{"id":53683,"date":"2019-11-14T22:20:55","date_gmt":"2019-11-15T01:20:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53683"},"modified":"2020-01-02T01:52:42","modified_gmt":"2020-01-02T04:52:42","slug":"entrevista-em-sua-estreia-black-bell-tone-canta-sobre-o-amor-em-tempos-de-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/14\/entrevista-em-sua-estreia-black-bell-tone-canta-sobre-o-amor-em-tempos-de-odio\/","title":{"rendered":"Entrevista: Black Bell Tone"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/breadandkat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Lage<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Black Bell Tone decidiu cantar sobre o amor em tempos de \u00f3dio. N\u00e3o s\u00f3 isso, a banda ga\u00facha mostrou em seu disco de estreia que os sentimentos discrepantes s\u00e3o artif\u00edcios poderosos para a express\u00e3o da revolta em \u00e9pocas polarizadas pela incerteza pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada em 2017 em Porto Alegre, a banda se afasta do DNA normalmente esperado do rock ga\u00facho, acrescentando uma no\u00e7\u00e3o musical diversificada que n\u00e3o se agarra apenas aos pampas do Rio Grande do Sul. O \u00e1lbum de estreia, \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=99InsrS2qeM&amp;list=PLaukR-57z9mCetWM6bbxiPelFvBGTob2R\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Engenho Que Fabrica Opini\u00e3o<\/a>\u201d, lan\u00e7ado em setembro, traz po \u00a0r\u00e7\u00f5es bem distribu\u00eddas de rock cl\u00e1ssico, folk e pop rock. O disco, em ess\u00eancia, \u00e9 um manifesto estruturado que une revolta a flower power com uma abordagem autenticamente brasileira sobre realidade, a nossa realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conversa com o Scream &amp; Yell, o guitarrista e compositor Nando Pontin falou sobre o rock ga\u00facho, a forma\u00e7\u00e3o da banda e a composi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum que, al\u00e9m de um bom disco de rock, serve como um vistoso dedo do meio para o presidente Bolsonaro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black Bell Tone - Amor, Ordem e Progresso [Clipe Oficial]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ju0in_zhzeo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Podem falar um pouco sobre a hist\u00f3ria da banda? Como foi a forma\u00e7\u00e3o? Como chegaram ao nome Black Bell Tone?<\/strong><br \/>\nA Black Bell Tone se formou em mar\u00e7o de 2017 a partir do final de tr\u00eas outras bandas aqui da cena independente do RS. O Taba Kuntz veio da Sand\u00e1lias, eu (Nando Pontin) e o Lucas Pontin viemos da Dissom\u00e9trica e o Fernando Paulista era da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/07\/29\/scream-yell-recomenda-wannabe-jalva\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Wannabe Jalva<\/a>. Cada uma dessas bandas j\u00e1 tinha uma longa estrada com EPs, discos e clipes lan\u00e7ados, shows pelo Brasil e no exterior e isso ajudou muito a gente ter objetivos bem definidos desde o primeiro dia de ensaio. A banda j\u00e1 nasceu focada em compor e gravar um \u00e1lbum completo, mas sab\u00edamos que o processo levaria um tempo, por isso decidimos lan\u00e7ar alguns clipes e singles ao longo dos primeiros dois anos pra j\u00e1 ir apresentando o trabalho pra diferentes p\u00fablicos e tamb\u00e9m pra afinar o nosso processo como um todo. O nome Black Bell Tone na verdade tem uma hist\u00f3ria bastante curiosa contada em v\u00eddeo no nosso canal do Youtube. Algumas semanas depois de formar a banda, ainda sem nome, n\u00f3s organizamos um \u201ccampeonato\u201d de nomes de banda. Cada um de n\u00f3s trouxe pelo menos dez sugest\u00f5es e ent\u00e3o votamos nos tr\u00eas melhores nomes de cada um. Sa\u00edmos de um universo de mais de 50 sugest\u00f5es para um total de oito e depois fizemos um chaveamento tipo quartas de final, semi-final e final. Black Bell Tone foi uma sugest\u00e3o do Taba e que na \u00e9poca foi escolhido muito mais pela sonoridade, por\u00e9m ao longo do tempo o \u201csom do sino negro\u201d foi completamente incorporado nos conceitos da banda e do disco como se tivesse sido criado sob medida. \u00c9 dif\u00edcil dizer o quanto tamb\u00e9m essa escolha, resultado de um m\u00e9todo inusitado, nos influenciou a trilhar o caminho que percorremos a partir da\u00ed. Como se nome desse sentido a banda e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Com o tempo e o desenvolvimento das nossas tem\u00e1ticas assumimos que &#8220;Black Bell Tone&#8221; \u00e9 o som do \u00faltimo badalar de um sino negro antes do fim do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Podem explicar um pouco sobre o nome e o conceito do disco? O que o t\u00edtulo reflete da m\u00fasica do \u00e1lbum?<\/em><br \/>\nO nome \u201cEngenho Que Fabrica Opini\u00e3o\u201d faz um paralelo entre os engenhos de cana onde os escravos fabricavam a\u00e7\u00facar e o imenso \u201cengenho\u201d onde hoje escravos virtuais, sejam eles rob\u00f4s ou humanos, \u201cfabricam\u201d opini\u00f5es. Essa frase est\u00e1 na letra do single de lan\u00e7amento \u201cAmor, Ordem e Progresso\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escravos digitais<\/em><br \/>\n<em>Chicotes virtuais<\/em><br \/>\n<em>Engenho que fabrica opini\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Vaidade dos senhores da raz\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Praticamente todas as m\u00fasicas do disco foram compostas ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da banda, ou seja, j\u00e1 dentro de um contexto. No entanto esse processo levou dois anos e meio, ou seja, a mensagem foi sendo refinada e tornou-se mais focada ao longo do tempo. Desde o primeiro dia a gente buscou encontrar pontos de converg\u00eancia para decidir pra onde iriam as nossas letras e a nossa mensagem. Acabamos percebendo um interesse geral sobre tecnologia, redes sociais, big data, manipula\u00e7\u00e3o de massas, pol\u00edtica tanto em n\u00edvel nacional como mundial e como hoje a gente vive na imin\u00eancia de um apocalipse. Considerando que alguns l\u00edderes mundiais (cada vez mais radicais) t\u00eam arsenais nucleares a sua disposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos parece ser uma quest\u00e3o de se, mas apenas de quando vai acontecer. Em um cen\u00e1rio alternativo, por\u00e9m n\u00e3o menos dram\u00e1tico, ter\u00edamos governos autorit\u00e1rios controlando informa\u00e7\u00f5es pessoais dos cidad\u00e3os e tendo em suas m\u00e3os o mais diverso aparato tecnol\u00f3gico para neutralizar quaisquer discursos de oposi\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 exagero pensar em rob\u00f4s virtuais guiados por GPS prontos para apagar pessoas sob qualquer pretexto conveniente. A disputa pelo poder sempre foi podre, entretanto, as consequ\u00eancias da tecnologia nesse cen\u00e1rio rec\u00e9m come\u00e7am a ser percebidas. O primeiro single \u201cWolfpacks Bay\u201d ainda \u00e9 fruto das experi\u00eancias iniciais no est\u00fadio, mas a partir de \u201cAll You Said Was Never True\u201d e \u201cSer\u00e1 Que Restou Algu\u00e9m?\u201d todas essas tem\u00e1ticas j\u00e1 ficam bem evidentes e isso acabou pautando todas as demais faixas do \u00e1lbum.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53685\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A capa \u00e9 absolutamente sensacional, como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstico?<\/strong><br \/>\nPode-se dizer que essa capa tamb\u00e9m \u00e9 fruto de quase dois anos de desenvolvimento, pois o Leo Lage, artista visual que assina a obra, j\u00e1 vem trabalhando com a gente desde o primeiro single. O Leo tem uma longa carreira com grandes artistas e bandas aqui do RS como a P\u00fablica, Ultramen, Dingo Bells, Anaadi, entre tantos outros (<a href=\"https:\/\/leolage.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/leolage.org\/<\/a>). O Leo \u00e9 um cara sensacional e ele n\u00e3o faz apenas uma arte pra ilustrar o teu single\/disco, ele faz quest\u00e3o de cair pra dentro de todo o teu conceito, entender, ouvir as m\u00fasicas, discutir e s\u00f3 ent\u00e3o propor algo. Nesses dois anos de composi\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas, o Leo esteve envolvido desde o in\u00edcio. Ent\u00e3o, quando chegou a hora de criar a capa do \u00e1lbum n\u00f3s escrevemos um briefing de mais de dez p\u00e1ginas (!) tentando \u201corganizar\u201d as ideias e conceitos, mas em momento nenhum dissemos o que quer\u00edamos estampado na capa. Passados alguns meses, o Leo apareceu com essa imagem espetacular das m\u00e3os na posi\u00e7\u00e3o \u201cda paz\u201d, por\u00e9m feridas por um prego medieval. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que a capa ressignificou muita coisa no \u00e1lbum. Assim como o nome da banda nos ajudou a estabelecer uma tem\u00e1tica, a capa do \u00e1lbum parece ter conseguido encaixar toda a narrativa, o contexto e a coer\u00eancia que n\u00f3s est\u00e1vamos buscando. A impress\u00e3o que n\u00f3s tivemos \u00e9 que ela amarrou todas as pontas soltas e criou uma mensagem extremamente coesa e poderosa. As m\u00e3os em oposi\u00e7\u00e3o, uma para esquerda e outra para direita, uma preta e outra branca, fazem uma alegoria \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o da sociedade, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em quase todo mundo. Essa sociedade sangra em busca de paz, acredita que est\u00e1 muito distante, embora esteja praticamente no mesmo lugar. Al\u00e9m de todo esse poder de s\u00edntese que o Leo foi capaz de fazer em apenas uma imagem, o processo t\u00e9cnico de cria\u00e7\u00e3o da capa tamb\u00e9m \u00e9 impressionante e come\u00e7ou com um \u201crascunho\u201d da imagem (layout). Depois de aprovado, o Leo, com assist\u00eancia da Anne Fernandes, fotografou as pr\u00f3prias m\u00e3os na posi\u00e7\u00e3o. Em seguida foram dezenas de processos e centenas de ajustes para que parecesse uma escultura em m\u00e1rmore desgastado (como em um apocalipse), por\u00e9m viva. Inclu\u00ed abaixo algumas imagens que eles foram postando ao longo da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53686\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone3.jpg\" alt=\"\" width=\"759\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone3.jpg 759w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/blackbelltone3-300x296.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 759px) 100vw, 759px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em momentos como o de hoje, cantar sobre amor e revolta \u00e9 uma das coisas mais rock n&#8217; roll que podem ser feitas. Voc\u00eas concordam? Essa concep\u00e7\u00e3o ajudou voc\u00eas na composi\u00e7\u00e3o do disco ou foi tudo mais org\u00e2nico?<\/strong><br \/>\nCom certeza! O nosso clipe e single de lan\u00e7amento \u201cAmor, Ordem e Progresso\u201d fala exatamente sobre isso em uma refer\u00eancia direta ao nosso cen\u00e1rio brasileiro. A inscri\u00e7\u00e3o na bandeira \u201cOrdem e Progresso\u201d foi escolhida tendo refer\u00eancia o lema do positivismo de Auguste Comte, que originalmente diz: \u201cO Amor por princ\u00edpio e a Ordem por base; o Progresso por fim\u201d. Como \u00e9 poss\u00edvel uma sociedade ter ordem e progresso sem o princ\u00edpio mais fundamental de todos que \u00e9 o amor? Nesse momento, nos pareceu um gancho perfeito para falar sobre a polariza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira e como parece imposs\u00edvel a gente sair dessa sem empatia, conversa, entendimento e amor. O \u00f3dio e a polariza\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o s\u00e3o um efeito aleat\u00f3rio ou um reflexo de sentimentos oprimidos que sempre estiveram ali. Muitos grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos se valem do \u201cengenho que fabrica opini\u00e3o\u201d para fomentar essa cis\u00e3o da sociedade em nome dos seus pr\u00f3prios interesses. Quanto antes as pessoas perceberem isso e voltarem a tratar os seus parentes e amigos como semelhantes que, no fundo, querem o mesmo bem comum, mais chances teremos de evitar essa escalada de governos autorit\u00e1rios ao redor do mundo. Precisamos reconhecer a nossa diversidade e saber lidar com isso. N\u00e3o podemos reduzir a quest\u00e3o a um grupo pol\u00edtico, a uma posi\u00e7\u00e3o \u00fanica e radical, na esperan\u00e7a de simplificar e resolver demandas de sociedades que, em contrapartida, est\u00e3o se tornando cada vez mais complexas. Retirar o prego medieval que nos fere \u00e9 dolorido, assim como \u00e9 encontrar espa\u00e7o e respeito entre todos que vivem nesta sociedade t\u00e3o heterog\u00eanea. A mensagem final do nosso disco em \u201cIt\u2019s All Right to Sense Again\u201d trata exatamente desse processo de cura pelo qual a sociedade vai precisar passar pra voltar a avan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fill your mind<\/em><br \/>\n<em>And turn on all your chances<\/em><br \/>\n<em>Set rewind<\/em><br \/>\n<em>And give another dance<\/em><br \/>\n<em>It\u2019s ok<\/em><br \/>\n<em>It\u2019s all right to sense again<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"It&#039;s All Right To Sense Again Live@Studio | Black Bell Tone\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xSI1k9GQDrw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas s\u00e3o do Rio Grande do Sul. O rock n&#8217; roll feito a\u00ed \u00e9 bem conhecido no resto do Brasil (Replicantes, Cachorro Grande, Bid\u00ea ou balde, etc&#8230;) como voc\u00eas avaliam a cena da\u00ed atualmente?<\/strong><br \/>\nO termo \u201cRock Ga\u00facho\u201d mais do que fazer refer\u00eancia ao rock feito no Rio Grande do Sul ao longo das d\u00e9cadas acabou se tornando praticamente um subg\u00eanero musical. Muitas bandas que surgiram nos anos 80 mostraram pro Brasil essa \u201ccara\u201d do rock feito aqui, principalmente o TNT, os Cascavelletes, Frank Jorge e etc. A Cachorro Grande, mais recentemente, acabou por refor\u00e7ar esse estere\u00f3tipo, embora eles tenham uma linguagem um pouco mais moderna. N\u00f3s somos \u201coutsiders\u201d nesse cen\u00e1rio. Praticamente nada do que a gente produziu como banda nos conecta com essa turma, embora algumas pessoas sintam similaridades principalmente por conta do sotaque ga\u00facho nas letras em portugu\u00eas. A produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica no RS hoje, na nossa modesta opini\u00e3o, \u00e9 a melhor de todos os tempos. O que tamb\u00e9m \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o da nossa gera\u00e7\u00e3o, tendo em vista a facilidade que temos hoje pra produzir m\u00fasica e a dificuldade quer era fazer isso h\u00e1 30, 40 anos atr\u00e1s. A cada semana tem novos lan\u00e7amentos de discos, clipes, singles das mais diferentes vertentes e dialogando com refer\u00eancias que v\u00e3o muito al\u00e9m do dito \u201crock ga\u00facho\u201d. Pra citar apenas alguns exemplos: a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/28\/entrevista-dingo-bells-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dingo Bells \u00e9 de longe uma das melhores bandas em atividade no Brasil hoje<\/a>. Com dois discos impec\u00e1veis, produzidos pelo Marcelo Fruet, recheado refer\u00eancias que v\u00e3o do Clube da Esquina a Steely Dan e performances ao vivo que s\u00e3o extremamente fi\u00e9is aos discos. Em outro segmento, a Rebel Machine faz hard rock 100% em ingl\u00eas, tamb\u00e9m lan\u00e7ou dois discos que n\u00e3o devem nada \u201cpros gringos\u201d, abriram os shows do Slash e do Zakk Wylde aqui em Porto Alegre. Esses s\u00e3o apenas alguns dos caras que est\u00e3o criando essa \u201cnova cena\u201d vinda do sul do Brasil e da qual temos muito orgulho em fazer parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ser da\u00ed ajudou voc\u00eas a desenvolverem uma sonoridade mais \u00fanica? Influenciou o som de voc\u00eas estarem em contato constante com a cultura\/m\u00fasica da\u00ed?<\/strong><br \/>\nQuando a gente come\u00e7ou a tocar, por volta do ano 2000, j\u00e1 se arranhava alguma coisa de internet e t\u00ednhamos ainda um bom conjunto de r\u00e1dios alternativas em Porto Alegre que traziam sons de fora. Com certeza em algum grau, em algum ponto da nossa hist\u00f3ria, fomos influenciados pela m\u00fasica e pela cultura daqui, mas isso aparece pouco no trabalho da Black Bell Tone. Provavelmente contribuiu mais pra desenvolvermos uma sonoridade \u00fanica a pluralidade de estilos individuais do que o fato de todos sermos da mesma cidade\/estado. O Paulista por exemplo, veio de SP (por isso o apelido), mas j\u00e1 mora h\u00e1 quase 20 anos no RS. Ele \u00e9 o cara que ouve os sons com mais groove, balan\u00e7o, melodia, m\u00fasica brasileira e etc. Eu (Nando) me criei ouvindo Jimi Hendrix, Beatles, Pink Floyd, mas ao mesmo tempo sempre curti rock nacional: Planet Hemp, Skank, Rappa&#8230; O Lucas provavelmente \u00e9 o mais mainstream de n\u00f3s, tanto no Pop quanto no Rock, ele \u00e9 o cara que traz de Coldplay a Foo Fighters passando por Muse e Bruno Mars. O Taba j\u00e1 trouxe bastante da sonoridade da cena punk\/ska. Tudo isso &#8211; as nossas influ\u00eancias e a pr\u00f3pria viv\u00eancia e maturidade musical &#8211; foi se misturando e fazendo com que cada um contribu\u00edsse um pouco pra uma identidade pr\u00f3pria da Black Bell Tone. A gente fica muito feliz quando algu\u00e9m ouve o disco e acha dif\u00edcil encontrar uma outra banda pra dizer que \u00e9 similar. \u00c9 um sentimento de \u201cmiss\u00e3o cumprida\u201d e de que estamos em um bom caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da m\u00fasica, voc\u00eas t\u00eam outras atividades paralelas? Como \u00e9 conciliar essas atividades com o trabalho da banda?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s seguimos trabalhando nos nossos empregos \u201cnormais\u201d, al\u00e9m do trabalho com a banda. Esse \u00e9 um t\u00f3pico recorrente de discuss\u00e3o entre m\u00fasicos, artistas e bandas: \u201clargar tudo\u201d e se dedicar 100% do tempo a carreira, ir migrando de uma situa\u00e7\u00e3o para outra ou efetivamente ter duas vidas paralelas. Todas as situa\u00e7\u00f5es t\u00eam vantagens e desvantagens e isso foi longamente debatido desde os primeiros dias de Black Bell Tone. \u00c9 um dos grandes clich\u00eas do rock, mas \u201cbanda \u00e9 como casamento\u201d. Todo mundo precisa estar alinhado nas expectativas, objetivos, tempo, dedica\u00e7\u00e3o, investimento, etc. Para n\u00f3s, na atual circunst\u00e2ncia, essa configura\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o dependemos financeiramente da banda para o nosso sustento, nos d\u00e1 total autonomia para fazer exatamente o que quisermos em termos de arte, sem qualquer tipo de concess\u00e3o ou preocupa\u00e7\u00e3o em seguir uma tend\u00eancia que vem dando certo para outros artistas. Hoje existe claramente um \u201cmidstream\u201d formado por artistas independentes e festivais por todo o Brasil, reunindo p\u00fablico qualificado e aberto a novos sons e novas mensagens. Esse \u00e9 o nosso grande objetivo para 2020: fazer parte dessa cena e mostrar o nosso trabalho para essa galera. Se um dia der pra \u201cviver da banda\u201d, \u00f3timo, faremos isso, mas at\u00e9 l\u00e1 estamos priorizando nossa capacidade de investimento e harmonia como amigos e fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas s\u00e3o bem cr\u00edticos ao governo Bolsonaro. Como avaliam e enxergam esse momento em que a cena brasileira \u00e9 bastante tomada por apoiadores do atual presidente?<\/strong><br \/>\nA nossa cr\u00edtica e preocupa\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m do governo Bolsonaro. Os mecanismos que ajudaram a eleger Bolsonaro seguem vivos e intactos e ningu\u00e9m parece preocupado em combater esse mal pela raiz. Isso \u00e9 parte da mensagem do \u201cEngenho Que Fabrica Opini\u00e3o\u201d. N\u00e3o h\u00e1 qualquer garantia que, se Bolsonaro terminar ou n\u00e3o o mandato, na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o vamos ter exatamente as mesmas estrat\u00e9gias (fake news, financiamento empresarial disfar\u00e7ado, caixa 2, etc) para eleger algu\u00e9m igual ou pior. \u00c9 importante deixar claro que a Black Bell Tone \u00e9 e sempre ser\u00e1 contra todo tipo de preconceito, discrimina\u00e7\u00e3o e atentado \u00e0s liberdades individuais, sejam eles promovidos por governos de direita, centro ou esquerda. A nossa bandeira \u00e9 a da HUMANIDADE. Conciliar n\u00e3o significa tolerar absurdos. Pacificar n\u00e3o \u00e9 o mesmo que calar-se. Estamos nesse processo de \u00f3dio e polariza\u00e7\u00e3o h\u00e1 alguns anos, e seguir acusando os outros de serem idiotas, manipulados, est\u00fapidos, racistas, mis\u00f3ginos e etc. n\u00e3o parece estar surtindo efeito, certo? Pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 estamos empurrando pra mais longe pessoas que, com um pouco de conversa e informa\u00e7\u00e3o, poderiam estar ao nosso lado. Antes de querermos formar uma consci\u00eancia coletiva, precisamos nos entender mais como seres humanos, dentro da nossa pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de quem somos e o que estamos fazendo aqui. Ajudar o outro a expandir os limites da sua consci\u00eancia individual, por si, j\u00e1 vai ajudar o desenvolvimento coletivo. Cada vez que eu tomo conhecimento de situa\u00e7\u00f5es e problemas que antes eram estranhos a mim, eu ganho um pouco mais de subs\u00eddio coletivo. Eu posso n\u00e3o concordar, mas \u00e9 meu dever respeitar e legitimar o discurso do outro. Essa empatia de reconhecer outro ser humano, por mais diferente que ele possa parecer, nos parece a chave para a conviv\u00eancia. Em um dia, algu\u00e9m &#8220;abre a sua mente&#8221; e lhe mostra algo novo, em outro momento, \u00e9 voc\u00ea quem est\u00e1 fazendo isso para outra pessoa. Informa\u00e7\u00e3o, entendimento, empatia e cura. Pra n\u00f3s, essa parece ser a \u00fanica sa\u00edda desse buraco onde nos enfiamos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black Bell Tone - Ser\u00e1 Que Restou Algu\u00e9m? (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tpz-O0HAYNw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gravitacional | Black Bell Tone | Engenho Que Fabrica Opini\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLaukR-57z9mCetWM6bbxiPelFvBGTob2R\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Terra e P\u00e1 de A\u00e7o Ao Vivo @ Opini\u00e3o | Black Bell Tone\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLaukR-57z9mAbdFXNTxZTRF5oxZdQY2ao\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Guilherme Lage (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/breadandkat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.facebook.com\/breadandkat<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Vila Velha, ES.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A Black Bell Tone decidiu cantar sobre o amor em tempos de \u00f3dio. 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