{"id":5385,"date":"2010-07-10T21:47:05","date_gmt":"2010-07-11T00:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5385"},"modified":"2025-07-17T00:26:00","modified_gmt":"2025-07-17T03:26:00","slug":"cazuza-amigo-e-inspiracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/10\/cazuza-amigo-e-inspiracao\/","title":{"rendered":"Dulce Quental: Cazuza, amigo e inspira\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5386 aligncenter\" title=\"cazuza\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/cazuza.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"328\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/caleidosquental\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dulce Quental<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inacredit\u00e1vel como o tempo voa! O tempo n\u00e3o para, dizia Angenor de Miranda Ara\u00fajo Neto, nosso querido Cazuza. N\u00e3o para, voa, e h\u00e1 vinte anos parece ter mudado a face do mundo, eu penso. Mudado pra continuar igual? Um museu de velhas novidades, diria Cazuza. Hoje, n\u00e3o comemoramos o anivers\u00e1rio da morte do poeta. N\u00e3o queremos a morbidez no processo de celebra\u00e7\u00e3o. Se Cazuza estivesse vivo teria 52 anos. Um jovem senhor, como o tempo, esse tecido que costura as nossas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso em Cazuza e por que n\u00e3o, em Ezequiel Neves, soprando ao meu ouvido mentiras sinceras do liquidificador da vida. \u00c9 a\u00ed que mora o amor? Esse outro, que \u00e9 tamb\u00e9m senhor e que fala de um n\u00f3s que ainda urge?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou t\u00e3o tarde. Tarde demais pra mim, e t\u00e3o cedo pra ele, que n\u00e3o conheceu computador, celular, e-mail, twitter. Como ele teria gostado! Todos esses badulaques ao alcance da cabe\u00e7a impressionista, mestre em frases curtas: as torres g\u00eameas caindo, a c\u00e9lula artificial, o cabelo cogumelo at\u00f4mico; tudo lhe interessava, principalmente o humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mentiras sinceras, meu bem-meu mal, n\u00e3o separar o sim do n\u00e3o, a vida da morte, o eu do outro. Passional. Absolutamente e totalmente. Cazuza se movia al\u00e9m da paix\u00e3o, por compaix\u00e3o: \u201cQuem sabe eu ainda sou uma garotinha? Por que n\u00e3o me convidaram para essa festa pobre? Porque j\u00e1 fomos perdoados, j\u00e1 passou e eu j\u00e1 posso entender a inoc\u00eancia do prazer! Ent\u00e3o fala baixo, fala baixo e sente, eu vou te dar um presente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deu-nos mais do que duzentas e n\u00e3o poucas can\u00e7\u00f5es, sua presen\u00e7a. Nada pragm\u00e1tico, compunha aos borbot\u00f5es. Nada tecnocient\u00edfico, como os dias de hoje. No entanto, racional, sem perder a ternura. Alberto Caeiro, o alter-ego mais genial de Pessoa. N\u00e3o era um porra-louca. Deixou aos 32 anos uma obra, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o dos grandes artistas que admirava: Allen Ginsberg, Vinicius de Moraes, Janis Joplin, \u00c2ngela Ror\u00f4, Lupic\u00ednio Rodrigues; Clarice Lispector, s\u00f3 pra citar alguns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi meu amigo. Uma inspira\u00e7\u00e3o. Com quem eu dialogava artisticamente. Quebrou minha cabe\u00e7a e as minhas resist\u00eancias. Quando nos conhecemos em 82 eu acabara de voltar da Fran\u00e7a, ele da Calif\u00f3rnia. Eu mais existencialista, ele beatnick. Cantamos juntos no palco. Ele de joelhos, literalmente, eu aos seus p\u00e9s, desconsertada. Participou do meu primeiro disco solo, \u201cD\u00e9lica\u201d, chegando ao est\u00fadio atrasado. Esperei tanto que ca\u00ed de pileque. Gravamos a voz juntos, alterando as falas. Eu sempre aprendendo. Entrega e controle. Ligar e desligar. Poderia parecer que n\u00e3o, mas ele sabia exatamente o que fazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de ir para Boston passou no est\u00fadio pra me ver. Tinha gostado de uma can\u00e7\u00e3o que eu tinha mostrado pra ele durante uma festa. A m\u00fasica falava dele. Mas como? Foi ao est\u00fadio aonde eu ensaiava pra ouvir de novo. Coincid\u00eancia? Empatia? Sei l\u00e1, n\u00f3s nos espelh\u00e1vamos e pronto. Contou pra mim da doen\u00e7a e viajou. Quando voltou, era uma pessoa diferente: \u201dEu vi a cara da morte e ela estava viva\u201d, dizia a letra de \u201cBoas Novas\u201d, do disco \u201cIdeologia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de na \u00e9poca ter ficado muito impressionada com a for\u00e7a po\u00e9tica dessa frase: \u201cEsse cara \u00e9 foda\u201d, pensei. \u201cQue talento pra sintetizar uma experi\u00eancia, que capacidade de sublima\u00e7\u00e3o maravilhosa\u201d. Chapei! Inspirada na letra de \u201cBoas Novas\u201d compus \u201cO Poeta est\u00e1 Vivo\u201d. Sem musica ainda, mostrei a letra pra ele, meio envergonhada de pretender escrever alguma coisa \u00e0 altura da sua verve e do seu sofrimento. Est\u00e1vamos no apartamento da Lagoa. Ele escutou atentamente e disse: \u201cvoc\u00ea est\u00e1 escrevendo melhor do que eu\u201d. Eu sabia que n\u00e3o, mas esse era o Cazuza: um cara que sabia dizer o que as pessoas precisavam ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mostrei a letra uns tempos depois para Denise Barroso, irm\u00e3 de Julio, da Gang 90, amiga tamb\u00e9m do Cazuza e uma das personalidades mais importantes da nossa gera\u00e7\u00e3o. Denise me disse: \u201cDulce, por que \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o mostra pro Frejat essa letra. Quem sabe sai alguma coisa?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramo-nos, eu e Frejat, no apartamento dos seus pais no Flamengo para gravar a \u201cdemo\u201d da can\u00e7\u00e3o. Frejat ainda dividia o quarto com o irm\u00e3o Mauro e morava com os pais. A \u201cdemo\u201d foi gravada e arquivada num k7 solto por a\u00ed, anos, sei l\u00e1. N\u00e3o sei exatamente quanto tempo depois ela seria resgatada pelo Ezequiel, fechando o repertorio do \u201cNa Calada da Noite\u201d, o primeiro LP do Bar\u00e3o Vermelho ap\u00f3s a morte do Cazuza. Inicialmente a can\u00e7\u00e3o ganhou o nome de \u201cMoinhos de Vento\u201d, s\u00f3 depois passou a se chamar \u201cO Poeta est\u00e1 Vivo\u201d, titulo dado pelo Ezequiel, c\u00e9rebro, esp\u00edrito, pai e pau pra toda obra do Bar\u00e3o e do Cazuza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Momentos que tive com Cazuza: ao lado da lareira perto do fogo, sua cabe\u00e7a no meu colo; tomando conhaque antes de entrar no palco; tomando esporro por causa de namorado; na praia com os cachorros; no Baixo com D\u00e9; no Vale Florido onde t\u00ednhamos casa; com Bineco Marinho, Iara Neiva, Waleska, Aninha Arantes, Bebel Gilberto. S\u00e3o tantas as lembran\u00e7as que n\u00e3o caberiam aqui nessa lauda, nessa contagem de caracteres, assim como parece n\u00e3o caber nesse tempo corrido todo o tempo que precisamos para gerar, alimentar, cuidar e fazer viver um Angenor igual ao Cazuza.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Dulce Quental \u00e9 cantora, compositora, m\u00e3e e assina o blog Caleidosc\u00f3picas<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto escrito a pedido do jornal O Povo, e reproduzido pelo Scream &amp; Yell<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Dulce Quental\nInacredit\u00e1vel como o tempo voa! O tempo n\u00e3o para, dizia Angenor de Miranda Ara\u00fajo Neto, nosso querido Cazuza. 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