{"id":53870,"date":"2019-11-29T00:05:00","date_gmt":"2019-11-29T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53870"},"modified":"2023-02-20T18:18:12","modified_gmt":"2023-02-20T21:18:12","slug":"entrevista-henrique-dantas-fala-de-seu-doc-dorivando-sarava-o-preto-que-virou-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/29\/entrevista-henrique-dantas-fala-de-seu-doc-dorivando-sarava-o-preto-que-virou-mar\/","title":{"rendered":"Entrevista: Henrique Dantas fala de \u201cDorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta, cantor e compositor Tigan\u00e1 Santana, em seu depoimento no document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Dorivando-Sarav%C3%A1-o-Preto-que-Virou-Mar-1746647135412994\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar<\/a>\u201d (2019), traz uma exata defini\u00e7\u00e3o para Dorival Caymmi e sua rela\u00e7\u00e3o musical entre o real e a beleza de composi\u00e7\u00f5es que parecem vindas de outro lado dessa realidade. Tigan\u00e1 afirma: \u201cCaymmi \u00e9 um lapidador do criar. Um homem que desvela descri\u00e7\u00f5es profundas do real. O belo dele parece vindo de um outro lugar. Parece surreal. Se a gente vai por tradi\u00e7\u00f5es negras, a partir de uma leitura de religi\u00f5es de matrizes africanas, n\u00e3o h\u00e1 efetivamente uma divis\u00e3o entre dois mundos. N\u00e3o h\u00e1 um cisma entre dois mundos. Um mundo invis\u00edvel, um mundo espiritual o \u00e9 a partir de um mundo tang\u00edvel\u201d, explica. Na sua exata an\u00e1lise acerca de Caymmi, Tigan\u00e1 vai mais al\u00e9m: \u201cH\u00e1, portanto, o outro lado. N\u00e3o um outro mundo. Eu acho que Caymmi \u00e9 um mediador a partir do criativo, das artes. Um mediador entre estes lados\u201c, finaliza o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com essa apresenta\u00e7\u00e3o que o norte do filme dirigido por Henrique Dantas, <a href=\"http:\/\/www.festivaldebrasilia.com.br\/mostra\/MOSTRA%20PARALELA%20-%20TERRIT%C3%93RIO%20BRASIL\/11\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que tem sua estreia nessa sexta, dia 29 de novembro, na 52\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia<\/a>, \u00e9 definido. Cadenciado em suas imagens po\u00e9ticas de elementos a representar o lend\u00e1rio Dorival Caymmi e sua rela\u00e7\u00e3o com o mar e com o Candombl\u00e9 como um ato de resist\u00eancia, o document\u00e1rio se equilibra de maneira precisa entre um desenhar imag\u00e9tico e uma estrutura de depoimentos que guia a plateia pela trajet\u00f3ria do artista, convidando-a para adentrar na profundidade daqueles objetos simb\u00f3licos de uma vida repleta de calma e parcim\u00f4nia como foi a de Dorival. Da mesma maneira que se mergulha em um mar profundo e pr\u00edstino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Dantas explica que os objetos simb\u00f3licos que trouxe em seu longa v\u00eam de um planejamento minucioso. \u201cQuando come\u00e7o um filme, uma obra de arte (sou artista visual de forma\u00e7\u00e3o, mestre e professor em artes visuais), eu entro em um estado de aten\u00e7\u00e3o focada naquele universo que quero apresentar\u201d, explica Henrique. \u201cAo me deparar com a hist\u00f3ria de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram obras biogr\u00e1ficas feitas por pessoas que vivem no Sudeste do pa\u00eds e que desconheciam a hist\u00f3ria preta de Caymmi na Bahia\u201d, salienta o diretor.<\/p>\n<figure id=\"attachment_53871\" aria-describedby=\"caption-attachment-53871\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-53871 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Henrique-Dantas-Foto-Fabricio-Ramos.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Henrique-Dantas-Foto-Fabricio-Ramos.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Henrique-Dantas-Foto-Fabricio-Ramos-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-53871\" class=\"wp-caption-text\"><em>O cineasta e documentarista Henrique Dantas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mar se faz presente em sons, imagens e camadas sob as quais se desenrolam causos inesquec\u00edveis do que significa \u201cdorivar\u201d a vida durante aquele mergulho de pouco mais de 85min representado pelo filme de Henrique Dantas. E esse ritmo conduz a audi\u00eancia do come\u00e7o ao final de sua trajet\u00f3ria, tanto da vida do Homem que tanto cantou Janaina quanto da s\u00e9rie de est\u00f3rias que degustamos sob o olhar de pessoas que vivenciaram aquele mundo Caymmiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta maneira, em \u201cDorivando Sarav\u00e1\u201d, desde o come\u00e7o, \u00e9 percept\u00edvel essa ideia de trazer para a obra mais do que um simples contar de uma trajet\u00f3ria t\u00e3o rica quanto a do m\u00fasico atrav\u00e9s do olhar daqueles que a viveram junto com ele ou que admiram tal exist\u00eancia plena. Ao inserir os citados s\u00edmbolos da religiosidade de Matriz Africana t\u00e3o cantada por Dorival em suas can\u00e7\u00f5es, a obra coloca em discuss\u00e3o uma necessidade urgente de trazer a m\u00fasica do compositor baiano como um instrumento, tamb\u00e9m, de resist\u00eancia contra a viol\u00eancia sofrida pelas religi\u00f5es de Matriz Africana em um Brasil neo-pentecostal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, a obra dirigida por Dantas tra\u00e7a uma forma de perceber como o abismo de intoler\u00e2ncia religiosa que o Brasil adentrou \u00e9 perigoso. \u201cO movimento neopentecostal no mundo \u00e9 algo assustador. Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e nessas t\u00e9cnicas de convencimento e persuas\u00e3o v\u00e3o levando as pessoas como gado para onde elas quiserem. Estudei em col\u00e9gio de freiras em Ilh\u00e9us, e, com isso, li muito a B\u00edblia e posso garantir que nesse livro n\u00e3o existe o \u00f3dio plantado por esses falsos profetas,\u201d explica Henrique.<\/p>\n<figure id=\"attachment_53872\" aria-describedby=\"caption-attachment-53872\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-53872 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Tigan\u00e1-Santana-Cantor-e-compositor.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Tigan\u00e1-Santana-Cantor-e-compositor.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Tigan\u00e1-Santana-Cantor-e-compositor-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-53872\" class=\"wp-caption-text\"><em>O cantor e compositor Tigan\u00e1 Santana<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oriundo de uma \u00e9poca em que as religi\u00f5es de Matriz Africana eram consideradas criminosas pela lei vigente no Brasil, Dorival Caymmi trouxe seu respeito por esse pilar representativo de boa parte do povo que vive no Brasil. Em tempos atuais, nos quais \u201ccantoras\u201d se recusam a falar o nome de Iemanj\u00e1 em can\u00e7\u00f5es, olhar para o s\u00e9culo XX e ver pessoas como Caymmi valorizando esse rico manancial de cultura e afeto dentro do Candombl\u00e9 nos faz perceber como estar do lado certo da Hist\u00f3ria \u00e9 algo que devemos sentir orgulho por tal pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de pesquisa acerca desse Caymmi negro, n\u00e3o embranquecido por uma sociedade racista e hip\u00f3crita, deu ao cineasta Henrique Dantas uma oportunidade de mergulho em sua pr\u00f3pria vida e em um salientar do seu auto-reconhecimento como um homem negro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMeus filmes refletem muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso espec\u00edfico, passei por um processo de transforma\u00e7\u00e3o muito pessoal onde percebi e reconheci a minha pr\u00f3pria negritude. N\u00e3o movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter passado por experi\u00eancias modificadoras\u201d, afirma Henrique Dantas. O cineasta, durante o processo de filmagem de \u201cDorivando Sarav\u00e1\u201d, integrou, ainda, uma equipe de curadoria que o ajudou nesse processo pessoal de reflex\u00e3o. \u201cSim. Algo muito importante foi o convite para integrar a comiss\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situa\u00e7\u00f5es que sofri minha vida inteira e n\u00e3o entendia que eram situa\u00e7\u00f5es de racismo\u201d, finaliza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos na obra de Dorival Caymmi uma forma de nos reconhecermos como brasileiros, como oriundos de uma cultura rica, repleta de respeito e toler\u00e2ncia, que n\u00e3o cedeu nem ceder\u00e1 lugar para trucul\u00eancias oportunistas. Caymmi, que tanto trouxe a calma e o refletir como modo de vida, \u00e9 algu\u00e9m de urgente reencontro na sempre conectada, desatenta e fugaz rotina do s\u00e9culo XXI. Permitir-se dorivar \u00e9 algo que, curiosamente, se tornou urgente hoje em dia. \u201cDorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar\u201d nos d\u00e1 uma oportunidade \u00fanica para tal intento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Scream &amp; Yell conversou de forma expansiva com o cineasta Henrique Dantas. Abaixo, voc\u00ea confere mais acerca do processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cDorivando Sarav\u00e1\u201d e o ritmo fugaz e acelerado do s\u00e9culo XXI vs. a parcim\u00f4nia e concentra\u00e7\u00e3o de outrora, oriundo de uma gera\u00e7\u00e3o de artistas pilares da m\u00fasica (Dorival), da escrita (Jorge Amado) e das artes pl\u00e1sticas Caryb\u00e9. Boa leitura!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer Dorivando Sarav&amp;aacute;\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/362672592?h=5f7f909b72&amp;dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O mar se faz presente em praticamente todas as cenas do seu filme como uma das camadas que as imagens exibidas em tela captam. Da mesma forma como esse elemento da natureza fez parte da vida de Caymmi. Essa met\u00e1fora era intencional? Como se deu essa ideia?<\/strong><br \/>\nExistem algumas perguntas que sempre me fa\u00e7o para saber se continuo ou n\u00e3o o processo de fazer um filme. S\u00e3o elas: por que fa\u00e7o esse filme? Para que fa\u00e7o esse filme? E para quem fa\u00e7o esse filme? Quando essas respostas aparecem dando um sentido a obra, eu continuo. Quando essas repostas n\u00e3o aparecem, eu desisto dos trabalhos. Quando come\u00e7o um filme, come\u00e7o uma obra de arte (sou artista visual de forma\u00e7\u00e3o, mestre e professor em artes visuais) onde entro em um estado de aten\u00e7\u00e3o focada naquele universo que quero apresentar. Ao me deparar com a hist\u00f3ria de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram filmes biogr\u00e1ficos, feitos por pessoas que vivem no Sudeste do pa\u00eds e que desconheciam a hist\u00f3ria preta de Caymmi na Bahia. Nenhum dos filmes apresentava hist\u00f3rias relacionadas \u00e0s origens africanas e ind\u00edgenas de Dorival. Somado a isso, ainda hoje temos pouqu\u00edssimos filmes brasileiros dirigidos por Pretxs, o que faz com que os recortes sejam realizados de um ponto de vista eminentemente branco, de classe m\u00e9dia alta, evidenciando pontos de vistas, por vezes, semelhantes. Se observarmos a comiss\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia, temos tr\u00eas mulheres e dois homens, todos brancos. Como \u00e9 que filmes feitos por pretos e sobre pretos ter\u00e3o olhares mais atentos aos nossos assuntos? Todos os filmes selecionados para a competitiva do festival s\u00e3o de diretorxs brancos. Com isso, n\u00e3o estou questionando resultados, nem obras ou pessoas, mas, sim, representatividades. (Vejo, inclusive, em parte do cinema aplaudido no Brasil problemas estruturais graves de racismo, que n\u00e3o s\u00e3o problematizados. E, normalmente, realizados por pessoas que se colocam como de esquerda. Mas isso seria outro assunto. Vamos voltar ao mar). Meus filmes refletem muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso espec\u00edfico, passei por um processo de transforma\u00e7\u00e3o muito pessoal onde percebi e reconheci a minha pr\u00f3pria negritude. N\u00e3o movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter passado por experi\u00eancias modificadoras. Dentre elas o convite para integrar a comiss\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situa\u00e7\u00f5es que sofri minha vida inteira e n\u00e3o entendia que eram situa\u00e7\u00f5es de racismo. Ou seja, nesse tempo em que estava fazendo o filme sobre Dorival, percebi que era um negro embranquecido por diversos fatores, incluindo a condi\u00e7\u00e3o social. A leitura dos escritos de Ant\u00f4nio Olavo, seus filmes e minha amizade com ele contribuiu muito, tamb\u00e9m. O mar apresenta um tempo expandido, a cada onda, a cada mar\u00e9, muito parecido com o tempo da espiritualidade presente no Candombl\u00e9, na Umbanda e em ritos Ind\u00edgenas. \u00c9 um tempo que n\u00e3o pode ser medido por rel\u00f3gio, apenas pelo sol e pela lua, assim como pela troca de folhas do Ir\u00f4ko. Com isso, defendo a ideia de que Caymmi n\u00e3o morreu. Ele, como afirmou em suas m\u00fasicas, foi parar diretamente nos bra\u00e7os de Iemanj\u00e1, se transformando no mar. Por isso o mar est\u00e1 presente em todo o filme, seja em imagens, seja em sons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o somente este artif\u00edcio, mas a utiliza\u00e7\u00e3o de outros elementos c\u00eanicos, como os objetos deixados na areia da praia a representar, cada um deles, uma rela\u00e7\u00e3o com a vida de Caymmi, ditam um ritmo cadenciado para o document\u00e1rio, impedindo que a obra caia em um formato clich\u00ea de simples cabe\u00e7as falantes. Como foi esse planejamento?<\/strong><br \/>\nMeus filmes documentais, a exce\u00e7\u00e3o de \u201cFilhos de Jo\u00e3o, O Admir\u00e1vel Mundo Novo Baiano\u201d, que foi o primeiro, s\u00e3o esteticamente experimentais e no campo dos experimentos eu aplico muito das minhas pesquisas no campo das artes visuais. Eles n\u00e3o se pautam por cabe\u00e7as falantes, apesar de n\u00e3o abdicar do recurso da entrevista para a constru\u00e7\u00e3o do discurso que escolho para cada filme. Em um document\u00e1rio, eu, como autor, procuro um DNA da po\u00e9tica do filme, a partir das constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que aquele assunto me provoca. Meu cinema \u00e9 processual. Eu o vejo da mesma maneira que via as obras conceituais desenvolvidas na gradua\u00e7\u00e3o e no mestrado. Busco a produ\u00e7\u00e3o de um discurso pol\u00edtico abra\u00e7ado por um pensamento est\u00e9tico. Ao propor esses objetos, deslocados desses lugares, tentei imaginar quais deles certamente passaram pela vida de Caymmi, e fui me apropriando dos mesmos como um ReadyMade, que s\u00e3o os artefatos apresentados fora dos contextos em que s\u00e3o normalmente apresentados e transformados, com isso, em obras conceituais. Trata-se de um conceito desenvolvido por Marcel Duchamp. Assim, fui os apresentando no filme como uma fragmenta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica desses elementos pretos que Caymmi viveu em sua vida e que foram transformados em mar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_53874\" aria-describedby=\"caption-attachment-53874\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-53874 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e18.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e18.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e18-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-53874\" class=\"wp-caption-text\"><em>Tom Z\u00e9 em cena do document\u00e1rio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 nas fontes entrevistadas um equil\u00edbrio palp\u00e1vel entre as v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es influenciadas por Dorival Caymmi. De Gilberto Gil a Tom Z\u00e9; De Ger\u00f4nimo a Lazzo, passando por Mateus Aleluia, Moraes Moreira, Adriana Calcanhoto, e novas gera\u00e7\u00f5es como BNeg\u00e3o e Tigan\u00e1 Santana. Como voc\u00ea decidiu a escolha dos nomes que iriam compor o repert\u00f3rio de falas?<\/strong><br \/>\nOs nomes foram escolhidos por tr\u00eas vieses distintos. O primeiro foram pessoas que mantiveram a tradi\u00e7\u00e3o de cantar os Orix\u00e1s na MPB. A\u00ed, vamos de Gilberto Gil, passando por Matheus Aleluia, Tigan\u00e1 Santana, Lazzo, Moraes Moreira, Ger\u00f4nimo, pessoas que cantaram e cantam a M\u00fasica Preta Brasileira. O segundo foram pessoas que tiveram rela\u00e7\u00f5es afetuosas com Caymmi, os compadres e amigos, como Arlete Soares, Roberto Santana, Lucinha Mascarenhas, Lucas Santana, Jo\u00e3o Donato. Em terceiro lugar, pesquisadores e artistas que interpretaram as obras de Caymmi, sejam em m\u00fasicas ou em textos, a\u00ed vamos de BNeg\u00e3o, Adriana Calcanhoto, Jussara Silveira; os pesquisadores Vitor Queiroz, Kleber Am\u00e2ncio e Marielson Carvalho. No caso de Tom Z\u00e9, al\u00e9m de ser um amigo, \u00e9 uma pessoa que tem uma maneira muito singular de apresentar os pensamentos. Isso j\u00e1 tinha me encantado desde que fiz \u201cFilhos de Jo\u00e3o\u201d, onde ele foi o condutor. Mas, alguns ficaram de fora. N\u00e3o tenho essa moral toda para ser recebido por algumas pessoas e\/ou espa\u00e7os (risos). Acho isso super engra\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o trabalho de montagem? Muita coisa ficou de fora? Foi doloroso perder alguma fala que voc\u00ea pudesse julgar importante?<\/strong><br \/>\nExiste um debate muito rico no cinema brasileiro sobre se o diretor deve ou n\u00e3o ser montador do pr\u00f3prio filme. Eu tenho uma maneira muito espec\u00edfica de fazer os filmes documentais e por isso os monto desde o primeiro momento. Quando sento na cadeira de montagem, \u00e9 quando j\u00e1 estudei muito todas as entrevistas. \u00c9 quando j\u00e1 criei parte das po\u00e9ticas apresentadas (a outra parte sempre filmo durante a montagem) e, com isso, come\u00e7o esse trabalho minucioso e minimalista de \u201cEsculpir o Tempo\u201d (termo criado por Andrei Tarkovski) a partir das imagens, sons e sil\u00eancios provocados pelo mar. Sempre tenho procurado estabelecer parceiros para esses processos de montagem, para que n\u00e3o seja um processo solit\u00e1rio e que tenha a possibilidade de colabora\u00e7\u00e3o de outro olhar. Mas tenho muita firmeza do que quero e de como quero as imagens. Tenho montado os filmes com parceiros distintos e quem conhece meu trabalho, percebe claramente a maneira parecida com que monto meus filmes desde de \u201cFilhos de Jo\u00e3o\u201d, buscando uma narrativa cadenciada pelos afetos. No \u201cDorivando\u201d tive a colabora\u00e7\u00e3o da querida Luciana Queiroz que assina a montagem comigo e fez Assist\u00eancia de Dire\u00e7\u00e3o. O filme teve uma equipe muito feliz, com cinco diretores de fotografia (Pedro Semanovschi, Andr\u00e9ia Cebukin\/Rio, Tha\u00eds Taverna\/SP, Alberto Ianuzii e Hamilton Oliveira). A Dire\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de Marcello Gurgel; a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1udio de Marcello Benedicts. \u201cDorivando\u201d foi colorido por Tito Oliveira e eu assino a dire\u00e7\u00e3o de arte e a produ\u00e7\u00e3o executiva junto a Nena Oliveira. Os cr\u00e9ditos foram constru\u00eddos com Em\u00edlio Le Roux; a edi\u00e7\u00e3o de som de Beto Santana; a trilha adicional de Orlando Bol\u00e3o e colabora\u00e7\u00f5es maravilhosas de L\u00e9o Carvalho na arte do cartaz, Fabiana Fernandes nas tradu\u00e7\u00f5es, entre outras pessoas que tiveram olhares e afetos pelo filme durante o processo. Gostaria de ressaltar a postura da fam\u00edlia Caymmi junto a esse trabalho. Danilo Caymmi e seu filho, Gabriel, s\u00e3o pessoas muito sens\u00edveis ao fazer art\u00edstico e t\u00eam tido uma postura muito positiva junto ao filme.<\/p>\n<figure id=\"attachment_53873\" aria-describedby=\"caption-attachment-53873\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-53873 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BNeg\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BNeg\u00e3o.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BNeg\u00e3o-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-53873\" class=\"wp-caption-text\"><em>B Neg\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um dos momentos da obra, h\u00e1 uma fala acerca da quest\u00e3o do tempo do homem vs o tempo da m\u00e1quina. Vivemos uma \u00e9poca virtual, onde tudo \u00e9 fugaz, sendo pouca coisa realmente aprofundada. Como voc\u00ea enxerga a obra de Caymmi para gera\u00e7\u00f5es futuras e t\u00e3o, contraditoriamente, desconectadas do real e do po\u00e9tico?<\/strong><br \/>\nA internet chegou como a solu\u00e7\u00e3o para o mundo moderno e acabou se transformando na pris\u00e3o individual de cada um. Impressiona como todos est\u00e3o conectados 100% dos dias (inclusive eu) e como isso tem nos afastado de n\u00f3s mesmos. Imagina que os rob\u00f4s conseguiram eleger um presidente completamente incapaz, a partir do \u00f3dio implantado nas mentes vazias e sem leituras, que acabam sendo manipuladas por essas mem\u00f3rias fabricadas com base nas mentiras. A internet hoje \u00e9 o grande monstro do sistema. Elegeu Trump, tem provocado Golpes de Estado e n\u00f3s, como meros receptores, passamos a acreditar em tudo que nos apresentam como imagem. Na Fran\u00e7a, as escolas pro\u00edbem o celular durante o per\u00edodo de aula, para desintoxicar o jovem desse estado de alerta eterno. O tempo de Caymmi vai na contram\u00e3o desse tempo da internet. Quando proponho o verbo \u201cDorivar\u201d \u00e9 uma maneira de chamar a aten\u00e7\u00e3o para isso. \u201cDorivar\u201d \u00e9 ver o mundo com respiro, com o espa\u00e7o para a d\u00favida, com o tempo n\u00e3o amarrado com o pr\u00f3ximo futuro imediato. Dorivar n\u00e3o \u00e9 ter \u201cpregui\u00e7a\u201d. A pregui\u00e7a foi uma maneira racista criada pelos colonizadores para subjugar os negros e \u00edndios que eram espancados para trabalhar como m\u00e1quinas. E como diz Gilberto Gil no filme, deve ser requalificada. Por isso o baiano \u00e9 visto como pregui\u00e7oso, porque esse racismo \u00e9 entranhado de tal forma que foi transformado erroneamente em um preconceito super escroto com quem \u00e9 da Bahia. J\u00e1 vi algumas vezes os sudestinos chegarem aqui para falar mal do baiano. N\u00e3o sou bairrista, mas precisamos lutar contra esse racismo de todo o dia. Baiano trabalha pra caramba e esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o aceito de ningu\u00e9m. Agora o entendimento do tempo na obra de Caymmi \u00e9 uma outra coisa, n\u00e3o tem nada a ver com pregui\u00e7a. Um tempo que vai de encontro com a velocidade de resposta e conex\u00e3o que a internet nos obriga a ter. Quanto as futuras gera\u00e7\u00f5es, eu cito um depoimento de BNeg\u00e3o onde ele relata a sua participa\u00e7\u00e3o numa Festa de Iemanj\u00e1, quando ele cantou seus sucessos e de outros cantores como Otto sob a empolga\u00e7\u00e3o alucinada das pessoas. Quando ele cantou uma m\u00fasica de Caymmi, ningu\u00e9m o acompanhou. E isso o deixou muito impressionado. Caymmi tem uma s\u00e9rie de m\u00fasicas que as pessoas cantam e n\u00e3o sabem que \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o dele. Por isso, a import\u00e2ncia de um Museu com sua obra dele, assim como tem a Casa Jorge Amado. As pessoas precisam dar a devida dimens\u00e3o simb\u00f3lica dessas entidades que passaram pela terra e merecem todo o nosso reconhecimento. Eu canto Caymmi com meus filhos e toco algumas coisas no viol\u00e3o, mas tenho uma luta di\u00e1ria contra o tempo de conex\u00e3o deles. As Tvs via streaming (as Flixs da vida), as redes sociais, toda essa nossa engrenagem de muta\u00e7\u00e3o em algoritmo, tem nos manipulado de maneira muito s\u00e9ria e perigosa. Hoje temos pessoas que s\u00e3o contra os Golpes que aconteceram no Brasil, mas bebem Coca, cal\u00e7am Nike, comem em FastFood americano e n\u00e3o percebem que o real poder do indiv\u00edduo no \u201cCapetalismo\u201d \u00e9 o consumo, ou seja, n\u00e3o adianta ser contra a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil e continuar abastecendo o carro em postos de gasolina da mesma bandeira que acabou com o Pr\u00e9-sal e fez o pior acordo a um pa\u00eds na hist\u00f3ria do \u201cCapetalismo Moderno\u201d. O Brasil entregou um trilh\u00e3o para essa empresa em forma de concha do mar e depois retirou o mesmo montante do povo brasileiro atrav\u00e9s da \u201cDeforma\u201d da Previd\u00eancia. Mas n\u00f3s, revolucion\u00e1rios, n\u00e3o conseguimos abdicar de consumir os produtos do Drag\u00e3o da Maldade e depois apanhamos desses inimigos fortes que n\u00f3s alimentamos como uma ora\u00e7\u00e3o. No cinema, vivemos essas mesmas contradi\u00e7\u00f5es, a maioria dos equipamentos que utilizamos s\u00e3o de empresas multinacionais que vivem da destrui\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos momentos que me chamou aten\u00e7\u00e3o no document\u00e1rio foi a quest\u00e3o do embranquecimento de Dorival Caymmi, sendo que alguns exemplos de intelectuais negros brasileiros que passaram por processo semelhante em sua posteridade s\u00e3o citados no filme. Sendo um cineasta negro, e levando em considera\u00e7\u00e3o a imprescind\u00edvel afirma\u00e7\u00e3o que seu filme j\u00e1 leva no t\u00edtulo, como voc\u00ea coloca a resist\u00eancia da obra de Caymmi em um pa\u00eds t\u00e3o racista como o Brasil?<\/strong><br \/>\nEsse filme dialoga muito com a minha vida. Eu fui embranquecido por minha fam\u00edlia, por mim mesmo e pela sociedade. O embranquecimento \u00e9 um processo cruel, perverso, onde voc\u00ea implanta um desejo oculto de ser diferente daquilo que voc\u00ea \u00e9. Voc\u00ea acaba n\u00e3o se reconhecendo como preto, acredita que seu cabelo \u00e9 ruim, que seu nariz \u00e9 grosso, como se isso fosse algo diferente do belo e passa a vida toda vivendo situa\u00e7\u00f5es constrangedoras de racismo, mas prefere interpretar que foi outro tipo de preconceito. Hoje eu sou um negro n\u00e3o apenas por conta do meu olhar, da minha auto-declara\u00e7\u00e3o, mas pela percep\u00e7\u00e3o de como a sociedade me enxergou e me enxerga em v\u00e1rios momentos de minha vida. Caymmi, Machado de Assis, Lima Barreto, Juliano Moreira, s\u00e3o alguns dos nomes que a hist\u00f3ria embranqueceu porque acredita que, assim, \u00e9 melhor para o projeto de na\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o racial, hoje, \u00e9 um tema fundamental na sociedade. As pessoas precisam entender a necessidade de enfrentarmos o racismo estrutural que nos afoga. Steve Bikotraz tem um conceito de \u201cConsci\u00eancia Preta\u201d que est\u00e1 sendo muito importante nesse meu atual momento de leituras. Ali\u00e1s, a leitura de autorxs pretxs tem me levado a lugares muito interessantes nesse processo de re-identifica\u00e7\u00e3o que tenho passado. Conhecer a obra de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, a autobiografia de Malcom X, os pensamentos de Frantz Fanon, tem me auxiliado muito nesse momento de afirma\u00e7\u00e3o. Todo o material de pesquisa que tive contato, o Caymmi apresentado, era um Caymmi Bossa Nova carioca, de Copacabana, que \u00e9 lindo, tamb\u00e9m, mas o que eu busquei apresentar foi o Caymmi da esteira, das contas de Orix\u00e1s, o Ob\u00e1 de Xang\u00f4. Voltando \u00e0 sua pergunta, sim. Apresentar esse Caymmi preto \u00e9 super importante nesse momento pol\u00edtico de Idade M\u00e9dia, onde em nome de Deus, odiamos tudo aquilo que n\u00e3o reza na B\u00edblia e acabamos por fazer exatamente o contr\u00e1rio do que est\u00e1 escrito nos livros do Novo Testamento. Caymmi, antes dele, Humberto Porto, foram os primeiros a cantar os Orix\u00e1s nas r\u00e1dios brasileiras. E Caymmi segue fazendo isso at\u00e9 o fim da sua vida: cantando os Orix\u00e1s.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53875\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e19.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e19.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Dorivando-Sarav\u00e19-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste mesmo vi\u00e9s, em um Brasil infelizmente neo-pentecostal e evang\u00e9lico, cujos governantes perniciosos e oportunistas se valem de tal influ\u00eancia para consolidar podres poderes, temos na religi\u00e3o do candombl\u00e9 algo maior que uma simples religi\u00e3o. Trata-se de uma resist\u00eancia contra um esmagamento criminoso. A obra de Caymmi \u00e9, tamb\u00e9m, um s\u00edmbolo do candombl\u00e9 como algo que merece respeito. E \u201cDorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar\u201d \u00e9 um filme que coloca muito disso em evid\u00eancia. Voc\u00ea pode falar um pouco dessa fun\u00e7\u00e3o de alerta que seu filme traz contra o que vem acontecendo no Brasil?<\/strong><br \/>\nO movimento neopentecostal no mundo \u00e9 algo assustador. Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e nessas t\u00e9cnicas de convencimento e persuas\u00e3o v\u00e3o levando as pessoas como gado para onde elas quiserem. Estudei em col\u00e9gio de freiras em Ilh\u00e9us, e, com isso, li muito a B\u00edblia e posso garantir que nesse livro n\u00e3o existe esse \u00f3dio plantado por esses falsos profetas. At\u00e9 porque s\u00e3o met\u00e1foras e o problema est\u00e1 nessas infinitas possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe na hist\u00f3ria de Cristo contada naquele livro nada sobre intoler\u00e2ncia \u00e0s mulheres, aos gays, aos pretos, aos \u00edndios. Na verdade, a intoler\u00e2ncia de Cristo \u00e9 contada apenas quando ele expulsa os falsos profetas, os vendilh\u00f5es, ou seja, caso ele voltasse hoje ele botaria para fora grande parte dos pastores das igrejas que foram erguidas em seu nome. Hoje, me preocupo sobre \u201co que \u00e9\u201d Deus. Porque quando entramos nessa briga de rato para saber \u201cquem\u201d \u00e9 Deus, entramos no jogo deles e sempre perdemos. Acredito que muitos dos evang\u00e9licos n\u00e3o pensam dessa maneira intolerante, mas s\u00e3o poucas as vozes que se op\u00f5em dentro dessas igrejas contra a intoler\u00e2ncia. Vozes como o pastor carioca Marcos Maia, que se levanta de maneira muito corajosa contra essa maneira fascista de enxergar Deus. Hoje vivemos com as igrejas neopentecostais a mesma coisa que as Cruzadas fizeram pelo mundo: mataram milh\u00f5es em nome de Deus. Uma coisa que sempre me preocupa \u00e9 a entrada das igrejas no Estado. Assumem prefeituras, governos, presid\u00eancias e fazem desses lugares de servid\u00e3o p\u00fablica, como espa\u00e7os ampliados de suas igrejas. Isso n\u00e3o pode estar certo. A elei\u00e7\u00e3o para presidente desse ano mostrou muito dessa hipocrisia dos milh\u00f5es de brasileiros que frequentam as igrejas, julgam todos e todas, mas s\u00e3o pessoas ruins, preconceituosas, que frequentam a igreja apesar do \u00f3dio que carregam em si. Tenho conhecidos (porque os amigos que votaram em Bolsonaro foram embora) que votaram nessa coisa que se elegeu, que frequentam a igreja e rezam todo o dia, mas n\u00e3o conseguem enxergar problema algum em votar numa pessoa que amea\u00e7a exterminar esquerdistas, que apoia a tortura seguida de morte, que apoia o machismo feminicida, que apoia o racismo, que apoia a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, que apoia a mil\u00edcia, que apoia essa \u201cDeforma\u201d da Previd\u00eancia, mas que vivem tranquilamente na sua pr\u00f3pria hipocrisia do dia a dia, rezando para um Deus que ir\u00e1 perdoar seus pecados, que destroem esse pa\u00eds. Tempos estranhos se avizinham e precisamos ter coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o legado da obra de Caymmi para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nO legado da obra de Caymmi vai ficar sendo apresentado por tempos futuros long\u00ednquos, pr\u00f3ximos \u00e0 eternidade. Caymmi virou o mar e o mar, apesar de todo o \u00f3leo das privatiza\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo nacional, \u00e9 eterno. S\u00f3 nesses \u00faltimos anos foram realizados tr\u00eas outros filmes sobre Caymmi. Ou seja, a obra dele \u00e9 imensa, imensur\u00e1vel. Mas trago uma reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia desse legado preto especificamente para a Bahia. \u00c9 inadmiss\u00edvel que a Bahia n\u00e3o tenha um espa\u00e7o sagrado para a manuten\u00e7\u00e3o da obra de Caymmi. Um Museu Caymmi com toda a obra dele. Caymmi n\u00e3o foi apenas a pessoa mais importante do DNA da MPB, ele foi tamb\u00e9m um excelente pintor, que tinha um dom\u00ednio das cores e que tentava passar com os quadros algo parecido com suas m\u00fasicas. Precisamos de sensibilidade dos nossos governantes para entender que a Bahia existe n\u00e3o porque tem metr\u00f4, ponte, estrada, BRT, igreja, a Bahia existe porque tem Caymmi, Jorge Amado, Carib\u00e9, Verger, Jo\u00e3o Gilberto, Gilberto Gil, Novos Baianos, Tinco\u00e3s, M\u00e3e Aninha, M\u00e3e Senhora, M\u00e3e Menininha, M\u00e3e Stella, Mestre Didi, Mestre Pastinha, Mestre Bimba. N\u00e3o posso deixar de comentar a apatia, a inconsist\u00eancia dos trabalhos desenvolvidos pela Secretaria de Cultura do Estado e do Munic\u00edpio. A Prefeitura, depois de estabelecer um di\u00e1logo promissor, tem dois anos que n\u00e3o realiza editais de audiovisual e acaba de conceder um apoio consider\u00e1vel a um projeto do Rio de Janeiro sem ter nenhuma esp\u00e9cie de apoio parecido com as produ\u00e7\u00f5es locais. Em rela\u00e7\u00e3o ao governo do estado, as inconsist\u00eancias das condu\u00e7\u00f5es dos dois \u00fanicos editais da atual gest\u00e3o s\u00e3o lament\u00e1veis. No primeiro edital de audiovisual do atual governador, tivemos um susto quando nos deparamos com uma pol\u00edtica clara de exclus\u00e3o. Pessoalmente, tive projetos que foram desclassificados porque utilizei uma cor para cada etapa de produ\u00e7\u00e3o. Nesse agora fui desclassificado pelo entendimento do governo que minha produtora, que apresentou todas as certid\u00f5es negativas de d\u00e9bito, inclusive a municipal, n\u00e3o demonstrou que era uma empresa baiana e por isso n\u00e3o poderia participar do edital. Apenas um dado para reflex\u00e3o: 47% das propostas apresentadas foram desclassificadas por motivos insignificantes como o que apresentei. \u00c9 um recorde de exclus\u00e3o na hist\u00f3ria dos editais no pa\u00eds. Finalizo salientando que \u201cDorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar\u201d foi realizado com recursos do FSA em parceira com o Canal Curta e com a produ\u00e7\u00e3o da Hamaca Filmes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MPB Especial com Dorival Caymmi\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rhJKQ8JC-ys?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. Todas as imagens do texto s\u00e3o do document\u00e1rio &#8220;Dorivando Sarav\u00e1 \u2013 O Preto que Virou Mar\u201d com exce\u00e7\u00e3o da foto do diretor Henrique Dantas, registro do document\u00e1rio &#8220;Bahia.Doc&#8221;.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cAo me deparar com a hist\u00f3ria de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram obras biogr\u00e1ficas feitas por pessoas que vivem no Sudeste do pa\u00eds e que desconheciam a hist\u00f3ria preta de Caymmi na Bahia\u201d, salienta o diretor.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/29\/entrevista-henrique-dantas-fala-de-seu-doc-dorivando-sarava-o-preto-que-virou-mar\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":53876,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[4150],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53870"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53870"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53870\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72822,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53870\/revisions\/72822"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53876"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}