{"id":53432,"date":"2019-10-21T00:57:13","date_gmt":"2019-10-21T03:57:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=53432"},"modified":"2020-01-02T01:52:33","modified_gmt":"2020-01-02T04:52:33","slug":"entrevista-antonio-adolfo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/21\/entrevista-antonio-adolfo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Antonio Adolfo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vencedor de festivais. Autor de can\u00e7\u00f5es gravadas por nomes como Stevie Wonder, Elis Regina, Ivete Sangalo e S\u00e9rgio Mendes. Compositor do primeiro tema de amor especialmente feito para uma novela no Brasil. Arranjador e pianista por tr\u00e1s de discos como \u201cAngela Ro Ro\u201d, \u201cSinal Fechado\u201d, \u201cJoia\u201d e \u201cElis: Como e Porqu\u00ea?\u201d. Um dos poucos brasileiros a dividir uma sess\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o com Mick Jagger. E pioneiro do disco autoproduzido neste Pindorama \u2013 h\u00e1 quem diga que, antes dele, s\u00f3 mesmo Tim Maia para se jogar na aventura de lan\u00e7ar um disco sem a ajuda de uma gravadora neste Pa\u00eds em plena d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 72 anos e com mais de cinco d\u00e9cadas de carreira, <a href=\"http:\/\/www.antonioadolfomusic.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antonio Adolfo<\/a> \u00e9 talvez um nome que passe desavisado at\u00e9 mesmo para muita gente que \u00e9 f\u00e3 de m\u00fasica. N\u00e3o deveria: respons\u00e1vel por sucessos de primeiro quilate como \u201cS\u00e1 Marina\u201d, \u201cBR-3\u201d e \u201cTeletema\u201d, ele tem uma longa hist\u00f3ria para contar. E p\u00f5e longa nisso: \u201cAs minhas primeiras experi\u00eancias com m\u00fasica j\u00e1 foram dentro do \u00fatero da minha m\u00e3e\u201d, brinca o m\u00fasico, que hoje vive na Ponte A\u00e9rea Rio-EUA e segue gravando. Desde 2010, solta um disco por ano, em projetos que passeiam entre o jazz, a m\u00fasica erudita e o melhor da can\u00e7\u00e3o brasileira, homenageando Wayne Shorter (\u201cHybrido\u201d, de 2017), ao lado de big bands (\u201cEncontros\u201d, com a Orquestra Atl\u00e2ntica, do ano passado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta entrevista, concedida por Adolfo ao Scream &amp; Yell em maio de 2019, \u00e9 uma forma de n\u00e3o deixar seu legado de lado: nela, ele conta como come\u00e7ou sua carreira no Beco das Garrafas, ainda menor de idade, acompanhando Vinicius de Moraes e Carlos Lyra com o Trio 3D. De l\u00e1, fez parte da banda de apoio de Elis e Wilson Simonal \u2013 que fez sua parceria com o letrista Tib\u00e9rio Gaspar decolar ao gravar \u201cS\u00e1 Marina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o sucesso, sentiu confian\u00e7a para formar uma das mais interessantes bandas de proto-rock brasileiras, A Brazuca, que contava em suas fileiras com virtuoses como Paulinho Braga (bateria), Luiz\u00e3o Maia (baixo) e Luiz Cl\u00e1udio Ramos (guitarra), al\u00e9m do pr\u00f3prio bandleader. Seus dois discos, gravados em 1969 e 1970, s\u00e3o disputados a tapa por colecionadores de vinil \u2013 o mesmo vale para \u201cFeito em Casa\u201d e \u201cViralata\u201d, \u00e1lbuns que gravou por conta pr\u00f3pria no final dos anos 1970, com direito a capa feita com carimbo e distribui\u00e7\u00e3o \u201cmanual\u201d. \u201cN\u00e3o gosto muito da palavra independente, acho que ela ficou deturpada. \u00c9 mais legal falar em autoprodu\u00e7\u00e3o, do sentimento de n\u00e3o querer engolir que a minha m\u00fasica n\u00e3o poderia ser gravada\u201d, diz. \u201c\u00c9 engra\u00e7ado: hoje 95% dos discos s\u00e3o autoproduzidos, n\u00e9?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo a seguir, Adolfo tamb\u00e9m fala sobre seus m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o \u2013 afinal, havia segredo para compor m\u00fasica que ganhava festival, como ele fez com \u201cBR-3\u201d? Ele discorre ainda sobre seu legado com a escola de m\u00fasica <a href=\"http:\/\/antonioadolfo.mus.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Centro Musical Antonio Adolfo<\/a> e conta a curiosa grava\u00e7\u00e3o que fez com Mick Jagger em 1976 \u2013 dirigida por Roberto Menescal, a sess\u00e3o teve a participa\u00e7\u00e3o, entre outros, do baixista Dadi e o percussionista Mestre Mar\u00e7al. \u201cEle (Mick) era um cara super doce\u201d, conta. Uma pena que o resultado dessa sess\u00e3o, a m\u00fasica \u201cScarlet\u201d, nunca tenha visto a luz do dia. Com a palavra, Antonio Adolfo (e aqui, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/121VtIjnvlPuwO9lC1OkkA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma playlist<\/a>).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antonio Adolfo | Programa Instrumental Sesc Brasil\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7YXyYeSk-Gc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antonio, como come\u00e7ou a sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nAs minhas primeiras experi\u00eancias com m\u00fasica j\u00e1 foram dentro do \u00fatero da minha m\u00e3e. Ela era violinista da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Quando ela estava me esperando, continuava indo aos ensaios. Os colegas at\u00e9 brincavam com ela que o filho ia ser m\u00fasico. Nasci e, claro, fui estudar m\u00fasica: comecei com o violino, ainda com sete anos. Minha irm\u00e3 era pianista cl\u00e1ssica. Havia um ambiente total de m\u00fasica em casa. A gente tamb\u00e9m ia muito para a fazenda e l\u00e1 ouvia muita m\u00fasica caipira. E como eu morava na Tijuca, o Salgueiro passava embaixo da rua de casa. Tudo isso foi me influenciando e me fazendo interessar por um ou outro estilo. N\u00e3o demorou muito, comecei a tocar piano de ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea decide fazer da m\u00fasica a tua carreira?<\/strong><br \/>\nFoi um passo natural. Quando eu estava no segundo grau (equivalente ao Ensino M\u00e9dio hoje em dia), comecei a ter conjuntos na escola, grupos musicais. J\u00e1 era a \u00e9poca da Bossa Nova, na Zona Sul tinha v\u00e1rios festivais e eu comecei a tocar com os colegas. A paix\u00e3o foi muito grande, muito maior do que qualquer outra coisa. Comecei a tocar profissionalmente com 17 anos. At\u00e9 cheguei a fazer vestibular para Direito, cursei at\u00e9 o segundo ano na Faculdade C\u00e2ndido Mendes, mas depois ficou dif\u00edcil conciliar. Eu estreei em 1963, com o Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, no show \u201cPobre Menina Rica\u201d, \u00e0s 21 horas. \u00c0s 23 horas, eu ia tocar no Beco das Garrafas, em Copacabana, com a Leny Andrade e o Trio 3D, que era o meu trio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dava para tocar mesmo sendo menor de idade?<\/strong><br \/>\nTinha v\u00e1rias amea\u00e7as do Juizado de Menores! Eles falavam que n\u00e3o podia tocar, especialmente no Beco das Garrafas, cheio de inferninhos. L\u00e1 era onde a Leny Andrade fazia o show com o 3D e o Raul de Souza \u00ac\u2013 que a gente chamava de Raulzinho do Trombone naquela \u00e9poca. Tinha que ter autoriza\u00e7\u00e3o do Juizado, mas sabe que sempre eu consegui driblar isso? Nunca precisei tocar atr\u00e1s da cortina, sempre deu tudo certo, at\u00e9 que o tempo foi passando e eu fiz 18 anos. Nessa mesma \u00e9poca, come\u00e7ou a onda dos trios. Tinha o Tamba Trio, o Zimbo Trio, o Jongo Trio em S\u00e3o Paulo&#8230; naquela \u00e9poca eu ia muito a S\u00e3o Paulo por conta dos festivais de Bossa Nova que o Picapau (Walter Silva) organizava a\u00ed. E a\u00ed eu montei o meu trio, o Trio 3D. \u00c9ramos eu, o Carlos Monjardim no baixo e o Nelson Serra na bateria. N\u00f3s come\u00e7amos a acompanhar cantores como a Leny Andrade, o Wilson Simonal, a Eliana Pittman e o pai dela, o Booker Pittman, uma por\u00e7\u00e3o de gente. Tamb\u00e9m fizemos algumas temporadas daquele show da Rhodia com o Lennie Dale, com o Geraldo Vandr\u00e9, corremos o Brasil todo. Era uma vida muito intensa, tinha que ter largado a faculdade mesmo&#8230; (risos). Ao mesmo tempo, eu devia ter continuado: adoro a quest\u00e3o do direito autoral, sou um apaixonado pelo assunto. Poderia ter me formado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o Trio 3D deixa de ser s\u00f3 acompanhante e grava seu primeiro disco?<\/strong><br \/>\nEm mar\u00e7o de 1964, n\u00f3s fomos levados para gravar um disco na RCA Victor. No meio da grava\u00e7\u00e3o aconteceu um certo incidente: o nosso baterista, o Nelsinho, estava servindo o Ex\u00e9rcito. A grava\u00e7\u00e3o foi de mar\u00e7o para abril de 1964 e ele n\u00e3o pode gravar a maioria das m\u00fasicas porque ficou preso no quartel, coitado. Quem acabou gravando com a gente acabou sendo o Dom Um Rom\u00e3o. De qualquer maneira, o disco foi muito bem recebido, eu tinha 18 anos&#8230; e as coisas aconteceram muito r\u00e1pido. No ano seguinte, fizemos o segundo, Trio 3D Convida, que j\u00e1 tinha m\u00fasicos convidados. No lado A, era s\u00f3 o trio tocando. Mas no lado B, n\u00f3s chamamos alguns m\u00fasicos amigos da \u00e9poca para participar. O Eumir Deodato veio fazer dois arranjos. O (saxofonista e clarinetista) Paulo Moura entrou, tamb\u00e9m o Maciel, o (saxofonista) Meireles (do grupo Meirelles e os Copa 5). \u00c9 f\u00e1cil dizer que o lado B ficou mais legal, mais rico, por assim dizer. E a\u00ed em 1967, o Trio 3D acabou virando um grupo, algo meio na onda do Brasil 66, do S\u00e9rgio Mendes. Viramos o Conjunto 3D. O Manuel Gusm\u00e3o e o H\u00e9lio Delmiro se juntaram a n\u00f3s, e pra cantar entraram o Eduardo Conde e a Beth Carvalho. Se olhar a capa daquele disco, t\u00e1 todo mundo garot\u00e3o numa boate. A foto foi feita numa cervejaria que dava a maior onda ali no Rio de Janeiro. Foi um disco de brincadeira, saiu pela gravadora Copacabana. O disco n\u00e3o teve muita repercuss\u00e3o, porque a Copacabana gravava artistas mais populares, n\u00e3o tinham ningu\u00e9m nessa linha mais bossa nova. Mas foi divertido, acabamos fazendo v\u00e1rios programas do Roberto Carlos, ele chegou a cantar com a gente, naquela \u00e9poca a Jovem Guarda estava arrebentando. Foi uma \u00e9poca bem bacana. Eu conheci a Beth porque tinha um grupo de compositores que ela reunia em torno dela. Ela dava aulas de viol\u00e3o e me apresentou para esse pessoal, gente como o Arthur Verocai, o pr\u00f3prio Eduardo Conde, o Paulinho Tapaj\u00f3s e o Tib\u00e9rio Gaspar. Foi a\u00ed que eu comecei a fazer m\u00fasicas com o Tib\u00e9rio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Wilson Simonal - S\u00e1 Marina\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Jps7aUhd3DI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a parceria com o Tib\u00e9rio? Como \u00e9 que perceberam que a coisa \u201cfuncionava\u201d?<\/strong><br \/>\nLogo de cara, na primeira leva de composi\u00e7\u00f5es, a gente fez umas dez m\u00fasicas. Dentre elas, j\u00e1 veio \u201cS\u00e1 Marina\u201d. N\u00f3s trabalhamos intensamente entre 1967 e 1970, depois paramos a parceria e retomamos para fazer um disco em 2007, voltado para o mercado ingl\u00eas, a pedido da gravadora Far Out, e uma \u00faltima m\u00fasica, \u201cMeu Canto\u201d, que a Evinha gravou em 2015. Ao todo, foram 54 m\u00fasicas. Mas enfim: n\u00f3s come\u00e7amos a fazer m\u00fasica e de cara foi dando certo. Eu acompanhava o Simonal na \u00e9poca, tinha muito acesso a ele e ele estava fazendo muito sucesso com \u201cMam\u00e3e Passou A\u00e7\u00facar em Mim\u201d e outras m\u00fasicas assim. No in\u00edcio, \u201cS\u00e1 Marina\u201d era uma toada brejeira, uma coisa bem caipirinha. Se voc\u00ea ouvir a primeira grava\u00e7\u00e3o, feita pelo O Grupo, vai perceber que ela \u00e9 bem assim. A gente chamava isso na \u00e9poca de toada moderna. Mas ao mesmo tempo, meu ouvido de arranjador achou que dava para colocar a m\u00fasica no estilo do Simonal. Deu certo demais: at\u00e9 hoje, \u00e9 o maior sucesso que eu tive, p\u00f4. Foi gravada no mundo inteiro, por gente como S\u00e9rgio Mendes, Stevie Wonder, Tijuana Brass&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Stevie Wonder - Pretty World - 1971 - (S\u00e1 Marina - Wilson Simonal)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eMHLV8upKWw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E existiu mesmo uma \u201cS\u00e1 Marina\u201d?<\/strong><br \/>\nSim! Muita gente achava que era onda do Tib\u00e9rio, mas \u00e9 um personagem que existiu de verdade, no distrito de Anta, em Sapucaia, no interior do Rio de Janeiro. Foi onde o Tib\u00e9rio passou a inf\u00e2ncia dele e a tal S\u00e1 Marina era uma mo\u00e7a toda cheia de gra\u00e7a, que descia uma ladeira por l\u00e1. No ano passado, teve at\u00e9 a inaugura\u00e7\u00e3o da Ladeira S\u00e1 Marina l\u00e1 em Sapucaia. O Tib\u00e9rio at\u00e9 brigava comigo quando eu falava que a mo\u00e7a n\u00e3o existia. S\u00f3 que tinha uma coisa: o nome da mo\u00e7a era Brasilina. N\u00e3o dava para colocar esse nome na m\u00fasica, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 um nome muito sonoro. Ent\u00e3o ficou \u201cS\u00e1 Marina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como funcionava a parceria? Ele trazia a letra e voc\u00ea fazia a m\u00fasica depois, os dois faziam a coisa juntos, rolava uma interfer\u00eancia?<\/strong><br \/>\nPodiam rolar sugest\u00f5es, mas, basicamente, eu fazia a m\u00fasica e ele fazia a letra. Primeiro, eu fazia a m\u00fasica. A gente nunca fez ao contr\u00e1rio, nunca ele me mandou uma letra pra eu musicar. E como a gente come\u00e7ou a ter muitas m\u00fasicas, ach\u00e1vamos que precis\u00e1vamos ter algu\u00e9m pra cantar essas m\u00fasicas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antonio Adolfo &amp; A Brazuca - 2 Minutos De Um Novo Dia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7m6S5kuD4ko?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 da\u00ed que surge A Brazuca?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Nem eu nem o Tib\u00e9rio cant\u00e1vamos, mas naquela \u00e9poca, havia muitos compositores-cantores, especialmente nos festivais do Rio e de S\u00e3o Paulo. Como nem eu nem ele cant\u00e1vamos, a gente achava que era preciso montar um grupo que tivesse uma voz. A gente j\u00e1 tinha m\u00fasicas nossas gravadas por v\u00e1rias pessoas, com sucesso, mas achamos legal ter um grupo. S\u00f3 que em vez de cantar, a gente faria um conjunto, eu entrava como arranjador e m\u00fasico. O Luiz\u00e3o Maia veio no baixo, o Luiz Cl\u00e1udio Ramos na guitarra e o Victor Manga na bateria. Depois, o Paulinho Braga entrou no lugar dele. Depois que a Brazuca acabou, a Elis pegou correndo os tr\u00eas \u2013 o Luiz\u00e3o, o Luiz e o Paulinho \u2013 para tocar no conjunto dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas antes disso voc\u00ea j\u00e1 tinha tocado com a Elis, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim! Eu era da banda dela e sa\u00ed para montar a Brazuca. Mas era para eu ter tocado com ela j\u00e1 no Beco das Garrafas, eu tinha 18 anos quando a gente ensaiou junto a primeira vez. Era 1964. Mas do nada, ela mudou de ideia, disse que n\u00e3o ia fazer mais o show \u2013 ia ser no Bottle\u2019s Bar, ali em Copacabana. Depois, a gente tocou junto entre 1968 e 1969, gravamos quatro discos, fomos \u00e0 Europa tr\u00eas vezes, viajamos pelo Brasil. Entre os discos que a gente gravou, tem aquele na Su\u00e9cia com o Toots Thielemans e o \u201cElis in London\u201d \u2013 nos dois, tem m\u00fasicas minhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando para a Brazuca: como foi a estreia da banda?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, a estreia foi em 1969, num festival universit\u00e1rio, com \u201cDois Minutos de Um Novo Dia\u201d, uma m\u00fasica que \u00e9 do meu irm\u00e3o, Ruy Maurity. Nessa primeira forma\u00e7\u00e3o, eram duas cantoras, a Bimba e a Julie, e na bateria estava o Victor Manga. Logo depois, veio a estreia nacional, com \u201cJuliana\u201d, no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o (FIC). Foi ali que a coisa pegou mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como era compor pra festival? Voc\u00ea ficou em 2\u00ba lugar no FIC de 1969 com \u201cJuliana\u201d, depois ganhou no ano seguinte com \u201cBR-3\u201d &#8230;<\/strong><br \/>\nO festival era a plataforma de lan\u00e7amento dos cantores. Toda a MPB daquela \u00e9poca, que est\u00e1 a\u00ed at\u00e9 hoje com for\u00e7a, veio dos festivais. At\u00e9 o Djavan veio dos festivais. Quando chegava o festival, a gente inscrevia uma m\u00fasica que estava pronta, que fosse bonita, e depois fazia uma produ\u00e7\u00e3o toda para gerar repercuss\u00e3o. Todo mundo fazia produ\u00e7\u00e3o: Vandr\u00e9, Caetano, Gil, Mutantes. A gente tamb\u00e9m queria ganhar o festival, ent\u00e3o fazia toda a produ\u00e7\u00e3o. Deu bem certo com \u201cBR-3\u201d, foi demais: o Toni Tornado eu j\u00e1 conhecia, mas como Tony Checker \u2013 ele dublava o Chubby Checker nos programas de rock do Jair de Taumaturgo, na TV. E a\u00ed chamamos o Trio Ternura para fazer o trio vocal, como se fosse soul music. Foi algo realmente para causar uma impress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tinha uma receita para m\u00fasica de festival?<\/strong><br \/>\nSempre houve. \u00c9 que nem o pessoal fala, que tem m\u00fasica que \u201ctem cara de novela\u201d. \u201cTeletema\u201d, por exemplo, foi o tema de amor da novela \u201cV\u00e9u de Noiva\u201d (e a primeira vez que uma novela da Globo teve trilha sonora original). Quando eu toquei, todo mundo dizia que tinha que ser o tema de amor, mesmo que a gente n\u00e3o tivesse feito a m\u00fasica para isso. Quanto ao festival, a gente n\u00e3o ia fazer uma coisa inferior, mas a gente caprichava o m\u00e1ximo poss\u00edvel, para causar impacto. Tinha que agradar ao p\u00fablico de cara. Tem m\u00fasicas que a gente s\u00f3 gosta depois de ouvir cinco ou dez vezes, mas com festival, n\u00e3o: elas tinham que agradar de primeira, o chamariz tinha que ser forte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BR-3 - Tony Tornado e Trio Ternura - 1970\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C9Amf-yTCCc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um \u201ctruque\u201d que acontece tanto em \u201cBR-3\u201d quanto em \u201cTeletema\u201d \u00e9 a mudan\u00e7a do andamento no meio da m\u00fasica \u2013 as duas saem de uma valsa em compasso \u00be para um formato mais pop, em 4\/4. Como voc\u00ea chegou nessa ideia?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 exatamente uma valsa, era uma acentua\u00e7\u00e3o de tr\u00eas tempos diferentes. \u00c9 um 3\/4 mais suingado, \u00e9 at\u00e9 melhor para as pessoas dan\u00e7arem. Hoje, quando eu toco \u201cTeletema\u201d nos shows, eu nem fa\u00e7o a mudan\u00e7a: acho que aquela substitui\u00e7\u00e3o para o 4\/4 era uma coisa da \u00e9poca, realmente s\u00f3 para chamar a aten\u00e7\u00e3o. Agora, no \u201cBR-3\u201d, era necess\u00e1rio: o forte do Toni Tornado era aquele espet\u00e1culo que ele fazia dan\u00e7ando, uma coisa meio James Brown, ele abria os bra\u00e7os, dizia \u201cDeus!\u201d, e para isso a gente precisava do 4\/4, tinha que ter a mudan\u00e7a. A m\u00fasica come\u00e7a lenta, com aquele refr\u00e3o do \u201cA gente corre&#8230; na BR-3\u201d, at\u00e9 que chega a hora que precisa explodir. Mas n\u00e3o \u00e9 uma coisa limitada: eu fiz um riff de sopros que ia construindo a harmonia, n\u00e3o era s\u00f3 mudar de um acorde para o outro, como muita gente faz na m\u00fasica pop. No \u201cBR-3\u201d, essa mudan\u00e7a do tempo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o bonita. A orquestra\u00e7\u00e3o era do Bruno Ferreira, um maestro que era filho do m\u00fasico Abel Ferreira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Evinha - Teletema\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C7mj4tE8jX0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo depois do FIC de 1970, houve uma pol\u00eamica sobre \u201cBR-3\u201d ser uma m\u00fasica que fazia apologia \u00e0s drogas. Como isso te afetou?<\/strong><br \/>\nNaquela \u00e9poca, estava todo mundo sendo perseguido. Mas \u201cBR-3\u201d era uma m\u00fasica que falava das coisas que existiam na \u00e9poca, das not\u00edcias fabricadas, da droga&#8230; a BR-3 era como se fosse a estrada da vida, mas a gente n\u00e3o fazia apologia a drogas ou nada desse tipo. O que eu sei \u00e9 que houve um colunista que levantou essa hip\u00f3tese, veio de um militar, um texto que supunha que a BR-3 seria a agulha ou a veia, alguma dessas coisas assim. Eu nem sei o nome desse pessoal, era uma coisa ignorante. Cheguei at\u00e9 a sair do Brasil naquela \u00e9poca. N\u00e3o fui expulso nem banido, mas sa\u00ed porque estava com nojo daquela situa\u00e7\u00e3o. O Tib\u00e9rio foi perseguido. Eles tamb\u00e9m perseguiram o Toni Tornado e o Erlon Chaves. Tinha aquela coisa do movimento negro, eles achavam que os dois estavam afrontando a sociedade, sabe? Foi tudo muito rid\u00edculo, muito provinciano. De certa maneira, \u00e9 uma autodestrui\u00e7\u00e3o da nossa cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Nota: quem melhor conta a hist\u00f3ria da pol\u00eamica \u00e9 Zuza Homem de Mello, em seu livro \u201cA Era dos Festivais\u201d. Logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria de \u201cBR-3\u201d no FIC de 1970, o colunista Ibrahim Sued espalhou uma nota sobre \u201cT\u00f3xico\u201d, livro escrito pelo general Jaime Gra\u00e7a, que sugeria que BR-3 era o nome dado por usu\u00e1rios de coca\u00edna \u00e0 veia do bra\u00e7o no qual a droga seria injetada. Al\u00e9m disso, houve persegui\u00e7\u00f5es a Toni Tornado, que na \u00e9poca namorava a atriz Arlete Salles, e ao maestro Erlon Chaves, que tamb\u00e9m fez demonstra\u00e7\u00f5es do black power no festival da Globo daquele ano. No livro, Zuza diz ainda que os militares fizeram press\u00e3o para A Brazuca se tornar um grupo aparelhado do governo, \u00e0 moda do que ocorreu com a banda de rock Os Incr\u00edveis.)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de voc\u00ea sair do Brasil, ainda h\u00e1 tempo para um segundo disco da Brazuca. Como foi esse disco?<\/strong><br \/>\nA gente teve algumas mudan\u00e7as na forma\u00e7\u00e3o. Uma foi porque o Victor Manga, que tocava com a gente, saiu para acompanhar o Simonal na Copa do Mundo do M\u00e9xico. Na volta, ele acabou morrendo. Antes disso, n\u00f3s descobrimos o Paulinho Braga, que tocava na noite em S\u00e3o Paulo. Foi uma dica do Tim Maia. Eu lembro que fui com o Tib\u00e9rio buscar o Paulinho em S\u00e3o Paulo, para ver se a gente convencia ele. O baixo continuou com o Luiz\u00e3o e a guitarra com o Luiz Cl\u00e1udio, mas uma das cantoras abandonou a gente. A Julie Janeiro, que a gente chamava s\u00f3 de Julie, foi morar nos EUA. A\u00ed eu e Tib\u00e9rio achamos melhor colocar um cantor, e entrou o Lu\u00eds Keller, que a gente conhecia dos clubes. Ele tinha um vozeir\u00e3o, era o estilo da \u00e9poca, da soul music, a voz fazendo um tremolo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje, os dois discos da Brazuca s\u00e3o bastante raros, comprados a peso de ouro no mercado. Como voc\u00ea se sente com isso?<\/strong><br \/>\nNa Inglaterra, cheguei a ver um dos discos sendo vendido por US$ 1,5 mil. Era um dinheiro bom. Acho interessante, porque foi uma surpresa ver que esses discos estavam sendo cultuados nas discotecas londrinas, na B\u00e9lgica. Nos anos 1990, \u201cTransamaz\u00f4nica\u201d, que \u00e9 do segundo disco da Brazuca, virou hit na Europa. A mesma coisa aconteceu com meu disco solo \u201cViralata\u201d \u2013 ele \u00e9 de 1979, mas \u201cCascavel\u201d come\u00e7ou a tocar nas casas noturnas uns 20 anos depois. \u00c9 interessante: valoriza algo que voc\u00ea nunca espera que vai acontecer. Acho muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo na sequ\u00eancia, voc\u00ea sai do Brasil. O que faz nesse per\u00edodo de autoex\u00edlio?<\/strong><br \/>\nEu fiquei revoltado com o que estava acontecendo no Brasil. Enojado mesmo com esse lance da persegui\u00e7\u00e3o, com quem fosse contra o governo militar, que tinha uma for\u00e7a muito grande. Foi um lance bem barra pesada naquela \u00e9poca. E a\u00ed eu fui em autoex\u00edlio. Comecei a entrar numa onda diferente. Primeiro, mudei a alimenta\u00e7\u00e3o. Eu era muito gordo naquela \u00e9poca e comecei a fazer macrobi\u00f3tica, virei vegetariano. Acabei emagrecendo bastante, depois flertei com o zen budismo. Aquele fuminho tamb\u00e9m rolava um pouquinho de vez em quando (risos). Acabou que eu entrei em outra, comecei a curtir James Taylor, Elton John, fui mudando meu estilo de compor. Comecei a fazer eu mesmo algumas letras no piano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso desemboca no teu disco solo de 1972, \u201cAntonio Adolfo\u201d, que \u00e9 bem desconhecido&#8230;<\/strong><br \/>\nEu gosto muito daquelas m\u00fasicas, mas odeio minha interpreta\u00e7\u00e3o como cantor naquele disco. N\u00e3o estou com uma voz natural, minha mesmo. Eu fiz as m\u00fasicas e quando passei no Brasil em 1972, gravei o disco com a Polygram. No fundo, acho que eles queriam que eu fizesse uma continua\u00e7\u00e3o da Brazuca, que fez um sucesso interessante na \u00e9poca. O disco era um rompimento: eu acabei com a Brazuca, desfiz a parceria com Tib\u00e9rio e fui embora. Fui estudar m\u00fasica com a Nadia Boulanger. Foi uma mudan\u00e7a radical na minha vida, o disco mostra isso. Tem gente que adora esse disco, \u00e9 apaixonado, mas eu n\u00e3o consigo ouvir. Anos depois, quando eu fui gravar o \u201cFeito em Casa\u201d, eu cantei uma m\u00fasica, \u201cAonde Voc\u00ea Vai?\u201d. Ali a minha voz j\u00e1 funciona melhor.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Feito Em Casa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_ndSUsfFZOsaQtNNo9xLmqSNgneEerKVSU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem muita gente que chama o \u201cFeito em Casa\u201d de um dos primeiros discos independentes do Brasil. Mas como surgiu essa ideia de lan\u00e7ar seu pr\u00f3prio disco?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o: depois desse disco de 1972, eu acabei ficando na geladeira. Voltei para a Europa para estudar mais, andei pelos Estados Unidos tamb\u00e9m. Voltei pro Brasil s\u00f3 no final de 1974, fui estudar com o maestro Guerra Peixe e continuei na alimenta\u00e7\u00e3o natural. Da\u00ed comecei a fazer grava\u00e7\u00f5es acompanhando pessoas. Gravei tr\u00eas discos com o Chico Buarque, gravei com Caetano, com todo mundo. Eu era um m\u00fasico de est\u00fadio, queria continuar tocando, paralelamente \u00e0 m\u00fasica que eu fazia. Em 1976, resolvi gravar algumas m\u00fasicas que eu tinha acumulado nessa \u00e9poca. Eram quase todas instrumentais, tirando \u201cAcalanto\u201d, na qual a Joyce cantava, \u201cAonde Voc\u00ea Vai?\u201d e \u201cV\u00ea\u201d, que era cantada pela M\u00e1lu, uma cantora de uma voz linda. Fui num est\u00fadio que gravava jingles, o Sonoviso, e gravei as m\u00fasicas que eu queria. Cheguei a mostrar para as gravadoras, mas tinha certeza que elas n\u00e3o iam querer. O disco de 1972 n\u00e3o vendeu nada, elas estavam com uma imagem que eu s\u00f3 queria fazer coisa muito doida. E eu realmente fiz uma coisa bem diferente. A\u00ed eu resolvi lan\u00e7ar por conta pr\u00f3pria. Fiz as capas sozinho: fui numa gr\u00e1fica e pedi para eles fazerem a capa de disco ao contr\u00e1rio. Em vez da parte branca ficar por fora, ela ficou por dentro \u2013 o lado do papel\u00e3o ficou para fora. A\u00ed pedi para v\u00e1rios amigos e at\u00e9 algumas crian\u00e7as fazerem desenhos, e depois eu escrevia \u201cFeito em Casa\u201d. Depois que o disco come\u00e7ou a vender, umas 300, 400 c\u00f3pias, a\u00ed eu fiz um carimbo, fizemos v\u00e1rios, para colocar na capa. Foi incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje, h\u00e1 uma celebra\u00e7\u00e3o em torno do teu nome como her\u00f3i independente. Voc\u00ea concorda com o adjetivo?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o fui o primeiro, ao contr\u00e1rio do que muita gente diz. O Tim Maia fez o \u201cRacional\u201d antes de mim, dizem at\u00e9 que Chiquinha Gonzaga teve uma gravadora de fundo de quintal. O que aconteceu \u00e9 que, naquele momento, a imprensa se identificou com o movimento dos discos autoproduzidos. Eu n\u00e3o gosto muito da palavra independente, depois ela ficou um pouco deturpada. Acho mais legal falar em autoprodu\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o sou empres\u00e1rio de outros, n\u00e3o sou gravadora \u2013 \u00e9 diferente de uma gravadora pequena, como a Biscoito Fino, que se autodenomina independente, mas at\u00e9 se une para conseguir patroc\u00ednios. Hoje \u00e9 at\u00e9 engra\u00e7ado: 95% dos discos s\u00e3o autoproduzidos. Isso era uma raridade na \u00e9poca. Mas a imprensa se identificou: eu chegava nas reda\u00e7\u00f5es de jornais, dizendo que era o Antonio Adolfo, m\u00fasico. Eu estava magrinho, de sand\u00e1lia, bem simples, carregando uma caixa de disco debaixo do bra\u00e7o. Ningu\u00e9m me reconhecia, mas o meu nome abria portas. As r\u00e1dios tamb\u00e9m queriam dar for\u00e7a, eu conhecia muitos disc-jockeys, mas&#8230; as r\u00e1dios n\u00e3o tinham espa\u00e7o. Elas eram e s\u00e3o comprometidas com as gravadoras e o departamento comercial: se n\u00e3o desse audi\u00eancia, os DJs dan\u00e7avam. Uma r\u00e1dio ou outra, como a Nacional FM, a Cultura e a Eldorado de S\u00e3o Paulo, essas tocavam direto, mas eram r\u00e1dios mais espec\u00edficas. Mas foi um trabalho desbravador, corri o Brasil inteiro. Fiz isso curtindo a paix\u00e3o pela m\u00fasica, n\u00e3o querendo engolir que a minha m\u00fasica n\u00e3o poderia ser gravada. Hoje, a coisa \u00e9 diferente, a tecnologia est\u00e1 ao favor do artista, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olhando hoje, a banda que faz o \u201cFeito em Casa\u201d parece um \u201cdream team\u201d da m\u00fasica brasileira, mas eram todos amigos de est\u00fadio, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcio Montarroyos (trompete), o Oberdan (sax), o Jamil Joanes (baixo), o Luiz\u00e3o Maia, o Rubinho na bateria, a Joyce, a M\u00e1lu. O Danilo Caymmi na flauta, o Luiz Cl\u00e1udio Ramos na guitarra. Era todo mundo que estava ali na turma, todo mundo abra\u00e7ou a coisa numa boa. Eu corri o Brasil todo, vieram outros discos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o projeto gr\u00e1fico do \u201cFeito em Casa\u201d chama muito a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, a capa toda carimbada. Tenho uma d\u00favida bem boba: era um grande carimb\u00e3o ou v\u00e1rios carimbos pequenos?<\/strong><br \/>\nEram dois carimbos: um escrito Antonio Adolfo e outro, \u201cFeito em Casa\u201d. Pedi para v\u00e1rias pessoas carimbarem as capas do jeito que preferissem. Cada uma delas ia virando uma capa diferente. Uma hora, a gente percebeu que precisava de uma capa matriz: peguei uma delas e acabamos decidindo assim \u2013 \u00e9 a capa que sai hoje no CD e no vinil que foi relan\u00e7ado pela Polysom. Acabou virando a capa normal, de um disco que vendeu 20 mil c\u00f3pias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>20 mil? \u00c9 uma marca bem consider\u00e1vel para a \u00e9poca, considerando que o disco saiu em 1977.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Hoje em dia ningu\u00e9m vende mais disco f\u00edsico, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso te deu retorno financeiro? Ou era mais algo da produ\u00e7\u00e3o se pagar e ponto final?<\/strong><br \/>\nA maioria era vendida em shows, e como eu estava fazendo muitos shows pelo Brasil inteiro, com o Projeto Pixinguinha e v\u00e1rias turn\u00eas, eu vendia os discos. Mas n\u00e3o, n\u00e3o ganhei dinheiro com isso n\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antonio Adolfo - Viralata\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mqffMs8Rcbo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois do \u201cFeito em Casa\u201d, voc\u00ea ainda faz outros discos pela sua \u201cgravadora\u201d, a Artezanal&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, tem o \u201cViralata\u201d (1979) e o \u201cEncontro Musical\u201d (1978). O \u201cViralata\u201d \u00e9 at\u00e9 hoje muito cultuado, especialmente fora do Brasil. \u201cCascavel\u201d \u00e9 minha m\u00fasica instrumental mais conhecida. Depois disso fiz o \u201cContinuidade\u201d (1980), um trabalho bem interessante sobre o repert\u00f3rio do Ernesto Nazareth, chamado \u201cOs Pianeiros\u201d. Foi um trabalho que me abriu para o choro, para outro estilo, o que me fez perceber que eu poderia fazer qualquer coisa. Anos depois, eu cheguei at\u00e9 a gravar um disco chamado \u201cPuro Improviso\u201d (1999). Eu chegava ao est\u00fadio, tocava e fazia quatro takes \u2013 e o disco consiste basicamente nesses quatro takes. Nessa mesma \u00e9poca, eu fazia shows e sorteava as grava\u00e7\u00f5es. Fui fazer um show em Niter\u00f3i, s\u00f3 com o piano, sem planejar o que eu ia tocar. Sa\u00eda tocando, simplesmente, o que \u00e9 um risco enorme. Ao mesmo tempo, eu gravava o show \u2013 e quando o show acabava, a gente duplicava os discos em seis CDs e escrevia tudo num r\u00f3tulo branco, com o nome \u201cPuro Improviso\u201d. Enquanto se faziam os CDs, eu batia um papo com a plateia sobre direito autoral, produ\u00e7\u00e3o independente, depois sorteava os discos. Foi algo bem diferente, mas isso a gente j\u00e1 t\u00e1 falando de 1999, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mais ou menos na mesma \u00e9poca do \u201cFeito em Casa\u201d, voc\u00ea fez uma grava\u00e7\u00e3o com o Mick Jagger aqui no Brasil. Como foi isso?<\/strong><br \/>\nFoi o seguinte: o Mick Jagger estava no Brasil com a Bianca, a mulher dele, e quis porque quis gravar uma m\u00fasica chamada \u201cScarlet\u201d. (spoiler: a grava\u00e7\u00e3o nunca viu a luz do dia). Ele quis ir pro est\u00fadio da Polygram e a\u00ed chamaram os m\u00fasicos. O Roberto Menescal era o diretor da gravadora na \u00e9poca. Foi quase uma reuni\u00e3o da Brazuca: eu no teclado, o Paulinho Braga na bateria e o Luiz Cl\u00e1udio Ramos na guitarra. Pro baixo, acabaram chamando o Dadi. E ainda tinha um time na percuss\u00e3o: o mestre Mar\u00e7al, o Nuna, o Eliseu e o Nen\u00e9m. Isso era 1976. \u00c9 engra\u00e7ado: eu tinha uma imagem do Mick Jagger ser uma pessoa esquiva, estranha. Eu tinha convivido muito com o rock na Europa, tinha essa imagem na cabe\u00e7a. Mas n\u00e3o: ele era um cara super doce, ficamos conversando por horas, ele foi muito querido mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rolou um fuminho tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Em 1976, j\u00e1 faz mais de quarenta anos&#8230; n\u00e3o, mas o Mick Jagger n\u00e3o era de fumo n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos anos 1980, o senhor abriu uma escola de m\u00fasica, o Centro Musical Antonio Adolfo. Por que ensinar m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nQuando eu estudei com a Nadia Boulanger e com o Guerra Peixe, fiquei muito impressionado. Ao voltar para o Brasil, achei que poderia ser uma boa dar aulas, at\u00e9 pela inspira\u00e7\u00e3o desses dois mestres. Come\u00e7aram a vir alguns alunos em casa, mas depois preferi alugar uma sala no Leblon. A coisa foi crescendo e sempre me pediam recomenda\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que desse aula de bateria ou de baixo. Comecei a ver com amigos se eles n\u00e3o queriam aproveitar e usar a mesma sala que eu, quando n\u00e3o estivesse dando aula. Pegamos o jeito e acabamos atraindo p\u00fablico tamb\u00e9m. Hoje, o Centro Musical tem tr\u00eas sedes, no Leblon, em Botafogo e na Barra. Quem administra s\u00e3o as minhas duas filhas, a Carol e a Luiza, que t\u00eam um timbre parecido e s\u00e3o professoras de m\u00fasica. Eu apare\u00e7o de vez em quando por l\u00e1, dou uma aula, supervisiono, mas nos \u00faltimos anos preferi me dedicar mais aos meus discos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cascavel\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lKyylq05XKx2R14p6y8f6VXCS1u4cC7n4\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos anos foram v\u00e1rios discos, de parcerias com o Wayne Shorter, com uma big band&#8230;<\/strong><br \/>\nDe 2007 para c\u00e1, eu comecei a fazer muitos discos. Fiz um ao vivo com a Carol, minha filha, nos Estados Unidos (\u201cL\u00e1 e C\u00e1 &#8211; Here and There\u201d, de 2010). Antes disso, gravei um disco para a Far Out, na pegada da Brazuca: fiz as m\u00fasicas com o Tib\u00e9rio e as minhas duas filhas foram as cantoras. Ficou bem aut\u00eantico e foi bem legal, n\u00f3s celebramos essa amizade de novo. Desde 2011, eu estou gravando todo ano, um disco por ano, com boa recep\u00e7\u00e3o aqui nos Estados Unidos. Tive cinco indica\u00e7\u00f5es ao Grammy Latino, uma ao Grammy&#8230; o \u00faltimo foi agora com a Orquestra Atl\u00e2ntica, uma big band. (A entrevista foi realizada em maio de 2019, e, de l\u00e1 para c\u00e1, Adolfo j\u00e1 publicou mais um disco, \u201cSamba Jazz Alley\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao lan\u00e7ar o disco com a big band, voc\u00ea disse que era algo que sempre quis gravar. E agora, o que falta?<\/strong><br \/>\nDe vez em quando me vem algumas ideias, mas n\u00e3o tenho nada nesse momento. Ainda n\u00e3o estou pensando nisso. Como hoje eu me autoproduzo, tenho que acompanhar o que acontece. Preciso colocar o disco no Spotify, nas redes sociais todas. \u00c9 o que estou fazendo agora, ent\u00e3o n\u00e3o estou com nenhuma ideia. Mas existem tantas possibilidades para o meu piano, encontros com outros m\u00fasicos&#8230; poderia regravar o disco de 1972, tamb\u00e9m. S\u00f3 preciso achar o int\u00e9rprete ideal para ele. Sabia que eu tenho um trabalho in\u00e9dito com o Jorge Mautner? N\u00f3s temos uma parceria de umas quinze m\u00fasicas, mas s\u00f3 uma foi gravada, \u201cDia de Paz\u201d, pelo Erasmo Carlos. O Jorge tem muito humor nas letras dele, \u00e9 um cara brilhante. Precisava achar um bom int\u00e9rprete. Viu, s\u00e3o muitas possibilidades. O importante \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o lan\u00e7ar nada mal feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 que te d\u00e1 mais orgulho, da tua trajet\u00f3ria, independentemente de ter sucesso ou n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o sei, sinceramente. Disco \u00e9 que nem filho, n\u00e9? N\u00e3o d\u00e1 para ter filho favorito. O mais novo novo sempre \u00e9 o preferido porque voc\u00ea dedica a energia para ele. Filho quando nasce tem que cuidar para decolar \u2013 e a\u00ed ele decola ou n\u00e3o, n\u00e9, mas tem alguns que v\u00e3o mais alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos l\u00e1, \u00faltima pergunta: se voc\u00ea fosse para uma ilha deserta, como diria o Z\u00e9 Rodrix, quais seriam os cinco discos que voc\u00ea levaria?<\/strong><br \/>\nBill Evans com a Orquestra Sinf\u00f4nica do Claus Ogerman, eu adoro esse disco at\u00e9 hoje. Antonio Carlos Jobim, \u201cPassarim\u201d, gosto muito principalmente da m\u00fasica \u201cPassarim\u201d. \u00c9 dif\u00edcil assim de bate pronto. (pensa um pouco&#8230;) Jo\u00e3o Gilberto, \u201cChega de Saudade\u201d, que \u00e9 um marco incr\u00edvel. Eu gosto muito do Elton John, tem que ter o primeiro disco dele, que tem \u201cYour Song\u201d! (cantarola \u201cIts a little bit funny&#8230;\u201d). E pra fechar, qualquer um dos Beatles. Qualquer um!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ant\u00f4nio Adolfo E A Brazuca - 1969 - Full Album\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2jGXRcsvK94?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antonio Adolfo e a Brazuca- LP 1971-Album Completo\/Full Album\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Cg-QfBjBxXI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013<\/strong>\u00a0Bruno Capelas<strong>\u00a0(<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@noacapelas<\/a>)\u00a0<\/strong>\u00e9 jornalista do Estad\u00e3o. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vencedor de festivais. Autor de can\u00e7\u00f5es gravadas por nomes como Stevie Wonder, Elis Regina, Ivete Sangalo e S\u00e9rgio Mendes. Compositor do primeiro tema de amor especialmente feito para uma novela no Brasil. Arranjador e pianista por tr\u00e1s de discos como \u201cAngela Ro Ro\u201d, \u201cSinal Fechado\u201d, \u201cJoia\u201d e \u201cElis: Como e Porqu\u00ea?\u201d. Quer mais?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/21\/entrevista-antonio-adolfo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":53434,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4137],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53432"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53432"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53435,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53432\/revisions\/53435"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}