{"id":53770,"date":"2019-11-19T13:12:39","date_gmt":"2019-11-19T16:12:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53770"},"modified":"2021-05-14T23:05:29","modified_gmt":"2021-05-15T02:05:29","slug":"jotabe-medeiros-a-idolatria-nao-fazia-a-cabeca-de-raul-seixas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/19\/jotabe-medeiros-a-idolatria-nao-fazia-a-cabeca-de-raul-seixas\/","title":{"rendered":"Jotab\u00ea Medeiros fala sobre Raul Seixas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tantos \u00edcones do s\u00e9culo XX, a imagem de Raul Seixas (1945-1989) \u00e9 mais universalmente lembrada que sua m\u00fasica. Dif\u00edcil encontrar quem n\u00e3o se lembre da figura de cabelos e barba desgrenhados, \u00f3culos escuros, esqu\u00e1lido (ou inchado de bebida, dependendo da \u00e9poca) e dos hits que confirmavam sua m\u00edstica individualista e porralouquista, como \u201cMetamorfose Ambulante\u201d, \u201cGita\u201d e \u201cMaluco Beleza\u201d. Esse \u00e9 o Raul referido \u2013 e muitas vezes, reduzido ou exagerado \u2013 que se encontra nos incont\u00e1veis livros sobre o cantor e compositor baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 exatamente esse Raul que n\u00e3o aparece nas p\u00e1ginas de \u201cN\u00e3o Diga que a Can\u00e7\u00e3o Est\u00e1 Perdida\u201d, biografia escrita pelo jornalista Jotab\u00ea Medeiros e lan\u00e7ada em outubro pela editora Todavia. Se em seu livro anterior, \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/tag\/belchior\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Apenas um Rapaz Latino-Americano<\/a>\u201d, Medeiros trazia uma narrativa bem-escrita, mas algo careta e elogiosa de <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/tag\/belchior\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Belchior<\/a>, a obra recente vai no sentido oposto, investigando exaustivamente os fatos, a imagem e as composi\u00e7\u00f5es do mais inventivo (e combativo) roqueiro que esse pa\u00eds j\u00e1 teve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 um trabalho de toda uma vida\u201d, resume Jotab\u00ea ao fim da conversa telef\u00f4nica com o Scream &amp; Yell. N\u00e3o que ele tenha passado d\u00e9cadas escrevendo, mas o processo de levantamento de fatos procura ir al\u00e9m das vers\u00f5es muitas vezes pouco confi\u00e1veis que j\u00e1 circulavam no mercado, cheias de lendas, boatos e \u201cachismos\u201d de f\u00e3 sobre um trabalho demasiadamente complexo e sem par na m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa dimens\u00e3o do compositor e do anarquista de express\u00e3o popular (que tamb\u00e9m \u201chackeava a m\u00eddia\u201d muito antes de algum mala criar essa express\u00e3o) \u00e9 um dos maiores trunfos do livro, que tamb\u00e9m n\u00e3o se priva de se debru\u00e7ar sobre a obra de Raul, trazendo praticamente uma an\u00e1lise faixa a faixa, cheias de hist\u00f3rias de bastidores, de todos os seus \u00e1lbuns.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53773\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/raulseixas2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"570\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/raulseixas2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/raulseixas2-300x228.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor n\u00e3o se privou de chafurdar em temas pol\u00eamicos, como as acusa\u00e7\u00f5es de pl\u00e1gio que foram levantadas ap\u00f3s sua morte ou mesmo o tenebroso epis\u00f3dio de uma invas\u00e3o de traficantes em seu apartamento que resultou no assassinato de um argentino que fazia a seguran\u00e7a (e algumas \u201ccorrerias\u201d) para Seixas. Mesmo ciente de que tocava em temas delicados, Medeiros n\u00e3o esperava a repercuss\u00e3o de um dado trazido por sua investiga\u00e7\u00e3o: documentos da \u00e9poca da ditadura militar que sugerem (veja bem, sugerem, e n\u00e3o comprovam) <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/10\/livro-sobre-raul-seixas-cita-suspeita-de-que-ele-entregou-paulo-coelho-a-ditadura.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que Raul teria \u201centregado\u201d o amigo e parceiro Paulo Coelho e sua companheira aos milicos<\/a>, que depois seria presos e torturados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A simples sugest\u00e3o (baseada em um documento oficial, vale lembrar) levou \u00e0 guerra de acusa\u00e7\u00f5es, inverdades e frases condenat\u00f3rias que tanto povoam as discuss\u00f5es em \u00e9pocas de rede social, chegando at\u00e9 mesmo ao ponto de proporem o \u201ccancelamento\u201d de Raul Seixas, como \u00e9 triste praxe nesses tempos de intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Raul Seixas foi uma figura humana e um artista com uma complexidade muito maior que frases lacradoras conseguem definir. O maior m\u00e9rito da biografia \u2013 entre outros \u2013 \u00e9 trazer um panorama das contradi\u00e7\u00f5es e complexidades que o envolvem, bem como os fatores que proporcionaram o crescimento do Raul \u201cmitol\u00f3gico\u201d (at\u00e9 a origem do brado \u201ctoca Raul!\u201d \u00e9 investigada), e a (re)apresenta\u00e7\u00e3o de sua obra ante uma luz que a valoriza sem descambar em momento algum para o \u201cmacaquismo\u201d de audit\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos dias ap\u00f3s a controv\u00e9rsia sobre a suposta rela\u00e7\u00e3o com os militares ter adquirido propor\u00e7\u00f5es desmedidas, Jotab\u00ea conversou com o Scream &amp; Yell e foi al\u00e9m da pol\u00eamica, falando sobre a diferen\u00e7a que existe entre trabalho e seu anterior (a biografia de Belchior), e trazendo ainda sua vis\u00e3o sobre alguns aspectos que seu livro apresenta com rigor jornal\u00edstico e sem julgamentos.<\/p>\n<figure style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/paraiso5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Jotab\u00ea Medeiros falando de Belchior no Festival Para\u00edso do Rock 2017<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo nas primeiras p\u00e1ginas voc\u00ea fala sobre quem tentou, ao longo dos \u00faltimos 30 anos, \u201cabsolver Raul sumariamente\u201d de qualquer acusa\u00e7\u00e3o ou pecha que lhe imputassem. E agora, pouco antes de o livro ser lan\u00e7ado, veio essa pol\u00eamica envolvendo a poss\u00edvel colabora\u00e7\u00e3o de Raul Seixas com o regime militar na pris\u00e3o de Paulo Coelho. Passado o calor da repercuss\u00e3o inicial, como voc\u00ea analisa essa contradi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA primeira coisa que me parece \u00e9 que na falta de, digamos assim, exemplos mais s\u00f3lidos no pa\u00eds, temos tido dias de incinera\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos em tempos recentes. Raul Seixas \u00e9 como se fosse uma baliza \u00e9tica para um monte de gente. Ele \u00e9 meio que um or\u00e1culo, especialmente para um tipo de cidad\u00e3o urbano que \u00e9 bastante marginalizado, seja por fumar maconha, por fazer artesanato na rua, por ser um tipo fora da expectativa social. Para esses caras, o Raul lhes diz aonde ir, o que vestir, o que responder para os detratores. Acredito que na hora em essas pessoas viram a sugest\u00e3o de que o Paulo Coelho desconfiava do Raul, \u00e9 como se tivessem lhes tirado o ch\u00e3o. E entendo essa rea\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 preciso ver que o Raul nunca reivindicou esse papel [de guru]. Eu reproduzo no livro alguns relatos de quando ele se recusava a cantar algumas m\u00fasicas que os f\u00e3s pediam, chegava um cara e pedia para cantar \u201cMetamorfose Ambulante\u201d e ele respondia: \u201cN\u00e3o vou cantar, n\u00e3o, essa m\u00fasica \u00e9 uma porcaria\u201d. N\u00e3o que ele achasse a pr\u00f3pria obra horr\u00edvel, mas era para n\u00e3o ficar ref\u00e9m de si mesmo, n\u00e3o se repetir. A idolatria n\u00e3o fazia a cabe\u00e7a dele. Mas n\u00e3o adiantou, acabaram dando a ele esse papel. E quando esses f\u00e3s mais devotos souberam disso, [a not\u00edcia] caiu como uma bomba, n\u00e3o quiseram saber nem quais eram os fatos. Para piorar, na internet o debate se \u201catomiza\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E agora os \u00e2nimos est\u00e3o mais serenados?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Os livros come\u00e7aram a chegar \u00e0s livrarias, os f\u00e3s e f\u00e3-clubes foram lendo e vendo que\u2026 (pausa) n\u00e3o poupei Raul de nenhum tipo de pol\u00eamica. Falo inclusive de coisas que estavam sem ser reexaminadas ou mesmo citadas, como a hist\u00f3ria do seguran\u00e7a argentino que foi morto no apartamento dele (nota: Hugo \u00c1ngel Amorrotu, argentino ligado ao tr\u00e1fico de coca\u00edna que foi assassinado a tiros no apartamento do baiano). \u00c9 como se houvesse uma esp\u00e9cie de pacto para n\u00e3o falar nada que pudesse enevoar a imagem do Raul. Eu n\u00e3o fiz o livro com esse intuito, fiz para examinar as contrariedades da personalidade dele, que ele mesmo debatia em p\u00fablico. Raul nunca teve a covardia em rela\u00e7\u00e3o ao embate p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando que voc\u00ea citou as contrariedades\u2026 Voc\u00ea trata diretamente de todos os pl\u00e1gios e \u201capropria\u00e7\u00f5es\u201d que atribuem ao Raul. Mas me parece que transparece ali certa condescend\u00eancia sua para com esses pl\u00e1gios, como se eles n\u00e3o fossem uma quest\u00e3o \u00e9tica delicada e fossem mais uma parte do folclore em torno da figura dele. Voc\u00ea n\u00e3o acha que era uma licenciosidade da parte dele? Afinal, h\u00e1 casos que eram mais que apropria\u00e7\u00f5es de trechos e ideias.<\/strong><br \/>\nDeixo o julgamento para o leitor. Eu aponto todos: s\u00e3o 12. Conforme fui ouvindo os discos e reconhecendo, ou ouvindo falar, fui averiguar e cheguei a esse n\u00famero. Entre eles, alguns que podem ser debatidos, por serem inspira\u00e7\u00f5es ou cita\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 s\u00e1tiras. J\u00e1 outros, como \u201cRock das Aranha\u201d e \u201cKiller Diller\u201d (do proto-rocker Jimmy Breedlove) eram parecidos demais para tentar atribuir como cita\u00e7\u00e3o, era quase uma c\u00f3pia nota por nota. Fazendo uma an\u00e1lise matem\u00e1tica, ele tem 12 pl\u00e1gios em meio a mais de 300 can\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, e n\u00e3o sei se seria totalmente bom ou saud\u00e1vel condenar uma obra inteira por alguns deslizes \u00e9ticos. Eles precisam ser apontados, n\u00e3o podem ser vistos como se fossem nada. E falo de todos os originais que ele usou: Byrds, Elvis, Beatles\u2026 Mas ele fazia isso de forma t\u00e3o aberta e irrespons\u00e1vel que \u00e0s vezes n\u00e3o sei se era uma provoca\u00e7\u00e3o consciente. Mas isso j\u00e1 n\u00e3o posso afirmar, porque ele n\u00e3o foi inquirido sobre isso em vida, e isso foi uma falha da imprensa da \u00e9poca. Se o jornalista ouvisse o disco naquela \u00e9poca \u2013 e Elvis ou Beatles n\u00e3o eram exatamente desconhecidos \u2013 tinha que apontar isso. N\u00e3o foi apontado porque ele desfrutou desse habeas corpus da irrever\u00eancia, da iconoclastia. Mas como compositor, ele \u00e9 de uma originalidade fudida, desde o come\u00e7o. \u00c9 um debate que eu estou te propondo: n\u00e3o seria moralismo demais julgar esses casos com base nos princ\u00edpios da legalidade e da ordem?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1958 - Jimmy BreedLove - Killer Diller\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kicyjT8oNGc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que fiquei em d\u00favida, e que me parece ser o \u00fanico ponto da carreira dele que n\u00e3o ficou detalhadamente descrito no livro, \u00e9 como ele conseguiu moral para fazer o primeiro disco solo de fato, \u201cKrig-Ha, Bandolo!\u201d (1973), com tanta moral na gravadora e tanto dinheiro, j\u00e1 que os anteriores \u2013 com os Panteras (1968) e o \u201cSociedade da Gr\u00e3-Ordem Kavernista\u201d (1971) \u2013 n\u00e3o tiveram sucesso algum.<\/strong><br \/>\nForam dois fatores. O primeiro \u00e9 que ele entrou no cora\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria como produtor e j\u00e1 podia abrir a porta de um gabinete e se apresentar sem ser enxotado. O Raul trabalhou muito com diretores de gravadoras, como Rossini Pinto, Mauro Motta, o pr\u00f3prio Renato Barros (de Renato e seus Blue Caps, uma das for\u00e7as da ind\u00fastria na \u00e9poca), ele trabalhou com todos e ficou amigo de todos, s\u00f3 que ele n\u00e3o parou com a pr\u00f3pria cabe\u00e7a. A cabe\u00e7a dele come\u00e7ou a ser alimentada com todo o repert\u00f3rio internacional da CBS, como o blues rock ingl\u00eas. O encontro com o Leno (que antes fazia a dupla com Lilian) tamb\u00e9m foi muito importante, pois ele tinha certa inquieta\u00e7\u00e3o para produzir um disco autoral, e o Raul se tomou por esse esfor\u00e7o, se inspirou. E outra coisa \u2013 que est\u00e1 no livro \u2013 \u00e9 que o Menescal deu a ele o status de artista. Depois que ele mostrou 10 m\u00fasicas para o Menescal &#8211; \u201cOuro de Tolo\u201d entre elas \u2013 ele falou: \u201cEsse moleque simplesmente est\u00e1 em outro n\u00edvel\u201d. O pr\u00f3prio Menescal falou pra mim que era surpreendente, que ele ficou abismado. Ele deu ent\u00e3o a chance de gravar o disco com boas condi\u00e7\u00f5es, mas era uma arma com uma bala s\u00f3. Se n\u00e3o desse certo\u2026 Mas foi a\u00ed que ele virou um fen\u00f4meno, e ganhou depois mais status para fazer o segundo disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que mostra que na \u00e9poca realmente havia espa\u00e7o para algumas apostas, mesmo com todo o processo industrial e padronizado que havia.<\/strong><br \/>\nNessa \u00e9poca, os caras (diretores de gravadora) acreditavam que a ousadia podia ser premiada, pelo menos em alguns casos. Isso era t\u00edpico do per\u00edodo. O \u201cSociedade da Gr\u00e3-Ordem\u2026\u201d, com seus ru\u00eddos e invencionices sonoras, influ\u00eancias do Frank Zappa e do Pink Floyd \u2013 quando que isso ia sair por uma gravadora hoje? Eles acreditavam nisso, porque acontecia \u00e0s vezes. Mas vou muito atr\u00e1s dos discos dos bregas para os quais o Raul comp\u00f4s, porque ali ele desenvolveu uma linguagem e poderia ter seguido dentro dela para simplesmente ganhar dinheiro. Ele sabia como fazer isso. Mas isso n\u00e3o o satisfazia, porque ele n\u00e3o queria apenas ganhar dinheiro. Raul queria confronta\u00e7\u00e3o, queria ser libert\u00e1rio, essa era a cria\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tendo biografado dois nomes dessa \u00e9poca, voc\u00ea viu muito dessa hist\u00f3ria. Quando essa tomada de risco foi sendo deixada de lado?<\/strong><br \/>\nA mudan\u00e7a come\u00e7ou com os \u201cgrupos de trabalho\u201d que as gravadoras montaram, que eram os debates internos para discutir estrat\u00e9gia de mercado, os avan\u00e7os das t\u00e9cnicas de marketing por cima da capacidade criativa dos artistas. O Raul e o Paulo Coelho se insurgiram contra isso, mas n\u00e3o foi o suficiente para barrar esse movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Biografias s\u00e3o muito demandantes para um pesquisador e escritor. A do Raul \u00e9 a segunda que voc\u00ea fez. Qual foi o aprendizado que voc\u00ea trouxe da biografia do Belchior que o levou a fazer coisas diferentes na do Raul?<\/strong><br \/>\nTem muitas coisas que precisavam ser examinas na hist\u00f3ria do Belchior. N\u00e3o tinha praticamente nada sobre ele: livros, artigos\u2026 Era mais dif\u00edcil, pois era uma literatura inaugural. Do Raul, h\u00e1 mais de 60 livros, todos muito memorial\u00edsticos, cheios de depoimentos pessoais, unilaterais. Era muita coisa, e eu precisava equacionar o que era verdadeiro, o que era revelador, e o que eu queria desse personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda assim, vejo uma diferen\u00e7a grande nos textos dos dois livros. A do Raul traz mais detalhes dos fatos e contraposi\u00e7\u00f5es de vis\u00f5es. A do Belchior parece, em muitos momentos, uma biografia de f\u00e3. Jornal\u00edstica, mas ainda com um amor grande pelo biografado. J\u00e1 a do Raul \u00e9 diferente: existe o afeto, mas vejo mais an\u00e1lise, mais vontade de compreender.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea tem toda a raz\u00e3o. Belchior tinha e tem tudo a ver comigo. A elabora\u00e7\u00e3o l\u00edrica dele, a po\u00e9tica, fazia tanto efeito em minha alma (ri)\u2026 Isso permanece at\u00e9 hoje. [A obra do] Belchior tem uma capacidade de me emocionar muito grande. O Raul faz uma m\u00fasica convocat\u00f3ria: \u201cVamos para o pau, para o confronto\u201d. Ele \u00e9 o primeiro artista a examinar o consumismo na m\u00fasica brasileira, por exemplo. Ele via isso com agonia e tratava com sarcasmo, em v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 coisa de um rebelde, um cara que n\u00e3o quer ser aprisionado pelas conven\u00e7\u00f5es sociais. Esse escopo tinha que ser compreendido. E tem o efeito sociol\u00f3gico do Raul, que baliza a \u00e9tica de uma legi\u00e3o de deserdados pela sociedade, como eu falei no come\u00e7o. Ao mesmo tempo, a obra do Raul e a pr\u00f3pria persona dele foram escanteados pelo bom gosto reinante por um bom tempo. Tinha um preconceito de classe, e eu precisava examinar com certo distanciamento para compreender esse fen\u00f4meno. Eu n\u00e3o era t\u00e3o pr\u00f3ximo do Raul como eu era do Belchior, ent\u00e3o eu tive que examinar com um tipo de capacidade cient\u00edfica, meio soci\u00f3logo. \u00c9 o livro mais complicado que fiz na vida por causa disso. Eu parava por dias para pensar sobre um assunto, literalmente: o que \u00e9 que isso significa? O que significa ele fazer quatro m\u00fasicas sobre trens? De onde vem essa obsess\u00e3o? E cada aspecto tinha que ser amarrado com a hist\u00f3ria da vida dele. \u00c9 uma biografia mais complexa, e um personagem idem. Apesar do mist\u00e9rio do seu desaparecimento, Belchior, ele viveu 60 anos, a maioria deles da maneira que quis. O Raul era mais autodestrutivo, morreu com 44 anos. Ele se conduziu ao pr\u00f3prio final. Outro aspecto mais forte nele \u00e9 o misticismo, ele n\u00e3o acreditava s\u00f3 nas coisas do intelecto. E para mim isso \u00e9 muito mais dif\u00edcil, porque sou ateu, sou descrente, n\u00e3o acredito em nada. Por isso \u00e9 duplamente dif\u00edcil entender um cara que acreditava em discos voadores, em magia e medita\u00e7\u00e3o. Mas tentei respeitar tudo isso e examinar com aten\u00e7\u00e3o e profundidade, sem julgar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Raul era m\u00edstico, mas muitas vezes dizia n\u00e3o acreditar em correntes ou escolas de pensamento, nem seguir cren\u00e7as muito organizadas. At\u00e9 por isso ele falava que a \u00fanica religi\u00e3o dele era o \u201craulseixismo\u201d, mas no sentido da individualidade, tal como nos versos de \u201cEu Sou Ego\u00edsta\u201d. N\u00e3o deixa de ser curioso ver que tantos f\u00e3s n\u00e3o entenderam a pr\u00f3pria individualidade e dizem eles mesmos professar o \u201craulseixismo\u201d.<\/strong><br \/>\nEle sempre demonstrava inc\u00f4modo com isso, Ele queria ser um homem comum. Mas ao mesmo tempo em que ele se afastava disso, ele se aproximava dos f\u00e3s mais\u2026 l\u00fampens, digamos. Ele ficou de cueca nas Grandes Galerias (no Centro de S\u00e3o Paulo) porque ficou bebendo com esses f\u00e3s nos bares da regi\u00e3o. E eles levaram tudo, at\u00e9 as cal\u00e7as, como suvenir. Ele tinha essa vontade de estar com esses f\u00e3s, n\u00e3o se afastar deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos lados mais complicados do biografado \u00e9 a paternidade. Raul praticamente n\u00e3o conviveu com duas de suas filhas (Simone e Scarlett), e faleceu quando Vivian (Vivi Seixas) era muito jovem. Voc\u00ea optou por n\u00e3o falar com elas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o falei com nenhuma delas. A \u00fanica que teve mais contato foi a Scarlett (filha de Raul com Gloria Vaquer) e ela nunca quis falar. A Vivi Seixas era beb\u00ea, o depoimento seria de sentimento, n\u00e3o sobre fatos. O filme (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/22\/raul-seixas-o-inicio-o-fim-e-o-meio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cO In\u00edcio, o Fim e o Meio\u201d, document\u00e1rio dirigido por Walter Carvalho em 2011<\/a>) tem isso, os parentes falando de forma saudosa, mas o que isso acrescenta a uma biografia? As cartas que ele enviou para a Scarlett, essas contam tudo sobre o tipo de ang\u00fastia que mexia com ele, fala do sentimento em rela\u00e7\u00e3o a todas elas, de ter sido impedido de ver a Simone, da impossibilidade de ter visto a Scarlett por quest\u00f5es de carreira. Ele queria se reunir com ela, n\u00e3o conseguia e isso o angustiava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De alguma maneira, esse distanciamento das filhas pode ter contribu\u00eddo com o processo de autodestrui\u00e7\u00e3o do Raul?<\/strong><br \/>\nEu reproduzo uma dessas cartas que ele escreveu para a Scarlett no livro, e ela \u00e9 reveladora, mas n\u00e3o poderia dizer que foi isso que o conduziu. A autodestrui\u00e7\u00e3o do Raul era um comportamento progressivo, que veio junto com a fama. Ele n\u00e3o lidou bem com a fama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a perspectiva de quem mergulhou fundo na hist\u00f3ria, como voc\u00ea olha para a obra do Raul hoje?<\/strong><br \/>\nSe voc\u00ea olhar o que temos hoje em rela\u00e7\u00e3o a artistas que prop\u00f5em rupturas profundas \u2013 sociais, existenciais \u2013 a gente n\u00e3o tem\u2026 (hesita) Eu n\u00e3o vou cometer o mesmo erro do Milton Nascimento (nota: em uma entrevista \u00e0 Folha, o cantor declarou que \u201ca m\u00fasica brasileira est\u00e1 uma merda hoje\u201d), a gente tem alguns \u00f3timos nomes \u2013 mas com a repercuss\u00e3o p\u00fablica do Raul s\u00e3o poucos. Temos Racionais, com o teor pol\u00edtico forte, outros de teor est\u00e9tico muito apurado, mas com essas qualidades todas reunidas, n\u00e3o temos mais ningu\u00e9m. O Raul estava imantado dessa condi\u00e7\u00e3o de rebelde, de ser o cara que incita as hostes da rebeldia. Tem artistas com uma performance muito profunda, uma entrega de verdade: Jonnata Doll, Andr\u00e9 Prando, Juvenil Silva. Eles d\u00e3o tudo no palco, n\u00e3o entendem a coisa como um trabalho, e sim como uma profiss\u00e3o de f\u00e9. Se n\u00e3o tiver entrega, n\u00e3o t\u00e1 bom para eles. Isso \u00e9 Raul Seixas. Mas eles n\u00e3o t\u00eam o apelo popular, o acesso ao p\u00fablico que o Raul tinha. Os caras que est\u00e3o entendendo isso, esse papel do Raul, eles v\u00e3o de encontro a ele para se imantar desse esp\u00edrito. O Jim Morrison tinha a coisa meio xam\u00e2nica, o Raul era isso tamb\u00e9m. E os caras que est\u00e3o com as carreiras ainda ascendentes precisam dessa energia, e o Raul \u00e9 o cara que d\u00e1 essa energia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ainda baseado nesse mergulho hist\u00f3rico que voc\u00ea fez, que discos voc\u00ea considera essenciais para algu\u00e9m que n\u00e3o conhece, ou conhece superficialmente, a m\u00fasica de Raul Seixas? Por que parte da extensa discografia uma pessoa que n\u00e3o tem toda essa informa\u00e7\u00e3o pode chegar e pensar: \u201ccacete, realmente esse cara n\u00e3o estava na curva?\u201d<\/strong><br \/>\n\u2018Metr\u00f4 Linha 743\u201d (1984) \u00e9 um disco fascinante e feito na linha descendente da carreira. As met\u00e1foras ali, os jogos de palavras, os \u201ccanibais de cabe\u00e7a\u201d (met\u00e1fora presente na faixa-t\u00edtulo), voc\u00ea tem todo um manual libert\u00e1rio. Est\u00e1 entre o que significa o establishment e ser o cara que se op\u00f5e a esse mesmo establishment, quais s\u00e3o as estrat\u00e9gias de poder para tirar a autogest\u00e3o dos jovens. T\u00e1 tudo ali, cara (nota do editor: &#8220;O vinil de &#8216;Metr\u00f4 Linha 743&#8217; foi relan\u00e7ado recentemente <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/12\/17\/tres-perguntas-rodrigo-garras-de-andrade-selo180\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em edi\u00e7\u00e3o luxuosa pelo Selo 180<\/a>). \u201cA Panela do Diabo\u201d (1989) \u00e9 um puta disco, feito no crep\u00fasculo. \u00c9 certo que \u00e9 muito mais Marcelo Nova, mas Marcelo Nova \u00e9 muito mais Raul do que ele pensa. Os dois s\u00e3o a mesma coisa naquele disco. Tem discos onde voc\u00ea vai ter que garimpar algumas coisas, mas o \u201cNovo Aeon\u201d (1975) \u00e9 onde o cara que n\u00e3o conhece Raul pode ter uma das maiores surpresas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Raul Seixas - Metr\u00f4 linha 743 ( M\u00fasica Legendada )\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iuVziEVS6kk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Raul Seixas Carpinteiro do Universo Dueto Marcelo Nova\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8rLZX-5T6FU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Clipe: Raul Seixas - Novo Aeon\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XHw95mTxXsE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como tantos \u00edcones do s\u00e9culo XX, a imagem de Raul Seixas (1945-1989) \u00e9 mais universalmente lembrada que sua m\u00fasica. E \u00e9 exatamente esse Raul que n\u00e3o aparece nas p\u00e1ginas de \u201cN\u00e3o Diga que a Can\u00e7\u00e3o Est\u00e1 Perdida\u201d, biografia escrita pelo jornalista Jotab\u00ea Medeiros.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/19\/jotabe-medeiros-a-idolatria-nao-fazia-a-cabeca-de-raul-seixas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":53771,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1264,2006,5177],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53770"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53770"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53770\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54078,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53770\/revisions\/54078"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}