{"id":5374,"date":"2010-07-07T21:33:39","date_gmt":"2010-07-08T00:33:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5374"},"modified":"2023-03-29T00:30:18","modified_gmt":"2023-03-29T03:30:18","slug":"entrevista-apanhador-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/07\/entrevista-apanhador-so\/","title":{"rendered":"Entrevista: Apanhador S\u00f3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5375\" title=\"apanhador_so\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/murilo_basso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Murilo Basso<\/a><br \/>\nfotos: Rafael Rocha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ando m\u00e3o de percuss\u00f5es inusitadas e letras sofisticadas o quarteto ga\u00facho Apanhador S\u00f3 chegou a um dos grandes discos do ano. E j\u00e1 se v\u00e3o seis meses de 2010. O disco de estr\u00e9ia (hom\u00f4nimo) dos rapazes mescla in\u00fameras influ\u00eancias. Rock, MPB e country se misturam para dar corpo a can\u00e7\u00f5es capazes de surpreender o ouvinte ap\u00f3s algumas audi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe for muito f\u00e1cil na primeira audi\u00e7\u00e3o acaba se tornando raso ao longo do tempo. \u00c9 muito uma proposta de longevidade do disco, de n\u00e3o fazer algo para ficar apenas aqui. Eu penso que tem que ficar o m\u00e1ximo poss\u00edvel na vida das pessoas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que fazemos m\u00fasica\u201d, diz o guitarrista Felipe Zancanaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum est\u00e1 liberado gratuitamente no site oficial da banda (<a href=\"http:\/\/www.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.apanhadorso.com\/<\/a>) desde seu lan\u00e7amento (baixe <a href=\"http:\/\/www.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>) com v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es candidatas a hits (\u201cUm Rei e o Z\u00e9\u201d, \u201cPouco Importa\u201d, \u201cPr\u00e9dio\u201d, \u201cNescaf\u00e9\u201d, &#8220;Maria Augusta&#8221;: escolha a sua), mas seria interessante voc\u00ea pegar o disquinho nas m\u00e3os: uma capa envelope guarda um encarte caprichado em formato de cart\u00f5es (cada um com uma letra do \u00e1lbum al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es do disco) em um trabalho gr\u00e1fico bonito e interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De passagem pela capital ga\u00facha, Alexandre Kumpinski (voz) e Felipe receberam o Scream &amp; Yell. Na pauta cinema, planos, Porto Alegre e todo o processo de concep\u00e7\u00e3o do mais novo trabalho do grupo. De cara, uma pergunta repleta de espinhos, que a banda respondeu com naturalidade e personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 lidar com as compara\u00e7\u00f5es com Los Hermanos? Isso incomoda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Para n\u00f3s \u00e9 super tranq\u00fcilo. Afinal conhecemos bem onde buscamos nossas origens, onde a gente bebe. E acho que s\u00e3o refer\u00eancias muito parecidas com as deles. Talvez venha da\u00ed a compara\u00e7\u00e3o. Misturar m\u00fasica brasileira e rock com letras mais po\u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Acho que por ser mais melodioso. A galera desce a guitarra e canta melodioso. Pronto, j\u00e1 \u00e9 Los Hermanos (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Matou a charada, de onde vem essa compara\u00e7\u00e3o. A guitarra com melodia muito brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: \u00c9 porque partindo de Los Hermanos, h\u00e1 algo que n\u00e3o se pode negar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Querendo ou n\u00e3o marcou nossa gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Isso! E n\u00e3o tem como fugir. Ent\u00e3o, n\u00e3o tendo como fugir, voc\u00ea pode tocar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 fazer samba quadrado em Porto Alegre, uma cidade tradicionalmente roqueira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Acho que isso \u00e9 muito mais uma vis\u00e3o que do pessoal de fora tem, do que a que temos daqui. Apesar de a grande maioria ter essa levada \u201crock-oasis\u201d, tamb\u00e9m existe uma galera que faz outras coisas, que relaciona com samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Agora \u00e9 Oasis n\u00e9? Antes eram Beatles (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 isso que chama um pouco minha aten\u00e7\u00e3o; essa \u201coutra galera\u201d fica muito restrita a Porto Alegre, certo? A vis\u00e3o predominante de quem est\u00e1 fora talvez seja essa mesmo, \u201crockzinho-mod\u201d que, vez ou outra, faz \u201cescapar\u201d alguma banda bacana. P\u00fablica, por exemplo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: E mesmo dentro desse estilo a P\u00fablica tem uma sutileza que muitas bandas n\u00e3o t\u00eam por aqui. \u00c9 que, apesar de ter certo nome no cen\u00e1rio rock, nosso independente ainda \u00e9 muito pequeno. S\u00e3o poucas casas, muitas bandas e uma rotatividade muito grande. Ent\u00e3o o p\u00fablico vai ver o que est\u00e1 acontecendo at\u00e9 porque n\u00e3o existe estrutura para separar. Mas concordo que poucas bandas consigam sair do RS, embora tenha muita coisa rolando. E o que aconteceu conosco \u00e9 que mesmo misturando muitas coisas somos uma banda que est\u00e1 dentro desse cen\u00e1rio \u201cindie\u201d. E temos muita sorte porque o p\u00fablico que vai ao show de uma banda \u201cmod\u201d tamb\u00e9m acaba indo ao nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Em 2006, quando lan\u00e7amos nosso primeiro EP, tudo era mais dif\u00edcil. A Trama Virtual ainda era o grande site do Brasil. O myspace ainda engatinhava. O p\u00fablico que agora busca material na internet ainda n\u00e3o existia por aqui. Existia a galerinha que ia aos shows e eu sentia um \u201cbater de frente\u201d. N\u00f3s \u00e9ramos os hippies! (risos) Hoje o pessoal n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed. Ouve o som, gosta e n\u00e3o tem medo de dizer. Aos poucos foi mudando e eu nem sei exatamente quando mudou, mas hoje n\u00e3o sentimos mais isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Talvez essa seja a grande sacada. Assim conseguimos sustentar nossa identidade, independente do que rolava sempre por aqui. Apesar de naturalmente se relacionar, de alguma forma, n\u00e3o era algo que quer\u00edamos. Tocar o mesmo estilo para tentar se enquadrar dentro do cen\u00e1rio. Vai ver isso tenha criado um certo destaque. \u201cOlha l\u00e1 os hippies passando!\u201d (risos). Pelo menos sabiam que \u00e9ramos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o se consideram \u201crock ga\u00facho\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: \u00c9 que o \u201crock ga\u00facho\u201d virou um g\u00eanero e n\u00f3s n\u00e3o estamos dentro desse g\u00eanero. O que acontece \u00e9 que somos uma banda de rock e somos do Rio Grande do Sul (risos). A est\u00e9tica \u00e9 diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje em dia quem s\u00e3o as bandas &#8220;pares&#8221; do Apanhador S\u00f3?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Banda Gentileza, Bazar Pamplona, P\u00e9lico&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Acho que temos alguma rela\u00e7\u00e3o, mesmo n\u00e3o estando na mesma gera\u00e7\u00e3o, no mesmo \u201cbolo\u201d, com os caras do Curumim. Tem aquela coisa das misturas de timbres, de uma postura de cria\u00e7\u00e3o que tem rela\u00e7\u00e3o conosco, mesmo ele n\u00e3o priorizando tanto a can\u00e7\u00e3o, sendo mais t\u00e9cnico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alexandre, de que forma seu trabalho com o cinema influencia no Apanhador?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: T\u00eam alguns versos, algumas coisas que eu \u00e0s vezes fico pensando se vieram do cinema. Como \u201cn\u00e3o \u00e9 o pr\u00e9dio que t\u00e1 caindo, s\u00e3o as nuvens que t\u00e3o passando\u201d. Lembra esquema de c\u00e2meras, enquadramento, movimenta\u00e7\u00e3o de elementos. \u00c9 muito visual. Um efeito visual, uma ilus\u00e3o que eu acabei transpondo para a letra. Tamb\u00e9m tem uma m\u00fasica nova que se chama \u201cSal\u00e3o de Festas\u201d, um jornalista ouviu em um show e depois comentou \u201cessa \u00e9 uma m\u00fasica que voc\u00ea percebe ser de algu\u00e9m que lida com o cinema\u201d. Ela parece uma estrutura de roteiro. \u00c9 uma historinha contada em peda\u00e7os, cada verso pode parecer um plano, formando uma cena. Montando a cena geral, atrav\u00e9s de pequenas partes. Que \u00e9 a ess\u00eancia do cinema. No geral, acho que \u00e9 isso, porque eu trabalho com p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o de som, a ess\u00eancia do som. A natureza do som que eu trabalho no cinema n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. A n\u00e3o ser quando eu fa\u00e7o trilha, que acaba servindo como pesquisa de timbres, g\u00eaneros e ritmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O pessoal do Momboj\u00f3 disse uma vez que compunha suas m\u00fasicas pensando nos clipes delas. Voc\u00ea j\u00e1 chegou a compor \/ arranjar pensando em imagens? Tenho essa sensa\u00e7\u00e3o com \u201cPorta Retrato\u201d.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Eu tamb\u00e9m. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Cara, isso n\u00e3o \u00e9 consciente. At\u00e9 \u201cPorta Retrato\u201d quem colocou a letra foi mais o Estev\u00e3o. A letra partiu mais dele do que de mim. \u00c9 certo que uma coisa acaba influenciando a outra na hora da cria\u00e7\u00e3o. O que tu tem de refer\u00eancias, de bagagem acaba acrescentando, mas o que exatamente eu n\u00e3o sei precisar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: At\u00e9 porque n\u00e3o temos muitos videoclipes. Temos dois, sendo que um deles nem passou pelas nossas id\u00e9ias. E a banda n\u00e3o tem a cultura do videoclipe, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que a gente fique pensando muito, talvez at\u00e9 devesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5376 aligncenter\" title=\"apanhador_so2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so2-300x250.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De qualquer forma, algumas can\u00e7\u00f5es do disco s\u00e3o muito imag\u00e9ticas. \u201cPorta Retrato\u201d as tr\u00eas vezes que eu ouvi surgiram imagens. E todas diferentes&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: \u00c9 o lance da narrativa. Quando eu comecei a estudar cinema eu n\u00e3o entendia nada da linguagem. Eu via a galera debatendo e ficava meio depr\u00ea: \u201ccomo eu n\u00e3o consigo compreender\u201d. Mas agora \u00e9 meio natural. A no\u00e7\u00e3o de estrutura cinematogr\u00e1fica deve mexer com a no\u00e7\u00e3o da estrutura narrativa dentro da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Eu tamb\u00e9m tenho essa rela\u00e7\u00e3o com ela. \u00c9 muito imag\u00e9tica. Em \u201cNescaf\u00e9\u201d eu vejo a cor da coberta amassada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em \u201cNescaf\u00e9\u201d ela tamb\u00e9m \u00e9 assinada pelo Ian Ramil? Quem \u00e9 ele? Parente de algum Ramil famoso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: \u00c9 filho do Vitor (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas gostam de Vitor Ramil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: F\u00e3za\u00e7o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Kleiton &amp; Kledir?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Eu acho um saco! (risos) Parou n\u00e9, velho! Os caras fizeram uma m\u00fasica l\u00e1, \u201cDeu Pra Ti\u201d, e resolveram se atirar nas cordas e ficar vivendo do que j\u00e1 tinham. J\u00e1 o Vitor estourou com \u201cEstrela, Estrela\u201d e n\u00e3o parou. Hoje t\u00e1 com uma obra linda e lan\u00e7a um disco melhor que o outro. Quarenta e tantos anos e n\u00e3o p\u00e1ra. E eu acho que \u00e9 assim que tem que ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em alguns momentos o disco me lembrou L\u00f4 Borges. Mas mais pelas escolhas de timbres.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Pois \u00e9, e n\u00e3o \u00e9 uma influ\u00eancia para mim. N\u00e3o \u00e9 algo que eu perceba. Mas \u00e9 muito doido. Agora que saiu o disco, conversando com as pessoas, aparece muita coisa que n\u00e3o \u00e9, mas poderia ser e acaba n\u00e3o sendo, mas sei l\u00e1 se \u00e9. Vai ver \u00e9 e eu n\u00e3o sei. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Justamente porque a gente tem essa liberdade de misturar, fazer o que der na telha e n\u00e3o ficar assim: \u201cP\u00f4, vamos fazer uma banda com duas guitarras e um arranjo meio L\u00f4 Borges\u201d. N\u00e3o, n\u00f3s s\u00f3 nos juntamos na sala, come\u00e7amos a tocar, a arranjar e de repente surgiu. Trabalhamos muito com a espontaneidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 espont\u00e2neo, mas n\u00e3o \u00e9 aquela coisa f\u00e1cil, que bate e pega, certo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Isso. E esse \u00e9 o grande barato do disco. Para algumas pessoas n\u00e3o, mas para quem est\u00e1 habituado com o estilo, para quem gostava de Bazar, para quem gostava de Gentileza, talvez seja mais f\u00e1cil. Mas \u00e9 o grande m\u00e9rito dele. Meu pai estava comentando esses dias, que ele j\u00e1 ouviu tantas vezes que chegou ao ponto de largar a \u201ccorujice\u201d e poder criticar (risos). E agora come\u00e7ou a escutar detalhes que ele n\u00e3o sabia que existiam. \u201cAgora eu t\u00f4 escutando aquela sinetinha, aquele papelzinho amassado\u201d. Aqueles detalhes que eu acho um barato, porque o disco vai te abra\u00e7ando com eles. Se for muito f\u00e1cil na primeira audi\u00e7\u00e3o acaba se tornando raso ao longo do tempo. \u00c9 muito uma proposta de longevidade do disco, de n\u00e3o fazer algo para ficar apenas aqui. Eu penso que tem que ficar o m\u00e1ximo poss\u00edvel na vida das pessoas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que fazemos m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Soube de uma ga\u00facha que mora no exterior e soltou a seguinte frase &#8220;esse \u00e9 o disco que eu ou\u00e7o pra matar a saudade de casa&#8221;. E a\u00ed, tem cara de Rio Grande do Sul mesmo ou \u00e9 balela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Tem cara de Porto Alegre. Do Bonfim, dessas ruas. Da tarde de Porto Alegre&#8230; Tem esse clima, de uma cidade que n\u00e3o \u00e9 uma grande metr\u00f3pole, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma cidade pequena. Tem um pouco da molecagem dos campos de futebol da Zona Norte. Tem a Osvaldo Aranha ali atr\u00e1s, cheia de carros e \u00f4nibus, mas aqui n\u00f3s estamos em uma ruazinha parecida com a rua do meu pai. \u00c1rvores. Tem muito disso nas composi\u00e7\u00f5es, muita coisa do ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Tem muita coisa da rua. De sair a tarde e acabar na casa de um amigo a noite. Esse ambiente de estar solto na cidade, sabe-se l\u00e1 para onde voc\u00ea vai. Eu n\u00e3o compus, mas sinto muito isso. E Porto Alegre n\u00e3o \u00e9 uma cidade para turista. Se tu chegar aqui e for seguir placas tu vai parar em um lugar totalmente contr\u00e1rio do lugar que tu pretende chegar. Tu vai seguindo a placa, ela vai te indicando o caminho e de repente n\u00e3o tem mais placa nenhuma e tu t\u00e1 indo na dire\u00e7\u00e3o errada. Mas \u00e9 uma cidade provinciana, de certa forma. No Bonfim tu sempre acaba encontrando algum conhecido. Se tu sair na rua tu acaba conhecendo as pessoas. E as pessoas conversam contigo, criando um pouco esse clima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 falamos sobre cinema, sobre a cidade, mas e literatura? \u00c9rico Veriss\u00edmo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: \u00c9 uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e3o de inf\u00e2ncia, de adolesc\u00eancia, que eu n\u00e3o consigo afirmar se est\u00e1 l\u00e1. Deve estar. Assim como Gabriel Garcia Marquez. Mas o que tem, de fato, \u00e9 o Diego Grando. \u00c9 um poeta daqui que comp\u00f4s tr\u00eas m\u00fasicas do disco. Inclusive uma delas partiu do livro dele, que eu peguei um poema, musiquei o final dele e acrescentei algumas id\u00e9ias, ent\u00e3o a m\u00fasica \u00e9 praticamente o poema dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a hist\u00f3ria de que \u201cPeixeiro\u201d surgiu daqueles concursos \u201cPoema no \u00d4nibus\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Tu j\u00e1 entrou no \u00f4nibus aqui?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Sim&#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Ent\u00e3o, tem uns quatro adesivos com poemas. Era o in\u00edcio desse concurso e eu e o Marcelo Noah, um grande amigo meu, fic\u00e1vamos inventando frases e tivemos essa id\u00e9ia de fazer versos e inscreve-los. Pegar o CPF dos nossos amigos e fazer a inscri\u00e7\u00e3o no nome deles s\u00f3 pela divers\u00e3o de imaginar eles pegando o \u00f4nibus algum dia e ver : \u201cP\u00f4, hey, Marcelo Souto, como assim?\u201d. E n\u00f3s fizemos \u201cO nosso amor \u00e9 uma garrafa de vinho, virando vinagre devagarinho\u201d para colocar no nome do Marcelo Souto, que \u00e9 um dos compositores de \u201cNescaf\u00e9\u201d e tocou baixo no Apanhador l\u00e1 no in\u00edcio, um amigo nosso. E um cara com quem a gente gosta de avacalhar! (risos). S\u00f3 que o poema n\u00e3o passou e um dia quando eu estava compondo ele veio como refr\u00e3o ideal. Eu n\u00e3o lembro exatamente se a m\u00fasica come\u00e7ou e depois ele se encaixou ou se ela partiu dele. Mas foi isso, uma avacalha\u00e7\u00e3o acabou virando uma m\u00fasica (risos). E essa \u00e9 uma das frases que o pessoal mais comenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">\u201cE se n\u00e3o der?\u201d \u00e9 o que mais me pareceu \u201cfora de lugar\u201d. Tem uns riffs meio Cake e at\u00e9 a voz me pareceu diferente. E tem o charme de fechar o primeiro \u00e1lbum da banda perguntando: \u201cE se n\u00e3o der?\u201d.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Ela foi cogitada como nome do disco, porque fic\u00e1vamos pensando: \u201cE se n\u00e3o der?\u201d, \u201cE se o disco n\u00e3o vingar?\u201d, mas acabamos desistindo porque poderia ficar uma coisa meio \u201cj\u00e1 entramos em campo perdendo\u201d. Ou muito pretensioso (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: Mas a piada acabou ficando para o final, l\u00e1 no final, depois de tudo, tem uma voz falando: \u201cComo assim?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: E no final chutamos o balde (risos). Parece que fazemos as pazes com o rock. Uma guitarrada, aquela coisa meio cl\u00e1ssica. Clich\u00ea pra caralho! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, pr\u00f3ximos passos? Amadurecer, perder a inoc\u00eancia, cair nas drogas\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski:\u00a0 Concretamente j\u00e1 estamos pensando no clipe, filmamos o show de lan\u00e7amento aqui e foi \u00f3timo, lotaram as duas sess\u00f5es. Filmamos com uma boa estrutura, sete c\u00e2meras. Captamos o som separado e pretendemos fazer uma p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o bacana e lan\u00e7ar um DVD, embora isso deva demorar (risos). Continuar fazendo shows, divulgar, porque sentimos que estamos em um momento bom. As pessoas est\u00e3o gostando do disco, ele est\u00e1 se espalhando sozinho, o n\u00famero de downloads n\u00e3o ca\u00ed. Temos que aproveitar e continuar fazendo shows, porque muita gente vai ao nosso show e diz que ele \u00e9 melhor que o disco (risos). E j\u00e1 estamos com umas seis m\u00fasicas para o segundo disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: J\u00e1 pensando em quando o ritmo come\u00e7ar a diminuir, para j\u00e1 estarmos trabalhando no pr\u00f3ximo disco. N\u00e3o demorar tanto para lan\u00e7ar e j\u00e1 ir adiantando o servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kumpinski: T\u00e1 sendo positivo. Estamos no melhor momento da carreira, com oportunidades muito boas. Como j\u00e1 tivemos em 2006, quando ganhamos o Festival de bandas Trama Universit\u00e1rio e abrimos para a Maria Rita, no Rio, para 5 mil pessoas. Foi tipo um \u201cboom\u201d, isolado. T\u00e1, mas agora passou e o que vamos fazer? Continuamos sendo uma bandinha de nada. Agora estamos fazendo v\u00e1rias coisas bacanas, aparece algo aqui, depois outra coisa, mas tudo meio encaixado. Temos que trabalhar para manter esse ritmo, com os p\u00e9s no ch\u00e3o. Trabalhar como sempre trabalhamos esperando que as pessoas gostem. Quando voc\u00ea v\u00ea que as pessoas est\u00e3o gostando seu trabalho faz sentido, quer dizer que pode dar certo e que tu pode continuar fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-5470\" title=\"apanhadorsocapa\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhadorsocapa.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhadorsocapa.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhadorsocapa-300x264.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Apanhador S\u00f3&#8221;, Apanhador S\u00f3 (Independente)<br \/>\npor <a href=\"http:\/\/coisapop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Adriano Mello Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apanhador S\u00f3. Preste bem aten\u00e7\u00e3o nesse nome em 2010. O grupo ga\u00facho desembarca no seu primeiro disco nesse ano e chega com um trabalho repleto de qualidades. Carregando o mesmo nome da banda, o \u00e1lbum foi forjado de maneira independente depois de dois Ep&#8217;s lan\u00e7ados em 2006 e 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o 13 faixas que unem mpb e rock, Clube da Esquina e Tortoise, Tom Z\u00e9 e Radiohead, Los Hermanos e The Sea And Cake. As letras s\u00e3o bem constru\u00eddas e ora contam hist\u00f3rias de uma maneira meio antiga, ora sacam da carteira tiros r\u00e1pidos de ironia. Nenhuma can\u00e7\u00e3o passa sem provocar alguma rea\u00e7\u00e3o positiva no ouvinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abertura j\u00e1 traz uma das grandes m\u00fasicas do ano at\u00e9 agora. \u201cUm Rei e o Z\u00e9\u201d, parceria de Alexandre Kumpinski com Ian Ramil (filho de Vitor Ramil) \u00e9 deliciosa, alternando melodia e um peso moderado. Fecha com versos bem escritos: \u201cn\u00e3o leva a mal\/eu s\u00f3 queria poder ter outra filosofia\/mas n\u00e3o nasci para conversar com rei\u201d. S\u00e3o muitos os destaques. \u201cMaria Augusta\u201d, por exemplo, mistura Mutantes, psicodelia, forr\u00f3, barulhos diversos e guitarras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPeixeiro\u201d traz desesperan\u00e7a quando canta \u201co nosso amor, uma garrafa de vinho\/virando vinagre devagarinho\u201d. \u201cBem-Me-Leve\u201d une Fernando Venturini e Los Hermanos. \u201cNescaf\u00e9\u201d vem com guitarras, desamor, cambalachos e milongas. \u201cJesus, O Padeiro e O Coveiro\u201d \u00e9 cheia de efeitos e faz o Violeta de Outono namorar o Pavement. \u201cVila do \u00bd Dia\u201d muda tudo de novo. Insanamente alegre, pop, ensolarada. Can\u00e7\u00e3o para manh\u00e3s de domingo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apanhador S\u00f3 estr\u00e9ia mostrando um interessante mosaico de influ\u00eancias que v\u00e3o conversando devagarinho, sem pressa, puxando uma cadeira, abrindo a primeira cerveja e quando menos se percebe est\u00e3o completamente envolvidas, abra\u00e7adas e convivendo em harmonia. Tipo de banda que a primeira audi\u00e7\u00e3o do disco serve somente para conquistar, deixando o verdadeiro prazer para futuras audi\u00e7\u00f5es. Grat\u00edssima surpresa do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5377 aligncenter\" title=\"apanhador_so3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/apanhador_so3-300x250.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"http:\/\/www.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.apanhadorso.com\/<\/a><\/strong><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Murilo Basso\nLan\u00e7ando m\u00e3o de percuss\u00f5es inusitadas e letras sofisticadas o quarteto ga\u00facho chegou a um dos grandes discos do ano&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/07\/entrevista-apanhador-so\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":121,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1145],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/121"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5374"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73652,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374\/revisions\/73652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}