{"id":53813,"date":"2019-11-26T00:35:09","date_gmt":"2019-11-26T03:35:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53813"},"modified":"2020-01-13T02:23:44","modified_gmt":"2020-01-13T05:23:44","slug":"entrevista-carlinhos-carneiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/26\/entrevista-carlinhos-carneiro\/","title":{"rendered":"Entrevista: Carlinhos Carneiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Janaina Azevedo<\/a><br \/>\nIntrodu\u00e7\u00e3o por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlinhos Carneiro decidiu dar f\u00e9rias para sua banda mais famosa em 2016 porque estava cansado de ser \u201capenas\u201d o \u201cCarlinhos da Bid\u00ea\u201d \u2013 e tamb\u00e9m porque achava que a banda tinha se transformando em um relacionamento t\u00f3xico, e queria dar um tempo para que a Bid\u00ea ou Balde voltasse a ser divertido \u2013 e queria \u201catrapalhar\u201d a galera. Funcionou. De l\u00e1 para c\u00e1 ele gravou dois discos em 2017, dois em 2018 e planejava lan\u00e7ar cinco em 2019. Isso sem contar pe\u00e7a de teatro, dire\u00e7\u00e3o de clipes, composi\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas e muita divers\u00e3o ao vivo com bandas como <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/7ihifGg00YCnDndC3xucZr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bife Simples<\/a>, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/5oIyvKEAKPlZLNvU9gVLNl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Imp\u00e9rio da L\u00e3<\/a>, Orquestra da Depress\u00e3o Provinciana, S\u00f3 Amor, Carlinhos Carneiro e a Jovem Tiozinhice (a foto que abre o texto \u00e9 desse projeto)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tamb\u00e9m a <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/6pYDP9wBfrV4kegCzRIJke\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Atahualpa Y Us Panqui<\/a>, nome seminal do rock sulista brasileiro dos anos 80, que tinha em suas fileiras Jimi Joe, Flu, Castor Daudt (os dois \u00faltimos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/17\/defalla-ao-vivo-no-sesc-pompeia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tamb\u00e9m do DeFalla<\/a>), o Paulo Mello e, como l\u00edder, o saudoso Carlos Eduardo Miranda, <a href=\"https:\/\/www.simsaopaulo.com.br\/news\/48_carlos_eduardo_miranda_muito_mais_que_um_idolo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que nos deixou cedo demais<\/a>, em 2018, aos 56 anos, com uma cabe\u00e7a fervilhante de ideias. Entre as ideias do Miranda estava a de produzir um disco com a Bid\u00ea gravando apenas cl\u00e1ssicos dos subterr\u00e2neos de Porto Alegre. Miranda partiu, e quando fez um ano de sua morte, l\u00e1 estava Carlinhos cantando m\u00fasicas da Atahualpa em um show em sua homenagem. \u201cMiranda est\u00e1 aqui e mandou te dizer que gostou muito\u201d, avisou um m\u00e9dium depois do show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na reflexiva conversa abaixo, Carlinhos conta como se deu a reuni\u00e3o que resultou em \u201cMini Mundo\u201d (2019), disco que gravou como vocalista e tecladista da Atahualpa Y Us Panqui, registrando oficialmente pela primeira vez cl\u00e1ssicos da banda lan\u00e7ados apenas em fita demo nos anos 80, detalha de maneira minuciosa todos os seus outros projetos e avisa que j\u00e1 h\u00e1 conversas para a volta da Bid\u00ea ou Balde. Ainda pontua tudo de bom que est\u00e1 acontecendo musicalmente no Rio Grande do Sul na atualidade, n\u00e3o deixando de observar as diferen\u00e7as de cen\u00e1rio entre a sua gera\u00e7\u00e3o (e de Tom Bloch, Video Hits, Wonkavision e, depois, Cachorro Grande e Fresno) e a de nomes como Saskia e Superv\u00e3o. Papo (longo e) muito bom! Fala, Carlinhos!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Atahualpa y us Panquis - Estou fazendo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL8EaHn_WNh-2NrEcF2V7fGYg9lI5Vq7-T\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria entender como foi essa volta do Atahualpa.<\/strong><br \/>\nO Atahualpa \u00e9 uma das primeiras (bandas) dessa galera do rock, era a banda do Miranda, n\u00e9? Um dos projetos que ele tinha l\u00e1 com o Jimi Joe \u2013 ele tinha outros com a galera do Vortex, que era o selo \/ est\u00fadio, como a Urubu Rei, tinha tamb\u00e9m o Vingan\u00e7a de Montezuma, Tr\u00eas Almas Perdidas&#8230; \u00c9 o come\u00e7o de um Miranda que a gente conhece muito pouco. Eu pelo menos conhecia muito pouco. O conheci desde que comecei a gostar de m\u00fasica, me lembro da imagem do Miranda quando pintou o grunge, ele falando das demos das bandas brasileiras da \u00e9poca. Depois veio todo aquele boom da Banguela Records, Raimundos, da\u00ed eu conhecia [o Miranda] dessa forma (como produtor e agitador). A galera mais antiga conheceu o Miranda m\u00fasico, criador, cantor principalmente e o Atahualpa era a principal banda dele. Era ele, o Jimi Joe, o Flu, o Castor (Daudt, os dois \u00faltimos do DeFalla), o Paulo Mello, teve uma \u00e9poca que o Flu se acidentou e o Carlo Pianta participou. E teve algumas participa\u00e7\u00f5es ocasionais, tipo o Paulo Nequete, que \u00e9 um guitarrista, j\u00e1 falecido, e outras pessoas. Uma vez eles fizeram um show no Gigantinho (gin\u00e1sio que fica ao lado do Beira-Rio, em Porto Alegre), levaram uma mulher pra ficar batendo com umas correntes num botij\u00e3o de g\u00e1s, faziam um monte de coisa experimental assim. \u00c9 muito doido. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/25\/para-entender-butthole-surfers\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A refer\u00eancia deles \u00e9 o Butthole Surfers<\/a>, em 80 em poucos, tipo, bem no come\u00e7o (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Enquanto estava rolando o Butthole Surfers l\u00e1\u2026<\/strong><br \/>\nIsso, come\u00e7ando o Butthole Surfers l\u00e1 (e tinha o Atahualpa Y Us Panquis aqui). \u00c9 muito doido que o Miranda tinha esse neg\u00f3cio de conhecer um monte de coisa e de antecipar, e tamb\u00e9m de mostrar pra todo mundo, de ser generoso: \u201cBah, olha tem que ouvir isso, ouvir aquilo\u201d. Foi isso o que fomentou aquela cena. N\u00e3o s\u00f3 por isso dizem que ele \u00e9 o cara que inventou o rock ga\u00facho, al\u00e9m de ter inventado a mostarda do Ribs. Ele deu o golpe ali pra chamar tudo de uma mesma coisa por mais que fossem coisas t\u00e3o diferentes. O que faz todo mundo hoje querer negar o r\u00f3tulo e acabar caindo nele igual (risos). O Atahualpa surgiu nesse come\u00e7o do Replicantes, ent\u00e3o, muitas coisas do Atahualpa ficaram conhecidas depois, por bandas que n\u00e3o eram o Atahualpa, tipo \u201cSandina\u201d, que \u00e9 um dos maiores sucessos dos Replicantes, e \u00e9 do Atahualpa, \u00e9 do Jimi Joe. Depois tem \u201cAgora \u00e9 Tarde\u201d que eles deram tamb\u00e9m pro Replicantes, teve \u201cShoobydahbydoobah Porto Alegre \u00e9 Meu Lar\u201d, da Damn Laser Vampires. Elas n\u00e3o tiveram registro do Atahualpa, s\u00f3 teve uma demo, da Vortex, acho que de 86, com os cl\u00e1ssicos deles. S\u00f3 que \u00e9 muito mal-gravada. Dividiram com a Vingan\u00e7a de Montezuma, que \u00e9 a outra banda daquela turma. Da\u00ed n\u00e3o foi lan\u00e7ado (como disco). Quando eles lan\u00e7aram o disco, que \u00e9 o \u201cAgrade\u00e7o ao Senhor\u201d (1993), eles eram muito loucos n\u00e9, tudo amigo do Edu K, e resolveram: \u201cN\u00e3o, vamos gravar um disco, conseguimos um esquema\u201d, tinha uma barbada de est\u00fadio que o Miranda fez, produziu algu\u00e9m, e ele diz: \u201cS\u00f3 vamos inventar tudo m\u00fasica nova na hora\u201d. Eles gravaram tudo m\u00fasicas na hora<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E aquelas outras [m\u00fasicas j\u00e1 escritas]?<\/strong><br \/>\nFicaram pra tr\u00e1s. E a\u00ed diz que eles, h\u00e1 muito tempo, vinham falando com o Miranda pra gravar isso. E eu bati um papo com o Miranda l\u00e1 por 2010 e ele estava nesse papo da Bid\u00ea gravar um disco de m\u00fasicas antigas de Porto Alegre, da 3D, do Atahualpa, Urubu Rei, a gente come\u00e7ou a bolar o papo depois paramos. E da\u00ed ele e os caras do Atahualpa, ele o Carlo, o Jimi Jjoe estavam conversando sobre gravar essas m\u00fasicas que nunca tinham sido gravadas. S\u00f3 \u201cTodo Mundo Saca\u201d que foi bem gravado, num \u201cRock Garagem II\u201d (essa colet\u00e2nea, de 1985, ainda trazia Os Eles, Os Bonitos e Banda de Banda).O resto ficou tudo mal gravado e tinha umas m\u00fasicas que eles nem sabiam as letras. Era meio que um dos \u00faltimos projetos que ele estava envolvido, al\u00e9m das coisas que ele estava produzindo, e que ele parou por causa desse lance de sa\u00fade dele. Quando ele faleceu, o pessoal fez um show em homenagem a ele no Ocidente, e me chamaram, eu e a J\u00falia Barth (vocalista do Replicantes), pra cantar. V\u00e1rias pessoas tocaram, mas eu cantei umas m\u00fasicas do Atahualpa, e a J\u00falia tamb\u00e9m cantou \u201cTodo Mundo Saca\u201d e \u201cAgora \u00e9 Tarde\u201d. O Flu e o Castor gostaram e falaram \u201cVamos fazer um show s\u00f3 do Atahualpa\u201d. Eles bolaram de fazer um show de Atahualpa no um ano de morte do Miranda, que foi agora em mar\u00e7o. S\u00f3 que da\u00ed pra ensaiar esse show, a gente foi pro est\u00fadio, tirar todas as m\u00fasicas e j\u00e1 gravamos. A gente gravou, ficou bom e a gente falou \u201c\u00e9 a volta\u201d. Eu j\u00e1 vinha pensando \u201cbah, tem que fazer um disco\u201d. Mas rolou natural. A gente gravou as bases naquela \u00e9poca dos ensaios, depois continuamos gravando. A gente gravou m\u00fasicas na minha casa, na casa do Flu, em Maquin\u00e9, e mixamos l\u00e1 em SP, nas \u00faltimas temporadas em que eu estava em SP. Foi uma aventura, n\u00e9, porque as letras n\u00e3o tinha como entender. Eu sou autor de quase todas. Nem o Jimi Joe, que era o autor, se lembrava (risos). E ele: \u201cN\u00e3o, tu vai l\u00e1 e faz, o Carlinhos gosta de inventar as coisas na hora, ele vai l\u00e1 e faz\u201d. Sofri. Depois vou ouvir xingamento da galera (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o \u00e9 a volta da banda? Tem shows?<\/strong><br \/>\nPelo menos uma turn\u00ea a gente vai fazer. Vai ter show em Porto Alegre, interior. Tem datas em SP. Nossa ideia \u00e9 fazer alguns. Os caras t\u00eam vontade. Pra mim \u00e9 uma honra tocar com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu te dava bem com o Miranda?<\/strong><br \/>\nEra um conhecido. Conhe\u00e7o ele desde pi\u00e1, desde que entrei na faculdade, tinha uma amiga que era muito amiga dele. Me apresentou pra esses caras tudo, pro Wander (Wildner), pro Miranda. N\u00e3o era t\u00e3o pi\u00e1, devia ter uns 17, 18. E a gente foi no show do Make Up, um show cl\u00e1ssico que teve aqui, l\u00e1 na (rua) 24 de outubro. Era 96 acho. E conheci ele, depois ao longo dos tempos a gente tentou combinar coisa de produzir com a Bid\u00ea, se encontrava sempre nos shows, mas n\u00e3o tinha coisas estreitas, n\u00e3o era amig\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas ele gostava da Bid\u00ea?<\/strong><br \/>\nEle parecia simpatizar. Quando o chamei pra produzir (a Bid\u00ea), mandei umas demos, foi uma fase que a gente passou um temp\u00e3o sem gravar. Uma das causas de a gente ter ficado sem gravar um temp\u00e3o era que estava combinado do Miranda produzir, isso depois do \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/mtvbandasgauchas.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ac\u00fastico (MTV Bandas Ga\u00fachas)<\/a>\u201d (2005). Da\u00ed veio o neg\u00f3cio do \u201cE Porque N\u00e3o?\u201d (a m\u00fasica da Bid\u00ea que sofreu acusa\u00e7\u00f5es de apologia \u00e0 pedofilia, e resultou numa a\u00e7\u00e3o que tramitou na Justi\u00e7a e resultou num acordo) e a gente ficou bem desestabilizado, mas criando o tempo inteiro. At\u00e9 hoje tem m\u00fasica sobrando dessa fase. Inclusive vou te contar agora uma historinha: a gente mandou uma demo com umas 20 m\u00fasicas pro Miranda e ele: \u201cBah, velhinho, massa, vamos fazer isso a\u00ed, s\u00f3 tem uma coisa: eu n\u00e3o gostei de nenhuma m\u00fasica. S\u00f3 gostei dessa daqui, \u2018S\u00f3 Um Milagre\u2019\u201d. E essa m\u00fasica a gente n\u00e3o gravou, \u00e9 a \u00fanica que a gente nunca gravou depois (risos), era a que ningu\u00e9m gostava. N\u00e3o fizemos nenhum registro dela. Depois dessa \u00e9poca, passou o pre\u00e7o dele, a gente n\u00e3o fechou em grana e acabamos nem produzindo nada, demoramos mais uns dois anos. Apareceu a possibilidade de gravar com gravadora, n\u00f3s est\u00e1vamos tentando meter o Miranda nisso, n\u00e3o rolou, da\u00ed demorou mais dois anos, e fizemos mais uma demo, com essas sobras de m\u00fasicas. E da\u00ed saiu em 2010 um EP, \u201cAdeus Segunda-feira Triste\u201d, que \u00e9 o come\u00e7o dessa leva. \u00c9 uma trilogia, s\u00e3o os tr\u00eas discos das m\u00fasicas dessa \u00e9poca, a gente ficou quase dez anos, uns oito anos sem gravar nada. Disso, a gente fez tr\u00eas discos. E o Miranda estava no meio desse imbr\u00f3glio com o Atahualpa Y Us Panquis, e tentou l\u00e1 por 2010 botar essa pilha. A gente se encontrou num festival, acho que l\u00e1 em Bel\u00e9m. E ele botou essa pilha da gente gravar algumas m\u00fasicas do Atahualpa, mas eu \u201cnah, primeiro a gente tem que lan\u00e7ar as nossas\u201d. E a gente ia gravar tipo por agora. As f\u00e9rias da Bid\u00ea teriam sido pra gravar essas m\u00fasicas (perdidas) de Porto Alegre, s\u00f3 que da\u00ed ele morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa ideia da Bid\u00ea gravar essas m\u00fasicas sobre Porto Alegre, voc\u00eas pensam ainda?<\/strong><br \/>\nMorreu com ele no show do David Byrne (no dia 22 de mar\u00e7o de 2018, quando o talking head se apresentava primeira vez em Porto Alegre, chegou a not\u00edcia do falecimento do produtor). Eu vi o Frank (Jorge) chorando<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Frank soube no show?<\/strong><br \/>\nNo show. O Guri (Assis Brasil, ex-P\u00fablica) tamb\u00e9m estava, a gente se encontrou depois no Alfredo (bar que fica aberto 24 horas em Porto Alegre), e ele estava muito mal, pois estava tocando com o Miranda no Cumbia Negra. Foi muito chato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas n\u00e3o era conhecido (o estado de sa\u00fade de Miranda)&#8230;<\/strong><br \/>\nEle n\u00e3o contava pra ningu\u00e9m. Queria ser generoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu sente alguma responsabilidade (por estar no lugar do Miranda)?<\/strong><br \/>\nTotal responsabilidade. Pra come\u00e7ar, o neg\u00f3cio das letras, por mais que ele n\u00e3o fosse exatamente o letrista, eles j\u00e1 tinham na ideia deles de voltar com a banda, j\u00e1 tinha a ideia de atualizar as letras. tipo \u201cShoobydahbydooba\u201d falar de uma Porto Alegre atual. Essa pra mim, bah, tenho at\u00e9 certa vergonha e estou louco pra ver como as pessoas v\u00e3o reagir, pois me falta aquele sarcasmo que eles cantavam. Meti na letra o cara da sunga (homem que \u00e9 visto com regularidade correndo pelas ruas da cidade vestindo apenas uma sunga), falei do Fantaspoa (festival anual de cinema fant\u00e1stico), do Ocidente com alvar\u00e1 (risos \u2013 o tradicional bar de Porto Alegre obteve a regulariza\u00e7\u00e3o oficial da prefeitura em dezembro do ano passado, ap\u00f3s 30 anos com as portas abertas). E d\u00e1 esse temor: como \u00e9 que o pessoal vai receber? Mas tudo bem, at\u00e9 porque \u00e9 um neg\u00f3cio punk. Por mais que minha primeira banda do col\u00e9gio fosse punk, agora \u00e9 a primeira vez que eu tenho uma banda punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nunca tinha gravado punk?<\/strong><br \/>\nNunca consegui gravar nada, \u00e9 a primeira vez e \u00e9 realmente hardocre, uma doideira. T\u00e1 muito Butthole Surfers, foi muito legal, eu estava curtindo muito Butthole Surfers, da\u00ed o Castor veio com essa. A nossa maior refer\u00eancia \u00e9 o Butthole Surfers, \u201c\u00e9 isso, sempre quis ouvir isso\u201d. E tamb\u00e9m rolou um neg\u00f3cio esp\u00edrita&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como assim?<\/strong><br \/>\nNos ensaios, que foram grava\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, o Rog\u00e9rio Ferrari foi fotografar e filmar a gente, a e a gente estava muito envolvid\u00e3o ali, e falando do cara o tempo inteiro, e n\u00e3o s\u00f3 dele, mas de outros mortos tamb\u00e9m, do Nequete, dessa mo\u00e7a que batia com uma corrente, eu n\u00e3o sei o nome dela, mas ela morreu. E a gente falando muito sobre isso, Nequete tem hist\u00f3rias muito loucas, divertid\u00edssimas. Ent\u00e3o a gente contando essas hist\u00f3rias, e tiramos uma foto e na hora que fomos olhar os caras disseram: \u201cOlha ali o Miranda\u201d. Na minha sombra. \u00c9 a foto de divulga\u00e7\u00e3o do Atahualpa. A minha sombra ficou muito parecida com o Miranda em uma foto. Rolou esse papo, e no dia do show que a gente fez no ano da morte do Miranda, o pessoal enlouqueceu, foi muito massa, uma emo\u00e7\u00e3o estar tocando, e estou tocando teclado tamb\u00e9m, que \u00e9 uma loucura, nunca tinha tocado um instrumento ao vivo um show inteiro. E quando acabou chegou um rapaz e disse: \u201cOi, Carlinhos, deixa eu dizer que sou m\u00e9dium e que o Miranda t\u00e1 aqui\u201d. A\u00ed eu disse: \u201c\u00c9, a galera est\u00e1 comentando\u201d. Ele disse: \u201cMiranda est\u00e1 aqui e mandou te dizer que gostou muito\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu acredita nessas coisas?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o que me sobrou (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que bom que ele estava ali n\u00e9? Ia ser chato se tivesse em outro show.<\/strong><br \/>\n\u00c9, se ele tivesse perdido o show. Mas rolou isso da\u00ed. J\u00e1 \u00e9 uma responsa. Ainda mais dizendo que o cara est\u00e1 ali. T\u00e1 sendo muito legal. Me envolvi um monte na produ\u00e7\u00e3o junto com o Flu, que produziu tudo, gravou tudo e eu fui assistente do Flu, em todas as etapas. O Castor \u00e9 super apegado nesse neg\u00f3cio de Instagram, tocou tudo, fez um monte de coisas. E ele t\u00e1 l\u00e1 em Macei\u00f3, e eu e o Flu daqui. Eu e o Flu j\u00e1 tocamos no S\u00f3 Amor tamb\u00e9m, que \u00e9 um neg\u00f3cio que a gente faz por a\u00ed. Flu quando vem pra Porto Alegre fica na casa da minha m\u00e3e. Ele mora em Maquin\u00e9, onde a gente gravou. Ele n\u00e3o tinha conseguido gravar nada l\u00e1 em Maquin\u00e9 e a\u00ed eu disse \u201cvamo gravar as minhas vozes l\u00e1 em Maquin\u00e9\u201d. Da\u00ed passamos uns quatro dias l\u00e1 gravando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um est\u00fadio que ele tem l\u00e1?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma casinha que ele tem com todas as coisas de est\u00fadio. Gravamos na rua, tudo aberto, tudo vazando, mic de m\u00e3o, tudo muito punk, tudo muito tosco. Gravei com microfones direcionais, que n\u00e3o s\u00e3o microfones de registrar voz. A mix \u00e9 que foi uma mix grandona, pois \u00e9 da YB, um baita est\u00fadio de SP, nossa parceira, gravadora que est\u00e1 lan\u00e7ando o disco. E a mix \u00e9 que foi num outro sistema, com o Cac\u00e1 Lima, que \u00e9 o cara que mixou, reclamando o tempo inteiro da qualidade de grava\u00e7\u00e3o (risos). O registro das bases foi bom, num est\u00fadio aqui do IAPI, mas os microfones ele dizia \u201cque que \u00e9 isso\u201d, e a gente tava tri feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem alguma m\u00fasica nova?<\/strong><br \/>\nTr\u00eas m\u00fasicas novas no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o de quem?<\/strong><br \/>\nDuas a gente fez improviso na hora da grava\u00e7\u00e3o, e eu inventei duas letras na hora, enquanto estava gravando, tinha microfone de guia e fiquei inventando umas bobagens na hora. Depois a gente editou essas viagens, uma era de 17 minutos e passou para oito (risos). E eu falando bobagem o tempo inteiro. A outra era 7 passou pra 3. Essas duas m\u00fasicas foram inventadas. Uma terceira, os guris&#8230; a gente quando fez os ensaios, eles falavam \u201cah, vamos tocar esse sonzinho Atahualpa, esse pop b\u00e1sico\u201d, a gente dizia. \u201cQual \u00e9 a estrutura?\u201d, \u201cah, a estrutura \u00e9 estrofe-refr\u00e3o, pop b\u00e1sico\u201d. A gente ficava brincando, s\u00f3 que era tocando hardcore. E chamava de pop b\u00e1sico. Pensamos em chamar o disco de \u201cPop B\u00e1sico\u201d, e por muito tempo ficou fixo na nossa cabe\u00e7a, e eu estava adorando esse nome. S\u00f3 que da\u00ed a galera lembrou-se do nome que o Miranda usava no Instagram, o Minimundo, e a gente: \u201cVamos chamar de Mini Mundo\u201d. E eu \u201cbah, mas temos que usar o pop b\u00e1sico\u201d, a gente queria usar numa dessas m\u00fasicas que a gente tinha inventado, e eu \u201cbah, mas aquelas j\u00e1 t\u00eam nome\u201d. Uma \u00e9 \u201cMicose\u201d outra \u00e9 \u201cPlus a Mais\u201d. Um dia sa\u00ed caminhando na rua e inventei uma m\u00fasica. Cheguei em casa, gravei com meu tecladinho tosco e mandei pra eles. E chamamos de \u201cPop B\u00e1sico\u201d, depois a gente s\u00f3 botou mais uns elementos, Castor mandou um ukulele l\u00e1 de Macei\u00f3, chamou participa\u00e7\u00e3o do Guri e do Gui que eram da P\u00fablica. Essas tr\u00eas t\u00eam mais a ver com \u201cAgrade\u00e7a ao Senhor\u201d, que era uma coisa inventada na hora assim, mas \u00e9 legal porque eu fiz pensando nisso, de manter a po\u00e9tica do Atahualpa que \u00e9 uma coisa pessimista, \u00e9 uma coisa que traz muito dos elementos do Flu, do Jimi, das conversas que a gente vinha batendo. O Flu ouviu a \u201cPop B\u00e1sico\u201d e disse: \u201cAh, \u00e9 tudo que a gente estava conversando\u201d (risos). E eu disse: \u201c\u00c9 isso a\u00ed\u201d. Ent\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas m\u00fasicas novas: \u201cPop B\u00e1sico\u201d, \u201cPlus a Mais\u201d e \u201cMicose\u201d, cuja letra diz: \u201cSe a gente fosse s\u00f3 micose, dando no p\u00e9 de algu\u00e9m que a gente n\u00e3o conhece, visitando lugares que a gente n\u00e3o conhece sem poder aproveitar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso \u00e9 a po\u00e9tica do Atahualpa?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma po\u00e9tica c\u00f3smica. Mic\u00f3smica (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas acham que toda uma nova gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conheceu a banda vai se ligar agora? Porque o Atahualpa era uma coisa de escava\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nEra um supertrunfo. Eu espero que valorize, coloque o Atahualpa mais nesse cen\u00e1rio hist\u00f3rico do rock ga\u00facho, que tenha essa import\u00e2ncia \u2013 nem eu sabia o quanto tinha antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que muita gente n\u00e3o sabe&#8230;<\/strong><br \/>\nMas ao mesmo tempo, acima de tudo, s\u00e3o os caras fazendo som pra se divertir, que \u00e9 como tem que ser. Como fizeram naquela \u00e9poca, como eu tenho procurado fazer ultimamente. Tenho sido t\u00e3o feliz com isso, n\u00e3o quero mexer mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas v\u00e3o prosseguir com isso, fazer um novo disco?<\/strong><br \/>\nPrimeiro as primeiras coisas: vamos lan\u00e7ar, fazer shows, tentar Goi\u00e2nia, Bel\u00e9m, lugares at\u00e9 que o Miranda teve alguma hist\u00f3ria. Porque o show vai ser uma grande homenagem ao Miranda, tem uns v\u00eddeos que a gente passa antes, mostrando coisas do Miranda. \u00c9 muito desse neg\u00f3cio de valorizar, mostrar um lado do Miranda que pouca gente conhecia. E tamb\u00e9m ver se ajuda um pouco a fam\u00edlia, a Bel e a Agnes (vi\u00fava e filha do Miranda).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas v\u00e3o reverter a renda\u2026<\/strong><br \/>\nA gente fez dois shows nesse clima, e a gente botou tamb\u00e9m a autoria do Miranda em todas as m\u00fasicas, mesmo as que ele n\u00e3o fez, \u00e9 a gente e ele. S\u00f3 \u201cPop B\u00e1sico\u201d que n\u00e3o. \u00c9 a primeira m\u00fasica da minha vida que sou s\u00f3 eu. Depois que vi o contrato foi \u201cbah, a primeira vez que eu assino sozinho contrato de edi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Crise Chegou \u00e0 Classe M\u00e9dia (Transei) - Imp\u00e9rio da L\u00e3 (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLU2tERf8O7696LbBEq2_SM-OBvNTfJRGZ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a Imp\u00e9rio?<\/strong><br \/>\nLan\u00e7ou o terceiro disco, \u201cT\u00f4co Maravilhoso\u201d (2019), uma consequ\u00eancia do disco anterior, \u201cS\u00f3 no Pallets\u201d (2017), eles dialogam, porque eles v\u00eam das m\u00fasicas que a gente inventou pro bloco de carnaval. \u201cS\u00f3 no Pallets\u201d bem mais, ele \u00e9 um disco do bloco de carnaval. Pro \u201cT\u00f4co Maravilhoso\u201d a gente j\u00e1 imaginou assim, que \u00e9 o que a gente tem feito, \u00e9 a mesma coisa, s\u00e3o m\u00fasicas que a gente fez pro bloco de carnaval, e o bloco hoje j\u00e1 n\u00e3o toca s\u00f3 marchinha e s\u00f3 ax\u00e9 como foi no \u201cS\u00f3 no Pallets\u201d. A gente toca mais ritmo, tem bem mais funk agora, e mais outros estilos. O disco tem um monte de ritmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem festivo\u2026<\/strong><br \/>\nIsso porque a gente fez durante ensaios do bloco de carnaval. A gente faz o ensaio aberto e fica inventando m\u00fasica ao vivo, e da\u00ed a gente foi registrando essas m\u00fasicas, algumas a gente j\u00e1 sentia necessidade, acabou virando disco. Ia ser um EP, mas a\u00ed foi \u201cah, tem mais essa, mais aquela\u201d, e acabou virando um disco. J\u00e1 estamos pensando no pr\u00f3ximo. Imp\u00e9rio \u00e9 esse desafogo de jun\u00e7\u00e3o dos amigos. Como eu disse, tenho feito m\u00fasica bem mais voltada para me divertir. Citando \u201cCampo dos Sonhos\u201d (um filme de 1987, com Kevin Costner), \u201cse voc\u00ea construir eles vir\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas antes n\u00e3o era assim?<\/strong><br \/>\nEm algum momento n\u00e3o, em algum momento virou s\u00e9rio, na Bid\u00ea estava muito s\u00e9rio, claro, sempre foi se divertido, mas um pouco de press\u00e3o existiu na \u00e9poca. Tanto que a gente passou quase 10 anos sem lan\u00e7ar um neg\u00f3cio, tentando fazer esquemas com gravadora, e isso a\u00ed atrapalha um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um senso de responsabilidade?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o por querer, mas por neg\u00f3cios, business. Coisas que surgem e acabam tomando conta mais do processo e atrapalhando, \u00e0s vezes ajuda. \u00c0s vezes quando pinta uma grana te insufla, quando tem uma gravadora que te bota dentro de um est\u00fadio, surge um disco inteiro, mas no sistema independente a gente precisa se lembrar mais da divers\u00e3o. As f\u00e9rias da Bid\u00ea foram uma coisa minha, porque eu entrei num processo de desintoxica\u00e7\u00e3o, de impurezas espirituais&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>F\u00edsica?<\/strong><br \/>\nF\u00edsica, qu\u00edmica. E coloquei os \u201cevites h\u00e1bitos, pessoas e lugares\u201d, porque ou eu ia ter que largar a m\u00fasica ou eu ter que reinventar o jeito de fazer. E eu pensei na \u00e9poca justamente isso. Coloquei a Bid\u00ea nos meus evites, foi \u201cah galera, a gente est\u00e1 num relacionamento t\u00f3xico, todo mundo, vamos dar um tempo pra gente ter saudade e voltar depois\u201d. Isso foi em 2016. A Vivi estava fazendo j\u00e1 o mestrado dela e estava pintando a proposta pra ela ir pra Portugal, ent\u00e3o fechou todas pra ela. A gente se combinou. No final de 2016 a Bid\u00ea parou e eu tinha um monte de m\u00fasica guardada, dessas que eu vinha fazendo com a Imp\u00e9rio, com o bloco de carnaval, da\u00ed a gente gravou o \u201cS\u00f3 no Pallets\u201d. Tinha as m\u00fasicas do Bife Simples, que eu vinha inventando shows, ent\u00e3o eu queria botar pra fora, e no processo de botar pra fora, eu encontrei esse prazer de novo pela m\u00fasica e agora estou bem mais apaixonado pela m\u00fasica e querendo fazer bem mais e mais e mais. Inclusive estu pensando muito nas pr\u00f3ximas coisas da Bid\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual que \u00e9 a perspectiva pra Bid\u00ea? Voc\u00eas j\u00e1 se falam?<\/strong><br \/>\nA gente conversa. A Vivi est\u00e1 fazendo doc ou pos doc em Portugal e assim que ela acabar ela volta e nossa ideia \u00e9 quando a gente se encontrar fazer alguma coisa. Mas \u00e9 como eu disse, tem m\u00fasica sobrando, tem algumas coisas que a gente andou se conversando: \u201cBah, tinha que gravar aquela, vamos ver o que vai acontecer\u201d. Primeiro vamos se encontrar e dar uma risadas juntos, fazer um churrasco antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom jeito de come\u00e7ar.<\/strong><br \/>\n\u00c9 como eu sempre fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voltando ao disco da Imp\u00e9rio. Entrou \u201cLucina\u201d (vers\u00e3o de uma antiga da Superguidis). \u00c9 a mesma que tinha entrado na colet\u00e2nea?<\/strong><br \/>\nIsso, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/7xfhZVXF8Stw7ZczHB9BG4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no tributo \u00e0 Superguidis<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas como foi a ideia de fazer?<\/strong><br \/>\nFernando Rosa criou esse tributo \u00e0 Superguidis e me ofereceu: \u201cQuer fazer alguma coisa?\u201d E eu: \u201cQuero \u2018Lucina\u2019\u201d. Na hora. J\u00e1 sabia o que era. E a\u00ed, com quem? Porque a gente tocava \u201cLucina\u201d bem no comecinho, uma vers\u00e3o folk do come\u00e7o da Imp\u00e9rio, com o Guri e o Guilherme, que eram da primeira gera\u00e7\u00e3o da Imp\u00e9rio. Quando fui pra SP no ano passado pra ver o show do Primal Scream, o Guri estava com est\u00fadio, e eu disse: \u201cVamos gravar \u2018Lucina\u2019\u201d. E a gente fez essa vers\u00e3o mais funk psicod\u00e9lica, mais dan\u00e7ante, que \u00e9 bem diferente do que a gente tinha feito l\u00e1 em 2007, 2008, no come\u00e7o da Imp\u00e9rio. E sem querer querendo tem tudo a ver com o resto das m\u00fasicas da Imp\u00e9rio. \u00c9 muito sem querer que o disco da Imp\u00e9rio meio que tem uma identidade. \u00c9 um ritmo diferente em todas as m\u00fasicas, nenhum ritmo quase se repete. Tem a coisa cumbia latina que rola em \u201cLouca pra Ir pra Praia\u201d. E \u201cImpune\u201d era uma base que era pra ser \u201cLouca pra ir pra Praia\u201d, s\u00f3 que da\u00ed a gente tocou ela org\u00e2nica, a \u201cLouca pra ir pra Praia\u201d ent\u00e3o deixou aquela base, e eu: \u201cVou chamar o Fab\u00e3o (vocalista de reggae porto-alegrense) pra inventar uma m\u00fasica pra gente\u201d. Mas de resto \u00e9 um ritmo diferente do outro, mas de alguma forma elas t\u00eam essa unidade. Se criou um estilo no disco. Sou muito feliz com esse disco da Imp\u00e9rio, produzi ele, eu e o Marcelo Granja. Vem do Granja isso de tirar um som semelhante apesar dos ritmos diferentes, foi ele que mixou o disco, deu uma cara pro disco. Algumas coisas aconteceram ao natural, como o fato de ser meio pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre a m\u00fasica dos sal\u00e1rios, como surgiu essa ideia? (\u201cMeia Parcela\u201d fala sobre o parcelamento de sal\u00e1rios do funcionalismo ga\u00facho, que vem acontecendo desde o governo passado, em fun\u00e7\u00e3o da crise).<\/strong><br \/>\nAh, no auge do sartorismo (Jos\u00e9 Ivo Sartori, governador do RS at\u00e9 o ano passado), a gente estava no Rosa e inventou uma m\u00fasica na hora, eu Granja, o Sass\u00e1, esperando o Imp\u00e9rio chegar pra um show, a gente inventou a m\u00fasica, ficou cantando por tr\u00eas horas, da\u00ed depois a gente chegou em Porto Alegre e registrou. Foi tudo sendo registrado separadamente. A gente n\u00e3o sabia como seria lan\u00e7ado. Foi gravado m\u00fasica por m\u00fasica. Elas j\u00e1 tinham essa coisa pol\u00edtica. De certa forma o mesmo tom, \u00e9 pol\u00edtico, mas \u00e9 \u201cbora festejar, bora dan\u00e7ar\u201d. Esquerda festiva. Isso tem a ver com o fato de ter origem nos blocos. J\u00e1 que est\u00e1 dif\u00edcil n\u00e3o pensar e falar sobre isso, vamos criar sobre isso. Ainda mais no ano passado, quando criamos o disco, e era o ano da elei\u00e7\u00e3o, aquilo ali era imposs\u00edvel de n\u00e3o estar vivendo. Essa hist\u00f3ria dos sal\u00e1rios serem pagos parcelados, agora nem t\u00e3o pagando (no meio deste ano, o atual governo passou a quitar os sal\u00e1rios somente no m\u00eas seguinte), e fiquei chateado. Quando saiu o disco, pensei: \u201cBah, agora trocou de governador, ningu\u00e9m vai entender, demorou pra sair a m\u00fasica\u201d, mas agora est\u00e3o fazendo pior (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas quando tu escreveu tu achou que isso ia se resolver?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o, a gente at\u00e9 n\u00e3o botou o nome dele pensando que poderia ser qualquer governador. E aconteceu. Infelizmente. Mas, al\u00e9m disso, teve a quest\u00e3o do Lula ter sido preso, do Rafael Braga, essa coisa de pris\u00e3o pol\u00edtica. Por outro lado tem o Fab\u00e3o, que nos chama de esquerdopata, ele \u00e9 super anarquista louco, inclusive foi no que a gente se identificou na hora de fazer a m\u00fasica, mas a gente juntou duas formas de ver uma coisa dentro de uma s\u00f3. Essa frase no \u2018Impune\u2019, \u201cn\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que n\u00e3o mere\u00e7a ser preso\u201d, que representa bem isso, toda pris\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, vamos dan\u00e7ar na hora do atraque e todos n\u00f3s meio que merecemos ser presos. Ainda n\u00e3o liberaram a maconha e estamos andando com ela por a\u00ed (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fazem show com a Imp\u00e9rio direto&#8230;<\/strong><br \/>\n&#8230;de tudo quanto \u00e9 formato,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguma vez voc\u00eas notaram alguma rea\u00e7\u00e3o negativa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, quem poderia ficar de cara acho que n\u00e3o percebe. N\u00e3o aconteceu at\u00e9 porque n\u00e3o somos t\u00e3o expostos assim. Quer dizer, no carnaval a gente tocou pra 30 mil pessoas, mas acho que quem est\u00e1 no carnaval est\u00e1 mais do nosso lado. Mas \u201cDan\u00e7ando no Giroflex\u201d \u00e9 uma coisa que todo mundo se identifica, todo mundo manda coisa falando, mandaram v\u00eddeo, a gente pede que a galera mande v\u00eddeo dan\u00e7ando perto de sirene de giroflex.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mandaram?<\/strong><br \/>\nMandaram (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fizeram alguma coisa?<\/strong><br \/>\nQueremos fazer, no clipe vai ter alguma coisa com isso, n\u00e3o sei se o clipe ou o teaser do clipe vai ser nesse clima, dependendo do que a gente captar, a gente vai usar no meio ou de teaser, monte de gente, velho, novo, dan\u00e7ando no giroflex.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 tem coisa engatilhada pra Imp\u00e9rio no futuro?<\/strong><br \/>\nContinuar, sim, a gente vai sempre continuar inventando, mudando. Vamos manter sempre um clima de n\u00e3o ter formato, n\u00e3o ter estilo fixo, pode pintar uma coisa. \u00c9 uma cooperativa divertida, a gente est\u00e1 combinando de ir pra praia e inventar pela primeira vez tudo junto, de uma vez, j\u00e1 pra ser diferente. Nosso m\u00e9todo \u00e9 o \u201cquem est\u00e1, estava. Quem for, participou do disco\u201d. Ent\u00e3o dessa pr\u00f3xima etapa pro final do segundo semestre \u00e9 gravar alguma coisa. Vamos ver o que vai sair, e vai ter o carnaval de novo ano que vem, a gente j\u00e1 tem show marcado at\u00e9 dezembro. Tem o Imp\u00e9rio Novelas, a gente \u00e9 chamado pra muita coisa, evento corporativo, casamento, anivers\u00e1rio, muita festa diferente. O Imp\u00e9rio as pessoas pedem, a gente vende de um jeito assim, a gente se adapta ao gosto do fregu\u00eas. \u00c9 uma quest\u00e3o de cach\u00ea: \u201cAh, quanto \u00e9 que a pessoa quer pagar?\u201d Paga tanto, ent\u00e3o vou levar s\u00f3 eu e mais um magr\u00e3o e era isso, a\u00ed a gente pensa no repert\u00f3rio. Imp\u00e9rio \u00e9 pra ser assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Banda de baile?<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ou como uma banda de baile, da\u00ed foi virando tamb\u00e9m autoral, trabalhos espec\u00edficos, a gente fez 40 discos inteiros (\u201cClassic Albuns\u201d, um evento que rolava no antigo Beco em Porto Alegre, em que a banda tocava um disco cl\u00e1ssico na \u00edntegra). Isso \u00e9 muito trabalhoso, era meio estressante, da\u00ed n\u00e3o \u00e9 divertido, tinha que cobrar da galera, tem que ir no ensaio, tem que tirar m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas era t\u00e3o legal&#8230;<\/strong><br \/>\nEra muito legal, eu sinto falta, e estou sempre com essa ideia na cabe\u00e7a. Se tiver algu\u00e9m que d\u00ea um cach\u00ea mensal fechado, rolaria. O problema \u00e9 que a gente fazia na bilheteria e da\u00ed \u00e0s vezes esse stress todo n\u00e3o valia tanto a pena. Alguns valiam, estava sempre cheio quase, mas alguns n\u00e3o valiam. Da\u00ed dava uma dor na alma.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bife Simples &amp; O Carabala #feat Pederneiras - Beto Bruno\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLz8zWAss_jV3BOE72hXpEwUVFJYIiybtU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantas bandas tu tem no total?<\/strong><br \/>\nTem o Bife Simples, que sou associado \u00e0s guarni\u00e7\u00f5es. \u00c9 a minha viagem de improviso mesmo, de ficar inventando m\u00fasica na hora. Quem deu o start e \u00e9 minha parceria mais frequente \u00e9 a banda O Carabala l\u00e1 de S\u00e3o Leopoldo, e tamb\u00e9m o Joj\u00f4, Jo\u00e3o Augusto, (que agora toca com Filipe Catto, Tagua Tagua), e o Petraquinho, Pedro Petracco, que me acompanharam bastante. Mas tem outras bandas que ajudam o Bife Simples, ou eu fa\u00e7o o show Bife Simples e as Guarni\u00e7\u00f5es mais Preza, recebendo um monte de convidados, para improvisar. O improviso que a gente faz geralmente \u00e9 assim: ou inventa uma m\u00fasica inteira na hora, no show, ou \u201cAh, lembra daquela, daquele \u00faltimo show? Ah, n\u00e3o lembro do tom, ent\u00e3o toca como tu quiser, a gente vai tentando lembrar m\u00fasicas que a gente tocou no \u00faltimo show\u201d e a\u00ed vai mudando a m\u00fasica, e algumas a gente consegue se lembrar e repetir, meu processo de cria\u00e7\u00e3o desde sempre foi muito assim. O que tu lembra \u00e9 o que \u00e9 bom. Ent\u00e3o invento, saio cantarolando, e se eu gravo, \u201cah essa \u00e9 boa, essa eu vou lembrar\u201d. Algumas coisas lembro de cabe\u00e7a. Tem m\u00fasicas que eu me lembro de cabe\u00e7a desde a inf\u00e2ncia que eu nunca gravei. Tem um monte de m\u00fasica solta na minha cabe\u00e7a. Da\u00ed essas que eu lembro eu penso \u201cessas s\u00e3o as boas, essas ficaram\u201d. Ent\u00e3o gravamos. Os guris do Carabala n\u00e3o tavam fazendo mais nada junto h\u00e1 um temp\u00e3o, a gente inventou as m\u00fasicas h\u00e1 um temp\u00e3o e ficamos sem fazer nada. Ent\u00e3o descobri um rolo de fita pra gravar no Panam\u00e1 (est\u00fadio que fica em Porto Alegre), e eles n\u00e3o tinham usado! Eu disse: \u201c\u00d4 meu, vamos gravar aqui\u201d. A gente foi pra l\u00e1 e gravou o que lembrava (risos), quatro m\u00fasicas, que rendeu o primeiro EP com \u201cO Cheiro da Chuva\u201d, \u201cNa Farm\u00e1cia\u201d, \u201cPobre da Velha\u201d e \u201cCongela!\u201d. Depois a gente gravou um segundo EP l\u00e1 no IAPI seguindo o mesmo sistema: cada show que a gente fazia ficava inventando as m\u00fasicas e o que se lembrava, gravava. Nesse tamb\u00e9m algumas a gente gravou s\u00f3 a base e eu inventei m\u00fasica em cima na hora, que foi a do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/16\/entrevista-beto-bruno-e-os-desafios-do-recomeco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Beto Bruno<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a hist\u00f3ria dessa m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nUma \u00e9poca teve um neg\u00f3cio com um m\u00fasico daqui, que eu e ele meio que discutimos no Twitter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual m\u00fasico?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o vou dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz tempo isso?<\/strong><br \/>\nUns 10 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 do rock?<\/strong><br \/>\nSe tu acha que aquilo \u00e9 rock (risos). A gente discutiu. Eu contei pro Beto e o Beto: \u201cPara de brigar com esse cara (imitando o sotaque forte de interior que tem o Beto), briga comigo que a gente \u00e9 amigo da\u00ed a gente pode brigar\u201d. E ele: \u201cBah, vamos inventar uma briga\u201d, e fiquei com isso na cabe\u00e7a. E durante os shows da Bife Simples h\u00e1 uma m\u00fasica do EP novo que chama \u201cSaudades da Mesbla\u201d, e a Mesbla aqui, no centro, da Dr. Flores, foi uma das primeiras escadas rolantes que existiram em Porto Alegre. No dia que inventei a m\u00fasica lembrei da escada rolante. E da\u00ed n\u00e3o entrou na grava\u00e7\u00e3o, essa parte da escada rolante. Mas no dia que eu inventei (a m\u00fasica \u201cBeto Bruno\u201d) \u201ca\u00ed eu te encontro na escada rolante, vai t\u00e1 tomando refrigerante, e a minha m\u00fasica \u00e9 feita com rima sem gra\u00e7a que nem as da Cachorro Grande (risos)\u201d. Que eles t\u00eam \u201cRoda Gigante\u201d (m\u00fasica do disco \u201cTodos os Tempos\u201d), e eu sempre me arrio (debocho, em gauch\u00eas) \u201cbah, que que \u00e9 aquelas rima de voc\u00eas\u201d. E fiquei com aquilo na cabe\u00e7a. Quando os guris inventaram uma base na grava\u00e7\u00e3o, o Vi\u00e7a, que \u00e9 o Vicente Guedes, disse: \u201cEu te mando esse bounce, tu inventa uma letra\u201d. E eu inventei a letra, misturei todas essas coisas sobre o Beto. J\u00e1 tinha esse versinho ali, \u201cbr\u00f3der, tua voz \u00e9 chata e as letras n\u00e3o ajudam nada\u201d. Isso eu j\u00e1 tinha na minha cabe\u00e7a, da\u00ed fui pra esse lado da nossa briga combinada. Vamos fazer um v\u00eddeo indo \u00e0s vias de fato. Foi muito massa. Na \u00e9poca o Petraquinho tinha ido pra SP pro Lollapalooza, ia ficar na casa do Beto, s\u00f3 que da\u00ed o Beto mandou uns \u00e1udios muito engra\u00e7ados pro Petraquinho, e a gente usou na m\u00fasica. Tem o tempo inteiro ele falando, \u201cT\u00f4 preocupado com o show do Liam Gallagher (risos)\u201d, ele falando um monte de coisa que \u00e9 de um \u00e1udio de Whatsapp que o Petraquinho usa muito. A cria\u00e7\u00e3o do disco do Imp\u00e9rio tem muita coisa de \u00e1udio de Whatsapp. No \u201cS\u00f3 no Pallets\u201d tem uma voz inteira minha gravada pelo Whatsapp, a gente pira bastante nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acaba sendo mais uma maneira de criar.<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c1udio de whatsapp \u00e9 arte?<\/strong><br \/>\n\u00c9, tamb\u00e9m. Tudo \u00e9, n\u00e9. Duchamp tamb\u00e9m (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu foi no show da Cachorro Grande (a despedida, em Porto Alegre)?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o consegui ir. Dia 13 de julho \u00e9 o nosso 20 de setembro (feriado da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha no Rio Grande do Sul) dos roqueiro, tem que trabalhar pra caralho. Tive tr\u00eas shows nesse dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que tu achou quando tu soube que a banda ia acabar?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei o que eu achei. N\u00e3o posso dizer que fiquei triste porque a banda j\u00e1 estava muito descaracterizada depois que o Gross saiu, e foi legal que ele voltou, at\u00e9 falei que tinha que ter chamado o Bocudo (Jer\u00f4nimo Bocudo, ex-baixista), j\u00e1 que o Rodolfo (Krieger, baixista da \u00faltima forma\u00e7\u00e3o) foi viajar no meio da turn\u00ea. Enfim, eles fizeram muito bem feito, deram o valor que a banda merecia. O Beto est\u00e1 de parab\u00e9ns por ter bolado isso. Ele j\u00e1 estava bolando o disco solo dele, \u201cvou fazer uma turn\u00ea legal pra Cachorro\u201d, acabar isso, o jeito que eles fizeram foi super emotivo, mas super legal, envolveu todo mundo. Acho que eles est\u00e3o de parab\u00e9ns, salvou da bad vibe que tinha rolado com \u201cElectromod\u201d (2016), ent\u00e3o acho muito afud\u00ea, n\u00e3o que a banda tenha acabado, mas o jeito que trataram isso. Cheio de carinho, principalmente da parte deles e carinho tamb\u00e9m com o p\u00fablico, aten\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, a galera seguindo eles afu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>(Carlinhos retoma a listagem de bandas)<\/strong><\/em><br \/>\nAl\u00e9m do Bife Simples tem a S\u00f3 Amor, em que eu toco com o Flu e o Chic\u00e3o. Tem tamb\u00e9m a Carlinhos Carneiro e a Jovem Tiozinhice, que \u00e9 o \u00fanico projeto que leva o meu nome porque eu inventei pro meu anivers\u00e1rio de 40 anos, no ano passado, e minha ideia era tocar uns boleros, umas m\u00fasicas dessas que eu guardo na minha cabe\u00e7a, que eu imaginava boleros e eu nunca botava em nenhum dos meus projetos. Ent\u00e3o inventei esse show de boleros, a gente fez no meu anivers\u00e1rio. A Gisela Sparremberger assistiu e veio falar comigo \u201cCarlinhos, tu n\u00e3o tem algum desses teus projetos que a gente possa levar pra teatro?\u201d. E eu disse \u201cesse\u201d. Eu imaginava esse show em teatro. A gente criou a pe\u00e7a \u201cCora\u00e7\u00e3o de B\u00fafalo\u2019. Teve duas temporadas no come\u00e7o do ano. E o \u201cCora\u00e7\u00e3o de B\u00fafalo\u201d \u00e9 o espa\u00e7o dessa banda, da Jovem Tiozinhice, que \u00e9 pra tocar m\u00fasicas de tiozinho. \u00c9 o porqu\u00ea de eu estar com o cabelo pintado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu pinta o cabelo?<\/strong><br \/>\nEu pintei isso aqui, eu n\u00e3o sou grisalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 grisalho?<\/strong><br \/>\nEu tenho que parecer mais velho, sou muito jovem (risos). S\u00f3 tenho (cabelos brancos) dos lados. A gente tinha apoio de cabeleireiro, ent\u00e3o fui l\u00e1 e disse \u201cquero ficar velho, grisalho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu atuava?<\/strong><br \/>\nMais canto do que qualquer coisa. Mas canto atuando, da\u00ed tem tr\u00eas atrizes, a Gisela Sparrembeger, a Adriana Deffenti e a Denizeli Cardoso. A Adriana e a Denizeli cantam tamb\u00e9m. E a Gisela d\u00e1 os textos. A gente criou junto com o Bob Bahlis, que \u00e9 o diretor da pe\u00e7a. A gente criou uma linha, falando sobre amor, sobre coisa da cria\u00e7\u00e3o, da musa, coisa por tr\u00e1s do artista, a partir de cartas de poetas e tudo mais, projeto que o Bob j\u00e1 tinha, na cabe\u00e7a dele, de usar cartas da Clarice Lispector, da Sylvia Plath e do Caio Fernando Abreu. Da\u00ed as atrizes tamb\u00e9m trouxeram textos, Denizeli trouxe uma Elisa Lucinda, a Adriana trouxe um texto do Mario Quintana e do Aldir Blanc, e fomos criando esse formato, mas ainda est\u00e1 em aberto, a gente vai formatando a cada apresenta\u00e7\u00e3o. A primeira vez foi no Teatro de Arena, dentro do Porto Ver\u00e3o Alegre. A segunda foi no Teatro da Santa Casa, e foi totalmente diferente, palco italiano, e da\u00ed muda o jeito de ser. Ent\u00e3o \u00e9 outra coisa que a gente est\u00e1 explorando. Desde essa parada da Bid\u00ea fiz outro neg\u00f3cio com teatro que \u00e9 o \u201cReuni\u00f5es Importantes\u201d, com Marcos Contreras, Alexandre Cardoso, Thiago Souza e Nathalia Nunes, que era de improviso no teatro. Tamb\u00e9m tinha m\u00fasica. Levei os guris do Carabala. A gente fez o Bife Simples, mas tamb\u00e9m tinha atua\u00e7\u00e3o. Era uma reuni\u00e3o, a gente dava um tema pra reuni\u00e3o e a\u00ed cada um sa\u00eda inventando o que queria daquela reuni\u00e3o. Podia ser uma interven\u00e7\u00e3o de um jovem louco ou a decis\u00e3o de um novo imposto do governo federal, qualquer coisa, o que surgia na hora. Tem a ver com aquele processo que eu pensei \u201ccomo fazer diferente meu trabalho com a m\u00fasica ou com a arte em geral\u201d. Ent\u00e3o essas coisas est\u00e3o surgindo ao mesmo tempo. Eu penso bastante em teatro, v\u00eddeos, cinema. Dirigi uns clipes tamb\u00e9m. Penso em mostrar pro p\u00fablico hoje esse artista que faz coisa demais. Quero atrapalhar a galera. Quero justamente isso. Porque sou sempre o \u201cCarlinhos da Bid\u00ea\u201d e quero justamente brincar com esse atrapalho. Quero atrapalhar pra que essa atrapalha\u00e7\u00e3o seja uma forma de linguagem art\u00edstica. Que \u00e9 verdade, como eu venho te dizendo, eu fico fazendo as coisas, tudo meio instintivo, aos poucos as pessoas v\u00e3o entendendo. Nesses \u00faltimos dois, tr\u00eas anos, isso aumentou. At\u00e9 o fim do ano ir\u00e1 sair uns 4, 5 lan\u00e7amentos. Em 2017 e 2018 eu lancei dois discos por ano. Esse ano acho que ser\u00e3o cinco. At\u00e9 porque j\u00e1 estou pensando que daqui a pouco vai vir a Bid\u00ea e da\u00ed vou parar pra fazer, vou querer parar pra isso. Ent\u00e3o estou brincando com um monte de coisas. Mas gosto dessa ideia de passar a mensagem de estar fazendo um monte de coisas. Porque acho que tem a ver com os tempos de hoje, o novo jeito desse artista se posicionar. A divers\u00e3o ainda \u00e9 o carro chefe, mas existe um pensar por tr\u00e1s disso tudo. Querendo ou n\u00e3o, sempre tem algum projeto que ainda n\u00e3o coloquei em pr\u00e1tica, e que est\u00e1 na minha cabe\u00e7a. Tenho v\u00e1rios. Tem uma pe\u00e7a que a gente t\u00e1 escrevendo. O nome provis\u00f3rio \u00e9 \u201cO Vazio entre os Irm\u00e3os Muscoff\u201d. Eu e o Mario Contreras e o L\u00facio Fernandes. Est\u00e1vamos escrevendo. A gente come\u00e7ou, parou, agora acho vamos retomar. Tem um filme, um v\u00eddeo que eu queria fazer, um filme mudo em que a trilha sonora fosse tocada ao vivo, sempre improvisada, um Bife Simples cinematogr\u00e1fico, esse est\u00e1 mais guardado, mas tenho uma ideia do roteiro. Eu quero fazer pro Fantaspoa, pois sou amigo dos guris, e o desejo \u00e9 tocar todos os dias do Fantaspoa, 15 dias, cada vez com um pessoal diferente, uma trilha totalmente diferente, que o clima do filme muda a partir da trilha sonora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como seria o filme?<\/strong><br \/>\nUma mistura de terror com faroeste com realidade sociopol\u00edtica brasileira. Um trabalhador bra\u00e7al envolvo em apuros de terror e faroeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 algo bem real.<\/strong><br \/>\nExatamente. Que se for tocado com um clima de suspense vira um filme de suspense, se tocado com um clima de com\u00e9dia vira com\u00e9dia. \u00c9 mais ou menos essa base da ideia. Tem mais algumas ideias soltas. Tem muita coisa solta na cabe\u00e7a. Tem m\u00fasicas que estou fazendo, eu tocando viol\u00e3o, que nunca gravei e que pode sair esse ano ainda. E tem uma banda que a gente fez em S\u00e3o Paulo s\u00f3 pra fazer uns shows enquanto a gente estava mixando o Atahualpa, que \u00e9 a Orquestra da Depress\u00e3o Provinciana, que \u00e9 com os amigos que moram l\u00e1, como o Clayton Martim (Cidad\u00e3o Instigado), a Biba Graeff, o Guri Assis Brasil e Guilherme Almeida, o Mal\u00e1sia na percuss\u00e3o, e o Haroldo Paraguassu. O Papel tocou com a gente tamb\u00e9m, Alexandre Loureiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma banda de l\u00e1&#8230;<\/strong><br \/>\nCom repert\u00f3rio de m\u00fasicas minhas e do Flu. Agora a gente est\u00e1 botando m\u00fasica dos outros tamb\u00e9m, mas que est\u00e1 com um som bem seu. O Clayton toca bateria de p\u00e9, meio Moe Tucker do Velvet, e da\u00ed essa banda tem uma sonoridade bem sua. Tocamos m\u00fasicas da Cora\u00e7\u00e3o de B\u00fafalo, da Bid\u00ea, do Bife Simples, do Imp\u00e9rio, do De Falla, do Atahualpa, e todas est\u00e3o soando super diferentes das originais. A gente gravou uns shows, n\u00e3o sei se vamos lan\u00e7ar pirataria oficial, que tamb\u00e9m \u00e9 um neg\u00f3cio que quero fazer com a Bife Simples, que tem grava\u00e7\u00e3o desses shows que a gente inventa m\u00fasica inteira. Cogito tamb\u00e9m botar pra fora isso, mal gravado, vai que \u00e9 um Dodge. Mas ainda n\u00e3o sei se de repente essas m\u00fasicas que tenho n\u00e3o v\u00e3o ser absorvidas pela orquestra, ou se v\u00e3o ser uma coisa minha, ou se v\u00e3o ser do Bife Simples, ainda n\u00e3o sei como vai vir \u00e0 tona isso. Tem m\u00fasica que eu guardo h\u00e1 mais de 10 anos. Eu n\u00e3o sei tocar direito. Da\u00ed quando eu aprendo eu invento uma m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando tu fica elaborando as m\u00fasicas vem s\u00f3 a letra, a melodia, tu j\u00e1 pensa um arranjo, como \u00e9 que isso se d\u00e1 na tua cabe\u00e7a?<\/strong><br \/>\nAh de todos os jeitos, \u00e0s vezes vem inteira, sobrando partes, estrofes inteiras, refr\u00f5es, e tudo mais, e depois edito e vira m\u00fasica. \u00c0s vezes as pessoas tocam e eu invento em cima, uma coisa na hora. E \u00e0s vezes, que nem eu fiz no \u201cPop B\u00e1sico\u201d, invento caminhando na rua. Da\u00ed tento, e isso \u00e9 novidade pra mim, botar os acordes dentro. Nunca fazia isso, eu sempre cantava pra algu\u00e9m e a pessoa fazia, agora estou conseguindo. \u201cPop B\u00e1sico\u201d foi a primeira que eu compus inteira, agora tem umas tantas que eu fiz, n\u00e3o sei se v\u00e3o acabar sendo s\u00f3 minhas, se n\u00e3o v\u00e3o melhorar depois que algu\u00e9m mexer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tu pensa assim: \u201cAgora vou parar e inventar uma m\u00fasica\u2019?<\/strong><br \/>\n\u00c0s vezes eu penso: \u201cagora eu vou parar e inventar uma m\u00fasica\u201d. \u00c0s vezes eu t\u00f4 lavando lou\u00e7a, inclusive, \u00f3, mais um lan\u00e7amento desse ano, Irm\u00e3os Panarotto e Imp\u00e9rio da L\u00e3 que a gente gravou com o pessoal do Repolho, a gente estava combinando de gravar uma m\u00fasica deles. A gente tem uma piada entre n\u00f3s que eles fizeram com o J\u00fapiter h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da est\u00e1tua?<\/strong><br \/>\n\u00c9! Eles falaram pro J\u00fapiter que a est\u00e1tua do desbravador em uma das avenidas principais de Chapec\u00f3 era em homenagem a ele, e ele \u201c\u00f3, que interessante, man, porque que colocaram um machado e n\u00e3o uma guitarra?\u201d (risos). Eu ia gravar com eles e me lembrei, a gente falou \u201cah vamo gravar a m\u00fasica deles \u2013 que \u00e9 \u2018Bunda\u2019 \u2013 e vamos inventar mais uma\u201d. Da\u00ed fui lavar lou\u00e7a e me veio v\u00e1rios versos sobre a est\u00e1tua para J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem nome a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\n\u201cEst\u00e1tua para J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3\u201d. Vai sair esse ano (junto com \u201cBunda\u201d), s\u00f3 falta gravar os v\u00eddeos. \u00c9 com parte do bloco, mais o clima do bloco. Uma m\u00fasica deles que \u00e9 \u201cBunda\u201d, \u00e9 um funk, e essa da\u00ed que \u00e9 meio Caribe Para Bahia (risos). A gente t\u00e1 muito nessa onda Caribe. Tem mais m\u00fasica que estou fazendo com a Comunidade Nin-Jitsu. Fiz ano passado uma m\u00fasica com o Fred Chernobyl, que se chama \u201cTe Acalma\u201d, que a gente lan\u00e7ou pela Deck, com a Melina Vaz cantando, Erick Endres, Arthur de Faria e King Jim, uma galera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tipo Os Vingadores de Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nIsso a\u00ed, que \u00e9 meio clima gypsy. E com funk. E agora com a Comunidade tem uma m\u00fasica que eu tinha inventado com a Imp\u00e9rio depois cantei com a Comunidade, encaixamos, e estamos desenvolvendo ela, mais pra al\u00e9m. Se chama \u201cAmante Extraordin\u00e1rio\u201d. Naturalmente n\u00e3o \u00e9 autobiogr\u00e1fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existia essa \u00e9poca, essa gera\u00e7\u00e3o mais recente do rock ga\u00facho, que voc\u00eas e a Comunidade participavam. E hoje, o que que est\u00e1 rolando?<\/strong><br \/>\nHoje est\u00e1 muito afud\u00ea que tudo que dxt\u00e1 surgindo vem com uma linguagem totalmente oposta a esse da\u00ed. Esse pessoal tipo a Saskia, toda aquela galera da Tronco, Pedro Borghetti, o Poty, p\u00f3s-Ian Ramil, p\u00f3s-Apanhador, p\u00f3s-Dingo Bells, que surge agora, a Paola Kirst, Superv\u00e3o. As bandas mais gurizada rock, os Bordinis, os Croquetes que v\u00e3o abrir pra gente e que s\u00e3o punk mesmo. Toda aquela galera do Dub (est\u00fadio de Porto Alegre), Cine Baltimore, a galera do Cidade (Everton Cidade, m\u00fasico e escritor de S\u00e3o Leopoldo), Santo Suzuki, tem o Murder Ballads. Mas em comum, mais uma vez, a m\u00fasica feita aqui n\u00e3o tem muito em comum. Na real, at\u00e9 os hipsters, essa galera da Trompa, at\u00e9 eles tem uma coisa que os interliga, mas \u00e9 muito legal que mais uma vez tudo isso seja bastante plural, bastante diverso, ent\u00e3o tem muita coisa acontecendo de uma forma bem diferente de como acontecia antes. Acho sempre inspirador, \u00e9 sempre legal. E pra esse tempo novo, n\u00e3o tem mais nenhuma r\u00e1dio. N\u00e3o existe nem o meio nem a ideia de se ligar uma r\u00e1dio pra ouvir m\u00fasica, tudo muda o jeito de fazer m\u00fasica. Se \u00e9 Spotify, se \u00e9 playlist do Spotify, \u00e9 o teu nicho, o Superv\u00e3o \u00e9 um exemplo disso, acho que a Saskia tamb\u00e9m, os dois t\u00eam apoio da Natura Musical, j\u00e1 vem nesse clima de uma coisa super nicho mesmo que pode tomar uma propor\u00e7\u00e3o maior e diferente, a gente n\u00e3o sabe como \u00e9 a nova propor\u00e7\u00e3o de um novo artista desses, o pessoal tem muito pra explorar. S\u00e3o todos ultra-autorais, bastante cabe\u00e7a, cabe\u00e7a n\u00e3o sei se \u00e9 o termo, mas bastante art\u00edstico, tem bastante coisa bem art\u00edstica, cheio de refer\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o refer\u00eancias pop necessariamente. Ainda tem coisa pra acontecer, os meios determinam um pouco do produto final. Como que a m\u00fasica vai adiante, que tipo de show pra que tipo de p\u00fablico. Aquela hist\u00f3ria do David Byrne de que quando o cara toca na garagem faz o show de um estilo, quando vai tocar numa arena faz o show de outro estilo. O som \u00e9 de outra forma. Como esse p\u00fablico agora est\u00e1 fazendo m\u00fasica em casa, criando nos seus home studios, leva isso pra um primeiro show pra 20 pessoas dentro do Sofar, e depois pro Sesc Pompeia ou pro Bananada com apoio da Natura Musical. Mais uma vez \u00e9 isso, Superv\u00e3o e Saskia, \u00e9 exatamente disso que estou falando, como eles v\u00e3o fazer isso ainda \u00e9 uma inc\u00f3gnita, ainda n\u00e3o enxergo como isso vai acontecer. E \u00e9 maravilhoso. Essa inc\u00f3gnita \u00e9 que \u00e9 divertida. Mas tem um monte de gente fazendo um monte de coisa, muita gente no interior tamb\u00e9m, agora est\u00e1 mais democr\u00e1tico. Acho que a m\u00fasica que est\u00e1 sendo feita aqui passa por essa inc\u00f3gnita gostosa que est\u00e1 surgindo. Acho que \u00e9 legal e tem muita gente legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu v\u00ea alguma compara\u00e7\u00e3o dessa sua gera\u00e7\u00e3o com o agora?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tem como. Costumo pensar que a Bid\u00ea acabou com o rock ga\u00facho. Porque a Walverdes n\u00e3o tinha foto at\u00e9 2000 e pouco, eles tocavam desde 94 e nunca tinham feito foto oficial da banda. Quando a Bid\u00ea surgiu, a banda j\u00e1 veio com foto, logotipo, site. Na mesma \u00e9poca a Tom Bloch estava fazendo isso, a Wonkavision, a Video Hits, todo mundo surgindo na mesma \u00e9poca, e com a Bid\u00ea a gente meio que fez isso (de surgir com tudo pronto). Logo em seguida veio tudo que \u00e9 banda com tudo prontinho, \u00e0s vezes nem sendo t\u00e3o legais, e isso meio que atrapalhou (hesita). Hoje em dia, o pessoal tem logotipo e foto antes de qualquer coisa&#8230; N\u00e3o tem nada com matar o rock ga\u00facho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas domesticou&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, mas antes j\u00e1 existiam tamb\u00e9m montes de bandas que n\u00e3o duravam, sempre existiu isso. E naquela \u00e9poca existia r\u00e1dio. O que aconteceu com a Bid\u00ea n\u00e3o tem como acontecer de novo. A gente botou \u201cMelissa\u201d quando gravou na demo, na Ipanema, na Pop Rock, na Atl\u00e2ntida e tocou nas tr\u00eas, a mais pedida em duas semanas das tr\u00eas r\u00e1dios. Depois pintou contrato com a gravadora, a Abril, que era uma gravadora nacional. Para repetir aquilo l\u00e1 s\u00f3 atrav\u00e9s de um Natura Musical. Isso \u00e9 muito massa, \u00e9 o formato da m\u00fasica mudando. Est\u00e1 todo mundo pensando novas formas de lan\u00e7ar. Ainda sou f\u00e3 de disco, lancei o \u201cT\u00f4co Maravilhoso\u201d por isso, ainda gosto disso, sou velho. Youtube serve pra botar o full album e deixar ouvindo. No Spotfiy n\u00e3o fico tanto ouvindo playlist, escuto discos inteiros. Sei que absorvo a plataforma de um jeito diferente. Vinil \u00e9 um artigo de luxo, a fita cassete a pessoa compra sem ter onde ouvir. Ent\u00e3o existem outras possibilidades, tem outras coisas. S\u00e3o outras realidades. Quando a Bid\u00ea surgiu, a gente entrou com \u201cMelissa\u201d (na programa\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios)e saiu ganhando cach\u00eas super grandes. J\u00e1 entramos juntos com a Comunidade, a Tequila Baby, que j\u00e1 estavam no cen\u00e1rio h\u00e1 um tempinho. Depois quase nenhuma banda conseguiu isso, s\u00f3 a Cachorro e a Fresno. A P\u00fablica e o Cartolas nunca conseguiram da mesma forma que n\u00f3s, a Cachorro e a Fresno conseguiram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra terminar: se tu pudesse escolher isso que aconteceu com o Atahualpa de gravar novas can\u00e7\u00f5es, fazer isso com a Atahualpa com outra banda, qualquer banda, de qualquer tempo, qual banda tu escolheria?<\/strong><br \/>\nQue dif\u00edcil, hein? Pois \u00e9. Desse jeito que eu fiz, eu n\u00e3o era f\u00e3, n\u00e9. N\u00e3o sei. Daniel Johnston. De repente fazer alguma coisa com ele seria legal. Se \u00e9 pra chutar, pegar aquelas m\u00fasicas que ele gravou naquelas fitas no come\u00e7o dos anos 80, e estragou tudo quando conheceu o Butthole Surfers. Que s\u00e3o a maior inspira\u00e7\u00e3o da minha banda preferida que \u00e9 o Flaming Lips. \u00c9 tudo culpa do Butthole Surfers.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radar | TVE - Atahualpa Y Us Panquis - 23\/08\/2019\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kOqGpmfsE7k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bife Simples &amp; O Carabala - Na Farm\u00e1cia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gs1w2hmay-M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bife Simples &amp; O Carabala (feat. Pederneiras, Joj\u00f4 Lal\u00e1 e otombo) - No Metr\u00f4\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PwIrHqxQp0A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Imp\u00e9rio da L\u00e3 - Banho de Cerveja (Videoclipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YYeL3ikYM2c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radar | TVE - Imp\u00e9rio da L\u00e3 - 05\/12\/2017\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NOufpPFbHfE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Janaina Azevedo (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.facebook.com\/janaisapunk<\/a>) \u00e9 jornalista e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Carlinhos decidiu dar f\u00e9rias para sua banda mais famosa em 2016 porque estava cansado de ser \u201capenas\u201d o \u201cCarlinhos da Bid\u00ea\u201d \u2013 e tamb\u00e9m porque achava que a banda tinha se transformando em um relacionamento t\u00f3xico, e queria dar um tempo para que a Bid\u00ea ou Balde voltasse a ser divertido. 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