{"id":53483,"date":"2019-10-24T11:33:05","date_gmt":"2019-10-24T14:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53483"},"modified":"2019-12-04T01:09:35","modified_gmt":"2019-12-04T04:09:35","slug":"walter-franco-1945-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/24\/walter-franco-1945-2019\/","title":{"rendered":"Walter Franco 1945\/2019"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de mais de 40 anos de carreira, Walter Franco lan\u00e7ou apenas seis \u00e1lbuns. Mesmo assim, sua obra \u00e9 uma das ricas da m\u00fasica brasileira, n\u00e3o cabendo nos r\u00f3tulos de &#8220;MPB&#8221;, &#8220;rock&#8221; ou &#8220;vanguarda&#8221; &#8211; embora ele certamente transitasse por tudo isso e por mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Franco comp\u00f4s dois dos riffs mais poderosos do rock brasileiro: &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=x6vTHeYvCJQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Feito Gente<\/a>&#8221; (1975) e &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ClqaR1RKdNI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Canalha<\/a>&#8221; (1980) &#8211; a primeira \u00e9 considerada por Luis Carlini como a &#8220;can\u00e7\u00e3o definitiva&#8221; do rock feito em territ\u00f3rio nacional, um &#8220;trof\u00e9u&#8221; que seu autor carregava com alegria e orgulho. Comp\u00f4s tamb\u00e9m ainda temas delicados e de apelo pop, como &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GmFGbMXwc4I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Serra do Luar<\/a>&#8221; (c\u00e9lebre na interpreta\u00e7\u00e3o de Leila Pinheiro) e &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=czC2RQ11dCE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cora\u00e7\u00e3o Tranquilo<\/a>&#8221; (que o Pato Fu versionou <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/08\/06\/cinema-houve-uma-vez-dois-veroes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">para um filme de Jorge Furtado<\/a>). Podia fazer um cativante tema infantil (&#8220;O Rel\u00f3gio&#8221;, presente no especial &#8220;A Arca de No\u00e9&#8221;, da Rede Globo) ou experimenta\u00e7\u00f5es inclassific\u00e1veis como &#8220;Cabe\u00e7a&#8221; e &#8220;Mixtura\u00e7\u00e3o&#8221;. E tudo soava coerente. Tudo soava como Walter Franco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci seu trabalho via revista Bizz, que em uma edi\u00e7\u00e3o ainda dos anos 80 <a href=\"http:\/\/www.collectorsroom.com.br\/2016\/03\/discoteca-basica-bizz-033-walter-franco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colocou o \u00e1lbum &#8220;Revolver&#8221; (1975) na se\u00e7\u00e3o Discoteca B\u00e1sica<\/a>. Tudo que eu li ali me atra\u00eda &#8211; as formas musicais n\u00e3o convencionais, que podiam ir do hard rock ao erudito, da imprevisibilidade &#8220;zappiana&#8221; \u00e0 delicadeza minimalista, a capa com aquele d\u00e2ndi barbudo de terno branco&#8230;. Mas s\u00f3 fui ouvir o disco anos depois, quando ele foi reeditado em CD em um dos muitos resgates empreendidos pelo produtor e m\u00fasico Charles Gavin. Anos depois, o amigo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/08\/27\/scream-yell-recomenda-the-september-guests\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Lalli<\/a> me apresentou &#8220;Lindo Blue&#8221;, can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OBQajooNkOI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Respire Fundo<\/a>&#8221; (1978) que me convidou a mergulhar em toda a obra restante do Walter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Franco ficou 19 anos sem lan\u00e7ar disco, at\u00e9 que em 2001 veio com o bom &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HkdXCHc6Zl4&amp;list=PL22003FE8C045B266\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tutano<\/a>&#8220;, que teve pouqu\u00edssima repercuss\u00e3o. A sina &#8211; sempre rejeitada por ele &#8211; de &#8220;maldito&#8221; parecia persegui-lo, mas n\u00e3o parou de se apresentar ao vivo. Em 2017, vi uma dessas apresenta\u00e7\u00f5es. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do guitarrista Raulito Duarte, parceiro de longa data, a banda era formada por m\u00fasicos jovens e capitaneada por seu filho, Diogo Franco, que tamb\u00e9m apresentava (\u00f3timas) composi\u00e7\u00f5es suas no show.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/walterfranco2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma experi\u00eancia \u00fanica. Walter se dispersava em longas falas com o p\u00fablico (podia passar mais de dez minutos conversando sobre uma can\u00e7\u00e3o e outra), dirigindo-se a todos como se fosse um velho conhecido. Em alguns momentos, parecia disperso, desconectado. Mas quando uma can\u00e7\u00e3o come\u00e7ava, transformava-se. A voz continuava intacta, tanto em seus registros mais suaves como nos mais guturais, e a banda parecia entender sua imprevisibilidade e encontrar os caminhos musicais necess\u00e1rios para criar a paisagem sonora que se formava na cabe\u00e7a de Walter. Algumas das can\u00e7\u00f5es apresentadas estar\u00e3o em &#8220;LiSTEN &#8211; resiLI\u00eancia e resiSTENcia&#8221;, gravado com essa banda e ainda n\u00e3o lan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em paralelo, trabalhei como redator e pesquisador na terceira temporada do programa Esta\u00e7\u00e3o Roquenrou, do Canal Brasil. Dois dos artistas convidados &#8211; Jards Macal\u00e9 e Marcelo Callado &#8211; optaram por tocar composi\u00e7\u00f5es de Franco nos seus epis\u00f3dios. Era muita sincronicidade para passar desapercebida, e decidi come\u00e7ar um projeto que acalentava h\u00e1 anos: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/03\/download-um-grito-que-se-espalha-tributo-a-walter-franco-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">produzir um disco em homenagem \u00e0 Walter Franco<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o processo de feitura, lidei com Walter pessoalmente algumas vezes, e nem todas foram agrad\u00e1veis. Sua disposi\u00e7\u00e3o e seus humores mudavam muito, e costumo dizer que conheci uns cinco &#8220;Walters&#8221; diferentes &#8211; em alguns casos, a diferen\u00e7a de atitude era t\u00e3o grande que nem pareciam diferentes facetas da mesma pessoa, mas outra pessoa mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Franco chegou a cogitar vetar a vers\u00e3o do La Carne para &#8220;Feito Gente&#8221;. Disse ter ficado surpreso com a semelhan\u00e7a entre seu registro vocal e o do vocalista Marcus Linari (chegou a pensar que era sua voz sampleada), mas que soava como &#8220;um Walter Franco psic\u00f3tico&#8221;. E se queixou de que algumas outras vers\u00f5es n\u00e3o estavam iguais \u00e0s suas &#8211; algo que, honestamente, n\u00e3o faria qualquer sentido. Por\u00e9m, no mesmo dia, elogiou efusivamente as vers\u00f5es feitas por Consuelo e Seamus, com destaque para o desempenho dos cantores de ambas as bandas &#8211; respectivamente, Claudia Dalbert e o mesmo Fernando Lalli, que me apresentara &#8220;Lindo Blue&#8221; anos antes. Depois de algum tempo, ficou em sil\u00eancio, virou-se para mim e disse: &#8220;fa\u00e7a do jeito que voc\u00ea acha que tem que fazer&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ao fim, &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/03\/download-um-grito-que-se-espalha-tributo-a-walter-franco-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Um Grito que se Espalha<\/a>&#8221; saiu da maneira que tinha que sair: com os m\u00fasicos colocando todo seu empenho &#8211; e em muitos casos, um sentimento profundo e sincero &#8211; nas releituras. E n\u00e3o posso deixar de destacar o trabalho de Ot\u00e1vio Bertolo, que n\u00e3o apenas masterizou o disco mas me ajudou a definir a ordem das faixas, o conceito e a ressaltar certos aspectos sonoros do disco. Sem esse encontro com o Walter e sem a paci\u00eancia e a sensibilidade de Ot\u00e1vio, o disco n\u00e3o teria sido aquilo que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o projeto mais dif\u00edcil entre todos os discos que fiz, e confesso que cheguei a cogitar desistir de conclui-lo. Felizmente, n\u00e3o o fiz. Acredito que o resultado final honra uma das obras mais complexas da m\u00fasica brasileira, e espero que honre tamb\u00e9m o homem que se foi nesta madrugada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o a todos os artistas que entregarem seu melhor aqui: Consuelo, LaCarne (na \u00faltima grava\u00e7\u00e3o da banda, antes de se separarem), Buenos Muchachos (oficial), Dado Voa, Andr\u00e9 Prando, Marcelo Callado, Joe Silhueta, BIKE, TAMY, Juliano Gauche, P\u00e3o de Hamburguer, Seamus, Os Gianoukas Papoulas, Dadal\u00fa e Sergio Gonzalez Checho. Obrigado por terem me ajudado nessa homenagem ao Walter e a lan\u00e7ar esse \u00e1lbum<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E obrigado, Walter Franco. Pude dizer isso pessoalmente para voc\u00ea, e tamb\u00e9m com um disco. Obrigado mesmo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Um-Grito-Que-Se-Espalha.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Durante o processo de feitura do tributo &#8216;Um Grito Que Se Espalha&#8217;, lidei com Walter Franco pessoalmente algumas vezes, e nem todas foram agrad\u00e1veis. 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