai ter dois minutos\u201d. E por que n\u00e3o? \u00c9 a admira\u00e7\u00e3o pelos m\u00fasicos e pelo que eles fazem que originou o projeto. Ent\u00e3o, respondendo sua pergunta, \u00e9 mais sobre m\u00fasicos. Talvez o cara do jazz, o cara do cl\u00e1ssico, n\u00e3o se identifique totalmente, pense que pode fazer diferente, tocar melhor, mas a experi\u00eancia acho que \u00e9 comum a todos, a de ouvir, de ser visto, de mostrar o que tem. Ainda mais hoje em dia, em que voc\u00ea tem a internet com mais espa\u00e7o para mostrar sua m\u00fasica, mas por outro lado tem muito mais pessoas mostrando as m\u00fasicas delas. Est\u00e1 totalmente pulverizado! As pessoas n\u00e3o ouvem mais discos! Sabe (faz o gesto de pegar a capa de um vinil)? \u00c9 um mergulho no trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fica bem claro que as influ\u00eancias da banda est\u00e3o no p\u00f3s-punk na cena underground de Nova Iorque dos anos 80. Isso j\u00e1 era uma quest\u00e3o resolvida antes mesmo de fechar o elenco?<\/strong><br \/>\nAntes de eu conhecer os m\u00fasicos, eu j\u00e1 fazia pesquisas para saber o som que a banda teria que ter. Isso era uma coisa sobre os quais as pessoas envolvidas com o projeto falavam desde o come\u00e7o, que essa m\u00fasica teria de ser do caralho. Porque ela \u00e9 um personagem do filme, est\u00e1 presente em todo o filme. Ent\u00e3o comecei a pesquisar refer\u00eancias diversas antes de a banda entrar. Quando a banda foi formada, outras refer\u00eancias vieram. \u00c9 um naipe t\u00e3o variado\u2026 A Ayla, por exemplo, n\u00e3o era musicista profissional, era arquiteta, e foi uma experi\u00eancia interessante. Tivemos dois compositores diferentes, o Munha e o Nicolau, caras com forma\u00e7\u00e3o diferentes. O Nicolau \u00e9 de jazz, de forma\u00e7\u00e3o em conservat\u00f3rio. Tinha uma influ\u00eancia de jazz e uma forma\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-punk que\u2026 (ri) Bom, eu cresci nos anos 80 ouvindo p\u00f3s-punk, ouvindo Joy Division (nota: Galv\u00e3o est\u00e1 vestindo uma camiseta com a capa do \u00e1lbum \u201cUnknown Pleasures\u201d). N\u00e3o sei se voc\u00ea notou que as m\u00fasicas t\u00eam din\u00e2micas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. H\u00e1 muitos sil\u00eancios nelas.<\/strong><br \/>\nE eu trouxe isso de Joy Division, de Sonic Youth, de Nirvana, Pixies\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, fiquei o tempo todo com a impress\u00e3o de que era uma banda que, naquele cen\u00e1rio do noise ou do experimental dos anos 80 \u2013 Butthole Surfers, Husker Du \u2013 essas coisas, a Animal Interior poderia estar ali. N\u00e3o soa derivativo, soa inserido.<\/strong><br \/>\nSim! E tem trompete! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Me lembrou inclusive o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a5zu0xcMerI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Transcargo<\/a>, uma banda de rock guitarreira, densa, mas que tinha dois instrumentos de sopro que n\u00e3o faziam riffs nem fraseados, eram frases jazz\u00edsticas mesmo.<\/strong><br \/>\nMaravilhoso! N\u00e3o conhe\u00e7o essa banda, mas j\u00e1 gostei de saber! (risos) O trompete \u00e9 um instrumento t\u00e3o raro no rock que a gente pode botar em uma m\u00e3o as bandas que v\u00e3o us\u00e1-lo como parte da est\u00e9tica. Tem aquela banda americana Dog Faced Hermans, que a vocalista \u00e9 tamb\u00e9m trompetista. Essa foi uma refer\u00eancia mais concreta para mim, por n\u00e3o ter o trompete no mesmo tempo do vocal. Em 2011 \u2013 \u00f3bvio que fiz isso \u2013 coloquei no Google \u201cm\u00fasica rock trompete\u201d. Nunca apareceu Transcargo, entende? \u00c9 tudo muito raro, e isso foi importante. Entrevistei musicistas para escolher quem interpretaria a Karen, e quando expliquei o que eu queria para uma delas, saxofonista, ela me disse: \u201cmas n\u00e3o tem ningu\u00e9m fazendo isso aqui em Bras\u00edlia!\u201d. E eu respondi: \u201cmas eu n\u00e3o t\u00f4 fazendo document\u00e1rio\u201d (gargalhadas). Por que n\u00e3o pode pirar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ficou uma banda coesa, cr\u00edvel, mas fica dif\u00edcil imaginar onde essa banda tocaria na Bras\u00edlia de hoje. Mesmo os festivais que a cidade t\u00eam n\u00e3o constituem propriamente uma cena, porque as pessoas v\u00e3o mais pelo evento que pela m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nMas isso se reflete na falta de op\u00e7\u00f5es da cidade tamb\u00e9m. As pessoas precisam movimentar tamb\u00e9m. Tem isso no filme: o Julinho, dono do Buraco, fala que tinha n\u00e3o sei quantos confirmados para o show, mas v\u00e3o apenas 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As redes sociais s\u00e3o muito enganosas em muitos aspectos. Entrevistei, na mesma semana, dois organizadores de festivais \u2013 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/03\/entrevista-gustavo-sa-fala-sobre-os-21-anos-do-porao-do-rock-curadoria-e-mais\/\">o Gustavo S\u00e1, do Por\u00e3o do Rock<\/a>; e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/25\/entrevista-jose-palazzo-do-cosquin-rock-um-dos-maiores-festivais-da-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Jos\u00e9 Palazzo, do Cosqu\u00edn Rock<\/a> \u2013 e ambos me falaram que n\u00e3o se baseiam nas redes sociais para nada, porque elas n\u00e3o refletem a experi\u00eancia real do cara que trabalha com m\u00fasica ao vivo.<\/strong><br \/>\n\u00c9, o filme trata dessa apatia. Porque eu sinto\u2026 Bom, eu tenho 43, acho que somos da mesma gera\u00e7\u00e3o (o rep\u00f3rter tem 41), e acho que estamos vivendo um momento de apatia total. Quer dizer, sempre cito o caso da China. Como voc\u00ea controla um bilh\u00e3o e meio de pessoas? (empurra o celular para o canto da mesa). D\u00e1 a droguinha pra elas. As pessoas j\u00e1 est\u00e3o assim aqui tamb\u00e9m. Elas acham que t\u00eam opini\u00e3o, que participam, que est\u00e3o fazendo as coisas, e n\u00e3o est\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vi h\u00e1 pouco um cartaz em ingl\u00eas que dizia: \u201cimagine que o Facebook e o Instagram s\u00e3o apagados. Bum! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais um ativista\u201d.<\/strong><br \/>\n(gargalhadas) \u00c9 isso mesmo. Tamb\u00e9m por isso o t\u00edtulo, aquela coisa mais concreta. Ainda temos a noite, sabe? Ainda temos esses espa\u00e7os. Temos onde criar. Eu talvez seja velho, mas vejo de um jeito concreto, temos que encarar a concretude das coisas. Eu n\u00e3o fa\u00e7o filme para a pessoa curtir no Facebook. N\u00e3o criamos as m\u00fasicas s\u00f3 para as pessoas falarem que \u00e9 legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 curioso o quanto filme vai nessa concretude. Antes da entrevista, eu te disse que achava que o trailer n\u00e3o fazia jus ao filme. Quem v\u00ea o trailer pode pensar que \u00e9 uma historinha sobre uma deslumbradinha de classe m\u00e9dia alta que vai para a Alemanha para brincar de ser artista. At\u00e9 porque Bras\u00edlia \u2013 como muitas outras cidades, S\u00e3o Paulo inclusive \u2013 tem esse circuito da autossatisfa\u00e7\u00e3o. De gente que brinca de ser artista e na verdade s\u00f3 est\u00e1 em busca de aprova\u00e7\u00e3o em rede social. Mas Bras\u00edlia tem muito mais, e a Karen representa uma boa parte disso: ela ser do Gama, ter outro background, e ainda assim conviver em um universo super privilegiado que ignora a realidade dela ao mesmo tempo que tenta seduzi-la, at\u00e9 mesmo de uma maneira agressiva. \u00c9 um filme sobre m\u00fasicos, como voc\u00ea j\u00e1 falou, n\u00e3o uma investiga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, mas me pareceu muito importante ter esse aspecto real do DF.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um filme sobre m\u00fasicos, mas tamb\u00e9m sobre Bras\u00edlia. \u00c9 por isso que ela sai de l\u00e1. Porque ela precisava desse distanciamento para entender onde ela estava vivendo. Esse distanciamento \u00e9 meu tamb\u00e9m \u2013 eu moro em S\u00e3o Paulo hoje. Eu trouxe duas obsess\u00f5es em um filme s\u00f3: m\u00fasicos e Bras\u00edlia. Porque Bras\u00edlia \u00e9 uma cidade que exclui desde o come\u00e7o, desde o ano zero. E o Gama eu escolhi a dedo, porque n\u00e3o \u00e9 atendido nem pelo metr\u00f4. Mas conheci muita gente que vivia l\u00e1 e ia pro Plano. Quantas horas por dia, quantos dias da sua vida, voc\u00ea perde em deslocamento? [Bras\u00edlia] \u00c9 uma cidade que exclui e que n\u00e3o escuta. As quadras s\u00e3o tratadas como condom\u00ednios fechados. Tr\u00eas garotos foram presos por tocar viol\u00e3o na quadra. Mas o espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 p\u00fablico? Eu cresci nas 207 Sul e depois na 211. Ali tinha um gramad\u00e3o, e me lembro de tr\u00eas partidas de futebol sendo disputadas simultaneamente ali. Isso n\u00e3o existe mais. Eu fui assaltado tr\u00eas vezes na minha vida, e duas foram em Bras\u00edlia. Porque n\u00e3o tinha ningu\u00e9m na rua. A experi\u00eancia da cidade precisa do contato com o ch\u00e3o, pra sentir, ouvir, circular. Mas o vazio tamb\u00e9m estimula: como a gente reage a esse vazio? Como se estimula? Talvez esteja vazio porque a gente deixou de usar a cidade. Tenho certeza que o desenho original \u2013 n\u00e3o o dos militares \u2013 foi feito para que a gente usasse a cidade. Mas nem deu tempo disso acontecer: veio o golpe logo depois e mudou tudo. Mas a gente ainda tem tempo de construir essa cidade. Mas se n\u00e3o fizermos nada, vai chegar o ponto em que n\u00e3o poderemos mais fazer isso. Quando ser\u00e1 esse tempo?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53925\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/leeranaldo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/leeranaldo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/leeranaldo-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LEE RANALDO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que me impressionou na Animal Interior \u00e9 que ela soa mesmo como uma banda. N\u00e3o parece um projeto tempor\u00e1rio pensado para um filme.<\/strong><br \/>\nPara come\u00e7o de conversa, eles s\u00e3o m\u00fasicos. Isso ajuda. N\u00e3o s\u00e3o atores tentando ser m\u00fasicos. S\u00e3o m\u00fasicos atuando, e assim puderam se entender muito bem musicalmente. Eles realmente soam \u00f3timos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas qual foi seu papel em ajudar a definir essa sonoridade?<\/strong><br \/>\nTrabalhei nos arranjos, n\u00e3o fiz nada nas composi\u00e7\u00f5es. Fizemos algumas mudan\u00e7as nos arranjos porque a ideia era fazer com que a banda tivesse um som coeso. Duas outras pessoas escreveram as can\u00e7\u00f5es, e precis\u00e1vamos trabalhar a banda para que eles se apropriassem desse material. Eles j\u00e1 estavam nesse processo com os ensaios, antes de eu chegar. Em alguns casos, lev\u00e1vamos a m\u00fasica para se encaixar em cenas espec\u00edficas. H\u00e1 can\u00e7\u00f5es em bares, em por\u00f5es, em campo aberto. Ent\u00e3o tivemos que garantir que a m\u00fasica fosse adequada ao momento cinematogr\u00e1fico, e quer\u00edamos tamb\u00e9m gravar a vers\u00e3o definitiva de cada can\u00e7\u00e3o para que ela pudesse entrar em um \u00e1lbum. Meu papel foi apenas trabalhar com eles para formatar a can\u00e7\u00e3o. Dei sugest\u00f5es como deixar alguns elementos mais ao fundo, mudar coisas menores. Mas eles j\u00e1 tinham elaborado muito o trabalho deles nas can\u00e7\u00f5es. Passamos umas duas semanas em est\u00fadio gravando e refinando. Para mim, tinha muito a ver com capturar o que eles estavam fazendo e garantir que a grava\u00e7\u00e3o fosse justa e divertida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 assistiu ao filme, acredito.<\/strong><br \/>\nSim, h\u00e1 bastante tempo atr\u00e1s. Vi com legendas no meu computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As can\u00e7\u00f5es foram gravadas ao vivo para o filme. N\u00e3o s\u00e3o usadas as vers\u00f5es de est\u00fadio, salvo pela cena dos cr\u00e9ditos finais. Voc\u00ea acredita que isso trouxe algo a mais?<\/strong><br \/>\nAcredito que sim. O est\u00fadio realmente os ajudou a tocar as can\u00e7\u00f5es ao vivo, porque tivemos essa busca por encontrar a energia e a execu\u00e7\u00e3o definitivas de cada uma. Eles pegaram essa energia e esse conceito e levaram para essas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo, \u00e9 quase como se o est\u00fadio tivesse sido um treino para isso. E foi \u00f3timo que eles fizessem isso, em vez de apenas dublar com os registros de est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pe\u00e7o desculpas por n\u00e3o ter pesquisado a fundo, mas queria saber se foi a primeira vez que voc\u00ea fez um trabalho dessa natureza: pegar uma banda imagin\u00e1ria e faz\u00ea-la real para um filme.<\/strong><br \/>\nBem, fiz muitas coisas com m\u00fasica para filmes, mas nada desse tipo. Bem, na verdade, fui um dos dos produtores-chave naquela s\u00e9rie \u201cVinyl\u201d, do [Mick] Jagger e do [Martin] Scorsese, trabalhando com bandas inventadas o tempo todo. Criamos m\u00fasicas para a banda principal do programa e para outras bandas fict\u00edcias que apareceram. Acho que foi o \u00fanico trabalho mais ou menos semelhante ao desse filme. Eu tamb\u00e9m toquei bastante nessas grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme tem a ideia de que os artistas de hoje em dia est\u00e3o muito acomodados. Especialmente no caso do rock, o que seria especialmente desmotivador, j\u00e1 que o rock tem muito a ver com provoca\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nSim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2026 e pensando nessas d\u00e9cadas todas em que voc\u00ea j\u00e1 viveu, tantas transforma\u00e7\u00f5es que voc\u00ea presenciou, queria saber se voc\u00ea concorda com essa vis\u00e3o do filme.<\/strong><br \/>\nH\u00e1 certa verdade nisso. Nem toda arte \u00e9 feita e apresentada para provocar. \u00c0s vezes \u00e9 apenas a exterioriza\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es ou sentimentos. Mas alguns artistas definitivamente abra\u00e7am a tarefa de comentar a sociedade moderna, comentar onde estamos e onde dever\u00edamos estar. Esse conforto meio que est\u00e1 por a\u00ed, sim, mas n\u00e3o espero que toda arte ou toda can\u00e7\u00e3o tenha esse coment\u00e1rio ou seja revolucion\u00e1ria. Mas essa necessidade existe. \u00c9 uma pergunta um tanto dif\u00edcil de responder. Quero em minha vida arte que nos empurre para frente e desafie a sociedade, e acho que h\u00e1 muita arte sendo feita agora que est\u00e1 fazendo isso. Mas algumas bandas querem apenas fazer boas can\u00e7\u00f5es, e \u00e9 a\u00ed que a inten\u00e7\u00e3o deles para, enquanto outros querem discutir ricos e pobres, quest\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(A entrevista \u00e9 interrompida pelo insistente ru\u00eddo de helic\u00f3pteros que se sucedem. Ranaldo se mostra incrivelmente surpreso com a informa\u00e7\u00e3o, divulgada pela ANAC, de que a cidade tem quase quatro vezes mais aeronaves do tipo que Nova Iorque.)<\/strong><br \/>\nIsso tem a ver com pol\u00edcia, vigil\u00e2ncia, servi\u00e7os m\u00e9dicos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o. A maior parte \u00e9 de uso privado.<\/strong><br \/>\nQue loucura!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea realmente se interessa pelo Brasil, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMuito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi passar tantos dias em Bras\u00edlia?<\/strong><br \/>\n(suspira e sorri) Foi \u00f3timo! Foi, foi\u2026 Sabe, eu sempre quis ir l\u00e1 para ver as obras do Niemeyer e outras coisas. Foi bem maluca a maneira como as coisas aconteceram. Fui fazer um show na cidade e logo depois da apresenta\u00e7\u00e3o a Ayla se aproximou e disse: \u201cestamos trabalhando nesse filme, voc\u00ea gostaria de vir e nos ajudar com as m\u00fasicas?\u201d. Eu disse que estaria muito interessado, e um m\u00eas depois o Gustavo [Galv\u00e3o] me telefonou convidando para passar umas duas semanas e meia, talvez tr\u00eas. Foi super legal, pude explorar a cidade, fazer alguns amigos l\u00e1, e realmente me apaixonei. \u00c9 t\u00e3o bonita\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ouviu algo dos trabalhos autorais do Gustavo [Halfeld], da Vanessa [Gusm\u00e3o) e do H\u00e9lio [Miranda]?<\/strong><br \/>\nSim, algumas coisas. Especialmente o YPU, a banda do Gustavo e da Ayla. Eles v\u00eam me mandando as coisas h\u00e1 um ano, mais ou menos. Para mim, \u00e9 encorajador ouvi-los. Sei que Gustavo trabalha em um est\u00fadio (Casac\u00e1j\u00e1), trocamos informa\u00e7\u00f5es sobre t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o. Acho que a banda deles est\u00e1 a caminho de algo, eles est\u00e3o realmente buscando um novo som e acho que eles querem tamb\u00e9m tornar a banda do filme um projeto mais palp\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53926\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/yla.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/yla.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/yla-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AYLA GRESTA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de fazer o Animal Interior se apropriar das can\u00e7\u00f5es? Porque voc\u00eas n\u00e3o compuseram&#8230;<\/strong><br \/>\n(cortando) Eu compus algumas letras\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Certo, mas a banda n\u00e3o existia. E teve que soar cr\u00edvel, mesmo sabendo que ia ser algo de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nO que aconteceu \u00e9 que a gente teve viv\u00eancia de banda mesmo. A gente n\u00e3o tinha como pagar ensaio antes da produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o montou tudo l\u00e1 em casa, e tivemos v\u00e1rios conflitos que acho que seriam naturais em uma banda que tem instrumento de sopro junto com roqueiragem. A gente demorou a descobrir como escutar o trompete. Porque \u00e9 um instrumento alto, mas tem todo o volume da guitarra. Foi um processo at\u00e9 conflituoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea nunca tinha tocado em banda.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Eu tinha experi\u00eancia de leitura de partitura, mas n\u00e3o tinha experi\u00eancia de pensar: \u201cesse \u00e9 o bridge, esse \u00e9 o refr\u00e3o\u201d. Eu n\u00e3o tinha experi\u00eancia de escutar os instrumentos de melodia, custava a entender em que parte da m\u00fasica eles estavam. E eles precisavam aprender a escutar o trompete, a entender coisas \u2013 simples, at\u00e9, mas muito particulares do instrumento. Trompete \u00e9 um instrumento transpositor, ent\u00e3o quando a guitarra est\u00e1 em d\u00f3, o trompete est\u00e1 em r\u00e9. Essas complica\u00e7\u00f5ezinhas fomos resolvendo ao longo de tr\u00eas meses, e quando chegou pro filme, a gente tinha uma super qu\u00edmica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu conhe\u00e7o voc\u00ea musicalmente do YPU, e v\u00ea-la na pele rocker foi algo bem diferente. O quanto foi inventada essa persona da Karen?<\/strong><br \/>\nEm termos de cria\u00e7\u00e3o, eu nunca tinha ficado nesse lugar. Em termos de escuta, sim. Eu cresci escutando rock, na veia. A minha irm\u00e3 era metaleira, eu ia aos ensaios dos amigos dela. Mas a Karen que me trouxe isso de artista de rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunto porque at\u00e9 sua voz est\u00e1 bem diferente do YPU.<\/strong><br \/>\nIsso era uma solicita\u00e7\u00e3o do Gustavo Galv\u00e3o desde o in\u00edcio, que a Karen tivesse uma voz mais grave que a minha&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que a Karen tem \u00e9 uma curiosa mistura de arrog\u00e2ncia e inoc\u00eancia. Existe um idealismo que n\u00e3o \u00e9 obsess\u00e3o nem ideia fixa. No mundo c\u00ednico de hoje, existe espa\u00e7o para algu\u00e9m como ela?<\/strong><br \/>\n(hesita) \u00c9\u2026 Acho que (longa pausa) Espa\u00e7o n\u00e3o existe, n\u00e3o. Ou ent\u00e3o o espa\u00e7o at\u00e9 existe, mas \u00e9 um pouco solit\u00e1rio, e para preencher\u2026 (longa pausa) Acho que essa pot\u00eancia da vontade precisa ser flex\u00edvel para ver o que pode acontecer nesse espa\u00e7o. Acho que foi o que a Karen precisou fazer para ter essa firmeza de prop\u00f3sito: viajar, sair de si, para encontrar as pessoas e entender o prop\u00f3sito dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto Bras\u00edlia \u00e9 opressora e quanto \u00e9 criativa?<\/strong><br \/>\nO vazio pode ser o dois. Ele pode ser uma pot\u00eancia a ser preenchida, como pode ser \u201cimpreench\u00edvel\u201d, por ser grande demais. A escala em Bras\u00edlia n\u00e3o \u00e9 humana. Voc\u00ea \u00e9 um pontinho. V\u00ea uma pessoa e n\u00e3o tem nem como falar bom dia. Ela est\u00e1 t\u00e3o distante que n\u00e3o tem como voc\u00ea se aproximar para dizer oi. Atualmente, eu vejo esses espa\u00e7os como um desafio mais opressor, e menos como pot\u00eancia. Mas existem movimentos de reunir pessoas para estar nesses lugares. Precisa de um esfor\u00e7o tremendo. L\u00facio Costa fala que Bras\u00edlia nasce de um gesto, de dois eixos se cruzando, e eu falo que \u00e9 um bicho sem-vergonha: faz um gesto de caneta, um pequeno esfor\u00e7o para marcar territ\u00f3rio, mas o esfor\u00e7o que a gente tem que fazer para preencher aquele espa\u00e7o? Qual o tamanho do gesto que temos que ser capazes para ser uma marquinha nesse espa\u00e7o? Esse \u00e9 o nosso desafio, principalmente por causa da quest\u00e3o excludente. A popula\u00e7\u00e3o do Plano Piloto \u00e9 muito pequena, e desinteressada, privilegiada. E a cidade \u00e9 tombada. Ela est\u00e1 cristalizada daquele jeito. Deveria haver um projeto que dobrasse a popula\u00e7\u00e3o do Plano Piloto, trouxesse mais gente. Mas como fazer isso? \u00c9 dif\u00edcil, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O YPU \u00e9 o relacionamento entre voc\u00ea e o Gustavo [Halfeld, parceiro de banda que interpreta o personagem Artur] nasceram nas filmagens. Mas reza a lenda que isso veio junto com uma bad.<\/strong><br \/>\nA gente se conheceu no filme, e o nosso filho at\u00e9 nasceu antes de o filme ser lan\u00e7ado (risos) Mas a bad foi gigante. Berlim foi muito pesado, foi a \u00faltima parte a ser filmada, e a gente n\u00e3o teve a possibilidade de voltar e achar um caminho, como a Karen fez. A gente ficou l\u00e1 em Berlim, e o desencontro Karen\/Artur se repetiu simbolicamente entre a gente. Sa\u00edmos numa noite de neblina, puta frio, sentamos em um bar esquisito e quando levantamos est\u00e1vamos muito b\u00eabados. Ele quis ir embora, saiu correndo para procurar o \u00f4nibus, e quando vi a gente tinha se perdido\u2026 Eu at\u00e9 ca\u00ed no ch\u00e3o rindo, mas voltei na madrugada, sozinha, cheguei em casa sem a chave\u2026 Foi foda. A gente precisou sair de l\u00e1. Acabamos voltando ao Brasil pela \u00c1sia, e o sol de l\u00e1 foi tirando a gente daquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O quanto o YPU \u00e9 herdeiro do processo criativo da Animal Interior?<\/strong><br \/>\nMuito do que a gente explorou como ambiente sonoro no Animal Interior a gente levou para o Ypu. Essa massa sonora. E uma m\u00fasica nova do YPU foi uma que o Gustavo comp\u00f4s para o filme, ia ser uma can\u00e7\u00e3o do Artur em Berlim, mas o Gustavo [Galv\u00e3o] odiou. Regravamos em uma vers\u00e3o eletr\u00f4nica, inesperada, e essa ser\u00e1 nossa pr\u00f3xima m\u00fasica a ser lan\u00e7ada. Isso que tem nas can\u00e7\u00f5es da Animal, os interst\u00edcios de trompete, \u201ca vida toda retorcendo nas marginais\u201d, como escrevi em uma das letras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/imensidao2.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A noite n\u00e3o serve s\u00f3 para se entorpecer de Netflix, se deprimir no Instagram ou sofrer de ins\u00f4nia com a vacuidade do Facebook ou a hostilidade do Twitter, acredita o cineasta brasiliense Gustavo Galv\u00e3o, que conversou com o Scream &#038; Yell junto a Lee Ranaldo e a atriz Ayla Gresta\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/12\/05\/entrevistas-gustavo-galvao-lee-ranaldo-e-ayla-gresta-ainda-temos-a-imensidao-da-noite\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":53927,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53923"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53923"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53923\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53934,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53923\/revisions\/53934"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53927"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53923"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}